12 de agosto de 2026

Os bucaneiros modernos

 

"O domínio nunca mais vai ser questionado", diz Donald Trump via seus assessores diretos sobre o projeto de os Estados Unidos dominarem toda a América. Isso segundo eles pretendem.

Uma postagem ameaçadora do embaixador norte-americano no Panamá, Kevin Marino Cabrera - ele está no Panamá, onde há o canal vita para os Estados Unidos justamente porque é um extremista belicista -, detalhou essa semana qual é o projeto dos Estados Unidos sob Trump para reviver a Doutrina Monroe, que no século XIX pregava "a América para os americanos", na época em que Washington passou a desenvolver sua política de expansionismo e controle total sobre os demais países das três américas.  Hoje o governo dos EUA se mostra agressivo com esse projeto e o objetivo claro é combater a influência da China no Ocidente. O objetivo principal sempre, e em todos os casos, foi econômico. 

Uma análise rápida disso nos mostra que se trata de um movimento claro de esperneio. Os Estados Unidos de hoje são uma potência em grande declínio, com uma dívida interna astronômica, gastando fortunas com a megalomania de seu presidente por guerras e tendo pela frente o crescimento chinês que promete tomar-lhe a dianteira em breve como maior potência mundial. Isso é inadmissível para os atuais detentores do poder norte-americano.

Aqui no Brasil, depois de uma fala infeliz de nosso Ministro da Defesa que chegou a propor "abrir os portões" para os ianques no caso de um ataque, houve uma espécie de pequena histeria nacional. Bobagem. Dificilmente os Estados Unidos, mesmo governados por um psicopata, invadiriam militarmente o Brasil. Isso seria muito arriscado para eles e encontraira forte resistência lá mesmo. Além disso muitos se esquecem de que Trump corre grande risco de perder a maioria nas duas câmaras legislativas federais de seu país em novembro próximo, o que lhe tolheria muito o poder de decidir. Sem este ele seria um "pato manco", como dizem os americanos do Norte. E ao alcance de impeachment.

Mas Trump vai pressionar, ameaçar, espernear, será sempre apoiado pelos políticos do Maga como Marco Rubio, o embaixador no Panamá, o escolhido para o Brasil, Daniel Perez, e mais alguns de sua trupe. Ele vai usar de ameaças - o que sabe fazer muito bem - nos momentos em que não estiver dormindo durante discursos ou escondido dentro de caminhões de galeys aéreas em vôos próximos de países que ele mesmo tornou hostis por suas políticas inconsequentes e irresponsáveis. Esse é o presidente dos EUA!

Ao Brasil cabe esperar. A concordância em debater as tarifas na OMC, por parte dos EUA, parece jogo de cena para ganhar tempo e não ser acusado de jamais negociar. Ao término dos prazos de negociação, ao menos no pé em que as coisas estão hoje, tudo indica que o absurdo das cifras cobradas agora tende a ser mantido. Mas negociar vale a pena. Sempre valeu porque a nós também interessa o ganho de gempo.

Resta uma coisa incômoda: Daniel Perez, o embaixador que pretende ser entronizado no cargo em Brasília, é um mísero projeto de golpista, sem experiência diplomática nenhuma e escolhido para vir ao Brasil apenas e tão somente para se intrometer em política interna brasileira, sobretudo se o presidente Lula for reeleito, como vetor de instabilidade institucional. Vai ser tipo um Javier Milei com imunidade parlamentar. O Brasil pode e deve negar o agrément a ele e pedir outra pessoa aos EUA. O consul norte-americano em São Paulo, que conspira a olhos vistos, não merece continuar com visto consular.

Soberania é princípio ao qual não se renuncia. Mesmo ao enfentrar bucaneiros modernos que, a exemplo dos do passado, não abrem mão da rapina,  

9 de agosto de 2026

Saudades de Batista

Ah! Quantas saudades eles sentem de Fulgêncio Batista! Da época áurea deste, quando Cuba era um prostíbulo dos Estados Unidos e mafiosos tomavam conta da ilha caribenha, sobretudo e principalmente dos cassinos dirigidos por gente como o mafioso Meyer Lansky, que teve a maior fatia do negócio para explorá-lo e dividir os lucros com o "presidente" Batista. Isso aconteceu nas décadas de 1940 e 1950, mas os familiares de Marco Rubio e Daniel Perez (foto acima depondo no Senado), prósperos cubanos daqueles tempos, eram em sua maioria aliados do governo de então e amigos do ditador que reinou durante anos em Havana até ser expulso de lá com sua trupe pela revolução de libertação nacional comandada por Fidel Castro Ru.

Lansky não explorava o jogo, a prostituição e as drogas em Cuba sozinho. Junto com ele atuaram com grande desembaraço outros mafiosos da época como Santo Trafficante Jr. (que nome lindo!), Lucky Luciano e Charles "The Blade" Tourine. Era só um pulinho o voo de Miami até a Capital cubana onde todas as portas estavam abertas para os representantes do crime organizado dos Estados Unidos. Havia na época uma "licença" de 25 mil dólares por cassino a ser paga ao chefe de Estado cubano. Além disso uma percentagem fixa de 10 a 20 por cento dos lucros anuais obtidos com hotéis, cassinos e redes de prostituição, além das drogas, para obter a proteção governamental. E os "empresários" dos Estados Unidos ainda tinham que lidar com a ganância de Fulgêncio (segunda foto), sempre interessado em aumentar os seus lucros e sua participação nos negócios escusos. Afinal o país era dele, não era? Não foi sempre assim?

Sair correndo de lá em 1° de janeiro de 1959 - alguns fugiram antes disso - quando aquele bando de barbudos tomou a Capital de Cuba, foi um desconforto muito grande. As tropas do Movimento 26 de Julho que tinham à frente, além de Fidel, um argentino também de barba grande, Ernesto Guevara de La Serna, o "Che", que se tornaria responsável pelo julgamento e condenação dos que haviam infelicitado seu país por tantas décadas. Balas de fuzil havia em grande quantidade por lá e os criminosos foram condenados a serem mortos por fuzilamento contra uma parede enorme, um "paredon" de Havana. Os Rubio, os Perez e muitos outros não podem perdoar isso. Não mesmo!

Por isso Marco Rubio, o Secretário de Estado de Donald Trump nomeou seu amigo Daniel Perez para ser embaixador dos Estados Unidos no Brasil. O nomeado e ainda não dono do "agrément" quer logo vir para cá. Ao Senado ele declarou estar preocupado com a liberdade de expressão no Brasil e com a lisura das eleições - essas não são funções de embaixadas! - , preocupações que passam muito ao largo da agenda dos Estados Unidos nas terras de aliados tradicionais como a Arabia Saudita, por exemplo. E de outros também como é o caso do sionismo genocida hoje reinante em Isarel e onde os EUA fazem vista grossa para o genocídio palestino, além de abastecerem o regime político local criminoso com todo o tipo de armas capazes de eliminar de sobre a face da terra os palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia ocupada. Essa última que os sionistas julgam ser parte da Grande Israel e que vem sendo tomada a seus povos originários dia após dia diante do silêncio cúmplice da comunidade das nações.

A mim ocorre que Trump é refém de Rubio e do "Maga", movimento de extrema direita fascista que hoje garante apoio a esse presidente. Ele não pode abrir mão disso para não ser deposto por impeachment. Rubio e Perez são próceres dessa denominação. E ocorre também que o presidente Lula está errado quando chama de "amigo" o chefe de Estado dos EUA. A embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti corre riscos ficando lá sem seu visto diplomático. O "amigo" de Lula pode mandar que ela seja expulsa ou presa como imigrante ilegal. Por aqui o cônsul dos Estados Unidos em São Paulo, que transformou seu consulado em centro de difusão de mensagens golpistas e facilidades aos amigos, continua com o visto dele. Por quê? A reciprocidade é boa e está prevista na nossa Constituição. Foi aprovada pelo nosso Congresso!

O presidente Lula deve ter cuidado com os saudosos de Bastista. Eles matam. Aprenderam com Mayer Lansky.

NOTA DO TITULAR DA COLUNA: Esse artigo comemora os 20 anos do blogdoalvaro@blogspot.com.   

5 de agosto de 2026

O golpe sempre esteve em curso

 
Heráclito Fontoura Sobral Pinto (1893-1991) foi um dos maiores juristas do Brasil e certamente o mais sábio. É dele esse pensamento: "Os militares tendo proclamado a República, julgaram-se donos da República. E nunca aceitaram não serem donos da República". Sobral Pinto ganhou relevância no Brasil ao defender Luiz Carlos Prestes, líder comunista, durante a ditadura Vargas. Ele era católico fervoroso, homem com pensamento político de direita e não tolerava ditaduras ou prisões ilegais, comuns no seu país ontem e hoje.

Para esse jurista morto faz 35 anos, nossa República tem um "pecado original" por ter nascido de um ato de força das Forças Armadas e não de uma construção democrática com a participação da população. Em consequência disso os militares sempre acreditaram ter a tutela permanente sobre o Estado. Resultado em golpes só após o império: proclamação da República, congresso dissolvido em 1891, Revolução de 1930, decretação do Estado Novo, golpe civil/militar de 1964. Além desses, várias aquarteladas marcaram a história recente do Brasil, durante diversos períodos. Juscelino Kubstcheck foi quem mais sofreu com eles e que começaram com a reação à sua posse (como no caso de Lula). Posteriormente vieram a Revolta de Jacareacanga e a Revolta de Aragarças. Ele não foi deposto por muito pouco.

Hoje mesmo o Clube Militar, congregação de militares de pijama sediado no Rio de Janeiro emite nota praticamente conclamando a população brasileira a derrubar o atual governo. E faz isso porque os militares da ativa se negam a nova aventura golpista. Recentemente fizeram um jantar na sua sede carioca com a presença de um "convidado ilustre": Flávio Bolsonaro, que foi acompanhado do advogado Ives Gandra Martins, conhecido militante extremista (junção das duas fotos acima). No Clube Militar só entra gente "do ramo".

O golpe de Estado sempre esteve em curso no Brasil, mesmo nos momentos de calmaria que ocorrem ao longo dos tempos. Basta vermos a outra foto abaixo e que mostra três dos maiores jornais brasileiros estampando a mesma manchete, com todas as letras iguais, em 31 de julho último. Quem como eu trabalhou uma vida quase inteira em imprensa diária sabe que essa "coincidência" é impossível. Os jornais, grandes como a Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo, os médios e os pequenos  jamais compartilham suas manchetes e principais matérias, mesmo quando é óbvio o assunto mais importante do dia. Três manchetes saírem exatamente iguais só acontece quando há um conluio entre as direções das empresas. Elas são ligadas ao grande capital, ao "mercado" e não suportam o Governo Lula. Hoje fariam e fazem tudo para impedir o quarto mandato desse presidente. Sobretudo com a ajuda providencial dos Estados Unidos.

Aliás, o governo neofascista de Donald Trump, contando com a ajuda sempre "cordial" da Argentina de Javier Milei e de Israel de Benjamin Netanyahu não esconde mais de ninguém que já interfere no processo eleitoral brasileiro de todas as formas. Autoridades brasileiras  tiveram vistos cancelados e não podem ingressar nos Estados Unidos, tarifas chantagistas tentam sufocar nossa economia, dois funcionários do Departamento de Estado que viriam ao Brasil trabalhar contra o sistema eleitoral tiveram o visto negado por nós e o embaixador norte-americano indicado por Trump depois de 19 meses de governo - e porque isso era conveniente aos planos de intervenção - ainda não teve seu "agrément" (pedido de concordância) concedido. Para retaliar, os EUA retiraram o visto de nossa embaixadora.

Nunca antes as relações entre Brasil e Estados Unidos e Argentina, que já têm mais de dois séculos, estiveram tão agredidas. A pressão e a chantagem são claras e fortes. E isso é mais um motivo para o Brasil não ceder, mesmo quando a gente sabe que nossas Forças Armadas e parcela da população são lacaias dos ianques e de seus interesses. Ontem mesmo, lendo matérias de Internet, fiquei estupefato. Alguém perguntou a um cidadão o que ele faria se os EUA invadissem o Brasil. Resposta: "não sou de soltar foguetes, mas acho que faria isso". Um povo sem dignidade está destinado a ser lacaio de interesses estranhos aos seus. O governo Trump já está saqueando abertamente as riquezas da Venezuela, condenando o povo cubano à fome e armando o governo sionista de Israel para completar o genocídio palestino na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. É preciso ao Brasil mostrar que não faz parte desse projeto criminoso da extrema direita política de controlar o mundo.

Ainda que isso nos custe muito caro!       

30 de julho de 2026

"We can do it"

Já se vão muitos anos e, se bem me lembro, foi a revista "Realidade", antecessora de "Veja", quem conseguiu imagens de um silo nuclear de algum lugar dos Estados Unidos. A gente podia ver na foto o controle da instalação, a ogiva do míssil e, na parede ao fundo, grandes, os dizeres bem mostrados: "We can do it". Sim, eles sempre puderam fazer isso, mas desde o fim da guerra fria contra a hoje inexistente União Soviética, o botão que dispara míseis nucleares capazes de destruir totalmente o mundo parecia esquecido nas paredes dos silos que ainda existem. Mas agora um homem laranja, um homem bomba chamado Donald Trump (foto acima), pode reacender o estopim da guerra nuclear. Ele tem medo da China. Muito medo. Como todo psicopata medroso, um dia acaba perdendo o controle. Eis o risco.

Os Estados Unidos são um império decadente e sabem disso. A China, um enorme país ascendente, e os Estados Unidos também sabem disso. A paranóia de Trump vê os chineses como aqueles que vão sepultar o sonho americano de dominar o mundo e esse presidente usa a ameaça e o medo como armas contra essa quase perda de status mundial. Ontem ele propôs um tal "Pacto de Sobrevivência Ocidental" como forma de evitar o seguinte: "Eles vão invadir a Europa! Estão invadindo a Europa...é uma invasão total! E o Reino Unido é o suspeito número um!. Quem se juntar ao Pacto fecha fronteiras, deporta em massa, defende sua cultura. Quem não...fica sozinho diante da invasão. E o primeiro que deve assinar é o Reino Unido...ou afunda!". Silêncio sepulcral no Salão Oval da Casa Branca.

O projeto do presidente dos EUA começa pelo domínio da América Latina. Aqui ele já tem uma presidente fantoche subjugada na Venezuela e uma figura patética ecoando seus brados a partir de Buenos Aires. Esse personagem, Javier Milei, vocifera contra a China esquecendo-se de que seu País, o maior devedor do FMI nos dias atuais, recebeu um polpudo cheque do governo chinês para poder sobreviver. Sem apoio internacional e boa coexistência com o Brasil, sucumbe. Os argentinos sabem disso e tentam alertá-lo, mas ele não quer ouvir. Prefere cumprir ordens de seu mentor maior sem olhar para as consequências. Hoje a Argentina tem hordas de sem teto pelas ruas, pessoas que entram em filas de açougues para comprar carne de burro e mais de 20 mil empresas falidas na cauda de cometa das loucuras mileianas que buscam sabe-se lá o que dos anseios presidenciais.

Para completar o caldo de cultura de mais uma loucura nacional, os argentinos acordaram hoje sabendo que por obra e graça de Milei, daqui para a frente qualquer estrangeiro que falar mal daquele país e de qualquer coisa a ele ralacionado vai ser imediatamente expulso de lá. Milhares de brasileiros moram, trabalham e sobretudo estudam em terras argentinas.   

Em um discurso no Estado do Michigan, faz poucos dias, o presidente ianque chamou de comunista (que falta de imaginação...) uma pessoa que o interrompeu chamando-o de "protetor de pedófilo" durante um discurso que fazia parte das comemorações pelos 250 anos da Independência de seu país. O manifestante foi retirado do local. Esse périplo trumpista faz parte da campanha dele para as eleições de meio de mandato, quando corre o risco de perder maioria em pelo menos uma das duas casas legislativas norte-americanas e, mais do que isso, de se tornar um "pato manco" se derrotado na Câmara e no Senado.

Em meio a tantas incertezas, à necessidade de apoiar quase incondicionalmente Benjamin Netanyahu, de encontrar um meio de encerrar a guerra no Irã e que foi iniciada por ele, de impedir a vitória da Rússia na Ucrânia e de conseguir com o Congresso mais dinheiro para gastar com armas, esse eterno candidato a fazer do Prêmio Nobel da Paz uma piada de mau gosto no plano internacional, dá voltas em torno de si mesmo tentanto encontrar o caminho que jamais construiu pois na sua vida toda ele só fez destruir. E para quem não sabe para onde deve ir ao vai, qualquer caminho serve. 

Mostra disso é o fato de que em seu governo não existe diplomacia. Tudo o que se refere a política externa é feito por um genro e um amigo, estes sim de sua inteira confiança. Eis Donald Trump! Eis o homem que pode tirar da poeira dos tempos de guerra fria as imagens dos silos nucleares dos Estados Unidos, como esse da foto ao lado, e que dormitavam em suas camas/sepulturas até a chegada desses novos tempos de distopia mundial.

Tempos capazes de gerar pesadelos como o da criação desse tal Pacto de Sobrevivência e que na verdade é a tentativa final do império decadente de manter hegemonia mundial e, mais do que isso, de rapinar riquezas naturais de países que ainda se curvam ante o imperialismo ocidental como é feito hoje de forma descarada sobretudo na Venezuela, um Estado outrora soberano e que foi sequestrado num ato de pirataria incapaz de encontrar respalto algum na legislação internacional que é seguida e respeitada pela maioria das nações exceto Estados Unidos, Isarel e outros poucos e que não pretendem modificar, mas sim subverter a ordem mundial para a criação de um sistema no qual o termo liberdade vai estar intimamente ligado somente ao apoio total, incondicional, ao que a extrema direita entender como correto.

We can't do it!      

                     
 

28 de julho de 2026

Fantoche de fraldão

Quando eu era criança, gostava de ver teatro de bonecos. Havia no clube, na escola e mesmo nos treatros que apresentavam peças infantis. Os bonecos eram fantoches manipulados por artistas que ficavam escondidos na parte de trás daqueles pequenos palcos fazendo a festa acontecer. Muito divertido! Uma vez, no clube do qual meus pais eram sócios, o chefe de uma daquelas companhias explicou para todos que no início era difícil manipular os bonecos. Mas depois, com a experiência e o domínio cênico, "nossos bonequinhos fazem o que a gente quer. E ainda ficamos olhando a performance deles". Javier Milei é o fantoche de Donald Trump. E, ao que se conta e se viu em São Paulo (foto do boneco), usa fraldão.

O problema dele é não saber o que deve diferenciar um presidente da República, mesmo em atividade privada, de um exibicionista de botequim. Não disseram ao sujeito que um presidente jamais deve se referir a outro, sobretudo na casa deste, como "presidiário" representando um candidato a presidente cujo pai cumpre pena por tentativa de golpe de Estado, dentre outras coisas. E nem chamar um ministro de uma Suprema Corte de "lixo careca" quando ele não seria capaz de dizer isso de um membro de seu Judiciário. Mas como fazer esse tipinho qualquer entender tal espécie de coisa se ele é capaz de fazer inúmeros discursos em sua terra e sempre terminando a fala com um sonoro "carajo"?

Milei veio ao Brasil em atividade privada sem comunicar seu deslocamento ao Governo Federal de nosso país. Mas ele não sabe o que é protocolo... Também usou jato oficial do governo argentino e diplomatas seus numa atividade totalmente irregular. Mas foi recepcionado pelo candidato à presidência Flávio Bolsonaro e pelo governador de São Paulo Tarcísio de Freitas que sabiam ser tudo isso estranho e ainda assim permitiram e incentivaram a performance mileiana com tapete azul na entrada do Palácio dos Bandeirantes em substituição ao tradicional tapete vermelho. Talvez Freitas não saiba, mas essa cor é usada oficialmente há séculos por significar poder, nobreza e honra e não o comunismo.

Seria essa palhaçada apenas mais uma aberração sem sentido de Javier Milei se os desdobramentos não pudessem ir muito além disso. Mas podem. O Mercosul vive hoje um excelente momento de crescimento de atividades econômicas entre países sul-americanos que podem vir a ser afetadas por essa patacoada. A União Europeia e os asiáticos esperam seriedade de seus parceiros e não esse tipo de coisa. Além do mais o intercâmbio econômico entre Brasil e Argentina é muito grande, importante para os brasileiros e quase vital aos argentinos. Não deve e não pode ser afetado por atos irresponsáveis cometidos por um chefe de estado incapaz de compreender onde está, quais devem ser seus limites e suas responsabilidades.

Ao longo de dois séculos Brasil e Argentina enfrentaram momentos difíceis, mas nunca, nem nas épocas das ditaduras chegou-se a esse ponto. Jamais um argentino ou um brasileiro, na Casa Rosada ou no Palácio do Planalto, xingou o outro. O ponto (de não retorno?) é alcançado agora e graças à interferência nefasta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e de seu secretário de Estado, Marco Rubio, que precisavam de mais um fantoche sul-americano para continuar a obra de tentar tornar toda a América Latina um quintal dos Estados Unidos e por onde a extrema direita possa desfilar sua ira incontida na busca de rapina. Na Venezuela já está sendo roubado o todo o petróleo possível no ato de pirataria confesso mais absurdo de que se tem notícia. No Brasil há muito mais a pilhar.

Por enquanto chamamos de volta o embaixador em Buenos Aires. Se a crise escalar por obra e graça de Milei, usando fraldão ou não, desgraçadamente vai ser preciso ir mais adiante. Pelo bem de nossos países isso não pode e não deve acontecer. Tomara a reação contrária sobretudo entre os argentinos possa frear o ímpeto desse fantoche circense.

26 de julho de 2026

Universos paralelos

Acompanhar o noticiário político dos últimos dias tem sido um exercício de paciência, sobretudo e principalmente para com a análise dos universos paralelos de alguns candidatos à presidência da República. Ronaldo Caiado se confirmou hoje falando da excelência de seu trabalho em Goiás, mas se esquecendo de que é um dos pais da UDR, a União Democrática Ruralista, que caçou os membros do MST em seu Estado representando unicamente os interesses do grande latifúndio do qual ele orgulhosamente faz parte e impedindo a reforma agrária. E nunca nutriu interesse algum por pobres e deserdados. Problema de memória, claro.

Flávio Bolsonaro, ontem, fez parte de um espetáculo chulo de desrespeito ao Brasil, permitindo que o desqualificado presidente argentino Javier Milei agredisse nosso país em solo brasileiro, dentre outras coisas chamando um ministro do Supremo Tribunal Federal de "lixo careca" e o presidente de "presidiário". É inconcebível isso acontecer em evento oficial e de política interna brasileira entre dois países que mantêm relações diplomáticas, são vizinhos e possuem um longo histórico de relações comerciais e de amizade. Ainda mais com o convidado recebendo a mais alta condecoração do governo paulista para cometer tal desatino de baixo nível. O Itamarati já respondeu convocando a Brasília seu embaixador em Buenos Aires. 

Esses episódios não foram capazes de impedir o presidente Lula de dar longa entrevista ao jornal norte-americano The Washington Post (foto da capa) e na qual ele explicou o cerne da posição do Brasil diante do tarifaço do governo Trump às importações brasileiras. Pela primeira vez na história, tarifas de importação são usadas como armas contra nações amigas. No caso específico da América do Sul, a não ser que se trate de um estado vassalo, capaz de dizer "sim" a todas exigências dos EUA, como mostra a imagem abaixo, de uma das declarações do presidente brasileiro ao jornal norte-americano.

Teremos daqui para a frente uma das campanhas políticas mais agressivas e mentirosas de todos os tempos no Brasil, e isso graças ao fato de que o presidente atual se candidatou à reeleição naquela que será sua última campanha política de uma longa vida de atividades, sobretudo executivas. Ele já é alvo preferencial de todos os demais candidatos e tanto seu nome quanto a sigla partidária à qual pertence devem se tornar motivo de agressões as mais variadas. Um dos temas será tentar colar nele e em seu partido a pecha de estarem a serviço do crime organizado e da corrupção, o que não encontra respaldo na realidade dos fatos. E fatos são fatos. Não se deve agredí-los.

A raiz desse tipo de fenômeno, se é possível chamar por esse nome, está  a Casa Branca onde o atual presidente desrespeita todo mundo, bombardeia países, mata cidadãos inocentes e tenta desqualificar instituições caras à civilização como é o caso do Tribunal Penal Internacional, a ponto de o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, declarar claramente ter pedido ao Secretário de Estado Marco Rubio para que os EUA rompam com o TPI, que nem ele nem seu país reconhecem. Netanyahu, sempre fica bem explicar, é um criminoso internacional sionista, massacrador de palestinos e outras nacionalidades, defensor da "Grande Israel" e que sente prazer em ver morrerem os "inferiores". Como fez Hitler...

Seu ídolo Trump, que defende para si o Prêmio Nobel da Paz (supremo deboche!), já brincou até de ser candidato a novo mandato presidencial, embora sabendo que tal coisa é expressamente proibida pela Constituição de seu país. Mas esse tipo de código legal sempre foi um impecílho para os projetos de gente como ele, o presidente de El Salvador, o da Argentina e tantos outros mais espalhados pelo mundo afora e que talvez se julguem acima do bem e do mal. Principalmente do bem. Esse presidente ianque, capaz de rir da morte dos outros e debochar do roubo das riquezas naturais de Venezuela, deve se inspirar em um compatriota seu, já morto e que era autor de pensamento digno de ser registrado no fechamento desse artigo:  "Você consegue muito mais com uma palavra amável e um revólver do que somente com uma palavra amável" (Al Capone). 

23 de julho de 2026

A arte de jogar sujo

É coisa de família jogar sujo e contra a democracia o que os Bolsonaros fazem insistentemente no Brasil. Da mesma forma é do estilo de Donald Trump fazer o mesmo nos Estados Unidos. Os dois sentem cheiro de derrota nas eleições que se aproximam e agem como é de praxe para a extrema direita política no mundo todo, tentando desacreditar suas democracias. Mais: agem de modo a buscar atingir as instituições de seus países para justificar uma derrota depois com o discurso de que resultados foram fraudados. Na foto acima, Flávio Bolsonaro fala a diplomatas colocando em dúvida as urnas eletrônicas do Brasil e repete a receita de seu pai, derrotado nas eleições de 2022.  Fórmula vencida!
Um advogado judeu que viveu o início do nazismo na Alemanha, Ernst Fraekel escreveu o livro "O Estado Dual" e no qual ele explica como o nazifascismo funciona e não é eliminando o direito, mas sim o utilizando como instrumento de poder. Na Alemanha havia o Estado Normativo e dentro do qual contratos, empresas e burocracias continuavam a funcionar normalmente. Do outro havia o Estado de Prerrogativas onde o poder agia sem limite algum, com violência, supendendo direitos e perseguindo inimigos. Essa é a combinação ideal para a corrente política e sua receita para parecer democrática.
Portanto, o fascismo moderno não chega destruindo eleições, agredindo abertamente institituições seculares, mas sim esvaziando tudo o que existe por dentro delas. A tirania moderna não prega a derrocada das democracias, mas sim as mantendo com tribunais e tudo o mais. Mas as corrói por dentro. Isso permite a ela se legitimar perante grande parte das sociedades com uma aura de normalidade, de democracia. Por isso às vezes a gente ouve que durante a ditatura militar brasileira somente aqueles que eram cooptados pelo extremismo adversário pagavam o preço. Eram os que contestavam o regime.
Foi Benito Mussolini, ditador da Itália, quem criou o lema "Deus, Pátria, Família" para efeito de convencimento. Aqui no Brasil a extrema direita, via Jair Bolsonaro, acrescentou um "Liberdade" para se aproximar mais do conservadorismo. Mas essa liberdade só lhes serve enquanto submissa, enquanto apoiadora do regime político. Saiu de suas fronteiras, deixa de existir. Na verdade é uma farsa. O mesmo acontece com as instituições.
É difícil saber se Flávio Bolsonaro tem arcabouço intelectual para agir como age por convicção ou se é manipulado como em um teatro de bonecos. Mas sabemos todos tratar-se de um gangster capaz de tudo pelo poder. De uma coisa ele e seus próximos entendem sobremaneira: da arte de jogar sujo como fazem manipulando fatos através da mentira.
Esse é o risco maior. Ontem eu estava no cinema vendo "A Odisséia" e através das crenças e mitos da antiguidade é possível ver como são perigosos os cantos das sereias. Às vezes é preciso que a gente se amarre aos mastros de nossas convicções para não nos deixarmos levar por elas e nos atirarmos ao mar. Milhões não conseguem fazer isso.
Estamos próximos das eleições mais importantes do Século XXI e é preciso pensar nisso. Saber o que queremos para nós. Tanto aqui quanto nos Estados Unidos o canto das sereias pode nos levar ao encontro do novo nazifascismo travestido de democracia. O dano que isso vai provocar é inimaginável, caso tenha sucesso. Mas devemos apostar que as sereias serão desnudadas e colocadas de lado por uma parcela majoritária das sociedades. Tomara!