29 de março de 2026

CPMI ou circo?


Uma CPMI ou CPI, instrumentos importantes que o Poder Legislativo tem para investigar fatos ligados à vida pública nacional, deveriam ser tratados com a maior seriedade possível e jamais se tornar circos para que deputados federais e senadores alimentassem suas campanhas políticas, geralmente com mentiras deslavadas. E isso aconteceu, infelizmente, com a CPMI do INSS, morta e sepultada  na madrugada de ontem, sábado.

A foto que ilustra esse artigo mostra o que falarei. Todos, desde aquele que usa o microfone para seu discurso aos demais parlamentares do entorno, são bolsonaristas de raiz. Os dois das extremidades da foto, Magno Malta e Evair de Melo, foram eleitos pelos capixabas e representam a fina flor do reacionarismo político brasileiro. O presidente da Comissão, ao microfone, é Carlos Viana, do Podemos, um bolsonarista confesso. O autor do relatório recusado, Alfredo Gaspar, do PL, ingressou nesse partido para apoiar o ex-presidente. 

Mesmo no pior parlamento federal da história brasileira, esse que ocupa Brasília hoje, existem muitos parlamentares capazes de compor uma CPI/CPMI apenas e tão somente para fazer inquérito, levantar fatos, ouvir pessoas, encontrar provas de maus feitos e elaborar um relatório final digno e honesto para ser votado, aprovado e enviado aos canais competentes. E eles podem e devem apoiar "A" ou "B". Mas o que foi feito na pantomina encerrada na madrugada de ontem não passou de uma burla, uma fraude cafajeste que gerou um aleijão pseudo-jurídico de mais de quatro mil páginas devidamente jogado no lixo depois de ter sido recusado por 19 votos a 12. E jogado também no lixo da história.

Pior do que isso: é praxe no Congresso que quando um relatório termina recusado pela maioria - o que não vem sendo tão raro! - pode o outro lado apresentar um segundo documento com suas propostas. Mas esse foi rechaçado de pronto por Carlos Viana, que na foto justifica a decisão comemorada pela claque ao lado com gritos de "Fora, PT". Não era uma CPMI, mas um palanque eleitoral tosco, mal montado e filmado para grupos de rede social dos "representantes do povo" presentes à festa da madrugada.

O Poder Legislativo se apequena com esses episódios. No caso do INSS, é claro, límpido e comprovado que os danos aos aposentados começaram a ser cometidos em 2019, quando o presidente da República era o hoje presidiário inelegível Jair Bolsonaro. Mas a oposição do Congresso queria "investigar" o caso somente a partir de 2022, quando o presidente Lula ocupou o Palácio da Alvorada. Isso é manobra torpe, desonesta. E segundo todos os que acompanham as coisas do poder em Brasília não há prova sólida alguma vinculando o filho do presidente ao roubo dos aposentados. Tudo não passa de manobra eleitoral.

Estamos, sim, às vésperas da eleição mais importante de nossa história republicana. E ela vai ser suja do começo ao final. Tanto que o pimpolho 01 de Bolsonaro já foi aos Estados Unidos discursar no Texas durante o Conservative Political Action Conference (CPAC) e defendeu sua candidatura à presidência dizendo que o Brasil vai ser o "campo de batalha" na disputa pelos minerais críticos e que os EUA devem usar isso para reduzir a dependência da China em terras raras. É entrevista confessa de quem já defendeu, juntamente com o irmão Eduardo, uma intervenção armada ianque em nosso país. Isso é crime, da mesma forma que o é fazer acordo de exploração mineral com os EUA sem passar pelo Governo Federal, como faz o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, tentanto atropelar as leis em vigor.

Não se trata de apoiar ou não atos do Governo Federal. Hoje estamos diante de uma situação-limite e na qual ou defendemos o Estado Democrático e de Direito contra aqueles que pretendem destruí-lo para não perder nova eleição presidencial, se isso acontecer, ou então nos rendemos a quem nos quer como quintal de uma potência estrangeira para roubar recursos naturais à cara dura, como está sendo feito hoje mesmo na Venezuela.

O picadeiro já está armado no Congresso.       


      

25 de março de 2026

Seremos dignos de 2026?

Estamos hoje diante do fato de que o Brasil vai viver em 2026 seu mais importante ano para a história de nossa democracia republicana jovem. Seremos dignos desses tempos? E quando pergunto se seremos, estou me referindo aos jornalistas e aos meios de Comunicação.

O terremoto que se abateu sobre a Globo News depois que foi ao ar no "Estúdio i" da última sexta-feira um powerpoint canalha que tentava associar o governo federal e o presidente atual, Lula, diretamente ao escândalo do Banco Master foi um golpe no queixo da frágil credibilidade do grupo Globo. E nos fez lembrar de dezembro de 1989. Homem acostumado à TV, Fernando Collor de Melo teve atuação mais segura num debate contra Lula, ambos candidatos à presidência. Na hora de editar o material que iria ao ar, o Jornal Nacional escolheu os melhores momentos de Collor, os menos felizes do oponente e, assim agindo, interferiu diretamente no resultado da eleição que deu o mandato ao alagoano. Os resultados desse crime contra a ética todos conhecemos. Foi manipulação grosseira.

Em 1989, mesmo já quatro anos fora da ditadura e um ano com a nova Constituição, o Brasil ainda vivia a ressaca do regime ditatorial e a Globo teimava em manter seu império de Comunicação na sombra do cadáver à porta. Poucos imaginavam que os tempos mudavam, a influência das grandes redes iria se redividir com os anos e a sociedade, embora permanecesse muito influenciável como é até hoje, aos poucos ganharia mais voz, sobretudo para exigir respeito e o direito de não ser manipulada.

Aqui no Espírito Santo A Gazeta vivia época parecida. Ex-todo poderosa por ser porta-voz da ditadura no Estado, demorava a aceitar o fato de que seu "império" estava se findando. O então presidente da empresa, Eugênio Pacheco de Queiroz, não era um desses. Homem gentil, conhecido por sua sinceridade, chamava a todos de senhor. Conservador assumido mas não reacionário, um dia entrou na redação do jornal e se deparou com cartazes de "PCB Legal" pregados pelas paredes. Retirou-os sem os ragar e foi direto ao "aquário" do Secretário de Redação, Chico Flores, que estava conversando comigo, o Editor de Esportes. Disse: "Senhor Francisco, retirei os cartazes do Partido Comunista da redação e já determinei que a Arena não vai poder colocar os dela. O senhor concorda?" Claro que sim, dissemos os dois.

Era uma transição e a democracia ganharia com ela em todos os lugares. Hoje o poder dos meios de Comunicação não é mais absoluto e esse fato reflete mudanças. A Gazeta mesmo virou uma caricatura do passado, pois nem mais jornal impresso tem, perdeu seus jornalistas/referência em Comunicação e é dirigida por Café Lindenberg, o filho não escolhido para comando de Cariê Lindenberg, este também filho do senador Carlos Lindemberg, o que ajudou a fazer a empresa grande na calda de cometa da dinheirama ganha, sobretudo  principalmente com publicidade oficial nos tempos do "prendo e arrebento". Mas também com outros anunciantes...

Em O Globo parecia que o passado estava morto e sepultado até sexta-feira última. Só que não! Até a âncora do programa e o comentarista no ar foram surpreendidos, acredito, pelo powerpoint. Mas nem todos. O fato mostra de que os velhos tempos ainda sobrevivem em alguns setores da rede e às vezes se manifestam. Isso acontece também em O Estado de S. Paulo, Folha de São Paulo, Jovem Pan e outras grandes e médias redes, o que envolve as revistas de circulação nacional - felizmente nem todas elas - e igualmente a internet.

Para que o jornalismo brasileiro seja digno de 2026 ele precisa continuar sua reinvenção no caminho da informação isenta, abandonando cacos de todas as espécies e noticiando fatos sem manipular a informaçao de nenhuma forma. As direções da Globo, da Abril, Estado, Folha e outros têm que entender isso: a verdade não usa maquiagem. Ela às vezes machuca, é dura, crua e a gente gostaria de não tornar pública, mas tem que fazer isso porque notícia se define como fato de interesse público, não pertence ao jornalista, mas à comunidade que ele serve. Sobretudo não pertence aos empresários dos meios de Comunicação, já que o caixa das empresas deles é abastecido em parte por quem crê nelas. Credibilitade a gente leva uma eternidade para conquistar e basta só um powerpoint canalha para perder.

E depois ainda tem que se sujeitar a memes como esse acima...

23 de março de 2026

Façam jornalismo, colegas!

 

Dos idos de 1964 em diante, quando ainda não havia Power Points para serem manipulados e usados como "jornalismo" em campanhas políticas, fazia-se o jornalismo de qualidade. Hoje há. Agora a Globo News pode produzir uma excrescência como a reproduzida acima e mostrada no programa Estúdio I, de Andréa Sadi, faz poucos dias. É uma farsa, uma tosca montagem de imagens feita para direcionar a opinião pública contra o Governo Federal atual e seu partido e não aos verdadeiros responsáveis pelo escândalo do Banco Master e seus desdobramentos de esgoto político. A imagem fria, desprovida de decência e honradez, omite Tarcísio de Freitas, Cláudio Castro, Ibaneis Rocha, Flávio Bolsonaro et caterva e sobretudo Jair Bolsonaro como mandantes deste crime contra o patrimônio público.

A Globo, Ah, a Globo! Como ela teima em voltar!

Um Power Point real, que mostrasse a cara desse escândalo seria como o ao lado, jamais levado ao ar. São esses pecados contra o bom jornalismo, contra o exercício da verdade factual o que marca infelizmente a existência dessa que é a maior empresa de Comunicação do Brasil, ao menos em recursos e em número de profissionais reconhecidos nacional e internacionalmente. Mas é preciso retornar um pouco no tempo para pensarmos no que está sendo mostrado hoje à opinião pública manipulável deste País, sobretudo quando se aproximam as eleições mais importantes da história do Brasil moderno.

Lembro-me de 1964 e das multidões nas ruas sendo levadas como gado para  protestar contra o "comunismo" nas tais "Marchas da Família com Deus pela Liberdade". Nesses movimentos estavam estudantes e donas de casa que conheciam tanto de comunismo e de liberdade (sic!) quanto de aramaico. Por trás delas, segurando as cordinhas das apresentações de teatro de bonecos ficavam os manipuladores orquestrando a queda do governo João Goulart, que tinha tanto de comuna quanto de qualquer outra ideologia "estranha". 

Goulart era um estanceiro que acabaria seus dias cuidando de gado no Uruguai. Seu pecado foi o de se expor demais e permitir que infiltrados como Cabo Anselmo se aproveitassem da luta pelas reformas de base para incendiar as camadas mais reacionárias das Forças Armadas contra o governo. Daí para o golpe e a deposição do presidente foi um pulo, mas que nos custou duas décadas e mais um ano de sofrimento nas mãos de uma ditadura cruel. Alguns tentaram evitar, mas não conseguiram fazer isso, infelizmente. E não é por reformas de base que continuamos a lutar hoje, décadas depois?

Ora, agora não há mais caldo de cultura para movimento igual. "Mas por que não tentar?", pensam os fascistas disfarçados das mais diversas formas e nos mais diferentes locais. E eles tentam. Como foi feito faz 62 anos, continuam se aproveitando da ignorância de imensa parcela da população para armar novo teatro de marionetes. É possível ver hoje hordas de pobres de direita (coitados!) defendendo a liberdade que conhecem, sim, e contra a ditadura que existiu no passado, não existe hoje mas, sonham muitos, deveria voltar a acontecer.

Além da mentira como arma de guerra, gente como Cláudio Castro (em renúncia), o tosco Romeu Zema (renunciado), Ibaneis Rocha, Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e outros menos votados correriam a abraçar militares golpistas caso eles fossem às ruas. Lula, o inimigo deles todos, não. Então é fácil entender a diferença, queira-se ou não colocar sobre os ombros do atual presidente os defeitos que puderem ser encontrados, pois o de golpista não lhe cabe. Cabe, isso sim, ao genocida inelegível, presidiário e que fica dodói sempre que lhe apertam os calcanhares onde reluz a tornozeleira eletrônica já tentada fraudar em ao menos uma oportunidade, pois de fraudes vive essa figura decrépita, seus parentes e entorno.

O tempo passou e a Operação Lava Jato mostrou ser uma imensa fraude na qual grande parte do Brasil acreditou. Chega, não é? Não chega, Valdo Cruz? Façam jornalismo, colegas. Trabalhei mais de duas década em redação de jornal na época da ditadura, vivendo sob o tacão de familiares reacionários e sempre, pela manhã à tarde e à noite, lutei contra o reacionarismo e denunciando notícias falsas. Inúmeros colegas dessa época ainda estão vivos e cito o nome da sindicalista Suzana Tatagiba Fundão apenas como exemplo, mas para significar ou representar todos os demais. O espaço é curto, felizmente, para tanta gente.

Vamos dizer "não!". Ter a coragem de falar que esse Power Point não deveríamos ter colocado no ar porque é mentiroso, agride a honra e a ética que devem permear sempre o exercício profissional honesto e do qual não nos afastamos nunca. Os interesses subalternos das grandes corporações de Comunicação jamais resistiram a um "não!" coletivo. Pensem nisso, pois ainda é tempo.

19 de março de 2026

Presidiário em campanha

Quantos presos no Brasil podem dispor de mais de 70 metros quadrados para usufruir deles durante sua estada na prisão (veja na foto)? Quantos têm assistência médica total 24 horas? Quantos recebem todo santo dia a comidinha especial feita em casa? Quantos dispõem de ambulância à porta para encaminhamento ao hospital no caso de necessidade? Quantos podem fazer seguidos pedidos de prisão domiciliar humanitária quase todo dia depois de terem tentado romper tornozeleira eletrônica e passado uma vida inteira debochando de direitos humanos até atentarem contra o Estado Democrático e de Direito num arrebatamento insano de tentativa de golpe de Estado? Ao que parace, só uma pessoa da Papudinha.

Jair Bolsonaro quer voltar à casa que ocupa num condomínio de Brasília para transformá-la mais uma vez num comitê eleitoral. Comitê de campanha. Mas ele é preso condenado a 27 anos e três meses de prisão em processos nos quais teve ampla oportunidade de defesa. O que uma pessoa assim perde? Ela tem cassado seu direito à liberdade caso a pena defina a privação desse direito, não pode assumir cargo público, pode ser obrigada a reparar danos causados pelos crimes e, nesse seu caso, principalmente fica sem os direitos políticos, não pode votar e nem ser votado. Esqueceram de dizer isso a esse preso?

O ex-presidente do Brasil jamais aceitou sua situação. Mesmo com uma carrada de provas contra ele, proclama aos quatro ventos uma inocência tão real quanto a Branca de Neve. Esse discurso é o oficial, usado por todo seu entorno e alimenta o bolsonarismo raiz, aquele formado por gente sem capacidade cognitiva quase nenhuma e capaz de, dentre outras coisas, acreditar que o Brasil é hoje governado por uma espécie de clone do presidente Lula, já morto desde sabe-se lá quando e substituido no comando do País por "n" pessoas.

A República brasileira começou em 1889 por um golpe de Estado. Ao longo de quase 137 anos, coexistiu com uma série de aquarteladas e golpes que se sucederam sem que a sociedade fosse capaz de se proteger contra o mal. De se vacinar... Na última vez, tivemos 21 anos de ruptura do Estado Democrático e de Direito, o que aconteceu entre 1964 e 1985. O presidente hoje preso é um saudoso dessa ditadura, apoiador daqueles que foram seus inspiradores, devoto de torturadores como Brilhante Ustra e autor de uma série quase interminável de disparates como "eu não sou coveiro", "e daí?, todo mundo vai morrer um dia" e outros mais como o inacreditável "não te estupro porque você não merece!"

Agora que ele mais uma vez apresenta problemas de saúde (?), uma parcela considerável da sociedade, grandes meios de Comunicação à frente, defendem que seja removido do apartamento da Papudinha - sim, aquilo não é uma cela! - para o conforto da casa de dois andares onde passava os dias com tudo pago pelo PL e outros meios de manutenção, dos quais os menos usados eram suas aposentadorias obtidas na bacia das almas. E sobretudo para voltar a conspirar com desenvoltura. Bolsonaro não tem correção: é golpista, seus filhos também, uma boa parcela dos que o seguem são inimigos declarados da democracia e estamos correndo um risco de, refiro-me sobretudo ao Supremo Tribunal Federal, entregar novos meios e modos de alimentar essa serpente em direção ao caos que ela representa.

"Cria cuervos y te sacarán los ojos"

16 de março de 2026

Caso de identidade

Quando eu era pequeno, ia muito a cinema, coisa que faço até hoje. Num deles então existente da Avenida Lins de Vasconcelos, no Cambuci em São Paulo, gostava de ver os filmes de bangbang, que eram muitos e passavam todos os dias. Ficava triste porque os índios perdiam todas as batalhas, até que um dia papai me disse: "É da cultura deles, filho. O índio e o assaltante de bancos são os bandidos dos filmes". Então entendi porque a maioria se identificava tanto com as histórias de mocinho e bandido.

Um dia meu pai foi comprar munição para uma espingarda de caça dele numa loja de Campos dos Goytacazes porque iriam, ele e seu cunhado Antônio caçar marrecas nas barrancas do Rio Paraíba do Sul, perto de Atafona. Eu não iria com eles para não ver os bichos serem mortos e provoquei uma gargalhada geral na loja de armas ao questionar se lá eram vendidos "revólveres de mocinho". "Como são esses?", perguntou o comerciante. Expliquei: "Eles só ficam sem balas depois que os xerifes se escondem atrás das pedras. Os dos índios e dos bandidos nunca acertam o alvo e falham porque as balas mascam depois do segundo tiro..."

"Um batalha após a outra", o grande campeão do Oscar 2026 - seis estatuetas - é o retrato da cultura dos Estados Unidos. Um belo filme, com um Leonardo DiCaprio marcando presença (foto), mas apenas isso. Só que ele é a identidade do cinema daquele país. É a cara da cultura norte-americana e quem escolhe os campeões de qualidade em Hollywood são todos de lá. Identificam-se com os mocinhos de seus filmes. "O agente secreto", lindíssimo e com uma aula de interpretação de Wagner Moura é a cara do Brasil, um retrato de nossos valores, uma reconstituição de parte da história brasileira mais recente e seria mesmo muito difícil ficar com o maior de todos os prêmios nas terras de Tio Sam.

2025 foi ano de belos filmes. Como "Hamnet: A vida antes de Hamlet", que premiou Jessie Buckley como melhor atriz no papel de Anne Hathaway, a mulher do bardo William Shakespeare. Não poderia ter sido escolhida outra. "Valor Sentimental", mais uma bela obra, acabou premiado porque não poderia ficar de fora. "Marty Supreme" e "Pecadores", que não vi, também foram reconhecidos. Faltou premiar "Sonhos de trem", um drama humano belíssimo e que tinha um brasileiro como autor da fotografia. Enfim, não se pode exigir muito no mundo do cinema. Nem que a grandeza de "Foi apenas um acidente" terminasse reconhecida, isso para não termos que falar de todos, como também de "Frankenstein".

Como no ano passado com "Ainda Estou Aqui" o Brasil mostrou que estamos num momento mágico de nosso cinema, o que não seria possível num governo de extrema direita. Hoje mesmo muita gente minúscula comemorou o fato de "O Agente Secreto" não ter ganho ao menos um Oscar, mas todos sabemos que ele é o grande vencedor e vai ser lembrado como alguma de nossas melhores produções, como foi o caso de "Eles Não Usam Black Tie", que nada ganhou além de muito respeito por ter sido um enfrentamento à ditadura militar.

O Brasil é pródigo em bons atores e atrizes, diretores talentosos e autores com belas histórias. Uma delas foi "Marighela", de 2019, que marcou a estréia de Wagner Moura como diretor e contou com uma atuação maiúscula de Seu Jorge vivendo o personagem principal. Esse filme talvez nunca entrasse em circuito nacional se o hoje presidiário Bolsonaro ainda fosse presidente, porque todos os boicotes foram feitos para impedir a exibição desse trabalho. Não passa e não passará pelas cabeças das pesssoas muito pequenas, sobretudo ética e moralmente, que o cinema é antes de tudo uma expressão artística e não existe arte dissociada de seu caráter social, político e também ideológico.         

Definitivamente, o Brasil leva jeito...             

 

11 de março de 2026

A Justiça e o Estado de Direito

O Supremo Tribunal Federal (STF) tornou-se alvo preferido dos ataques mais solertes da extrema direita política do Brasil, e não por suas falhas e erros que evidentemente existem, e muitos, mas sim por seus méritos inequívocos, sobretudo e principalmente na defesa intransigente da democracia brasileira. Isso o extremismo brasileiro não aceita de forma alguma. Para eles, muito melhor do que o Estado Democrático e de Direito é ver porta-aviões dos Estados Unidos no Lago Paranoá, em Brasília, sonho dourado de Flávio Bolsonaro, a cópia do pai preso e feita em papel carbono retocado desse criminoso, inelegível e genocida.

Devemos reconhecer: a extrema direita política brasileira não aceita o STF porque não se vê nele.

Ela foi apoiadora do golpe Estado de 1° de abril de 1964, guerreou pela manutenção deste e estava em campo oposto ao das forças democráticas que lutaram durante 21 anos pela volta da democracia representativa ao Brasil, em 1985. De lá para cá sempre tentou solapar as instituições civis brasileiras que se reconhecem ao olhar no espelho do Brasil de hoje. Por isso estava acampada diante de quartéis durante a tentativa de golpe de Estado de 08 de janeiro de 2023 e consegue ver no seu país de hoje uma ditadura. Mas muito diferente daquela que apoiara num passado recente, para prender ilegalmente, torturar e matar.

Hannah Arendt, filósofa alemã que marcou época no pensamento mundial com a criação do conceito de "banalidade do mal" ao escrever "Eichmann Em Jerusalém" e onde disseca a personalidade de Adolf Heichmann, disse certa feita que "a essência dos Direitos Humanos é direito a ter direitos". Ora, sempre que um regime ditatorial ocupa o poder em qualquer parte do mundo, a primeira coisa que ele faz é retirar dos cidadãos seus direitos mais elementares. Isso aconteceu no nazismo que a judia Arendt estudou tão bem através da personalidade de criminosos de guerra. Acontece ao longo dos tempos, como agora no Brasil quando os saudosos do nazifascismo tentam reviver os períodos mais sombrios da história brasileira.

O STF é alvo porque representa a democracia que só pode ser questionada pela maioria da população via eleições e/ou plesbicito. Como o extremismo de direita teme esse tipo de processo de consulta popular, tenta obter o poder através da força. Tem hoje no psicopata Donald Trump um aliado fundamental que usa o fascismo político como arma para conseguir ocupar corações e mentes. A direita brasileira vê nele um aliado e pode querer usá-lo como trampolim para que um novo Bolsonaro ocupe o poder. Mas esse sujeito, o ianque, vê apenas dinheiro diante de si. No nosso caso, principalmente minerais raros que  pretende tomar, se preciso à força, usando o artifício de "narcoterrorismo" para tanto.

O Supremo não é perfeito. Composto por seres humanos, carrega em si os defeitos de todos nós, ainda mais porque alguns ministros têm tido pouco cuidado e permitido que interesses privados se confundam com o público prevalecente acima de tudo. Graças a isso tornam-se alvo do oportunismo político de quem não se vê nele. O momento brasileiro atual reflete isso: centenas de vigaristas de mandato investem contra os organismos superiores da Justiça para atacar. Dessa forma pretendem atingir todas as instâncias do poder constituído e abrir caminho para seu discurso eleitoral maquiado e diredionado a destruir o Estado de Direito.

A imprensa, dolosa e culposamente colabora com isso. Uma jornalista de O Globo, Malu Gaspar, tem se dedicado a acusar o STF. Não teria problema se ela não fosse uma lavajatista conhecida e que se deixou fotografar diante de um Sérgio Moro em pose de majestade quando ele ainda era respeitado. Sua blusa laranja na foto acima destaca-se no grupo e a coloca em situação de dúvida. A mesma que tenta jogar agora contra ministros do Supremo. Por isso, no exercício da denúncia o jornalista tem que ser homeopático nos offs e, ao mesmo tempo, abusar de fontes identificadas ou situações concretas, paupáveis. Malu, profissinal talvez digna, deveria saber disso e ter esse cuidado para não deixar a posição de pedra e se tornar vidraça.

Estamos em tempos difíceis. Enquanto no Brasil a maior corte de Justiça, da qual o país não pode abrir mão por tudo o que ela representa, é alvo de tiroteio intenso, uma parcela grande, imensa mesmo do espectro político nacional defende com unhas e dentes um recuo ao autoritarismo na calda de cometa do presidente norte-americano capaz de tudo para obter seus objetivos. Isso de novo nos remete a Anna Arendt no livro "As origens do totalitarismo". Ela defende que esse sistema, inédito no mundo até o início do século XX, não busca apenas controle político das sociedades, mas a dominação total do homem, do ser humano agora definitivamente destituído de esfera privada e capacidade de ação individual.

Seria isso o que queremos?   
             

          

9 de março de 2026

O Fusca da Ana

 

Ninguém diria que a paranoía de extrema direita fascista do presidente norte-americano Donald Trump tiraria do túmulo da ditadura militar brasileira um cadáver político de 1969. Mas tirou! E isso aconteceu porque um senhor idoso foi detido no aeroporto internacional da Ciudad de Panama quando em trânsito para a Guatemala num voo da empresa aérea papamenha Copa Airlines. O jornalista Franklin Martins viajava para uma palestra em evento na Cidade da Guatemala e fazia escala no Panamá porque não existe voo direto entre o Brasil e a capital guatemalteca. Só por esse motivo. Detido, acabou devolvido ao Rio de Janeiro graças aos arquivos da inteligência (?) dos EUA e numa história que merece ser recontada.

Em 1969 o Brasil vivia o auge da repressão política e eram comuns prisões ilegais, torturas e assassinatos nos porões dos órgãos de repressão da ditadura. Nesse ano a Ação de Libertação Nacional (ALN), e o Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) sequestraram o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick no Rio de Janeiro. Era intenção trocar o diplomata por presos políticos brasileiros, o que aconteceu 78 horas depois. O fato foi amplamente divulgado pela imprensa (composição de fotos acima) e, dentre os sequestradores estavam o hoje comentarista da Globo News Fernando Gabeira e Franklin Martins, então jovem militante político que acreditava, como muitos outros, na opção da luta armada para combater a ditadura militar brasileira.

Houve carta-manifesto lida nos órgãos de Comunicação e foto do grupo embarcando para o exílio no México (foto ao lado).  Todos os envolvidos ficaram para sempre ligados ao fato e, sobretudo, aos órgãos de segurança dos Estados Unidos. Anos mais tarde Franklin seria nomeado ministro do governo Lula nas suas passagens iniciais pelo Palácio do Planalto nos primeiros dois governos e, na ocasião, o novo ministro, oriundo da TV onde era comentarista político optou por não aceitar ir aos Estados Unidos numa delegação brasileira porque havia o risco de ele ser preso pela Justiça daquele país, mesmo ocupando ministério.

Mas nem o tempo que passou para não voltar mais apagou para os EUA o fato de que um sequestrador de diplomata não havia sido preso e condenado lá. E isso não prescreve! Então, na ida à Guatemala o agora veterano palestrante brasileiro foi detido no Panamá, não conseguiu chegar à Guatemala e precisou acionar o sempre amigo Lula para intervir. Ele foi ao País centro-americano, sim, mas depois de o caso esclarecido junto ao Itamarati.

O irônico é que Nilo de Souza Martins, irmão mais velho de Franklin e que já morreu faz 16 anos, foi editor chefe do jornal A Gazeta de Vitória onde eu era editor de esportes. Na época a gente sabia de um fato insólito ligado ao sequestro de Elbrick: na falta de algo melhor, Franklin pegou "emprestado" para o sequestro o Fusca de sua irmã Ana Maria Machado, escritora e que chegou a ser presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) no biênio 2012/2013. Ela não sabia de  nada, chegou a ser presa e teve que ficar exilada durante bom tempo por causa disso. Guarda mágoas até hoje.

Então um belo dia conversávamos sobre isso Nilo e eu na sala do editor chefe de A Gazeta e o irmão mais velho de Franklin (foto recente deste à esquerda), à época ministro de Estado,  disse que seu mano jamais 
poderia pisar nos Estados Unidos por causa desse fato e já estava conformado porque havia vivido anos na Europa como exilado político. Então eu ri e disse ao Nilo: "A raiva deles é que seu irmão desmoralizou os Estados Unidos. Onde já se viu, em plena ditadura militar, em época de guerra fria um embaixador ianque ser sequestrado por militantes comunistas de Fusca? É muita desmoralização para o Tio Sam!"

Nós demos grandes risadas por causa disso, sobretudo Nilo, um homem politicamente de centro. O Fusca de Ana Maria Machado jamais frequentou o caso de Burke Elbrick como história contada. Mas é um caso único no mundo das crises políticas. E hoje é triste a gente ver o fascismo de volta, a Casa Branca tomada por extremistas e o Brasil correndo o risco de ser atacado por causa de grupos criminosos tornados narcoterroristas sem o serem graças ao conluio de brasileiros traidores da Pátria que querem destruir a nossa incipiente democracia. Triste também ver que dentre esses entreguistas há jornalistas lavajatistas ou ocupantes de cargos de presidência em academias de letras.