Paulinho e Dantinho, como eram chamados, desceram em poucos dias das colunas sociais para as páginas de Polícia dos jornais. E eu, Editor de Esportes, tive que passar a frequentar o Departamento Médico Legal e as salas de delegados para colher informações capazes de abastecer a Agência Folhas Interior-Estados, que recebia os informes dos correspondentes, no meu caso enviados via Agência Central dos Correios, no Centro. Tudo por Telex! Agarrava-me ao amigo Paulo Maia, Secretário de Redação do jornal para me ajudar na confecção dos noticiários. O Paulinho de A Gazeta, um dos maiores amigos que tive no jornalismo, fazia noticiário policial com a facilidade de quem toma um copo d´água.
Era preciso ir aos fatos. Presenciei Paulinho Helal sendo colocado no "cofre" de um carro da Polícia, no dia de sua prisão. Ao ver onde teria de entrar ele olhou para os policiais e pediu: "Aí não, pega mal!" Mas foi lá assim mesmo. Estive no DML várias vezes e aquilo cheirava a carne em decomposição desde longa distância. Acompanhei a retirada do corpo da menina das "matas do Hospital Infantil", mas a um distância regulamentar. Protocolar. Naquele lugar, na subida da rampa que ainda hoje leva ao HI, dois prédios grandes de apartamentos substituem o antigo matagal onde os criminosos esconderam o corpo da garota morta.
Pouca gente sabe, mas o Franciscano funcionava como prostítulo, fornecendo as "meninas". E para gente graúda! Um familiar meu um dia me perguntou se eu gostaria de conhecer o lugar "na horizontal". Declinei do convite. São coisas de Vitória, mas até hoje uma das mais importantes avenidas da cidade mantém o nome de um antigo dono de puteiro!
Era lá que Dantinho Michelini, encontrado morto e decapitado num sítio de sua propriedade em Guarapari, levava os amigos como Paulinho Helal para as farras. Era a casinha do papai! Foi para lá que ele teria levado a menina Araceli após sequestrar para drogar e matar juntamente com o companheiro desse crime. Consta que, muito cheios de cocaína, os dois teriam acabado de assassinar a menina devorando partes de seu corpo com mordidas. O corpo teria sido colocado no freezer do bar junto do cervejas e outras bebidas.
Tratava-se de uma garota de 8 anos, mas muito desenvolvida, perto de completar 9. E bem bonita. Isso pode ter atraído a dupla de assassinos que a encontrou ou recebeu drogas como "encomenda" da mãe dela diante do Bar Oásis depois que ela saiu da Escola São Pedro, na Praia do Suá, onde estudava. Uma escola que não existe mais e que foi roteiro para o crime. Fui lá duas vezes em busca de informações para noticiário. Ninguém falava nada!
Muita coisa que envolveu a morte da menina Araceli ficou encoberta. A Polícia embaralhou os fatos porque, afinal de contas, os acusados eram gente poderosa. Ficaram dúvidas. Dona Lola Sancres Crespo, a mãe da menina, fazia dela um "avião" para entregar drogas vindas da Bolívia, de onde era? A mulher enlouqueceu com o crime. Um dia invadiu o jornal A Gazeta de exemplar em punho aos gritos de "minha filha está viva", e para esfregá-lo na cara de um "jornalista qualquer essa 'mierda' da jornal". Fez isso no rosto de um funcionário do Departamento Financeiro, coitado, que não entendeu nada de nada.
Minha avó Almerinda, que morava na Rua Francisco Araújo, atrás do Palácio Anchieta, nunca mais foi ao Magazin. Aquilo virou loja de criminoso! E aos poucos o noticiário sobre o assunto foi arrefecendo depois de confirmada a morte da menina e o esgotamento do interesse público sobre o assunto. Era o que as duas famílias queriam. Paulinho e Dantinho passaram pouco tempo presos. A culpa da dupla jamais foi provada sem questionamentos. Em pouco tempo o Magazin entrou em decadência e fechou. O prédio do Franciscano foi derrubado e nunca mais se falou nele. Hoje o "Caso Araceli" é uma lembrança distante e mantida principalmente por causa de dois livros escritos sobre assunto.
O corpo de Dantinho, encontrado queimado e decapitado no sítio semi-abandonado de Guarapari teria movido mundos e fundos na década de 1970, se voltássemos no tempo. Afinal, a Agência Folhas Interior-Estados, que era quem me pagava, não representava apenas a Folha de S. Paulo, mas sim os então sete jornais do grupo empresarial da poderosa e apoiadora da ditadura família Frias, um dos quais era Notícias Populares, que cheirava a sangue e para onde foram mandadas e publicadas quase todas as matérias que fiz. Mundo cão!






