Parecia uma orquestra afinada: passado o susto da derrota nas urnas do extremista de direita Flávio Bolsonaro, o 01 de Jair Messias, e no dia seguinte, 26 de novembro, as grandes redes de televisão foram inundadas por entrevistas com economistas que tinham todos uma só opinião: a da necessidade de se interferir na política econômica do governo Lula para que ela se adapte aos ditames do mercado de capitais, ou simplesmente do mercado, nesse seu quarto mandato. Era - e é - um cardápio único o desses comensais.
E o que é essa entidade tão poderosa e que se situa principamente na Avenida Faria Lima, em São Paulo? Ela é um sistema junto a outro, o Sistema Financeiro Nacional (SFN) que conecta empresas, governos e investidores, permitindo a captação de recursos financeiros de longo prazo. É diferente do mercado de crédito tradicional do Brasil e de outros países, e no qual bancos intermediam empréstimos com taxas e prazos fechados a juros que podem ser negociados. Nesse mercado de capitais as transferências de recursos ocorrem de forma direta, com emissão e negociação de valores.
Dá para ver logo de saída que no Reino da Faria Lima os negócios envolvem grandes fortunas, interesses ainda maiores e um poder que só tende a se alastrar. A se agigantar. Foi justamente por esse motivo que houve a turbulência. Todos acreditavam piamente numa vitória bolsonarista na eleição que ditaria os rumos do Brasil de 2027 a 2030. Mas ela não aconteceu. Entre as previsões e sua concretização estava um ex-metalúrgico sindicalista com mais de 60 anos de experiência política e capaz de mudar os rumos da maior eleição presidencial que nosso país já patrocinou. Ele e o Exército de Lula comandado pelo deputado federal André Janones.
Que pena; hoje já não se aposta tanto em golpes de Estado como antigamente! As manchetes internacionais como a de The Economist (foto do lado direito) mostram isso. O pasmo a que me referi logo acima, também. A ironia foi todos descobrirem logo após as 21 horas de 25 de outubro que o resultado do primeiro turno da eleição brasileira seria bem menor do que o susto do returno. Sobretudo para os "estudiosos" que já davam entrevistas falando de um futuro governo que poderia durar até oito anos. Golpismos e charutos deixam a boca torta!
O susto da Faria Lima teve de tudo e até mesmo perdas grandes de dinheiro em apostas feitas antes da contagem dos votos. Até na maratona de Nova Iorque houve memes envolvendo a fuga de Flávio (foto do lado esquerdo). E ninguém no topo da pirâmide social do Brasil esperava que esse ex-metalúrgico desrespeitosamente chamado de "nove dedos" pelo representante dos Bolsonaro em debate de televisão pudesse vencer a Faria Lima, a Meta, o "reinado" Donald Trump, os governos de extrema direita da maioria dos países sul-americanos e mais outras forças que às vezes disfarçadamente e outras vezes nem tanto fizeram de tudo para, como todos diziam, encerrar os tempos do PT no Brasil. Dentre as quais estavam grandes redes de televisão, personagens de destaque no mercado.
Qual é o erro desse grupo de miliardários que mandam nas economias do mundo? Eles, do alto de seus mercados, não enxergam as quitandas da base das pirâmides sociais do mundo todo. E ao menos no Brasil foi possível acordar boa parcela dessa majoritária quintanda financeira brasileira para dizer "não" aos projetos desse mercado. Afinal, as grandes fortunas jamais enxergaram a massa de trabalhadores brasileiros e do restante do mundo senão como massa mesmo e de manobra que pode ser usada e descartada sem um instante de dúvida.
Mas não é assim. Agora mesmo nos Estados Unidos Donald Trump pode estar descobrindo isso. Esse senhor da guerra senil e decrépito vai aprender uma lição eleitoral aos 80 anos de idade: talvez essa descoberta custe muito ao restante do mundo, mas o problema será mínimo se os Estados Unidos mudarem sua forma de se verem como nação após a passagem dele. Afinal, Trump, o Breve, merece isso mesmo: o julgamento duro da história.












