Vamos recuar no tempo. Na década de 1970 o Brasil estava infestado de esquadrões da morte. Em Vitória um cemitério clandestino foi descoberto na Barra do Jucu, município de Vila Velha, onde eram desovados cadáveres de pessoas perseguidas pelos órgãos policiais ou de segurança. Não eram apenas criminosos comuns, mas também aqueles considerados "inimigos do Estado" tais como adversários políticos ou perseguidos pelas autoridades. Na ocasião eu era editor de esportes do jornal A Gazeta e trabalhava também como correspondente do jornal Folha de S. Paulo. A mim foi dada a incumbência de cobrir aquele fato para os jornais do Grupo Folhas.
Era fedorento chegar perto da Suprintendência de Polícia Civil, que ficava na Rua 7 de Setembro e depois em Bento Ferreira. Mas fui lá porque tinha que ir. O processo do Esquadrão da Morte do Espírito Santo envolveu um grande número de policiais que acabaram sendo acusados, presos e condenados, alguns a mais de 200 anos de prisão. Fui uma vez tentar ouvir o delegado Oswaldo Simões Sales, o Quito, homem extremamente violento. Na porta do gabinete dele havia uma placa: "O que você ver aqui, o que você ouvir aqui, quando sair daqui, deixe ficar aqui". O certo é escrever "O que você vir aqui", mas é muito esperar algum conhecimento da língua portuguesa por parte daquela gente.
Ouvi várias ameaças veladas de Quito referentes a não escrever "coisas inconvenientes" porque esse tal esquadrão da morte "não existe". Mas existia sim e seus membros exibiam com orgulho os chaveiros e outros adereços da Scuderie Detetive Le Coq, que os identificava (segunda foto). Note que no escudo existe um "E.M" bem marcado e que significava Esqudrão da Morte, embora eles o identificassem como Esquadrão Motorizado. Tenho histórias sobre isso contadas em meu romance "O faxineiro" (Edições Tertúlia, 2015).
Era muito difícil chegar aos criminosos de então. As marcações de munição foram instituídas para facilitar a perícia e identificar criminosos, principalmente os que se escondiam e se encondem nos organismos policiais do Brasil todo. Aliás, eles são uma fixação de Flávio Nantes Bolsonaro, conhecido apoiador de milicianos e outros criminosos comuns. Alguns, homenageou quando era deputado estadual pelo Rio de Janeiro onde o crime organizado é muito forte hoje, como sempre foi.
Esse projeto de lei que o candidato bolsonarista considera coisa pequena, "um detalhezinho" como disse na entrevista, será um salvo conduto para os novos esquadrões da morte. O pai, Jair, sempre foi suspeito de apoiar, esconder e até de participar dessas organizações criminosas. Em 04 de julho de 1995 panfletava para sua campanha à reeleição no Rio de Janeiro em Vila Isabel quando foi rendido por dois assaltantes. Teve roubada a moto Honda Sahara seminova de 350 cilindradas e uma pistola Glock calibre 380 que estava sob a jaqueta. Um dos assaltantes, Jorge Luís dos Santos, acabou identificado e preso em Salvador dias depois. Trazido para o Rio de Janeiro foi "encontrado" morto por enforcamento numa cela da Divisão de Polícia Civil da Barra da Tijuca. Era chefe de tráfico em Acari e seu assassino jamais foi encontrado. Teria sido ao menos procurado?...
Flávio levará ao Planalto os mesmos vínculos caso o Brasil cometa a insanidade de o eleger presidente da República. Como deputado estadual carioca ele condedeu moções de louvor, título e a Medalha Tiradentes e diversos policiais militares que depois foram investigados, denunciados e até condenados por homicídio, corrupção e participação em milícias e grupos de extermínio. Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do BOPE, acusado pelo "Escritório do Crime" (um nome novo, mais moderno!) e chefe de milícia em Rio das Pedras é o maior exemplo desse grupo que ainda conta com Fabrício Queiroz e outros.
Cabe a pergunta: é esse o Brasil que você quer?






