12 de maio de 2026

Sem anistia para golpista

A imagem fotográfica feita através do vidro quebrado de uma das janelas do Palácio do Planalto em 08 de janeiro de 2023 (foto) deveria ser suficiente para convencer qualquer pessoa sensata de que golpistas não podem ser anistiados. Se as penas impostas aos criminosos daquele dia foram pesadas demais, isso é um caso a ser avaliado. Mas membros do Parlamento pretenderem reagir à sustação da votação da dosimetria retirando do esgoto a tal Lei da Anistia é de uma insensatez que beira a loucura e porque até os porteiros do Supremo Tribunal Federal sabem que essa anomalia será dada como inconstitucional.

Vamos analisar a questão por dois atores menores. Um deles, o deputado federal Sóstenes Cavalcanti é pastor, teólogo (assim se apresenta) e membro da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, a corrente liderada pelo também dito pastor Silas Malafaia. Não é preciso dizer mais nada. Ele acha "inevitável" a votação da tal anistia e sabe que ela será considerada inconstitucional pelo STF. Sua posição é apenas a aposta no caos institucional.

A outra figura é o senador catatinense Esperidião Amin, 78 anos (Cavalcanti tem 51), um egresso da velha Arena, colaborador da ditadura militar brasileira, saudoso dela e que sempre se aproveitou de posições de extrema direita para renovar mandatos. Hoje no PP, ele jura que quer aprovar a anistia para "pacificar" o Brasil (sic!). Comunga da ideia de que os presos e condenados, sobretudo o ex-presidente Jair Bolsonaro são vítimas de perseguição política implacável e por isso precisam ser anistiados para retornar à vida pública.

A tudo isso se soma a figura de Flávio Nantes Bolsonaro, o "filho pródigo" feito candidato pelo papai presidiário. Vai tentar a presidência da República com as bandeiras de submissão total às políticas dos Estados Unidos, torpedeamento da legislação trabalhista, asfixia da Saúde, tutela da Educação por parte de sua corrente de pensamento e, se possível, privatização do maior número possível de entidades educacionais, o que vai desde educação técnica até as universidades e, como se ainda não bastasse, a privatização de nossas maiores empresas públicas como são os casos da Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e a Petrobrás. Essa última é a cereja do bolo da extrema direita brasileira!

Não é por outro motivo que Flávio foi homenageado em eventos do agronegócio brasileiro recentemente. Os empresários do setor sabem que nunca tiveram tanto dinheiro à sua disposição através do Plano safra e outras sinecuras como ocorre agora no governo Lula. Então por que isso? Simples: porque a eles não interessam apenas as benesses do Estado, mas sim o controle total sobre a economia agrícola e pecuária do Brasil, num governo que poderia privatizar até o Palácio do Planalto caso isso fosse possível ou viável.

Não haverá mais ganho real sobre as correções dos vencimentos, principalmente de quem recebe através da Previdência Social, como é o caso do salário mínimo. Benefício de prestação continuada? Esqueçam. A conta vai cair de novo sobre as camadas mais subalternas da população e é quase certo que, em caso de naufrágio das propostas econômicas de um improvável governo Bolsonaro 2, novamente vejamos filas em frente aos açougues para a disputa de ossos de animais abatidos para o consumo. Os pobres emprenhados pelo canto das sereias extremistas de direita vão ver com quantos paus se faz uma canoa.

E como tragédia pouca é bobagem, o ministro Nunes Marques assume a presidência do Tribunal Superior Eleitoral hoje convidando à solenidade de sua posse dois presos: os ex-presidentes Jair Bolsonaro e Fernando Collor de Mello. É um cartão de visitas como não poderia ser nenhum outro. E mostra explícita sobre de que forma pensam não apenas ele, mas também o ministro André Mendonça. Por que então termos receio de qualquer coisa dar errado e um novo quadro sombrio surgir no horizonte? Se acontecer um "imprevisto", bastará levar a cabo outro projeto de anistia e eles estarão pacificando o Brasil.

Com a paz dos cemitérios!

10 de maio de 2026

A bandeira Ypê

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), órgão do governo encarregado de zelar pela confiabilidade dos produtos colocados à disposição da população, identificou em alguns detergentes da marca Ypê a presença da bactéria Pseudomonas aeroginosa, sobretudo alguns lotes específicos de lava-roupas líquido. O fabricante, a Química Amparo anunciou o recohimento cauteloso e voluntário dos lotes contaminados, o que é procedimento normal. Isso deveria encerrar tudo, mas veio o inacreditável.

Como o fabricante é um conhecido empresário bolsonarista, os seguidores dessa corrente "ideológica" viram na iniciativa um ataque à empresa Amparo. E, a começar pela ex-primeira dama Michele Bolsonaro, iniciaram campanha em favor do consumo da marca, mesmo o dos lotes com contaminação, identificados nas gôndolas dos supermercados com o "1" fechando a numeração. E muitos adotaram esse comportamento claramente irresponsável pedindo a compra dos detergentes. A Anvisa, por sua vez, passou a apenas não recomendar esse uso condenado por medida de precaução.

É o Samba do Crioulo Doido versão eleições presidenciais!

Hoje mesmo o candidato Flávio Bolsonaro foi fazer propaganda eleitoral em Florianópolis, o que é ilegal antes de iniciado o processo de campanha oficial, e vestindo uma camisa onde se lia: "O PIX é do Bolsonaro. O Master é do Lula". Trata-se de uma inverdade deslavada, mas de que importa? E em seus discursos naquela cidade e diante do governador Jorginho Melo proclamou que vai reduzir a maioridade penal para 14 anos e endurecer o combate à corrupção, no que foi seguido pelo senador e ex-juiz Sérgio Moro. Ele só não explicou seus vínculos com o senador Ciro Nogueira e os casos de rachadinhas, compra de imóveis em dinheiro vivo, conluio com milicianos e outros casos de corrupção mais. Todos comprovados! 

Estamos às vésperas de uma campanha ileitoral na qual a verdade será assassinada e sepultada todos os dias, sobretudo nos palanques onde estiverem candidatos da oposição ao governo. E tudo será feito sem o menor pundonor, sem a menor cerimônia. Sérgio Moro, que deixou o governo Bolsonaro onde era ministrao por não aceitar nomeações para a pasta de Justiça de pessoas sem qualifificão moral suficiente, agora vê em Flávio o indivíduo capaz de acabar com toda a corrupção que assola o Brasil e sobre a qual ele e seus iguais acusadores não possuem a menor sombra de prova concreta. E ele era juiz!!!!!

Não será bom o samba desafinado que se avizinha na campanha presidencial. Hoje mesmo os comícios fora de hora, todos eles ilegais, mostraram que não vai haver limite para os ataques, inclusive à democracia. O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes votou a ser achincalhado por ter suspendido a dosimetria das penas do criminosos de 2023 porque há recursos pendentes e ainda não julgados. E isso era necessário nesse momento.

Michele Bolosnaro podia beber um vidro de detergente para provar seu amor pela marca do empresário bolsonarista do coração. Isso, sim. seria uma bandeira para quem não tem nenhuma.

30 de abril de 2026

De militâncias e militantes

O plenário do Senado estava superlotado ontem à noite (foto) para a votação da recusa, por parte dos senadores, da indicaçação do jurista Jorge Messias a ministro do Supremo Tribunal Federal. Ao final, para júbilo daqueles que entendem o exercício da política como embate sem limites, a indicação do presidente ao cargo foi rejeitada, coisa que não acontecia desde o final do Século XIX, durante o governo Floriano Peixoto. O placar, o presidente do Senado anunciou à boca pequena antes de ele ser colocado para todos ("vai perder por oito"). Estava encerrada a comédia na qual se transformou o exercício político no Brasil.

Coube ao senador governista Rogério Marinho explicar porque o nome de Messias foi rejeitado. Segundo ele, por ser mais um caso de "militância" do presidente Lula. Mas Marinho é filiado ao PL, o partido dos militantes do bolsonarismo no Legislativo Federal. Não reúne todos porque vários estão espalhados taticamente por legendas como Novo, Republicanos, União, PSD e outros por onde navega a fina flor do reacionarismo político brasileiro. Ora, o que é então essa militância "denunciada" agora por esse senador potiguar?

A militância é a dedicação total, quase exclusiva a uma causa, ideologia ou outro tipo de atuação política visando a mudança da sociedade. Em um ponto a gente tem que ser justo: a oposição visa mudar a sociedade. Mas de que forma? No caso específico dos militantes de Bolsonaro, quer a volta do Estado ao que era antes do governo atual, com todos os seus defeitos. E vai continuar tentando fazer isso por todos os meios possíveis e imagináveis, como houve ontem. Nesse caso, com a participação do presidente da casa, Davi Alcolumbre, um filiado ao União Brasil. Sim, eles precisam se espalhar por diversos partidos...

Se houver necessidade de outra tentativa de golpe, por que não?

O Congresso Nacional de hoje é o pior de todos os tempos. Age visando lucros, quase exclusivamente. A indicação de um ministro do Supremo Tribunal Federal é prerrogativa da Presidência da República e o nome enviado deve ser de alguém com notório saber jurídico e reputação ilibada. Só caberia ao Senado julgar isso. Mas, a começar pelo presidente Alcolumbre, ele se julga no direito de ter um candidato todo seu, de se recusar a receber em gabinete o indicado pelo presidente e também de manobrar nos bastidores para eleger "A", prejudicar "B" e ultrapassar não apenas os limites de seu poder, mas também os da decência.

Durante o governo anterior o ministro André Mendonça sofreu resistências, mas foi aprovado. Os mesmos parlamentares que hoje acusam o governo de militância, militavam em seu nome. A mulher do então presidente, Michele Bolsonaro, comemorou de maneira efusiva a aceitação daquele ministro por ser ele evangélico, e essa não era uma de suas atribuições. Aliás, não é a de ninguém. Atualmente as nomeaçoes, aprovações de leis e tudo o mais passam obrigatoriamente por "bancadas". Existem várias e agora há até mesmo a das bets, e da qual já participam 12 parlamentares, seis deputados federais e seis senadores. Esse câncer de nossa política tende a se espalhar, sem um remédio eficaz que o combata.

E hoje, na ressaca dessa decisão esdrúxula do Senado, identifico um risco: o presidente Lula nomeou algumas pessoas para cargos importantes atendendo a anseios sobretudo de bancadas como a evangélica, e ainda liberou mais verbas para criminosas emendas parlamentares. Se os políticos entenderem que essas indicações de ministros das cortes superiores de Justiça podem ser doravante um bom negócio em termos pecuniários ou de blindagem, aí então, além de termos de dizer adeus definitivamente aos critérios de saber jurídico e vida ilibada, teremos que atender a exigências ainda a sair dos esgotos da política nacional, tipo: "E aquele meu processo, como vai ficar depois?"      

25 de abril de 2026

Ensaio sobre a estupidez

 

"Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta" (Albert Einstein)

Einstein era judeu numa Alemanha que se nazificava. Em 1933, considerado "inimigo número 1" do Reich alemão, renunciou à cidadania de seu país, imigrou para os Estados Unidos e pode continuar a estudar e produzir ciência física até morrer. Em Berlim sua casa foi transformada em sede da Juventude Hitlerista, forma encontrada então para os nazistas combaterem a "física judaica degenerada" daquele desertor que pelo resto de sua vida lecionou no Instituto de Estudos Avançados, em Princeton. 

Ele teve mais sorte do que Dietrich Bonhoeffer (foto), que acabou sendo preso pela polícia política nazista e levado ao cárcere. Lá, seria executado pela forca na madrugada de 09 de abril de 1945, poucos dias antes de a Alemanha ser libertada do jugo nazifascista pelos exércitos aliados. Hitler não queria que seus maiores inimigos sobrevivessem à sua derrota já certa.

Mas quem era esse inimigo terrível? Um revolucionário comunista? Um "terrorista selvagem" como são chamados hoje os inimigos das atuais extremas direitas? Um membro de movimentos de insurgência anti-Israel? Um guerrilheiro treinado para tomar o poder? Não, nada disso. Era um teólogo e filósofo, além de pastor luterano, membro ativo de uma das vertentes do protestantismo. Mas cometeu o "erro" de não aceitar a ditadura alemã e lutar contra ela. Foi preso e morto. Só que antes escreveu, e muito, sobre a estupidez humana.

Ele disse, em tradução livre: "A estupidez é um inimigo mais perigoso que a maldade. Contra a maldade você pode lutar, resistir, denunciar, pode prender, porque a maldade tem uma lógica, quer algo, e como quer algo é possível se antecipar a ela. Mas contra a estupidez não há defesa porque a pessoa estúpida - e aqui vem algo importante - não é alguém com pouca inteligência, é alguém que renunciou a usar seu pensamento próprio, alguém que entregou sua capacidade de pensar a um líder, a um grupo, a um slogan, a uma ideologia barata, e depois que isso ocorre ninguém pode convencê-la com a lógica, não pode recorrer à sua razão porque ela já não tem a razão própria, mas sim a de outros que a dominam".

Por isso Hitler dominou pessoas cultas como médicos, engenheiros, professores, técnicos os mais variados, porque esses indivíduos, quando chegam ao poder, quando o ocupam muitas vezes sem imaginar que um dia chegariam a tanto, agem como autômatos e são incapazes de raciocinar por si próprias. Foi por esse motivo que no nazismo gente comum cometeu as maiores atrocidades possíveis e imagináveis. Crimes dos quais sobretudo a Alemanha hoje se envergonha. Conheci um médico, coitado, que um dia foi cogitado para ser secretário municipal de saúde de Cariacida. Ele não precisava disso, mas embriagou-se pela possibilidade e viveu aquilo como um sonho. E quem era o prefeito de então? Um homem culto, probo, de carreira respeitada? Não, não era. Era Cabo Camata, um criminoso sem princípios que depois escolheu outro medico por indicação de partido político a ele ligado.

Por isso existe Donald Trump hoje. Por isso o nazifascismo gerou Benjamin Netanyahu, um fiel executor da herança de Hitler. Ele e seus ajudantes abjuram os ditadores passados, mas são iguais a eles em quase tudo. Aqueles fizeram dos judeus os inimigos a serem aniqulados. Os sionistas atuais fazem o mesmo com os árabes e sobretudo os palestinos. Essa turba controlada e subjugada pela ideologia da extrema direita precisa ter um inimigo comum como bandeira, alguém a ser aniquilado. Uma etnia ou ideologia.

Pensemos nisso hoje, às vésperas de uma eleição decisiva no Brasil. Jair Bolsonaro, que é em tudo e por tudo filhote daqueles que desprezam os princípios constitucionais das nações, "elegeu" seu rebento mais velho, o "moderado" para tentar a presidência da República e buscar mais uma vez no golpe de Estado, no estupro da nossa democracia e na violação de todos os princípios legais que regem essa Nação um meio de chegar ao poder para torná-lo absoluto e passar por cima até mesmo do Supremo Tribunal Federal, como Trump deseja fazer nos EUA. Ainda dá para reagir. Que esse ensaio sobre a estupidez sirva para acordar a todos nós enquanto ainda é tempo.

Bonhoeffer disse que a única maneira de enfrentar os estúpidos é com coragem. Ele tinha razão!                    

23 de abril de 2026

O fanfarrão que estica a corda

Tem gente que ocupa boa parte de seu tempo para estudar o gestual de Donald Trump. As poses sentado diante de interlocutores com o corpo todo à frente na poltrona, quase saindo dela enquanto seus auxiliares ficam compenetrados atrás, o punho fechado demonstrando força como nessa foto acima, os braços para o alto como em comemoração ou então com uma dancinha ridícula. Finalmente, para evitar nos alongarmos muito, o dedo apontado geralmente em direção a algum jornalista como quem diz um "fala você agora!". Tudo isso foi estudado ao longo dos muitos anos passados como animador de auditório nos programas de TV que fazia nos EUA. Tudo rigorosamente tudo, meticulosamente estudado.

Adolf  Hitler fazia o mesmo com seu fotografo pessoal, durante os anos 1930  na Alemanha. Com todos os recursos da época, Heinrich Hoffmann usava longas sessões de fotografia nas quais o ditador alemão ensaiava várias poses que seriam depois mostradas em seus discursos diante de platéias imensas, geralmente em áreas abertas. Era o que se podia fazer então. Na foto vertical o leitor pode ter uma noção do que era o show hitlerista.


Mas notem bem esse ponto em comum entre ambos: suas aparições nunca deixavam (ou deixam, no caso atual) de ser ensaiadas. São parte de um espetáculo que visa mostrar força, poder, transmitir medo e em última análise matar também. O ditador alemão chegou ao ponto de não precisar mais dar satisfações a ninguém no age de seu poder, antes do declínio. Trump ainda tem que aceitar as regras do jogo democrático, mas as odeia. Se pudesse, destruiria todas elas. No fundo ainda vive essa esperança, mas sabe que precisa agir com cuidado e sempre cercado por párias incapazes de questionar uma única de suas ordens. Nesse ponto, como Hitler fazia.

Há um ponto não comum agora separando o ditador alemão de seu protótipo norte-americano: o primeiro jogou tudo numa aposta na qual ele sabia que ganharia o mundo caso vencesse ou seria morto se perdesse. Perdeu! Trump, não. Sabe que os freios e contrapesos da Constituição dos Estados Unidos não podem ser superados com facilidade e sente medo. Muito medo de ser derrotado e perder até a liberdade.

Agora, sobretudo e principalmente em relação às eleições de meio de mandato, quando pode perder a maioria no Congresso de seu país e virar um "pato manco", usa de toda a força possível de ser reunida para governar. Mas que ninguém se iluda: o protótipo de ditador dos Estados Unidos vai fazer o diabo para driblar a sorte, as leis de seu país e continuar ao comando do projeto de poder total. Não desistirá fácil. A extrema direita estará ao seu lado esticando a corda, ameaçando, fazendo todo tipo de fanfarronices e tentando manter o astro de televisão como chefe da Casa Branca. Ele tem ainda muito tempo pela frente para fazer ameaças ao planeta inteiro e colocar o rabo entre as pernas dizendo que venceu em todas as vezes em que tudo der errado. Seu medo maior é ouvir um "você está demitido" do povo norte-americano em novembro, como fazia na TV com os calouros.  

É irônico, mas de Brasília uma sua cópia tupiniquuim estará o tempo todo diante das TVs olhando o infinito para aprender e passar as aulas ao 01 que sonha com o Palácio do Planalto onde quer entregar depois seu País a Tio Sam. Vocês o acham moderado, democrata?  Não se iludam, o projeto dele de governo prevê corroer e destruir a democracia brasileira começando pela economia e as relações de trabalho, esfacelando o salário mínimo, os aposentados, o direito do povo à aposentadoria e quem sabe à greve também. Torçam para não acontecer.

Mas torçam votando em outubro! 

17 de abril de 2026

O lawfare como arma

 

As pessoas mais lúcidas vão concordar com essa minha afirmação: tudo o que o Brasil não precisava nos dias de hoje era viver uma crise de grandes proporções envolvendo os poderes da República. Sobretudo e principalmente Legislativo e Judiciário. Então, uma pergunta que cabe fazer é essa: o que deu na cabeça do senador Alessandro Vieira, do MDB de Sergipe, mas gaúcho de nascimento, para que ele trouxesse a público um parecer tão tresloucado de CPI do crime organizado como o que leu em plenário? É certo que a peça foi rejeitada, mas o estrago já estava feito. E que estrago!

Estamos vivendo uma fase dura do trato político no Brasil, onde o lawfare se transformou de método de trabalho para arma de combate. Essa, digamos técnica, consiste no uso estratégico e deturpado da lei e procedimentos jurídicos para perseguir e deslegitimar, podendo chegar a prejudicar ou aniquilar um oponente, seja ele político - a prática mais comum entre nós - econômico ou militar. Por aqui ele é usado dia e noite pela extrema direita política nos embates que são realizados, sobretudo nessas pré campanhas próximas às eleições.

O emedebista Alesandro era tido e havido como político equilibrado, de bom ou até fino trato. Ao longo de sua atuação no Senado, chegou a concordar em mais de 70 por cento com as propostas que vinham do atual Governo. Ficou difícil de ser entendido o fato de ele, da noite para o dia, ter elaborado um parecer sobre crime organizado no qual pedia o indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) como participantes dessa mesma organização, além do procurador geral da República. Estranho, muito estranho: no relatório elaborado não constava um único nome de membro da classe política. E temos hoje no Brasil o pior e mais corrupto Poder Legislativo de todos os tempos.

Poucas coisas podem servir melhor ao País do que as comissões parlamentares de inquérito, pois elas têm o poder de levantar dados, investigar fatos e trazer à luz os problemas mais candentes do Brasil. Mas quando se transformam em armas a serem usadas contra o Estado, tornam-se mais letais que o crime organizado pretensamente combatido. E isso acontece sempre que a balança da Justiça é puxada para baixo por mãos indevidas, movidas por interesses inconfessados e em épocas nas quais é fácil produzir uma crise institucional.

Teremos pela frente eleições nas quais o jogo sujo vai ser colocado na ordem do dia. O lawfare já está sendo usado até mesmo por quem não sabe o que é isso. Tanto que o candidato a presidente Flávio Bolsonaro usou como propaganda de campanha imagens de penúria e venda de ossos ocorrida nos anos de governo de seu pai, veiculadas pelo programa Fantástico e que podem ser, como estão sendo, desmascaradas facilmente. Ou seja: não se usa do menor pudor nem resquícios sequer de honra para tentar obter votos. Vale tudo. E se num quadro como esse até relatórios senadoriais podem ser produzidos e usados com objetivos pouco claros, estaremos diante de uma situação para lá de anômala.

Ontem o senador Alessandro Vieira esticou ainda mais a corda dizendo ter absoluta certeza de que a prisão de ministros do Supremo Tribunal Federal vai chegar. Talvez, senador, talvez. Os tribunais, da mesma forma que as demais organizações, são ocupados por seres humanos e estes carregam consigo seus méritos e defeitos. No Poder Legislativo atual esses segundos abundam graças ao baixo nível de grande parte de seus ocupantes. Vai daí, é bem mais provável que venhamos a ver legisladores de algemas. Mas isso não é o ideal.

O bom é que ao longo do dia de hoje, por iniciativa do ministro Luiz Fachin, está sendo colocada água nessa fervura. É o melhor caminho. 

8 de abril de 2026

A Justiça precisa ser mudada

"Não há nada mais relevante para a vida social que a formação do sentimento de Justiça" - Rui Barbosa.  

No Brasil a Justiça não tem o direito de falhar. Se ela perder o respeito do homem comum, do cidadão que acredita nos valores da cidadania, rapidamente se tornará pasto para os abutres.

Sempre que os meios de Comunicação mostram matérias depreciativas dos conceitos de Justiça, aqueles que pregam o fim do Estado Democrático e de Direito vibram. São eles os artífices dos golpes de Estado, os incentivadores das negações de nossos nortes como sociedade e dos tumultos como meio de chegar ao poder e mantê-lo contra todos os preceitos constitucionais hoje em vigor e cujo conjunto de valores é intenção dessa turba destruir. A história recente do Brasil mostra isso com abundantes cores nos mais diversos episódios e não apenas nos do tristemente conhecido 08 de janeiro de 2023.

Nos últimos dias têm abundado as matérias que mostram comportamentos erráticos de ministros do Supremo Tribunal Federal. Não apenas no tocante à vida ligada às suas atividades enquanto juízes na Suprema Corte, mas também nas decisões que visam proteger uns aos outros e a todos através de outras que resgardam os interesses dos poderosos. O ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, é um exemplo disso. Dificilmente se chega a ele e também raramente os grandes meios de Comunicação o tratam da mesma forma que os demais, sobretudo os ligados ao governo federal atual. Esse ex-presidente de BC tem muito a explicar, e não apenas sobre o escândalo do Banco Master e seus filhotes.

No Brasil é triste ver o Supremo envolvido em episódios pouco claros. Ele foi um dos principais responsáveis pela intocabilidade de nossa Constituição e pela manutenção do Estado Democrático e de Direito depois dos episódios que culminaram com o 08 de janeiro de 2023. Então, ver um ministro que tem esposa recebendo milhões por serviços de advocacia prestados a gente sem honra, outro desfrutando os prazeres de resorts seus e da família, mais um com filho recém formado em Direito ganhando um dinheirão, também mais um discursando publicamente para deixar entender que não será estrela, isso quando seu discurso é a antesala dessa situação, e mais outros restringindo o acesso e a divulgação de investigações ao cidadão comum é de fazer corar. Principalmente quem sente vergonha!

Na internet, um dia desses alguém postou pergunta sobre saudade da ditadura militar brasileira. Foi assustador ver a quantidade de pessoas falando sobre como era bom andar nas ruas naquela época (sic!), que os militares só mataram bandidos, deixaram a tarefa pela metade, não tiveram coragem para impedir a posse do atual presidente, precisam voltar mesmo sem eleições e outras coisas mais. Em parte isso é fruto de ignorância, mas no maior  percentual dos discursos é principalmente resultado do reacionarismo que marca a sociedade brasileira. E esse aleijão moral nacional só pode ser transposto e tornado passado sem volta com educação e exemplo. Esse exemplo, excelentíssimos senhores ministros dos tribunais superiores, precisa vir obrigatoriamente de cima. Caso contrário o brasileiro comum, esse que está chegando agora aos bancos escolares não vai aprender que somos uma sociedade culturalmente múltipla, mas focada em valores éticos e morais que devem ser defendidos contra intempéries e agressões externas.

Justiça não é um poder seletivo ou medroso e por isso ele deve tardar o mínimo possível para não falhar justamente para aqueles que mais precisam dele. E estes estão na base da pirâmide social e não nos píncaros onde moram ministros e o poder de decisão que na maioria das vezes não olha para baixo. Por isso o intelectual Rui Barbosa, um conservador como grande parte dos brasileiros, pedia que houvesse sentimento de Justiça entre seus iguais. Dessa forma é transferida confiança e respeito a todos os inquilinos das leis que regem o País.

Ouvindo diariamente as falas dos políticos sabemos o que todos pensam e também em que limite ideológico estão aqueles para os quais tudo o que temos em matéria de cultura legal pode ser pura e simplesmente destruído. Eis o perigo: eles não querem substituir os dez ministros que hoje compõem a corte maior da Justiça, mas sim esta, que para esse grande grupo é apenas e tão somente um incômodo. Por isso precisamos refazer rapidamente a estrutura do poder reinante. Ele é necessário, mas seus vícios e defeitos podem destruí-lo e a nós também.