16 de março de 2026

Caso de identidade

Quando eu era pequeno, ia muito a cinema, coisa que faço até hoje. Num deles então existente da Avenida Lins de Vasconcelos, no Cambuci em São Paulo, gostava de ver os filmes de bangbang, que eram muitos e passavam todos os dias. Ficava triste porque os índios perdiam todas as batalhas, até que um dia papai me disse: "É da cultura deles, filho. O índio e o assaltante de bancos são os bandidos dos filmes". Então entendi porque a maioria se identificava tanto com as histórias de mocinho e bandido.

Um dia meu pai foi comprar munição para uma espingarda de caça dele numa loja de Campos dos Goytacazes porque iriam, ele e seu cunhado Antônio caçar marrecas nas barrancas do Rio Paraíba do Sul, perto de Atafona. Eu não iria com eles para não ver os bichos serem mortos e provoquei uma gargalhada geral na loja de armas ao questionar se lá eram vendidos "revólveres de mocinho". "Como são esses?", perguntou o comerciante. Expliquei: "Eles só ficam sem balas depois que os xerifes se escondem atrás das pedras. Os dos índios e dos bandidos nunca acertam o alvo e falham porque as balas mascam depois do segundo tiro..."

"Um batalha após a outra", o grande campeão do Oscar 2026 - seis estatuetas - é o retrato da cultura dos Estados Unidos. Um belo filme, com um Leonardo DiCaprio marcando presença (foto), mas apenas isso. Só que ele é a identidade do cinema daquele país. É a cara da cultura norte-americana e quem escolhe os campeões de qualidade em Hollywood são todos de lá. Identificam-se com os mocinhos de seus filmes. "O agente secreto", lindíssimo e com uma aula de interpretação de Wagner Moura é a cara do Brasil, um retrato de nossos valores, uma reconstituição de parte da história brasileira mais recente e seria mesmo muito difícil ficar com o maior de todos os prêmios nas terras de Tio Sam.

2025 foi ano de belos filmes. Como "Hamnet: A vida antes de Hamlet", que premiou Jessie Buckley como melhor atriz no papel de Anne Hathaway, a mulher do bardo William Shakespeare. Não poderia ter sido escolhida outra. "Valor Sentimental", mais uma bela obra, acabou premiado porque não poderia ficar de fora. "Marty Supreme" e "Pecadores", que não vi, também foram reconhecidos. Faltou premiar "Sonhos de trem", um drama humano belíssimo e que tinha um brasileiro como autor da fotografia. Enfim, não se pode exigir muito no mundo do cinema. Nem que a grandeza de "Foi apenas um acidente" terminasse reconhecida, isso para não termos que falar de todos, como também de "Frankenstein".

Como no ano passado com "Ainda Estou Aqui" o Brasil mostrou que estamos num momento mágico de nosso cinema, o que não seria possível num governo de extrema direita. Hoje mesmo muita gente minúscula comemorou o fato de "O Agente Secreto" não ter ganho ao menos um Oscar, mas todos sabemos que ele é o grande vencedor e vai ser lembrado como alguma de nossas melhores produções, como foi o caso de "Eles Não Usam Black Tie", que nada ganhou além de muito respeito por ter sido um enfrentamento à ditadura militar.

O Brasil é pródigo em bons atores e atrizes, diretores talentosos e autores com belas histórias. Uma delas foi "Marighela", de 2019, que marcou a estréia de Wagner Moura como diretor e contou com uma atuação maiúscula de Seu Jorge vivendo o personagem principal. Esse filme talvez nunca entrasse em circuito nacional se o hoje presidiário Bolsonaro ainda fosse presidente, porque todos os boicotes foram feitos para impedir a exibição desse trabalho. Não passa e não passará pelas cabeças das pesssoas muito pequenas, sobretudo ética e moralmente, que o cinema é antes de tudo uma expressão artística e não existe arte dissociada de seu caráter social, político e também ideológico.         

Definitivamente, o Brasil leva jeito...             

 

11 de março de 2026

A Justiça e o Estado de Direito

O Supremo Tribunal Federal (STF) tornou-se alvo preferido dos ataques mais solertes da extrema direita política do Brasil, e não por suas falhas e erros que evidentemente existem, e muitos, mas sim por seus méritos inequívocos, sobretudo e principalmente na defesa intransigente da democracia brasileira. Isso o extremismo brasileiro não aceita de forma alguma. Para eles, muito melhor do que o Estado Democrático e de Direito é ver porta-aviões dos Estados Unidos no Lago Paranoá, em Brasília, sonho dourado de Flávio Bolsonaro, a cópia do pai preso e feita em papel carbono retocado desse criminoso, inelegível e genocida.

Devemos reconhecer: a extrema direita política brasileira não aceita o STF porque não se vê nele.

Ela foi apoiadora do golpe Estado de 1° de abril de 1964, guerreou pela manutenção deste e estava em campo oposto ao das forças democráticas que lutaram durante 21 anos pela volta da democracia representativa ao Brasil, em 1985. De lá para cá sempre tentou solapar as instituições civis brasileiras que se reconhecem ao olhar no espelho do Brasil de hoje. Por isso estava acampada diante de quartéis durante a tentativa de golpe de Estado de 08 de janeiro de 2023 e consegue ver no seu país de hoje uma ditadura. Mas muito diferente daquela que apoiara num passado recente, para prender ilegalmente, torturar e matar.

Hannah Arendt, filósofa alemã que marcou época no pensamento mundial com a criação do conceito de "banalidade do mal" ao escrever "Eichmann Em Jerusalém" e onde disseca a personalidade de Adolf Heichmann, disse certa feita que "a essência dos Direitos Humanos é direito a ter direitos". Ora, sempre que um regime ditatorial ocupa o poder em qualquer parte do mundo, a primeira coisa que ele faz é retirar dos cidadãos seus direitos mais elementares. Isso aconteceu no nazismo que a judia Arendt estudou tão bem através da personalidade de criminosos de guerra. Acontece ao longo dos tempos, como agora no Brasil quando os saudosos do nazifascismo tentam reviver os períodos mais sombrios da história brasileira.

O STF é alvo porque representa a democracia que só pode ser questionada pela maioria da população via eleições e/ou plesbicito. Como o extremismo de direita teme esse tipo de processo de consulta popular, tenta obter o poder através da força. Tem hoje no psicopata Donald Trump um aliado fundamental que usa o fascismo político como arma para conseguir ocupar corações e mentes. A direita brasileira vê nele um aliado e pode querer usá-lo como trampolim para que um novo Bolsonaro ocupe o poder. Mas esse sujeito, o ianque, vê apenas dinheiro diante de si. No nosso caso, principalmente minerais raros que  pretende tomar, se preciso à força, usando o artifício de "narcoterrorismo" para tanto.

O Supremo não é perfeito. Composto por seres humanos, carrega em si os defeitos de todos nós, ainda mais porque alguns ministros têm tido pouco cuidado e permitido que interesses privados se confundam com o público prevalecente acima de tudo. Graças a isso tornam-se alvo do oportunismo político de quem não se vê nele. O momento brasileiro atual reflete isso: centenas de vigaristas de mandato investem contra os organismos superiores da Justiça para atacar. Dessa forma pretendem atingir todas as instâncias do poder constituído e abrir caminho para seu discurso eleitoral maquiado e diredionado a destruir o Estado de Direito.

A imprensa, dolosa e culposamente colabora com isso. Uma jornalista de O Globo, Malu Gaspar, tem se dedicado a acusar o STF. Não teria problema se ela não fosse uma lavajatista conhecida e que se deixou fotografar diante de um Sérgio Moro em pose de majestade quando ele ainda era respeitado. Sua blusa laranja na foto acima destaca-se no grupo e a coloca em situação de dúvida. A mesma que tenta jogar agora contra ministros do Supremo. Por isso, no exercício da denúncia o jornalista tem que ser homeopático nos offs e, ao mesmo tempo, abusar de fontes identificadas ou situações concretas, paupáveis. Malu, profissinal talvez digna, deveria saber disso e ter esse cuidado para não deixar a posição de pedra e se tornar vidraça.

Estamos em tempos difíceis. Enquanto no Brasil a maior corte de Justiça, da qual o país não pode abrir mão por tudo o que ela representa, é alvo de tiroteio intenso, uma parcela grande, imensa mesmo do espectro político nacional defende com unhas e dentes um recuo ao autoritarismo na calda de cometa do presidente norte-americano capaz de tudo para obter seus objetivos. Isso de novo nos remete a Anna Arendt no livro "As origens do totalitarismo". Ela defende que esse sistema, inédito no mundo até o início do século XX, não busca apenas controle político das sociedades, mas a dominação total do homem, do ser humano agora definitivamente destituído de esfera privada e capacidade de ação individual.

Seria isso o que queremos?   
             

          

9 de março de 2026

O Fusca da Ana

 

Ninguém diria que a paranoía de extrema direita fascista do presidente norte-americano Donald Trump tiraria do túmulo da ditadura militar brasileira um cadáver político de 1969. Mas tirou! E isso aconteceu porque um senhor idoso foi detido no aeroporto internacional da Ciudad de Panama quando em trânsito para a Guatemala num voo da empresa aérea papamenha Copa Airlines. O jornalista Franklin Martins viajava para uma palestra em evento na Cidade da Guatemala e fazia escala no Panamá porque não existe voo direto entre o Brasil e a capital guatemalteca. Só por esse motivo. Detido, acabou devolvido ao Rio de Janeiro graças aos arquivos da inteligência (?) dos EUA e numa história que merece ser recontada.

Em 1969 o Brasil vivia o auge da repressão política e eram comuns prisões ilegais, torturas e assassinatos nos porões dos órgãos de repressão da ditadura. Nesse ano a Ação de Libertação Nacional (ALN), e o Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) sequestraram o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick no Rio de Janeiro. Era intenção trocar o diplomata por presos políticos brasileiros, o que aconteceu 78 horas depois. O fato foi amplamente divulgado pela imprensa (composição de fotos acima) e, dentre os sequestradores estavam o hoje comentarista da Globo News Fernando Gabeira e Franklin Martins, então jovem militante político que acreditava, como muitos outros, na opção da luta armada para combater a ditadura militar brasileira.

Houve carta-manifesto lida nos órgãos de Comunicação e foto do grupo embarcando para o exílio no México (foto ao lado).  Todos os envolvidos ficaram para sempre ligados ao fato e, sobretudo, aos órgãos de segurança dos Estados Unidos. Anos mais tarde Franklin seria nomeado ministro do governo Lula nas suas passagens iniciais pelo Palácio do Planalto nos primeiros dois governos e, na ocasião, o novo ministro, oriundo da TV onde era comentarista político optou por não aceitar ir aos Estados Unidos numa delegação brasileira porque havia o risco de ele ser preso pela Justiça daquele país, mesmo ocupando ministério.

Mas nem o tempo que passou para não voltar mais apagou para os EUA o fato de que um sequestrador de diplomata não havia sido preso e condenado lá. E isso não prescreve! Então, na ida à Guatemala o agora veterano palestrante brasileiro foi detido no Panamá, não conseguiu chegar à Guatemala e precisou acionar o sempre amigo Lula para intervir. Ele foi ao País centro-americano, sim, mas depois de o caso esclarecido junto ao Itamarati.

O irônico é que Nilo de Souza Martins, irmão mais velho de Franklin e que já morreu faz 16 anos, foi editor chefe do jornal A Gazeta de Vitória onde eu era editor de esportes. Na época a gente sabia de um fato insólito ligado ao sequestro de Elbrick: na falta de algo melhor, Franklin pegou "emprestado" para o sequestro o Fusca de sua irmã Ana Maria Machado, escritora e que chegou a ser presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) no biênio 2012/2013. Ela não sabia de  nada, chegou a ser presa e teve que ficar exilada durante bom tempo por causa disso. Guarda mágoas até hoje.

Então um belo dia conversávamos sobre isso Nilo e eu na sala do editor chefe de A Gazeta e o irmão mais velho de Franklin (foto recente deste à esquerda), à época ministro de Estado,  disse que seu mano jamais 
poderia pisar nos Estados Unidos por causa desse fato e já estava conformado porque havia vivido anos na Europa como exilado político. Então eu ri e disse ao Nilo: "A raiva deles é que seu irmão desmoralizou os Estados Unidos. Onde já se viu, em plena ditadura militar, em época de guerra fria um embaixador ianque ser sequestrado por militantes comunistas de Fusca? É muita desmoralização para o Tio Sam!"

Nós demos grandes risadas por causa disso, sobretudo Nilo, um homem politicamente de centro. O Fusca de Ana Maria Machado jamais frequentou o caso de Burke Elbrick como história contada. Mas é um caso único no mundo das crises políticas. E hoje é triste a gente ver o fascismo de volta, a Casa Branca tomada por extremistas e o Brasil correndo o risco de ser atacado por causa de grupos criminosos tornados narcoterroristas sem o serem graças ao conluio de brasileiros traidores da Pátria que querem destruir a nossa incipiente democracia. Triste também ver que dentre esses entreguistas há jornalistas lavajatistas ou ocupantes de cargos de presidência em academias de letras.               
           


7 de março de 2026

O Escudo Trump

 
O Brasil não foi convidado para a reunião "Escudo da América" que Donald Trump realiza hoje o dia todo em uma de suas propriedades na Flórida, onde vai se encontrar com a fina flor o reacionarismo político latino americano como é o caso do presidente da Argentina, Javier Milei (foto) e poderá discutir abertamente com esses seus próximos as mais diversas formas de sabotarem os princípios mais básicos da democracia representativa que hoje ainda consegue sobreviver nesse mundo de guerras. É uma grande honra para o governo brasileiro não fazer parte do convescote de reacionários declarados.

Ontem mesmo, para não ser preciso usar muito a memória, Trump disse nos EUA que a ele não importa se o próximo governo do Irã será democrático ou não, contanto seja "bom" para os Estados Unidos, Israel e os países próximos. E também que deem a ele o direito de roubar petróleo da mesma forma como isso está sendo feito na Venezuela. Democracia jamais foi do interesse do presidente norte-americano. Aliás, isso é um estorvo. Tanto que seus  maiores aliados do Oriente Médio são ditaduras duras, familiares e reacionárias. A Arábia Saudita, que como diz seu nome pertence à família Saud, é um exemplo claro.

Desde que assumiu a presidência há pouco mais de um ano Trump fez crescer de maneira exponencial sua fortuna. Em bilhões de dólares. E premiou os setores empresariais que o apoiaram e apoiam com recursos quase ilimitados, como é o caso da área de petróleo. Hoje saem navios lotados de óleo bruto da Venezuela para os Estados Unidos a fim de engordar as reservas estratégicas daquele país. O fluxo tende a aumentar muito, sobretudo agora que as relações diplomáticas foram reatadas oficialmente entre Washington e Caracas.

Pior para Cuba, o próximo alvo da sanha do odio trumpista. Ele diz quase todos os dias que o fim do país caribenho está próximo. Para isso conta com a ajuda incondicional de seu secretário de Estado, Marco Rubio, um filho de exilados cubanos anticastristas que dariam e dão tudo para verem a derrocada do regime político cubano. Mesmo à custa da miséria do povo que, em última análise, é formado por ascendentes dos Rubio.

Aliás, miséria dos povos pouco importa ao atual governo ianque. Nos primeiros momentos da guerra entre EUA e Israel contra o Irã uma escola de meninas foi borbardeada e mais de 180 pessoas morreram, dentre elas uma centena - acredita-se - dessas jovens garotas, algumas na pré-adolescência. Os Estados Unidos nada fazem para apurar responsabilidades. Está fora de cogitação um pedido formal de desculpas. Afinal, o que aquela garotada estava fazendo lá na casa dela enquanto os EUA lutavam por petróleo e pela manutenção do sionismo nazifascista de Benjamin Netanyahu? Elas morreram e pronto. Acabou!

A marca clara do atual governo dos Estados Unidos pode ser medida pelo fato de que em todos os lugares onde o país vai regociar a "paz" e há petróleo por perto, um dos mediadores é Jared Kushner, o marido da filha Ivanca, empresário, investidor bilionário e atual "diplomata" a serviço do sogro. Afinal de contas, tudo no atual governo, como a reunião de hoje num endereço privado, são negócios de família. Apenas grandes negócios.

Mesmo um ataque a Cuba para destruir o governo cubano e aquele país é uma oportunidade rara de negócios. Em Varadero, por exemplo, Trump, Kushner e o restante da gang podem expandir o balneário e fazer um resort - tipo a Gaza dos Sonhos! - onde irão magnatas norte-americanos quem sabe para jogar nos cassinos a serem construídos e operados pela mesma máfia que Fulgêncio Bstista mantinha lá antes de 1959, com as cubanas sendo as meretrizes a serviço da "elite" visitante. Afinal, é confortável ter um prostíbulo tão perto de casa!  

Business is business!      
 

5 de março de 2026

Suicídio ou "suicídio"?


O Estado é responsável pelas pessoas que mantém sob custódia, e isso não é de hoje. O cidadão de nome extenso Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido pelo simbólico apelido de "Sicário" (foto), se suicidou na prisão quando estava sob custódia da Polícia Federal, em Belo Horizonte e logo após ser preso.

No mínimo ou miseravelmente ele não foi custodiado como deveria e permitiu-se que encontrasse meios de se matar por enforcamento dentro de uma cela da PF. Isso se foi mesmo suicídio, se foi ele quem tomou a decisão e se acabou sendo bem atendido no Hospital João XXIII, para onde foi levado e constatou-se morte cerebral durante o atendimento. Por sinal, os aparelhos que o mantém vivo ainda não foram desligados.

Sicário significa indivíduo contratado para matar alguém. Um assassino de aluguel. Um pistoleiro. Jagunço, em outras palavras. Há vários nomes na língua portuguesa, com mais de uma origem, para dizer o que é esse personagem. Fácil então concluir que quem carrega nome como esse não pode ser pessoa de respeito. Do bem. Tanto que hoje mesmo sua prisão, suicídio e morte em um hospital já geraram memes como esse abaixo e que o mostra sendo colocado numa ambulância ao ser levado da PF para atendimento de emergência.  

O caso do Banco Master Ruboriza. Não apenas pela amplitude, mas também pelos personagens que envolve. De cara consta que as autoridades já encontraram nos celulares de Daniel Vorcaro - são inúmeros - gente como os parlamentares Marcelo Álvaro (PL-MG), Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), Hugo Motta (Repubicanos-PB), Arthur Lyra (PP-AL), Nikolas Ferreira (PL-MG), Diego Coronel (PSD-BA), Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), João Carlos Bacelar (PL-BA), Altineu Cortes (PL-RJ), Doutor Luizinho (PP-RJ), Fausto Pinato (PP-SP), Márcio Marinho (Republicanos-BA), Flávia Arruda (PL-DF), Rodrigo Maia (PSD-RJ), Lucas Gonzales (Novo-MG), Vinícius Poit (Novo-SP), Bilac Pinto (União Brasil-MG) e Fábio Mididieri (governador de SE-PSD). Nikolas Ferreira voou 12 vezes no avião de Daniel Vorcaro durante a campanha presidencial em 2022, mas não sabia quem era ele. E esse escândalo tem origem no bolsonarismo à época da gestão de Jair Bolsonaro na Presidência da República.

Mais: o senhor Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central do Brasil durante a gestão Bolsonaro estava e está à frente de toda a permissividade que levou ao escândalo do Caso Master. Ainda não foi responsabilizado por isso. Somente Daniel Vorcaro e sua proximidade maior, onde se situam até mesmo pessoas ligadas ao Banco Central do Brasil estão presas. Vorcaro, inclusive, era chefe de quadrilha e chegou a ameaçar de morte várias pessoas como é o caso do jornalista Lauro Jardim, de O Globo.

Isso tudo fede. E o Brasil tem um longo histórico de pessoas que dasaparecem por serem arquivos ambulantes. Esse "Sicário" não é o primeiro e, ao que parece, não será o último a morrer pouco antes de uma delação premiada. Durante a ditadura militar isso aconteceu muito com conotações políticas, mas hoje continua ocorrendo sempre que alguém sabe demais contra gente poderosa e não pode ou não deve falar.

É preciso também que se olhe para outro fator: após o vazamento da informação de que 18 deputados da direita, incluindo Nikolas Fereira e Arthur Lira constam do WhatsApp de Daniel Vorcaro, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, decidiu não priorizar a CPI do Banco Master. Quem tem a consciência pesada tem medo...rsrsrs.  

Presumo que era de bom tom que o "Sicário" se calasse.             

   

2 de março de 2026

Teatro do absurdo

A paz só é possível, em quaisquer circunstâncias imagináveis, se as partes em conflito a estiverem buscando. Ela não surge do nada e se na mesa de negociações é colocada apenas a submissão absoluta de uma delas em relação à outra ou às outras, a possibilidade de um acordo se torna quase igual a zero. Isso antecedeu o ataque dos Estados Unidos e de Israel em Irã. Os EUA e o governo israelense sempre tiveram a intenção de atacar aquele país. Desde o início.

Donald Trump joga sujo em relação à política internacional e tem em relação a Benjamin Netanyahu uma submissão difícil de ser entendida. Faz com que ele enfrente até seu núcleo duro de apoio político conhecido como Maga para atender aos interesses do sionismo governante na Israel de hoje, jamais parando de fornecer armas ao aliado incondiconal. Aliás, incondicional sempre, porque foi assim com praticamente todos os presidentes norte-americanos desde a fundação do estado judeu de 1948 para cá.

As negociações de Omã em busca da paz foram apenas um teatro do absurdo que antecedeu a hora certa do ataque ao Irã. Enquanto Steve Witkoff, o enviado dos EUA para assuntos externos e Jared Kushner, o genro do presidente, representavam seu país em Omã diante do ministro das relações exteriores daquele país, Badr Albusaidi, americanos e israelenses monitoravam Teerã. Quando uma reunião de cúpula foi convocada porque os iranianos acreditavam que as negociações seguiriam, o ataque veio. Sem comunicado algum. Sem declaração de guerra. Sem que as hostilidades fossem alertadas antes ao Congresso, como manda a Constituição dos Estados Unidos. Sem que o israelense comum soubesse de coisa alguma, a não ser por um seco comunicado de Netanyahu e pelas sirenes de ataque aéreo.

Donald Trump jamais se preocupou com democracia. Aliás, ele acabaria com a dos EUA caso pudesse. Seus maiores aliados no Oriente Médio são ditaduras como a da Arábia Saudita, onde o chefe de Estado mandou matar um cidadão de seu país - um jornalista - em Istambul e sumir com o corpo. Era um opositor e ele não aceita opositores.

Da mesma forma como esse presidente ianque é amigo dos ditadores que o abraçam, faz vista grossa para as armas nucleares de Israel, hoje capazes de destruir muito mais do que essa da foto acima, lançada pelos EUA contra Hiroshima em 06 de agosto de 1945, três dias antes de os japoneses decidirem que a II Guerra Mundial teria de acabar. Ele também não se importa com teocracias e atacou o Irã não por esse motivo porque teocratas amigos abundam no Oriente Médio. Os sauditas são uns deles. Além disso, esse país rico em petróleo e em favores para com os aliados tem forças armadas poderosas fornecidas pelos americanos.

Israel cultiva inimizades e comete genocídio no Oriente Médio sob as asas de seu protetor da América do Norte. Não fosse assim, já teria buscado a paz com os vizinhos para viver com eles nas fronterias determinadas pela ONU em 1948. O apoio incondicional norte-americano alimenta o expansionismo sionista e também seu militarismo e o enfrentamento aos demais países. Enquanto isso não terminar teremos um quadro de instabilidade política extrema naquela região e um barril de pólvora que pode explodir a qualquer momento com consequências inimagináveis. E ele ainda não explodiu. Está latente.

Até lá talvez os palestinos sejam exterminados.     

26 de fevereiro de 2026

A arte de fazer o molho

 

"A liberdade de eleições permite que

você escolha o molho com o qual

será devorado" (Eduardo Galeano)


A intenção às vezes não é percebida como a gente deseja. E se isso acontece, fica fácil aos opositores construir factóides capazes de destruir essas metas e fazer com que o público acredite na mensagem contrária, aquela que torna o caminho traçado apenas um atoleiro onde vamos nos meter para afogar todas as aspirações.

Sem a intenção de fazer disso um laboratório de pesquisa, dediquei-me nos últimos tempos a perguntar, simplesmente por questionar, o que pessoas próximas a mim e não obrigatoriamente amigas pensam da campanha presidencial que se aproxima. Dois discursos são perfeitamente detectáveis: "Lula é ladrão" e "Bolsonaro é honesto". Para milhares de brasileiros comuns essas afirmações são reais. E ambas estão tão distantes da verdade factual quanto a terra do sol (só por curiosidade, são 149,6 milhões de quilômetros).

Por que distantes? Primeiro, não há prova alguma concreta, palpável, de que o atual presidente tenha roubado. Se há ela é um mistério tão profundo que a oposição a ele a guarda presa dentro de sete chaves, mas mantém o discurso porque ele "pegou". A segunda, então, faz corar porque abundam evidências, provas robustas de que Jair Bolsonaro e seu séquito familiar usaram e abusaram do direito de produzir provas contra si. A compra de mais de uma centena de imóveis em dinheiro vivo é apenas uma delas. As "rachadinhas" que envolvem o filho Flávio, "financiamento" de mansão em Brasília, etc, são outras. Os processos do 08 de janeiro, também. E há mais centenas.

Mas isso tudo não basta. Constroem-se contra o atual governo a ideia de uma administração perdulária. Uma das coisas que ouvi: "Bonita a 'fantasia' da Janja em Seul!". A mulher do presidente coleciona narrativas de gastadora e de quem se intromete na administração pública sem ter mandato para tal. Em Seul ela vestiu o hanbok (foto), traje típico das mulheres. A intenção era a de homenagear a primeira dama coreana. Houve isso, sim, mas o discurso no Brasil virou-se contra ela.

O governo não sabe escolher o molho das eleições e elas estão próximas. O antipetismo, caracterizado pela rejeição ao Partido dos Trabalhadores e ao presidente Lula, se mantém alto. Não desce de maneira nenhuma e o desfile das escolas de samba pode ter sido um tiro pela culatra. Sorte para o governo é que o mesmo acontece com o antibolsonarismo. Estamos, portanto, diante de um quadro no qual deve vencer nas urnas o menos rejeitado e não o com retrato de realizações de governo, onde Lula mantém ao menos a vantagem da terra à lua. Isso é ruim para o Brasil, mas essa é a realidade que se avizinha. Dura, cruel até, mas bem consolidada. 

A campanha eleitoral vai ser dura. Talvez suja. E o governo só vence se parar de errar. Recentemente, próceres do PT chegaram a pregar um absurdo: pretendem formar chapa puro sangue, só de petistas, para concorrer. Isso seria suicídio! Mas há setores no partido do governo que defendem esse molho e o assumem, o que reflete, sobretudo, a verdade de que o partido que exerce o poder gosta de governar sem coalizões. Sem dividir decisões. Dessa forma vai ser devorado, como no pensamento de Eduardo Galeano.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro em outubro será péssimo para a democracia. Um horror! O tal de "01" e seus amigos há disseram que a anistia - e ela beneficiaria não apenas Bolsonaro, mas também milhares de criminosos outros - será cobrada até "fora das quatro linhas" se o STF não a aceitar. E é inconstitucional! Na prática o que eles querem é que Jair e não seu filho governe como uma espécie de ministro plenipotenciário, anistiado de tudo, para sempre. O golpismo está sendo alimentado todos os dias, disseminado às quatro paredes. Eu era pré adolescente, entrando na adolescência em 1964 quando vi esse filme. Foi péssimo. Só ganhava "Oscar do Terceiro Reich".

Saber fazer o molho é uma arte. Hoje vital não apenas para o governo, mas sobretudo para a democracia do Brasil.