28 de outubro de 2026

As patas de Tio Sam

Restando apenas uma confirmação oficial de que o Governo dos Estados Unidos teve participação direta na fuga do candidato derrotado à presidência Flávio Bolsonaro daqui do Brasil para lá, esse episódio vai se revestir de uma gravidade única na história das relações diplomáticas entre países tão próximos. Os EUA sempre foram uma força intervencionista, sobretudo na defesa de seus interesses mais imediatos. Mas nunca antes como hoje. E no passado, antes da ascensão de Donald Trump ao poder pela segunda vez, jamais um ato ilegal, quase de pirataria, havia sido cometido de modo tão claramente descarado.

Isso há de marcar por muito tempo as relações entre os dois países. E também será a identidade definitiva do que é a política externa do atual presidente ianque.

Agora mesmo tem muita gente comemorando o fato de esse tal 01, moderado de araque, ter ido embora do Brasil. Li alguns "já vai tarde", como se isso encerrasse a questão. Não. Há o chefe do Departamento de Estado Marco Rubio por trás desse ato e de hoje em diante, lá dos Estados Unidos, Flávio fará parte de todo o esforço de chantagem contra o Brasil e que já tem a ajuda de figuras como Steve Bannon, um fascista confesso, beligerante sem limites e que de agora em diante poderá incitar a cada dia mais o clima de hostilidade contra nosso País. E isso vai ser feito sem tréguas, com Flávio se aliando a Eduardo na tarefa. Caberá ao governo brasileiro rastrear dinheiro, pois eles terão que sobreviver agora sem uma fonte de renda conhecida e vinda daqui, já que não têm trabalho regular, remunerado, por lá.

Num passado não muito distante o embaixador Lincoln Gordon serviu de trampolim entre o governo dos EUA e os golpistas que derrubaram o presidente Joao Goulart em 1964 e instalaram uma ditadura militar de 21 anos no Brasil. Hoje as coisas não funcionam dessa forma e uma nova "Operação Brother Sam" seria inviável. Mas Trump é um gangster de paletó e gravata que confessa abertamente estar roubando o petróleo da Venezuela. Que tipo de escrúpulos o impediriam de roubar nossas terras raras? Nenhum!

O desaparecimento descoberto na manhã de ontem foi um fato inédito e que gerou, logo de saída, até mesmo memes como esses que ilustram o texto de hoje. Durante todo o dia, entrando pela noite, legiões de repórteres tentavam saber onde estava o sujeito, sua mulher e duas filhas. O mistério era a tônica até que às 18h30 minutos o senador Rogério Marinho deu entrevista para dizer que o telefone dele não parava de tocar e tudo o que sabia era que o candidato derrotado de domingo havia tirado o dia para "esfriar a cabeça". E ele estava com todo o primeiro escalão do governo que não houve a seu lado, de modo que era difícil acreditar no discurso aparentemente mal ensaiado. Como tudo o que cerca os fatos.

Estamos diante de um teatro de mais autores para tentar explicar como vieram parar aqui, mais uma vez, as patas de Tio Sam. De certo sabe-se que outro membro dessa família de milicianos golpistas foi para os Estados Unidos atentar contra nosso País. O resto já se conhece. Bem como sabemos todos que o núcleo irracional desse movimento fascista contiuará apoiando qualquer insensatez o tempo todo e desfilando de carros com bandeiras do Brasil nas janelas. Felizmente esse simbolismo já começa a perder força.

Mas antes de que isso se corporifique tem gente até mesmo com mandato parlamentar pedindo a demissão de pessoas ligadas ao PT; outros - vejam que perigo! - sugerindo marcar casas e outros lugares ligados a votantes de Lula com estrelas vermelhas pintadas; o presidente da Faculdade de Direito de Vitória, instituição premiada, fez discurso golpista contra o resultado das eleições e até mesmo já foi sugerido que Flávio Bolsonaro, com ajuda dos Estados Unidos, deva ser declarado "presidente do Brasil no exílio" ou qualquer outro título do tipo "samba do crioulo doido" desses que aparecem por essas horas. Temos malucos para tudo, sobretudo em horas insólitas! 

E o governo Lula? Deve desconhecer essa pantomina, claro. Mas não sem antes fazer chegar ao governo dos Estados Unidos nossa indignação com a situação. Trump deve estar perto do fim do seu caminho pouco antes das eleições de meio de mandato por lá... Vamos lembrar em todos os instantes que os reais motivos dessa fuga estão ligados a crimes financeiros de grande monta cometidos sobretudo contra os aposentados e tendo como parceiros de Flávio e o restante do clã Bolsonaro figuras horrorosas como Daniel Veercaro, Willer Tomaz e outros ligados a esse submundo que emergiu dos esgotos com o renascimento da extrema direita política no Brasil.

É uma situação ridícula, mas própria de um movimento de aloprados. Quanto menos espaço eles tiverem, melhor. Vão sofrer de inanição política até que morram, no sentido figurado ou não. Agora, por exemplo, ainda há dúvidas durante o "Hora 1 da Notícia", da Rede Globo, sobre onde deve estar o fugitivo e sua família, mas eles teriam pousado em Guaiaquil, de onde o avião decolou depois para Miami. E já se vão daqui do Brasil tarde. Eles não o merecem. Nunca mereceram. Nem eles nem aqueles que os consideram maiorais de bravata.

26 de outubro de 2026

O golpe continuado

Desde as 21h09m de ontem Lula é presidente pela quarta vez e ganhou as eleições com mais de 4,4 milhões de votos de diferença para seu adversário. Mas é muito esperar que os Bolsonaro reconheçam uma derrota. Eles sempre perdem para o "golpe" embora sejam os golpistas do País desde que surgiram na política aliada ao crime.

Conheço a Universidade Presbiteriana Mackenzie de longa data. Desde muito antes de ela fechar seus portões ontem antes da 17 horas (foto) para não receber mais votantes da eleição presidencial do Brasil. No passado esse berço do fascismo paulista foi palco de fatos criminosos. Quem viveu 1968 se recorda da "Batalha da Maria Antônia", acontecida em 02 de outubro daquele ano. Alunos da Mackenzie e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP eram vizinhas na Rua Maria Antônia e entraram em confronto na época política conturbada e que desembocou no Ato Instituconal n° 5, de 13 de dezembro.
Foi uma batalha campal entre os estudantes da Universidade Federal - contrários à ditadura - e os da elite encastelados na Mackenzie - favoráveis, claro!

Houve vários feridos e um estudante da Federal morto. Ao final a escola na USP teve que ser transferida de local. Ontem, como hoje, as raízes do fascismo estudantil paulista estavam e estão lá. Na eleição presidencial de ontem isso pode ser checado com incrível facilidade. A foto em preto e branco que está aí ao lado talvez seja a única conhecida que restou daquele episódio. O palco para o estupro definitivo da nossa democracia estava sendo preparado pelo fascismo que havia tomado conta do Brasil desde 1º de abril de 1964.

Por que cito esse episódio no artigo de hoje? Porque como sempre os fatos se encadeiam. Hoje, como ontem, o golpismo do Brasil está no mesmo lugar. Ele fica junto à elite brasileira e os símbolos que ela carrega. A Mackenzie sempre foi um desses símbolos. Talvez o mais forte de São Paulo em 1968, quando ainda estavam nos corações e mentes dos brasileiros as "marchas das famílias com Deus pela liberdade" que abriram caminho para o golpe de Estado e a deposição do presidente João Goulart. Vocês notam com a história tenta se repetir? Primeiro como farsa e agora tentando ser tragedia de novo?

Ontem pela manhã, indo em direção à minha sessão eleitoral em Vitória, no bairro classe média de Jardim da Penha, zona norte, onde moro, cruzei com algmas pessoas vestindo o número 22 do candidato do fascismo. Eles sempre estão de semblante carregado. Os que vestiam o 13 da campanha do presidente Lula sorriam e mostravam as mãos com o símbolo do "L". É assim: um lado joga de peito aberto, o outro está acostumado com as sombras.

Flávio Bolsonaro disse que não iria - como não vai - reconhecer a vitória do opositor. Considera-se vítima de "uma sacanagem" como disse em seu pronuncimento rápido de mal perdedor. Recorrerá à Justiça para perder de novo e poder ficar com o discurso de vítima de um golpe que, sabe ele, vem de dentro de sua família. Está no DNA dos Bolsonaro e daquele imenso contingente de brasileiros saudosos da ditadura militar de 1964, de episódios de cunho golpista como a "Batalha da Maria Antônia" e outros. Eles sentem falta do Ato Institucional Número 5, das eleiçõs indiretas e de quando os adversários ou inimigos do regime político podiam sumir da noite para o dia. Agora, não mais. Agora as buzinas tocam depois da eleição e os vencedores comemoram na certeza de que, apesar de o golpe ser continuado, sempre haverá outro dia de sol e o Brasil não cabe no quintal de ninguém.

Ainda bem que vivi para ver isso!

23 de outubro de 2026

As faces da verdade

O filme "O outro lado das redes" (imagem ao lado), que entrou em cartaz ontem, pode ser explicado como "um drama biográfico de suspense funcionando como a sequência independente de 'A rede social'". Ao menos assim explica a sinopse oficial. Mostra fatos reais ocorridos em 2019/2021, quando uma informante, a engenheira Francis Haugen que é vivida por Mikey Madison passou informações sigilosas sobre o Facebook, agora Meta, ao jornalista Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), do The Wall Street Journal.

O resultado foram as reportagens "Os arquivos do Facebook" que desnudaram essa empresa e o empresário Mark Zuckerberg, cofundador da hoje Meta Platforms, ainda muito pior que a anterior e focada, como sempre, apenas em lucro, não importando as suas consequências.

As faces da verdade são muitas. Tanto que apesar do escândalo da época e de suas vertentes judiciais perdurando até hoje, a empresa que congrega as redes sociais Wastsapp, Facebook e Instagram continua atuando sem limites e fazendo mal não apenas àqueles de seu alcance direto nos Estados Unidos, mas também aos brasileiros que estão sendo atingidos pela interferência em nossas eleições e que vem sendo praticada com orientações que partem diretamente da Casa Branca, onde Zuckerberg é um cão de faro favorito a serviço do atual presidente norte-americano Donald Trump e sua entourage ou séquito, quadrilha, etc.

Aqui  no Brasil teremos domingo o segundo turno das eleiçoes presidenciais que colocam frente a frente o miliciano Flávio Bolsonaro e o presidente Luis Inácio Lula da Silva, que tenta sua quarta e última reeleição como presidente. Os brasileiros estão tendo que decidir entre um político da velha guarda, ex-retirante nordestimo e focado até hoje em causas sociais e um gangster de paletó e gravata, amante da ditadura militar 1964/1985 e que segue a cartilha, a cantilena de seu pai, o hoje presidiário Jair Messias Bolsonaro. Mais do que isso: servil ao extremo, já tendo tentado até mesmo mais de um pedido de intervenção militar norte-americana no Brasil e admirador de torturadores da época ditatorial.  

Em tempos normais seria uma escolha fácil. Mas não vivemos tempos normais.

Peca contra a lógica ou age de forma desonesta quem imagina os Estados Unidos apenas acompanhando à distância nossa eleição. Claro que não. O Brasil tem importância estratégica na América Latina, sobretudo na América do Sul, e é o último país importante que os EUA desejam ter sob sua influência direta no atual governo Trump, cujo foco é ter todo o hemisfério ocidental como sua área de influência direta. Esse é o projeto da extrema direita renascidas das cinzas de ditaduras passadas para as américas e que se insere num outro projeto, esse global, da estrema direita mundial também renascida. Nesse caso Donald Trump, Benjamin Netanyahu e outros menos votados são o epicentro do fenômeno que surgiu no início do século passado como mostra a ilustração e sob a inspiração de Benito Mussolini na Itália e Adolf Hitler na Alemanha. Eram movimentos de massa, como hoje...  

Por que vivemos um período decisivo? Porque
vamos definir nosso futuro domingo. E também se teremos futuro, porque o projeto da extrema direita é entregar o Brasil e suas riquezas de bandeja aos Estados Unidos. Sobretudo as terras raras, um imenso mar de minerais estratégicos que foi colocado sob nosso solo. E porque dentro de duas semanas serão os Estados Unidos a tentar cortar as asas desse abutre com ninho na Casa Branca e que pode, se tudo der certo, passar a ser apenas um pato manco, como se diz por lá e na segunda metade de seu mandato tendo que prestar contas a um Congresso então de maioria democrática.

É preciso ter em mente a dimensão do que estamos vivendo. A escolha de domingo deve ser a maior de todos os tempos para os brasileiros. Ou o Brasil segue soberano em seu caminho de progresso para além dos tempos de Lula, que em função de idade deste já estão chegando ao fim, ou acordamos segunda-feira novamente em 1964. Talvez até mesmo por causa disso o ministro Nunes Marques, do Superior Tribunal Eleitoral, ameace tanto o "Exercito de Lula" e consulte a Meta antes de tomar decisões de censura e antidemocráticas. Nós, os mais velhos, sabemos como isso se dá e o que foi há 62 anos...

19 de outubro de 2026

O gangster em sua arena


Esse que está publicado aí acima é o meme mais gentil que encontrei referente ao "debate" de ontem à noite na Band TV entre o presidente Lula (PT) e o candidato Flávio Bolsonaro, do PL. E foi ele próprio, o candidato, quem se colocou nessa situação ao ficar andando de um lado para o outro durante o tempo todo da transmissão de televisão, sempre atrás do presidente e com o claro intuito de atrair para si as atenções daqueles que acompanhavam o programa. Uma tática, como devo dizer, bem no estilo de Donald Trump e que consiste em atacar sempre, de maneira torpe e não responder a praticamente nada que incomode. 

Flávio Bolsonaro não é mais do que um gangster da política atual. Atua nas sombras, envolvido com crimes e criminosos e representando o que de pior a extrema direita política brasileira gerou nos últmos anos. Ele estar à frente das rachadinhas e da compra de sua mansão em Brasília é o mínimo. Também tomou ao jogador Richarlison uma propriedade na Ilha Comprida, Rio de Janeiro, "na mão grande", como explicou o atleta. A questão é tão insólita e estranha quanto qualquer outra história envolvendo a família Bolsonaro. Além disso são públicas e notórias as ligações desse 01 com milícias e outros gêneros de crime organizado, o que inclui até mesmo condecoraçoes dadas a criminosos condenados.

No debade de ontem à noite ele jogou por terra qualquer expectativa de que houvesse um confronto de ideias naquele ambiente. Desde o início levou a discussão para o terreno das agressões pessoais e passou o tempo todo chamando o adversário de mentiroso e acusando o governo atual de estar envolvido em corrupção. Mas em momento algum especificou a que caso ou casos de corrupção se referia. Essa é uma tática solerte, mas que em muitas situações dá resultado: jogar sobre o adversário as acusações que normalmente pesam contra quem acusa, repeti-las à exaustão e ao menos gerar dúvida razoável entre os espectadores. E isso ele fez. Estava bem treinado e o presidente chegou a se retrair, talvez de susto, no início.

Nem mesmo as tais "considerações finais" puderam ser feitas com calma porque a claque ficou histérica e isso levou a de Lula ao mesmo comportamento. Os dois jornalistas escalados pra mediar o debate devem ter saído de lá com a cabeça quente, da mesma forma que os telespectadores. Agora teremos outro episódio como esse na sexta-feira que vem, desta feita promovido pela Rede Globo. Ao menos o formato deve ser mudado. 48 horas antes da eleição não temos a esperança de ver outro Flávio, mais civilizado, no palco do combate, já que confronto de ideias dificilmente poderemos ver com esse personagem em cena.

Vejam com a questão é complicada. O candidato não explica coisa alguma, acusa de forma calhorda, promete reduzir despesas ao extremo sem dizer de onde o dinheiro vai "encolher" ao mesmo tempo em que garante manter projetos sociais do atual governo com custo elevado e, pior de tudo, recusa-se de forma definitiva a dizer o que foi feito com os R$ 134 milhões dados a ele pelo "banqueiro" Daniel Vorcaro ao mesmo tempo em que toma para si acusações levianas feitas por uma suposta amiga do filho do presidente, arrota outra acusação falsa de tomada de dinheiro desse mesmo Vorcaro para a feitura de um filme da vida de Lula que jamais existiu - fatos já negados -, transita entre essas acusações levianas com a desenvoltura de um porco no chiqueiro e insufla sua claque o tempo todo com o intuito gerar a cada vez mais confusão e desconforto. Conseguiu!

Houve um momento que deve ser destacado: o presidente Lula sugeriu a abertura total de contas dele e de Flávio Bolsonaro para o Brasil saber quem é corrupto. Ou então se ambos são. Ele, claro, desconversou.  Pode alguém como Flávio Bolsonaro governar o Brasil? Poder pode porque a Constituição permite, mas não deveria. Se num debate feito com o objetivo convencer eleitores indecisos sobre qual dos dois candidatos é o ideal para exercer a presidência da República do Brasil ele já impede de forma desonesta que ideias e projetos sejam apresentados, estamos diante da expectativa do caos. O que iria ser, caso Flávio se eleja, o Ministério da Prosperidade? Que atribuições teria? Que tipo de especialidades seriam entregues a ele? Quem seria o ministro? Um adepto de Olavo de Carvalho, um ideólogo de Donald Trump ou um general da ativa especializado em estatística?

Domingo dia 25 o Brasil vai decidir se teremos futuro ou não.

18 de outubro de 2026

Mais um ovo da serpente

O Projeto de Lei (PL) 3.723/2019, enviado ao Congresso Nacional originariamente por Jair Bolsonaro e agora defendido pelo seu filho 01, Flávio, propõe a alteração de normas sobre controle de armamentos e munições, o que inclui a dispensa ou revogação da exigência de marcação e/ou numeração de identificação de lote nos cartuchos e cápsulas de munição. Essa aberração foi aprovada pela Câmara dos Deputados e depois passou por discussão e impasses no Senado Federal, onde se encontra. O filho e candidato a presidente a defendeu na entrevista ao Jornal Nacional de quinta-feira última à noite.

Vamos recuar no tempo. Na década de 1970 o Brasil estava infestado de esquadrões da morte. Em Vitória um cemitério clandestino foi descoberto na Barra do Jucu, município de Vila Velha, onde eram desovados cadáveres de pessoas perseguidas pelos órgãos policiais ou de segurança. Não eram apenas criminosos comuns, mas também aqueles considerados "inimigos do Estado" tais como adversários políticos ou perseguidos pelas autoridades. Na ocasião eu era editor de esportes do jornal A Gazeta e trabalhava também como correspondente do jornal Folha de S. Paulo. A mim foi dada a incumbência de cobrir aquele fato para os jornais do Grupo Folhas.

Era fedorento chegar perto da Suprintendência de Polícia Civil, que ficava na Rua 7 de Setembro e depois em Bento Ferreira. Mas fui lá porque tinha que ir. O processo do Esquadrão da Morte do Espírito Santo envolveu um grande número de policiais que acabaram sendo acusados, presos e condenados, alguns a mais de 200 anos de prisão. Fui uma vez tentar ouvir o delegado Oswaldo Simões Sales, o Quito, homem extremamente violento. Na porta do gabinete dele havia uma placa: "O que você ver aqui, o que você ouvir aqui, quando sair daqui, deixe ficar aqui". O certo é escrever "O que você vir aqui", mas é muito esperar algum conhecimento da língua portuguesa por parte daquela gente.

Ouvi várias ameaças veladas de Quito referentes a não escrever "coisas inconvenientes" porque esse tal esquadrão da morte "não existe". Mas existia sim e seus membros exibiam com orgulho os chaveiros e outros adereços da Scuderie Detetive Le Coq, que os identificava (segunda foto). Note que no escudo existe um "E.M" bem marcado e que significava Esqudrão da Morte, embora eles o identificassem como Esquadrão Motorizado. Tenho histórias sobre isso contadas em meu romance "O faxineiro" (Edições Tertúlia, 2015).

Era muito difícil chegar aos criminosos de então. As marcações de munição foram instituídas para facilitar a perícia e identificar criminosos, principalmente os que se escondiam e se encondem nos organismos policiais do Brasil todo. Aliás, eles são uma fixação de Flávio Nantes Bolsonaro, conhecido apoiador de milicianos e outros criminosos comuns. Alguns, homenageou quando era deputado estadual pelo Rio de Janeiro onde o crime organizado é muito forte hoje, como sempre foi.

Esse projeto de lei que o candidato bolsonarista considera coisa pequena, "um detalhezinho" como disse na entrevista, será um salvo conduto para os novos esquadrões da morte. O pai, Jair, sempre foi suspeito de apoiar, esconder e até de participar dessas organizações criminosas. Em 04 de julho de 1995 panfletava para sua campanha à reeleição no Rio de Janeiro em Vila Isabel quando foi rendido por dois assaltantes. Teve roubada a moto Honda Sahara seminova de 350 cilindradas e uma pistola Glock calibre 380 que estava sob a jaqueta. Um dos assaltantes, Jorge Luís dos Santos, acabou identificado e preso em Salvador dias depois. Trazido para o Rio de Janeiro foi "encontrado" morto por enforcamento numa cela da Divisão de Polícia Civil da Barra da Tijuca. Era chefe de tráfico em Acari e seu assassino jamais foi encontrado. Teria sido ao menos procurado?...

Flávio levará ao Planalto os mesmos vínculos caso o Brasil cometa a insanidade de o eleger presidente da República. Como deputado estadual carioca ele condedeu moções de louvor, título e a Medalha Tiradentes e diversos policiais militares que depois foram investigados, denunciados e até condenados por homicídio, corrupção e participação em milícias e grupos de extermínio. Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do BOPE, acusado pelo "Escritório do Crime" (um nome novo, mais moderno!)  e chefe de milícia em Rio das Pedras é o maior exemplo desse grupo que ainda conta com Fabrício Queiroz e outros.

Cabe a pergunta: é esse o Brasil que você quer?       

15 de outubro de 2026

O fascismo e a prosperidade

 
Flávio Bolsonaro diz que se vencer a eleição de 25 deste mês vai criar o "Ministério da Prosperidade" e ficar sempre, o tempo todo de seu mandato que ele pretende aumentar para cinco anos, "junto ao povo brasileiro". Isso não é novidade na história moderna e vou contar a vocês como surgiu o "Carro do Povo" lançado há quase um século na Alemanha e cujo chefe de Estado, Adolf Hitler queria o amor incondicional de sua população.

Quando esse futuro ditador assumiu o poder na Alemanha, em 1933, seu país tinha um dos menores índices de motorização da Europa e ele queria mudar isso. Radicalmente. Inspirando-se em um modelo de produção em massa que havia sido criado por Henry Ford nos Estados Unidos, tocou o projeto de construir as "autobahns", rede de estradas alemãs tambem chamadas de "autobahnen" ou "Bundesautobahn". Mas pretendia mais: precisava de um carro para o povo chamar de seu e que custasse no máximo 1.000 Marcos do Reich, preço de uma moto na época. Ele entregou o projeto a Ferdinand Porsche - nome que nos remete até hoje a bons automóveis - e fez mais uma série de exigências que não vêem ao caso no nosso artigo. O carro foi lançado depois de idas e vindas - foto do lançamento - e se tornou, com o passar dos tempos, no icônico Fusca que os brasileiros amaram a partir de 1959. Cada um de nós tem ao menos uma história com eles.

Só para nos "alegrar", o projeto também se chamou KdF-Wagen (Kraft durch Freude ou "Força pela Alegria"). Que coisa bonitinha! Em 1959 ele passou a ser montado no Brasil, em São Paulo. As autobahns alemãs existem até hoje e lá elas não têm limite de velocidade em certos trechos onde "se recomenda" não passar dos 130 quilômetro por hora. Aqui isso ia fazer um sucesso incapaz de ser imaginado pelos mais prudentes. 

A prosperidade e a alegria sempre foram fixações do fascismo ou da extrema direita política, como vocês preferirem chamar sem que a gente entre em considerações acadêmicas. Esse projeto esconde o totalitarismo, as ditaduras civis e militares e os governos que pretendem se eternizar no poder. Hitler destruiu a democracia da Alemanha, tentou conquistar o mundo, gerou a II Guerra Mundial, os campos de concentração ou extermínio e sua guerra foi responsável por cerca de 40 milhões de mortos totais, a maioria deles civis e não só na Europa.

Por trás de uma aparência quase gentil, Flávio Bolsonaro, o 01 esconde um projeto extremista de poder e que começou com a ascensão do pai, o militar frustrado que tentou um golpe de Estado em 08 de janeiro de 2023 para não deixar a presidência a seu sucessor. Agora o clã quer voltar ao poder do Brasil, o último país da América do Sul que tem importância continental e ainda não se rendeu aos planos do novo fascismo que aqui em nosso continente é representado por Donald Trump, comandante do esquema mundial e encastelado na Casa Branca, onde elabora planos planetários. Mirabolantes.

Esse Flávio não tem compromisso algum com a democracia. Da mesma forma que Tarcísio de Freitas em São Paulo, Sérgio Moro no Paraná, Jorginho Melo em Santa Catarina e agora Luciano Zucco no Rio Grande do Sul. Cuidado, capixabas, com Lorenzo Pazolini aqui no Espírito Santo. Ele é um dos tentáculos desse polvo de proporções gigantescas...

Por tudo o que foi dito e ainda muito mais, é preciso preservar o Brasil. Já há fazendeiros querendo invadir terras de povos naturais, incêndios florestais e destruição de centros de estudos e pequisas em Universidades Federais. Tudo o que representa o progresso no Brasil e no restante do mundo eles odeiam. Acredito piamente na capacidade que temos de vencer a eleição de 25 de outubro, colocando para fora do poder de Estado do Brasil esse projeto que não chamo de tupiniquim em respeito aos nossos lindos povos originários.

Vamos lutar contra isso. Chorar o leite derramado vai ser muito pior. 

13 de outubro de 2026

O Estado fraturado

Às vésperas de um segundo turno de eleição presidencial nós, os brasileiros, independente de corrente política assumida, vivemos em um Estado fraturado. Com fratura exposta. Dividido quase literalmete ao meio e em um clima de quase guerra civil e que deveria ter no Poder Judiciário um elemento pacificador. Mas não esse o nosso caso.

A cisão dos últimos tempos levou à polarização social que representa o afastamento das posições em direção a dois extremos ideológicos - esquerda e direita - que enfraquecem as posições moderadas e, sobretudo, o Centro. E estou me referindo à direita ideológica, situada anos luz de distância da extrema direita em ascenção no mundo e no Brasil e também ao Centrão, o aleijão político oportunista quase próximo do assalto a mão armada.

Os últimos eventos envolvendo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e seu presidente, o ministro Kassio Nunes Marques, são o retrato do que ocorre nas cortes superiores de Justiça à vésperas dessa eleição. Escolhido pelo ex-presidente hoje condenado e mantido em prisão domiciliar já faz um bom tempo, Jair Bolsonaro, vê este comandar a extrema direita de seu endereço no Jardim Botânico de Brasília. Até as paredes sabem que nem uma única pedra é movimentada nesses tempos turvos sem seu conhecimento e aprovação.

Hoje o filho candidato a presidente recebeu autorização de visita e disse ter encontrado o pai feliz com o resultado do primeiro turno. Ele sabe disso desde o dia da contagem dos votos. Sabe também que passos seu espectro político deve dar daqui para a frente e que ordens diretas passar aos aliados, inclusive Kassio e André Mendonça.

O leitor acredita que Jair é um doente necessitando de tantos cuidados? Creio que não. Informa-se diariamente pela TV, internet e embora tenha restrição de acesso a seu próprio celular, o da esposa está livre e solto. Condenado a 27 anos e três meses de prisão, esse ex-presidente não passou um único dia trancafiado. É um caso único entre os presos brasileiros. Prova viva de que tentar golpe de Estado no Brasil é um ótimo negócio. Basta viajar para os Estados Unidos, se fazer de vítima e comandar o circo da extrema direita.

O Governo Lula seria totalmente inocente nesse espetáculo de baixa qualidade se não tivesse sido indiretamente envolvido nele graças ao fato de os tentáculos de Daniel Vorcaro terem atingido o Supremo Tribunal Federal. Mas não sua administração, apesar dos esforços de parte da chamada "Grande Imprensa" em conseguir isso via seu filho Lulinha. Ao menos se trata de um coadjuvante que não sabe manter distância protocolar da arena dos lobos.

O Estado fraturado não vai sair incólume desse processo. E embora a imensa maioria da bandidagem atual esteja encastelada no PL e proximidades, o jogo político de baixo escalão faz com que a lama de Brasília atinja a todos quase indistintamente. Kassio Nunes Marques, dono de vínculos com o escândalo Master, precisa de uma vitória bolsonarista para se manter quase incólume no submundo da extrema direita. Tem envidado esforços nesse sentido. Hoje, com o clima quase irrespirável do Brasil, já não é possível cravar que as eleições ocorram sem sangue derramado. Fogo em patrimônio público já há.