9 de março de 2026

O Fusca da Ana

 

Ninguém diria que a paranoía de extrema direita fascista do presidente norte-americano Donald Trump tiraria do túmulo da ditadura militar brasileira um cadáver político de 1969. Mas tirou! E isso aconteceu porque um senhor idoso foi detido no aeroporto internacional da Ciudad de Panama quando em trânsito para a Guatemala num voo da empresa aérea papamenha Copa Airlines. O jornalista Franklin Martins viajava para uma palestra em evento na Cidade da Guatemala e fazia escala no Panamá porque não existe voo direto entre o Brasil e a capital guatemalteca. Só por esse motivo. Detido, acabou devolvido ao Rio de Janeiro graças aos arquivos da inteligência (?) dos EUA e numa história que merece ser recontada.

Em 1969 o Brasil vivia o auge da repressão política e eram comuns prisões ilegais, torturas e assassinatos nos porões dos órgãos de repressão da ditadura. Nesse ano a Ação de Libertação Nacional (ALN), e o Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) sequestraram o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick no Rio de Janeiro. Era intenção trocar o diplomata por presos políticos brasileiros, o que aconteceu 78 horas depois. O fato foi amplamente divulgado pela imprensa (composição de fotos acima) e, dentre os sequestradores estavam o hoje comentarista da Globo News Fernando Gabeira e Franklin Martins, então jovem militante político que acreditava, como muitos outros, na opção da luta armada para combater a ditadura militar brasileira.

Houve carta-manifesto lida nos órgãos de Comunicação e foto do grupo embarcando para o exílio no México (foto ao lado).  Todos os envolvidos ficaram para sempre ligados ao fato e, sobretudo, aos órgãos de segurança dos Estados Unidos. Anos mais tarde Franklin seria nomeado ministro do governo Lula nas suas passagens iniciais pelo Palácio do Planalto nos primeiros dois governos e, na ocasião, o novo ministro, oriundo da TV onde era comentarista político optou por não aceitar ir aos Estados Unidos numa delegação brasileira porque havia o risco de ele ser preso pela Justiça daquele país, mesmo ocupando ministério.

Mas nem o tempo que passou para não voltar mais apagou para os EUA o fato de que um sequestrador de diplomata não havia sido preso e condenado lá. E isso não prescreve! Então, na ida à Guatemala o agora veterano palestrante brasileiro foi detido no Panamá, não conseguiu chegar à Guatemala e precisou acionar o sempre amigo Lula para intervir. Ele foi ao País centro-americano, sim, mas depois de o caso esclarecido junto ao Itamarati.

O irônico é que Nilo de Souza Martins, irmão mais velho de Franklin e que já morreu faz 16 anos, foi editor chefe do jornal A Gazeta de Vitória onde eu era editor de esportes. Na época a gente sabia de um fato insólito ligado ao sequestro de Elbrick: na falta de algo melhor, Franklin pegou "emprestado" para o sequestro o Fusca de sua irmã Ana Maria Machado, escritora e que chegou a ser presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) no biênio 2012/2013. Ela não sabia de  nada, chegou a ser presa e teve que ficar exilada durante bom tempo por causa disso. Guarda mágoas até hoje.

Então um belo dia conversávamos sobre isso Nilo e eu na sala do editor chefe de A Gazeta e o irmão mais velho de Franklin (foto recente deste à esquerda), à época ministro de Estado,  disse que seu mano jamais 
poderia pisar nos Estados Unidos por causa desse fato e já estava conformado porque havia vivido anos na Europa como exilado político. Então eu ri e disse ao Nilo: "A raiva deles é que seu irmão desmoralizou os Estados Unidos. Onde já se viu, em plena ditadura militar, em época de guerra fria um embaixador ianque ser sequestrado por militantes comunistas de Fusca? É muita desmoralização para o Tio Sam!"

Nós demos grandes risadas por causa disso, sobretudo Nilo, um homem politicamente de centro. O Fusca de Ana Maria Machado jamais frequentou o caso de Burke Elbrick como história contada. Mas é um caso único no mundo das crises políticas. E hoje é triste a gente ver o fascismo de volta, a Casa Branca tomada por extremistas e o Brasil correndo o risco de ser atacado por causa de grupos criminosos tornados narcoterroristas sem o serem graças ao conluio de brasileiros traidores da Pátria que querem destruir a nossa incipiente democracia. Triste também ver que dentre esses entreguistas há jornalistas lavajatistas ou ocupantes de cargos de presidência em academias de letras.               
           


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