"A liberdade de eleições permite que
você escolha o molho com o qual
será devorado" (Eduardo Galeano)
A intenção às vezes não é percebida como a gente deseja. E se isso acontece, fica fácil aos opositores construir factóides capazes de destruir essas metas e fazer com que o público acredite na mensagem contrária, aquela que torna o caminho traçado apenas um atoleiro onde vamos nos meter para afogar todas as aspirações.
Sem a intenção de fazer disso um laboratório de pesquisa, dediquei-me nos últimos tempos a perguntar, simplesmente por questionar, o que pessoas próximas a mim e não obrigatoriamente amigas pensam da campanha presidencial que se aproxima. Dois discursos são perfeitamente detectáveis: "Lula é ladrão" e "Bolsonaro é honesto". Para milhares de brasileiros comuns essas afirmações são reais. E ambas estão tão distantes da verdade factual quanto a terra do sol (só por curiosidade, são 149,6 milhões de quilômetros).
Por que distantes? Primeiro, não há prova alguma concreta, palpável, de que o atual presidente tenha roubado. Se há ela é um mistério tão profundo que a oposição a ele a guarda presa dentro de sete chaves, mas mantém o discurso porque ele "pegou". A segunda, então, faz corar porque abundam evidências, provas robustas de que Jair Bolsonaro e seu séquito familiar usaram e abusaram do direito de produzir provas contra si. A compra de mais de uma centena de imóveis em dinheiro vivo é apenas uma delas. As "rachadinhas" que envolvem o filho Flávio, "financiamento" de mansão em Brasília, etc, são outras. Os processos do 08 de janeiro, também. E há mais centenas.
Mas isso tudo não basta. Constroem-se contra o atual governo a ideia de uma administração perdulária. Uma das coisas que ouvi: "Bonita a 'fantasia' da Janja em Seul!". A mulher do presidente coleciona narrativas de gastadora e de quem se intromete na administração pública sem ter mandato para tal. Em Seul ela vestiu o hanbok (foto), traje típico das mulheres. A intenção era a de homenagear a primeira dama coreana. Houve isso, sim, mas o discurso no Brasil virou-se contra ela.
O governo não sabe escolher o molho das eleições e elas estão próximas. O antipetismo, caracterizado pela rejeição ao Partido dos Trabalhadores e ao presidente Lula, se mantém alto. Não desce de maneira nenhuma e o desfile das escolas de samba pode ter sido um tiro pela culatra. Sorte para o governo é que o mesmo acontece com o antibolsonarismo. Estamos, portanto, diante de um quadro no qual deve vencer nas urnas o menos rejeitado e não o com retrato de realizações de governo, onde Lula mantém ao menos a vantagem da terra à lua. Isso é ruim para o Brasil, mas essa é a realidade que se avizinha. Dura, cruel até, mas bem consolidada.
A campanha eleitoral vai ser dura. Talvez suja. E o governo só vence se parar de errar. Recentemente, próceres do PT chegaram a pregar um absurdo: pretendem formar chapa puro sangue, só de petistas, para concorrer. Isso seria suicídio! Mas há setores no partido do governo que defendem esse molho e o assumem, o que reflete, sobretudo, a verdade de que o partido que exerce o poder gosta de governar sem coalizões. Sem dividir decisões. Dessa forma vai ser devorado, como no pensamento de Eduardo Galeano.
Uma vitória de Flávio Bolsonaro em outubro será péssimo para a democracia. Um horror! O tal de "01" e seus amigos há disseram que a anistia - e ela beneficiaria não apenas Bolsonaro, mas também milhares de criminosos outros - será cobrada até "fora das quatro linhas" se o STF não a aceitar. E é inconstitucional! Na prática o que eles querem é que Jair e não seu filho governe como uma espécie de ministro plenipotenciário, anistiado de tudo, para sempre. O golpismo está sendo alimentado todos os dias, disseminado às quatro paredes. Eu era pré adolescente, entrando na adolescência em 1964 quando vi esse filme. Foi péssimo. Só ganhava "Oscar do Terceiro Reich".
Saber fazer o molho é uma arte. Hoje vital não apenas para o governo, mas sobretudo para a democracia do Brasil.

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