3 de abril de 2025

O Rolex de ouro

Houve um pedido dos senadores reunidos hoje com o presidente Lula na casa da presidência do Senado, em Brasília: a recriação por parte do governo do Ministério da Segurança ou qualquer coisa parecida com esse nome. Uma exigência para diminuir a pancadaria que em parte está jogando para o chão o prestígio pessoal do presidente. Além de o Brasil já ter ministérios em excesso isso preocupa por causa do que ter um aparato de segurança nacional lembra à maioria de nós. No meu caso, recorda um grande Rolex de ouro igual ao da foto acima.

O Brasil havia vivido, em1964, o golpe de Estado que tirou do poder o presidente João Goulart fazia pouco tempo e meu pai, Nelson de Albuquerque Silva usava para todos os atos um relógio dessa marca, bordas em ouro 24 quilates, comprado na época das vacas gordas da família. Amava sua joia e um dia chegou em casa do trabalho sem ela. Depois o vi dizer perto de minha mãe que o havia perdido. Não se falou mais no assunto. Era tema proibido dentro da nossa casa. 

A ditadura aconteceu há 61 anos e lá pelos idos de 1990, com o velho já vivendo em Vitória, provoquei o assunto e veio a história. Papai era dono da Thermoflux, fundição de alumínio que ficava no bairro da Mooca, em São Paulo, onde fabricávamos peças de motor de Simca. Um belo dia meu pai tirou o relógio para limpar as mãos, colocou-o sobre a bancada e não o encontrou mais ao voltar. Procurou, procurou e chamou a Polícia. O delegado ouviu os empregados um a um e depois falou com o velho Nelson: "Tenho três suspeitos e se eles forem comigo para  delegacia o relógio aparece. Só não sei se o ladrão volta vivo e também como vou fazer para proteger o senhor depois disso. Esse povo é daqui e barra pesada". Ele ouviu mamãe e mandou deixar para lá. Os suspeitos foram demitidos algum tempo após.

Décadas depois, na conversa que tive com ele ouvi de meu pai que ficou com receio de deixar a mulher viúva com cinco filhos pequenos. O delegado, conhecido ou amigo de Sérgio Paranhos Fleury, sabia como obter confissões rápidas e dolorosas. Eu disse: "Então você sabia como tudo acontecia, mesmo sendo politicamente de direita?" Ele balançou a cabeça afirmativamente. "Mas eles achavam que aquilo era necessário. Enfim..."

Trago esse fato à memória numa época em que  extrema direita política brasileira é muito mais violenta, inconsequente e irresponsável do que antes. Além do que, não tem respeito pelo Estado Democrático e de Direito, como mostram os fatos de 08 e janeiro de 2023. E a nossa democracia foi obra de muito trabalho. Os canalhas atuais não podem encontrar um caminho para tentar outra aventura como a de 64. Esse ministério proposto jamais deve servir como atalho para a canalhada fascista. Ele precisa ser cercado de cuidados!  

27 de março de 2025

Cheirando fumaça de óleo diesel

Ontem, dia em que um ex-presidente da República e outros sete asseclas, a maioria deles militares, se tornaram réus por diversos crimes junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), pela primeira vez oficiais de Estado Maior das Forças Armadas do Brasil julgados por um tribunal civil, há clima de calma no nosso país. Aquela calma que antecede a reparação por um grande crime cometido. Aquela calma que dá a todos a quase certeza de que brasileiros não mais conviverão com a impunidade absoluta. Não mais viveremos cheirando fumaça de óleo diesel como aconteceu em um passado recente.

No dia da condenação desse ex-presidente inelegível e genocida, dois ministros do STF, Carmen Lúcia e Flávio Dino disseram em seus pronunciamentos de aceitação da denúncia da PGR, que "ditaduras matam". E matam mesmo. Flávio Dino ainda explicou que podem não matar no mesmo dia, no mesmo mês, no mesmo ano. Mas matam. E isso é uma verdade incontestável.

Em 14 de junho de 1971, sete anos depois da implantação da ditadura e em plena vigência do AI5, Stuart Edgar Angel Jones (foto), 25 anos de idade, foi supliciado e morto na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. Depois de espancado e torturado, acabou amarrado a um jipe militar de motor ligado, com a boca dentro do cano de descarga. Arrastado pelo pátio da instalação militar, esfolado vivo, a boca totalmente queimada e cheirando fumaça de óleo diesel como diz a música "Cálice", teve também os pulmões destruídos. Estava descarnado. Gemendo e pedindo água, morreu sem assistência alguma. Havia ficado três dias escondido na garagem de remo do Flamengo, clube pelo qual torcia, remava e havia sido campeão, pouco antes de ser preso. Sua mãe, a estilista Zuzu Angel, passou longo tempo tentando localizar o filho até ser ela também assassinada por agentes da ditadura militar em um acidente forjado.

Stuart fazia parte de grupo paramilitar de contestação da ditadura. Então, se isso era crime, que fosse preso, processado, condenado e forçado a cumprimento de pena. Hoje mesmo o ex-presidente que adora a ditadura, as torturas, homenageou torturadores durante seu mandado e já disse mais de uma vez que, podendo, fecharia o Congresso, o STF e governaria de forma despótica como fizeram seus ídolos ditadores, responde a vários processos. Ele foi assassinado? Não, está sendo julgado na forma da lei. Acusa o Judiciário brasileiro de ser uma ditadura enquanto anda de jetski, discursa, aglomera pessoas nas ruas, ataca a todos e ainda promete voltar a infelicitar-nos. Que beleza de ditadura, essa!

No primeiro dia em que a Primeira Turma do STF se reuniu para a apreciação do caso dele e de sua quadrilha, estava presente. Quase a seu lado, na primeira fileira de poltronas destinadas a advogados e outras pessoas credenciadas ficaram Hildegard Angel e Ivo Herzog, respectivamente irmã de Stuart e filho de Vladimir Herzog, o jornalista que se apresentou voluntariamente para depor no Exército, em São Paulo, e foi assassinado sob tortura logo em seguida. Hildegard e Ivo foram os heróis daquele dia. Conseguiram passar um longo tempo ao lado de um sociopata assassino, às vezes olhando para ele, sem sequer vomitar.          

25 de março de 2025

"Sem chão" estamos todos



A reação nazifascista veio rápida. Menos de um mês após a conquista do Oscar por parte da equipe que rodou "Sem Chão", colonos judeus israelenses atacaram Hamdam Ballal, um dos coprodutores do filme que denuncia os crimes de guerra de Israel em Masafer Yatta, pequena comunidade árabe palestina, e o deixaram ferido. Mas não foi apenas isso. O cineasta está desaparecido desde então. Segundo Yuval Abraham, outro produtor, foi necessário pedir uma ambulância para socorrer o ferido e então, diz Abraham "os soldados invadiram a ambulância que ele chamou e o levaram. Nenhum sinal dele desde então".

"Sem chão", documentário feito da forma como era possível fazer, com o uso de celular e outros meios precários, mostrou como foi realizada a destruição de Masafer Yatta por parte de militares israelenses. Os produtores foram Yuval, Hamdam, além de Basel Adra. Este último fez outra denúncia: "Estou de pé com Karam, o filho de sete anos de Hamdam, perto do sangue de Hamdam em sua casa, depois que os colonos o lincharam. Hamdam, co-diretor do nosso filme "No Other Land" (título original) ainda está desaparecido após ter sido sequestrado por soldados, ferido e sangrando. É assim que eles apagam Masafer Yatta".

O documentário é duro e mostra tudo o que foi possível ser mostrado, quase sem sangue escorrendo. Em meio a cenas com imagens tremidas porque os filmadores corriam enquanto filmavam, aparece um soldado de Israel atirando a queima roupa contra morador local que ficou ferido, tetraplégico e foi colocado numa caverna até morrer porque não era possível à mãe o tratá-lo convenientemente naquela situação. Outro foi ferido a bala por colono judeu diante de soldado de Israel que apenas viu a cena sem esboçar qualquer reação. Uma escola foi destruída por máquina com crianças dentro. Mas ao menos para mim o mais cruel foi ver um caminhão betoneira transportando concreto jogar sua matéria nos poços de água que abasteciam a comunidade, concretando a boca desses poços. Sem água ninguém sobrevive.

Todas as imagens lembram outros episódios, tais como o de Sabra e Chatila (foto à esquerda). Trata-se do  massacre de refugiados civis palestinos entre 16 e 18 de setembro de 1982, quando a milícia maronita executou mais de mil pessoas como retaliação pelo assassinato do presidente eleito do Líbano e líder falangista Bachir Gemayel, invadindo o campo de refugiados onde eles estavam e atirando indiscriminadamente em todos, inclusive mulheres e crianças, enquanto o Exército de Israel cercava o perímetro para que ninguém fugisse e sobrevivesse ao ataque.

"Sem chão" merece ser visto. A foto principal acima e que também ilustra o texto, tirada durante a filmagem, mostra um blindado de Israel em Masafer Yatta protegendo a destruição da comunidade. Isso foi feito enquanto judeus colonos de assentamentos que os israelenses vão implantando em terras ocupadas apenas olham para os endereços que "ganham". Se um único palestino, árabe ou não, matar um colono ou soldado israelense, ele vira "terrorista" na imprensa ocidental, inclusive na do Brasil. Mas não me recordo de ter visto um único colega da chamada grande imprensa rotular de terrorista soldado ou colono de Israel que promove esses massacres. E ELES SÃO!. Além disso, seu país é um Estado terrorista e genocida. 

22 de março de 2025

100 anos de horror revivido


Talvez não tenha sido Adolf Hitler o primeiro a descobrir o valor da propaganda no universo político, mas certamente foi ele quem explicitou melhor o tema e o colocou em seu livro Mein Kampf  (Minha Luta), que está agora completando um século após ser lançado na Alemanha em julho de 1925. Trata-se do maior compêndio já escrito sobre ódio, megalomania, antissemitismo, ressentimento, xenofobia, apologia da violência e outros "atributos". O autor acreditava estar iniciando o Reich de mil anos, mas só ficou no poder de 1933 a 1945. Pouco tempo? Não, o suficiente para exterminar milhões de vidas e gerar outros milhões de filhotes espúrios, como é o caso de Donald Trump e aqueles que vivem, por exemplo, no Brasil e à sombra do psicopata Jair Messias Bolsonaro.

Trump, em pouco tempo na presidência dos EUA tentou várias vezes enfraquecer a Justiça de seu país, inclusive com propostas de impeachment de juízes, no que é amparado por seu melhor assessor, o sul-africano Elon Musk. A extrema direita nascida com Hitler e Mussolini precisa de um Poder Judiciário atrelado e subordinado ao Executivo e Legislativo para poder prosperar. Isso hoje acontece em vários países além dos Estados Unidos, como é o caso da Hungria de Viktor Mihály Orbán. Os extremistas de direita não são capazes de governar em democracias, mas somente em regimes de poder extremo. Nesses eles podem inclusive desconhecer o Legislativo para deportar para prisões de El Salvador as pessoas que não querem lá em seu pais, sem consultar ninguém. O que está sendo feito hoje mesmo.

É atribuído a Hitler o pensamento de que "qualquer cabo pode ser um professor, mas não é qualquer professor que pode ser um cabo", pois ele foi cabo do Exército Alemão na Primeira Guerra Mundial. Notem a "coincidência": Eduardo Bolsonaro, hoje fugido nos Estados Unidos, disse que para derrubar o Supremo Tribunal Federal (STF) bastaria apenas um Jeep, um cabo e um soldado. Ele é um dos filhos do projeto fracassado de ditador de aldeia Bolsonaro, que chegou a capitão do Exército Brasileiro antes de se envolver com sabotagens e ser reformado para não acabar expulso da corporação. Já defendeu publicamente torturadores da ditadura militar 1964/85, cuspiu em um busto do deputado federal Rubens Paiva, ameaçou e xingou colegas parlamentares, além de outras aberrações.

Trump agora ataca o funcionalismo público dos EUA porque quer ver a plutocracia norte-americana tomando conta de todos os ramos de atividade de seu país. Quer acabar com a pesquisa científica e a educação pública, pois nada disso o interessa posto que pode vir a contestar suas "verdades". Bolsonaro fez igual no Brasil durante seus quatro anos de desgoverno, quando produziu trocas de titulares na pasta da Educação, por onde passaram de Abraham Weintraub e Milton Ribeiro. Na Saúde, onde interessava a ele contestar as vacinas e patrocinar a cloroquina como meio de combate à COVID-19, nomeou o general da ativa Eduardo Pazuello, autor da frase "um manda e o outro obedece".

O reich de mil anos durou 12, mas o suficiente para espalhar o inferno sobre a terra. Como por exemplo em Israel onde a extrema direita judaica comandada pelo neonazista Benjamin Netanyahu está promovendo o genocídio dos palestinos diante de um poder mundial incapaz de reagir para deter os crimes de guerra cometidos contra estes e o povo do Líbano. Isso reforça em quem pretende continuar a luta contra a extrema direita política aqui e em qualquer outro lugar, a certeza de que o poder político mundial ainda vai continuar a assistir por muito tempo de braços cruzados a esse genocídio sem sentido.  

Nos Estados Unidos e onde quer que a extrema direita se manifeste, existe a certeza de que o combate a essa gente não pode parar. Bastou um Bolsonaro no Brasil para que os fascistas tupiniquins, antes encastelados na Frente Integralista Brasileira (FIB) saíssem de seu esgoto para voltar a tirar o sono daqueles que lutam por um Brasil de todas as suas correntes de pensamento democrático. Agora até mesmo manifestações claramente nazistas são vistas em terras brasileiras, sobretudo e infelizmente no Paraná e em Santa Catarina. Se as forças democráticas brasileiras não permanecerem atentas o extremismo de direita continuará sua ascensão, inclusive com novos personagens como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que participou de discursos pró Bolsonaro num domingo para três dias depois fazer manifestação em São Paulo elogiando a Justiça Eleitoral. Eles são assim.                        

15 de março de 2025

Sarney e a democracia


No fim da vida e próximo de completar seus 95 anos o ex-presidente José Sarney (foto) tem dado algumas entrevistas que devem marcar sua biografia positivamente. E de propósito. O maranhense que foi filiado à ARENA, defensor da ditadura militar 1964/85 e indireto criador do Centrão, assumiu a presidência da República vaga pela morte de Tancredo Neves e tornou-se um defensor da democracia plena. Ferrenho defensor! Primeiro falou para O Globo e agora, em seu último pronunciamento, para gilvanmelo.blogspot.com onde ele diz textualmente: "Fui um presidente marcado para ser deposto". E é verdade, desgraçadamente nesse Brasil de golpistas.

Oriundo da UDN onde foi auxiliar de Carlos Lacerda, chegou a ser oposição a Tancredo, que se filiara ao PSD. Quando chegou a hora de assumir a presidência vaga por um Tancredo morto, soube que o ministro do Exército do ditador João Figueiredo, Walter Pires, havia dito que iria aos quartéis para inviabilizar sua posse. Estivemos mais uma vez diante da iminência de um golpe de Estado. E Sarney precisou de muito jogo de cintura e de engenharia política para se manter na chefia de Estado, afastar os riscos de ser deposto e ainda fazer com que a democracia brasileira, frágil como era, pudesse consagrar outro presidente civil em seguida.

O golpismo brasileiro nunca deixou de existir. Ele vem de desde a proclamação da República, que custou o exílio do imperador D. Pedro II, um homem digno, até os tempos atuais. Funciona como um movimento de marés, subindo e descendo na vida nacional de acordo com os momentos políticos pelos quais passamos. Em 1918 infelizmente os brasileiros elegeram um filhote bastardo da ditadura militar para a presidência e este fez renascer com mais força o golpismo explícito exercido durante seus quatro anos de mandato. Mais do que isso: separou definitivamente - ou ao menos até agora - o país em dois grupos antagônicos, inimigos. Antes, eram só adversários. Até no auge da ditadura!

Ontem mesmo o mais ferrenho defensor do novo nazismo, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump declarou que a imprensa de seu pais, citando nominalmente alguns órgãos de Comunicação, é corrupta e ilegal. É que esses meios combatem os projetos ditatoriais do tal presidente. Tática idêntica ao de nosso ex-presidente eleito em 2018 e que passou seus quatro anos de poder sonhando com outra ditadura militar e, como fiel defensor do totalitarismo atacava a imprensa ao mesmo tempo em que defendia falsamente uma "liberdade de expressão" que não cabe nos elogios a torturadores como Brilhante Ustra.

Quando o Brasil vai entender que se tornou refém de projetos de ditadores de aldeia da extrema direita, não sei. Presumo que isso ainda vá demorar e que brasileiros como Sarney não viverão para ver esse dia. Mas ele haverá de chegar. Basta ensinar a toda a nova geração que, como disse um dia o Primeiro Ministro britânico Winston Churchill, a democracia é a pior forma de governo que existe, afora todas as outras. 

13 de março de 2025

A democracia de aluguel


Ninguém ainda distribuiu pela imprensa uma publicidade anunciando aluguel de partido político. Até porque a legenda pareceria com a charge que abre esse artigo (acima). Mas falta pouco. No último dia 10 o jornal O Globo publicou matéria de página inteira listando os 11 partidos brasileiros que correm o risco de serem inviabilizados pela cláusula de barreira da legislação em vigor. Vejam: PDT, PSB, Podemos, PSOL, PSDB, Avante, Pro, Solidariedade, Cidadania, Novo e Rede. Seus dirigentes tentam formar federações, união de duas ou mais legendas em uma única para tentar alcançar o número mínimo de parlamentares eleitos em cada uma ou então o menor percentual de eleitores votantes exigido para que eles não sejam extintos. É a luta para manter o pescoço fora do cepo!

E porque isso acontece? Também recentemente e às vésperas de completar 95 anos o ex-presidente José Sarney falou ao mesmo jornal sobre política. Lembrou os 40 anos de nossa democracia sacramentada na Constituição Cidadã de 1988 e o fato de os partidos políticos serem a base do regime democrático. E foi assim no Brasil. Foi, disse eu, usando o verbo no passado. Isso na época de Sarney, quando cada partido representava uma corrente de pensamento, tinha um programa de conhecimento de todos os membros e grande parte dos seus eleitores, dentre outros atributos. Nos tempos em que o ex-presidente começou na política pontificavam por aqui legendas como UDN, PSD, PTB e outras. Durante breve tempo, até mesmo o PDB. Cada um tinha e mantinha sua própria cara.

O golpe de Estado de 1964 destruiu toda essa história. No lugar das legendas antigas surgiram Arena e MDB, que fizeram a política durante os 21 anos do arbítrio militar brasileiro. E as velhas correntes, sobretudo a oposição à ditadura, se bandeou para o MDB, hoje PMDB, e que representava a oposição consentida. Com o término do regime de exceção foram surgindo legendas novas e a política de aluguel se formou no Brasil como uma forte tendência. A ponto de hoje a legenda partidária não ter significado algum além de ser o endereço provisório de alguma corrente ligada ao coronelismo moderno.

Tomo emprestado o termo "coronelismo" para transportá-lo até aqui, às grandes cidades, onde se sustentam as legendas de aluguel atuais. São elas que mantêm a bancada da bala, a bancada evangélica, a bancada ruralista e o que mais houver de errado na política moderna na qual o clã Bolsonaro troca de partido a cada eleição, levando para uma nova legenda toda a sua entourage de oportunistas travestidos de conservadores, mas que na verdade são reacionários sem o menor pudor, sem sequer sombra de dignidade política ou pessoal. A rapidez com que a quadrilha enriquece mostra qual é a sua "ideologia". E também a maneira como as bancadas se distribuem pelas legendas "conservadoras" denuncia a forma como elas mantêm seu poder de modo mais eficiente...    

O que deixa saudoso o ex-presidente às vésperas de completar 95 anos é a maior perda da democracia política brasileira ao longo dos últimos tempos. Lá se vão 40 anos! Por causa disso hoje tantos partidos correm o risco de deixar de existir. Alguns nem deveriam ter nascido, enquanto outros não foram escolhidos como bancada de aluguel pelos grupos de ocasião ou então não abrigam o saudoso da ditadura militar brasileira. Então minguam no Brasil sem compromisso ideológico ou político/programático. A cláusula de barreira, criada para impedir até partidos de fundo de quintal no Brasil deve fazer essa faxina em breve.

E a democracia brasileira sobreviverá! Torço por isso!                   

3 de março de 2025

Sim, ainda estamos aqui

Somente hoje pela manhã, ao ler um texto de Marcelo Rubens Paiva sobre sua família, soube que "ainda estou aqui" foi uma frase dita por Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva durante a enfermidade de Alzheimer e num raro momento de lucidez. Ela, desde essa madrugada é a inspiradora do primeiro Oscar que o Brasil ganhou para nosso cinema na categoria Internacional e na foto acima aparece junto com a imagem do marido. Isso rompe um longo predomínio dos filmes europeus em vitórias nessa categoria de premiação e dá à nossa sétima arte um empurrão necessário ao sucesso.

Sem o retorno do Brasil à democracia nada disso seria possível. Nem mesmo um filme como esse do Oscar. Durante o governo do fascista Jair Bolsonaro tudo foi feito para que as artes nacionais terminassem estranguladas, e inclusive que um filme sobre Carlos Marighella de 2019, obra de Wagner Moura, nunca fosse terminado ou entrasse em cartaz. Ficou pronto e acabou exibido em todo o Brasil. Também a música, o teatro e outras manifestações de caráter cultural sofreram ataques. E essa gente é justamente a que fala de liberdade de expressão...

Hoje mesmo, no grupo da Academia Espírito-santense de Letras, um "acadêmico" publicou fala do falecido picareta Olavo de Carvalho e na qual este diz: "O carnaval é a expressão mas genuína da cultura brasileira. É o tempo em que o povo brasileiro se reúne para celebrar sua própria ignorância e sua própria miséria". Incrível a forma como o picareta se referia a uma de nossas maiores manifestações de cultura popular e a forma como até hoje ele é homenageado pelos insignificantes de plantão. Por sinal, esse mesmo literato (sic!) durante uma última campanha política botou no ar relação grande de partidos políticos brasileiros que seriam aliados ao comunismo internacional. Poucos minutos depois, apagou o post.

Mas nós ainda estamos aqui. Não fossem as esquerdas combaterem o fascismo que reinou no Brasil de 1964 a 1985 e foi revivido em parte pelo desgoverno de Bolsonaro, nada do que existe hoje no Brasil moderno estaria por aqui. A começar pelas nossas múltiplas manifestações artísticas e culturais e a terminar na produção científica brasileira. Impossível é entender como as imensas hordas de fascistas emergiram dos esgotos onde se encontravam para assombrar os demais brasileiros. Para acampar diante de quarteis, marchar ao som de hinos desconexos, rezar para pneus e apontar os celulares ao céu para contatar extraterrestres. Isso antes de invadirem Praça dos Três poderes e tentarem destruir Executivo, Legislativo e Judiciário numa busca fracassada de golpe de Estado.

O Brasil que sobreviveu a tudo isso para estar hoje com sua democracia forte e estabelecida vai continuar fortalecendo todas as instituições democráticas nas quais se fundamenta. A extrema direita que tenta corroer as democracias de dentro para fora como acontece no Brasil, Argentina, Estados Unidos, Itália, Hungria e outros países, vai perder. Terminará sepultada na mesma vala comum da história onde está hoje Olavo de Carvalho. E para lá seguirão seus apoiadores habitantes das bolhas de internet onde se prega a vida num mundo que só existe para esses "hitlers" de última hora.