Houve um pedido dos senadores reunidos hoje com o presidente Lula na casa da presidência do Senado, em Brasília: a recriação por parte do governo do Ministério da Segurança ou qualquer coisa parecida com esse nome. Uma exigência para diminuir a pancadaria que em parte está jogando para o chão o prestígio pessoal do presidente. Além de o Brasil já ter ministérios em excesso isso preocupa por causa do que ter um aparato de segurança nacional lembra à maioria de nós. No meu caso, recorda um grande Rolex de ouro igual ao da foto acima.
O Brasil havia vivido, em1964, o golpe de Estado que tirou do poder o presidente João Goulart fazia pouco tempo e meu pai, Nelson de Albuquerque Silva usava para todos os atos um relógio dessa marca, bordas em ouro 24 quilates, comprado na época das vacas gordas da família. Amava sua joia e um dia chegou em casa do trabalho sem ela. Depois o vi dizer perto de minha mãe que o havia perdido. Não se falou mais no assunto. Era tema proibido dentro da nossa casa.
A ditadura aconteceu há 61 anos e lá pelos idos de 1990, com o velho já vivendo em Vitória, provoquei o assunto e veio a história. Papai era dono da Thermoflux, fundição de alumínio que ficava no bairro da Mooca, em São Paulo, onde fabricávamos peças de motor de Simca. Um belo dia meu pai tirou o relógio para limpar as mãos, colocou-o sobre a bancada e não o encontrou mais ao voltar. Procurou, procurou e chamou a Polícia. O delegado ouviu os empregados um a um e depois falou com o velho Nelson: "Tenho três suspeitos e se eles forem comigo para delegacia o relógio aparece. Só não sei se o ladrão volta vivo e também como vou fazer para proteger o senhor depois disso. Esse povo é daqui e barra pesada". Ele ouviu mamãe e mandou deixar para lá. Os suspeitos foram demitidos algum tempo após.
Décadas depois, na conversa que tive com ele ouvi de meu pai que ficou com receio de deixar a mulher viúva com cinco filhos pequenos. O delegado, conhecido ou amigo de Sérgio Paranhos Fleury, sabia como obter confissões rápidas e dolorosas. Eu disse: "Então você sabia como tudo acontecia, mesmo sendo politicamente de direita?" Ele balançou a cabeça afirmativamente. "Mas eles achavam que aquilo era necessário. Enfim..."
Trago esse fato à memória numa época em que extrema direita política brasileira é muito mais violenta, inconsequente e irresponsável do que antes. Além do que, não tem respeito pelo Estado Democrático e de Direito, como mostram os fatos de 08 e janeiro de 2023. E a nossa democracia foi obra de muito trabalho. Os canalhas atuais não podem encontrar um caminho para tentar outra aventura como a de 64. Esse ministério proposto jamais deve servir como atalho para a canalhada fascista. Ele precisa ser cercado de cuidados!