Em 1976, quando iniciou sua tragetória vitoriosa no carnaval carioca sob a competência do carnavalesco Joãosinho Trinta, a Escola de Samba Beija Flor de Nilópolis desfilou com o tema "Sonhar com rei dá leão", uma clara alusão à jogatina do bicho. Ganhou com méritos e a Globo não fez editorial sobre a contravenção presente em praticamente todas as escolas de samba. E nem se recusou a receber o dinheiro da Liesa e outros patrocinadores pela cobertura exclusiva. Em 1993, quando uma sentença histórica da juíza Denise Frossard condenou 14 dos principais "banqueiros" a seis anos de prisão por formação de quadrilha, a presença deles no samba do Rio de Janeiro ficou de fora do puritanismo da emissora e em nenhum momento foi prometido que seria ou contravenção ou ela na cobertura do carnaval.
As exclusividades de coberturas jornalísticas de grandes eventos são danosas. Além de essa prática impedir a concorrência pelo talento, também permite que a detentora do privilégio adquirido com dinheiro de patrocinadores possa decidir sobre o que deve e o que não deve ser mostrado, nem sempre usando para tanto critério de moralidade. Na maioria das vezes isso é determinado por interesses meramente pecuniários ou de pressão do poder econômico. Ou também por imposição de conveniências dos patrocinadores.
No desfile de ontem pela Marquês de Sapucaí, a escola de Niterói mostrou alegorias que remetiam ao ex-presidente Jair Bolsonaro como palhaço ou presidiário (foto). Até os ladrilhos portugueses de Copacabana sabem que o mercado de capitais odeia o governo Lula, tudo o que cheira a esquerda política, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, ensino ou saúde públicos, Gás do Povo e outras das muitas iniciativas públicas atuais.
E também que o grande capital nacional é não apenas aliado desse setor que comanda a economia, mas igualmente ligado a ele. Então, muitas decisões tomadas pelos grupos de comunicação são subordinados a esses interesses e às vezes de forma muito pouco disfarçada. Chega a ser descarada. Tomemos como exemplo o Espírito Santo onde o carnaval, além de ser feito sete dias antes da hora, ainda é entregue com exclusividade a uma empresa, no caso a Rede Gazeta. E não é coincidência o fato de ela ser filiada à Globo...
Desde Getúlio Vargas o carnaval sempre teve uma pitada política forte. Por sinal, todas as manifestações públicas humanas são de conteúdo político. Em 1950 a música "Retrato do velho", de Haroldo Lobo e Marino Pinto e cantada por Francisco Alves, o "Rei da Voz", pedia a volta de Vargas ao poder. Faz um certo sucesso até hoje. E não houve reação por parte de setores da oposição política no sentido de ela ser proibida por censura.
Quer a gente goste, quer não goste, Luiz Inácio Lula da Silva é o personagem de maior estatura popular da política brasileira em todos os tempos. Vencer seu nome e grupo tem que ser tentado pelo meio do voto. As reações hoje registradas visando a iniciativas judiciais para impedí-lo de concorrer levam o odor fétido de golpe e se parecem com o ocorrido durante a "Lava Jato", essa manipulação judicial que asfaltou o caminho da extrema direita política em direção ao Palácio do Planalto quando Jair Bolsonaro foi eleito. O então juiz Sérgio Moro sequer teve pudores ao largar a carreira para ser ministro da Justiça do grupo que havia descaradamente ajudado a chegar ao poder da República com suas sentenças.
A política do Brasil vive agora uma fase intelectual e eticamente paupérrima. Basta olharmos para a fauna que tenta por todos os meios inviabilizar o governo federal e alcançar o poder por qualquer artifício, inclusive e principalmente pelo golpe, para chegarmos a essa conclusão. Os vírus golpista disfarçado em artifícios jurídicos dos mais diversos feitios nunca nos deixou. Ao contrário! E é difícil acreditar que as mentes mais informadas da Rede Globo e adjacências não saibam disso. Claro que sabem. A hora, nessa segunda-feira de canaval, é a de dançar: "Pega o retrado do velho Lula/bota no mesmo lugar/ o retrado do velhinho/faz a gente trabalhar". Que tentem tirá-lo de lá pelo voto!
Fazer política não foi crime ontem, não há de ser hoje. O crime está na Faria Lima onde o dinheiro trafega diuturnamente por meios subterrâneos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário