16 de fevereiro de 2026

Exclusividades danosas

Vamos admitir que a intenção da Rede Globo de Televisão, ao selecionar imagens que poderiam ou não ir ao ar ontem durante o desfile da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói fosse mesmo a de defender a legalidade e zelar pela equidade nas propagandas das eleições de outubro próximo. Nesse caso ela teria que tornar seu "editorial" de abertura da cobertura do carnaval do Rio de Janeiro 2026 uma constante nas atuações que desenvolve, principalmente quando tem a exclusividade de determinadas ações jornalísticas. Mas não é isso o que acontece. Desconheço registro de outro fato sequer parecido, mesmo quando todos sabemos que o carnaval é e sempre foi o território do jogo do bicho.

Em 1976, quando iniciou sua tragetória vitoriosa no carnaval carioca sob a competência do carnavalesco Joãosinho Trinta, a Escola de Samba Beija Flor de Nilópolis desfilou com o tema "Sonhar com rei dá leão", uma clara alusão à jogatina do bicho. Ganhou com méritos e a Globo não fez editorial sobre a contravenção presente em praticamente todas as escolas de samba. E nem se recusou a receber o dinheiro da Liesa e outros patrocinadores pela cobertura exclusiva. Em 1993, quando uma sentença histórica da juíza Denise Frossard condenou 14 dos principais "banqueiros" a seis anos de prisão por formação de quadrilha, a presença deles no samba do Rio de Janeiro ficou de fora do puritanismo da emissora e em nenhum momento foi prometido que seria ou contravenção ou ela na cobertura do carnaval.

As exclusividades de coberturas jornalísticas de grandes eventos são danosas. Além de essa prática impedir a concorrência pelo talento, também permite que a detentora do privilégio adquirido com dinheiro de patrocinadores possa decidir sobre o que deve e o que não deve ser mostrado, nem sempre usando para tanto critério de moralidade. Na maioria das vezes isso é determinado por interesses meramente pecuniários ou de pressão do poder econômico. Ou também por imposição de conveniências dos patrocinadores.

No desfile de ontem pela Marquês de Sapucaí, a escola de Niterói mostrou alegorias que remetiam ao ex-presidente Jair Bolsonaro como palhaço ou presidiário (foto). Até os ladrilhos portugueses de Copacabana sabem que o mercado de capitais odeia o governo Lula, tudo o que cheira a esquerda política, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, ensino ou saúde públicos, Gás do Povo e outras das muitas iniciativas públicas atuais.

E também que o grande capital nacional é não apenas aliado desse setor que comanda a economia, mas igualmente ligado a ele. Então, muitas decisões tomadas pelos grupos de comunicação são subordinados a esses interesses e às vezes de forma muito pouco disfarçada. Chega a ser descarada. Tomemos como exemplo o Espírito Santo onde o carnaval, além de ser feito sete dias antes da hora, ainda é entregue com exclusividade a uma empresa, no caso a Rede Gazeta. E não é coincidência o fato de ela ser filiada à Globo...

Desde Getúlio Vargas o carnaval sempre teve uma pitada política forte. Por sinal, todas as manifestações públicas humanas são de conteúdo político. Em 1950 a música "Retrato do velho", de Haroldo Lobo e Marino Pinto e cantada por Francisco Alves, o "Rei da Voz", pedia a volta de Vargas ao poder. Faz um certo sucesso até hoje. E não houve reação por parte de setores da oposição política no sentido de ela ser proibida por censura.

Quer a gente goste, quer não goste, Luiz Inácio Lula da Silva é o personagem de maior estatura popular da política brasileira em todos os tempos. Vencer seu nome e grupo tem que ser tentado pelo meio do voto. As reações hoje registradas visando a iniciativas judiciais para impedí-lo de concorrer levam o odor fétido de golpe e se parecem com o ocorrido durante a "Lava Jato", essa manipulação judicial que asfaltou o caminho da extrema direita política em direção ao Palácio do Planalto quando Jair Bolsonaro foi eleito. O então juiz Sérgio Moro sequer teve pudores ao largar a carreira para ser ministro da Justiça do grupo que havia descaradamente ajudado a chegar ao poder da República com suas sentenças.

A política do Brasil vive agora uma fase intelectual e eticamente paupérrima. Basta olharmos para a fauna que tenta por todos os meios inviabilizar o governo federal e alcançar o poder por qualquer artifício, inclusive e principalmente pelo golpe, para chegarmos a essa conclusão. Os vírus golpista disfarçado em artifícios jurídicos dos mais diversos feitios nunca nos deixou. Ao contrário! E é difícil acreditar que as mentes mais informadas da Rede Globo e adjacências não saibam disso. Claro que sabem. A hora, nessa segunda-feira de canaval, é a de dançar: "Pega o retrado do velho Lula/bota no mesmo lugar/ o retrado do velhinho/faz a gente trabalhar". Que tentem tirá-lo de lá pelo voto!

Fazer política não foi crime ontem, não há de ser hoje. O crime está na Faria Lima onde o dinheiro trafega diuturnamente por meios subterrâneos.                                

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