Houve uma época no Brasil em que a Polícia Federal causou danos. Isso durante a ditadura, quando virou um canal de repressão política a serviço do regime militar. Órgãos ligados à Polícia Civil - o DOPS - , Exército - DOI-Codi, Marinha - Cenimar - e Aeronáutica - CISA - atuaram quase que em conjunto com empresas que ajudavam com recursos e pessoas que os abasteciam de informações, sendo os "dedos duros" formadores do sistema de violência do Estado responsável por milhares de prisões ilegais, torturas e centenas de assassinatos ocorridos entre 1964 e 1985. Eram tempos que não podiam e não podem ser comparados com os de hoje, quando a PF é apenas, como deve ser, uma polícia judiciária (foto).
Talvez graças a isso ela seja tão criticada extra oficialmente por alguns membros do Supremo Tribunal Federal (STF) porque atua no caso do Banco Master e desdobramentos. Para quem tem algo a esconder um aparato policial que age dentro das leis com competência e estrutura científica é um risco potencial...
Na PF, durante a ditadura, passei uma noite inteira sentado em um banco esperando o delegado "voltar do jantar". No dia seguinte, quando ele apareceu por lá, disse de forma grosseira: "O que você está fazendo aqui?". Respondi que havia sido convocado para comparecer desde a noite anterior e ele completou: "Convocado? Quem convoca é Zagalo. Eu trago vagabundo até aqui debaixo de porrada. Suma e não torre mais meu saco." Sumi, mas não parei de encher o saco.
O que os governos de extrema direita do Brasil e do restante dos países mais se dedicam a fazer é redefinir o papel dos organismos de segurança em benefício de seus projetos. De seus propósitos. Vejamos o que ocorre agora mesmo nos Estados Unidos com o ICE e a gente vai entender melhor esse funcionamento. O presidente psicopata Donald Trump precisa agir desde os intestinos de seu país para poder colocar em prática o projeto de dominação global. Ainda tem que minar a estrutura das instituições civis norte-americanas para ampliar seu poder de fogo em casa. É esse o projeto que agora tenta convencer a todos da "fragilidade" do sistema de voto dos Estados Unidos. Fazendo isso ele pode se perpetuar no poder controlando as eleições. Foi o que Bolsonaro tentou aqui, correto?
Por isso tomei a PF como mote. Ontem mesmo o STF começou a julgar um caso que pode redefinir os limites da Lei da Anistia de 1979 em relação aos crimes cometidos durante a ditadura militar. O que se analisa é a possibilidade de responsabilização penal de agentes do Estado acusados de ocultação de cadáver porque esse delito, segundo o Ministério Público Federal (MPF) se prolonga no tempo enquanto o paradeiro da vítima permanecer desconhecido. O julgamento vai até o dia 24, terça-feira após o carnaval.
O caso foi levantado a partir de fato ligado à Guerrilha do Araguaia, ocorrida entre 1972 e 1974, quando combatentes desapareceram, sendo que em alguns casos eles tiveram seus corpos jogados sobre a floresta amazônica para jamais serem encontrados. Há um caso de uma guerrilheira grávida vitimada dessa forma. O julgamento vai dizer se a Lei da Anistia alcança atos de ocultação de cadáveres praticada durante nossa útima ditadura e mantidos depois de 1979. Há ainda hoje uma sensação de impunidade que vai muito além do "apartamento" de três quartos onde um genocida inelegível "passa mal" todos os dias em crises de soluço que provocam a insônia da extrema direita.
Aqui em Vitória, durante o período que foi de 1964 a 1985 conta-se que um certo general comandante da então Polícia Federal recebia todas as tardes de sua mulher uma embalagem com bolo e refrigerante. Era o lanche da tarde e graças a ele esse personagem ficou conhecido como "general festinha". Mas o que ele fazia não era engraçado como o apelido. Em "Ainda estou aqui", filme multipremiado, contamos a história de Rubens Paiva, retirado de casa para "prestar depoimento" e nunca mais encontrado. Vladimir Herzog compareceu expontaneamente e acabou morto nas dependências do II Exército, em São Paulo. São apeas dois casos e aos quais se somam inúmeros outros, como o do operário Manoel Fiel Filho.
É isso o que ninguém quer ver esquecido ou impune.

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