Essa série, como dizem os que a acompanharam, representou um marco na cultura deste Estado e era incursão única no universo ficcional na nossa televisão. E é preciso notar que a iniciativa não foi das emissoras privadas ligadas a grandes redes nacionais, sempre com verbas graúdas, mas sim de uma emissora de rede estatal ligada à TV Educativa. Como a TVE não tem um acervo guardado de sua história, a maior parte do que foi feito se perdeu. Acredita-se que tenham sido gravados 12 episódios no total, com autores capixabas diversos, mas nada disso está preservado. No meu caso fiquei com o poster do programa e uma cópia das filmagens inicialmente feita em fita cassete, mas depois transportada para um CD e que se encontra comigo até hoje.
A produção contava com episódios de 40 a 60 minutos divididos em blocos, tendo tido uma equipe de produção comandada pelo diretor geral Ricardo Conde, idealizada e dirigida por Antônio Carlos "Toninho" Neves, e a equipe de produção era formada por Gerusa Conti e composta exclusivamente de atores capixabas e contando com nomes como Vera Viana, Cristina Valadão e Denise Martins. Especificamente no caso de "O pênalti", dele participaram Valdete Dias Ferreira, Denise Martins e Duda Palhese na produção, além de Cláudio Mothé, Marcos Komká, Alvarito Mendes Filho, Emílio Cortes, Alcides Vasconcelos, Antônio Pepino, Jair Fonseca, Milton Neves, Lena Borges, Aluízio Mendes Franklin, Nelson Batista e Luiz Alberto de Oliveira atuando. Como se tratava de um conto sobre futebol, foi gravado no campo e com jogadores do 138 Unidos da Vale Futebol Clube e Esporte Clube Mariano. Cito esses nomes para que se tenha noção da dimensão que esse projeto tomou graças à garra e ao denodo daqueles que o fizeram.
Infelizmente esse registro dos 40 anos de "O pênalti" indo ao ar é quase um obituário. Quase todas as pessoas citadas por mim estão aposentadas e algumas delas, mortas. Mortos também estão os esforços por adaptar as obras de autores capixabas para transformar a literatura regional em produções televisivas. Tentei fazer a pauta da TVE durante algum tempo quando seu diretor geral era Orlando Bonfim Júnior, mas tive que abandonar o barco porque o clima de déjà vu me fez desistir. Já havia vivido isso e antes e ele prenuciava a volta de algo que recordava em mim o início da morte do jornalismo capixaba, que havia começado com a Rede Gazeta de Comunicação e hoje se acentua nela mesma.
A jornalista Mirian Bilich, que trabalhou durante anos na TVE na época áurea da emissora, diz que ela chegou a ter 14 produções locais na sua grade de programação, enviando seus melhores trabalhos à Fundação Padre Anchieta, de São Paulo, que os requeria. Era um jornalismo brilhante! Algumas direções políticas e politiqueiras fizeram com que o canal se reduzisse ao que é hoje: 0 programa local. E a TVE patina desde então. Resta a saudade do nosso "Telecontos Capixabas" e dessa tentativa de levar a produção literária de nosso Estado à televisão. Foi muito bom enquanto durou e para muita gente.

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