25 de agosto de 2010

A comida farta e o "santo sovaco"


Falta pouco - ainda bem - para as eleições. E falta pouco para que os brasileiros escolham quem vai passar os próximos quatro anos como hóspede do Palácio do Planalto. Isso num país onde o povo vota de acordo com o estômago e seguindo imagens de TV que mostram falsos messias induzindo a população a colocar seus representantes no Congresso Nacional.
Às vezes fico pasmo: todo dia na TV um cidadão aparece para dizer a milhões de pessoas que seu suor é milagroso. E milhões de pessoas acreditam nos poderes celestiais daquele "santo sovaco". Pior do que isso: milhares sobem ao palco para prestar depoimentos. Dizer que CC cura até câncer.
E não é tudo. O presidente da República está promulgando um Decreto Lei que, segundo ele, vai permitir a todos os brasileiros comerem com dignidade. Aqui neste país onde vivem 37 milhões de pessoas que vez ou outra dormem na rua, 5,8 milhões de famílias que não possuem lares, 13 milhões de brasileiros que não conhecem banheiros, 30 por cento da população constituída por analfabetos funcionais e a maioria dos jovens com formação média que não encontra trabalho.
Quem é o maior artista de todos: o cidadão do "sovaco mágico" ou o presidente da República?
Um Decreto Lei não vai fazer com que todos tenham alimentação digna. Mas retirar todos os impostos de sobre os itens da cesta básica ajudaria, e muito. Agora, convenhamos, isso é difícil de fazer porque o custo Brasil sobe todos os dias, todas as horas, e sabemos os motivos. A figura que ilustra esse texto, mais acima, mostra bem o tamanho da goela que ele tem.
Que pena, meus amigos. Quem define eleição no nosso Brasil ainda é aquele cidadão que entra na fila do Bolsa Família imaginando-o dádiva divina em vez de demagogia barata. Sem saber que se esse tal "programa de transfertência de renda" tivesse mesmo o intuito de (tentar) acabar com a miséria, seria uma ponte entre o desemprego e a falta de um ofício e o aprendizado desse ofício para o encontro do trabalho desejado. E não um meio de vida por esmola.

13 de agosto de 2010

O fundo do poço e a promiscuidade política


Tramita no Congresso Nacional, na Ilha da Fantasia de Brasília, um projeto de lei que pretende eximir de desconto tudo o que ultrapassar o teto da Previdência Privada para os aposentados do serviço público federal. Ou seja; se essa irresponsabilidade passar, até mesmo aposentados que ganham acima de R$ 25 mil reais mensais, o que excede o teto do serviço público, pagarão a Previdência em apenas R$ 3.418,15, o teto da Previdência Privada.
Chamar tal fato de irresponsabilidade é simples: hoje, da forma como estão, as aposentadorias do serviço público federal custam aos cofres do Governo um deficit anual de cerca de R$ 50 bilhões. Um rombo muito superior ao da Previdência Privada e que crescerá terrivelmente se o tal projeto de lei for aprovado, como vários meios de Comunicação estão denunciando (ilustração abaixo, à direita). E o pior é que isso pode acontecer, numa Belíndia onde os poucos milhares residentes da Bélgica são sustentados pelos muitos milhões sobreviventes da Índia.
Não vou perder aqui meu tempo para explicar como decisões destas já comprometem e vão comprometer ainda mais a capacidade de investimentos do Estado, além de aumentar a injustiça social brasileira. Basta dizer que, paralelamente a isso, também foi para o Congresso um, digamos, "pleito" do Supremo Tribunal Federal, que pretende passar de pouco mais de R$ 24 mil para mais de R$ 30 mil os vencimentos dos ministros daquela corte. O que gerará um aumento em cascata para todo o Judiciário, em todo o Brasil. E criar novo teto do serviço público. Depois a ser pleiteado também por membros do Executivo e do Legislativo. Não obrigatoriamente nessa mesma ordem.
Por que essas coisas acontecem?
Porque no Brasil há dois poderes efetivos: o Executivo e o Judiciário. Gravitando em torno deles vem o Legislativo, que vive de favores, de favorecimentos às vezes ilícitos e que se reúne para defender alguns privilégios, criar outros e explicar todos.
Em Brasília, uma grande parcela dos parlamentares responde a processos. Há casos de quem responda por pedofilia, embora isso seja incrível. Numa situação assim, qual vai ser o deputado federal ou o senador capaz de negar um "pedido" do Judiciário? Todos eles são aprovados sem serem ao menos discutidos. E danem-se as contas públicas!
O "trabalho" do legislativo municipal, em milhares de municípios, é marcado por troca de favores entre os vereadores e as prefeituras. Para obter a aprovação de projetos, prefeitos empregam apaniguados dos parlamentares. Em Vitória, capital capixaba, é chamada de "parceria" a promiscuidade existente entre Legislativo e Executivo. Cada vereador tem direito a "X" cargos comissionados municipais e, em troca disso, o prefeito aprova o que quiser. O que bem entender. Nem sequer custos são discutidos.
No plano estadual, o apoio dos deputados aos governos envolve também e principalmente a obtenção de favores. No Espírito Santo chegou-se a mais do que isso: os deputados decidiram entre eles nomear para cargos comissionados todos aqueles que trabalharem diretamente nas campanhas políticas vitoriosas. Ou seja: cabo eleitoral de deputado capixaba é pago com dinheiro público. Isso aconteceu nas últimas eleições e vai acontecer nessas próximas. Basta esperar e conferir o que estou dizendo.
Finalmente, em Brasília disputa-se ministérios e cargos de segundo e terceiro escalão todos os dias, a todas as horas. O Presidente da República é hoje amigo fiel e fidalgal de pessoas que chamou em desonestas no passado. De ladras. Tenta justificar isso como sendo um dever de Estado em nome da governabilidade (sic!). E nem é preciso tentar esconder a promiscuidade: as negociações (negociatas?) são feitas às claras e as concessões de cargos saem no Diário Oficial da União quase todo santo dia.
Até onde vai isso, não se sabe. Mas um dia o fundo do poço será alcançado. Desse poço por onde escorre diariamente a dignidade nacional. E floresce todo tipo de promiscuidade!

5 de agosto de 2010

"Onde a coruja dorme"


Ver o sol nascer? Muita gente não gosta. Não quer. Não sabem o que estão perdendo, estes. Muita gente não consegue levantar da cama. Ora, basta um empurrãozinho. Bem de leve. Faço isso - pular cedo da cama - pelo menos quatro vezes por semana, sem levar empurrão algum. Um amigo um dia me chamou de "pássaro madrugador". Aceito o apelido. De bom grado.
E, caminhando na praia, encontrei um igual. Em Vitória, capital do Espírito Santo, a melhor praia é a de Camburi. Corta a zona norte da cidade, mostra parte de Vila Velha e o complexo siderúrgico de Tubarão (na foto, é ele que está ao fundo). É bonito andar ao longo do calçadão curtindo a paisagem e vendo o sol ir brotando sonolento pelos lados de Leste, aos poucos ganhando força, jogando luz sobre a noite, tornando-a lusco-fusco e virando dia. Nenhuma guerra impede isso. Cura qualquer mal humor!
Nesse final de madrugada de 05 de agosto de 2010, sai "armado". Nos ombros a máquina fotográfica. Amadora, é claro. E num trecho da praia, onde praticamente ela não falta, estava lá a coruja buraqueira, minha companheira madrugadora, em pé exatamente na junção entre uma das traves verticais e a trave horizontal de um dos gols de um dos campinhos de futebol de areia.
Na gíria, no linguajar da crônica esportiva futebolística, costuma-se dizer que quando uma bola entra justamente num ângulo desses, ela entra "onde a coruja dorme".
Fui conferir. Sem flash para não assustar o bicho, sem recurso algum que não fosse a lente, cheguei bem próximo da trave e, na hora em que ia apertar o obturador da máquina, dois olhos imensos me focaram. Mas ela não ligou. Posou para a foto candidamente, deu-me as costas e ficou olhando a paisagem, curtindo o nascer do sol lindo de fim de inverno. Pelo menos essa coruja não dorme onde a bola entra no gol nos lances mais bonitos.
Quem disse que o nascer do sol é só dos humanos? Nem só estes acordam cedo!
Em tempo: basta dar um clique de mouse para ver a foto grande. Com um segundo clique ela fica imensa. Acho que vale a pena ver.

3 de agosto de 2010

Os ladrões de águas


Não se assuste, caro leitor, com a foto ao lado: veja televisão, ouça rádio e leia jornais brasileiros e você concluirá o mesmo que eu: trata-se de um perigoso terrorista palestino de cinco anos de idade morto - e poderia ser de outro modo? - pelo zelo e justiça das forças armadas de Israel.
É isso mesmo: nos meios de Comunicação ocidentais, um palestino lançando paus, pedras ou foguetes de fundo de quintal contra tropas ou civis de Israel é um terrorista. Já uma das maiores forças armadas do mundo, quando ataca civis e mata crianças, está se defendendo. É o "direito de defesa". O do estilingue contra o tanque. O do míssil balístico contra a catapulta.
Se você viu televisão por esses dias e acompanhou as imagens do menino palestino que lutava contra soldados de Israel para impedir que seu pai, um pobre que tentava regar algumas plantas nas áridas terras onde vive, fosse preso por tropas israelenses e levado a uma prisão. Bondosas tropas, pois não jogaram uma bomba sobre aquele terrorista júnior.
O homem foi preso porque "roubava água" de um assentamento israelense. Ou seja, para que os cidadãos de Israel bebam, é preciso que as plantas morram. E morram também os palestino. Assim, os terroristas juniores não viverão para se tornar terroristas adultos. Ficarão pelo meio do caminho como o outro garoto, na foto do outro lado, logo abaixo, morto e carregado pelo pai palestino.
Quem é dono da água? De um bem que jorra do chão para todos aqueles que dele precisam e podem fazer uso? Em um país como o Brasil, tão desigual, a água que nasce no campo atravessa as fazendas e é igualmente usada - na maioria dos lugares - por todos aqueles que vivem ao longo de seu caminho. Não há dono da água. Ela é de todos.
Um dia desses, um velho caçador de nazistas dava entrevista à GloboNews e dizia que Israel é criticado por aqueles que não respeitam os direitos humanos. E porque ele é, no Oriente Média, o país que mais faz isso. Pior do que ouvir, foi notar que, aparentemente, o homem não estava alcoolizado. Falava lúcido. Horrorosamente são.
Ele, provavelmente, havia se esquecido de 1982. Na ocasião, os israelenses invadiram o Líbano. Tomaram militarmente o país para "manter a paz". Um belo dia, vendo que cristãos libaneses iriam atacar dois acampamentos de refugiados palestinos, retiraram-se. Durante algum tempo, uma caçada a civis desarmados acabou com mais de mil homens, mulheres, muitos deles mulheres e crianças, mortos em Sabra e Chatilla. Foi o "holocausto" palestino patrocinado por Israel. Uma lição aprendida entre 1939 e 1945 e que a extrema direita israelense, sempre no poder, usa sempre que pode, sionista que é, para reprimir e massacrar os "inferiores". Esse grupo de fanáticos, sempre ávido para acusar alguém ou milhões de pessoas de anti-semitas, distila o ódio e distribui a violência por onde passa!
Mahamoud Ahmadinejad, líder do teocrático Irã, amigo do presidente Lula, tem um pouco do louco e do lúcido que habita aquelas terras onde nasceu a humanidade. Tanto do louco que nega o óbvio, os massacres nazistas da II Guerra Mundial, quanto do lúcido que á saciado todos os dias de sua fome e, principalmente, sede. Porque todas as vezes que Israel, dono de cerca de 300 bombas atômicas, prende um homem que "roubava água", Admadinejad toma da fonte da intolerância, do racismo, o líquido que usa para convencer aqueles que o acham no direito de ter ao menos uma bomba.
Por mais perigoso que isso seja!

29 de julho de 2010

Um bom negócio



Segundo números oficiais, a cidade de Vitória, capital do Estado do Espírito Santo, tem agora, no final de julho de 2010, nada menos que 1.512 semáforos para trânsito urbano. Nada mal para uma cidade apenas de porte médio e que faz parte de uma região metropolitana de grande porte. Agora, o município da Serra - parte dessa região metropolitana - vai instalar mais 70 equipamentos em sua área interna. E esse número vem crescendo também em outros municípios limítrofes à capital capixaba, como são os casos de Vila Velha, Cariacica, Viana e Guarapari, o que fecha a área da chamada de metrópole.
Sempre que vejo isso, reservo-me o direito de perguntar: entupir a cidade de semáforos é um bom negócio? E uso essa pergunta com sentido claro: bom negócio em termos de dinheiro?
Não sei o que ocorre na cidade dos leitores, mas é possivelmente um bom negócio também reformar praças e outros equipamentos públicos do gênero. As prefeituras fazem isso sempre que querem ou podem. Não param de fazer. E as praças e outros espaços públicos de descanso e lazer são sempre construídos com materiais capazes de sobreviver a no máximo uma administração. Quatro míseros aninhos. E por conveniência.
Isso também acontece com obras privadas. É muito difícil fazer com que as prefeituras, em muitos casos, façam com que sejam compridas as regras de códigos de obras, ambientais e outros. Agora mesmo, na cidade de Vitória, um empresário do ramo de bares e restaurantes está montando um estabelecimento num dos bairros residenciais da cidade. Totalmente irregular. Mas a PMV alega que o empreendimento do cidadão vai dar segurança 24 horas aos moradores do entorno. Mas isso não seria uma função do Estado?
Alguém sabe me dizer que motivos lícitos existem por trás de decisões - ou omissões - tão claras e tão distantes das normas que as prefeituras deveriam fazer cumprir, mesmo sob pressão? Porque a perspectiva dos ilícitos, essa tenho em mente.
Todos os especialistas ouvidos por jornais, rádios e TVs são unânimes em dizer que a Grande Vitória, essa tal região metropolitana da qual já falei, tem semáforos em demasia, alguns dos quais caros e até mesmo com emissão de luzes a LED. Sobretudo e principalmente a cidade de Vitória. Mas as prefeituras, em época de eleições importantes, continuam colocando mais e mais equipamentos em locais às vezes menos de 50 metros distantes um do outro. A ponto de fazer com que as pessoas passem por cinco ou seis deles em um quilômetro, como mostram as duas fotos do artigo, ambas da capital do Espírito Santo.
Deve ser mesmo um bom negócio!

27 de julho de 2010

A segurança particular e seus motivos


Dois assuntos que estão sendo muito comentados ultimamente se fundem na realidade do Brasil de hoje: primeiro, a morte do filho mais novo da atriz Cissa Guimarães, atropelado no Rio de Janeiro. Depois, a constatação através de números, de que as empresas de vigilância privada já possuem contingente que excede em número as polícias civil e militar brasileiras somadas.
O que significa isso?
Isso mostra um Estado ausente, omisso, incapaz, campeão mundial de arrecadação de impostos e ao mesmo tempo incompetente até a raiz. E isso para dizer o mínimo.
O túnel onde o Rafael, filho de Cissa, foi morto, estava fechado para reparos mas ninguém o reparava. O rapaz entrou lá junto a amigos para andar de skate - o que é errado - ao mesmo tempo em que outros rapazes aparentemente faziam um racha de automóvel. A Polícia Militar apareceu depois. Para pedir propina, ameaçar e tentar maquiar o local do acidente.
Esse é o motivo também por trás dos gastos brasileiros com segurança particular. Como o Estado nunca está presente, cabe ao cidadão pagar pela segurança própria, de seus filhos e suas residências. Isso depois de ele já pagar por educação, saúde e outros itens, muitos deles garantidos na Constituição como sendo direitos inalienáveis de todos nós.
Eis o Brasil. O país de um presidente gaiato, falastrão, que geralmente só abre a boca para falar bobagens e que aumenta impostos a cada dia, a cada mês, a cada ano enquanto os brasileiros gastam cada vez mais a cada dia, a cada mês, a cada ano, até para se manterem vivos.
E isso quando conseguem.

19 de julho de 2010

Corrupção e material de construção


Ontem - 18/07/2010 - houve uma eleição no pequeno município de Apiacá, sul do Espírito Santo. Um prefeito foi cassado e houve novo pleito. Tudo correu às mil maravilhas segundo o presidente do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Espírito Santo, desembargador Pedro Vals Feu Rosa. Ele vem comandando uma campanha no Estado que tem por objetivo que haja eleições limpas no final do ano, sobretudo com a erradicação da compra de votos.
Na véspera, esteve no 2º Simpósio de Inverno da Sociedade Capixaba de Oftalmologia, na paradisíaca Pedra Azul, para que houvesse mais uma assinatura do protocolo de intenções do Programa de Ética e Transparência Eleitoral (Prete), uma espécie de carta-compromisso pela lisura da atividade política - que já foi assinada por mais de 400 entidades civis do Espírito Santo -. Em seu breve pronunciamento quando dessa ocasião, disse publicamente algo que, só por esse motivo, reproduzo aqui:
Numa das andanças dele pelo interior, descobriu que num determinado município de parca expressão e população, cerca de R$ 1,5 milhão havia sido distribuído por um político a moradores locais. A justificativa foi de que não se tratava de suborno nem oferta de dinheiro por parte de político, mas que os munícipes haviam decidido reformar suas casas. Isso corresponde a dizer que, em um mesmo dia e hora, toda a população da cidade havia resolvido, conjuntamente, refazer suas moradias. Com "dinheiro próprio" e acabando com o estoque de material de construção do município. Não teria sobrado um prego sequer. A Polícia, claro, foi colocada a par da questão e está cuidando dela.
Nós temos, mesmo, que dar cabo à corrupção política no Brasil. Ela vem descendo desde Brasília, onde é uma instituição "venerável" e venerada, passa pelos Estados, ocupa os três poderes da República, e acaba com o material de construção de pequenos municípios brasileiros. Como esse do Espírito Santo, onde ela foi detectada pelo presidente do TRE.
Isso é uma praga. E pragas devem ser erradicadas. Ou com a ajuda da Polícia, como está acontecendo na região do R$ 1,5 milhão distribuídos para a compra de voto, ou com o gesto dessa imagem que encerra o texto: o cidadão dizendo "NÃO" à compra de votos.

7 de julho de 2010

Pobres "Marias Chuteiras". Pobre futebol!

Faz não muito tempo, estive no sepultamento de um ex-jogador de futebol na Grande Vitória. Lá, revi ex-jogadores, amigos do morto e meus, que não via lá se vão muitos anos. Todos já com os cabelos grisalhos, muitos deles avôs, estavam novamente unidos em torno das despedidas a um velho companheiro. Homens que foram desportistas, sonharam com a riqueza e a glória, mas conseguiram apenas carreiras comuns depois de passada a época de futebol. Nenhum era ou é desonesto, até onde se saiba. São todas pessoas dignas.
Sou jornalista, convivi com jogadores, treinadores e dirigentes, durante três décadas. Amei e amo o futebol. Erra quem pensa que esse é um meio sujo ou mais sujo que qualquer outro. É um ambiente de sonhos, de vida profissional breve, mas habitado por uma imensa maioria de pessoas honestas. Sincera e verdadeiramente.
Causa horror imaginar a situação que vivemos hoje. A moça cuja foto ilustra este texto era uma das chamadas "Maria Chuteira". Moças que se envolvem com atletas poucos sérios, metem-se em orgias e engravidam desses homens porque eles têm dinheiro. Eliza Samudio foi provavelmente morta em circunstâncias de extrema crueldade, quem sabe - há grandes suspeitas quanto a isso - por iniciativa, ordem ou orientação de um ídolo do Flamengo. Ou com a ajuda dele: Bruno não passaria de um criminoso nesse caso. Os dados que vão sendo conhecidos aos poucos deixam isso muito claro. E claro também fica que em todas as profissões humanas pode haver criminosos ou crimes. Não apenas no futebol, claro, atividade como qualquer outra.
Tenho pena de "Marias Chuteiras". E de jogador que vive de orgia em orgia, até mesmo porque essa não é a vida de desportistas ou que desportistas devam levar. O episódio de Eliza Samudio deveria nos fazer pensar. E rever valores. Definitivamente, clubes de futebol são entidades que formam ídolos, atletas em cujas biografias crianças se espelham, e é lamentável, é inconcebível que alguns deles abriguem sob contrato indivíduos capazes de cometer crimes covardes ou que se deixam fotografar, armados, ao lado de bandidos perigosos. Isso precisa ser revisto.
Meu texto não é uma crítica ao Flamengo. É um pedido geral de revisão de valores.

Apoio é imprescindível

Em grande parte dos casos, jogadores de futebol são oriundos da base da pirâmide social. Eles começam suas vidas em favelas ou periferias. Quando têm talento, é comum darem um salto social imenso em muito pouco tempo. É é terrível, pois poucos têm conhecimentos ou estrutura emocional para assimilar coisa do gênero. E os clubes, sobretudo os grandes, que detêm os contratos desses jogadores, não possuem departamentos para dar-lhes acompanhamento social, psicológico, econômico. Nada. Basta que joguem e pronto.
Mas essa realidade precisaria mudar. Ao longo dos tempos, muitos craques promissores jogaram as carreiras fora por falta de orientação, pela ausência de mão amiga. Porque não tiveram aconselhamento. Eles nasceram nas favelas, cresceram nas favelas, ficaram ricos, famosos, mas o futebol acabou e alguns voltaram aos locais de origem.
Vamos mudar a realidade atual. Deveria haver, e também por parte de ex-jogadores que ficaram famosos e hoje têm vidas estáveis, continuando vinculados ao futebol, um cuidado maior para com jovens como Neimar do Santos, por exemplo - o moço dessa foto -, que não parece ir pelo melhor caminho. Isso seria uma forma de eles serem protegidos e de também serem protegidas as instituições, que se ferem com episódios graves. O caso Bruno poderia jamais ter acontecido.
Sabemos que esse acontecimento, sobretudo pela violência, talvez seja único. Mas o consumo de drogas e o uso de doping infelizmente não são raros no futebol. E, nesse caso, atingem também e em larga escala os jogadores que não obtiveram sucesso ou estão no final da carreira, sem mais perspectivas para o futuro. Aqueles que não sentem mais os tradicionais tapinhas nas costas, tão comuns enquanto jogavam e eram paparicados.
Vamos pensar bem nisso?
Que pensem sobre isso Júnior, hoje comentarista de TV; Zico, agora dirigente, e muitos outros como Casagrande, Falcão e outros. Eles têm potencial para ajudar. Amar o futebol é proteger seus ídolos. Eles são de vidro. Quando quebram, seus cacos atingem a juventude e as crianças que têm neles um espelho para a vida futura.

2 de julho de 2010

Chega de "Era Dunga"


Em nome de tudo, rigorosamente tudo o que existe de mais sagrado no mundo, a "Era Dunga" tem que acabar. Nosso futebol não merece isso.
Durante três anos e meio esse cidadão treinou a Seleção Brasileira. E Seleção não é lugar para ninguém iniciar carreira de treinador. Fez um time à sua imagem e convicções. Uma equipe apenas forte, mas defensiva. Que jogava no erro do adversário e na possibilidade de não errar, como se isso fosse possível. Vencemos a Copa das Confederações porque as principais seleções investiram pouco nela. Vencemos a Copa América porque a Argentina vinha muito mal. E as Eliminatórias pelo mesmo motivo. Poucas pessoas se atreviam a ver que o time do treinador era dirigido despótica e incompetentemente por um grosseirão ignorante. E ainda obrigado a atuar como não gostava e não acreditava. À força, sob pressão, à custa do medo.
Ninguém vence dessa forma. Não eternamente. Um dia perde e às vezes o destino faz com que a derrota surja justamente no momento em que não deve surgir. E isso machuca a todos nós. Agora que o Brasil está fora da Copa do Mundo, tudo o que aconteceu ao longo desses três anos e meio vai surgir. E vai nos colocar diante de um quadro que se assemelha à época da ditadura militar no Brasil, que vivi e considerava sepultada.
Também é preciso acabar com a era Ricardo Teixeira. Precisamos substituir os viciados - para dizer o mínimo - dirigentes do futebol brasileiro por outros, por gente nova, comprometida com o futuro e distante da falta de seriedade que marca boa parte do futebol mundial.
Chega: vamos, definitivamente, dar adeus à Era Dunga. À época em que esse moço da foto foi uma espécie de rei sem trono, de gênio sem talento, líder sem liderança, entendido que não entende, no futebol do Brasil.
Uma fraude, enfim!

17 de junho de 2010

2014, a Copa do Mundo da Corrupção


Desde que o Brasil foi escolhido como sede da Copa do Mundo de 2014, criou-se a estranha discussão acerca das cidades que sediarão os jogos, bem como uma imensa lista de exigências que atingiram sobretudo e principalmente o estádio do Morumbi, em São Paulo. E ele tem as mesmas virtudes e os mesmos defeitos dos demais grandes estádios brasileiros. Mesmo tentando disfarçar, a CBF demonstra não querer jogos lá. É contra, e pronto! Não permite discussão.
O clube paulista já apresentou três ou quatro projetos de adaptação do estádio às novas exigências - como o da imagem que ilustra esse texto, à esquerda - e a cada divulgação surgem pedidos novos. Até que o inevitável aconteceu: o Morumbi não vai sediar jogos da Copa do Mundo. A CBF anunciou a decisão tomada, segundo se diz, em Zurique.
O que há por trás de tudo isso?
Muitos jornalistas e profissionais de áreas outras, mas todos independentes, alertam para um fato: a CBF simplesmente não quer o Morumbi na Copa de 2014. Existem interesses pecuniários ancorados em uma grande construtora/empreiteira de obras públicas brasileira, com contratos em praticamente todas as áreas do serviço público, para que uma arena gigantesca e milionária seja erguida em Pirituba, região da Grande São Paulo. Teria estádio, estacionamento, área de eventos diversos, inclusive musicais, lojas e outros. Mas teria, principalmente durante as obras, grandes chances de faturamento para aqueles que dela tomassem parte, inclusive em superfaturamento de obras, pagamento de comissões e outros.
A Copa do Mundo, faz anos, tornou-se um espetáculo bilionário. Hoje em dia as emissoras de TV e fabricantes de materiais esportivos, além de outros como empresas de bebidas e setores de serviços, abastecem a Fifa com bilhões de dólares (ou euros, se for o caso). E vale tudo para aumentar esse faturamento, essa ganância desmesurada por dinheiro. O céu é o limite!
Mas até onde vai isso? Nós sabemos que, no Brasil, superfaturamentos, caixas dois, pagamentos de propinas e outros, são comuns. E os discursos de última hora ou de conveniência não escondem que altas autoridades do País estão envolvidas nisso agora e sempre. Vamos nos relembrar dos escândalos mais recentes? Ocuparia muito espaço...
Mas há se ter respeito para com o esporte. Denunciar o que está por trás das exigências feitas ao Morumbi e a possibilidade de que dinheiro público seja desviado numa Copa do Mundo da Corrupção é um dever de todos nós. Ainda mais porque ela vai ser jogada aqui.
A Copa da África do Sul está sendo realizada, mas todos os orçamentos foram estourados. Houve lá uma festa com dinheiro do contribuinte, sobretudo do pobre. É um dever de cada brasileiro consciente lutar para que isso não se repita.

25 de maio de 2010

O país da felicidade


Um estudo sério publicado há não muito tempo mostra que o país mais feliz do mundo é a Dinamarca. Mas como pode ser o mais feliz do mundo um país que cobra de cada um de seus cidadãos imposto de renda que oscila de 50 a 70 por cento?
Essa felicidade deriva primeiro do fato de que não há miséria na Dinamarca. Todos têm trabalho, um horizonte na vida. O estudo é obrigatório e gratuito durante os dez primeiros anos da vida das pessoas e as universidades também. E o sistema médico/hospitalar igualmente não custa um único centavo ao cidadão, que pode escolher médicos especialistas. Até o final da vida. Para completar, todos os dinamarqueses, depois dos 65 anos, recebem uma pensão do Estado. Para sobreviver com dignidade. E ainda o incentivo para continuar trabalhando. Para a saúde mental.
Esse é o verdadeiro - e possível - estado social!
Nós, brasileiros, pagamos cerca de 40 por cento do que ganhamos em impostos. Não temos sistema educacional que preste, o SUS é uma indecência e a aposentadoria dos que são contribuintes da iniciativa privada, idem. Tudo em nosso país se corporifica em impostos. Agora mesmo todo o trecho da BR-101 que corta o Estado do Espírito Santo vai ser privatizado. Custará cerca de R$ 30,00 cruzar menos de 500 quilômetros de Sul a Norte do pequeno Estado. E vamos continuar pagando a CIDE, um imposto para a conservação de estradas.
Que pena, não estamos entre os primeiros em felicidade. Mas resta um consolo: somos campeões mundiais da demagogia. Do Oiapoque ao Chuí, abundam no Brasil aqueles que se esmeram na arte de enganar o próximo, se perpetuar no poder e fazer desse poder uma redoma onde eles possam se esconder das consequências de seus atos. Esse é o Brasil. O da foto é a Dinamarca.

13 de maio de 2010

Para purgarmos nossos pecados


Vinha resistindo, faz algum tempo, à tentação de escrever sobre a decisão do Supremo Tribunal Federal de negar o direito de revisão da Lei da Anistia, que nos tornou a todos vítimas eternas dos torturadores que se serviram do Brasil durante o regime militar.
Não que o Brasil de hoje, 25 anos distante de 1985, quando a ditadura efetivamente terminou no País, quisesse um revide contra os que subjugaram essa Nação por 21 anos. Não era isso. Talvez o que a maior parte efetivamente quisesse e ainda queira seja o respeito. O de famílias saberem onde estão os cadáveres de seus entes queridos. De ter acesso a informações sobre como eles morreram. E a de poder divulgar oficialmente os nomes dos que os mataram.
A primeira foto que ilustra esse texto, acima à esquerda, mostra o jornalista Vladimir Herzog morto numa cela militar de São Paulo. Morto por tortura. Assassinado. E seus assassinos não foram até hoje identificados. Não falo de processados.
Os que mataram durante o regime militar por não aceitá-lo tiveram suas identidades reveladas. Inclusive os que não mataram ninguém, mas apenas se opunham à ditadura. Inclusive aqueles que não aderiram à luta armada, mas sabotaram o regime com publicações proibidas, por exemplo. E elas foram feitas aos milhares.
Os que assaltaram bancos e sequestraram pessoas também foram expostos. Inclusive estão sendo denunciados hoje aqueles que continuam assaltando o Estado, montados na máquina administrativo/política, como parte do Poder Executivo. Esses são acusados todos os dias e as denúncias, na maior parte dos casos, procedem. São tristes, portanto.
A Lei da Anistia não foi um pacto nacional, não. Não foi um acordo para passar a borracha sobre o passado, absolutamente. Ela foi aprovada pelo Congresso Nacional por 206 votos da Arena contra 201 do MDB. E até hoje a forma como foi promulgada incomoda muito a muita gente por esse Brasil afora. Muita gente digna - que não matou na ditadura e não rouba hoje, não vivendo encastelada no aparelho do Estado, como se ele fosse uma iniciativa privada sua - se sente mal.
Sabem que motivo me levou a iniciar esse texto com a foto de Vlado Herzog morto? Porque foi a Justiça quem, depois de considerar todo o caso, sentenciou claramente que o Estado era o assassino do Vladimir. Ninguém usou de subterfúgio. O Magistrado não teve medo. E estávamos em plena vigência da ditadura militar. Sob um regime de exceção, que ameaçava e, em casos mais sérios, cumpria as ameaças.
Estávamos na época em que o general Geisel disse a dois jornalistas: "Acho que a tortura, em certos casos, torna-se necessária para obter confissões". E era o presidente da República! Era o inquilino do Palácio do Planalto que, em determinadas ocasiões solenes, colocava no peito de torturadores a Medalha do Pacificador. Que terrível ironia: nossos pacificadores eram os donos da paz dos cemitérios!
Forçar o Estado a reconhecer que prendeu ilegalmente, torturou e matou durante um tempo em que ele não era legitimamente dono do poder não é revanche. Não é ação de ódio ou vingança. É um direito dos povos. É um poder que cada nação deve ter e exercer para que todos possamos purgar, juntos, os nossos pecados.
Não, o Brasil não quer processar, condenar e prender seus torturadores, até porque muitos deles já morreram. Mas temos o direito de conhecê-los. Para que não aconteça mais.

12 de maio de 2010

O problema real


Vira e volta e os meios de comunicação brasileiros investem contra a criação ou revitalização de empresas estatais por parte do Governo Federal. Agora é a vez da ressuscitada Telebrás, que retorna como responsável pela banda larga na internet brasileira, com a promessa governamental de que esse serviço seja duplicado até 2014.
É estéril a discussão sobre se as empresas privadas seriam mais eficientes do que as públicas. Resta discutir como elas são dirigidas. Todos os dias instituições privadas vão à falência no Brasil, vitimadas que são por má gerência empresarial. Já as públicas, essas sangram anos e anos sem fechar a ferida. Sangram dinheiro público.
A revista Época que circulou no final de semana (nº 625) mostra em reportagem de capa que o Governo Lula, de 2003 para cá, contratou cerca de 20 mil pessoas para postos de confiança nos chamados cargos de Direção e Assessoramento Superior (DAS), aparelhando a máquinas estatal sobretudo e principalmente com gente ligada a partidos da base aliada. E também dando cargo de confiança e destaque a incontáveis sindicalistas. Estes, ocupam postos da maior importância em instituições como a Previ, Funcef e Petros. Ricos fundos de pensões.
Devem ser raros - e a gente pode afirmar isso sem medo de errar - os que foram contratados por competência. Quase todos são apaniguados.
O problema não é a empresa, se pública ou privada. O problema é quem a dirige e o fato de ela ser usada como moeda de troca política, mesmo sendo sustentada por dinheiro público. E isso, certamente, vai acontecer também com a Telebrás.
O problema real, conclui-se, é a falta de respeito para com as instituições públicas. Bem gerenciadas, elas poderiam prestar grandes serviços.

30 de abril de 2010

A paz das autoridades

Criminosos ligaram para o vice-presidente da República, José de Alencar, essa valorosa figura da foto, e simularam o sequestro de uma de suas (dele) filha. O vice chegou a pensar que quem gritava ao telefone era mesmo a filha. Ficou desesperado até constatar que tudo não passava de um golpe. Os vagabundos queriam tomar o dinheiro dele.
Caso o leitor queira, pode acessar, neste meu Blog, o artigo "Reféns do terror", postado em 29 de janeiro de 2009. Vai ver que passei por isso. Também de madrugada, também a mulher gritava ao telefone uma frase "pai, fui assaltada, pai". Eu fiquei desesperado porque, como somente notaria depois e como o vice-presidente só se apercebeu também quando as coisas se passaram, vozes aos gritos são todas quase iguais. E na nossa mente quem se esgoela é nossa filha mesmo. As coisas se processam assim.
No meu caso, a filha não chegou em casa porque estava em São Paulo e eu em Vitória, onde moro. Somente depois de desligar o telefone foi que olhei para o bina e vi que a ligação DDD 021 vinha do Rio de Janeiro e não de São Paulo, onde o DDD é 011. Mas as coincidências entre os dois casos vão terminar daqui a mais algumas linhas.
No meu caso e no do vice-presidente, a Polícia disse que essas ligações vêm sempre de presídios. São fascínoras, com cúmplices fora da cadeia, quem arquiteta isso. Tempo eles têm, de sobra. E o golpe rende dinheiro. E traumas para o resto das vidas das vítimas.
Acabaram-se as coincidências.
No caso do vice-presidente José de Alencar, 24 horas depois os criminosos estavam presos. No meu caso, ou são os mesmos ou eles estão soltos até agora. No meu caso, volto a dizer, ouvi da autoridade policial que não era possível fazer nada porque os telefonemas eram dados da cadeia.
Pombas, da cadeia onde estão os criminosos e a Polícia. E ela, no meu caso, volto a insistir, não podia fazer nada. Isso foi-me dito de maneira clara.
Tenho em meu Blog, além do artigo sobre o falso sequestro, outros com o tema dos telefonemas falsos que nos torturam. "Cuidado com telefonemas falsos" e "Vamos denunciar telefonemas falsos" nos remetem a esse tema. E há outros artigos. Quando isso vai parar? Sou capaz de arriscar: no dia em que não deixarem mais o vice-presidente dormir.
No Brasil as coisas só andam assim. Polícia rápida, eficiente e bandido na cadeia só quando a paz das autoridades é atingida. Até lá, é vida que segue!

16 de abril de 2010

Construções de si mesmos


O governo Lula elogia os Estados Unidos mas não o afaga. Age como a cobra, que morde e assopra. Cercado por antigos militantes de partidos clandestinos, o presidente apoia regimes como o de Cuba, Coréia do Norte, Irã, Venezuela, Bolívia e outros. Mas elogia o livre investimento, defende a economia de mercado e o capitalismo "não selvagem", seja lá isso o que for e o que o leitor puder entender.
Não se trata de um governo pragmático, como pode parecer à primeira vista. É um governo aproveitador mesmo. Inculto, arrogante e debochado. E, juro, não estou sendo preconceituoso.
Em época de eleições, o presidente não pode se afastar de seu sustentáculo gerencial. E por isso mantém apoio a regimes políticos considerados hoje como fora de moda. Mas também deve evitar ao máximo contrariar princípios e crenças da esmagadora maioria da classe média - as classes pobres não entendem nada disso - e, assim, deve louvar a cada momento a propriedade privada e o sagrado direito de ir a vir.
Seriam contradições de um governo sem carteira de identidade político-ideológica? Não, claro que não. Isso é a essência de presidente que se sustenta no PT, partido que não é partido, que aglutina todas as correntes existentes de (pseudo)esquerda e, desde 2003, renunciou à ética em nome da contituidade no poder. Se possível, em nome da perpetuação do poder.
O ministro Carlos Ayres Brito, ao multar o presidente, disse com sapiência e propriedade que os chefes de Executivos não são eleitos para fazer seus sucessores. Eles são eleitos para governar, para colocar em prática um projeto de governo. Essa é a essência da democracia representativa, que exige alternância de poder. De homens e de ideias.
Mas como explicar isso a Lula? Se falta ao atual governo sobretudo um norte definido e uma ética consagrada, tudo é possível. Dele espera-se qualquer coisa.
E, esperamos nós, quem sabe essa tal democracia representativa seja capaz de sobreviver a ele. E a outros que não governam para governar, mas sim para se perpetuar no poder, até mesmo se for necessário que isso se faça através de outros. De construções de si mesmos.
Em síntese, um governo pode ser o que quiser. De esquerda, de centro ou de direita. Contanto tenha estofo para tanto e apoio popular para se sustentar onde está. O que ele não pode ser é aético e de vocação continuísta. E disso estamos cheios.

7 de abril de 2010

Os pais (e mães) das tragédias

Há algumas décadas, quando o Aeroclube do Espírito Santo foi construído em Barra do Jucu, Vila Velha, não havia nada em seu entorno, ao lado direito no sentido de Guarapari da Rodovia do Sol. Nos anos que se seguiram, incentivadas por políticos inescrupulosos, milhares de pessoas ocuparam uma região ao sul, onde hoje se situa um bairro miserável denominado Grande Terra Vermelha. Lá convivem, na miséria, quase absoluta ou não, os diversos tipos de marginalidade. Inclusive, é claro, o tráfico de drogas.
Assim como lá, as ocupações irregulares de terras públicas foram incentivadas, na Grande Vitória, a região metropolitana do Espírito Santo, várias ocupações irregulares em áreas de risco, sobretudo nas encostas de morros. E é nesses lugares que ocorrem as tragédias, sobretudo quando chuvas fora do normal atingem os grandes centros urbanos.
Foi isso o que aconteceu nesse início de abril de 2010 no Rio de Janeiro. A quase totalidade dos muitos mortos pelas tempestades foram vítimas de desmoronamentos de encostas. Eram miseráveis que lá, como aqui, construíram suas habitações em laterais de morros, incentivadas pela omissão ou pela corrupção de políticos inescrupulosos. Um crime que se origina em todos os níveis: vem desde a presidência da República até o poder público municipal.
É certo que chuvas torrenciais, o poder de escoamento de água das cidades não suporta. Não há galeria pluvial que aguente. É correto também afirmar que a falta de educação cívica do brasileiro - e aqui nesse ponto todos são igualmente culpados, desde o mais pobre ao mais rico - colabora com isso. Mas é inegável e irrefutável dizer que a classe política é o pai e a mãe dessas mazelas capazes de se repetirem sempre.
Enquanto o exercício do poder político, em todas as suas esferas, for entendido e exercido apenas como um meio de manutenção desse mesmo poder, custo o que custar, doa a quem doer, renuncie-se ao que for necessário renunciar, as consequências doerão mais nas vidas dos miseráveis. E os políticos, por conta da desinformação, da boa fé e ignorância da esmagadora maioria da população, sobreviverão graças a atos e acordos espúrios.
É sempre assim: sobrevive o mais forte. Ainda que não tenha ética, nem vergonha na cara.






30 de março de 2010

O julgamento do inexplicável


Quando a menina Isabella Oliveira Nardoni, essa belezinha aí ao lado, foi morta, em fins de março de 2008, passei alguns dias diante da TV vendo o noticiário e torcendo para que a Polícia conseguisse localizar o tal ladrão que, segundo o pai da criança, invadiu o apartamento dele e a matou por porradas, esganadura e a jogando pela janela do sexto andar do edifício.
A Polícia nada encontrou. Ladrão que não rouba não existe. Imaginei então que o matador seria um pedófilo. Não era, não existia também. A menina não sofreu nenhum tipo de abuso sexual. Só mesmo porradas, a esganadura e foi jogada pela janela.
No julgamento do pai e da madrasta, acusados de responsáveis pela morte, ambos novamente reiteraram que são inocentes. E seu advogado disse que não há provas no processo que os liguem à morte. Só há provas mostrando que a menina de cinco anos morreu mesmo porque levou porradas, sofreu esganadura e foi jogada pela janela.
Quem mais poderia ter matado Isabella? Os meio-irmãos pequenos, menores que ela, um deles bebê? Claro que não. Talvez a gente jamais entenda como um pai relativamente culto e a madrasta idem conseguem cometer um crime bárbaro daqueles. Se a gente fechar os olhos, parece algo nascido de filme de terror absurdo. Parece mentira.
Mas não foi nada disso. Aconteceu mesmo, na maior cidade do Brasil, quando uma garotinha de cinco anos foi passar o final de semana na casa do pai, para matar as saudades dele, dos meio-irmãos e da madrasta. Sem que nada pudesse, possa ou um dia vá poder explicar porque o crime aconteceu. Nem as sentenças dadas ao final do julgamento dos dois, às vésperas da passagem dos dois anos da morte da "Isa", serve de consolo.
Não há consolo para o inexplicável.

11 de março de 2010

A cara do Brasil


A sequência quase interminável de besteiras ditas diariamente pelo presidente Lula alimenta os meios de Comunicação do que eles mais gostam: polêmica. Digo isso de cadeira por ser jornalista profissional e por ter militado por quase três décadas em jornal diário.
Mas não é só isso: a legião de repórteres e outros profissionais de Comunicação que o procuram deliciam-se também com o seu despreparado intelectual. É esse pauperismo de ensino formal e falta de conhecimentos autodidatas que faz com que ele seja capaz de dar as mais desbaratadas declarações o que, invariavelmente, leva a constrangimentos. E a boas risadas.
O exemplo de comparar presos políticos cubanos com criminosos comuns das penitenciárias de São Paulo é um caso exemplar. De deixar pasmos a todos. E Lula viveu, notem bem, a ditadura militar brasileira. Se ele quer defender o regime cubano, e isso é possível, basta citar o bloqueio econômico dos Estados Unidos àquele país, as masmorras de Guantânamo e o fato de que Cuba era um prostíbulo dos EUA à época de Fulgêncio Batista para completar dizendo que uma situação assim sempre vai gerar regimes fechados. Sobretudo, fechados a contestações. Mas, para Lula, para seu QI e sua irresistível tentação de improvisar, isso são detalhes.
Apesar do apoio popular no Brasil a esse presidente - movido sobretudo a estômago cheio - e do estonteante e até certo ponto inexplicável respeito recebido por ele no exterior, o dignatário máximo brasileiro é uma figura caricata. Talvez a mais caricata de todas, desde a época da proclamação da República.
Lula prova de forma cabal que um país com ensino formal deficiente e legiões de pobres ignorantes, é capaz de eleger qualquer um. Sobretudo quem tem a sua cara.

12 de fevereiro de 2010

"Democratas" e "Progressistas"

Podemos falar o que quisermos dos Estados Unidos, e certamente o intitulado "capitalismo selvagem" vive lá mesmo. Mas uma coisa é preciso reconhecer: a estabilidade e o poder das instituições civis deles começa nas agremiações partidárias. Elas são firmes, fortes - reacionárias, é certo - e respeitadas. Ninguém lá está acima de seu partido.
Aqui ocorre o inverso. Troca-se de partido ao vai da valsa. As legendas podem ser alugadas e, quando isso não ocorre, acabam dirigidas por caciques políticos, a maioria dos quais tem apenas um interesse: jamais perder uma eleição. José Sarney talvez seja o exemplo mais candente dessa, digamos, "peculiaridade" de nossa política.
Mas a prisão do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, trouxe à tona um outro lado, talvez o mais torpe, de nossa realidade política: temos um partido que responde pelo nome de Democratas, ou DEM, caso alguém prefira, e reúne sobretudo e principalmente as viúvas da época da ditadura militar que se instalou no Brasil entre 1964 e 1985.
Aliás, esse grupo se divide em dois partidos. O outro, descendente direto da Arena, sustentáculo do regime militar, hoje se chama Partido Progressista. Não é engraçado?
Não, não é engraçado. O governador José Roberto Arruda governa com todos os vícios e defeitos aprendidos ao longo de sua "carreira". Como ele, muitos dos demais membros das duas agremiações. Seria gozado se não fosse tão trágico, termos um Democratas dessa estirpe na política brasileira. E um Progressista...
É preciso acordar, é preciso questionar. Na sua primeira noite na prisão o governador Arruda comeu pizza. Sintomático? Talvez, mas também é trágico.
Em tempo: esses dois partidos não são a única anomalia da política brasileira. Na esquerda, no PT e outros, também sobrevivem muitos canalhas. Em tempos de eleições é necessário pensar nisso. Viver com isso em mente.

9 de fevereiro de 2010

Sobre caixas pretas


O reinício dos trabalhos de busca pelas caixas pretas do Air Bus A-330 da Air France, aquele acidentado em meados do ano passado (foto), vai trazer à tona uma pergunta: não seria mais lógico se o conteúdo desses dados eletrônicos ficasse também nas torres de controle dos aeroportos de origem ou destino - preferencialmente - dos voos, em vez de nos gravadores dos equipamentos?
Explico: vivemos a época da transmissão de dados por satélite. As caixas pretas podem gravar dados em seus gravadores e, ao mesmo tempo, fazer a transmissão para uma das torres de controle envolvidas nos voos. Uma vez que eles terminem, basta que tudo seja automaticamente apagado. E não há acesso público a dado algum. Se houver acidente, tudo o é que necessário para ajudar na elucidação dos fatos estará à mão caso os gravadores dos aviões se percam ou fiquem muito danificados.
Claro; isso tem um custo elevado. Claro; isso vai exigir mais sistemas de transmissão e recepção de dados em aviões e, sobretudo, aeroportos. Claro; vai expor tripulantes e aeronaves caso não haja um sistema de bloqueio de transmissões quando for desnecessário que se tenha acesso a elas. Mas, claro também, será mais fácil elucidar fatos.
Claro, por último, tais soluções não são encontradas por restrições feitas por diversos países, a maioria delas ligadas a questões de segurança. Aviões podem conter equipamentos sigilosos. Conversas entre tripulantes muitas vezes tocam em assuntos delicados. Leis, dependendo da procedência, protegem a privacidade. E todos sabemos que rackers invadem até computadores do Pentágono, de modo que não deve ser lá muito difícil interceptar transmissões aviões/torres de controle.
De qualquer forma, a segurança de voo, a melhoria dos aviões comerciais e as vidas humanas envolvidas têm uma importância bem maior. Mesmo depois do 11 de setembro, mesmo depois do crescimento de movimentos violentos mundo afora.
O acidente da Air France já poderia ter sido explicado se os muitos obstáculos legais tivessem sido contornados. O que confortaria - talvez - as famílias e evitaria fatos futuros iguais ou parecidos. Certamente!