5 de agosto de 2026

O golpe sempre esteve em curso

 
Heráclito Fontoura Sobral Pinto (1893-1991) foi um dos maiores juristas do Brasil e certamente o mais sábio. É dele esse pensamento: "Os militares tendo proclamado a República, julgaram-se donos da República. E nunca aceitaram não serem donos da República". Sobral Pinto ganhou relevância no Brasil ao defender Luiz Carlos Prestes, líder comunista, durante a ditadura Vargas. Ele era católico fervoroso, homem com pensamento político de direita e não tolerava ditaduras ou prisões ilegais, comuns no seu país ontem e hoje.

Para esse jurista morto faz 35 anos, nossa República tem um "pecado original" por ter nascido de um ato de força das Forças Armadas e não de uma construção democrática com a participação da população. Em consequência disso os militares sempre acreditaram ter a tutela permanente sobre o Estado. Resultado em golpes só após o império: proclamação da República, congresso dissolvido em 1891, Revolução de 1930, decretação do Estado Novo, golpe civil/militar de 1964. Além desses, várias aquarteladas marcaram a história recente do Brasil, durante diversos períodos. Juscelino Kubstcheck foi quem mais sofreu com eles e que começaram com a reação à sua posse (como no caso de Lula). Posteriormente vieram a Revolta de Jacareacanga e a Revolta de Aragarças. Ele não foi deposto por muito pouco.

Hoje mesmo o Clube Militar, congregação de militares de pijama sediado no Rio de Janeiro emite nota praticamente conclamando a população brasileira a derrubar o atual governo. E faz isso porque os militares da ativa se negam a nova aventura golpista. Recentemente fizeram um jantar na sua sede carioca com a presença de um "convidado ilustre": Flávio Bolsonaro, que foi acompanhado do advogado Ives Gandra Martins, conhecido militante extremista (junção das duas fotos acima). No Clube Militar só entra gente "do ramo".

O golpe de Estado sempre esteve em curso no Brasil, mesmo nos momentos de calmaria que ocorrem ao longo dos tempos. Basta vermos a outra foto abaixo e que mostra três dos maiores jornais brasileiros estampando a mesma manchete, com todas as letras iguais, em 31 de julho último. Quem como eu trabalhou uma vida quase inteira em imprensa diária sabe que essa "coincidência" é impossível. Os jornais, grandes como a Folha de S. Paulo, O Globo e O Estado de S. Paulo, os médios e os pequenos  jamais compartilham suas manchetes e principais matérias, mesmo quando é óbvio o assunto mais importante do dia. Três manchetes saírem exatamente iguais só acontece quando há um conluio entre as direções das empresas. Elas são ligadas ao grande capital, ao "mercado" e não suportam o Governo Lula. Hoje fariam e fazem tudo para impedir o quarto mandato desse presidente. Sobretudo com a ajuda providencial dos Estados Unidos.

Aliás, o governo neofascista de Donald Trump, contando com a ajuda sempre "cordial" da Argentina de Javier Milei e de Israel de Benjamin Netanyahu não esconde mais de ninguém que já interfere no processo eleitoral brasileiro de todas as formas. Autoridades brasileiras  tiveram vistos cancelados e não podem ingressar nos Estados Unidos, tarifas chantagistas tentam sufocar nossa economia, dois funcionários do Departamento de Estado que viriam ao Brasil trabalhar contra o sistema eleitoral tiveram o visto negado por nós e o embaixador norte-americano indicado por Trump depois de 19 meses de governo - e porque isso era conveniente aos planos de intervenção - ainda não teve seu "agrément" (pedido de concordância) concedido. Para retaliar, os EUA retiraram o visto de nossa embaixadora.

Nunca antes as relações entre Brasil e Estados Unidos e Argentina, que já têm mais de dois séculos, estiveram tão agredidas. A pressão e a chantagem são claras e fortes. E isso é mais um motivo para o Brasil não ceder, mesmo quando a gente sabe que nossas Forças Armadas e parcela da população são lacaias dos ianques e de seus interesses. Ontem mesmo, lendo matérias de Internet, fiquei estupefato. Alguém perguntou a um cidadão o que ele faria se os EUA invadissem o Brasil. Resposta: "não sou de soltar foguetes, mas acho que faria isso". Um povo sem dignidade está destinado a ser lacaio de interesses estranhos aos seus. O governo Trump já está saqueando abertamente as riquezas da Venezuela, condenando o povo cubano à fome e armando o governo sionista de Israel para completar o genocídio palestino na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. É preciso ao Brasil mostrar que não faz parte desse projeto criminoso da extrema direita política de controlar o mundo.

Ainda que isso nos custe muito caro!       

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