17 de março de 2011

O tsunami das ações humanas


Os geólogos e outros estudiosos são unânimes em dizer que a tragédia do Japão é um fenômeno natural e aconteceria mesmo que vivêssemos em um paraíso. A crosta terrestre executa movimentos de acomodação entre as placas tectônicas, e estas liberam enorme quantidade de energia que, por sua vez, converte-se em terremotos, tsunamis e suas consequências.
Mas as chuvas que destroem o Brasil e outras regiões do mundo, da mesma forma que os longos períodos de estiagem, não são. Estes, constituem-se no fruto da ação humana sobre a natureza. Nunca antes na história desse planeta ele foi tão destruído. Tão maltratado. Tão vilipendiado. Somos nós, os chamados animais racionais, o maior terremoto, o maior tsunami a ameaçar a terra. E ainda não conhecemos, senão em parte, os resultados de tanta irresponsabilidade.
Os líderes mundiais, sobretudo dos países mais poluidores, justificam a destruição da camada de ozônio, apenas uma das tragédias modernas, como sendo necessária à sustentação de suas economias. Há a necessidade de queima de combustíveis fósseis e ponto final. O Brasil, que não polui tanto por essa via, queima florestas com uma velocidade que dificulta até mesmo o acompanhamento da rapina via satélite. Acaba com a natureza e ainda ataca com ferocidade a camada de gases que deveriam nos proteger contra radiações.
Onde vamos parar?
Na foto deste texto está um trecho de uma cidade do Espírito Santo. Nos noticiários da TV's, o medo estampado no rosto das pessoas que, de uma hora para a outra, descobrem que não têm mais nada. Perderam tudo o que haviam acumulado ao longo de suas vidas.
É uma tragédia quase tão grande quanto a japonesa. Com a diferença de que, na Ásia, toda a destruição é resultado de um fenômeno sobre o qual o homem não tem controle. E nem terá. Nos demais, a destruição é fruto de nossas ações. Teríamos controle sobre ela se quiséssemos. Mas como o importante supostamente é preservar a economia, estamos destruindo o futuro de nossos netos. E talvez não tenhamos como recuperar o que já foi perdido.
Que pena!

9 de março de 2011

A criatura no fundo do poço


Começa a desmoronar, como se fosse um castelo de cartas, o espetáculo ilusionista de milagre econômico no qual se constituiu o segundo governo de Lula, em seu esforço descabido para fazer um(a) sucessor(a), fosse quem fosse, contanto pudesse manter seu grupo político no poder. Já foi anunciado um corte de mais de R$ 50 bilhões no orçamento. E vai ser preciso mais. Farras de gastos costumam terminar em ressacas de bolsos vazios.
Durante oito anos, usando e abusando de metáforas paupérrimas, o hoje ex-presidente tentou glorificar a seu governo e a si próprio. Agora, faz palestras auto-glorificantes pelas quais cobra - segundo se imagina - cerca de R$ 200 mil por cada 40 minutos de leitura de laudas escritas por terceiro. Quem sabe para evitar erros de concordância e outros.
O "aperto" anunciado pela presidente(a) Dilma Roussef, e ela sabe disso, serve a muito pouco da nobre causa de manter a economia do Brasil saudável. Teria de ir muito mais adiante para surtir efeito, inclusive com cortes de pessoal contratado apenas para cumprimento de conchavos políticos. Mas as pressões contra isso seriam imensas. Ainda não creio sequer que ela consiga cortar R$ 18 bilhões em emendas parlamentares - esse cancro político - como anunciou. O Poder Legislativo gosta de nadar em dinheiro público para manter seu curral eleitoral de rédea curta.
O deficit público só aumenta e, na última entrevista dada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que para corrigir em 4,5 o cálculo do imposto de renda talvez fosse preciso "reajustar algum tributo". Esse não é apenas um erro que o governo comete. Essa é a solução sempre encontrada para que privilégios se eternizem. Para que a "companheirada" seja acomodada em cargos públicos. Para que se façam "parcerias", que é como eles chamam conchavos políticos ou simplesmente a venda de apoios ao Executivo este conviver com um Legislativo bonzinho, incapaz de dizer "não", mas sim de aprovar sempre por unanimidade.
Mas o poço tem fundo. E talvez caiba à criatura descobrir que o criador a colocou lá!

2 de março de 2011

O "basta" contra os feudos!


O castelo de cartas que desmorona nos países islâmicos do Norte da África e regiões próximas tem um forte componente político, mas não político-partidário. Não se trata de uma, duas ou mais revoluções ideológicas - daquele gênero capitalismo X comunismo -, como as que ocorriam até meados do século passado, mas de um movimento supra-nacional de cidadãos que querem lutar para ter voz e participar dos destinos de seus países.
Egito, Líbia, Iêmen, Tunísia, Jordânia e outros, não são estados como nós conhecemos. Aqui na América do Sul, por exemplo, até mesmo nas ocasiões de quebra da normalidade democrática, nos anos de chumbo, os que detinham o poder, na sua totalidade militares, trocavam a guarda para dar a impressão de que o poder mudava de dono de "X" em "X" anos. Um ditador brasileiro, Ernesto Geisel, nosso "pastor alemão", disse certa feita na Europa que o Brasil era "uma democracia dentro de sua relatividade". Engraçado? Não, apenas ridículo.
Como ridículo é o líbio Khadafi (na foto acima), com suas vestimentas de escola de samba, seu distanciamento da realidade e sua visão de mundo dissociada de tudo o que possa fazer sentido. É contra esse quadro, esse aleijão, que lutam os povos dos diversos países. Eles querem ser donos de suas nacionalidades. Não querem viver no feudo do senhor "A" ou "B". Os senhores feudais do Norte da África são todos multimilionários e acumularam fortunas roubando, enquanto seus povos passavam dificuldades. As revoltam são contra isso. O que se quer fazer naquela região é transformar feudos em países. Senhores feudais em detentos. Ou em um passado que precisa ser esquecido.
E a lista das anomalias não se estanca nos países onde a população já se revoltou. Em outros, como na Arábia Saudita e Emirados Árabes, por exemplo, o estado pertence a famílias. Castas de magnatas que vivem à custa de seus povos e do petróleo existente naquelas regiões.
Na maioria dos casos, esses países sobreviveram até hoje por força de conveniências políticas. Os mais espertos eram e são fornecedores de petróleo para os Estados Unidos e não hostilizam Israel. Graças a isso os norte-americanos passaram década fazendo vistas grossas a tudo o que de ruim acontecia por lá. Agora não é mais possível. Agora o "basta" é um tsunami popular que ganha força ao chegar às praias. E ainda não chegou a todas elas.

23 de fevereiro de 2011

O tiro de canhão no bolso do cidadão


O Brasil é mestre em criar impostos. E quanto mais injustos, mais estapafúrdios, mais eles duram. O que criou os Terrenos de Marinha é um deles. Em 1831 imaginou-se a que distância chegaria uma bala de canhão disparada por um navio de guerra de então e que se aproximasse da costa brasileira até a linha de preamar daquele ano para efeito de nos atacar. Eram 33 metros. Então, daí em diante, essa faixa litorânea, estivesse ela onde estivesse, passou a ser Área de Marinha. Ou seja, uma faixa de terra onde tudo era da União e onde as pessoas só poderiam morar como ocupantes ou foreiros. Como em parte dessa foto, hoje de região nobre da cidade de Vitória. Afinal, precisamos ser defendidos!
Passaram-se os anos. Dois séculos foram comemorados desde o tido de canhão de 1931. Mas o Estado, com sua voracidade perdulária que cresceu de forma desmedida com a chegada do PT ao poder, manteve e ainda amplia a Taxa de Marinha, o imposto de temos de pagar para morar num terreno que, "por segurança", pertence à União para nos proteger.
Também, pudera: já pensaram vocês se surge de repente por aqui uma caravela portuguesa e começa a atirar para tentar recuperar sua antiga colônia? Seria um Deus nos acuda!
Por conta disso, em Vitória, que é uma ilha, e em mais 13 municípios do Espírito Santo, novas áreas de Marinha estão sendo demarcadas. Cerca de 30 mil pessoas, além das atuais, vão ter de pagar à União o imposto mais cretino dentre todos os existentes no Brasil. Há anos luta-se pelo fim desse absurdo. Mas o Estado resiste. O Serviço de Patrimônio da União (SPU) fiscaliza como um pastor alemão os moradores das áreas. E ai de quem não pagar o imposto!
Nos outros estados brasileiros também se luta contra tal situação. Em Pernambuco, uma ação civil pública conseguiu sustar as cobranças. No Espírito Santo, a Justiça Federal está para dar sentença relativa à questão. Mesmo diante do silêncio comprometedor das autoridades federais, omissas ou cúmplices, e de muitos parlamentares interessados em ver crescer a arrecadação do Governo para mamar mais e mais, a sociedade reage. E resiste, ajudada por políticos sérios.
A Taxa de Marinha é uma prova cabal de que Charles de Gaulle estava certo. Nós não somos um Pais sério.

16 de fevereiro de 2011

Os pobres nos seus catres


Fiz questão de usar a calculadora para que essa conta saísse exata: um brasileiro que ganha salário mínimo (de R$ 545,00) precisa trabalhar 49,03326605504587 meses para botar no bolso os R$ 26.723,13 mensais percebidos por um deputado federal. E eles ganham isso, afora os penduricalhos do cargo, que vão de auxílio moradia a polpudas verbas de gabinete, passando por outros. E são estes, os deputados, quem decide quanto vão ganhar aqueles, os trabalhadores que ganham salário mínimo, todos os anos. E decidem quanto eles vão ganhar também, como fizeram no final do ano passado, concedendo a si próprios quase cem por cento de aumento em seus subsídios. Um escárnio, um atentado ao pudor político!
Nos últimos dias, acompanhamos as discussões acerca do salário mínino. Quando se tratou de decidir os vencimentos dos senadores e deputados, foi fácil o Congresso Nacional chegar a um veredito: rápido e rasteiro, bem tarde da noite, o aumento foi auto-concedido. Mas decidir quanto vão receber os pobres diabos envolveu até mesmo discussões sobre cargos de primeiro e segundo escalão do Governo, além de liberação de verbas parlamentares. Existem prostitutas que se recusam a chegar a um patamar tão baixo em suas atividades.
O Ministro da Fazenda certamente poderá continuar a desfilar uma longa lista de justificativas e ameaças para o mínimo continuar bem pequeno e, de agora em diante, fora da apreciação do Parlamento. Mas ele sabe, e os deputados e senadores também, que se as vantagens dos políticos e apaniguados do Governo fossem menores, se não houvesse o inchaço demagógico da máquina pública e se todos emprestassem honestidade às suas funções isso seria suficiente para reduzir ao máximo a extrema desigualdade brasileira. A presidente Dilma Roussef também sabe disso.
Quer acompanhar a evolução do mínimo de 2000 até agora? Vai lá: 2000 - R$ 151,00; 2001 - R$ 180,00; 2002 - R$ 200,00; 2003 - 240,00; 2004 - 260,00; 2005 - R$ 300,00; 2006 - 350,00; 2007 - 380,00; 2008 - 415,00; 2009 - 465,00; 2010 - 510,00; 2011 - 545,00.
A propósito desse tema, um belo dia já faz um bom número de anos, um vereador pitoresco e simpático de Vitória (ES), fazendo discurso na Câmara municipal, disse hilariamente em alto e bom som, para defender um projeto de lei qualquer, pretensamente defensor dos sem (quase) nada: "Meus amigos, aqui no Brasil enquanto os ricos dormem em camas maravilhosas de colchões de molas, os pobres têm que se esticar nos catres de pau duro!".
E nem serve de consolo porque não é verdade. Infelizmente!

8 de fevereiro de 2011

A "independência" dos poderes


O presidente do Senado, José Sarney, está tão preocupado com a "judicialização da democracia brasileira" que externou essa questão ao presidente do Supremo Tribunal Federal, César Peluzo. Ele reinvidica uma espécie de acordo tácito que preserve a independência dos três poderes dessa nossa república ainda de bananas.
O que está por trás da iniciativa de Sarney? O medo dele e de seus parceiros de que a imobilidade do Legislativo acabe gerando cada vez mais pendências e que essas pendências, sendo levadas ao Judiciário, gerem por sua vez mais decisões que invadam a (in)competência dos legisladores brasileiros.
Mas isso é inevitável. O Poder Legislativo brasileiro se pendura no Executivo para obter vantagens lícitas e ilícitas. Agora, por exemplo, uma sucessão de apagões se sucedem no país enquanto o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão (foto), diz que temos um dos sistemas mais modernos do mundo. Lobão, a pior escolha do mundo para essa função, é um exemplo candente de como os conchavos dos bastidores políticos em troca de cargos podem produzir anomalias. Ele é ministro para garantir cota de participação no primeiro escalão a seu partido e, como não nasceu para isso, declara coisas absurdas quase todos os dias.
Sarney só não deseja tocar em um ponto da independência entre os três poderes: o direito constitucional que eles têm de definir os vencimentos de seus membros à revelia de toda a vontade da sociedade. Sim, porque um dos motivos de tanta negociação nos dias de hoje é o apoio que o Congresso vai dar ou não ao aumento miserável a ser determinado para o salário mínimo, para a correção do imposto de renda e para os vencimentos dos aposentados.
E isso demora, claro. Porque ninguém vai tocar em Lobão e os reajustes do topo do Executivo, Legislativo e Judiciário já foram definidos. Sem negociações.

21 de janeiro de 2011

As tragédias chegam primeiro


As tragédias brasileiras, ocorram onde ocorrerem, quando e por qual motivo acontecerem, têm todas um único e exclusivo DNA: são os filhos legítimos de uma outra tragédia, qual seja, o "casamento" entre um Poder Executivo clientelista, um Poder Judiciário corporativista e um Poder Legislativo omisso. Isso, para dizermos o mínimo.
A verdade e a exata dimensão dessa nossa tragédia brasileira, envolve muito mais coisas. Após cada eleição, o Executivo precisa negociar cargos para poder governar. O Legislativo aprova tudo, rigorosamente tudo o que é pedido pelo Judiciário, porque passarinho que come pedra sabe o ânus que tem. E na ciranda desse jogo de favores e medos, tudo o que representa manter ou aumentar privilégios de poderosos é decidido ou aprovado em questão de minutos. Tudo o mais é protelado ou alvo de demagogias. Quando uma decisão importante depende do Legislativo, ela só sai do papel se for do interesse dos outros dois poderes. E como ninguém quer perder poder, o suposto pragmatismo que cerca essas decisões, prefiro chamar de pusilanimidade.
Em consequência desse conjunto de fatores, deve passar de mil o número de mortos na região serrana do Rio de Janeiro. Serão mais de 25 mil os desalojados ou desabrigados. Haja dinheiro para a reconstrução de tudo o que foi destruído. E não apenas naquela região, mas também em São Paulo e Minas Gerais, também destruídos nesse verão 2010/2011.
Os detentores de poder concederam-se reajustes que passaram, em alguns casos, de 70 por cento. Já o salário mínimo, discute-se se pode ter R$ 30,00 ou R$ 35,00 de aumento. E discute-se já se vai muito tempo. Por esse mesmo tempo, e com toda a demagogia possível e imaginável, negocia-se medidas capazes de prevenir tragédias. Como não se chega a lugar nenhum, as tragédias chegam primeiro. E matam, democraticamente, como aconteceu ao menos agora no Rio, tanto os ricos quanto pobres. Talvez isso acorde algumas pessoas!
A estrutura de poder no Brasil tais fatos. Foi feita para isso. Tanto que havia uma estrutura de detecção de chuvas capaz de alertar para ocorrências fora do normal pronta para uso em Petrópolis, mas estava desligada porque a ninguém interessava ser o responsável por seu uso.
Agora, promete-se mundos e fundos. Da presidente a vereadores dos locais atingidos, medidas de proteção e reconstrução são anunciadas. Bastará a poeira baixar, a cobertura jornalística esmorecer, voltar ao normal, e quase tudo será esquecido.
Restarão os mortos. As famílias destruídas. E os traumas que muitos carregarão pelo resto da vida. A tendência, ao final, será a de vermos alguns paliativos e nada mais. Os pusilânimes continuarão como são. Os corporativistas, também. Os clientelistas, idem. Um novo Brasil poderá até chegar um dia. Mas se vier de baixo para cima. Nunca de cima para baixo.

12 de janeiro de 2011

This is Cinerama


Quero me permitir um pouco de saudade.
Avatar, um sucesso absoluto em cinema 3D, atraiu a atenção de todos para esse recurso cinematográfico realmente fantástico. E muita gente pensa que a filmagem em terceira dimensão foi uma criação de James Cameron ou da equipe de filmagem desse seu grande sucesso. Que o 3D veio para ficar não resta dúvida. E que em breve as TVs e cinemas apresentarão esse recurso diuturnamente, também. Mas isso não é novidade, mesmo aqui no Brasil. Muito pelo contrário.
Em agosto de 1959, em São Paulo, foi inaugurado na Avenida São João, 1.462 (Bom Retiro) o Cine Comodoro (primeira foto à esquerda), em um evento que teve até transmissão ao vivo de rádio e televisão. Era um absurdo de conforto e modernidade para a época, com filas imensas de espectadores que aceitavam aguardar quatro, às vezes seis horas para poder entrar. Isso numa época em que ainda era permitido estacionar na São João, coisa absolutamente impensável nos dias de hoje. Na primeira foto à direita temos o interior do cinema. Alguns dos maiores sucessos do Comodoro eram filmes em 3D. O maior deles - talvez por ter sido o primeiro -, This is Cinerama (segunda foto à direita), transportava os cinéfilos para montanhas russas, aviões de guerra ou outros artifícios. Havia uma infinidade de gritos na sala de projeções quando o carrinho da montanha russa despencava de grande altura. Parecia que todos estávamos lá, no parque de diversões, descendo as rampas em grande velocidade. Eu pelo menos estava, criança ainda, saco de pipoca nas mãos, ao lado dos meus pais, curtindo aqueles momentos caros de ócio dos finais de semana e que as crianças costumam valorizar depois que não existem mais.
E era mesmo um parque de diversões. Cinerama não explorava histórias, como Avatar. Suspense, aventura, romance, terror, nada. Na época, os efeitos especiais, ainda pré-históricos, eram chamados de "truques". E o Cinerama era um dos mais bonitos truques criados pelo cinema de então. Cada filme era formado por vários assuntos ligados uns aos outros por cortes de cena e sempre explorando a impressão que o espectador tinha, de estar dentro da tela. Ou então de a tela ter invadido a sala de exibições. E isso graças a equipamentos - projetores - imensos, pesadões e que ocupavam praticamente toda a grande sala de projeções.
Logo ele caiu em desuso. E isso porque não contava histórias, não havia tramas, nada. Eram apenas diversões rápidas, que com o tempo cansaram. O Cine Comodoro fechou depois de algumas décadas. Mesmo passando filmes tradicionais, grandes sucessos (como Evita, mostrado na foto). O mundo de Cinerama ficou apenas na memória das milhares de pessoas que foram até aquele cinema se divertir.
Restou, da época, pelo menos em minha lembrança, o Filé do Morais. O restaurante próximo dali e para onde meu pai levou-nos para comermos o mignon mais gostoso que existia, uma ou duas vezes. E esse filé ainda existe. Continua sendo o mais gostoso, não do Brasil, mas talvez do mundo!
Agora o 3D volta. Adulto, tecnologicamente avançado, capaz de nos contar dessa forma, com esses recursos invadindo as salas de projeções, todas as histórias que o cinema pode mostrar. Para quem pensava que ele - o cinema - havia morrido, ou iria morrer, eis a prova em contrário.
As salas mudaram de endereço e de formato. Em Vitória mesmo, como em São Paulo, a maioria dos cinemas ficavam quase todos no Centro. No caso capixaba, Santa Cacília, São Luís, Paz, Juparanã, Vitorinha, Jandaia, tantos outros. Hoje eles estão nos shopping centers, ocupando áreas nobres, com luxo,conforto e o que mais se busca nos dias atuais: segurança.
A arte renasce a cada dia, a cada criação. Ou através de recriações, mas em todos os lugares. Assim ela é feita. Ela é a essência do gênio humano e esse não se basta!

10 de janeiro de 2011

Meus filhos, meus tesouros diplomáticos


O novo do ministro do Turismo, Pedro Novais, pediu passaporte diplomático para a mulher dele, pois ela precisava descansar um pouco nos Estados Unidos. Estava muito cansada, coitadinha, e o ex-presidente Lula já disse em outras ocasiões que esse tipo de gente não é gente comum.
Então, para que fazer essa confusão toda porque dois filhos de Lula receberam passaporte diplomático às vésperas do encerramento do mandato dele? Devem estar muito cansados também. E viajar diplomaticamente é muito mais confortável.
Quem tem memória boa deve se lembrar de um filmete que os próprios filhos de Lula postaram na internet e depois retiraram. Eles aparecem num avião da presidência da República, parece que então era o Sucatão ou Sucatinha, e um diz: "Isso é que é vida!".
Com toda a razão.
Agora, com o papai fora da presidência, como continuar curtindo a vida sem passaporte diplomático? O Aerolula vai ser usado pela Dilma Roussef e os filhos do ex-presidente terão o desprazer de precisar frequentar essas primeiras classes sem conforto dos aviões de carreira!
O ministro Nelson Jobim tem razão, por exemplo, quando diz que Lula curte suas férias de graça numa instalação militar por medida de segurança. Com cerca de 90 por cento de aprovação popular! Fernando Henrique Cardoso, quando entrar de férias, vai ficar no porta-aviões São Paulo. Itamar Franco, num submarino. Por medida de segurança.
Os filhos de Lula merecem ou não merecem passaporte diplomático? Se o papai deles nunca se preocupou com as leis, qual seria o motivos de eles se preocuparem? Não é, ex-ministro Celso Amorim? O que falava tanto e agora está calado.
Bobagem, gente. Afinal, Pedro Novais já pagou motel com dinheiro público e continua ministro. Vai ver as mulheres não mereciam o dinheiro dele...

6 de janeiro de 2011

De Garibaldinho para Garibaldi


Quem viu televisão ontem, 05/01, ficou "emocionado". Nas solenidades de posse dos deputados federais e senadores que vão cumprir mandato tampão de menos de um mês durante o recesso parlamentar - no caso dos senadores, alguns que estão em meio de mandato entregam o cargo por até quatro anos - houve um que foi aos prantos.
Garibaldi Alves (olhem: ele é o do meio na foto), assumiu o posto de senador no lugar do filho do mesmo nome e foi às lágrimas durante o discurso de posse. Agradeceu ao filhote, agora ministro de Dilma Roussef, por ter permitido a ele realizar um sonho aos 87 anos de idade. Tornou-se autoridade. Vai ser chamado de "excelência". Terá toda uma entourage em seu entorno e várias verbas generosas para gastar além do também gordo salário. Tudo constitucional.
Ele merece. Afinal, quando era pequeno, Garibaldinho ganhou do pai quantos presentes? Estudou em boas escolas, teve seus desejos atendidos e, ao ingressar na política, toda a família o apoiou. E é próprio dos oligarcas manter o controle dentro da família. Assim, os estados, sobretudo no Norte/Nordeste, se tornam feudos, capitanias hereditárias, onde o poder é transferido de pai para filho. Como nas monarquias antigas, de mais de dois mil anos, onde era comum o casamento entre irmãos, garantia de que os filhos seriam realmente parentes em primeiro grau. A transferência de poder e riqueza estava garantida dentro da família.
Isso tudo é constitucional porque a Constituição e as leis de maneira geral são feitas pelo Legislativo. E ele, sendo oligarca, não apenas estende mas amplia seu poder. Sempre. Quase todos os dias. Como ocorre no Judiciário, este corporativo e que também se defende de todas as formas possíveis e imagináveis sob a alegação de ser essa uma atividade ímpar, já que seu membro não pode ter outro vínculo de trabalho que não seja o magistério.
Garibaldinho emocionou o pai. Parecia estar preocupado com a possibilidade de o velho morrer na solenidade. Mas ele sobreviveu. E se passar mal de agora em diante, terá todas as honras e todas as pompas para se tratar. Sua excelência, caso necessário, será atendido no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. E a conta virá para nós.
O país das oligarquias políticas funciona assim. Só me atrevo a dizer que a culpa não é dele. Nem de Garibaldi, nem de Garibaldinho, nem dos demais como José Sarney. A culpa é nossa, embora a imensa maioria de nós, brasileiros, ainda não tenha estrutura intelectual para entender isso.

29 de dezembro de 2010

Mudar, só denunciando


A maioria dos cérebros pensantes do Brasil raciocina em direção ao fato de que nosso país tem reais possibilidades de fazer da segunda década do século XXI uma era de desenvolvimento e, também, de eliminação do enorme fosso que hoje separa ricos de pobres e serventuários públicos dos demais brasileiros, aqueles que fazem o caixa da Previdência.
O que, então, conspira contra nós? A própria estrutura de poder brasileira. Ela nasce num Executivo fisiologista e incapaz, passa por um Judiciário (esse da foto) corporativista e opaco e desagua num Legislativo pusilânime e corrupto. Num país onde todos os que comadam se fartam, faltam fatias de bolo para cerca de 60 por cento da população. Sim, porque há os que são ricos o suficiente para poderem olhar esse tipo de butim com a certeza de que já estão sendo servidos como convidados de honra da festa. E alguns não se incomodam.
A estrutura de poder brasileira foi moldada ao longo dos anos, a começar no Império, à custa de desinformação, ignorância. Uma imensa maioria de brasileiros foi mantida à margem do poder decisório, servindo como massa de manobra. São essas pessoas as que sustentam o status quo. E interessa aos governos, em todos os seus três níveis, que nada mude. Ou então que mude devagar, homeopaticamente, para a mudança ir sendo controlada, enquanto possível. Interessa que não haja ebulição social, que o descontentamento alimente turbas.
Não por outro motivo, temos uma das piores estruturas educacionais do mundo dentre os países avaliados. Não por outro motivo, mais de 1,3 milhão de paulistas achou oportuno eleger Tiririca para o Congresso Nacional. O candidato que pedia voto dizendo que "pior não fica".
O pior é que fica! Haja vista que ele fará companhia a José Sarney, Fernando Collor, Roberto Jeferson, Renan Calheiros e outros. Desculpem-me os da turma que foram omitidos.
Mas se queremos acreditar nas possibilidades de o Brasil crescer, diminuir suas diferenças e corrigir os centenários vícios de seus três poderes, teremos que fazer muito mais do que torcer pela senhora Dilma Roussef dar certo. Precisaremos, a exemplo de uma boa parte dos meios de Comunicação honestos do Brasil - e eles existem -, gritar todos os dias, a todas as horas e a plenos pulmões, que Brasil tem que mudar. E denunciar, um a um, todos os desmandos que ocorrerem. Por todos os meios, correndo os riscos necessários. Só assim vai dar certo.
Até lá, feliz ano novo. Tomara o possamos fazer assim.

28 de dezembro de 2010

Os que têm vergonha


As TVs mostraram ontem imagens que não se pretendia ver num final de ano e de governo: estudantes sendo espancados em Brasília pela Polícia Militar (foto) porque protestavam contra os aumentos que os três poderes se concederam sob o beneplácito do silêncio do Palácio do Planalto. E isso num dia em que o presidente que sai anunciava o aumento do salário mínimo: R$ 30,00.
No Brasil, os que apanham em praça pública são os que têm vergonha na cara!
Aqui no Espírito Santo, no mesmo dia em que os deputados se presenteavam com salários superiores a R$ 20 mil mensais, também era aprovado e encaminhado à aprovação do governador subsídios ou diferença do Judiciário e do MP que vão custar aos cofres públicos uma fortuna. Em dinheiro necessário a áreas vitais como saúde, educação, geração de postos de trabalho, segurança e infra-estrutura.
A classe política justifica seu reajuste auto-concedido como sendo o atendimento a uma velha reivindicação. Mas também é uma antiga reivindicação daqueles que estavam nas ruas sendo agredidos que os políticos sejam honestos. E eles não são. Que vivam, sobretudo publicamente, com vergonha na cara. E eles não vivem.
É reivindicação da população brasileira que a classe política a represente, e ela não esteve nunca tão distante disso. Está certo que ela é eleita e, portanto, exerce seus mandatos legalmente. Como vai acontecer agora com Tiririca. Mas é certo também que os poucos que apanharam em Brasília têm o sagrado direito de, numa democracia, tentar alertar aqueles milhões que votam sem compromisso com o passado, com o presente e com o futuro.
Diz-se, finalmente, que esses protestos irritaram Lula. O que sai, para dar lugar à que entra. Ora, Lula, aproveite o tempo disponível e vá plantar batatas. Agora você pode!

14 de dezembro de 2010

O Aero Escárnio


O presidente Lula considera uma "humilhação" que a presidente eleita Dilma Roussef viaje depois da posse no avião da Presidência da República, pois ele tem que fazer escalas em deslocamentos de longa distância. Trata-se de um Airbus A-319, versão executiva, com itens de segurança e que custou aos cofres públicos a bagatela de US$ 57 milhões.
Falando pouco, aproveitando-se do silêncio quase total, o presidente vai providenciar para sua sucessora o sucessor do Aero Lula. O Aero Dilma, caso o contrato venha mesmo a ser celebrado, custará nada menos que R$ 300 milhões. Um Airbus A-330 que, na versão de passageiros, pode levar mais de 200 pessoas distribuídas em três classes.
Poucos são os países do mundo que têm aviões para uso exclusivo de seus presidentes. O Brasil é um deles. E agora terá outro. O custo total da manutenção dessas aeronaves chegará a uma fortuna mensal. Ainda mais porque além dos dois Airbus o governo também comprou jatos Embraer 190 - para rotas mais curtas - e dispõe de aviões de pequeno porte da FAB, igualmente em versão executiva e também para atender a autoridades. Com ou sem escala.
Ou isso é um escárnio num país onde o salário mínimo mata de fome uma família de mais de quatro pessoas ou então estamos todos cegos. E devemos estar mesmo, porque a presidente eleita venceu as eleições com 12 milhões de votos de vantagem. E a classe política, que vai negar à imensa maioria dos brasileiros um mínimo de míseros R$ 600,00, aprovou para ela própria quase R$ 26 mil de salários, afora inúmeras vantagens, a partir de fevereiro de 2011.
O vereador eleito Tiririca, que chega ao Congresso Nacional ano que vem montado em 1,3 milhão de votos, conquistados em sua imensa maioria junto às camadas pobres da população, disse ao visitar Brasília que acha o aumento dos parlamentares "bacana, legal". E tem razão. Palhaço não é ele, não. Palhaços somos nós. Inclusive cerca de 1,3 milhão de eleitores de São Paulo.

1 de dezembro de 2010

Tiririca, o nosso deputado


Está decidido: o juiz que julgou o processo de Tiririca, o deputado federal eleito mais votado do Brasil, chegou à conclusão de que ele pode assumir o mandato porque não é "analfabeto absoluto". Ou seja, somente sendo analfabeto absoluto o sujeito(a) não pode ser político no Brasil. Seja lá o que isso signifique.
Até hoje a gente conhecia o termo "analfabeto funcional", que se refere àquele cidadão(ã) incapaz de ler e interpretar o que está lendo. E as pessoas - pelo menos eu - imaginavam que abaixo disso só existisse o analfabeto. Mas estávamos errados, porque douta sentença nos adverte da existência de "analfabeto absoluto". Deve ser o mesmo que "morto definitivo", o cadáver que não corre mais o risco de se levantar do caixão e fazer todo mundo sair correndo. O "analfabeto absoluto" não é um caso de catalepsia da língua pátria. Esse não sabe mesmo e está acabado. Pelo menos até agora, está sentenciado.
E, convenhamos, não sendo "analfabeto absoluto", Tiririca pode ser empossado deputado. No que ele é pior do que os que se vendem? Nomeiam parentes e amigos para cargos públicos? Trocam empregos por votos? Cometem fraudes? Mentem de até o presidente Lula ficar com inveja? Roubam, falsificam, etc e tal?
Um "analfabeto não absoluto" pode, inclusive, entender facilmente, quando projetos de lei chegarem ao Congresso, que o funcionário público dos três Poderes é um ser superior e deve ganhar muito mais do que o cidadão comum, que trabalha na iniciativa privada e paga a Previdência de todos, embora recebendo um décimo - ou menos - do que ganham os seres superiores deste nosso Brasil.
Aliás ele, o nosso deputado, é talhado para isso!

24 de novembro de 2010

O "problema social"


Um homem literalmente enlouqueceu terça-feira, dia 23: ao ser assaltado por um flanelinha em Vila Velha, região metropolitana da Grande Vitória, sacou de uma arma e começou a atirar. Atingiu um veículos que acabava de estacionar e de onde haviam saído uma senhora e uma criança. Por sorte não matou ninguém. Nem o flanelinha, que fugiu de bicicleta.
O irado daquela manhã vai responder a processo. Mas pode se defender dizendo que a culpa não é somente sua, mas também das autoridades do Espírito Santo e de todo o restante do Brasil. Afinal, aqui pelo menos, os bandos de flanelinhas ocupam as áreas contíguas ao Palácio Anchieta, sede do Governo do Estado. Seguem em frente e loteiam as proximidades do Palácio da Justiça. E estão perto da Assembleia Legislativa, câmaras de vereadores, prefeituras e outros órgãos públicos. Em todos os casos, diante do beneplácito das autoridades.
Em todos os casos também, sob a demagógica argumentação de que esse é um problema social. Se é, o é somente em parte. Isso porque esconde sob seu, digamos, manto de flanela, um incontável número de criminosos. E eles circulam à solta pelas ruas, muitas vezes indicando carros a serem roubados, depenados, etc. E praticamente todos praticam ostensivamente um crime chamado extorsão. Chega a ser tristemente engraçado ouvir de um deles, como ouvi certa feita: "É isso aí, vou vigiar seu carro senão o vagabundo arranha. São cinco real!"
Se as polícias, unidas, um belo dia passassem um pente fino por nossas principais cidades, detendo para averiguações essas pessoas, tirariam das ruas uma infinidade de criminosos, alguns deles procurados há muito tempo. Os poucos que sobrassem, juntamente com todos os nossos políticos e outras autoridades, seriam os verdadeiros problemas sociais brasileiros.

19 de novembro de 2010

A direita do ódio


A extrema direita dos Estados Unidos está espumando de raiva. Um tribunal civil do país absolveu um preso por terrorismo de 284 das 285 acusações que lhe eram imputadas. Imputa-se no atacado. E nem o fato de ele poder ser condenado a 20 anos de prisão ou à prisão perpétua diminuiu a ira desses fundamentalistas do racismo disfarçado. Querem que todos os acusados de terrorismo permaneçam em Guantanamo, onde não precisam ser acusados formalmente de nada, não têm assistência jurídica e saem de lá quando as autoridades militares locais bem entenderem. Preferencialmente, nunca mais. Há muito espaço para covas rasas no lugar.
Lá também podem experimentar o afogamento simulado tão a gosto do ex-presidente George W. Bush. Arrancar confissões assim é rápido. Os policiais e militares brasileiros faziam isso com perfeição durante os 21 anos em que durou a ditadura militar. Muitos aprenderam "as técnicas" nos Estados Unidos. Os únicos inconvenientes eram que alguns, teimosamente, morriam antes de falar. Outros, de tanto suplício pediam para morrer ou confessavam o que não haviam feito. Diziam: "Quem matou Kennedy fui eu". "Quem ia invadir o Brasil à frente de um exército comunista durante o governo Goulart era eu. A sorte é que vocês derrubaram o homem e mataram todo mundo".
O Brasil de 1964/1985 não compreendia que as ditaduras só geram violência, raiva e ódio. A mesma receita que elas carregam. Os Estados Unidos da extrema direita também não entendem a mesma coisa. Então, quando acontece um 11 de setembro ou outro evento parecido alguns se perguntam: "Por que eles não gostam de nós?"
Os Estados Unidos sempre amaram a paz dos cemitérios. Sempre. E transmitiram esses princípios à extrema direita de Israel, que faz o mesmo com os palestinos. Eles, norte-americanos e israelenses de extrema direita, não são piores do que os maiores ditadores de esquerda que o mundo já viu. Como os líderes do Khmer Vermelho, por exemplo. Mas empatam.
E tentam mostrar ao mundo que Barak Obama é fraco porque quer fechar Guantanamo. Porque não quer que acusados sejam executados sem culpa formada. A democracia da direita americana é essa: aos amigos os favores da lei; aos inimigos os rigores da lei, como dizíamos por aqui.
E como matar é fácil, muitos preferem a receita dos americanos, essa mais acima à direita, por injeção letal. Higiênica! A outros tanto faz. No Irã que eles detestam, a forca tem a vantagem de poder levar três de vez, como na foto à esquerda. Embora arranque alguns pescoços vez ou outra, o que é muito inconveniente.

9 de novembro de 2010

Uma sugestão para as aposentadorias


Uma das questões mais discutidas hoje em dia no Brasil - e em grande parte do mundo - é a das aposentadorias. No caso brasileiro, sobretudo os meios de Comunicação de alcance nacional falam que os aposentados vão quebrar a Previdência. Em síntese, o pensamento geral diz que em breve a arrecadação será tão inferior ao desembolso que não haverá como fechar as contas.
Isso, em síntese. Porque ao mesmo tempo em que ataca as aposentadorias do setor privado, os críticos se abstêm de falar com mais ênfase sobre o abismo que separa estas das aposentadorias do serviço público, aqui entendidos Executivo, Legislativo e Judiciário, onde uma pessoa pode chegar a ganhar mais de R$ 50 mil mensais, o que agride - impunemente - o teto constitucional.
Nesse ponto, cabe uma explicação. Nós ouvimos diariamente pelas rádios, vemos nas TVs e lemos nos jornais notícias sobre o crescimento do deficit da Previdência. Advogados especialistas da área dizem que esses deficits são meramente contábeis. Ou seja, nas contas de quem efetivamente sustenta o sistema previdenciário por décadas são debitados custos de quem não trabalha ou não trabalhou. E é essa a prática geradora da diferença entre o que entra e sai.
Vou à minha sugestão: nós temos um índice de expectativa de vida, revisto periodicamente. Ele mede a que idade o brasileiro está chegando. Os mais aquinhoados vivem mais do que os miseráveis, claro, mas a média retrata mais ou menos como a vida se dá no Brasil em termos de anos. E o justo, o ideal, seria fazermos com que a aposentadoria jamais ultrapassasse 80 por cento da média de idade do brasileiro. Explicando: se essa média é de 75 anos, a aposentadoria deveria acontecer aos 60 anos. Tanto para homens quanto para mulheres. Sem que as últimas parem antes deles, pois elas vivem até mais.
Mas como fazer isso? Como efetuar essa atualização, sendo que o índice varia e uma aposentadoria ocorre pelo menos 30 anos depois do início da contribuição. Esse é o exercício de inteligência que deve ser feito. E também precisa valer somente para quem está entrando agora no mercado de trabalho e não para os que já labutam com as regras atuais. O correto seria o cálculo de índice ser feito a cada cinco anos e a oscilação da idade de aposentadoria ser informada ao final de cada período quinquenal. Os trabalhadores já estariam sob a regra e acompanhariam a variação do índice como a referência para sua idade de parar de trabalhar. Sem sobressaltos ou dramas maiores porque as oscilações nunca serão bruscas demais. E mais: todos os trabalhadores, fossem do setor público, fossem do setor privado teriam de seguir a mesma regra, com o mesmo tempo mínimo de contribuição, a mesma idade para parar e o mesmo teto. Ou seja; todos com os mesmos meios de enfrentar o final da vida e seus acrescimos de despesas - médicas, por exemplo - com a mesma dignidade.
Isso acabaria com agressões aos direitos adquiridos. Eu, por exemplo, por um largo período da vida contribui sobre 20 mínimos como empregado do setor privado, pois esse era o teto para as aposentadorias. De repente, não mais que de repente, esse teto caiu para 10 mínimos. Todos os meus direitos cessaram. Foram subtraídos. Furtados. Negados. Minha aposentadoria acabou calculada para baixo, os anos de contribuição a mais jamais foram considerados para um cálculo parcial e o dinheiro pago a mais, nunca vi de volta. Tivesse isso acontecido com os vencimentos do setor público e o mundo desabaria. O senhor presidente diria que a decisão era cretina e o Executivo a iria contestar. O Judiciário, que ela não prosperaria por ser inconstitucional. E o Legislativo, por fim, quando houvesse quorum, derrotaria a votação no Congresso.
Mas eles são eles. E, no Brasil, a esmagadora maioria ainda espera bovinamente por mudanças que tornem o poder de todos e não de castas. Que o façam deixar de ser espúrio. Ao menos por enquanto.

5 de novembro de 2010

O cadáver insepulto


Não foi preciso muito tempo, como era previsto. Para falar a verdade, não foi preciso quase nada: nem bem a ex-ministra Dilma Rousseff se elegeu e a CPMF, um cadáver insepulto do governo Lula, começou a tomar forma novamente. E, como não poderia deixar de ser, convenientemente por mãos de terceiros, no caso os novos governadores eleitos pelo PSB.
O imposto, que agora corre o risco de se chamar CSS - o que, no fundo, dá no mesmo - é a solução encontrada para os males da saúde pública brasileira. No país onde grande parte dos cidadãos tem que pagar planos de saúde para não morrer em filas do SUS, agora eles vão acrescentar a esse custo o desconto nos cheques. Claro, porque a solução seria diminuir o Custo Brasil. A mastodôntica conta a pagar pelo empreguismo e pelo clientelismo. Mas como fazer isso se a 'companheirada' cresce mais a cada dia? Hoje, aos antigos aliados somam-se os novos, parceiros da eleição de Dilma. E para cada um deles e seus apaniguados há de haver um cargo público. Todos têm vocação para cargo comissionado!
A presidente (ela prefere presidenta) eleita, que discursou chorando e prometendo ética, vai iniciar o mandato colocando em prática a vingança de seu criador: Lula, que jamais se conformou com a extinção do imposto do cheque, agora quer vê-lo ressuscitado pelas mãos de sua criatura. E, convenientemente, por ações de terceiros para preservá-la antes da posse.
Com tudo isso, há a hipótese de o novo governo ser empossado já em meio a grande crise. O orçamento da saúde cresce a cada ano - de modo que o problema não é falta de dinheiro - mas a qualidade dos serviços, não. Ressuscitar a CPMF significará enfrentar a parcela da população brasileira que dá estabilidade ou desestabiliza governos. Na hora da eleição, todos temos o mesmo tamanho pois o voto vale um. Passadas as eleições, não. Depois das urnas fechadas, há cidadãos que geram crise e os que não têm influência alguma. E isso não está sendo visto.
Uma coisa é certa: haverá muita luta política e nas ruas, ainda que o governo detenha a maioria num Congresso que se curva aos demais poderes. O Custo Brasil, este só vai cair no dia em que os brasileiros chegarem à conclusão de que o Estado, em qualquer lugar do mundo, existe para servir o cidadão e não para se servir dele com metáforas e sofismas. Em termos mais simples, mentiras sofisticadas.
E você que votou na Dilma, está começando a ficar satisfeito?

3 de novembro de 2010

Sakineh e a manipulação da informação jornalística


A pena de morte não soluciona os problemas da criminalidade em lugar algum. Não fosse assim e nos Estados Unidos, que mais executam, e na China, ilustre segunda colocada, não haveria criminoso algum. Todos já teriam sido mortos. E os demais candidatos ao crime sentiriam tanto medo a ponto de concluir que delinquir é perigoso demais. Ao menos em seus países. Por isso, em poucos lugares ainda se mata legalmente hoje em dia.
Mas a pena de morte infelizmente existe. Em alguns casos ela é exercida contra os considerados criminosos comuns. Em outros, contra inimigos políticos. Por último, por motivos religiosos ou de castas. E esse é o caso da iraniana Sakineh Ashtiani (na foto abaixo, à direita), acusada de adultério contra um marido já morto e de ter, juntamente com outras pessoas, tramado o assassinado deste. O caso Ashtiani vem chamando a atenção em todo o mundo e principalmente por dois fatores: a brutalidade insana com que as mulheres são executadas nos estados islâmicos e o fato de ela viver num país governado por um líder de opiniões e ações desconexas e execradas internacionalmente. No Dia de Finados, o Jornal Nacional deu a notícia relativa à mulher como sendo ela uma condenada à morte "pelo regime de Mahamoud Ahmadinejad", numa alusão direta ao presidente iraniano. Como se a decisão pela condenação dependesse somente dele suas opiniões anti-semitas e não de toda uma cúpula teocrática que governa aquele país já faz muito tempo, sob tensão e pressão de grande parte das comunidades externas. Sobretudo dos Estados Unidos, o que acirra, e muito, os ânimos.
No último mês de setembro, Teresa Lewis, uma norte-americana de 41 anos (foto acima, à esquerda), foi executada nos Estados Unidos com uma injeção letal no estado da Virginia. Ela havia sido acusada de matar o marido e um enteado. Seu QI, segundo constatado, era 72, limite da deficiência mental. Os advogados que a defenderam disseram, e provaram, que ela era débil. Uma doente mental, sem noção exata do que fazia. Mas isso não sensibilizou a Suprema Corte. Nem o governador do estado onde ela estava presa. Os jornalistas que viram a execução testemunharam depois que Teresa parecia assustada e desorientada. O Jornal Nacional nada falou sobre o caso. Os outros telejornais nacionais também não. E ninguém, mas ninguém mesmo, disse ou escreveu que ela havia sido morta "pelo regime de Barak Obama".
É óbvio que na nossa prática de noticiar fatos há uma grande carga de rejeição política e de manipulação de fatos em nome de crenças pessoais, corporativas ou interesses econômicos. Temos uma visão ocidental e anticomunista de mundo e separamos, dessa forma, amigos e inimigos. Isso ocorre também nos EUA e em grande parte dos países europeus. Falamos de iguais e desiguais. Certos e errados. Culpados e inocentes. Os assuntos são direcionados para que a opinião pública ame ou odeie de acordo com a ideologia ou valores defendidos pelas grandes empresas de Comunicação. E o conceito de "liberdade de imprensa" é parte integrante da prática da manipulação dos fatos. O que se pretende é poder noticiar o que interessa, da forma como interessa, ainda que omitindo informações e dados. E marginalizando o "outro lado".
E não é essa a liberdade com que se sonha. Pelo menos, não é essa a liberdade de noticiar pela qual lutamos muitos de nós por 21 anos, de 1964 a 1985, enquanto os grandes veículos de Comunicação do País ou se calavam ou apoiavam claramente a ditadura militar.
Um Estado que, em nome do conceito de "controle social" da informação, deseja garrotear o livre fluxo de notícias, age deliberadamente contra o interesse público. E grandes corporações de Comunicação que usam a informação para divulgar ou omitir fatos, manipulando-os quando necessário e para atender a interesses individuais ou de grupos, agem da mesma forma.
Isso acontece hoje no Brasil e em outros lugares. Como todos os dias falamos do sagrado direito de informar - e informação é poder -, não seria demais lembrar que ele, esse direito, pressupõe uma responsabilidade muito grande. Primeiro, de levar ao público a informação limpa de tendências, fisiologismos, ideologias ou manipulações econômicas. Por fim, de lembrar que o outro lado tem esse mesmo direito de se expressar. Principalmente porque pensa diferente.

1 de novembro de 2010

A interrogação


Não se discute a vontade das urnas. No dia em que Dilma Rousseff foi eleita presidente do Brasil, eram incontáveis os veículos que trafegavam com adesivos seus. Ao contrário do que se julgava em primeira impressão, não foram somente os pobres que escolheram a "criação" do presidente Lula para votar. Uma enorme parcela da classe média também ajudou em sua eleição.
O Brasil, em verdade, elegeu a escolhida de Lula e não a Dilma. A eleita do presidente que, para tornar sua preferida conhecida nacionalmente, agrediu a ética, atropelou as leis, desconheceu a Constituição e navegou nas águas da falta de compostura como nunca antes houve na história deste País, saiu do pleito coroada. Se a coroa é de louros ou de espinhos, veremos. Mas a eleição não teve incidentes maiores, foi honesta e o mandato pertence à eleita. Temos, portanto, diante de nós não apenas a continuação de Lula, a primeira mulher Presidente da República, mas também a maior interrogação de nossa República. Afinal, ela jamais havia sido eleita para cargo algum.
Dilma será um boneco-de-ventríloquo?
O passe-livre (já que o Presidente adora citar futebol) para outros mensalões?
A ampliação da partidarização e instrumentalização do Estado?
O crescimento desordenado do déficit público?
A continuação do enriquecimento dos parentes e amigos dos detentores do poder?
A sequencia do uso do hábito da mentira para conquistar apoios?
Ou uma surpresa agradável que todos os brasileiros merecem vivenciar?
A resposta depende dela. Em seu discurso da vitória, prometeu ética, honestidade e outras coisas mais, como a defesa do Estado Laico com liberdade religiosa e a enorme tarefa de eliminar a miséria do Brasil e ampliar o SUS. Vai precisar de todas as forças para chegar a isso, se é essa mesmo sua vontade. No país que vai governar, os miseráveis existem em número muito maior do que mostram os dados oficiais. E a falta de perspectivas, de futuro, de horizonte, geram a maior parte da violência a que os brasileiros assistem todos os dias.
Dilma prometeu, por último, ser fiel ao presidente que a entronizou e elegeu. E disse mais: "Vou bater à porta do presidente Lula sempre que for preciso."
Essa é a única preocupação que ela não necessita ter, apesar de o presidente se dizer em fim de carreira. Sem cerimônia alguma, como é sua marca, ele é quem vai bater à porta dela todos os dias, de 1º de janeiro em diante.