29 de maio de 2024

A vitória (sic!) dos corruptos


O que pensar de um país onde a maioria de seu Congresso Nacional recusa um texto legal que torna crime a difusão de mentiras (chamadas hoje de fake news) durante eleições municipais de certo ano? O que houve foi que durante o governo do presidente genocida e inelegível, este vetou uma parte da nova Lei de Segurança Nacional que criminalizava o uso das chamadas redes sociais para difusão de mentiras, sobretudo durante eleições. O veto caiu com o novo governo, mas ontem o Congresso Nacional, por ampla maioria decidiu pela manutenção da fórmula do antigo mandatário hoje em vias de ser preso. Ou seja: essa é a vitória do crime sobre a prática honesta do exercício da política.

A quem interessa que durante campanhas eleitorais uma enxurrada de fake news inundem as redes sociais para interferir nos resultados dos pleitos? Aos corruptos. Àqueles que usam de todos os meios ilícitos para construir resultados de eleições a seu favor. Esses homens e mulheres hoje constituem uma bancada de vários partidos diferentes em nomenclatura, mas iguais no horizonte que traçaram para eles mesmos: manter seus privilégios a quaisquer custos. Desde a defesa intransigente de uma "pauta de costumes" da Idade Média até a defesa pouco disfarçada de milícias e outras formas de crimes os mais diversos, a maioria deles por formação de quadrilha e com uso de muita violência, inclusive no campo.

E é bizarra a justificativa: querem defender a liberdade e combater a censura na ditadura onde dizem viver. Fazem isso em nome de um ex-capitão do Exército colocado na reserva remunerada para não ser preso e que se notabilizou por defender a ditadura que infelicitou o Brasil de 1964 a 1985, a prisão ilegal e tortura de opositores, a destruição do Poder Judiciário através do Supremo Tribunal Federal, a Constituição Cidadã de 1988, as instituições civis via sobretudo ONGs e outros. O energúmeno que os representa chegou a defender em plenário o AI-5 e torturadores como o militar Brilhante Ustra. Hoje seus filhos o representam, como o "Zero Um" fotografado ao microfone ontem no Senado Federal (foto).

Os corruptos venceram por agora, mas vão perder logo mais adiante. A extrema direita brasileira e que eles tão fervorosamente representam não sobrevive sem as fake news, sem se alimentar da difusão de mentiras e do ódio que distribuem. Hoje ela tenta penetrar em todos os setores da sociedade brasileira para dominá-la antes de destruí-la. Ao final vão perder, como sempre perderam. Mas não sem antes causar prejuízos imensos à sociedade brasileira. Aliás, isso é tudo o que fazem com reconhecida competência.              

19 de maio de 2024

Essa gente nojenta


A fina flor do excremento político mundial está reunido agora em Madrid num movimento que visa interferir nas eleições para o Parlamento Europeu que serão realizadas em junho e visando a vitória da extrema direita. Querem que ela possa aumentar seu poder de interferência nos parlamentos das nações do grupo, e o ruim é que isso pode vir a ser conseguido em pelo menos sete dos 27 membros da UE. Mas ainda é tempo para os partidos democráticos reagirem e tentarem impedir esse crescimento do nazifascismo não apenas em solo europeu, mas também nas outras regiões do mundo como, por exemplo, na América do Sul.    

Hoje na capital da Espanha já estão intervindo na reunião que eles chamam "dos patriotas" pessoas como o espanhol Santiago Abascal, que é líder do VOX, partido de extrema direita responsável pela convocação da quadrilha toda; o português André Ventura, do Chega e que estava falando faz poucos minutos pelo horário de Brasília; a francesa Marine Le Pen, do União Nacional; o ex-primeiro ministro da Polônia, Mateuwsz Morawiecki, do Lei e Justiça (PiS); e ainda vai haver intervenções por vídeo conferência dos primeiros ministros da Itália, Giórgia Meloni (Irmãos de Itália) e da Hungria Viktor Orbán (Fidesz). Também figuras obscuras da política, como um foragido brasileiro, vão estar presentes ao encontro.

O que essa gente quer? Eles são todos filiados ao mesmo grupo no Parlamento Europeu e se dividem entre o ERC (Vox, Irmãos da Itália, PiS e, talvez depois das eleições, Fidesz) e o Identidade e Democracia (ID), reunindo Chega e União Nacional. A fina flor do novo nazifascismo! E qual é a plataforma dessa gente? Combater o globalismo como eles o compreendem, a nossa luta contra a destruição do clima no mundo e as bases constitucionais dos países que eles pretendem dominar através da luta contra o "comunismo", compreendida essa classificação como sendo aqueles que os combatem social e politicamente. O resto vocês todos já conhecem porque Adolf Hitler e Benito Mussolini, o criador do "Deus, Pátria, Família" abriram um caminho que os países aliados tiveram que destruir ao custo de 40 milhões de vidas.

Agora, por exemplo, a extrema direita brasileira quer impedir via Congresso que o governo federal importe um milhão de toneladas de arroz para manter o preço baixo. Lembro que durante o governo do genocida inelegível o Brasil importou arroz da Tailândia porque o "agro" exportou toda a produção em busca de melhores preços, deixando o mercado interno desabastecido. Agora esse mesmo "agro" predador tenta impedir a importação de arroz para manter os preços altos e longe da capacidade de compra da parcela mais pobre da população brasileira, depois de ter tentado esconder a safra de arroz já colhida e para forçar aumentos.

Esse "agro" vive às custas do contribuinte. Somos nós que sustentamos essa imensa associação às vezes criminosa de latifundiários responsáveis pela destruição das matas nativas brasileiras e pelo incremento do uso indiscriminado de venenos nas lavouras, o que é - está cientificamente provado - um dos fatores determinantes das mudanças climáticas brasileiras que geram, dentre outras coisas, o drama atual dos gaúchos com a destruição de parte do seu Estado. Costumo chamar a extrema direita do Brasil de "essa gente nojenta". Muitos não gostam da classificação, mas eles são isso mesmo. E têm milhões de seguidores, o que é pior para o futuro de nosso país.

Lutemos contra a extrema direita. Contra essa gente nojenta!

15 de maio de 2024

Eduardo e o ato falho


O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, equilibrava-se entre a necessidade que tinha de conseguir ajuda para a tragédia de seu Estado junto ao presidente Lula e a obrigação de permanecer colado à base eleitoral bolsonarista - que é forte no Sul do Brasil - pelo menos até o final desses tempos de altos e baixos. Estava conseguindo, inclusive sem citar muito "o agro", como gosta e é visto nessa imagem do jornal Correio do Povo, de Porto Alegre. Mas ontem escorregou e disse que o excesso de ajuda aos gaúchos vai acabar prejudicando o comércio. Eduardo vai ter que encontrar um meio de chorar o leite derramado fora de hora junto aos mais inteligentes dos seus conterrâneos.

Um estudo publicado recentemente pela Fundação Friedrich Ebert aqui no Brasil e com os nomes dos pesquisadores Marco Antonio Mitidiero Junior e Yamila Goldfarb mostra que, como disse a revista Fórum, no artigo "Mudança Climática, energia e meio ambiente", "o agro não é tech, o agro não é pop e muito menos tudo". Ao contrário, o agro sangra o país para enriquecer desmedidamente uma casta de multimilionários rurais que vivem à custa de dinheiro público para tocar negócios privados sem um mínimo de risco. Num Estado capitalista, ele quer abocanhar até mesmo terras devolutas, como faz em São Paulo.

Mais do que isso: esse ramo de nossa economia interfere na política de gestão ambiental brasileira de acordo com seus princípios de "Estado mínimo" e com isso agride o meio ambiente de todas as formas, sobretudo destruindo solos, rios e florestas num modelo de exploração do campo que concentra a propriedade rural apenas tão somente em imensos latifúndios. Tem uma enorme bancada chamada "ruralista" regiamente paga para defender seus interesses no Congresso e investe muito em propaganda junto aos meios de Comunicação como forma da dar um "cala a boca" na opinião pública. Ultimamente conseguiu  até mesmo ampliar de forma desmedida a área que pode ser desmatada em nossas florestas, a quantidade de veneno usado nas lavouras e a agressão aos direitos dos povos naturais que morriam de fome à época de seu ex-presidente genocida.    

Quem está defendendo o Rio Grande do Sul e minorando o sofrimento dos gaúchos hoje é o governo federal e o maravilhoso povo brasileiro que, excetuada a extrema direita, dá a mão ao próximo sempre que ele precisa, sem objetivar nada em troca. Não é Eduardo Leite, esse frajola amigo dos representantes do agro que se omite nas horas de aperto do povo e não comparece para ajudar, ao contrário do que faz a cozinha do MST e não o seu agro. Agora ele está preocupado, coitadinho, com o comércio que pode ser afetado pelas doações. Claro que sim, pois é o pobre quem vai ser penalizado pela falta de doações se elas escassearem.

O brasileiro comum é quem salva o Brasil.


12 de maio de 2024

Eles renovam. A esquerda, não!


Os jornais que circulam hoje em Portugal, sobretudo "Público" (foto da capa) trazem longas reportagens que falam sobre o crescimento da extrema direita no País. E o fenômeno deles não é diferente do nosso, embora em terras lusitanas já haja um partido político descaradamente nazifascista, o Chega, enquanto aqui no Brasil ainda exista um resquício de pudor impedindo que o Partido Integralista ou alguma coisa parecida com ele emerja das cinzas fecais onde se encontra. E por que isso acontece? Ocorre porque lá na Europa os extremistas de direita estão cooptando a juventude, renovando seus quadros enquanto a nossa esquerda - e talvez a deles também - discursa com os cabelos brancos de seus quadros há muito envelhecidos.

A reportagem de "Público" fala da infiltração fascista na agenda anti-imigração - inclusive com agressões físicas a imigrantes -, do apoio aos outros países onde a extrema direita pontifica como é o caso da Hungria, e mostra que lá, dentre outras coisas, "influencers" atraem universitários ou mesmo adolescentes por intermédio de propagadores do ódio mascarados de jornalistas. Tudo isso vai aos poucos alimentando o Chega e outros grupamentos do nazifascismo da carne nova tão necessária a seu crescimento, à sua disseminação. Foi assim na Alemanha hitlerista.

O jornal "Diário de Notícias", que nasceu na Cidade do Porto, fala da ligação entre o Chega e o governo de Benjamin Netanyahu por intermédio de um "assessor" do presidente da legenda, André Ventura e de nome Tânger Corrêa. Esse indivíduo, dentre outras, acredita que os judeus que trabalhavam nas Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001 tenham sido avisados para não irem a seus escritórios no dia do ataque terrorista. Isso é a Teoria da Conspiração levada às últimas consequências...

No caderno "P2" de "Público", que circula aos domingos, uma longa entrevista com o filósofo norte-americano Lee McIntyre, investigador no Centro da Ciência na Universidade de Boston e autor, dentre outros, do livro "Como falar com um negacionista", mostra o entrevistado advertindo: "Na era da pós-verdade a desinformação serve para destruir o conceito de verdade. Os que não votam, não veem notícias e  não acreditam em  nada são um perigo." Também o semanário "Domingo" publica uma reportagem de capa sob o título "O arquiteto demolidor". É biografia de Benjamin Netanyahu, formado em arquitetura no prestigiado MIT e hoje especialista em arquitetar a destruição palestina.

Toda essa pauta comum e que não pode ter sido combinada por meios de comunicação tão diversos e distantes até ideologicamente mostra que há uma preocupação grande em Portugal com o que nos deveria preocupar também. Mas as correntes brasileiras de esquerda, além de duelarem diariamente por questões menores, nada ou quase nada investem na renovação de seus quadros. Onde está, por exemplo, o PT Jovem? A garotada que poderia ocupar espaços generosos nas reuniões dos partidos políticos fica em casa lendo o Tio Patinhas enquanto os herdeiros de Adolf Hitler e Benito Mussolini vão aos poucos mostrando as garras que podem nos levar ao caos.

Assim a democracia vai perder...        

8 de maio de 2024

O esperneio do Brasil doente


Em "A psicologia das massas e análise do eu" Freud disse que "a massa é extraordinariamente influenciável, o improvável não existe para ela". E mais adiante: "Os sentimentos da massa são sempre muito simples e muito exaltados. Ela não conhece dúvida nem incerteza. Vai prontamente a extremos; a suspeita exteriorizada se transforma de imediato em certeza indiscutível, um germe de antipatia se torna um ódio selvagem. Quem quiser influir, não necessita medir logicamente os argumentos; deve pintar com imagens fortes, exagerar e sempre repetir as mesmas falas". Isso foi escrito em 1921 e se aplica hoje ao Brasil, 103 anos depois...

Nós estamos vendo o que se passa no Rio Grande do Sul. A imagem acima é uma foto do saguão de embarques e desembarques do aeroporto internacional de Porto Alegre tomado pelas águas. Milhares de brasileiros, talvez mais de um milhão se movimentam para ajudar a população desse Estado. Forças Armadas e organismos militares auxiliares, além de civis unem-se ao esforço para salvar a região que, ao final do drama vivido poderá computar mais de duas centenas de mortos. O governo federal faz tudo o que pode para ajudar e nem é preciso gostar dele para dar-lhe o braço nesse esforço. É aquele velho lugar comum que não cabe como trocadilho: nessa inundação sem precedentes estamos todos no mesmo barco.

Mas todos, não. O Brasil doente não embarca na nau de salvamento lançada às águas das inundações. Ele continua a conspirar todos os dias e a todas as horas. Manda legisladores aos Estados Unidos para fazerem denúncias contra a "ditadura" instalada no País, como se ela existisse realmente e denunciada por seguidores de alguém que já se declarou apoiador de tortura e defensor do fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. Alguém que adotou o lema do fascismo "Deus, pátria, família" e a ele acrescentou um "liberdade" de fake news.

Mas o esperneio do Brasil doente não vai progredir. Frei Beto disse recentemente no artigo "Políticas sociais mudam a cabeça do povo?" que  não. Não mudam e isso confirma o pensamento freudiano. Se fosse assim a União Soviética, percursora de tantos avanços sociais não teria desmoronado sem um único tiro depois de décadas, apesar de carregar sobre os ombros o estigma dos crimes do stalinismo. Depois de discorrer longamente sobre o tema o autor encerra com uma conclusão que também é a minha: só a educação faz uma nação sobreviver ao retorno do fascismo e de outros gêneros absolutistas.

Nos dias de hoje, além de a gente acreditar que os gaúchos vão sobreviver aos eventos trágicos e graves desses dias, ainda nos conforta constatar que o Brasil saudável é muito maior e tem muito mais força. O Brasil doente vai seguir perdendo, como sempre. E também temos uma crença adicional: é preciso eleger a educação como prioridade maior na reorganização do Estado. Ela é a salvação e por isso a extrema direita a odeia.    


1 de maio de 2024

O neonazismo está aí!


Enquanto o Congresso Nacional engaveta o projeto de lei que pretende impor normas de comportamento às chamadas redes sociais, as agressões que elas geram todos os dias só fazem crescer. Mais do que isso, não são baseadas em fatos reais, mas sim criam uma realidade paralela para gerar tumulto e mais animosidades num país extremamente polarizado desde logo em seguida às eleições de 2018. Hoje a falta de moderação de conteúdo dessas redes, sobretudo a "X", antigo Twitter, faz surgirem grupos de extrema direita em atuação no Brasil, segundo foi mapeado pelo Global Project Against Hate and Extremist  (GPAHE), o Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo.

O estudo deste instituto localiza a maioria desses grupos nos estados de Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, mas não apenas neles. Já foram mapeadas mais de 20 organizações ativas, muitas delas em redes como Facebook, You Tube, Telegran e, como disse antes, "X", além de outros menos usados. Hoje a população LGBTQIA+ é o alvo principal, mas não o único. O Instituto Conservador Liberal, do deputado Eduardo Bolsonaro, pontifica na produção de tudo o que pode ser raivoso, sobretudo em combate ao que para ele é politicamente de esquerda. 

Ao mesmo tempo em que a Câmara dos Deputados diminui o ritmo de apreciação do Projeto de Lei 2.630/2020 com a criação de um grupo de trabalho que tem como objetivo principal paralisar o assunto, vão surgindo frentes de combate à democracia no Brasil como é o caso da FNB, Força Nacionalista, que chama mulheres que não combatem o aborto de "defensoras do diabo". O Falanges de Aço defende a separação do Sul do restante do Brasil (foto) e o Resistência Sulista envereda pelo mesmo caminho. São separatistas, o que é crime. Já temos por aqui até mesmo a Força Nova, versão tupiniquim do neofascismo italiano da Forza Nouva, e até mesmo uma Frente Integralista Brasileira que dispensa apresentações foi recriada recentemente em substituição à de Plínio Salgado.

E enquanto a gente brinca dizendo que isso não passa de modismo, basta recuar um pouco no tempo e vamos ver como o governo que antecedeu a esse acreditava no nazifascismo. Os nazistas alemães bebiam leite publicamente porque na visão deles essa era uma bebida branca, de purificação da raça. Eles passaram, mas o exemplo ficou. Durante o governo passado, um trio de bandidos formado por Bolsonaro e dois ministros foi fotografado ao menos uma vez bebendo leite enquanto o bandido chefe comandava uma live. Tudo isso sob o lema de "Deus, Pátria, Família", criado por Benito Mussolini na Itália.

Nada disso tem graça. O Brasil precisa pressionar o congresso pela aprovação do Projeto de Lei 2.630/2020. E rápido.               

25 de abril de 2024

Sejam heróis vocês!

"uns dizem a sua "história"
outros fazem história
e hão-de viver no exemplo e na memória"

O texto que abre esse artigo é do poeta português José Magro (José Alves Tavares Magro). Esse escritor revolucionário português também vai encerrar meu texto. Trata-se do homem que lutou a vida toda contra o salazarismo, contra a ditadura de seu país, passou 21 anos na prisão - na maioria do tempo em Peniche, para onde a PIDE de Salazar mandava os presos políticos - e só viveu por apenas quase seis anos depois do 15 de abril de 1974, data que hoje completa 50 anos. Morreu pouco antes de completar 60 anos de idade, debilitado que estava por inúmeras torturas e privações. É de gente como José Magro que é construído o futuro do gênero humano. Por essa gente vale a pena viver e lutar!
E foi uma senhora portuguesa, Celeste Caeiro, dona de casa e na época com 40 anos, quem deu nome ao movimento civil e militar que tirou do poder o salazarismo. Ela voltava para casa e viu aquele movimento todo, blindados nas ruas, parou e ficou olhando. Um soldado de entre os amotinados chegou a ela e pediu-lhe um cigarro. Celeste não tinha, não fumava nem nunca fumou. Tirou um dos cravos vermelhos do maço que havia comprado no mercado para enfeitar sua casa e o entregou ao soldado que colocou a flor em seu uniforme. Em pouco tempo outros amotinados encontravam mais cravos, muitos foram colocados até nos canos das armas e as flores acabaram dando home ao movimento que encerrou em Portugal seus tempos mais tristes. A imagem que ilustra esse texto recria o momento em que Celeste entra para a história. Hoje aos 90 anos, debilitada pela idade ela foi instruída pelos médicos a não se emocionar. Como, doutores?
A Revolução dos Cravos é um exemplo. Foi a mais longa ditadura europeia, mais longeva que a de Francisco Franco. E nos 50 anos que se seguiram a ela Portugal deixou de ser um país inexpressivo para se tornar modelo na Europa. Nem mesmo os riscos dos tempos atuais, quando uma extrema direita criminosa tenta dominar o mundo, surge como divisor de águas naquela terrinha de meu avô materno. Como eu gostaria de estar lá hoje! Que pena não estou e só posso ver tudo isso via satélite!
O texto abaixo chama-se "Sê herói, José". Eu digo a todos: sejam heróis vocês. Todos nós. É nessas horas decisivas que o homem se impõe ou tem que viver se escondendo e camuflando suas condições subterrâneas que às vezes afloram em posts de internet enviados para lugares errados e por engano dos diversos milhares de membros dos gados fascistas modernos daqui e de muitos outros países. Aqui, por exemplo, chegamos ao cúmulo de ver durante meses sociopatas acampados em frente a unidades militares pedindo golpe de Estado, rezando para pneus e extra terrestres. Nenhum povo foi mais bizarro que o nosso. 
A mulher de José Magro chamava-se Aída, viveu 102 anos e durante esse tempo todo dignificou o nome de seu companheiro de vida e de Partido Comunista de Portugal. Ela colecionou as poesias do marido que depois seriam publicadas em dois livros. São uma história de vida, de lutas e de ideais que sobrevivem aos homens, como aconteceu na Revolução dos Cravos. Eis o poema feito na prisão de Peniche:

SÊ HERÓI, JOSÉ

tarde de domingo
no largo da vila
toca um realejo que se ouve daqui
no pátio interior prossegue o recreio
e ouço o sussurro da voz dos amigos
não sinto mais nada
o mundo é a cela
veleiro sem vento num mar de vazio

a vida é tão curta e a tarde tão longa!
como hei-de passá-la se só tenho um livro
que li e reli e já nada sugere?!...
deitar-me não quero que logo não durmo
cantar não me deixam falar é de doido
passear os três metros pior que funâmbulo?!...

José que fazer se sei que não gostas
Da introspecção seguro que estás
Que a chave do mundo não cabe no umbigo
E temes ser santo que os santos não têm
O travo salgado do gosto da vida
E os traços de classe que a luta te dá

Que coisas heroicas José que farias
lá fora esta tarde
aqui por teu mal
o grande heroísmo é não fazer nada
Pois é:
- sê herói, José, e sorri…

“TORRE CINZENTA - Poemas da Prisão”
José Magro. C
oleção “Resistência” editora AVANTE!)  

23 de abril de 2024

A política que eles fazem


Alguns se assustam com o fato de o atual governo estar perdendo prestígio junto à população brasileira de modo geral. Não é para assustar. Esse é o resultado da política que eles fazem em confronto com o que se tenta fazer hoje na luta pela reconstrução do Brasil vilipendiado durante quatro anos pelo movimento de extrema direita intitulado "bolsonarismo", e que se instalou no país na calda de cometa do episódio pouco explicado da tentativa morte do então candidato a presidente durante a campanha política.

O ex-presidente não conseguiu se reeleger, mas deixou a reação plantada em solo muito fértil. Legou a seus seguidores um Congresso que é em parte sua cara e defensor incondicional de seus projetos, uma classe média ainda mais reacionária e de garras afiadas, um setor chamado evangélico com pretensões de poder, uma base policial e militar capaz de conspirar a céu aberto e seguidores hoje colocados à frente do poder estadual de algumas das unidades mais importantes do Brasil. Não seria preciso mais do que isso...

Mas a essa reação instalada se soma a inegável capacidade que a reação tem de controlar as chamadas redes sociais e fazer com que elas divulguem todos os dias um número incontável de mensagens mentirosas, torpes, capazes de construir falsas realidades, destruir as que temos e monitorar sem parar um só segundo o rebanho de gado que distribui esse projeto de poder via narrativas de laboratório. De vez em quando um dos milhares de membros do gado reacionário da extrema direita se equivoca e envia os posts muares para endereços errados. Erros às vezes hilários, às vezes lamentáveis...

O que fazer contra isso? Não entrar no jogo, não descer ao nível deles e entender que agem explorando a ignorância popular - vejam os novos evangélicos! - e incitando o ódio instalado em parcelas pouco instruídas da população brasileira, sobretudo na classe média que sonha escalar a montanha da riqueza com a ajuda de um messias qualquer que seja capaz de alimentar esse delírio muito parecido com o que mostram os pastores das "confissões" cheias de vontade de abarrotar seus cofres de dinheiro dos dízimos.

Saber também que isso tudo vai passar. Basta àqueles que combatem o reacionarismo entenderem que combatem o bom combate. Mas que nessa luta não se pode errar muito, nem ao menos falando o que não se deve em hora errada. Acertem na mosca! E nos vermes!                      

21 de abril de 2024

Democracia, sempre!


Parece, e é uma ironia do destino: há 50 anos, no dia 25 de abril de 1974 os portugueses derrubavam a ditadura de Salazar na Revolução dos Cravos. Há 40 anos, no dia 25 de abril de 1984 o Congresso Nacional recusava por 22 votos a Emenda Dante de Oliveira e atrasava mas não evitava o fim da ditadura militar brasileira que nos infelicitou por 21 anos. Os comícios das "Diretas, Já" (foto), lembravam a emenda Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para presidente da República. Os estertores do regime militar não tinham mais forças para impedir a queda do estado de exceção no Brasil.

O mais irônico é que nosso país se repete de tempos em tempos. Faz sua história como uma sequência de ondas que avançam e recuam, e isso só nos serve para atrasar o progresso do país e provocar a cada dia mais divisão e distância entre os brasileiros. A ditadura nasceu através de grande apoio da classe média - sempre ela! -, que gerou as "marchas da família com Deus pela liberdade". Deram gás ao golpismo incorporado às forças armadas e tiveram então o descarado apoio dos Estados Unidos através, até, da "Operação Brother Sam", que enviou uma frota da marinha dos EUA à costa de nosso país para ajudar no golpe.

Hoje os golpistas agem da mesma forma que antes. Eles não mudam! Geram instabilidade política, sonham com um golpe de Estado, vão às ruas acusando uma eleição lícita de ter sido fraudada e ainda de o Brasil estar se aproximando de uma ditadura através do Supremo Tribunal Federal (STF), quando acontece exatamente o contrário e foi essa mesma Justiça apoiada por grande parcela da população quem impediu a quebra da normalidade democrática no ato culminante do esquema de golpe, em 08 de janeiro do ano passado. Até para tentar reescrever a história essa gente é canalha. Incompetente! Não se trata de conservadores, embora alguns o sejam. A enorme maioria é composta por reacionários sem princípios e  apreço às normas democráticas que sempre marcaram nossa história desde o primeiro dos golpes, a Proclamação da República do final do Século XIX.

A democracia mais uma vez vai sobreviver e a população brasileira continuará a ser soberana para escolher seu destino. Enquanto estamos comemorando os 40 anos das "Diretas, Já", populacho reacionário ocupa Copacabana para ouvir discursos pobres e mentiras construídas com o objetivo de derrubar um governo legal. Como em 1964, como em outras oportunidades mais anteriores. Mas vão perder, como sempre perderam. Porque não têm substância e nem um projeto de progresso, mas só de destruição. Vivem num universo paralelo, construído só para eles e sustentado pelo pântano político onde estão.

Democracia, sempre!

15 de abril de 2024

Ao fim, o sionismo!


Ao fim de tudo e justificando as ações que nos remetem aos dramas do Oriente Médio está o sionismo. Ele é a fonte de todos os crimes daquela região e do crescimento de um apoio injustificado ao expansionismo de Israel que não parou desde 1948 quando, sob o peso dos traumas provocados pelo genocídio dos nazistas na II Guerra Mundial, milhares de palestinos foram expulsos de seus lares para a criação do Estado de Israel circunscrito a fronteiras que os sionistas jamais aceitaram. Esse é o ovo da serpente!

O sionismo político foi gerado na Europa no final do século XIX, em um contexto de crescimento do antissemitismo (aversão aos judeus) naquele continente. O movimento surgiu de ações do jornalista húngaro Theodor Herzl, o responsável pelo surgimento de uma organização internacional para defender a ideia de constituição do Estado Nacional Judeu na Palestina. Esse movimento, o sionismo, foi influenciado pela obra "O Estado Judeu" (Der Judenstaat), escrita por Herzl. Ela resultou do crescimento do antissemitismo no continente europeu e sua produção foi motivada pelo caso Dreyfus, a condenação de Alfred Dreyfus, oficial do Exército francês, acusado de alta traição. Ele era inocente e, mesmo sem provas, acabou sendo condenado à prisão perpétua. Por esse motivo surgiram questionamentos sobre sua punição, que ocorreu pelo fato de ser judeu. Ou seja, foi uma pena antisemita!

Desde 1948 o sionismo expande as fronteiras de Israel. Sim, o Estado Judeu sofreu ataques por parte das diversas nações árabes, sobretudo dos Palestinos, ao longo desses anos. Mas é preciso não nos esquecermos de que os judeus invadiram aquelas terras. Israel poderia ter se dedicado a fazer a paz com os estados vizinhos através de  concessões ou outras formas de aproximação. Mas não. Eles queriam e querem não apenas o que lhes foi destinado pela ONU, mas muito mais. Querem toda a "Grande Israel" e por isso hoje ocupam ilegalmente a Cisjordânia de onde não pretendem sair nunca mais, e as terras anexadas a partir das guerras acontecidas. Aliás, só o que foi tomado ao Egito voltou às suas fronteiras históricas. Eis um retrato do drama, feito em poucas palavras.

Por isso a ONU não considerou o bombardeio de uma embaixada por Israel antes de condenar o ataque do Irã e por isso os atos terroristas do início de outubro passado foram condenados como deveriam ser, mas sem que se considerasse que o Hamas atacou terras ilegalmente ocupadas pelo estado judeu. Por último, a maior parte da população de Israel apoia hoje o sionismo e a política de Estado do seu país, o que é um erro.

Poucos são inocentes nessa guerra, além de mulheres, velhos e crianças palestinos.          

10 de abril de 2024

É disso que eles estão atrás


Em um dos dias que se seguiram à eleição do presidente hoje genocida e inelegível, encontrei-me com um conhecido para tomar vinho no supermercado Carone que fica localizado no início da Avenida Rio Branco, esquina com a Leitão da Silva. Ele é um bolsonarista fanático, formado pela Escola Superior de Guerra, e não vou revelar seu nome aqui em respeito à confidencialidade. Mas ele me disse o seguinte: "Não foi Bolsonaro quem ganhou a eleição. Fomos nós. E se tentarem nos tirar do poder vai haver ruptura!" Não houve a quebra da normalidade democrática que estava programada desde o início porque o presidente era e é muito burro, mas a extrema direita fincou os pés no Brasil.

Hoje mesmo o presidente da Câmara, o milionário "coronel" Arthur Lyra, que quer defender seu patrimônio construído sabe-se lá como, disse que não vai levar à votação a PL da regulamentação das redes sociais como a "X", por exemplo, porque não há consenso. Não há e nem haverá. É a extrema direita, que tem Lyra na coleira, quem rejeita regulamentar as fábricas de mentiras que assolam o país. Ele precisa continuar à frente do poder, fazer seu sucessor na Câmara, e esse é o preço a pagar. Ele o paga e nós que nos danemos.

Elo mundial dessa cadeia de extrema direita com fome de poder, o bilionário Elon Musk já atacou o governo brasileiro de todas as formas. O alvo dos ataques, hoje, é o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, mas o objetivo maior é destruir os Poderes Executivo e Judiciário para fazer a rapina mineral brasileira, onde os objetivos maiores são o lítio, o nióbio e o grafeno, minérios que ele precisa e o ex-presidente aceita dar de graça à Tesla em troca de apoio e poder: é disso que eles estão atrás: de poder!

A fome é imensa e o projeto extremista envolve tomar tudo o que for possível abraçar. Até aqui no Espírito Santo, um Estado pequeno, já são fortes na política regional, no comércio, indústria, serviços e colocaram as patas sujas até na Academia Espírito-santense de Letras. Sim, uma entidade mantenedora da cultura interessa pois uma das metas dessa gente é dominar as mentes e a produção científica de modo a que seu progresso seja atrelado, amarrado a fronteiras medievais onde estão encastelados os novos "evangélicos" hoje com enorme sede de ocupar os governos centrais.

Eles querem tudo. Inclusive o Palácio do Planalto!  

9 de abril de 2024

Musk, os outros e os tempos estranhos


De repente, como que surgido do nada, um megaempresário sul-africano naturalizado norte-americano, Elon Musk, se volta contra o Brasil (foto). Mais precisamente contra o Poder Judiciário brasileiro, dizendo com todas as letras que não vai mais respeitar as normas legais de nosso pais. Como se este fosse um apêndice de suas empresas. E isso me remete a um fato passado, quando um ex-presidente, montado num palanque da Avenida Paulista disse também com todas as letras que não iria mais respeitar as normas do Supremo Tribunal Federal. Ambos ameaçaram e ficaram por aí mesmo. Os dois, sobretudo o segundo, sente um medo grande de dar um passo à frente e terminar na prisão.  

O bilionário joga um jogo de alto risco ao comando de uma rede social que se chamava "Twitter", agora virou "X" e que perdeu mais de 70 por cento de seu valor de mercado desde a compra. Ninguém sabe ao certo o que ele pretende com seu negócio. E nem porque escolheu o Brasil como inimigo preferencial. Mas sabemos todos que ele tem contra si o Poder Judiciário, o Poder Executivo e parte do Poder Legislativo brasileiros, todos dispostos a enfrentar a arrogância desse cavaleiro da triste figura. Ele certamente pode estar enfrentando um inimigo superior à sua capacidade de combate e ainda não percebeu isso.

O lamentável é que o ataque desse tal Musk atinge em cheio a soberania nacional, pois ele desafia nosso país no que tem de mais caro: a inviolabilidade da Constituição. Nenhum Estado do mundo aceita ser atacado dessa forma sem uma reação pronta e legal. Mas causa espanto, embora não seja surpresa, que parte do Congresso Nacional, sobretudo e principalmente sua extrema direita não se insurja contra a aberração. Ao contrário, a apoia como se isso se tratasse de fato banal, corriqueiro e possível de ser trazido para o tanque de lavar roupa suja da política brasileira e ao abrigo da inépcia e do adesismo do presidente da Câmara, Arthur Lyra.

As postagens que foram retiradas do ar no "X" referiam-se a comentários mentirosos e divulgadores de mensagens falsas produzidos pela extrema direita do Brasil e que tinham por objetivo difundir o ódio entre brasileiros. Existe uma central de difusão de mentiras entre nós, gestada durante o período da última presidência e que continua em atividade enfrentando as normas legais apesar dos esforços das cortes judiciais superiores de agirem rigorosamente dentro do que pregam as leis. E isso persiste graças ao medo e ao adesismo de ocasião de pessoas como o presidente da Câmara, que age pensando unicamente na defesa de seus interesses privados e corporativos.          

Não mais, não será assim. O Brasil haverá de reagir contra isso.  

4 de abril de 2024

Teologia do Domínio, o inimigo!


Muitas vezes a gente se depara com esforços voltados ao domínio do inimigo errado.  Aqui no Brasil estamos às voltas com o combate ao que se chama de "bolsonarismo" e que é representado pelos projetos e ideais (sic!) dos seguidores do penúltimo presidente da República. O maior inimigo, o mais poderoso, se esconde por trás dele. E não está só no nosso país, mas sim tentando tomar boa parte do mundo através das falas grosseiras e provocativas, belicosas sim, da extrema direita mundial. Refiro-me ao que se chama de "Teologia do Domínio", e que cresce nos esgotos da extrema direita religiosa.

Recentemente, na maior exposição pública do bolsonarismo em São Paulo, a mulher do ex-presidente, Michele Bolsonaro, deixou claro que sua intenção como representante desse grupo é levar o extremismo religioso a tomar o poder. Fazer no Brasil um "estado cristão" em substituição e contraposição estado laico que temos e no qual foi construída a identidade nacional multiétnica, plurirreligiosa e que não congrega apenas cristãos, mas praticantes de diversos outros credos, alguns de povos originários, outros trazidos da África e que constituem um universo de crenças e valores responsável por nossa identidade como povo.

E também por nossa paz interna! 

O candidato a presidente do Estados Unidos, Donald Trump, lançou uma "bíblia". Nela ele insere a fina flor do pensamento extremista dos EUA onde também quer um estado cristão e onde identifica seus maiores inimigos como sendo imigrantes dos mais diversos lugares, mas preferencialmente de estados latinos. Chama-os de "animais", dentre outras coisas. Segue a cartilha de extremistas da Hungria, Itália, Israel, Portugal e outros países onde essa parcela do pensamento político escala o poder usando meios legais que depois serão destruídos porque o extremismo de direita vive em função de domar os detratores que faz.

Eis nosso inimigo mais perigoso. Ele vai tentar tomar o poder para depois destruir o Estado Nacional que temos e colocar em seu lugar um arremedo de Brasil, um monstrengo de inimigos uns dos outros e onde, como já preconizou o ex-presidente que comanda seu exército de idiotas, inocentes úteis e outros nem um pouco inocentes, para tentar destruir toda a estrutura do país erguido a tão duras penas por nós, sobretudo após a ditadura militar. Essa a hora de começarmos e combater o aleijão teológico e político. Depois pode ser tarde.

Quem viver, verá!

1 de abril de 2024

Faz 60 anos... (final)


O tempo destrói seus símbolos... Agora mesmo, pela manhã, fiz essa foto da antiga casa de meus avós, no Centro de  Vitória (foto). Depois da morte de vovó ela foi vendida para uma família que em seguida a passou para outra e daí em diante. Hoje, até a sorveteria que nunca teve placa com essa identificação voltou a se chamar "Garagem". Não tem mais o charme de antes. Já não remete mais a 1964 quando, acho que no dia 02 de abril minha avó atravessou a rua para conversar com a amiga Mariazinha Monjardim e tentar obter informações mais confiáveis sobre a situação em que se encontrava o Brasil. E ele estava mal!

No pequeno pedaço da rua do Centro de Vitória muitas pessoas já começavam a adorar a ditadura que nascia! Assim como hoje! Era muito melhor do que o "comunismo" que estava chegando. E esse medo foi totalmente infundado. Na verdade vivíamos as vésperas da perda de direitos civis, o prelúdio das prisões sem mandado judicial, das invasões de locais de trabalho ou residências para a detenção ilegal de cidadãos que não apoiavam o novo regime. Policiais violentos se apresentavam aos órgãos de repressão para formar fileiras em torno da "nova ordem". Não seriam apenas os militares os algozes dos brasileiros. Os civis também estavam a postos para cumprir a sua parte na tarefa de fazer o serviço sujo.

Meu avô português morreria em 1974, 15 dias antes da Revolução dos Cravos, de Portugal. Ele não viveria para ver o fim do salazarismo. Minha avó ainda viveu mais nove anos, morrendo em setembro de 1983. Também não assistiu ao fim da ditadura, que foi extinta por inanição dois anos depois. Nem sei se naquela época Mariazinha ainda era viva... A solteirona era um caso único, ao que parece. Durante 50 anos foi noiva de um também solteirão e jamais se casaram. Às vezes eu os via sentados em poltronas da varanda da casa dela, conversando e tomando refresco. Não me recordo sequer de um pegar na mão...

Os outros vizinhos todos morreram. O prédio ao lado com quatro casas alugadas foi derrubado depois que o último inquilino desocupou o lugar. Lá morou durante um bom tempo o major Orlando Cavalcanti, homem violento, sicário que foi morto com mais de dez tiros um belo dia em Nova Almeida, atraído a uma cilada. A família Schuab Pinto, dona do terreno, construiu lá seu novo prédio. Está totalmente desvirtuada a residência que pertenceu a Edgard Castro, marido de dona Abigail, muito amiga da minha mãe e dona da primeira boutique de Vitória. Ela precisava ser consolada quase todos os dias depois que o filho Ronaldo foi o principal acusado pela morte da moça Aída Cury num crime de estupro tristemente famoso no Rio de Janeiro.

Lá morou um dos donos do frigorífico Frincasa, de Cariacica. Também Oswaldo Magalhães, o Careca, peão da Vale do Rio Doce e gente muito fina, apaixonado por caçadas das quais participava juntamente com os amigos ricos. O fotógrafo Moacyr Rodrigues da Silva, que foi referência em Vitória. Também Castorino Santana, cuja papelaria ficava na Rua General Osório. Lá uma vez vovó pediu nota fiscal e ele disse que "essa mercadoria está em falta". Pouco mais de 150 metros de rua que nasce atrás do Palácio Anchieta desemboca no Viaduto da Rua Caramuru, e um universo inteiro estava lá. Também havia o Centro Espírita e até a casa do professor Zaidan, que lecionava no Colégio Americano onde estudei eu por dois anos. Aquele mundo, para o bem e para o mal, deixou saudades em muita gente, como em mim.

Mas ditadura, isso nunca mais!    

31 de março de 2024

Faz 60 anos... (7)

Na Rua Francisco Araújo daqueles tempos - 1964 incluído - um dos pontos de encontro do lugar era a sorveteria do Seu Zé Maria, que vinha a ser meu avô, o velho imigrante português de Trás os Montes que havia se casado com a baiana Almerinda Villela dos Santos. Inicialmente o lugar seria a garagem da casa, mas como o velho nunca teve carro, quando se aposentou do serviço público, ele montou a sorveteria lá. Meu pai mandou, de São Paulo, a primeira máquina de fazer picolés de Vitória. Era elétrica e trabalhava com as formas girando em salmoura. De lá saíram milhares de picolés, a maioria vendidos para as normalistas da Escola Normal D. Pedro II. Ali era o caminho delas. As meninas que vinham da região do Parque Moscoso, Cidade Alta e mesmo outros bairros como a Vila Rubim e Santo Antônio, passavam pela nossa casa. E era quase inevitável parar na sorveteria onde eu sempre estava sempre à espreita... Nos dias 1º e 2 de abril de 1964 foi a mesma coisa. E Seu Zé Maria, como sempre fazia, acordou cedo para preparar seus milhares de sorvetes. Melhor dizendo, picolés...

A cidade parecia calma então. Mas ontem como hoje... só parecia... Grupos políticos locais conspiravam uns contra os outros. O governador Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho, era alvo da família Monteiro Lindenberg, agora dona do jornal A Gazeta. Eles acusavam o chefe do executivo de ser corrupto, ladrão - um velho expediente -, embora quem tivesse o apelido de "Papa Terra" fosse o senador Carlos Fernando Monteiro Lindenberg... A campanha só faria crescer até o dia em que, sentindo que seria cassado, o governador abreviaria seu suplicio e renunciaria ao mandato, voltando para sua fazenda no interior do Estado. O melhor caminho.

Era um clima pesado que a garotada do futebol não conhecia enquanto jogava bola em seu microcosmo da Rua Francisco Araújo, na quase inocente Cidade Ata. Quase, porque nas casas o reacionarismo travestido de conservadorismo iniciava seu movimento de apoio à ditadura, apontando os dedos para aqueles dos quais não gostava. O começo de um movimento dito de cunho político, mas que escondia por trás de suas vestes o ódio ao próximo e a vontade de lucrar com a nova situação política, a ditadura.  Ontem como hoje...

Nas redações de jornais isso era visível. Temeroso de que o jornalista Darly Santos, o Michey, titular de uma coluna de esportes no jornal A Gazeta viesse a ser preso - isso antes do episódio da ida dele ao quartel do Exército em Vila Velha -, o também jornalista e colunista social Hélio Dórea o chamou à sua sala. Darly foi. Hélio então jogou sobre a mesa um molho de chaves e disse: "São as chaves da minha casa em Guarapari, na Praia das Virtudes. Vá para lá e fique quieto até a tempestade passar". Incrédulo o velho Darly . disse: "Mas eu posso ser preso lá!". O colunista, por detrás de sua máquina de escrever, sorriu e disse: "A Polícia não vai procurar comunista na casa de Hélio Dórea!"

Desde aquela época ele era gente muito bacana!

30 de março de 2024

Faz 60 anos... (6)


No dia 1° de abril de 1964, isso eu saberia depois, a caça aos comunistas do Espírito Santo começou rapidamente. No jornal A Gazeta havia muitos jornalistas ligados a grupos de esquerda e a partidos comunistas, como eram os casos do PCB, o Partidão, e o PCdoB. Em A Tribuna também, mas o número era menor. Eles se tornaram alvos fáceis dos militares e civis ligados à ditadura muito rapidamente. Muita gente acabou perseguida desde o primeiro momento como foram, dentre outros, os muitos casos o jornalista Darly Santos e o músico Maurício de Oliveira. Darly ainda se escondeu por alguns dias na casa de praia de outro jornalista - vou contar esse episódio no artigo de amanhã -, mas depois retornou para enfrentar as feras de peito aberto. Maurício foi encontrado logo e detido. Ambos foram parar o 38º Batalhão de Infantaria, em Vila Velha, e deram sorte de não serem alvo de torturas ferozes. Mas isso os marcou, embora até de forma hilária.

Um oficial, Darly não se lembrava da patente, ficou diante de ambos. "Você é comunista?", perguntou para o primeiro. "Não, sou jornalista", respondeu ele. "Você é comunista?", questionou o músico em seguida. Maurício gaguejava quando ficava nervoso, o que estava acontecendo naquele momento, e tentou responder de pronto: "Não, sou vio-vio-vio-lo-lo-nista!" Sabe-se lá porque motivo, mas os dois foram liberados logo em seguida. E isso se deu nos primeiros dias da ditadura, quando o nível de selvageria dos fascistas ainda não era tão grande.

Mas isso duraria pouco tempo. O fotógrafo Gildo Loyola Rodrigues, que trabalhava em A Gazeta, era militante comunista. Um dia chegava à pensão onde morava e foi preso. Os policiais que o interrogaram tinha nas mãos o quadro com o prato do dia para o almoço. Coisa como "arroz, feijão, bile, macarrão, salada". O policial perguntou a ele: "qual é a senha?" Gildo tentou desesperadamente dizer que aquilo era o que comeriam no dia. Não adiantou. Foi torturado para revelar a "senha". Depois, transferido para o Exército, em Vila Velha, seu suplício continuou. Ele chegou lá com um dedo machucado e seu verdugo, ao ver aquilo, disse: "Está dodói? Vamos resolver logo." Com o cabo do fuzil, praticamente esmagou o dedo do rapaz. Ele, que nunca n vida fez mal a ninguém, precisou de internação psiquiátrica para se recuperar do trauma das dores lancinantes.

Mas na tarde do dia 2 de abril a garotada da Rua Francisco Araújo foi jogar uma pelada na parte plana da rua, logo abaixo da outra, a Comandante Duarte Carneiro e ao lado da escadaria. Isso depois das aulas, pois lá os que não estudavam no Americano eram alunos do Colégio São Vicente de Paula ou então do Estadual, esse último público e situado no Forte São João. Não tínhamos ainda como acompanhar os fatos que se desenrolavam, a não ser por relatos de terceiros. Era melhor jogar futebol, mesmo tendo que descer a escadaria vez ou outra para pegar a bola na Rua General Osório. A gente ainda não tinha noção de que em muito breve os cartazes de denúncias contra a ditadura ocupariam as ruas de todo o Brasil (foto). Viriam as passeatas, as greves, outras formas de protesto, e o erro da resistência armada nas áreas rurais, em confronto com a ditadura.

Vivíamos um prelúdio! 

             

29 de março de 2024

Faz 60 anos... (5)

Vista aérea de Vitória em 1964, ano em que houve o golpe de Estado no Brasil. Triste ano! 

Para crianças e adolescentes a noite do dia 1º para o dia 2 de abril foi como outra qualquer. Para os adultos, não. Muita gente teve dificuldade para dormir por não entender exatamente o que acontecia. Ainda com o presidente João Goulart no Brasil a ditadura tomou sua primeira medida: investiu, de madrugada, Ranieri Mazzilli no cargo de presidente interino  onde ele ficaria 13 dias sem mandar em absolutamente nada, já que um triunvirato militar exercia o poder de fato. Estava sendo preparado o palco para a posse de Castelo Branco, o primeiro dos cinco presidentes que se revezariam no poder até 1985, quando o regime ditatorial, totalmente exaurido, se encerrou. No dia 2 de abril acordei cedo, fiz o que fazia todos os dias e depois de ouvir inúmeros conselhos da minha avó, fui para o colégio devidamente escoltado por Élia, a fiel empregada que atendeu à família por muitos anos.

No Colégio Americano os rituais de todos os dias foram seguidos. Os professores deram aulas, a cantina funcionou normalmente e havia por parte do corpo docente a preocupação de não se falar de política, sobretudo da deposição do presidente Goulart. Quem quisesse saber desse tipo de assunto deveria ouvir rádio, televisão e comprar jornais que tinham mais ou menos a mesma linha. Ou conversar com os pais. Meu avô chegaria em casa com o "Diário da Noite", do Rio de Janeiro, exemplar trazido por um amigo que chegou a Vitória de avião pela manhã, e a manchete dizia: "Decidiu o Congresso essa madrugada - Ranieri Mazzilli é o presidente" Todas as letras em caixa alta (maiúsculas). Esse jornal ficou anos lá na casa da família até que alguém sumiu com ele. Jogou fora.

A quase totalidade dos outros seguiu o mesmo caminho. Mas não todos. A história registra que três jornais defenderam o respeito à Constituição: "Última Hora", "A Noite" e "Diário Carioca", sendo que os dois últimos tinham poucos leitores. A revista "Fatos & Fotos" noticiou "A grande rebelião", tentando dar um verniz de imparcialidade ao noticiário. "O Cruzeiro", que chegaria à nossa casa, deu uma edição extra com "Edição Histórica da Revolução". E surgia assim o termo "Revolução" ligado ao golpe de Estado e que a imensa maioria dos meios de comunicação usou desde então, o mesmo acontecendo com os militares. "O Estado de S. Paulo" não perdeu tempo e noticiou: "Vitorioso o movimento democrático". Estava decidido que o governo Goulart era antidemocrático! Bebeu do próprio sangue: inconformado em ter censores na redação, o Estadão passou a se opor à ditadura, não substituía as matérias censuradas e no lugar delas colocava receitas culinárias ou poesias. Todo mundo sabia o que aquilo queria dizer. 

Eu, uma vez no colégio fiz o que sempre fazia todos os dias: vi as aulas com atenção, no recreio comi um sanduiche de mortadela e tomei um refresco de groselha (como gostava daquilo!), conversei muito com os amigos e mais uma vez não pude sair no intervalo. Estava no ginásio e sair do colégio entre as aulas - na maioria dos casos para fumar um cigarrinho - só era permitido aos alunos e alunas do científico. Coisas do velho Americano! E na saída do colégio, uma surpresa: meu avô foi me buscar para "escoltar" até em casa. Andava com seu passo apressado de sempre, praticamente me rebocando e pedindo para que eu me adiantasse. Queria me ver dentro da residência o mais depressa possível. À noite, juntamente com a TV, ouvimos um pouco de rádio e ele vaticinou: "O novo governo vai ser portador de um tempo de muita paz para o Brasil."

Ele nunca tinha sido bom de vaticínios!      

28 de março de 2024

Faz 60 anos... (4)


A noite de 1º de abril de 1964 foi de busca de informações para muita gente em Vitória e cidades do mesmo porte. Afora Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre (para onde o presidente João Goulart havia se deslocado para ficar junto ao governador Leonel Brizola e tentar a resistência) e outras metrópoles, poucos tinham informações precisas sobre o que acontecia no Brasil e particularmente em Brasília. Era preciso esperar pelo noticiário noturno das TVs já controladas pelo novo governo ou adesistas a ele, ou nas rádios que estavam na mesma toada. Os jornais, esses circulariam no dia seguinte ainda sem sensores nas redações mas já com "orientações" sobre como noticiar o movimento que havia "salvo" nossa frágil democracia.

A cidade, com o por do sol, ficou ainda mais vazia. A maioria das pessoas não obrigadas a trabalhar à noite, preferiu se recolher mais cedo. E isso porque naquele mesmo dia começava, por parte dos militares a para eles incansável busca dos "subversivos". Garoto, na época, eu não conhecia ninguém do gênero. Mas depois de adulto, trabalhando com jornalismo, acabei amigo de muitos dos que sobreviveram.       

Os jornais, por sinal, eram precários e impressos em máquinas chamadas rotoplanas, com péssima qualidade de impressão. Na época nem existia diagramação em Vitória. Diagramação que por aqui chegou pelas mãos do artista gráfico e chargista José Antônio Nunes do Couto, o Janc, trazido para cá pelo diretor de A Gazeta Carlos Fernando Monteiro Lindenberg Filho, o Cariê, diretamente da Rio Gráfica e Editora (foto jornal de 1969). Diagramar era "desenhar" as páginas do jornal ainda na redação, numa reprodução das paginas chamado diagrama, colocando nelas todas as matérias, fotos, ilustrações, etc. Antes o que se fazia era descer tudo para oficina e lá, depois que os textos eram compostos, eles iam sendo colados nas páginas pelos gráficos. Quando o espaço era insuficiente, cortava-se o final das matérias e era colocado um "continua na página X". Ficava tudo cheio de "joelhos", mas era vida que segue... Por isso na época se dizia que pé de galinha e pé de matéria tinham sempre o mesmo destino, a faca ou tesoura. Então os repórteres concentravam o importante dos textos no início e deixavam o irrelevante para final. Os jornais de Vitória eram assim e não havia plantão para atualizar textos.

Sem informações precisas para obter e só com noticiário das TVs e rádios, vivemos do burburinho das conversas de rua com os vizinhos trocando impressões. A maioria, sem saber absolutamente em detalhes o que estava realmente acontecendo, achava que as autoridades estavam certas. Fui dormir naquela noite, assim como grande parte das pessoas de Vitória, sem ter um noção mais real do que se passava. Bom, porque muita gente não sabia de nada. Vovô e vovó tomaram a iniciativa de dizer que nos recolheríamos cedo. Mas antes uma informação ele tinha: haviam telefonado do Colégio Americano e dado uma boa notícia.

Ia haver aulas no dia 2 de abril!

27 de março de 2024

Faz 60 anos... (3)


Pode-se dizer que o dia 1º de abril de 1964 foi, por todos os ângulos, muito diferente dos outros, e já a partir do fato de que um golpe de Estado sem muitas explicações prontas, com dúvidas e medos, aconteceu justamente no dia dos mentirosos. Mas eu não tinha estrutura para pensar nisso naquele momento, em vésperas dos 14 anos, e voltei para a casa dos meus avós depois de passar pelas partes mais conhecidas do Centro de Vitória logo após o almoço. Deixando a Praça Oito de Setembro, em vez de ir em direção à Praça Costa Pereira (foto) andei pela Avenida Jerônimo Monteiro no sentido Parque Moscoso, passando por pontos que conhecia como as Lojas Helal Magazin, Casas Santa Terezinha e Hudersfield. Nessa última meu avô comprava, quando o dinheiro dava, os tecidos de seus ternos.

Em vez de subir a Escadaria Barbara Lindenberg, fui mais para baixo e entrei pela Rua General Osório. Ela me levaria à Escadaria Doutor Carlos Messina, de onde a gente às vezes tinha que descer correndo para pegar as bolas das peladas que eram desviadas durante os rachas na Rua Francisco Araújo. Passei pelos números 78, 92, 120 e 130, os prostíbulos da cidade e que rivalizavam com os da Volta de Caratoíra. Esses últimos não eram conhecidos pelos números, mas sim pelas cores ou acabamentos que ostentavam: Casa Branca, Casa Verde, Casa Caiada, etc.

Na porta de um dos prostíbulos da General Osório, sei lá eu hoje qual, uma das "primas" estava parada na porta vendo certa batida policial. Não, nada tinha a ver com o golpe de Estado que se desenvolvia no Brasil e que já havia afastado o presidente da República. Era só um bêbado que estava sendo colocado no "camburão". "Aprende a respeitar a Policia, safado", ouvi o policial dizer enquanto o empurrava para dentro do veículo e sapecava um tapa na cara do preso. Tão forte que o estalo pode ser ouvido à distância.

Na casa de vovô e vovó um "conselho de estado" estava formado. Meu tio Walter, um dos irmãos de mamãe, havia se reunindo com o pais e fui autorizado a participar das conversas. Ele, funcionário do Banco do Brasil, explicava com base em "fontes confiáveis" que um regime militar iria se formar para ajudar a salvar o Brasil do comunismo, mas que, mais uma vez segundo as fontes, essa intervenção se daria até as próximas eleições. Só isso, Um pequeno intervalo para tirar os contestadores e subversivos do raio de ação. Mas seria coisa pouca. insistiu meu tio respondendo a uma interrogação de vovó.

Sim, só duraria 21 anos...  

25 de março de 2024

Faz 60 anos... (2)


No 1º de abril de 1964 minha mãe, que morava em São Paulo juntamente com todo o restante da família, ligou para Vitória na hora do almoço, o que não era fácil. Queria saber de mim e conversei com ela rapidamente. Tive que ouvir o relato sobre um tal de "movimento democrático militar" que estava assumindo o poder no Brasil em lugar do "outro". Pediu-me para ficar em casa. Então almocei juntamente com meus avós - eram pais de mamãe - e fomos ver televisão. Nos velhos tubos de imagem que nos traziam o preto e branco cheio de chuviscos e sombras tomamos conhecimentos da deposição do presidente João Goulart no linguajar de justificativas que os militares já estavam controlando.

Ainda não se tinha a exata noção do que estava acontecendo, mas de boca em boca já se ouvia que o presidente não se encontrava mais em Brasília (estava a caminho do Rio Grande do Sul) e que logo um presidente interino (Paschoal Ranieri Mazzilli) assumiria a presidência (por 13 dias, até a posse de Humberto de Alencar Castelo Branco). Tudo era confuso, principalmente numa Vitória provinciana de meados da década de 1960. Meus velhos logo foram dormir a sesta de todos os dias e recomendaram a mim não sair de casa naquele dia. Saí tão logo eles dormiram.

Subi a rua Francisco Araújo passando ao lado do prédio da Legião Brasileira de Assistência (LBA) e saí na lateral do Palácio, a que dá para a Praça João Clímaco e ao lado da casa da família Barbosa Leão, hoje pertencente à Academia Espírito-santense de Letras e chamada de Casa Kosciuszko Barbosa Leão. Aparentemente estava tudo calmo, apenas com uma quantidade de soldados bem maior que o normal para a segurança da sede do governo estadual.

O governador Francisco Lacerda de Aguiar, o Chiquinho, não estava na rua. Consta que em seu gabinete palaciano. Poucos dias antes ele havia dado entrevista e dito que ficaria ao lado do presidente João Goulart para o que acontecesse. O que desse e viesse... Mas já eram dias perigosos! Segundo o anedotário de então, naquela manhã do golpe militar o comandante do 38º BI telefonou para ele. A conversa teria sido rápida: "Governador, fui incumbido de perguntar ao senhor de que lado está?". Ele respondeu de pronto: "Estou ao lado da Escola Normal!". A velha Escola Normal Dom Pedro II, de tanta saudade para mim...

Sentado em um dos bancos da praça, olhei para o prédio da Assembleia Legislativa ao lado e decidi andar em direção à Praça Oito de Setembro, descendo pela Escadaria Bárbara Lindenberg e dobrando à esquerda. Gostava muito de andar na região da Praça Oito (foto) para onde ia, dentre outras coisas sempre que precisava postar uma carta. Lá ao lado, na Avenida Jerônimo Monteiro, ficava a principal agência dos Correios.

Sim, era época de cartas...