Trabalhei como correspondente de alguns grandes jornais brasileiros em Vitória, tanto representando a esses quanto substituindo os titulares que entravam em férias. Lidava com todas as correntes políticas que no passado eram civilizadas, mas as maiores dificuldades ficavam no trato com o PT e seus dirigentes regionais e/ou nacionais. Era muito difícil penetrar no círculo deles e tentar influenciá-los. Eram impermeáveis. Até mesmo na esfera sindical o partido não tolerava intrusos, reagia a qualquer tipo de interferência externa. E esse modo de pensar nunca mudou ao longo dos anos. Inclusive agora que o presidente Lula, em queda acentuada de popularidade até mesmo no Nordeste, parece isolado no Palácio da Alvorada, tudo continua como dantes no quartel de abrantes.
Os que habitam a Brasília atual dizem que o circulo de Lula se restringe a Rui Costa, hoje na Casa Civil, Sidônio Palmeira, na Comunicação e Janja, no leito. E aí talvez more o maior perigo! Nos últimos tempos o presidente tem demorado a tomar decisões - o que não é uma novidade! - e as toma sozinho. Talvez faça isso no reduzido espaço do Alvorada, em momentos íntimos e cedendo a impermeabilidade de seu pensamento apenas à mulher que é onipresente na cena politica nacional desde que se casou com ele, como pode ser visto na foto. Nem sequer tenta disfarçar seu protagonismo.
Dona Ruth Cardoso, mulher de Fernando Henrique Cardoso, era uma intelectual brilhante, antropóloga, cientista social mundialmente reconhecida e capaz de emprestar muita coisa ao marido no terreno de discussões teóricas, aconselhamento político, etc. Se fazia ou não é difícil dizer porque a tônica de sua existência nos campos minados de Brasília era a discrição. Teve participação segura no programa Comunidade Solidária, modernizou o assistencialismo do Brasil junto com o presidente, outro grande intelectual, e parou por aí.
Hoje até mesmo o assistencialismo brasileiro carece de maior embasamento científico. E de foco voltado para o Brasil moderno. Lula não entende que o mundo mudou e ele deixou de lado até mesmo a preocupação em conquistar apoio da juventude - seu maior erro - e o relacionamento com a classe política é mais de cooptação insegura do que de trabalho conjunto. Frente ampla é algo distante das preocupações do presidente, o que mina seu mandato, compromete o passado político e lança dúvidas sérias sobre o futuro próximo. Mas nem tudo está perdido porque ele pode encontrar um caminho e mudar de rota e recuperar capital político. Ainda há tempo, mas esse tempo urge.
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