25 de março de 2026

Seremos dignos de 2026?

Estamos hoje diante do fato de que o Brasil vai viver em 2026 seu mais importante ano para a história de nossa democracia republicana jovem. Seremos dignos desses tempos? E quando pergunto se seremos, estou me referindo aos jornalistas e aos meios de Comunicação.

O terremoto que se abateu sobre a Globo News depois que foi ao ar no "Estúdio i" da última sexta-feira um powerpoint canalha que tentava associar o governo federal e o presidente atual, Lula, diretamente ao escândalo do Banco Master foi um golpe no queixo da frágil credibilidade do grupo Globo. E nos fez lembrar de dezembro de 1989. Homem acostumado à TV, Fernando Collor de Melo teve atuação mais segura num debate contra Lula, ambos candidatos à presidência. Na hora de editar o material que iria ao ar, o Jornal Nacional escolheu os melhores momentos de Collor, os menos felizes do oponente e, assim agindo, interferiu diretamente no resultado da eleição que deu o mandato ao alagoano. Os resultados desse crime contra a ética todos conhecemos. Foi manipulação grosseira.

Em 1989, mesmo já quatro anos fora da ditadura e um ano com a nova Constituição, o Brasil ainda vivia a ressaca do regime ditatorial e a Globo teimava em manter seu império de Comunicação na sombra do cadáver à porta. Poucos imaginavam que os tempos mudavam, a influência das grandes redes iria se redividir com os anos e a sociedade, embora permanecesse muito influenciável como é até hoje, aos poucos ganharia mais voz, sobretudo para exigir respeito e o direito de não ser manipulada.

Aqui no Espírito Santo A Gazeta vivia época parecida. Ex-todo poderosa por ser porta-voz da ditadura no Estado, demorava a aceitar o fato de que seu "império" estava se findando. O então presidente da empresa, Eugênio Pacheco de Queiroz, não era um desses. Homem gentil, conhecido por sua sinceridade, chamava a todos de senhor. Conservador assumido mas não reacionário, um dia entrou na redação do jornal e se deparou com cartazes de "PCB Legal" pregados pelas paredes. Retirou-os sem os ragar e foi direto ao "aquário" do Secretário de Redação, Chico Flores, que estava conversando comigo, o Editor de Esportes. Disse: "Senhor Francisco, retirei os cartazes do Partido Comunista da redação e já determinei que a Arena não vai poder colocar os dela. O senhor concorda?" Claro que sim, dissemos os dois.

Era uma transição e a democracia ganharia com ela em todos os lugares. Hoje o poder dos meios de Comunicação não é mais absoluto e esse fato reflete mudanças. A Gazeta mesmo virou uma caricatura do passado, pois nem mais jornal impresso tem, perdeu seus jornalistas/referência em Comunicação e é dirigida por Café Lindenberg, o filho não escolhido para comando de Cariê Lindenberg, este também filho do senador Carlos Lindemberg, o que ajudou a fazer a empresa grande na calda de cometa da dinheirama ganha, sobretudo  principalmente com publicidade oficial nos tempos do "prendo e arrebento". Mas também com outros anunciantes...

Em O Globo parecia que o passado estava morto e sepultado até sexta-feira última. Só que não! Até a âncora do programa e o comentarista no ar foram surpreendidos, acredito, pelo powerpoint. Mas nem todos. O fato mostra de que os velhos tempos ainda sobrevivem em alguns setores da rede e às vezes se manifestam. Isso acontece também em O Estado de S. Paulo, Folha de São Paulo, Jovem Pan e outras grandes e médias redes, o que envolve as revistas de circulação nacional - felizmente nem todas elas - e igualmente a internet.

Para que o jornalismo brasileiro seja digno de 2026 ele precisa continuar sua reinvenção no caminho da informação isenta, abandonando cacos de todas as espécies e noticiando fatos sem manipular a informaçao de nenhuma forma. As direções da Globo, da Abril, Estado, Folha e outros têm que entender isso: a verdade não usa maquiagem. Ela às vezes machuca, é dura, crua e a gente gostaria de não tornar pública, mas tem que fazer isso porque notícia se define como fato de interesse público, não pertence ao jornalista, mas à comunidade que ele serve. Sobretudo não pertence aos empresários dos meios de Comunicação, já que o caixa das empresas deles é abastecido em parte por quem crê nelas. Credibilitade a gente leva uma eternidade para conquistar e basta só um powerpoint canalha para perder.

E depois ainda tem que se sujeitar a memes como esse acima...

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