Vou fazer uma coisa que não deveria. Meu pai era o homem classe média alta típico do Brasil. Eu o amava e discordava respeitosamente dele, tanto que escondi durante muito tempo o fato de que militava no PCB, ou Partidão, desde o início de minha idade adulta. Ele viveu a época da fundaçao do PT e do começo da luta de Lula pelo poder em nome dos trabalhadores que representava. Ouvi de papai: "Absurdo um torneiro mecânico comunista querendo ser presidete. Nunca haverá de ser". Ele viveu também para ver esse operário eleito pela primeira vez e para saber que tinha um filho comunista. Só fez um comentário certa feita: "Vão prender esse comuna!". Eu então disse: "Pai, palavra de quem conhece: o torneiro mecânico não é comuna."
Nunca deixei de amar e repeitar meu pai um tanto ao quanto reacionário. E nem ele deixou de amar o filho que não o havia seguido. Um dia, pouco tempo antes de sua morte, despedi-me dele sala de televisão onde ficava quase o dia todo, dei-lhe um beijo na testa e ao sair ouvi quando disse falando alto, mas para si mesmo: "Esse cara me faz um bem..." Fui embora chorando e nunca comentei isso com ele.
O Grito dos Excluídos é o protesto daqueles que sempre foram abandonados pela direita e extrema direita política do Brasil. Geralmente estão abaixo dos torneiros mecânicos da industria automobilística e de outros setores do trabalho da base da pirâmide social brasileira. Onde ficam os sem lar, os moradores em situação de rua ou os que vivem de biscates aceitando fazer de tudo às vezes por um prato de comida. Ou então por um cachimbo de crack, pois isso os ajuda a não ver a realidade diante de seus olhos.
Hoje, no 7 de setembro, há desfiles pelo Brasil todo. Em São Paulo o governador trocou as homenagens oficiais por uma ida à Avenida Paulista onde vai usar o Dia da Pátria para apoiar a candidatura de um tal 01 com ficha corrida das mais gordas. No Rio de Janeiro também se vai deturpar o sentido desse dia, transpondo-o para as eleições que vão ser realizadas dentro de menos de um mês no país todo. O presidente da República, Lula, respeitou a data celebrando-a ao lado de autoridades militares, protocolarmente. Coisas de torneiro mecânico de passado democrata!
O ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, não deixou passar a oportunidade de voltar a atacar seu igual (sic!) Alexandre de Moraes, colocando no ar vídeo no qual ele fala aos "irmãos e irmãs". Aos evangélicos, claro. Dispensou da mensagem todos os demais brasileiros que pensam diferente e aos quais deve satisfações. No seu conceito de justiça divina ela deve escolher aqueles que pensam como os das diversas nomeações neopentecostais atuais, muitas delas defendendo abertamente chegar ao poder da República.
Há espaço para mais mais injustiças e golpismos nos próximos dias. O Grito dos Excluídos e Excluídas chegou até às telas das grandes emissoras de TV no dia de hoje, mas elas, embora não confessem, têm horror a esse torneiro mecânico presidente. Ele não representa os interesses do Mercado, esse grande sindicato informal de multimilionários ávido por ter a cada dia mais dinheiro e inimigo confesso do fim da escala 6X1 e de qualquer outra reivindicação trabalhista que venha a tocar, mesmo de raspão, em seus sagrados interesses e privilégios.
Para eles e a maioria hoje é o dia da olhar para o quadro de Pedro Américo e no qual Pedro, o futuro imperador, está no alto de um belo cavalo, espada apontada para o firmamento e assim imortalizado enquanto os demais vibram com o momento. Dane-se se ele estava com diarréia, havia ido ao mato várias vezes para se aliviar e a montaria era uma mula, bicho que se dava melhor com as trilhas esburacadas e lamacentas de então. A versão é muito melhor do que a história real, mesmo para o príncipe que herdou um reino imenso como presente do pai e antes que algum aventureiro pudesse lançar mão dele.
Os excluídos que gritem. Hoje e sempre!

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