25 de maio de 2021

Movimentos calculados


Por que Jair Bolsonaro conseguiu evitar uma nota do Exército criticando o general Pazuello com um simples telefonema dado de Quito, no Equador, para Brasília? E por que ele não vai impedir a punição de seu ex-ministro da Saúde que o atende como se fosse um serviçal comum? Trata-se de  movimentos calculados e aproveitamento de oportunidades. Oportunismo, em resumo.

Se o presidente for desmoralizado agora, vai perder mais espaço político, pois isso já está ocorrendo. O Centrão, excrescência política focada unicamente em seus interesses mais diretos o abandonará no meio do caminho. Aí será quase certo que um processo de impeachment seja aceito, votado e aprovado no Congresso. Isso colocará a presidência da República literalmente no colo de Lula ano que vem. Tudo o que os militares e forças reacionárias brasileiras não querem.

Em 1964 vivíamos a época da guerra fria. Havia um medo disseminado de que o comunismo tomasse conta do Brasil sabe-se lá como. Quando houve o golpe militar uma frota norte-americana estava no litoral brasileiro pronta para intervir se as coisas dessem errado. Era a "Operação Brother Sam". A intervenção não foi necessária e, para os interesses dos EUA, tudo deu certo.

Isso passou e hoje os tempos são outros. Nos Estados Unidos é muito mais difícil embarcar numa aventura como essa. No chamado "mundo livre", que é livre mas nem tanto assim, a política de não intervenção direta substituiu a dos cowboys que, via embaixadores, aterrorizavam países com pouca ou nenhuma importância estratégica ou militar (leiam "Ásperos Tempos", de Mario Vargas Llosa).

Bolsonaro sabe de tudo isso. É sociopata inteligente. Quando pegou o telefone e ligou para Brasília não estava peitando o Exército para impedir a nota de desagravo a Pazuello. Ele não é tão forte assim. Estava jogando as cartas: "Dinamitem-me e Lula vence!". Não o dinamitaram. Mas o general capacho vai ser punido para que a instituição militar não se desmoralize mais ainda.

A foto que ilustra esse texto (de O Globo) mostra nosso Bozo erguendo o braço do presidente eleito do Equador - um político de direita, mas não de extrema direita - como se ele fosse um troféu conquistado. Na cabeça do brasileiro as coisas funcionam assim. E lá ele está de máscara. Resta agora a nós nos insurgirmos contra o fato de que aqui ele desrespeita normas, leis, ética e tudo o mais. E a não ser por uma única e miserável multa aplicada pelo governo do Maranhão, tudo passa em brancas nuvens. 

Mas todos somos súditos das leis.               


22 de maio de 2021

Delírio de outono (conto)

Normalmente uso esse espaço para artigos. Mas hoje resolvi oferecer a vocês um conto (?). É meio longo, mas tinha que ser assim. Espero que leiam. E o texto os faça  sorrir um pouco e  refletir muito. O tema bem que merece. Até mais ver:


- Eu também quero ser general!

         Houve silêncio na sala onde se realizava a reunião ministerial. Digamos, silêncio obsequioso. Os participantes do encontro se entreolharam e de início ninguém falou nada. Então o senhor presidente insistiu:

         - Quero ser general!

         O vice, que estava presente depois de muito tempo exilado e sem participar de reuniões da cúpula do poder resolveu fazer uso da palavra:

         - Não pode, presidente. O senhor não fez carreira para chegar a isso. E já é o comandante em chefe. Esqueceu?

         O presidente balançou a cabeça negativamente e voltou à carga. Como se fosse uma carga de cavalaria. Ou de paraquedismo:

         - A gente faz uma lei. Quero ser general e pronto. Por que você pode e eu não posso?

         O outro, o vice, deu uma pigarreada daquelas que a gente dá para tomar fôlego e encontrar argumentos antes de tentar continuar sua argumentação. Diante do silêncio sepulcral que persistia na sala, enfim voltou a argumentar:

         - Veja, presidente, as coisas não são assim. Existem leis que regem a República!

         - Mudo por medida provisória ou PEC. Mas quero ser general e pronto. Meus filhos me pediram, minha mulher achou o maior barato e a gente até simulou uma solenidade de sagração já no Alvorada. Está tudo combinado. Minha filha ainda brincou e disse: “Está tudo combinandinho, papai”. Não posso decepcionar minha família, meu bem mais precioso.   

          O vice voltou a tentar argumentar:

         - Vamos admitir que fosse possível. Mas isso no plano civil. E no militar, o que eu diria para o estado maior. Para os chefes, comandantes e chefes das três armas?

         - Diga que eu quero. Que é a vontade do povo, da nação e que os militares de todas as forças já ganharam tudo o que eu podia dar a eles. Tudo mesmo, inclusive milhares de cargos no governo, tirados de civis. Então, posso ser general e pronto.

         O vice coçou a cabeça. Tirou a máscara com a bandeira do Flamengo de cima do copo de água à sua frente e tomou um gole. Voltou a botar no lugar. Estava sem ela no rosto porque diante do presidente, em local restrito, ninguém se atreve a usar máscara. Ficou um silêncio constrangedor até que a ministra, única mulher presente, perguntou:

         - O que a gente tinha vindo aqui discutir mesmo? Qual era a pauta dessa reunião?

         Quando o presidente fez menção de se levantar, já com ar furibundo em direção àquele que se atrevera a mudar o foco da discussão, o ministro da secretaria geral da presidência da República atalhou, quase aos gritos:

         - Ele pode sim. Ele não foi eleito por mais de 57 milhões de brasileiros? Pode sim. Vamos encontrar um caminho.

         O presidente estufou o peito de felicidade. Fez um sinal de mão de positivo endereçado ao seu ministro no instante exato em que todos os demais, em uníssono, completaram: “Pode sim!”. A ministra que havia provocado a interrupção chegava a espumar enquanto gritava sua concordância.

O vice voltou a dar uma fungada. Tirou a máscara do Flamengo mais uma vez de cima do copo, tomou um novo gole de água e depois se voltou para todos:

         - Tá bom. Então como nós vamos fazer isso? Estou perguntando porque não basta vencermos a resistência do Alto Comando. É inconstitucional, pombas! Aliás, pergunto: essa merda de reunião está sendo gravada?

         Todos acorreram ao sistema de gravação do Planalto e apagaram os registros. Pronto, nada havia sido gravado. O filho 02, especialista nessas questões ainda deu uma conferida, checou os registros nas redes sociais e fez sinal de positivo. Então o presidente voltou a falar à plateia:

         - Vou fazer um decreto!

         O vice disse logo em seguida:

- A constitucionalidade vai ser questionada.

O presidente pareceu perder enfim a paciência:

- E daí, porra? Eu por acaso sou um presidente banana? Por que vocês acham que gastei três bilhões do orçamento para comprar, digo, para convencer o Centrão a me apoiar? Faço o projeto passar pelo Congresso sem o menor problema. Bom, talvez isso custe mais uns dois bilhões, mas valerá a pena.

Todos ficaram em silêncio mais uma vez. Novo silêncio obsequioso. O dono da pasta da Justiça logo disse que faria o texto do decreto. Cinco outros disseram que sairiam naquele momento mesmo para ir ao Congresso. Mais dois falaram que iriam procurar ministros do Supremo com os quais mantinham boas relações de “cordialidade e respeito”. Mas o vice não estava convencido:

- O senhor se lembra de como deixou o Exército, presidente? Os registros do processo que o senhor respondeu e que quase custou sua expulsão ainda estão lá. Vivinhos da silva! De repente alguém pode ressuscitar esse cadáver fedorento, sobretudo no Exército onde o senhor não é unanimidade. Nem tudo é o Clube Militar nessa vida...       

Aí a gritaria foi geral. Todos se voltaram contra ele, o vice, sobretudo o filho mais velho, o senador que já havia embarcado na aventura de mala e cuia. E foi ele quem gritou mais alto:

- Fake News! Coisa de comunistas safados! O presidente saiu porque não queria ficar mais. E contra todos os conselhos. Mas a quadrilha internacional comunista, sempre de olho no Brasil, criou uma narrativa caluniosa para nos atingir. Só que o gado, digo, os apoiadores não vão permitir uma coisa como essa. Todos acreditam que estamos no poder em nome e pela vontade de Deus. E Ele quer um presidente general de cinco estrelas.

Foi a apoteose!

O vice não teve mais argumentos. Os poucos que ainda não haviam se manifestado favoravelmente se entreolharam e devagar começaram a se retirar para a Esplanada dos Ministérios. Cada um para seu endereço. Cada qual para o seu quadrado.

E agora, José? O que fazer. O vice lavou as mãos. “Nem aos comandantes das forças levo uma notícia dessas”, pensou. O presidente pareceu ler os pensamentos dele e anunciou que estava convocando uma reunião dos comandantes militares para dizer a todos que é general. Ou então que será. A partir daquele momento todos estavam engajados na tarefa de desenvolver ações no sentido de concretizar o sonho presidencial. O maior mandatário dirigiu-se ao vice enquanto ele pegava a máscara do Flamengo e deu o assunto por encerrado:

- Vamos fazer isso, sim. O Brasil merece. Afinal, tivemos presidentes generais durante o regime militar democrático ou não? E eles eram aceitos ou não? Afinal, pense, isso é mera formalidade! Você já me disse várias vezes que alguns oficiais superiores ficam constrangidos em terem que obedecer a um capitão. Eu também ficaria. E o problema estará resolvido dentro de pouco tempo.

O vice deu de ombros:

- Plano do senhor, problema do senhor. De minha parte desejo sucesso à empreitada. Mas um conselho: antes de estar tudo pronto com o Congresso não deixe a imprensa saber de nada. Caso contrário o mundo cai na sua cabeça antes do apocalipse.

Dessa vez foi o presidente quem deu de ombros. Agora estavam na sala somente ele e mais 01, 02 e 03 que haviam chegado atrasados, mas conhecia todos detalhes do plano elaborado no Alvorada. E foi ele quem se adiantou para falar, já em papo íntimo de família:

- Estamos todos em campo. Na batalha, combatendo o bom combate. Vim aqui para a gente traçar planos caso tudo dê certo. Nesse momento o presidente explodiu de vez:

- Caso? Caso um diabo. Está decidido. Não abro mão da minha autoridade de maneira nenhuma. Temos que ir daqui já com tudo combinado. A começar pelo seguinte: depois que eu receber o generalato, qual de vocês vai me cumprimentar me chamando de “Generalíssimo presidente”?

Um olhou para a cara do outro. Ninguém queria tomar a iniciativa de argumentar. Então foi o presidente quem voltou à carga, jogando as pernas para cima e as colocando sobre a mesa de trabalho. Dali olhava para a Praça dos Três Poderes onde adora andar a cavalo nos finais de semana nos quais exulta com as faixas que pregam o fim da democracia e a intervenção militar com ele no poder. Tentou falar de modo bem coloquial e didático:

- Vocês querem que alguém os chame de maricas? Filho de presidente macho tem que ser macho também. Então, vamos combinar o seguinte: 01, que tem cargo mais alto por ser senador, vai abrir o discurso com o “generalíssimo”. Na mesma hora vocês dois vão apoiar. Vou colocar do nosso lado a turma que não dorme de tanta vontade de ir para o Supremo e garanto que eles vão urrar junto de vocês...

- Tem o que sonha em continuar como PGR... – atalhou 03.

- Isso, mesmo. Então – prosseguiu o presidente – a coisa degringola. Vai virar um pandemônio esse negócio todo e quero ver se algum ministro do STF vai ter peito de nos enfrentar. Ninguém ousará tentar derrubar meu decreto. Sairei de lá nos braços do povo, só não sei se nos braços das pessoas ou a cavalo. Acho que vou preferir sair montado...

02 pediu palavra:

- É um plano perfeito. Coisa de gênio. Só mesmo poderíamos imaginar coisa desse quilate...isso não tem como dar errado. Viram como os ministros saíram daqui? Todos em ordem unida, prontos para cumprirem suas missões.

- Claro. – disse o presidente – ninguém é burro. Eles sabem que eu demito mesmo. Cortar umas cabeças de vez em quando tem lá suas vantagens. Fica todo mundo com um pé atrás...

- Sim, tem que ser assim – disseram os três ao mesmo tempo.

Então o presidente relaxou. Esticou ainda mais as pernas sobre a mesa e ficou olhando fixamente através da janela de sua sala de terceiro andar. Parecia divagar e foi falando quase sem sentir.

- Gozado, mas antes de ser eleito não me lembro de ter entrado nesse gabinete. Afinal, aqui dentro só tinha comunista, ladrão e vagabundo. Teve uma idiota também. Mas depois que cheguei aqui adorei tudo. Hoje eu sinto como se isso tudo fosse meu. Como se sempre tivesse sido. E não quero sair daqui. Foi por isso que tivemos a ideia do generalato. Do generalíssimo. Isso combina comigo e com os planos que sempre tivemos de nunca mais sairmos daqui. Esse é o nosso lugar. Na época dos generais, de 1964 a 1985, eles cometeram o erro de fazer eleições. Sou contra, mesmo indiretas...

- Somos contra – atalhou o 02.

- Sim, somos contra, – prosseguiu o presidente – e por isso o plano é não sair mais daqui. Eu me reeleger, aprovar no Congresso um projeto de reeleição sem limite de número, ficar sempre na presidência e depois passar o bastão, quando me der na cabeça, para um de vocês. É isso o que quero: um País da família. Nas mãos de nosso clã, ao alcance de nosso poder. Sempre sob controle. E vai dar certo. Sempre que há o Congresso sob controle – e dá uma gargalhada debochada antes de continuar – e a perspectiva de uma ruptura, um golpe de Estado “com eu” no poder pode voltar a povoar a Esplanada...

- Agora não está dando – falou novamente o 02.

- Não está dando porque os caras são uns maricas, uns merdas. – continuou o presidente – Eles não querem se envolver em aventuras. Estão com medo de repetir 1964. Umas porcarias. Mas nós sabemos o que queremos e a hora é agora. General até o ano que vem e depois o salto para mais quatro anos do mais novo generalíssimo da história desse nosso País.

Uma salva de palmas coroou o final da fala.

O Presidente Generalíssimo estava realizado. Chegou a dar um longo bocejo como se tentasse despertar de um sonho. Os filhos olhavam-no maravilhados, como se fitassem um deus vivo. Então ele perguntou:

- Já estão sendo tomadas todas as providências? 01, que havia ficado por instantes ao celular, foi quem me respondeu.

- Sim. Já estamos com gente indo para o Congresso, para o STF e só vai ser preciso o senhor definir a hora exata de comunicar a decisão aos militares e à imprensa. Como eu odeio esse termo, a imprensa. Depois será apenas correr para o abraço.

O presidente respondeu:

- Vou ver isso tudo. Tomem seus assentos porque o avião vai decolar. Cada um sabe exatamente o que fazer e agora a sorte está lançada. Não sei falar isso em grego.

- É latim – disse o 02.

E o presidente se levantou, sendo seguido pelos filhos. Novamente se dirigiu à janela. Olhou para a Praça dos Três Poderes, para o horizonte do Planalto Central, para o infinito como se o seu olhar pudesse chegar ao oceano e vencê-lo. Então, de repente parou. Chamou os filhos de volta e disse com o peito inflado de ar.

- Última forma. Vamos correr com o decreto do generalato, com todas as providências porque preciso chegar ao ano que vem já com cinco estrelas. Mas depois que eu for reeleito, a coisa muda. Vou começar a costurar para subir acima deste cargo.

Os três se entreolharam e perguntaram ao mesmo tempo:

- O que você vai querer ser, papai?

Então sua excelência fitou o horizonte novamente, colocou a mão direita aberta entre dois botões superiores de seu paletó e disse encerrando definitivamente o assunto do dia:

- Marechal de Campo!

   

    

12 de maio de 2021

O estado terrorista


Foi em 19 e 20 de setembro de 1982. Mais de mil refugiados palestinos e civis libaneses foram massacrados por hordas de milicianos maronitas comandados por Elie Hobeika como retaliação pelo assassinato do presidente e líder falangista Bachir Gemayel. O fato aconteceu no Líbano nas localidades de Sabra e Chatila. Como isso foi possível? Ocorreu porque o exército de Israel cercou os dois aglomerados e não permitiu que ninguém entrasse lá para prestar socorro à população até que a matança terminasse. Os massacrados eram considerados responsáveis pela morte de Gemayel. Era a vingança!

Por que lembrar isso hoje e ainda ilustrar esse artigo com uma foto da carnificina? Por que agora, quase 38 anos depois Israel volta a promover ataques e massacres contra a população palestina. E nesse momento sem disfarces: o primeiro ministro do estado judeu, o extremista de direita Benjamin Netanyahu diz claramente que considera Jerusalém capital indivisível de seu país, o que na prática expulsa os palestinos de lá e os deixa sem lugar para sobreviver, sem Estado e sem nacionalidade.

Israel jamais teve a intenção de reconhecer os direitos palestinos sobre suas terras de origem. Apoiados nos princípios do sionismo, consideram-se donos de toda a região por direito divino. E se antes ainda eram feitos acordos de paz e discursos de reconhecimento da necessidade de haver dois países na região, hoje isso foi abandonado. Não há mais disfarces. Israel quer a guerra. Israel prefere a guerra principalmente porque tem forças armadas poderosas e armas nucleares que o mundo finge não ver.

É estranho, mas a maior força que o estado judeu usa para levar adiante seu projeto genocida vem do apoio que clérigos ultra ortodoxos que não admitem negociar nada. São extremistas de direita, personagens com ideias de superioridade racial e direitos divinos sobre parcela do mundo, o que os aproxima muito do nazi-fascismo. Como pode isso, se em passado recente eles foram massacrados durante a segunda guerra mundial pela mesma ideologia que adotam hoje? Difícil entender...

Mas é preciso admitir que a cultura ocidental, sobretudo dos Estados Unidos, pouco ou nada vai fazer para que se cumpram as resoluções da ONU, levando Justiça àquela região do mundo. Tomo por base a essa afirmação o que se ouve e vê nos noticiários jornalísticos do dia a dia. Os atos de violência palestinos são todos de "terroristas". Os de Israel, de "radicais".

Dias piores virão! Israel é um estado terrorista!                        

8 de maio de 2021

Massacre em Jacarezinho


Nos tempos em que o exército dos Estados Unidos "conquistava" o Oeste do país, um belo dia houve reunião de alto comado em um dos fortes da região para definição de ações de combate. Estavam presentes os generais das linhas dura e leve. Em dado momento, defendendo uma posição mais flexível dos militares, um general disse ter conhecido muitos índios bons ao longo da vida. Um outro de linha dura, Philip Henry Sheridan retrucou: "Pois os únicos índios bons que conheci estavam mortos". O diálogo foi ouvido por um ordenança que o passou adiante e gerou o velho axioma "índio bom é índio morto". Aqui no Brasil há mais de um século ele foi adaptado para "bandido bom é bandido morto". E a polícia do Rio colocou isso em prática quinta-feira em Jacarezinho.

Um policial morreu. Além dele, contados até agora, 28 outros homens. É certo que a imensa maioria cometia crimes. Mas também que alguns inocentes foram no bolo. E é correto afirmar também que muitos largaram as armas e levantaram os braços. Foram mortos assim mesmo, executados friamente dentro de residências onde haviam entrado (foto da Revista Fórum). E como a polícia gosta de dizer que está em uma guerra declarada contra o tráfico, podemos acrescentar que foi então cometido um crime de guerra como ele é definido por normas internacionais. Inimigo rendido não se mata.

O jornalista Reinaldo Azevedo publicou no Twitter que as milícias ocupam 57,5% dos territórios de baixa renda (favelas) no Rio de Janeiro. As Facções ficam com 15,4%, em 25,2 por cento há disputas ou parcerias entre os grupos. Em Jacarezinho, onde houve o massacre, as milícias jamais entraram e lá quem manda é a facção conhecida como Comando Vermelho. A polícia nunca fez ação em regiões ocupadas por milicianos. Reinaldo termina: "Entendem?" Entendemos sim.

Há no Brasil, sendo criado hoje, agora, um estado paralelo. E a inspiração para isso vem de Brasília, da presidência da República. O presidente já disse em mais de uma oportunidade que o miliciano Adriano da Nóbrega, morto na Bahia em ação de queima de arquivo, foi condecorado antes de ser declarado fora da lei porque era um herói. Esse é o tipo de heroísmo que ele glorifica. Esses são os seus heróis. Nóbrega, ditadores sanguinários sul-americanos e gente como o torturador Brilhante Ustra.

Acorda, Brasil! Já é hora de reagirmos. Existem outros Jacarezinho nesse País, fora do Rio de Janeiro, talvez até mesmo aqui ao lado da gente e onde poderemos ser mortos por engano, como efeito colateral de outra ação de "inteligência policial".     

 


  

6 de maio de 2021

Os símbolos são nossos!


Hoje pela manhã saí para caminhar e, no meio do caminho, cruzei com um conhecido no exato momento em que um carro passava por nós com uma bandeira brasileira presa à janela do carona. O conhecido disse: "vamos vaiar o bolsonarista?" E eu falei que não. Que aquela bandeira era minha, bem como todos os demais símbolos nacionais. E fomos cada um para seu lado.

Mas agora me ocorre perguntar: será que estamos nos lembrando disso quando fazemos manifestações de contestação ao governo federal e a tudo o que ele representa? Será que não estamos nos esquecendo de que aquela bandeira é nossa e a estamos abandonando por omissão em manifestações que realizamos para questionar as barbaridades políticas atuais? Estamos sim. E isso é péssimo.

Nada impede os brasileiros de oposição de usarem símbolos de partidos políticos, de ideologias ou quaisquer outras formas de identificação dos gritos de protesto. Aliás, devemos fazer isso. Mas contanto também desfilemos com a bandeira do Brasil e com os demais símbolos nacionais que são nossos porque os ideais que defendemos, os valores que representamos são brasileiros e republicanos.

Nós somos os patriotas, não eles.

A foto que ilustra esse texto mostra isso. É Bolsonaro e sua claque quem vai às ruas para pedir golpe de Estado "com Bolsonaro no poder". É o chefe do Executivo quem ataca todos os dias os poderes Judiciário e Legislativo, quem afronta as instituições nacionais, inclusive de Estado.  Não somos nós. Durante os 21 anos de arbítrio da ditadura militar que estuprou a Constituição brasileira fomos nós quem lutou pela volta da democracia. Acabamos conseguindo expulsar os golpistas da imensa maioria dos cargos públicos e das ruas brasileiras. Vamos continuar saindo às ruas, mas sem esquecer dos símbolos nacionais. Da nossa bandeira e das camisas verde amarelas.  

30 de abril de 2021

Para onde vai o dinheiro...


É fácil explicar porque o atual governo federal não quer fazer o Censo obrigatório por lei no Brasil a cada dez anos, e que deveria ter sido realizado ano passado. Sem ele o presidente negacionista e seus ministros vão poder continuar a fazer o que bem entenderem sem ser necessário olhar para a realidade brasileira. Sem que haja uma bússola mostrando o caminho do norte magnético capaz de trazer progresso a todos, respeitadas as reais necessidades de um país imenso e de grande complexidade.

Vamos falar então sobre somente um exemplo dessa necessidade: em um trabalho de fôlego "O Globo" mostra hoje que as renúncias fiscais brasileiras alcançam nesse nosso ano de 2021 nada menos que R$ 351 bilhões. Isso representa 24% de tudo o que a União deveria arrecadar no período em impostos federais. Como nosso déficit está oscilando em torno de qualquer coisa próxima dos R$ 240 bilhões - isso pode crescer por causa da pandemia e seus efeitos colaterais sobre a Economia -, estamos dizendo que a não existência desses benefícios - são 173, sendo que 73 têm prazo indeterminado - faria com que o Brasil chegasse ao final do ano com superávit. Ou seja, com dinheiro sobrando no caixa.

Mas não vai acontecer nada parecido com isso porque o governo atual dirige o País para seus apaniguados. Há no universo de apoiadores de Bolsonaro um grande número de empresários dos mais diversos setores que o apoiam, sim, mas contanto ganhem alguma coisa mais concreta. Tenham retorno, em síntese. E não pagar impostos sempre foi o objetivo maior da "tchurma" que quer dessa forma "gerar emprego e renda". Eles todos são grandes amigos do Paulo Guedes...

Hoje mesmo uma amiga me dizia, relembrando velha máxima, que o Brasil é um país comunista para os ricos e capitalista predatório para os pobres. Eles que não se atrevam a querer viver cem anos como já disse o ministro da Economia em um de seus piores momentos, que são inúmeros.

Para que fazer censo, não? Para que ao menos reduzir a política de renúncia fiscal a um mínimo realmente necessário se o Brasil é formado por uma imensa massa de cidadãos com baixa escolaridade ou então fáceis de serem cooptados e que vão fazer vista grossa a esse absurdo, sempre relembrando as verdades de praxe como, por exemplo, uma que recebi hoje via WhatsApp, colocando em realce o fato de que o ex-presidente Lula é acusado de ter recebido dinheiro por inúmeras palestras que não teriam sido dadas a empresários brasileiros e mesmo assim foram religiosamente pagas. Para quê?

O Brasil vive dias tensos. Frios, tenebrosos. E a luta dos que apoiam a "situação" tem um norte magnético: não deixar que se saiba para onde vai o dinheiro. Basta que todos os dias seja dito que estamos devendo cada vez mais. E que o déficit só cresce, sobretudo na Previdência.   

      

22 de abril de 2021

Me dá um dinheiro aí!


Em 1958 Juscelino Kubistchek participava de uma reunião com o Secretário de Estado dos Estados Unidos, John Foster Dulles, levantou-se e pediu ao outro que fizesse o mesmo para se cumprimentarem. Na foto feita nesse momento, Dulles parece ter nas mãos uma carteira com dinheiro. O Jornal do Brasil a publicou e colocou um título: "Me dá um dinheiro aí!".

Juscelino ficou possesso. Com o jornal nas mãos, esqueceu-se de toda a sua gentileza, da educação de berço e ameaçou o JB com um enquadramento na Lei de Segurança Nacional. Não fez isso. Cabeça fria aceitou um pedido de desculpas e o termo virou a música "ei, você aí, me dá um dinheiro aí", de Moacyr Franco. Na minha infância cantei-a muitas vezes. Todo mundo a cantava. Já Kubistchek preferia "como pode um peixe vivo viver fora da água fria..."

Não vou comparar o presidente que jurou fazer 50 anos em cinco com o que está no poder há pouco mais de dois anos e já destruiu o meio ambiente por meio século. Não seria justo para com o mineiro boa praça morto em acidente automobilístico na década de 1970 depois de ter os direitos políticos cassados por uma ditadura militar que estuprou a democracia ao longo de 21 anos.

Apenas o velho político das Minas Gerais me veio à mente enquanto Bolsonaro falava na Cúpula do Clima (segunda foto) para mentir sobre o Brasil, sobre sua atividade à frente do governo federal e dizer, ao fim e ao cabo, que só vai poder salvar a Amazônia se receber dinheiro dos "países ricos". Caso contrário, não.

E pediu um prazo até 2030 para deter o desmatamento ilegal. Puta que pariu! Existem leis no Brasil e basta que elas sejam cumpridas. Deter o desmatamento ilegal depende de imagens de satélites para localizar os pontos de ocupação e depois fiscais do Ibama (órgão que ele está destruindo juntamente com seu comparsa do Meio Ambiente) para multar e as polícias estaduais, federal, Força Nacional de Segurança e até as Forças Armadas para fazer com que a legislação seja cumprida. Ele pede prazo até 2030 porque até lá já não haverá mais nada a proteger. Tudo terá sido destruído.

Ele quer é a destruição total, completa do Brasil que existe hoje.

Não sei como vai terminar a Cúpula e o que o Brasil totalmente desmoralizado vai conseguir dos "países ricos". Talvez nada. Mas sei, como todos sabem afora o gado, que o presidente não vai mudar. Durante a vida toda foi um destruidor de tudo e de todas as coisas. Só sabe fazer isso.                

12 de abril de 2021

Como um castelo de cartas

 A falta de uma definição ideológica clara nos partidos políticos brasileiros é um mal que depõe contra eles já faz décadas. Mesmo aqueles que tinham em sua nomenclatura termos como "Democrático" nunca especificaram o que isso significava como horizonte, como norte político para eles. Clara era a sigla "Comunista" no nome de partido, embora houvesse dois, cada um com uma diretriz diferente.

Desde que o PCB, antigo Partidão abriu mão de seu nome oficial para se tornar primeiro PPS e depois Cidadania ele passou e se descaracterizar. Hoje, existindo com sua última nomeação, não se sabe se é uma agremiação de situação ou oposição. Embora tendo em seus quadros antigos e respeitáveis membros do velho Partidão, "comunistas de carteirinha", dá-se o direito de contar com um líder no Senado que mantém laços de intimidade política com Jair Bolsonaro, extremista de direita. E outro que grava e divulga contato telefônico com esse presidente, de teor muito suspeito. Aos poucos a legenda corre o risco de se tornar mais uma sigla de aluguel.

O imenso número de partidos brasileiros concorre para com esse samba do crioulo doido. De forma clara, indisfarçável, grande parte deles são alugados a políticos de nenhuma envergadura pessoal, ética ou moral, e a propósitos pouco claros. Há de todo o tipo de gente: ladrões de dinheiro público, oportunistas de toda sorte, enfim, arrivistas sem limites que se mostram sobretudo e principalmente como indivíduos que vendem apoio em troca de cargos públicos, emendas parlamentares e blindagem política. Como o grupo de legendas chamado "Centrão", de onde o presidente da República é oriundo e de onde ele jamais se afastou apesar dos discursos demagógicos.

Vai ser muito difícil a um país como o Brasil, habitado por analfabetos funcionais políticos mudar essa realidade. É mais provável que ela permaneça, sobretudo agora que estamos diante de um quadro confuso em nossa realidade e quando pessoas vão às ruas com discursos que, sendo inconstitucionais são criminosos. E sem que o Estado faça nada para coibir. Ao contrário, os incentiva.

Mas uma realidade se impõe: ou nossa democracia vai se sustentar em partidos políticos respeitados, ideologicamente claros e com programas abertos a todos os cidadãos ou ela vai ser tão frágil a ponto de desmoronar um dia como um castelo de carta. E com derramamento de sangue.                           


30 de março de 2021

Democracia sim!


Há um louco no Palácio do Planalto. Perigoso como nunca antes surgiu outro igual, mesmo na conturbada história do Brasil moderno, tão repleta de aquarteladas, golpes, agressões às leis e perseguições políticas. E esse sociopata vai fazer tudo o que estiver ao seu alcance para dar um autogolpe e governar com poderes ditatoriais. Nunca abandonará o projeto. Nunca renunciará a ele.

Os fatos ocorridos ontem, com a demissão do Ministro da Defesa e a troca de outros seis membros do primeiro escalão do governo mostra isso: Jair Bolsonaro não vai aceitar deixar e poder sem que haja ao menos uma tentativa de quebra da normalidade democrática. Quanto mais a popularidade dele se reduz, quanto mais se sente inseguro, maior é seu grau de demência. Sua capacidade de violência.

Na semana que passou tive a oportunidade de ler alguns posts de bolsomínions. Parcela do gado. Eles acreditam que o Brasil vive uma quase guerra civil porque os governadores, salvo três ou quatro, querem derrubar o governo federal. O mesmo se aplica à imensa maioria dos prefeitos, notadamente aqueles que não têm relação de vassalagem com o presidente. Acreditam porque nas redes sociais ligadas ao governo isso é bombardeado nas mentes deles o dia todo, todos os dias. E como o chefe do Executivo se tornou uma espécie de divindade para eles, não se pode contestar suas "verdades".

Essa bolha, esse gado pede todo dia um golpe de Estado. Sem tréguas essa gente grita que a democracia não deve existir, o STF tem que ser fechado e o Legislativo precisa sofrer intervenção. Constituição para eles é um estorvo, um obstáculo ao trabalho do "grande líder". Da mesma forma como é catequisado de lá para cá, prega a violência e a destruição do Estado democrático e de direito daqui para lá.  Amanhã, 31 de março, voltará às ruas e às portas dos quartéis para gritar pela ditadura no 57º aniversário da "revolução" que, na verdade, aconteceu em 1º de abril, dia da mentira.     

O sociopata do Planalto só ouve a eles.

Nós estamos enfrentando dias difíceis, perigosos. Mas o ano é 2021 e não 1964. A guerra fria já terminou, os Estados Unidos não fariam outra "Operação Brother Sam" para apoiar o atual presidente do Brasil (muito pelo contrário!) e embora muitos sintam medo das caretas desse projeto de ditador de aldeia que aparece na foto acima, a hora não é para isso.

Ele vai perder. A hora é de coragem e determinação. Democracia sim!

21 de março de 2021

A realidade paralela


Podem acreditar que é verdade: existem hoje, contados, 54 sites e blogs bolsonaristas de notícias falsas criados por apoiadores do governo para enganar a população. Estou publicando a lista ao final do texto. E afirmo o seguinte: eles atuam, sim, e muito. Dia e noite, sempre em coordenação com o gabinete do ódio que funciona dentro do Palácio do Planalto (pasmem!) chefiado, segundo dizem, pelo filho 02 de Jair Bolsonaro, Carlos. Tentam mudar a ótica do brasileiro em relação ao governo.

Dou dois exemplos. O que está sendo montado agora é uma realidade virtual que diz o seguinte: existe genocídio no Brasil, sim, mas comandado pelos esquerdistas - comunistas no caso - a partir de quase todos os governadores e prefeitos. Eles estão matando os brasileiros de Covid-19 para colocar as mortes nos ombros do presidente da República. Você pode pensar: caramba, ninguém vai acreditar nisso! Engano seu: eles acreditam piamente porque o governo é, para essa bolha, uma religião.

Segundo exemplo: dois conhecidos, dentre os quais uma dileta amiga andavam pela rua e cruzaram com uma terceira pessoa essa, bolsomínia. De repente veio o som de sirene de ambulâncias e um veículo com a famosa cruz vermelha cruzou por eles. Perguntaram sobre quem estaria lá dentro. "Ninguém", disse o seguidor da "religião". "A ambulância está vazia e andando com sirena ligada por ordem do governador para provocar desespero na população", completou. Nessas horas não se contesta nada...

Eu lhes digo uma coisa: trata-se de situação mais do que perigosa essa vivida por nós atualmente. Um aumento desmedido do fanatismo, da realidade paralela, do viver dentro de bolhas acreditando no inacreditável porque isso mantém o governo vivo, aceso, é o que se passa. O fato de essa gente representar a minoria da população não significa nada. Eles são capazes de estragos inimagináveis. E se a popularidade do presidente continuar se esvaindo, a tendência é de que se tornem a cada dia mais perigosos, violentos. Afinal, porque Bolsonaro luta tanto para armar os brasileiros? Alguém imagina?

Segue a lista dos endereços dos fabricantes de mentiras: 1- Renova Mídia, 2- Pheno News, 3- Jornal da Cidade Online, 4- Pavão Misterioso, 5- Terça Livre, 6- Diário Online, 7- Gazeta Informante, 8- Diário do Brasil, 9- Expresso Diário, 10- Notibras, 11- BR Notícias, 12- Canal Gama, 13- Riachuelo em Ação, 14- Opinião Crítica, 15- Jornal 21 Brasil, 16- Grande Ponto 17- Presidente Bolsonaro, 18- Agora Notícias Brasil, 19- Imprensa Viva, 20- República de Curitiba, 21- O Alerta, 22- 1News, 23- Folha Política, 24- Seu Mizuka, 25- Portal BR7, 26- Verdade Estampada, 27- Critica News, 28- Canal Gama, 29- Gazeta Brasil, 30- Ibuzz Online, 31- Jacaré de Tanga, 32- Senso Comum, 33- Vista Pátria, 34- Bruno Jonssen, 35- Caneta, 36- Crítica Nacional, 37- Folha do Brasil, 38- Folha da Política, 39- Questione-se, 40- Bombeiros DF, 41- O Delator Site 42- Jornal do País, 43- Notícias Política Br, 44- Escapuliu, 45- Canal do Ferreira, 46- Mídia Mix, 47- Diário Patriota, 48- Informa Brasil TV, 49- Canal Notícias da Hora, 50- DF Mobilidade, 51- Canal KiM PAiM, 52- Portal Novo Norte, 53- Terra Brasil Notícias e 54- Notícias News N.N.

Gente, cuidado com essa gente.                                  

20 de março de 2021

O chacareiro

Tudo na vida do atual presidente da República tem cheiro de ditadura. Rigorosamente tudo. Na principal foto que ilustra esse texto isso pode ser visto: reeleito deputado federal pela terceira vez, há 20 anos ele já defendia em entrevista a volta do AI-5, o mais duro dispositivo ditatorial do período 1964/1985. Duro como mostra a capa da Folha de S. Paulo de dezembro de 1968 (abaixo) falando sobre o então editado ato que retirava dos brasileiros os direitos mais elementares de cidadania.

Mas não foi surpresa para mim saber que ontem, ao receber telefonema do ministro Luiz Fux que o inquiria sobre declarações feitas no no chiqueirinho do Palácio da Alvorada, ele tenha desconversado e afirmado não falar sério quando disse que defendia o estado de sítio no Brasil. Esse dispositivo legal da época da ditadura (que ele adora, ama de paixão!) era uma espada que os ditadores de então apontavam para o peito dos brasileiros sempre que os protestos contra a ditadura recrudesciam.

Ele não gosta do estado de sítio? Deve gostar do estado de chácara! É um chacareiro, só que frouxo!

O atual presidente tem horror aos governadores por ser legalmente obrigado a dividir responsabilidades com eles. Odeia principalmente o do Estado de São Paulo, que tem musculatura política para enfrentá-lo em 2022 numa eleição presidencial. Do ex-presidente Lula tem pavor pelo fato de este possuir condições reais de derrotá-lo na eleição, agora que está com os direitos políticos restaurados. Enfim, odeia tudo o que possa fazer sombra a seu projeto de reeleição, como os grupos que combatem a pandemia de Covid-19. Já pensaram se algum político se torna herói nacional na calda de cometa da erradicação do vírus no Brasil? Ele não gosta nem de pensar nisso. Então, morram os que tiverem de morrer.

Ele é, sim, um genocida. Por menos que aceite esse apelido tão oportuno e justo.

Não tenho dúvidas: esse Bozo vai continuar lutando contra os interesses do Brasil e em prol dos daqueles grupos "bolsomínions" que o apoiam incondicionalmente na batalha pela presidência. Os que vão às ruas em Brasília para levantar faixas com dizeres como "Intervençao militar com Bolsonaro no poder", "abaixo o Supremo Tribunal Federal" e outras coisas que ele adora ler e ouvir de paixão. Não são manifestações antidemocráticas, como se diz. São criminosas mesmo, pois atentam contra a Constituição.

Por isso, quando o ouço fazer pronunciamentos defendendo nosso texto constitucional que no fundo acha abjeto, não de me contenho ao pensar: esse sujeito é um fake news criado por nós, os brasileiros.              

9 de março de 2021

Entre o céu e a terra


Você já leu William Shakespeare? Eu já. Embora apaixonado por "Júlio César" acho que agora nesse texto cabe mais nos lembrarmos de "Hamlet", o príncipe da Dinamarca. É ele - falo do criador da peça - o autor do monumental pensamento: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia" (em tradução livre e um pouco deturpada). Sim, e poderíamos completar com "a verdadeira substância da ambição é a sombra de um sonho".

Que sombra de sonho pontuou de pesadelos o sono do ministro Edson Fachin quando ele, com cinco anos de atraso, aceitou um pedido de habeas corpus em favor do ex-presidente Lula? (habeas é medida de urgência) E que fantasma surgiu para o também ministro Gilmar Mendes quando manteve o julgamento da suspeição do ex-juiz Sérgio Moro? Entre o céu e a terra certamente há a luta surda pela sobrevivência ou não da Operação Lava Jato. Talvez o ex-presidente Lula seja pano de fundo...

Nas leituras de Shakespeare a gente entra no âmago das lutas pelo poder ontem e hoje. Tudo isso está exposto nos monumentais textos do autor de tantas obras primas. Tive muita vontade de encontrar no mestre algum exemplo capaz de explicar Bolsonaro e não consegui, talvez por ser ele inexplicável.

Algumas pessoas dizem que o Supremo Tribunal Federal está tendo ingerência demasiada fora de seus limites. Talvez seja verdade. Mas o Supremo, assim como o restante do Judiciário, o Legislativo e o Executivo retratam o Brasil. Nossos defeitos e nossas virtudes. Assim como o golpismo latente na sociedade e entranhado em setores militares, mostrando a face canalha do brasileiro.

Tudo isso somos nós!

Não vou me atrever aqui a julgar Lula, Bolsonaro ou qualquer outro protagonista do atual momento político. Não nesse texto. Isso é difícil demais para mim. Ou para nós, aqueles que desprezam julgamentos precipitados. Vamos dar corda ao tempo, permitir que ele corra e que os atores se coloquem no palco de suas ambições, à sombra de seus sonhos, produzindo farsas e desprezando verdades. Se eles conseguirem pensar ao menos por um momento - ainda que breve - no ente Brasil, fruto primeiro de nossas atenções, já será maravilhoso.                      

Por isso, e porque também nos vem à memória o célebre "to be ou not to be, that is the question", igualmente em "Hamlet", o ideal é aguardarmos o correr dos dias. Os próximos. As questões vão aflorar. Vivemos hoje o risco imenso de  nos defrontarmos com nossos maiores pesadelos, superiores àqueles que puderam povoar o sono do personagem shakesperiano quando a pena molhada de tinta pelo bardo produziu a escrita final de sua tragédia cinco séculos passados.

Tomara isso não seja necessário, mas nossos maiores pesadelos de ontem derrotaríamos hoje!       

      

4 de março de 2021

O inferno de Dante


 "Lasciate ogne speranza, voi ch'intrate (Deixai toda esperança ó vós que entrais)" - Divina Comédia, Inferno, Dante Alighieri.

Um amigo de uma amiga, este sócio de uma empresa de pesquisa política (vou omitir os nomes dos dois) esteve recentemente conversando com os empresários da Faria Lima. Eles vêm a ser os donos da maior parte do dinheiro do Brasil e são clientes do material que o pesquisador produz. Este pediu para saber sobre o pensamento geral da categoria financeira a respeito do momento atual do Brasil. Resumo da ópera:

Os donos do dinheiro do país apoiam incondicionalmente o governo de Jair Bolsonaro. Tudo o que ele faz é considerado ótimo, sobretudo e principalmente porque os recursos continuam jorrando para suas fontes, cofres ou bolsos e o mesmo vai acontecer, sobretudo em quantidade maior, se a inflação aumentar. Também apoiam o vice-presidente Amilton Mourão, que pode ter mais prestígio ainda que o "chefe". Igualmente adoram o "Centrão", representante dos seus interesses mais claros. O dinheiro das eleições de 2022 vai cair no colo deles todos.

E a pandemia? Não interessa! E se morrerem mais milhares ou milhões? Tanto faz! No pensamento dos donos das fortunas do Brasil não há lugar para o humanismo, a solidariedade, nada disso. São imunes a sentimentos como empatia. Se a miséria servir a eles, que venha. Se não servir, que seja evitada. Não param muito tempo para acompanhar os números relativos às mortes pela Covid-19. Tomam seus cuidados, sim, mas não passam e nem passarão disso. Seus jatos executivos precisam voar e arrecadar.

O inferno de Dante está neles. Devem perder toda a esperança aqueles que não servirem aos seus interesses. Como aconteceu com Lula, que os fez ganhar rios de dinheiro mas depois se uniu a uma camarilha e caiu em desgraça junto a essa elite. Eles não têm raiva da esquerda, não. A sujeira muito à mostra foi o que prejudicou o ex-presidente. Dinheiro não tem ideologia para eles.

O futuro de Bolsonaro está nas mãos dele mesmo se a oposição não conseguir se unir em torno de uma candidatura única, forte, coesa, de enfrentamento à situação e que exclua o PT, ao menos para o ano que vem. Ou então vai perder esse futuro caso continue andando célere em direção ao abismo. Ele muito provavelmente não deve ter lido a obra de Friedrich Nietzche:

"Quem luta com monstros deve velar para que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro.
E se tu olhares durante muito tempo para um abismo o abismo também olhará para dentro de ti
"          

24 de fevereiro de 2021

O silêncio de Paulo Guedes grita!


De Superministro da Economia a Anão de Jardim, aquele que só serve para enfeitar, foi pouco mais de um pulo. Depois de Sérgio Moro, o "superministro" da área da Justiça, foi a vez de Paulo Guedes ser aos poucos desidratado, perder protagonismo e acabar humilhado com a demissão do presidente da Petrobras, da qual tomou conhecimento como nós outros: pelos meios de Comunicação.

O presidente ao qual ele confiou seu status empresarial para obter prestígio pessoal colocou mais uma vez em funcionamento o princípio do "só eu detenho poder no nosso Brasil, tá oquey?". Guedes não notou que aos poucos ficou sendo desnecessário. Desidratado. Dispensável. E que para Jair Messias os únicos indispensáveis são aqueles que têm o sobrenome Bolsonaro de nascimento ou casamento. Registrados assim em cartório. Mais ninguém. Nenhuma outra alma penada como inúmeros ex aliados podem comprovar. Perguntem sobre isso ao "amigo incondicional" Henrique Mandetta, por exemplo.

O silêncio de Paulo Guedes grita! Berra! Urra! A apatia dele na última reunião com Bolsonaro e também no Legislativo fala mais alto que qualquer outra coisa. Tentem se lembrar das imagens mostradas: era um homem derrotado, humilhado, calado, com todo o seu poder subtraído, quase de cabeça baixa. Mas que cumpriu o papel reservado a ele sem protesto público.

Por que Guedes se deixa humilhar? Para muita gente lotada em Brasília isso representa um desafio. O mesmo que dizer: "Assuma o desgaste de me demitir, presidente!". Penso muito diferente. O derrotado assessor de primeiro escalão participa das artimanhas de poder desde antes do atual presidente assumir o cargo. Conhece todas as manobras, estava ao lado de seu chefe na totalidade dos momentos mais difíceis e sabe como se manifesta a sociopatia do chefe de Estado. Tenho convicção de uma coisa: se ele se tornar "inimigo" muitos tipos de retaliações seus negócios empresariais poderão sofrer. A começar pelo fato de que os amigos e o gado não mais usarão os Postos Ypiranga... 

O anão de jardim, tenho convicção, é agora refém do esquema de poder que ajudou a montar. Porque, digam o que quiserem dizer os membros do gado bolsonarista, nas mentes totalitárias, nos esquemas de poder onde o termo "democracia" não passa de mera figura de retórica, o destino dos que discordam pode não ser apenas o adeus. Pode significar prejuízo muito maior.                    

17 de fevereiro de 2021

Eles não cohecem limites

Daniel Silveira se recusa a usar máscara no DML 

Pensando no caso do deputado federal Daniel Silveira, que está preso na Polícia Federal do Rio de Janeiro, veio-me à mente uma convicção: qual é o limite para os "bolsonaristas de raiz" quando se trata de defender seu deus vivo? Acho (ou tenho certeza?) de que eles não conhecem limites.

Antes de gravar um vídeo de 20 minutos usando os termos mais chulos possíveis para se referir a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) esse deputado do Rio de Janeiro já havia praticado os atos mais bizarros de que se tem ideia. Teve que ser retirado de um avião de carreira à força porque se negou terminantemente a colocar máscara de proteção anti Covid-19. Por sinal, fez o mesmo desacatando uma policial do DML quando, preso, foi passar por exame de corpo de delito.

Ao ser detido gravou novo vídeo no qual diz já ter sido preso 80 vezes. Todos os que o conhecem sabem que se trata de uma pessoa absolutamente desqualificada, capaz de qualquer barbaridade em nome da "proteção" do presidente que defende. Mais ou menos como suas colegas de Parlamento Bia Kicis e Carla Zambeli. Eles não são os únicos a formar uma espécie de linha de frente presidencial.

Aliás, tenho convicção de outra coisa: Bolsonaro está lutando como louco pelos decretos das armas para ter a garantia de que todos os seus seguidores violentos estarão armados até os dentes para qualquer eventualidade. Sobretudo no próximo ano. Que outra justificativa se pode ter para essa fixação dele por armamento pesado, a ponto de soltar decretos  numa sexta-feira véspera de carnaval e depois ir fazer pesca submarina em Santa Catarina como se uma pandemia horrorosa não estivesse tirando a vida de milhares de brasileiros?  

Bolsonaro é sociopata. E ele se sente bem entre seus iguais. Por isso ficou calado durante todo o dia de hoje enquanto o STF decidia por unanimidade manter a prisão de seu deputado federal. Vai esperar para ver o que acontece, o mesmo ocorrendo com seu clã e parentes. Ou então dispara seguidos telefonemas para deputados da Câmara Federal para pressionar pela ordem de soltura de Silveira. É uma aposta perigosa, mas faz o gênero dele de esticar a corda ao máximo para testar os limites das instituições.

Afinal ele não tem respeito por nenhuma delas.              

9 de fevereiro de 2021

O lado mais fraco


Desde muito tempo os mais velhos costumam dizer aos mais novos: "cuidado porque a corda sempre rompe para o lado mais fraco". E é verdade. O próprio vice-presidente da República, general Amilton Mourão (esse da foto), já disse sobre as crises de seu governo que não se deve esticar muito a corda. Claro, ele sabe o que está dizendo e tem larga experiência nesse assunto.

Agora, depois de seguidas crises entre ele e o presidente da República Jair Bolsonaro, acabou ficando fora de uma reunião ministerial. O segundo mais alto executivo federal da República foi simplesmente desconvidado pelo principal mandatário para uma reunião ministerial. Perguntado sobre o assunto, disse que sua presença naquele encontro deveria ser desnecessária. Não é tão simples assim.

Os desentendimentos entre Bolsonaro e Mourão são vastamente conhecidos. O vice não faz o gênero que o presidente gosta. Bolsonaro adora gente do tipo Eduardo Pazuello, aquele do "uns mandam e os outros obedecem", o especialista em logística (sic!) e que ocupa o ministério da Saúde justamente por obedecer cegamente às ordens do chefe. Por isso a dupla já vem sendo conhecida como "capitão Cloroquina a e general Placebo". Pura maldade, claro, dos brasileiros ainda vivos...

O episódio de ontem, da reunião ministerial sem o vice, confronta um presidente com seu mais direto auxiliar. Um capitão com um general. Aquele que deveria estar junto com ele na "linha de frente", como costumam dizer os militares. Que deveria ser anteparo em qualquer crise, em qualquer situação. Inclusive para ocupar a presidência em caso de viagem oficial, por exemplo. Como fica isso agora?

Bolsonaro é um capitão reformado para não ser expulso do Exército. Era um medíocre militar da ativa e depois se tornou um político inoperante desse mesmo Centrão que hoje abraça em seu governo, tornando-se refém dele para não sofrer um processo de impeachment. Então, já desgastado entre alas expressivas de setores militares importantes, rompe talvez definitivamente com o general vice.

Vovó diria que ele é hoje o lado mais fraco da corda esticada.         

28 de janeiro de 2021

Todos do mesmo nível


Definitivamente o presidente Jair Bolsonaro não respeita a liturgia do cargo que ocupa. Pior; talvez nem saiba o que quer dizer esse termo. Mas isso todos nós já sabíamos. No episódio de ontem, quando ele foi a uma churrascaria com "apoiadores" e falou aos jornalistas: "vai pra puta que pariu, porra! É pra enfiar no rabo de vocês da imprensa", referindo-se ao episódio dos gastos do governo, notadamente com leite condensado, uma pessoa ao seu lado riu muito dos palavrões proferidos e até bateu palmas efusivamente. Fiquei pasmo. Era o ministro das relações exteriores do Brasil. Basta olhar a foto que ilustra esse texto e é de IstoÉ.
O ministro Ernesto Araújo está próximo a seu ídolo, olhando. Isso segundos antes do acesso de falta de educação presidencial. No momento em que este se comporta como um desqualificado, Araújo, que segundo o vice-presidente Mourão está no estertores de sua atividade no cargo, abre o sorriso, bate palmas e participa das comemorações dos demais que gritam "mito" várias vezes. Esse apelido Bolsonaro tem desde jovem quando, muito magro, era chamado de "parmito", termo usado no interior. Mas isso não vem a esse caso.
Dois fatos devem ser considerados. Primeiro, que os gastos referentes a 2020, embora imensos para tempos de crise econômica, referem-se a diversos setores do governo federal e não apenas a presidência. Mas muitos itens estão supertafurados. Isso merece críticas pesadas. E como o presidente não respeita ninguém, atrai para si o escárnio de todos refletido nos "memes" que acompanham seu dia-a-dia. Não pode reclamar deles de forma alguma. O segundo é muito importante. O cargo mais cerimonioso de um governo é sua chancelaria. O titular torna-se responsável pelas relações diplomáticas entre o país que representa e todos os demais. Se não tem estatura para tal, compromete suas funções, o que pode ser danoso. No caso atual, o Brasil jamais teve em sua história um chanceler tão inexpressivo. Tão deslocado de suas funções. Ele representa tão mal nosso país que atualmente nem é recebido por chefes de Estado. Isso repercute no isolamento diplomático brasileiro da atualidade pois, além de não contribuir para diminuir o afastamento brasileiro dos outros países importantes, ainda agrava o quadro.
O episódio da churrascaria, indigno de ser vivido por chanceleres, destoa totalmente das tradições brasileiras nas relações internacionais, tão respeitadas no passado. Nós fomos um país modelo nessa área, onde nos notabilizávamos por uma linha de serenidade, não interferência nos assuntos internos de outros governos, além de contribuirmos para, sempre que possível, restabelecermos a paz em momentos de crise. Nossos embaixadores e chanceleres eram referências no plano internacional, sobretudo por seu preparo intelectual. A diplomacia brasileira sempre foi modelo. Até isso, desgraçadamente, está sendo destruído nos dias atuais.
Resta um consolo; o governo Bolsonaro é do nível de seu ministro de relações exteriores.

10 de janeiro de 2021

"Lá eu como!"

- Lá pelo menos eu como!

Foi essa a reação do morador de rua do bairro de Jardim da Penha, em Vitória, ao ser detido por um policial militar após ter sido surpreendido tentando roubar dinheiro de uma senhora que deixava um dos supermercados do lugar. Para ele a prisão era a garantia de ao menos duas refeições diárias sem ter que mendigar, roubar, invadir prédios à noite ou consumir drogas para fugir à realidade e enganar a fome.

Dia desses, ao entrar numa das agências bancárias do bairro, tive a reação de puxar rapidamente o braço para não ser tocado por um dos mendigos que me abordava junto à porta de entrada. Eles se colocam em bancos, estabelecimentos comerciais diversos, pontos de ônibus, praças. Quaisquer lugares onde seja possível mendigar ou dormir nas calçadas com trapos velhos e papelões de caixas.

- Caramba, senti nojo de um ser humano que passa fome! - pensei eu.

A miséria cresce no Brasil em uma velocidade cavalar de dois anos para cá. Pode parecer preconceito político, mas não é: eis o Brasil de Bolsonaro! Nu e cru!

Segundo dados do IBGE, hoje temos 14,5 milhões de miseráveis absolutos nesse País e a multidão aumenta sem parar. Pessoas que não têm onde dormir, se lavar, fazer necessidades fisiológicas com dignidade, se alimentar. Que não conseguem ver algo no horizonte. São, na maioria dos casos, drogados e que não mais se interessam em sair das ruas. E quando para eles a prisão é a liberdade ao menos para parar de sentir fome, então é preciso a gente pensar se essa sociedade na qual vivemos agora é mesmo de homens livres. Porque não é, ainda que se queira esconder a realidade com uma peneira.

Recentemente dois desses homens brigaram por "ponto" nessa mesma Jardim da Penha que já foi um paraíso de tranquilidade para a classe média capixaba. Um dos dois, que ostentava a testa rachada em outros confrontos, terminou morto. Houve aglomeração, chegou a polícia, foi identificado o matador e o cadáver do morto acabou no IML. Meia hora depois, calçada lavada, tudo seguiu a vida normalmente, como se nada tivesse
ocorrido. Sim, o morto era nada.

O morto em briga de rua
Pela cidade de Vitória, como de resto por todas as cidades brasileiras, a miséria ocupa as ruas. Cresce como um câncer social que não vai ser extirpado porque a política oficial do governo federal, o Brasil de Bolsonaro, não quer acabar com a miséria. Seu foco "do capital, pelo capital, para o capital", é fazer com que os miseráveis morram. Assim eles deixam de ser problema.

Infelizmente para os mandatários atuais já não se pode agir da forma como era "solucionado o problema" na época de Carlos Lacerda, no Rio de Janeiro, quando "invisíveis" eram mortos e jogados no Rio Guandu. E olhem que o Rio de então era um paraíso perto do de hoje! Aqui nós temos alguns rios e o mar para jogar cadáveres. Mas, nesses tempos onde todo mundo tem uma câmara e uma filmadora acopladas ao celular, fica perigoso matar dessa forma. Sai no jornal e dá na TV.     




6 de janeiro de 2021

E nós não vemos isso...

Claudino de Jesus, médico e um velho camarada por quem tenho profundo respeito e que assessorou a última gestão municipal de Vitória, resumiu em poucas palavras os primeiros atos do novo prefeito da Capital, o delegado Pazolini que na foto aparece em campanha ao lado da vice, uma militar: "O maior desmonte já visto. Uma catástrofe. Tratorou todas as políticas públicas em curso em nome do dito "estado mínimo" e o incremento das pautas conservadoras."

O prefeito iniciou seu mandato "impondo" à Câmara textos legais que os vereadores não tiveram tempo de analisar. E nem querem. Eles sabem o que querem. Depois exonerou praticamente todos os servidores municipais de cargos comissionados. O que vem aí é a tal gente "terrivelmente evangélica", que dentre as pautas que possuem a principal é a de tentar obrigar todas as demais pessoas a pensar como elas, sobretudo no terreno religioso. Estado laico? Que se dane esse conceito tão estranho.

Pazolini não é apenas um fruto do "bolsonarismo de raiz". Que me perdoe Claudino, mas ele também é cria dos incontáveis erros políticos que a esquerda e a centro-esquerda brasileira cometem há tempos. Fabrício Gandini, do Cidadania, tinha tudo para administrar Vitória, mas o prefeito Luciano Rezende, ligado a ele, fez questão de brigar com vários setores da população da cidade, sobretudo na Praia do  Canto onde fez inimigos com arrogância e se negando a atender a pedidos ligados a ciclovias e a participar de reuniões. A vingança veio nas urnas. A mínima diferença entre Gandini e Pazolini no primeiro turno representa os votos perdidos pelo "patrono".

No plano nacional a oposição ao governo de extrema direita de Jair Bolsonaro não se fecha em torno de um nome para conquistar Senado e Câmara. Pode acabar perdendo. Da mesma forma, está há anos luz de distância de entronizar seu candidato à presidência da República, mesmo sabendo que o "capitão" não passará de 30 por cento nas urnas se enfrentar um grupo monolítico. 30 por cento são o "gado".

Pazolini venceu se mostrando um moço bom e demonizando o opositor do PT. Bolsonaro se elegeu dizendo que iria combater a corrupção e, além de louco, tenta de todas as formas esconder os atos corruptos seus e de seus familiares. Pessoas morrem de Covid-19, nosso meio ambiente queima, cargos são loteados com o Centrão e não há luz no fim do túnel.

Mas  nós, da oposição, não conseguimos ver isso.

14 de dezembro de 2020

A risada da hiena


Um dia desses estava prestando atenção na risada do presidente da República, uma das milhares que ele dá por qualquer motivo. Sim, porque tudo é despropositado naquela risada sem propósitos claros. E debochada. Então tentei comparar aquilo a alguma coisa conhecida. Encontrei paralelo somente na risada da hiena, o bicho estranho, comedor de carniça e que vive na África.

Alguém me pediu para ler um artigo de pesquisadores da Universidade da Califórnia sobre o ruído emitido por aqueles animais. Eles chegaram à conclusão de que a risada deles expressa frustração. A conclusão é de que os bichos riem de maneira diferente de acordo com a sua posição dentro do grupo. Então, no caso deles, animais gregários, dão risadas quase sempre para não chorar. Literalmente.

No caso do presidente, sou capaz de dizer que aqueles sons de palanque expressam sobretudo insegurança. Medo de não conseguir realizar seus planos, projetos. Por isso Mandetta se tornou um empecilho. Por isso o mesmo aconteceu com Moro. Agora talvez com Mourão que, infelizmente para essa hiena palaciana, não pode ser pura e simplesmente afastado de seu cargo.

Bolsonaro demonstra preocupação. Não apenas porque não consegue fazer as pessoas acreditarem que é preciso milhares morrerem para a pandemia acabar sem que ele seja ao final responsabilizado por essa aberração, mas também porque ainda não tem certeza de que a tática de seu ídolo Trump vai dar resultado nos Estados Unidos. É quase certo que não e por isso ele vai ter que importá-la para cá com diversas modificações além do grito de: "Houve fraude, gado!"

Pena, mas isso é teatro de baixa qualidade. Mambembe, de lona rota. O incrível é ele manter hoje um grupo de apoio tão grande apesar do baixo nível de suas apresentações, como mostrou a pesquisa do Data Folha. Sou capaz de apostar que essa popularidade vai minguar, se reduzir como risada de hiena em final de carreira. O bicho que causa medo, repulsa e quando morre o leão esfomeado se recusa a comer sua carne. Dizem os pesquisadores que por ser de péssima qualidade.         

7 de dezembro de 2020

Suprema é a Constituição!


Nos últimos dias o Brasil parou para acompanhar o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da questão envolvendo a sucessão na Câmara e no Senado. Os atuais presidentes podem ou não tentar a reeleição? E a resposta da maioria dos ministros foi "NÃO". A Constituição taxativamente não permite. Assim sendo o caso está encerrado. Suprema é a Constituição!

Mas por que essa questão envolveu tanta paixão e acirrou os ânimos da forma como acirrou? Porque o presidente da República se julga dono do País. Porque, para ele, tudo deve se curvar a seus ditames, à sua verdade geralmente baseada em nada. Ou menos um pouco que isso. Ele não quer o atual presidente da Câmara no cargo; quer outro e agora vai fazer o que sempre tenta: interferir em outro Poder.

A Constituição diz que as casas legislativas não podem continuar com as mesmas mesas diretoras no curso de uma só legislatura. Deve haver alternância porque isso é benéfico para a democracia. E a nossa chamada "carta magna" foi escrita e promulgada quando estávamos saindo de uma ditadura militar de 21 anos. Era preciso garantir ao Brasil um sistema de alternância, o que foi feito.

Posso dizer que, pessoalmente, preferiria uma Câmara e um Senado longe do tacão do presidente. Mas isso caso as leis em vigor previssem tal hipótese. Como não permitem, vai ser preciso haver uma eleição para que a maioria escolha outros chefes de casas legislativas. Podemos no máximo torcer para que seja feita a melhor escolha. Aquela que atenda aos interesses do Brasil. Como disse hoje a juíza aposentada Denise Frossard no Facebook, que sejam eleitos "parlamentares com currículo e não folha corrida".

Quando um presidente usa seu poder nos limites ditados pelas leis, sobretudo pela Constituição, ele conhece as fronteiras, os tamanhos máximos de sua autoridade e não os ultrapassa por apreço e amor à democracia. Quando o STF tem a Constituição como seu Norte, também não precisa de um 6 a 5 para que ela seja respeitada. Desse modo evita pesadas nuvens de tempestade sobre seus telhados.

Suprema é a Constituição que emana do povo!        

2 de dezembro de 2020

Mas então já era tarde...


 Fui amigo de Hélio Demoner (foto de arquivo pessoal) durante cerca de 47/48 anos. Primeiro, acompanhando o veterano jogador de basquete e depois dirigente no Saldanha da Gama. Depois, um jornalista e outro professor universitário, cobrindo as múltiplas atividades dele à frente dos esportes, sobretudo o "bola ao cesto", como às vezes falávamos acerca de seu esporte preferido. Até que em abril deste ano rompemos a amizade. Por isso a notícia de sua morte dói tanto e tão intensamente em mim.

E foi tudo por causa de política. No dia em que ele me chamou para entrar nos grupos de apoio ao tal Bolsonaro, primeiro aceitei para espionar, mas logo em seguida senti-me na obrigação de dizer a ele que estávamos em lados opostos. E o afastamento começou imediatamente.

Demoner, dentre inúmeras outras atividades, criou os Jogos Abertos Jerônimo Monteiro, os JAJEM. Por que o nome? "Para abrir as portas da Rede Gazeta", ele respondeu. Dirigiu os JAJEM por 23 anos, a maior parte do tempo contando com minha ajuda para divulgar ao máximo a iniciativa. Era tremendamente meritória, pois visava ao esporte da meninada, do início, da fase da paixão esportiva. E revelou muita gente boa. Poderia muito bem ter outro nome e teria o mesmo mérito. Mas acabou morrendo de inanição mais de duas décadas depois com o pauperismo dos esportes amadores capixabas contra o qual lutei tanto...e não adiantou nada ter aquele nome.

Hélio era um professor muito querido na UFES. E também um entusiasta pela história dos esportes. Guardava centenas de fotos, vídeos, depoimentos de muitas pessoas. Um arquivo valioso. Espero que esse acervo não seja jogado fora. Que seja preservado, principalmente pela Universidade.

Minha maior briga com ele aconteceu em abril último e por causa da pandemia da Covid-19. Eu postei que o presidente era um boçal por chamar a doença de "gripezinha" ou "resfriadinho" e ele disse que nós, os opositores, estávamos criando um meio de destruir a economia para atingir "meu capitão". Retruquei, nos bloqueamos mutuamente nas redes sociais e nunca mais nos falamos.

E foi por saber hoje cedo que ele havia morrido de Covid-19 que sofri mais. Não acredito em festa no céu, em campeonato celeste de basquete. Mas acho sinceramente que o doente terminal, antes de ficar inconsciente e mesmo depois disso consegue pensar, sente que vai morrer e, quem sabe, avalia que errou. Sou capaz de apostar, e por isso chorei, que no final meu amigo Hélio soube que estava no fim. Quem sabe, que havia errado. Talvez, que faria tudo diferente caso pudesse.

Mas então já era tarde...