21 de agosto de 2021

Messias Maluco


Ontem à noite, em nova "live" (esse negócio virou praga!) o presidente Jair Messias Maluco Bolsonaro disse que vai entrar com seu segundo pedido de impeachment, agora contra o ministro Luís Roberto Barroso (à esquerda na foto), e nos próximos dias. Um pouco antes já havia apresentado o primeiro ao Senado, contra Alexandre de Moraes (à direita), ambos membros do Tribunal Superior Eleitoral, notem! E isso para pasmo de todos os brasileiros, menos o gado. Os fatos mostram que ele está fora de si. Desequilibrado. Definitiva e perigosamente.

No primeiro pedido Bozo assina sozinho o documento de 100 páginas. E, claro, aquilo não foi escrito por ele. O desconforto nos meios brasilienses é tão grande que a Advocacia Geral da União foi convencida a não participar da tresloucada aventura. Ela representa, como o nome diz, a União e não o chefe de Estado. Um jornalista da Globo News com acesso a ministros do STF perguntou a um deles o que estava acontecendo e a resposta foi clara, incisiva e certeira: "Ele está alimentando os leões".

Mas isso está passando dos limites!

A mando do MP, ontem mesmo a Polícia Federal esteve em campo à caça de alguns dos principais seguidores do presidente Messias Maluco para que respondam por seus últimos ataques criminosos às instituições que sustentam a democracia no Brasil. O cantor Sérgio Reis, que escolheu um horroroso final de carreira, foi um deles. Otoni de Paula Júnior, obscuro deputado federal, outro. Mais gente entrou no rol e ainda não teve os nomes divulgados. Que coisa inacreditável, ainda mais porque um dos filhos de Messias Maluco, Eduardo, disse que não tem medo de cadeia. Ou seja, vai continuar.

Não pensei viver 71 anos para ver uma coisa dessas. Um presidente eleito pelo povo em determinado momento de descrença cívica nacional se volta contra todas as mais comezinhas práticas do País e tenta loucamente criar uma narrativa que lhe permita posar de vítima no ano que vem quando chegar a hora de uma derrota eleitoral que a cada dia se avizinha como mais certa. Não tem limites, não tem freios e contrapesos e seus mais chegados assessores diretos nada podem ou conseguem fazer para evitar que se aprofunde a cada dia mais o poço onde ele se meteu.

É um momento triste da vida nacional; a corporificação do erro que cometemos em 2018 colocando na presidência da República um sujeito que todo mundo sabia ser desequilibrado e nem por isso foi descartado no processo eleitoral. Cometemos esse desatino contra o Brasil por ódio ao PT e agora Messias Maluco está à solta em Brasília, espumando fora de controle.

Onde vai ser a próxima motociata? O próximo ato de desrespeito a esse País?                      

18 de agosto de 2021

De pasmo em pasmo


No Brasil de hoje a gente vive de pasmo em pasmo. A cada dia um susto. O de agora foi a decisão de uma Subprocuradora Geral da República, Lindôra Araújo - a zangada senhora da foto -, que não vê crime no fato de o presidente Jair Bolsonaro se negar a usar máscaras, provocar aglomerações de pessoas, etc. e tal. Para ela "não ficou demonstrado crime" por parte do mandatário da República. E argumenta: "para que haja consumação do crime de infração de medida sanitária preventiva é preciso que a conduta possa realmente ensejar a introdução ou propagação de doença contagiosa".

E vai mais adiante dizendo que a Organização Mundial de Saúde recomenda o uso de máscaras, "mas há incertezas sobre o grau de eficiência do equipamento" (sic!). Segundo seu julgamento, "embora seja recomendável e prudente que se exija da população o uso de máscara de proteção facial não há como considerar criminosa a conduta de quem descumpre o preceito".

Essa senhora é bolsonarista de carteirinha e seguidora também do PGR Augusto Aras. De uma canetada só sepultou duas representações de parlamentares que queriam ver o presidente responsabilizado por suas condutas levianas e criminosas ao longo da pandemia da COVID-19. Ela diz que há incertezas quanto à eficácia das máscaras - o que é mentira - mas não considera o fato de que usá-las diminuiria o risco de contágio, ao menos em tese. Também não sabe o que é um doente assintomático e jamais estudou assuntos ligados a vírus, embora demonstre posições tão arraigadas.

Estamos nas mãos de inconsequentes.

Ao mesmo tempo em que a pandemia resiste e o número de mortos se mantém em patamares inaceitáveis, junto a isso permanece também quase intocado o discurso que tenta criar uma realidade paralela, distante de fatos concretos e que pretende defender os pontos de vista do presidente à custa do que for preciso. E não importa o número de mortos. Morram quantos tiverem que morrer, isso pouco importa. Afinal de contas lá na PGR também ninguém é coveiro e ainda haverá mais inquéritos e representações contra o presidente para serem rechaçados. Se possível for!   

        




11 de agosto de 2021

O fumacê da Nova República


Nem bem havia terminado o patético desfile de blindados da Marinha em frente ao Palácio do Planalto, ontem, e começaram a chover "memes" relativos àquelas tristes figuras do "exército Brancaleone" levado ao DF para deleite de um presidente sociopata capaz de acreditar que ainda mete medo em alguém. No shopping de bairro onde fui tomar café expresso, em Jardim da Penha, um casal de jovens via as imagens pela TV. Quando passou um tanque leve soltando fumaça por todos os lados (foto), e mais por trás, o rapaz abraçado à moça começou a cantar: "Ê, ê, ê, fumacê, ah, ah, ah, fumaçá..."

De uma coisa ninguém pode acusar Bolsonaro agora: de não ter ajudado o Brasil. Graças a ele o Senado fez cair a escrota Lei de Segurança Nacional (LSN), o voto impresso foi sepultado e talvez vários vetos presidenciais feitos para proteger poderosos e perseguir quem não tem poder algum caiam também. Sem ele, seu obscurantismo e o gado que o segue ditando diretrizes medievais, isso não ocorreria agora.

É triste ver no que o Brasil está se tornando. O jornal "The Guardian" nos identificou como uma "república de bananas". Pior: não passamos disso. Um conhecido meu com parentes nos EUA disse que a pessoa que vive hoje lá foi questionada, pois os norte-americanos amigos dela não queriam acreditar que as forças armadas brasileiras fossem "aquilo". Piadas se sucedem como praga. Nossos tanques vão acabar com a dengue no Brasil e, por causa da alta dos combustíveis, agora usam lenha para andar... 

Mas o pior é ver o comportamento de grande parte de nossos deputados federais e senadores ligados ao bolsonarismo, oficial ou oficiosamente. Sustentam as teses malucas de seu mitômano como se fossem verdades absolutas. Ou então, e estou disposto a acreditar mais nisso, capazes de levá-los à reeleição mesmo que tal "vitória" custe caro a todos os demais brasileiros. A urna eletrônica que os elegeu é totalmente segura - eles sabem muito bem disso -, mas o que importa nesse momento de grandes incertezas é ver alguma luz no fim do túnel de nossa pobre realidade atual.

Tomara seja ela o farol do trem que vai passar por cima deles! 

 

2 de agosto de 2021

O desespero de Bozo


Os últimos pronunciamentos do presidente, sobretudo os ocorridos no dia de ontem, mostram não apenas um elevar de tom dos desrespeitos que ele comete todos os dias contra os opositores e as instituições da República, mas sobretudo e principalmente algo que nem ele nem seus seguidores próximos conseguem mais esconder: o desespero de quem vê seu governo e sua imagem virarem pó.

Ontem mesmo, durante os atos de apoio ao presidente, mais crimes foram cometidos contra a ordem constitucional. Além de algumas faixas pedindo "intervenção militar" e que foram retiradas das passeatas, algumas outras surgiram como, por exemplo, uma que sugeria um "tiro ao alvo" contra figuras dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário (foto acima). Isso não é brincadeirinha inocente, como pode parecer: a sugestão remete à violência e pode sugerir atentados contra autoridades.

O desespero desse "Bozo da República" é claro. Só que no caso dele o resultado final de suas pantominas não é a risada que o Bozo real provocava nas pessoas. Nos momentos atuais as reações tresloucadas do chefe do Executivo deixaram de ser engraçadas para se tornarem assustadoras para quem ainda consegue ter medo desse projeto mal cheiroso e mal acabado de ditador de aldeia. Não é mais humor negro. O risco que corremos é o de os mais levianos dos representantes do "gado" realmente partirem para a prática de atos criminosos nos próximos dias ou meses.

Isso preocupa particularmente por causa da politização, sobretudo das polícias militares. Formadas por uma esmagadora maioria de membros com parco preparo emocional e constitucional, elas podem ser a semente de um estado de anarquia capaz de tentar desestabilizar o País. Particularmente não acredito que isso possa acontecer, mas o ovo da serpente tem ser destruído imediatamente. Já!

A partir de hoje, com a volta dos trabalhos nos poderes Legislativo e Judiciário, a virulência dos atos de Bolsonaro tenderá a crescer. Desesperado, ele vai tentar agredir a democracia a cada dia mais, sobretudo usando o artifício torpe de aparecer como defensor de algo no que jamais acreditou e tentando jogar sobre os ombros dos outros a reponsabilidade pela criação de um caos todo seu.

Fiquemos atentos. Nunca antes como hoje acreditei tanto na necessidade de termos um Judiciário forte e independente! 


30 de julho de 2021

Investiguem esse incêndio!


Se o Brasil ainda é um país sério ele não pode deixar de investigar com severidade, isenção, competência e rigor científico o incêndio que devorou um dos galpões da Cinemateca Brasileira em Vila Leopoldina, São Paulo (foto acima, do G1). Não basta dizer que o fato aconteceu porque uma empresa terceirizada fazia a manutenção dos aparelhos de ar refrigerado. Esse fato fede a muito mais que fogo!

Desde a gestão do senhor Abraham Weintraub a cultura brasileira sofre um projeto de sucateamento. Não é fato ocasional, ditado pelos azares da vida. Absolutamente. O governo Bolsonaro quer destruir o que de melhor tem a cultura brasileira, nossa herança de séculos, para substituí-la por uma sequência de boçalidades ditadas pelo neopentencostalismo picareta de ocasião e por crenças em valores nazifascistas que de tempos em tempos saem das catacumbas para atormentar os vivos.

A Cinemateca tinha um contrato de administração com a Associação de Comunicação Educativa Roquete Pinto (Acerp) desde 2016. Weintranub o rompeu. Desde então os salários estão atrasados, não há dinheiro para pagamento das contas de luz e sequer o complexo conta com brigada de incêndio, mesmo com seu acervo sendo altamente inflamável. Numa situação como essa é no mínimo estranha a preocupação única para com a manutenção de equipamentos de ar refrigerado. Ou não?

Recentemente tivemos uma "pane" nos computadores do CNPq que pode ter destruído arquivos científicos de grande valor, estudos de pesquisadores e bases para bolsas de estudo. Isso num governo negacionista e que tem desprezo pela ciência... Segundo o ministro astronauta de araque foi uma coisa que não poderia ter sido prevista por ninguém. E backup serve para quê? No mundo da informática não basta ter a cabeça nas nuvens. É preciso manter lá os arquivos.

Em qualquer situação passada seria possível acreditar em acidente provocado pelo acaso ou pelo descaso. Isso acontece no nosso serviço público, infelizmente. Nos dias atuais, não. Até mesmo com a ajuda da Justiça é preciso chegar à verdade. Ninguém é dono da memória de um povo, senão para preservá-la. Destruí-la como está sendo feito hoje é um inacreditável crime de lesa pátria.                       

27 de julho de 2021

Fingindo ser o que não se é


Não se pode passar o tempo todo tentando ser o que não se é. Ou tudo será desmascarado mais cedo ou mais tarde ou então, no auge da rejeição, a gente terá de confessar ser o que realmente é. O Jair Bolsonaro de hoje se cansou de se fingir de democrata, amante dessa democracia, defensor da Constituição e de toda a população brasileira, sem exceções. Ele agora se confessou nazista e ponto final!

Beatrix von Storch é deputada e vice-líder do AfD, partido de extrema direita alemão. Neta de um ministro de Adolf Hitler ela puxou ao vovô e não tem vergonha disso. Navega pela política alemã meio que escondida à sombra de mentiras que conta para sobreviver e é investigada pelos órgãos de segurança do seu e de outros países. Mentir é a forma de viver dos nazifascistas. Pária na própria pátria que a gerou, não se furta em viajar para se encontrar mundo afora com párias como ela. E assim veio parar no Brasil onde se encontrou com Jair Bolsonaro (foto) no Palácio do Planalto. Também esteve com a deputada Bia Kicis e um dos filhos do presidente, Eduardo. A fina flor do reacionarismo político, da falta de ética, defensores de extremistas de direita e inimigos da democracia.

Nos encontros de Brasília consta que Beatrix ficou impressionada sobretudo com Bolsonaro e suas risadas pobres, de sociopata de terceiro mundo. Sátrapas ambos, devem ter gostado muito um do outro. Kicis também se identificou com a deputada alemã e Eduardo, da mesma forma. Estava todo mundo em casa no Planalto, a sede de governo construída graças e um projeto de Oscar Niemayer que, coitado, jamais deve ter sonhado com tanto esterco de gado nas salas do edifício sede do poder federal do Brasil.

E se os organismos de representação judaica instalados aqui se assustaram com tamanha desenvoltura, não posso acreditar que sejam tão inocentes assim. Sempre souberam, é claro, quem é o presidente eleito pelos brasileiros. Fingiram acreditar em suas lorotas porque isso é (ou era?) conveniente. Da mesma forma como o "Bozo da República" faz de conta não saber que existe muito extremismo de direita em Israel e que essa ideologia comanda o genocídio diário contra o povo palestino.

Mas esse jogo de interesses inconfessáveis sempre tem um preço alto, muito elevado. Até mesmo no Brasil onde uma grande parcela da população, ignorante, analfabeta funcional, nada entende de política internacional, até essa está acordando. O resto do mundo já fez isso há muito tempo e uma esclarecida fatia do povo israelense sabe com quem está tratando quando se pensa em termos de governo brasileiro. Como dito no início, não se pode passar o tempo todo fingindo ser o que não se é.

14 de julho de 2021

Com o DNA de Tio Sam


Desde que Fidel Castro declarou-se comunista logo depois de tomar o poder em Cuba os Estados Unidos tentam destruir o regime político daquele país. É como se eles dissessem sempre que não vão aceitar comunismo às portas de Miami e os cubanos continuem dizendo "sim, vão nos aturar". Essa história iniciada em 1959 e que agora tem desdobramentos com protesto de cubanos no último final de semana (foto) já teve antes episódios mais dramáticos. E em todos eles estava o DNA de Tio Sam.

Em 1961 o governo norte-americano treinou um pequeno exército de 1.200 mercenários cubanos para invadir o País por Playa Giron, na Baía dos Porcos, e tomar o poder. Fidel Castro descobriu o plano e nada deu certo. Os porcos morreram na praia mesmo e a um custo elevado de vidas humanas. Estava afastado o maior risco da volta de Fulgêncio Batista e dos tempos de prostituição institucionalizada e de a fina flor da máfia controlar a economia caribenha via cassinos e drogas.    

Como os Estados Unidos haviam instalado mísseis nucleares na Turquia, na porta de entrada da União Soviética, Nikita Khrustchev, o primeiro ministro soviético de então, colocou os dele em Cuba. Durante 12 dias, de 16  28 de outubro de 1962 o mundo namorou com um final trágico. Mas graças aos esforços tanto de Khrustchev quanto do presidente John Kennedy o perigo da guerra nuclear foi afastado. Os mísseis norte-americanos saíram da Turquia, os soviéticos, de Cuba e o telefone vermelho funcionou...

Ao longo dos anos vários atentados foram cometidos contra Fidel Castro. Ele sobreviveu a todos e às acusações de que roubava milhões de dólares e os guardava no exterior. Morreu em Cuba e lá estão suas cinzas. Mas o maior desafio foi seu país sobreviver ao bloqueio econômico imposto pelos EUA há mais de meio século. Isso acabou com a economia cubana após o fim da União Soviética e o quadro agora se agravou com a crise da pandemia. O turismo morreu, as atividades comerciais e industriais sofreram um grave baque e a fome chegou. Consequência: ninguém enfrenta falta de comida de bom humor.

Os Estados Unidos são os responsáveis por todos os males cubanos. Inclusive pelo fato de o regime político ser fechado até agora porque ele faz isso para se proteger, para sobreviver. Não fosse o clima de guerra em torno da ilha e bem provavelmente os cubanos estariam convivendo hoje com um sistema multipartidário e quem sabe com eleições diretas. Mas nada disso está agora colocado na mesa.

Faço uma aposta: Cuba vai vencer mais esse desafio. Para desespero de muitos!                  

9 de julho de 2021

Soldadinhos de chumbo


"Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos".

Sérgio Porto (foto acima), o Stanislaw Ponte Preta, revoltava-se com os desmandos do Brasil, mas se manifestava com deboche. E fez isso sobretudo contra a classe política e os militares na época da ditadura de 1964/1985. Ele não era contra as forças armadas como instituições e sim contrário à instrumentalização da categoria e de seu uso político. A frase que abre o texto, extremamente crítica, foi uma das melhores que deixou antes de um enfarte fulminante o matar em 1968, ano da edição do AI-5.

Conto uma história bem resumida: minha avó materna, Almerinda, tinha um irmão caçula e temporão da família que, contra o desejo do pai decidiu ser médico. Meu bisavô tabelião, Francisco Gomes Villela, disse que custearia os estudos do filho até a formatura e depois disso que ele se virasse. Foi o que fez. Como o Brasil havia declarado guerra ao Eixo Berlin/Roma/Tóquio, meu tio avô alistou-se no Exército para ir à Itália com a Força Expedicionária Brasileira em 1943. A intenção era guardar dinheiro, aprender mais medicina e na volta montar seu consultório. Mas aconteceu o inesperado de ele se apaixonar pela vida militar e nunca mais a deixar. Quando se reformou era o general Hélio de Oliveira Villela, ex-diretor clínico do Hospital Militar do Rio de Janeiro. Um dia estava em Vitória e conversava com meu avô José Maria, seu cunhado e marido de Almerinda. Vovô elogiou a presença dos militares na ditadura, que chamava de "revolução". Tio Hélio, lembro-me disso até hoje, olhou para ele e disse: "Não entendo de política e não sou comunista. Mas sei que lugar de militar é no quartel!" Fora de lá tornam-se apenas soldadinhos de chumbo, caricatos, sem utilidade.  

Nesses dias em que o Ministro da Defesa e os comandantes das forças armadas divulgam notas oficiais que ameaçam a democracia isso me vem à mente. Os militares estão em grande número se locupletando em cargos civis. Está claro que muitos deles cometeram, cometem ou cometerão crimes financeiros os mais variados, pois não sofrem qualquer tipo de restrição. Ao contrário, foram arregimentados para garantir ao presidente da República uma chance de golpe de Estado. De ruptura constitucional que ainda não aconteceu porque 2022 não é 1964 e o Brasil, apesar de seu "gado", amadureceu.

Ontem mesmo o comandante da Marinha se manifestou de forma ameaçadora e me fez lembrar um outro da época de Sérgio Porto. O ministro de então, na década de 1960, almirante Carlos Pena Botto, fascista de carteirinha, fez um ataque à China e disse que "o mundo livre" deveria invadir aquele país para livrá-lo da Praga Comunista. Stanislaw, autor de um personagem caricato chamado "Bonifácio Ponte Preta, o Patriota" escreveu que seu boneco anedótico, ao ouvir aquilo, espumando da patriotismo, começou a gritar sem conseguir se controlar;

- Deixa ele ir, deixa ele ir...    

30 de junho de 2021

A miséria e as "motociatas"


Atacar e combater com vontade a miséria que assola o Brasil depende sobretudo e principalmente de vontade política. De reuniões de Estado com o maior número possível de atores, da definição de uma forma eficiente de combate - um plano, um planejamento -, e de um acordo que reúna os esforços conjuntos do governo federal e dos estados. Mas como fazer isso se o presidente não governa e só faz campanha de reeleição? Como fazer isso se ele só vê o seu país através de "motociatas"?

Um dia desses, o porta-voz informal do governo nos meios de comunicação, o "jornalista" Alexandre Garcia disse na CNN que o Planalto não analisa o Brasil e a situação do governo por intermédio das pesquisas de opinião pública, mas sim pela visão dos comícios, discursos em palanques diversos e passeios de motocicleta com apoiadores, sempre desrespeitando regras sanitárias em quaisquer estados. Ou seja; eles estão vendo tudo através de sua bolha. E que a cada dia diminui mais de expressão.

A foto que ilustra esse texto é minha. Foi feita há 48 horas na Avenida Dante Michelini, em Vitória, nas primeiras horas da manhã e sob a marquise de uma boate fechada pela pandemia do coronavírus. Nesse acampamento improvisado dormiam quatro pessoas provavelmente de uma só família. Está certo dizer que sempre convivemos com miséria no Brasil, mas ela cresce de forma absurda de pouco mais de dois anos para cá. Tornou-se imensa, fora de controle. Pandêmica! Pior de tudo: não há a menor perspectiva de que venha sequer a diminuir em prazo curto ou médio. As "motociatas" passam rápido e o presidente não vê a fome dos outros. Só sua saciedade. Aliás, não quer ver. Não tem planos para ela porque o contingente de miseráveis vai contar pouco nas eleições presidenciais do ano que vem.

Esse é o maior dano dos tempos atuais no Brasil: as pessoas jogadas nas ruas das cidades brasileiras, em fome endêmica, sequer podem sonhar com um dia de amanhã. Isso não existe para elas porque o Estado não tem esse projeto. Vão continuar aumentando e morrendo de fome, frio ou violências nas calçadas e marquises desse país que as deserdou de futuro e justiça social.                    

22 de junho de 2021

A esperança maior


Tenho passado algumas horas por dia lendo artigos de jornalistas ou cientistas sociais e médicos estudiosos, todos muito sérios, focando sobre a "performance" mais recente do homúnculo Jair Bolsonaro na presidência da República. Algumas avaliações são catastróficas, outras nos aproximam do cenário de um caos constitucional e há, enfim, aquelas que reduzem a figura do indivíduo à do projeto fracassado de ditador de aldeia já sem forças diante dos últimos fatos.

Prefiro essas últimas e, ao contrário do general que preside o Superior Tribunal Militar, não acho esse presidente do Brasil um democrata. Ele é a antítese disso. Sempre foi! O que acontece hoje é que sente tremenda dificuldade para colocar em prática seu projeto de provocar uma ruptura institucional porque as FFAA (detesto essa sigla) estão há anos luz de distância de serem uma força monolítica, sobretudo depois dos últimos episódios de demissão do comandante do Exército e de "perdão" a Pazuello. O que pretende fazer então o dono do lema "cala a boca!" daqui para a frente? Tentará provocar o caos.

As lutas insanas dele pela cloroquina, contra o voto em urna eletrônica, em ataque à honra do jornalismo (foto acima) e no cometimento dos mais diversos crimes possíveis e imagináveis que vão desde simples desrespeito a normas sanitárias municipais e estaduais até ao desperdício de dinheiro público das mais diversas formas - vide os últimos escândalos envolvendo a vacina indiana - e destruição de nosso patrimônio ambiental são exemplos de um projeto: provocar instabilidade política de tal monta que desemboque na possibilidade da decretação de estado de sítio nas eleições de 2022.

Sabemos todos que esse cavalo doido é um sociopata claramente identificável. Tenho minhas dúvidas sobre se não pode ser classificado também como psicopata, pois não sou da área de saúde mental. Mas, seja o que for ele tem um projeto e que é o de se reeleger a qualquer custo. E esse projeto não envolve renunciar a nenhuma de suas bandeiras sujas de lama e de sangue. Ele as vai carregar até o final do trajeto e com cometimento de novos crimes. Tantos quantos forem necessários.

Como o Judiciário age com aparente medo no tocante a ele e o poder político pode ser cooptado com o uso de nosso dinheiro - como está acontecendo -, resta-nos uma luz no fim do túnel: a reação externa. Haverá ações contra a continuação da destruição do meio ambiente e é possível que o Tribunal Internacional de Haia o declare processado por genocídio. Essa é a esperança maior!     

17 de junho de 2021

A guerra perdida


Em seu  primeiro périplo europeu como chefe de Estado o presidente dos EUA, Joe Biden, não apenas se ocupou de remendar os estragos do antecessor na política externa com a Europa, mas também de "denunciar" os perigos representados pela Rússia e pela China sobre o "mundo livre". Com o presidente russo ele se reuniu e decidiu voltar a trocar embaixadores. Mas o primeiro ministro chinês não estava lá. Nem vai. Nem tem agenda para discutir esses pontos nos próximos tempos.

Esse fato me remete há cerca de 30 anos quando, editor do jornal A Gazeta, participei de workshop promovido pela direção da empresa para aprimoramento gerencial. Houve reuniões no Hotel Porto do Sol, em Jardim Camburi, e em Nova Almeida. Num dos módulos apresentados em Vitória o instrutor da Fundação Dom Cabral, contratada para o evento, nos disse que em algumas décadas a China seria a maior potência da terra, tanto econômica quanto militar. Isso, gente, faz cerca de 30 anos! Alguns riram. Outros ficaram céticos, em silêncio. Mas o vaticínio está aí mesmo, corporificado na nossa porta hoje.

Agora os chineses dominam a alta tecnologia em vários campos do conhecimento humano. Se pararem de exportar, esse computador que estou usando ficará sem peças de reposição. Meu celular também. Televisores, maquinário industrial, rural e comercial igualmente. Em campos de engenharia eles não têm adversários. E mais: suas forças armadas estão próximas de rivalizar com as dos Estados Unidos e de ultrapassá-las em menos tempo do que se imagina. Vejam por essa foto de exercício de fuzileiros navais em praia chinesa, ano passado. Isso é real! Está acontecendo à nossa vista! 

Joe Biden sabe que está numa guerra perdida. Ora, se o estudioso da Fundação Dom Cabral sabia que isso estava perto de acontecer há mais ou menos 30 anos, os Estados Unidos também sabiam. Mas não acreditaram. Acharam conversa para boi dormir dizermos que seu império construído à custa de tanto sangue de inocentes cairia para um país com gente que, no passado, eles diziam parecer macacos.

Mas o fato se corporificou. Biden imagina que o melhor caminho hoje é se entender com os chineses. Se o esperneio é livre, a opção da guerra não teria vencedores nem vencidos. E se é para perder, os Estados Unidos sabem bem disso, é melhor que a derrota venha sem sangue e não como aconteceu no Vietnã. Afinal  de contas, todos os impérios um dia são suplantados e não há desdouro em ser o vice.             

10 de junho de 2021

Minha pinguela minha vida


Se alguma coisa poderá passar à história como sendo o símbolo do governo desse presidente Bolsonaro, ela será a pinguela que ele inaugurou recentemente no Amazonas. E se olharmos para a foto acima vamos concluir que não passa disso. No mais o presidente jamais passou de alguma coisa além de um político em campanha. Foi empossado assim, "governou" até agora assim e gasta dinheiro público aos borbotões assim. Aos poucos todos os seus desatinos estão sendo dados a conhecimento público. São os crimes que comete diariamente para se manter no poder com seu projeto de celerado.

Por isso é tão importante que os vários segmentos de oposição ao capitão extremista invistam na construção de uma terceira via democrática, frente ampla para as eleições de 2022. Nada será mais danoso ao Brasil do que a manutenção da polarização Bolsonaro/Lula. É isso o que o atual mandatário quer porque esse caminho permitirá a ele usar de todos os recursos antidemocráticos ao alcance para tentar vencer ou buscar a ruptura institucional. A oposição colocaria em xeque seus planos nazifascistas.

Dificilmente se conseguirá colocar na cabeça de Lula que sua candidatura agora elegerá o confronto. Ele se sagraria facilmente senador por São Paulo e poderia aos poucos construir uma trajetória de volta ao poder visando 2026. Hoje, não. O sentimento antipetista da população é muito forte e justificado. Precisamos ter uma frente oposicionista formada por candidatura acima de qualquer suspeita no tocante à dignidade e à capacidade de governar. Isso existe, sim, na política brasileira.

Ela teria de ser de combate ferrenho aos movimentos milicianos, à insurreição nas polícias militares, à politização das Forças Armadas, ao racismo, ao negacionismo, à desconstrução dos valores democráticos e à existência de poderes paralelos ao Estado capazes de atacar nossas mais caras instituições a partir de mentiras propagadas em redes sociais todos os dias a todas as horas por uma "familícia" que deseja o Brasil como seu campo de experimentação política privada.

Depois, bastará mostrar a foto do pontilhão (ou pinguela) do Amazonas como símbolo maior das "obras" desse governo e enfrentar as eleições sem que a campanha descambe para a violência. Pelo menos do lado do movimento oposicionista. Vamos eleger a democracia ano que vem!

7 de junho de 2021

O comunista e o "comunista"


Em 1969 o Brasil disputava as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970 no México e o presidente/ditador Emílio Medici fez chegar à seleção a informação de que gostaria de ver Dario como titular. João Saldanha, jornalista, radialista e técnico da equipe soube disso e disparou: "o presidente não me deixa escalar o ministério dele, então meu time quem escala sou eu" (foto). Era época de ditadura militar, a antiga CBD teve que demitir Saldanha, Zagalo assumiu no lugar dele e na convocação final para a Copa Dario estava na lista no lugar de Toninho Guerreiro, o favorito do treinador demitido.

É tenebroso quando a política interfere na vida do esporte. Zagalo jamais admitiu ter assumido o cargo de técnico e ter ganhado o tricampeonato mundial com a exigência de convocar Dario, mas jamais relacionou o jogador sequer para o banco de reservas. O folclórico Dadá, como ele próprio se chamava, apenas treinava. E o Brasil teria sido campeão do mundo com Saldanha porque era, disparado, o melhor time. Mas o afastamento daquele que ousou enfrentar Medici foi imposto à Confederação. João Havelange, então presidente e capacho de ditadores, concordou sem protestar. Afinal, Saldanha era comunista mesmo, "de carteirinha".

Hoje, passados 52 anos desses episódios, o atual presidente Bolsonaro, um saudoso da ditadura militar que adoraria ver de volta ao Brasil, resolveu fazer algo parecido. Como o técnico da Seleção Brasileira, Tite, não é do seu grupo, tentou de todas as formas que ele fosse demitido e substituído por Renato Gaúcho. O presidente da atual CBF, o inexpressivo Rogério Caboclo ia fazendo isso para agradar, não fosse o escândalo de seu afastamento provocado por agressões morais e sexuais a uma funcionária. Um projeto de ditador de aldeia de um lado, um maníaco sexual de outro: eles se merecem.

Não se sabe ainda o que vai acontecer nos desdobramentos desse escarcéu. O Brasil jogará a Copa América em nosso território, mesmo sob protestos, e o atual chefe do Executivo vai poder ver as partidas e entrar em campo após o jogo final para seu show demagógico, que será maior se os brasileiros forem campeões. O circo está armado no país onde falta pão e isso não agride os governantes.

Há uma última diferença a considerar: embora João Saldanha fosse comunista, membro do PCB, o Partidão, Tite, não. Ele apenas é "xingado" assim porque essa é a receita dos nazistas hoje encastelados no poder brasileiro para identificar quem não concorda com seu Capitão Cloroquina. Se os medíocres não podem subir ao nível dos outros, têm que tentar rebaixá-los ao seu.            

3 de junho de 2021

As milícias e seu gangsterismo


Eram 03h40m da madrugada de hoje. Depois de "avisar" aos moradores com estalos típicos de desabamento, um prédio de cinco andares veio abaixo no bairro carente de Rio das Pedras, Rio de Janeiro (vejam pela foto aérea), região dominada há décadas por milícias. Quase todos tiveram tempo de evacuar o edifício menos quatro pessoas que ficaram feridas e uma criança de dois anos e o pai dela, mortos debaixo dos escombros. Como pode isso acontecer? Como pode se já aconteceu antes na Muzema e o desabamento deixou um rastro de 24 pessoas mortas soterradas?

É simples. Bruno Paes Manso, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP é autor de um livro de título "A república das milícias - Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro", estudo de fôlego e fruto de longas pesquisas. Milícias, grupos paramilitares armados, impõem o terror pelo medo em regiões carentes do Brasil e só existem onde o Estado não está presente. Por isso estão no Rio.

Elas nasceram antes mesmo dos governos do líder populista Leonel Brizola. Em terras públicas invadidas sem que os governantes fizessem nada para evitar. Esses grupos chegaram depois dos traficantes para "proteger" as pessoas. Expulsaram o tráfico, tomaram conta das regiões e impuseram o terror. Hoje todo mundo tem que pagar "proteção". Tem imposto sobre gás, diversos outros serviços de primeira necessidade, inclusive "gatonet". Os moradores se livraram de um mal e o trocaram por outro.

É diferente do que aconteceu em São Paulo. Lá a expansão se deu em regiões industriais e o Estado estava presente porque a ele interessava a infraestrutura nas regiões. Além disso a igreja católica era dominada pelas Comunidades Eclesiais de Base comandadas por Dom Paulo Evaristo Arns, que não tolerava algumas práticas. O que não impediu o tráfico nem bandos criminosos como o PCC.

As milícias são piores? Claro que sim, haja vista o que vem acontecendo, pois todas as construções são irregulares e feitas em áreas protegidas com destruição de mata nativa. E por que não se faz nada? Por diversos motivos, sobretudo pelo fato de que por onde se passa nessas regiões são encontradas as digitais da "familícia" Bolsonaro e dos políticos corruptos nascidos da necessidade de controlar as populações. Isso explica a luta do atual presidente pela volta do voto impresso pois fica mais fácil "cabrestar" os eleitores nesses bairros dessa forma. Mas esse ponto é assunto para outro artigo.                   

1 de junho de 2021

Os foras da lei


O ex-ministro Eduardo Pazuello, general da ativa que afrontou os regulamentos do Exército participando de um evento político com o presidente da República no Rio de Janeiro foi nomeado hoje para um cargo de planejamento estratégico no Palácio do Planalto, junto à presidência. Além de não entender nada sobre a matéria, sua nomeação é uma nova afronta às caras normas militares.

Recentemente a Polícia Federal fez uma busca na casa e escritórios do ministro do Meio Ambiente. Além de não ter entregue seu celular aos agentes, o cidadão Ricardo Salles destruiu o aparelho em seguida. Primeiro disse que o equipamento não estava com ele. Depois mais nada falou e deu fim a tudo. Mas o pior é que até agora nada aconteceu com o possível contrabandista de madeira ilegal.

É inacreditável a certeza que essas pessoas têm da impunidade. A começar pelo presidente, todos agem literalmente como se estivessem acima das leis. Não as respeitam. Pior do que isso, as afrontam. Tentam minar as bases das instituições e, não satisfeitos em fazer isso com as mais caras delas, as civis da República, agora atingem também as militares e essas parecem não querer reagir. Por quê?

Minha teoria é o medo de o Brasil voltar a ser governado "pelas esquerdas", como são chamados os diversos grupamentos de oposição. Também há o oportunismo político do "Centrão", hoje encastelado no governo. E o tal "Centrão Militar", que está sendo formado no Brasil em troca de benesses tipo altos salários em cargos públicos. Oportunistas é o que não falta no Brasil. E foras da lei!

Só que a inação da instituições que deveriam reagir a isso vai aos poucos corroendo as bases da democracia representativa. Os altos escalões do Judiciário assistem às vezes com complacência ao desfile de imoralidades e atos de corrupção, como o deboche de Pazuello e Bolsonaro durante os desfiles de motocicleta no Rio de Janeiro (veja a foto). E o mesmo acontece com as patentes militares superiores que até agora ainda não puniram o general debochado. E fora da lei.

Quando a gente soma a isso tudo as revelações da CPI que se desenrola no Senado fica claro que o momento é de perigo. A democracia vai resistir, sobreviver, assim acredito eu. Mas é impossível avaliar agora com quantos danos. A sociedade civil precisa reagir com denúncias todos os dias. Contra os foras da lei, inclusive os que habitam o Palácio do Planalto.                   

25 de maio de 2021

Movimentos calculados


Por que Jair Bolsonaro conseguiu evitar uma nota do Exército criticando o general Pazuello com um simples telefonema dado de Quito, no Equador, para Brasília? E por que ele não vai impedir a punição de seu ex-ministro da Saúde que o atende como se fosse um serviçal comum? Trata-se de  movimentos calculados e aproveitamento de oportunidades. Oportunismo, em resumo.

Se o presidente for desmoralizado agora, vai perder mais espaço político, pois isso já está ocorrendo. O Centrão, excrescência política focada unicamente em seus interesses mais diretos o abandonará no meio do caminho. Aí será quase certo que um processo de impeachment seja aceito, votado e aprovado no Congresso. Isso colocará a presidência da República literalmente no colo de Lula ano que vem. Tudo o que os militares e forças reacionárias brasileiras não querem.

Em 1964 vivíamos a época da guerra fria. Havia um medo disseminado de que o comunismo tomasse conta do Brasil sabe-se lá como. Quando houve o golpe militar uma frota norte-americana estava no litoral brasileiro pronta para intervir se as coisas dessem errado. Era a "Operação Brother Sam". A intervenção não foi necessária e, para os interesses dos EUA, tudo deu certo.

Isso passou e hoje os tempos são outros. Nos Estados Unidos é muito mais difícil embarcar numa aventura como essa. No chamado "mundo livre", que é livre mas nem tanto assim, a política de não intervenção direta substituiu a dos cowboys que, via embaixadores, aterrorizavam países com pouca ou nenhuma importância estratégica ou militar (leiam "Ásperos Tempos", de Mario Vargas Llosa).

Bolsonaro sabe de tudo isso. É sociopata inteligente. Quando pegou o telefone e ligou para Brasília não estava peitando o Exército para impedir a nota de desagravo a Pazuello. Ele não é tão forte assim. Estava jogando as cartas: "Dinamitem-me e Lula vence!". Não o dinamitaram. Mas o general capacho vai ser punido para que a instituição militar não se desmoralize mais ainda.

A foto que ilustra esse texto (de O Globo) mostra nosso Bozo erguendo o braço do presidente eleito do Equador - um político de direita, mas não de extrema direita - como se ele fosse um troféu conquistado. Na cabeça do brasileiro as coisas funcionam assim. E lá ele está de máscara. Resta agora a nós nos insurgirmos contra o fato de que aqui ele desrespeita normas, leis, ética e tudo o mais. E a não ser por uma única e miserável multa aplicada pelo governo do Maranhão, tudo passa em brancas nuvens. 

Mas todos somos súditos das leis.               


22 de maio de 2021

Delírio de outono (conto)

Normalmente uso esse espaço para artigos. Mas hoje resolvi oferecer a vocês um conto (?). É meio longo, mas tinha que ser assim. Espero que leiam. E o texto os faça  sorrir um pouco e  refletir muito. O tema bem que merece. Até mais ver:


- Eu também quero ser general!

         Houve silêncio na sala onde se realizava a reunião ministerial. Digamos, silêncio obsequioso. Os participantes do encontro se entreolharam e de início ninguém falou nada. Então o senhor presidente insistiu:

         - Quero ser general!

         O vice, que estava presente depois de muito tempo exilado e sem participar de reuniões da cúpula do poder resolveu fazer uso da palavra:

         - Não pode, presidente. O senhor não fez carreira para chegar a isso. E já é o comandante em chefe. Esqueceu?

         O presidente balançou a cabeça negativamente e voltou à carga. Como se fosse uma carga de cavalaria. Ou de paraquedismo:

         - A gente faz uma lei. Quero ser general e pronto. Por que você pode e eu não posso?

         O outro, o vice, deu uma pigarreada daquelas que a gente dá para tomar fôlego e encontrar argumentos antes de tentar continuar sua argumentação. Diante do silêncio sepulcral que persistia na sala, enfim voltou a argumentar:

         - Veja, presidente, as coisas não são assim. Existem leis que regem a República!

         - Mudo por medida provisória ou PEC. Mas quero ser general e pronto. Meus filhos me pediram, minha mulher achou o maior barato e a gente até simulou uma solenidade de sagração já no Alvorada. Está tudo combinado. Minha filha ainda brincou e disse: “Está tudo combinandinho, papai”. Não posso decepcionar minha família, meu bem mais precioso.   

          O vice voltou a tentar argumentar:

         - Vamos admitir que fosse possível. Mas isso no plano civil. E no militar, o que eu diria para o estado maior. Para os chefes, comandantes e chefes das três armas?

         - Diga que eu quero. Que é a vontade do povo, da nação e que os militares de todas as forças já ganharam tudo o que eu podia dar a eles. Tudo mesmo, inclusive milhares de cargos no governo, tirados de civis. Então, posso ser general e pronto.

         O vice coçou a cabeça. Tirou a máscara com a bandeira do Flamengo de cima do copo de água à sua frente e tomou um gole. Voltou a botar no lugar. Estava sem ela no rosto porque diante do presidente, em local restrito, ninguém se atreve a usar máscara. Ficou um silêncio constrangedor até que a ministra, única mulher presente, perguntou:

         - O que a gente tinha vindo aqui discutir mesmo? Qual era a pauta dessa reunião?

         Quando o presidente fez menção de se levantar, já com ar furibundo em direção àquele que se atrevera a mudar o foco da discussão, o ministro da secretaria geral da presidência da República atalhou, quase aos gritos:

         - Ele pode sim. Ele não foi eleito por mais de 57 milhões de brasileiros? Pode sim. Vamos encontrar um caminho.

         O presidente estufou o peito de felicidade. Fez um sinal de mão de positivo endereçado ao seu ministro no instante exato em que todos os demais, em uníssono, completaram: “Pode sim!”. A ministra que havia provocado a interrupção chegava a espumar enquanto gritava sua concordância.

O vice voltou a dar uma fungada. Tirou a máscara do Flamengo mais uma vez de cima do copo, tomou um novo gole de água e depois se voltou para todos:

         - Tá bom. Então como nós vamos fazer isso? Estou perguntando porque não basta vencermos a resistência do Alto Comando. É inconstitucional, pombas! Aliás, pergunto: essa merda de reunião está sendo gravada?

         Todos acorreram ao sistema de gravação do Planalto e apagaram os registros. Pronto, nada havia sido gravado. O filho 02, especialista nessas questões ainda deu uma conferida, checou os registros nas redes sociais e fez sinal de positivo. Então o presidente voltou a falar à plateia:

         - Vou fazer um decreto!

         O vice disse logo em seguida:

- A constitucionalidade vai ser questionada.

O presidente pareceu perder enfim a paciência:

- E daí, porra? Eu por acaso sou um presidente banana? Por que vocês acham que gastei três bilhões do orçamento para comprar, digo, para convencer o Centrão a me apoiar? Faço o projeto passar pelo Congresso sem o menor problema. Bom, talvez isso custe mais uns dois bilhões, mas valerá a pena.

Todos ficaram em silêncio mais uma vez. Novo silêncio obsequioso. O dono da pasta da Justiça logo disse que faria o texto do decreto. Cinco outros disseram que sairiam naquele momento mesmo para ir ao Congresso. Mais dois falaram que iriam procurar ministros do Supremo com os quais mantinham boas relações de “cordialidade e respeito”. Mas o vice não estava convencido:

- O senhor se lembra de como deixou o Exército, presidente? Os registros do processo que o senhor respondeu e que quase custou sua expulsão ainda estão lá. Vivinhos da silva! De repente alguém pode ressuscitar esse cadáver fedorento, sobretudo no Exército onde o senhor não é unanimidade. Nem tudo é o Clube Militar nessa vida...       

Aí a gritaria foi geral. Todos se voltaram contra ele, o vice, sobretudo o filho mais velho, o senador que já havia embarcado na aventura de mala e cuia. E foi ele quem gritou mais alto:

- Fake News! Coisa de comunistas safados! O presidente saiu porque não queria ficar mais. E contra todos os conselhos. Mas a quadrilha internacional comunista, sempre de olho no Brasil, criou uma narrativa caluniosa para nos atingir. Só que o gado, digo, os apoiadores não vão permitir uma coisa como essa. Todos acreditam que estamos no poder em nome e pela vontade de Deus. E Ele quer um presidente general de cinco estrelas.

Foi a apoteose!

O vice não teve mais argumentos. Os poucos que ainda não haviam se manifestado favoravelmente se entreolharam e devagar começaram a se retirar para a Esplanada dos Ministérios. Cada um para seu endereço. Cada qual para o seu quadrado.

E agora, José? O que fazer. O vice lavou as mãos. “Nem aos comandantes das forças levo uma notícia dessas”, pensou. O presidente pareceu ler os pensamentos dele e anunciou que estava convocando uma reunião dos comandantes militares para dizer a todos que é general. Ou então que será. A partir daquele momento todos estavam engajados na tarefa de desenvolver ações no sentido de concretizar o sonho presidencial. O maior mandatário dirigiu-se ao vice enquanto ele pegava a máscara do Flamengo e deu o assunto por encerrado:

- Vamos fazer isso, sim. O Brasil merece. Afinal, tivemos presidentes generais durante o regime militar democrático ou não? E eles eram aceitos ou não? Afinal, pense, isso é mera formalidade! Você já me disse várias vezes que alguns oficiais superiores ficam constrangidos em terem que obedecer a um capitão. Eu também ficaria. E o problema estará resolvido dentro de pouco tempo.

O vice deu de ombros:

- Plano do senhor, problema do senhor. De minha parte desejo sucesso à empreitada. Mas um conselho: antes de estar tudo pronto com o Congresso não deixe a imprensa saber de nada. Caso contrário o mundo cai na sua cabeça antes do apocalipse.

Dessa vez foi o presidente quem deu de ombros. Agora estavam na sala somente ele e mais 01, 02 e 03 que haviam chegado atrasados, mas conhecia todos detalhes do plano elaborado no Alvorada. E foi ele quem se adiantou para falar, já em papo íntimo de família:

- Estamos todos em campo. Na batalha, combatendo o bom combate. Vim aqui para a gente traçar planos caso tudo dê certo. Nesse momento o presidente explodiu de vez:

- Caso? Caso um diabo. Está decidido. Não abro mão da minha autoridade de maneira nenhuma. Temos que ir daqui já com tudo combinado. A começar pelo seguinte: depois que eu receber o generalato, qual de vocês vai me cumprimentar me chamando de “Generalíssimo presidente”?

Um olhou para a cara do outro. Ninguém queria tomar a iniciativa de argumentar. Então foi o presidente quem voltou à carga, jogando as pernas para cima e as colocando sobre a mesa de trabalho. Dali olhava para a Praça dos Três Poderes onde adora andar a cavalo nos finais de semana nos quais exulta com as faixas que pregam o fim da democracia e a intervenção militar com ele no poder. Tentou falar de modo bem coloquial e didático:

- Vocês querem que alguém os chame de maricas? Filho de presidente macho tem que ser macho também. Então, vamos combinar o seguinte: 01, que tem cargo mais alto por ser senador, vai abrir o discurso com o “generalíssimo”. Na mesma hora vocês dois vão apoiar. Vou colocar do nosso lado a turma que não dorme de tanta vontade de ir para o Supremo e garanto que eles vão urrar junto de vocês...

- Tem o que sonha em continuar como PGR... – atalhou 03.

- Isso, mesmo. Então – prosseguiu o presidente – a coisa degringola. Vai virar um pandemônio esse negócio todo e quero ver se algum ministro do STF vai ter peito de nos enfrentar. Ninguém ousará tentar derrubar meu decreto. Sairei de lá nos braços do povo, só não sei se nos braços das pessoas ou a cavalo. Acho que vou preferir sair montado...

02 pediu palavra:

- É um plano perfeito. Coisa de gênio. Só mesmo poderíamos imaginar coisa desse quilate...isso não tem como dar errado. Viram como os ministros saíram daqui? Todos em ordem unida, prontos para cumprirem suas missões.

- Claro. – disse o presidente – ninguém é burro. Eles sabem que eu demito mesmo. Cortar umas cabeças de vez em quando tem lá suas vantagens. Fica todo mundo com um pé atrás...

- Sim, tem que ser assim – disseram os três ao mesmo tempo.

Então o presidente relaxou. Esticou ainda mais as pernas sobre a mesa e ficou olhando fixamente através da janela de sua sala de terceiro andar. Parecia divagar e foi falando quase sem sentir.

- Gozado, mas antes de ser eleito não me lembro de ter entrado nesse gabinete. Afinal, aqui dentro só tinha comunista, ladrão e vagabundo. Teve uma idiota também. Mas depois que cheguei aqui adorei tudo. Hoje eu sinto como se isso tudo fosse meu. Como se sempre tivesse sido. E não quero sair daqui. Foi por isso que tivemos a ideia do generalato. Do generalíssimo. Isso combina comigo e com os planos que sempre tivemos de nunca mais sairmos daqui. Esse é o nosso lugar. Na época dos generais, de 1964 a 1985, eles cometeram o erro de fazer eleições. Sou contra, mesmo indiretas...

- Somos contra – atalhou o 02.

- Sim, somos contra, – prosseguiu o presidente – e por isso o plano é não sair mais daqui. Eu me reeleger, aprovar no Congresso um projeto de reeleição sem limite de número, ficar sempre na presidência e depois passar o bastão, quando me der na cabeça, para um de vocês. É isso o que quero: um País da família. Nas mãos de nosso clã, ao alcance de nosso poder. Sempre sob controle. E vai dar certo. Sempre que há o Congresso sob controle – e dá uma gargalhada debochada antes de continuar – e a perspectiva de uma ruptura, um golpe de Estado “com eu” no poder pode voltar a povoar a Esplanada...

- Agora não está dando – falou novamente o 02.

- Não está dando porque os caras são uns maricas, uns merdas. – continuou o presidente – Eles não querem se envolver em aventuras. Estão com medo de repetir 1964. Umas porcarias. Mas nós sabemos o que queremos e a hora é agora. General até o ano que vem e depois o salto para mais quatro anos do mais novo generalíssimo da história desse nosso País.

Uma salva de palmas coroou o final da fala.

O Presidente Generalíssimo estava realizado. Chegou a dar um longo bocejo como se tentasse despertar de um sonho. Os filhos olhavam-no maravilhados, como se fitassem um deus vivo. Então ele perguntou:

- Já estão sendo tomadas todas as providências? 01, que havia ficado por instantes ao celular, foi quem me respondeu.

- Sim. Já estamos com gente indo para o Congresso, para o STF e só vai ser preciso o senhor definir a hora exata de comunicar a decisão aos militares e à imprensa. Como eu odeio esse termo, a imprensa. Depois será apenas correr para o abraço.

O presidente respondeu:

- Vou ver isso tudo. Tomem seus assentos porque o avião vai decolar. Cada um sabe exatamente o que fazer e agora a sorte está lançada. Não sei falar isso em grego.

- É latim – disse o 02.

E o presidente se levantou, sendo seguido pelos filhos. Novamente se dirigiu à janela. Olhou para a Praça dos Três Poderes, para o horizonte do Planalto Central, para o infinito como se o seu olhar pudesse chegar ao oceano e vencê-lo. Então, de repente parou. Chamou os filhos de volta e disse com o peito inflado de ar.

- Última forma. Vamos correr com o decreto do generalato, com todas as providências porque preciso chegar ao ano que vem já com cinco estrelas. Mas depois que eu for reeleito, a coisa muda. Vou começar a costurar para subir acima deste cargo.

Os três se entreolharam e perguntaram ao mesmo tempo:

- O que você vai querer ser, papai?

Então sua excelência fitou o horizonte novamente, colocou a mão direita aberta entre dois botões superiores de seu paletó e disse encerrando definitivamente o assunto do dia:

- Marechal de Campo!

   

    

12 de maio de 2021

O estado terrorista


Foi em 19 e 20 de setembro de 1982. Mais de mil refugiados palestinos e civis libaneses foram massacrados por hordas de milicianos maronitas comandados por Elie Hobeika como retaliação pelo assassinato do presidente e líder falangista Bachir Gemayel. O fato aconteceu no Líbano nas localidades de Sabra e Chatila. Como isso foi possível? Ocorreu porque o exército de Israel cercou os dois aglomerados e não permitiu que ninguém entrasse lá para prestar socorro à população até que a matança terminasse. Os massacrados eram considerados responsáveis pela morte de Gemayel. Era a vingança!

Por que lembrar isso hoje e ainda ilustrar esse artigo com uma foto da carnificina? Por que agora, quase 38 anos depois Israel volta a promover ataques e massacres contra a população palestina. E nesse momento sem disfarces: o primeiro ministro do estado judeu, o extremista de direita Benjamin Netanyahu diz claramente que considera Jerusalém capital indivisível de seu país, o que na prática expulsa os palestinos de lá e os deixa sem lugar para sobreviver, sem Estado e sem nacionalidade.

Israel jamais teve a intenção de reconhecer os direitos palestinos sobre suas terras de origem. Apoiados nos princípios do sionismo, consideram-se donos de toda a região por direito divino. E se antes ainda eram feitos acordos de paz e discursos de reconhecimento da necessidade de haver dois países na região, hoje isso foi abandonado. Não há mais disfarces. Israel quer a guerra. Israel prefere a guerra principalmente porque tem forças armadas poderosas e armas nucleares que o mundo finge não ver.

É estranho, mas a maior força que o estado judeu usa para levar adiante seu projeto genocida vem do apoio que clérigos ultra ortodoxos que não admitem negociar nada. São extremistas de direita, personagens com ideias de superioridade racial e direitos divinos sobre parcela do mundo, o que os aproxima muito do nazi-fascismo. Como pode isso, se em passado recente eles foram massacrados durante a segunda guerra mundial pela mesma ideologia que adotam hoje? Difícil entender...

Mas é preciso admitir que a cultura ocidental, sobretudo dos Estados Unidos, pouco ou nada vai fazer para que se cumpram as resoluções da ONU, levando Justiça àquela região do mundo. Tomo por base a essa afirmação o que se ouve e vê nos noticiários jornalísticos do dia a dia. Os atos de violência palestinos são todos de "terroristas". Os de Israel, de "radicais".

Dias piores virão! Israel é um estado terrorista!                        

8 de maio de 2021

Massacre em Jacarezinho


Nos tempos em que o exército dos Estados Unidos "conquistava" o Oeste do país, um belo dia houve reunião de alto comado em um dos fortes da região para definição de ações de combate. Estavam presentes os generais das linhas dura e leve. Em dado momento, defendendo uma posição mais flexível dos militares, um general disse ter conhecido muitos índios bons ao longo da vida. Um outro de linha dura, Philip Henry Sheridan retrucou: "Pois os únicos índios bons que conheci estavam mortos". O diálogo foi ouvido por um ordenança que o passou adiante e gerou o velho axioma "índio bom é índio morto". Aqui no Brasil há mais de um século ele foi adaptado para "bandido bom é bandido morto". E a polícia do Rio colocou isso em prática quinta-feira em Jacarezinho.

Um policial morreu. Além dele, contados até agora, 28 outros homens. É certo que a imensa maioria cometia crimes. Mas também que alguns inocentes foram no bolo. E é correto afirmar também que muitos largaram as armas e levantaram os braços. Foram mortos assim mesmo, executados friamente dentro de residências onde haviam entrado (foto da Revista Fórum). E como a polícia gosta de dizer que está em uma guerra declarada contra o tráfico, podemos acrescentar que foi então cometido um crime de guerra como ele é definido por normas internacionais. Inimigo rendido não se mata.

O jornalista Reinaldo Azevedo publicou no Twitter que as milícias ocupam 57,5% dos territórios de baixa renda (favelas) no Rio de Janeiro. As Facções ficam com 15,4%, em 25,2 por cento há disputas ou parcerias entre os grupos. Em Jacarezinho, onde houve o massacre, as milícias jamais entraram e lá quem manda é a facção conhecida como Comando Vermelho. A polícia nunca fez ação em regiões ocupadas por milicianos. Reinaldo termina: "Entendem?" Entendemos sim.

Há no Brasil, sendo criado hoje, agora, um estado paralelo. E a inspiração para isso vem de Brasília, da presidência da República. O presidente já disse em mais de uma oportunidade que o miliciano Adriano da Nóbrega, morto na Bahia em ação de queima de arquivo, foi condecorado antes de ser declarado fora da lei porque era um herói. Esse é o tipo de heroísmo que ele glorifica. Esses são os seus heróis. Nóbrega, ditadores sanguinários sul-americanos e gente como o torturador Brilhante Ustra.

Acorda, Brasil! Já é hora de reagirmos. Existem outros Jacarezinho nesse País, fora do Rio de Janeiro, talvez até mesmo aqui ao lado da gente e onde poderemos ser mortos por engano, como efeito colateral de outra ação de "inteligência policial".     

 


  

6 de maio de 2021

Os símbolos são nossos!


Hoje pela manhã saí para caminhar e, no meio do caminho, cruzei com um conhecido no exato momento em que um carro passava por nós com uma bandeira brasileira presa à janela do carona. O conhecido disse: "vamos vaiar o bolsonarista?" E eu falei que não. Que aquela bandeira era minha, bem como todos os demais símbolos nacionais. E fomos cada um para seu lado.

Mas agora me ocorre perguntar: será que estamos nos lembrando disso quando fazemos manifestações de contestação ao governo federal e a tudo o que ele representa? Será que não estamos nos esquecendo de que aquela bandeira é nossa e a estamos abandonando por omissão em manifestações que realizamos para questionar as barbaridades políticas atuais? Estamos sim. E isso é péssimo.

Nada impede os brasileiros de oposição de usarem símbolos de partidos políticos, de ideologias ou quaisquer outras formas de identificação dos gritos de protesto. Aliás, devemos fazer isso. Mas contanto também desfilemos com a bandeira do Brasil e com os demais símbolos nacionais que são nossos porque os ideais que defendemos, os valores que representamos são brasileiros e republicanos.

Nós somos os patriotas, não eles.

A foto que ilustra esse texto mostra isso. É Bolsonaro e sua claque quem vai às ruas para pedir golpe de Estado "com Bolsonaro no poder". É o chefe do Executivo quem ataca todos os dias os poderes Judiciário e Legislativo, quem afronta as instituições nacionais, inclusive de Estado.  Não somos nós. Durante os 21 anos de arbítrio da ditadura militar que estuprou a Constituição brasileira fomos nós quem lutou pela volta da democracia. Acabamos conseguindo expulsar os golpistas da imensa maioria dos cargos públicos e das ruas brasileiras. Vamos continuar saindo às ruas, mas sem esquecer dos símbolos nacionais. Da nossa bandeira e das camisas verde amarelas.  

30 de abril de 2021

Para onde vai o dinheiro...


É fácil explicar porque o atual governo federal não quer fazer o Censo obrigatório por lei no Brasil a cada dez anos, e que deveria ter sido realizado ano passado. Sem ele o presidente negacionista e seus ministros vão poder continuar a fazer o que bem entenderem sem ser necessário olhar para a realidade brasileira. Sem que haja uma bússola mostrando o caminho do norte magnético capaz de trazer progresso a todos, respeitadas as reais necessidades de um país imenso e de grande complexidade.

Vamos falar então sobre somente um exemplo dessa necessidade: em um trabalho de fôlego "O Globo" mostra hoje que as renúncias fiscais brasileiras alcançam nesse nosso ano de 2021 nada menos que R$ 351 bilhões. Isso representa 24% de tudo o que a União deveria arrecadar no período em impostos federais. Como nosso déficit está oscilando em torno de qualquer coisa próxima dos R$ 240 bilhões - isso pode crescer por causa da pandemia e seus efeitos colaterais sobre a Economia -, estamos dizendo que a não existência desses benefícios - são 173, sendo que 73 têm prazo indeterminado - faria com que o Brasil chegasse ao final do ano com superávit. Ou seja, com dinheiro sobrando no caixa.

Mas não vai acontecer nada parecido com isso porque o governo atual dirige o País para seus apaniguados. Há no universo de apoiadores de Bolsonaro um grande número de empresários dos mais diversos setores que o apoiam, sim, mas contanto ganhem alguma coisa mais concreta. Tenham retorno, em síntese. E não pagar impostos sempre foi o objetivo maior da "tchurma" que quer dessa forma "gerar emprego e renda". Eles todos são grandes amigos do Paulo Guedes...

Hoje mesmo uma amiga me dizia, relembrando velha máxima, que o Brasil é um país comunista para os ricos e capitalista predatório para os pobres. Eles que não se atrevam a querer viver cem anos como já disse o ministro da Economia em um de seus piores momentos, que são inúmeros.

Para que fazer censo, não? Para que ao menos reduzir a política de renúncia fiscal a um mínimo realmente necessário se o Brasil é formado por uma imensa massa de cidadãos com baixa escolaridade ou então fáceis de serem cooptados e que vão fazer vista grossa a esse absurdo, sempre relembrando as verdades de praxe como, por exemplo, uma que recebi hoje via WhatsApp, colocando em realce o fato de que o ex-presidente Lula é acusado de ter recebido dinheiro por inúmeras palestras que não teriam sido dadas a empresários brasileiros e mesmo assim foram religiosamente pagas. Para quê?

O Brasil vive dias tensos. Frios, tenebrosos. E a luta dos que apoiam a "situação" tem um norte magnético: não deixar que se saiba para onde vai o dinheiro. Basta que todos os dias seja dito que estamos devendo cada vez mais. E que o déficit só cresce, sobretudo na Previdência.   

      

22 de abril de 2021

Me dá um dinheiro aí!


Em 1958 Juscelino Kubistchek participava de uma reunião com o Secretário de Estado dos Estados Unidos, John Foster Dulles, levantou-se e pediu ao outro que fizesse o mesmo para se cumprimentarem. Na foto feita nesse momento, Dulles parece ter nas mãos uma carteira com dinheiro. O Jornal do Brasil a publicou e colocou um título: "Me dá um dinheiro aí!".

Juscelino ficou possesso. Com o jornal nas mãos, esqueceu-se de toda a sua gentileza, da educação de berço e ameaçou o JB com um enquadramento na Lei de Segurança Nacional. Não fez isso. Cabeça fria aceitou um pedido de desculpas e o termo virou a música "ei, você aí, me dá um dinheiro aí", de Moacyr Franco. Na minha infância cantei-a muitas vezes. Todo mundo a cantava. Já Kubistchek preferia "como pode um peixe vivo viver fora da água fria..."

Não vou comparar o presidente que jurou fazer 50 anos em cinco com o que está no poder há pouco mais de dois anos e já destruiu o meio ambiente por meio século. Não seria justo para com o mineiro boa praça morto em acidente automobilístico na década de 1970 depois de ter os direitos políticos cassados por uma ditadura militar que estuprou a democracia ao longo de 21 anos.

Apenas o velho político das Minas Gerais me veio à mente enquanto Bolsonaro falava na Cúpula do Clima (segunda foto) para mentir sobre o Brasil, sobre sua atividade à frente do governo federal e dizer, ao fim e ao cabo, que só vai poder salvar a Amazônia se receber dinheiro dos "países ricos". Caso contrário, não.

E pediu um prazo até 2030 para deter o desmatamento ilegal. Puta que pariu! Existem leis no Brasil e basta que elas sejam cumpridas. Deter o desmatamento ilegal depende de imagens de satélites para localizar os pontos de ocupação e depois fiscais do Ibama (órgão que ele está destruindo juntamente com seu comparsa do Meio Ambiente) para multar e as polícias estaduais, federal, Força Nacional de Segurança e até as Forças Armadas para fazer com que a legislação seja cumprida. Ele pede prazo até 2030 porque até lá já não haverá mais nada a proteger. Tudo terá sido destruído.

Ele quer é a destruição total, completa do Brasil que existe hoje.

Não sei como vai terminar a Cúpula e o que o Brasil totalmente desmoralizado vai conseguir dos "países ricos". Talvez nada. Mas sei, como todos sabem afora o gado, que o presidente não vai mudar. Durante a vida toda foi um destruidor de tudo e de todas as coisas. Só sabe fazer isso.                

12 de abril de 2021

Como um castelo de cartas

 A falta de uma definição ideológica clara nos partidos políticos brasileiros é um mal que depõe contra eles já faz décadas. Mesmo aqueles que tinham em sua nomenclatura termos como "Democrático" nunca especificaram o que isso significava como horizonte, como norte político para eles. Clara era a sigla "Comunista" no nome de partido, embora houvesse dois, cada um com uma diretriz diferente.

Desde que o PCB, antigo Partidão abriu mão de seu nome oficial para se tornar primeiro PPS e depois Cidadania ele passou e se descaracterizar. Hoje, existindo com sua última nomeação, não se sabe se é uma agremiação de situação ou oposição. Embora tendo em seus quadros antigos e respeitáveis membros do velho Partidão, "comunistas de carteirinha", dá-se o direito de contar com um líder no Senado que mantém laços de intimidade política com Jair Bolsonaro, extremista de direita. E outro que grava e divulga contato telefônico com esse presidente, de teor muito suspeito. Aos poucos a legenda corre o risco de se tornar mais uma sigla de aluguel.

O imenso número de partidos brasileiros concorre para com esse samba do crioulo doido. De forma clara, indisfarçável, grande parte deles são alugados a políticos de nenhuma envergadura pessoal, ética ou moral, e a propósitos pouco claros. Há de todo o tipo de gente: ladrões de dinheiro público, oportunistas de toda sorte, enfim, arrivistas sem limites que se mostram sobretudo e principalmente como indivíduos que vendem apoio em troca de cargos públicos, emendas parlamentares e blindagem política. Como o grupo de legendas chamado "Centrão", de onde o presidente da República é oriundo e de onde ele jamais se afastou apesar dos discursos demagógicos.

Vai ser muito difícil a um país como o Brasil, habitado por analfabetos funcionais políticos mudar essa realidade. É mais provável que ela permaneça, sobretudo agora que estamos diante de um quadro confuso em nossa realidade e quando pessoas vão às ruas com discursos que, sendo inconstitucionais são criminosos. E sem que o Estado faça nada para coibir. Ao contrário, os incentiva.

Mas uma realidade se impõe: ou nossa democracia vai se sustentar em partidos políticos respeitados, ideologicamente claros e com programas abertos a todos os cidadãos ou ela vai ser tão frágil a ponto de desmoronar um dia como um castelo de carta. E com derramamento de sangue.