17 de abril de 2023

Bom dia a cavalo

"Quem fala demais dá bom dia a cavalo" é um dito popular que significa o seguinte: se eu falo sem ouvir os outros, acabo não sendo compreendido, recebo contestações e, quem sabe, um  coice. Por isso o presidente Lula, que é importante para a reconstrução do Brasil que a camarilha do ex-presidente destruiu, deve deixar questões como a guerra Rússia-Ucrânia com a Chancelaria. Lá elas serão bem cuidadas.

Com o fim da II Guerra Mundial o avanço soviético sobre países da Europa ocidental produziu a Organização do Tratado do Atlântico Norte, o contraponto ao Pacto de Varsóvia. Isso até 1991 quando a dissolução da União Soviética fez tudo perder sentido. Mas a OTAN prosseguiu e agora avança sobre o Leste com o claro intuito de chegar às fronteiras russas. Quando o império soviético caiu ficou mais ou menos implícito que a Ucrânia não ingressaria no Tratado porque os russos mantinham sua frota no Mar Negro, precisavam de livre acesso  ela pela Criméia, não abdicariam a isso e não iriam tolerar armas nucleares na sua fronteira. A guerra aconteceu porque Putin, um autocrata, não aceitou recorrer aos organismos internacionais como o Conselho de Segurança da Organização e Zelensky foi incentivado pelos países ocidentais a simplesmente esperar a guerra. Não houve negociação alguma, a não ser de fachada.

E agora, José? Agora é necessário que haja mesmo um esforço diplomático para por fim à carnificina e à destruição da Ucrânia. Mas esse esforço só terá sentido se for feito com a busca de soluções e sem que se aponte culpados. Não há inocentes ou virgens em diplomacia internacional e quem sabe tratar desses assuntos são os diplomatas. Não é o caso de Lula que sequer deveria ter dito diante de Xi Jinping (foto) que ninguém vai impedir o Brasil de ampliar suas relações com a China. Claro que não, mas isso não deve ser falado em nome das boas relações internacionais. O ruído nessas relações sempre leva a atritos e o presidente brasileiro já tem inimigos internos suficientes. Deve deixar o plano externo livre.

Alguém próximo deveria dizer a Lula que há um Brasil a ser reconstruído e isso é tarefa dele. Todos os brasileiros o conhecem, sabem de sua verborragia e querem que ele se concentre apenas no trabalho necessário. Se fizer somente isso o bolsonarismo é quem dará bom dia a cavalo. E ele está doido por esse protagonismo! Não consegue esperar a hora!                   

15 de abril de 2023

Permitam que sonhem


- E de repente a gente está vendo essa onda de ameaça, de violência, a gente não entende como isso acontece!

As declarações acima, literais, são do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, comentando as violências cometidas sobretudo em escolas do Brasil. Ou em creches onde, numa delas de Blumenau, Santa Catarina, quatro crianças foram mortas a golpes de machado. Ele certamente não estava bêbado ao falar e nem tinha perdido a razão. É apenas um cínico que participou direta ou indiretamente durante quatro anos do desgoverno anterior a esse e viu o ex-chefe de Estado usando até  mesmo crianças para mostrar armas pesadas ou imitar "arminha" com as suas mãos sujas de sangue.

Tarcício segue a mesma cartilha do governador de Santa Catarina e de outras autoridades brasileiras ligadas às soluções pelas armas: quer inundar creches e colégios de policiais armados. Quer combater a violência com violência. Ele não quer enxergar que a origem de tudo o que estamos vivendo hoje é a politica armamentista da extrema direita que chegou ao poder em 2018 no rastro de cometa de um ódio anti-esquerda e anti-PT provocados em parte por uma carrada de erros cometidos setores da esquerda política brasileira nos anos que antecederam a penúltima eleição presidencial.

Todos sabemos - ao menos os mais lúcidos - que o combate à onda de ódio se faz com a educação das pessoas. Com o "não" ao armamentismo que hoje alcança até escolas de tiro onde se busca ensinar os pequenos a matar, como acontece em Goiás. Contra a cultura do ódio é preciso implantar o humanismo. Não é verdade que um povo armado jamais será escravizado. O correto seria dizer que um povo armado e instrumentalizado politicamente por um novo nazi-fascismo vai escravizar as oposições e dizimar as minorias, como já estava sendo feito com nações indígenas brasileiras.

É preciso que sejamos todos subversivos no bom uso dessa palavra. Contra essa ideia de um país formado por milícias e milicianos dos mais diversos matizes vamos buscar os ensinamentos de gente como o padre Júlio Lancelotti e tantos outros e mostrar que crianças contêm sonhos. Para fazer um país feliz e alargar a cada dia mais seu futuro basta que a gente permita que elas sonhem.

Não à cultura da violência! Não ao novo nazi-fascismo!    

24 de março de 2023

Decência, coisa sagrada!


Em resposta ao presidente da República, que considerou "armação de Moro" o episódio do ataque aos planos do PCC de sequestrar o senador Sérgio Moro (foto), seus familiares e outros, o parlamentar alvo disse, atacando a figura de Lula, que ele não tem decência. Só mesmo o próprio mandatário sabe se isso é verdade ou não, pois tem seus critérios a respeito. Mas cabe aqui uma pergunta: um juiz de Direito que controla diversos processos onde não há provas cabais contra o acusado, mesmo assim o condena, o retira da disputa presidencial na qual era favorito e depois renuncia às suas atividades de magistrado para ser ministro da Justiça do candidato que indiretamente elegeu pode falar de decência?

O maior erro do presidente de República no episódio foi dar protagonismo a esse senador que vivia quase isolado no Congresso. Ele teve muito mais do que 15 minutos de fama! Lula deveria ter ficado à margem da questão, deixando ao ministro da Justiça e à Polícia Federal as considerações sobre os fatos. Quando falou mostrou que suas mágoas - e ele tem o direito de tê-las se for mesmo inocente - são tão profundas que o impedem muitas vezes de raciocinar com mais serenidade. O que é ruim.

Também provável futura vítima do PCC, o promotor Lincoln Gakiya falou sobre o assunto: "Moro é alvo desses criminosos por conta da portaria que baixou proibindo as visitas íntimas no sistema penitenciário federal. Isso realmente desagradou esses criminosos, não só do PCC, mas de todas as facções. Embora o plano em si tenha sido descoberto em janeiro desse ano, os documentos e informações das investigações dão conta de que está em andamento desde agosto de 2022, portanto no governo anterior. Não há motivo para dizer que foi engendrado pelo governo atual ou algo parecido. Infelizmente, estão fazendo uso político de uma operação de sucesso".

As declarações explicam tudo, inclusive indiretamente, as falas de agora do senador Moro, que se pronuncia sobre a decência dos outros, mas omite o fato de que é o governo atual quem orienta as investigações da PF e deu plena autonomia a ela. Vamos nos recordar de que esse hoje parlamentar demitiu-se do cargo de ministro da Justiça do presidente anterior porque esse estaria tentando tirar dele o comando e a autonomia dessa mesma polícia. Era um teatro isso tudo? Parece que sim.

Mas foram teatros claros e dirigidos os processos que ele comandou na Operação Lava Jato, afastando o atual presidente da disputa de 2018, e que hoje vão sendo anulados um a um. Sempre aprendi - meus pais me ensinaram - que decência é coisa sagrada. Só pode falar dela e nela quem a pratica por princípios e por trazê-la do berço. Moro, por seus atos, está bem distante disso.                

21 de março de 2023

Vai passar...


TRÊS HOMENS: Minha família é composta de três membros. Um demente, um gênio e eu, que sou militar./Todos nós, não sei se vocês sabem, temos um costume: o de à meia noite sair e dar três voltas em torno de nossa casa./Meu parente que é louco dá as três voltas procurando sua estrela de cinco pontas./Meu parente que é gênio levanta-se à meia noite noite e dá três voltas em torno da casa procurando uma verdade./E eu, que sou militar, dou as três voltas procurando o meu deus vermelho. (Oswaldo França Júnior in "As laranjas iguais").

Faz três dias e eu estava numa cafeteria tomando um expresso. Certa mulher de verde e amarelo foi vista por outra sentada na mesa ao lado da minha, que a chamou para conversar. A "patriota" não se conteve: "Passei por um sujeito com camisa do PT e quase vomitei. Tive vontade de esganar. Não suporto essa gente". Quase espumava e passei a acompanhar o monólogo quando ela olhou para mim e perguntou o que era, se eu não estava gostando. Disse apenas: "Não a conheço, não sei quem é e não quero que a senhora se dirija a mim". Ela foi embora vociferando...

Depois da derrota do ex-presidente hoje nos Estados Unidos seus seguidores, e vez de acatarem o resultado, acabaram mais fanatizados, mais violentos. Não pedem apenas intervenção militar, como antes. Na impossibilidade de cercarem quarteis, agora abordam a todos nas ruas, agressivos, arrogantes. E não são apenas os homens. As mulheres acabam tão ou mais amalucadas que eles. Dão voltas em torno de casas, de grupos, pessoas, de estabelecimentos comerciais, sempre à procura de um confronto. Ou de uma estrela de cinco pontas. Ou de uma verdade. Ou de seu deus vermelho.

Estão também no Congresso Nacional. Ou com perucas loiras, ou com discursos inflamados e desconexos ou então tentado emplacar leis inconstitucionais que pretendem cercear a tudo e a todos, mesmo agredindo a Constituição. Um deles se apresenta como "príncipe". Vários outros com patentes militares, títulos policiais, nomes iniciados por "doutor" e vai por aí.

Creio que isso é coisa que dá e passa, como tudo na vida, inclusive ela própria. Mas enquanto não acontece essa turba inferniza a vida dos outros. Oswaldo França Júnior, escritor há anos falecido, era militar, não aceitou ver as forças armadas nas mãos de golpistas e passou o diabo por causa disso. Mas sobrevivemos todos nós até que um genocida e sociopata tirou esse passado de seu sepulcro e fez os brasileiros se lembrarem do que existe de pior neles, como a gente vê na foto que ilustra o texto.

Não tem problema, vai passar...            

10 de março de 2023

A mulher de César


O presidente Lula deveria ler sobre um episódio da história romana que chamaremos de "A mulher de César". Mas vamos começar nos lembrando de que desde sua posse em 1º de janeiro o atual presidente vem marcando a administração atual por decisões para lá de benéficas ao Estado brasileiro. Revogou decretos do governo anterior como o de acesso às armas, reestabeleceu o combate ao desmatamento, está impedindo o genocídio indígena e promovendo mais uma série de outros atos como o que separava as crianças com deficiência das demais, sobre impostos, recriou o Auxílio Brasil de R$ 600,00, o Bolsa Família, o auxílio gás, revogou oito privatizações de estatais brasileiras e, para não nos estendermos muito, está recuperando Saúde, Educação, etc., etc., etc.

Mas o presidente trata desiguais como iguais no plano internacional e isso é ruim. Mandar um emissário a Caracas quase em segredo não pode. E confundir o Daniel Ortega que derrubou o ditador Anastácio Somoza com o de hoje, que persegue até a sombra de quem não concorda com ele é no mínimo temerário. Deixa a impressão de não honestidade pessoal até naqueles sem julgamentos preconcebidos.

Pompeia Sula, mulher de Júlio César, resolveu dar uma festa no palácio somente para mulheres e sem a presença do marido. Publius Clodius, rico e que era apaixonado pela linda jovem conseguiu se esgueirar disfarçado de tocador de lira para ver sua amada. Foi descoberto. Ao tomar conhecimento do fato o imperador determinou que o trapalhão fosse exilado em uma unidade militar bem distante onde ele foi assassinado. Depois chamou a esposa e comunicou a ela a separação de ambos. Pompeia argumentou que  era honesta, no que ouviu do marido: "À mulher de César não basta ser honesta. A mulher de César tem que parecer honesta!"

Cercado por todos os lados pelos detratores, Lula não pode ser condescendeste com não democratas. Tem que exercer crítica pesada sobre eles, lembrando-se sempre de que está substituindo um admirador de ditadores e torturadores e que sobreviveu a uma tentativa de golpe de Estado em 08 de janeiro. Deve pensar também que a corja bolsonarista ainda não desistiu. Aqui mesmo no Espírito Santo ela continua a ser atuante, muito atuante, todos os dias. E não tem o menor apreço pelos valores democráticos.

Seja César, Lula, jamais Pompeia. Ainda que discorde do imperador.          

6 de março de 2023

Juscelino, a bomba-relógio


No campo minado onde o atual presidente Lula foi colocado, o ministro (sic!) Juscelino Filho pode ser a maior bomba-relógio a explodir no colo do governo atual. Em dois meses o sujeito, indicado pelo União Brasil, já cometeu uma série tão grande de desatinos que nem vale a pena enumerar todos. O partido dele ameaça retirar o apoio ao Executivo se houver uma demissão? Dane-se. Prejuízo maior é ceder à prostituição política porque tudo deve ter um limite, e até mesmo na sem limites Brasília.

Vamos nos ancorar somente em um fato, o último, para dizer que esse senhor tem que ser afastado do Governo rapidamente: apresentou nomes de um casal e de uma filha de dez anos, todos moradores em São Paulo, para compor parte do grupo do ministério das Comunicações. A família diz não conhecer a "autoridade" nomeadora. Então o dinheiro que seria pago aos supostos servidores teria outra destinação. Alguma coisa parecida com o que seria feito com as joias presenteadas à Michele Bolsonaro...

O presidente Lula deve usar seus assessores mais capazes (e sagazes) para contornar o campo minado onde está. Cito um exemplo: não foi inteligente invadir as terras da Suzano (foto). Se essa empresa tinha um acordo e não o cumpriu, cabe ação judicial. A Polícia Militar foi até a região, não incomodou os fazendeiros que ameaçavam os membros do MST ao som do Hino Nacional e tomou ferramentas agrícolas do Sem Terra. Também nesse caso cabe ação judicial porque a área não tinha decisão de desocupação, processo algum e ainda por cima não cumpria função social. Cabe ação até mesmo contra a Polícia Militar baiana, que deve considerar brinquedos as armas nas mãos dos fazendeiros e seus sequazes e pás, enxadas e outros como revólveres ou fuzis nas mãos de agricultores.

No campo minado é bom jogar o jogo com inteligência para a extrema direita não ter ainda mais munição a usar nas milhares de armas que adquiriu desde a chegada de Jair Bolsonaro ao poder. Erros são tudo o que eles querem ver o Governo cometendo. É preciso não deixar que ações pouco ou nada inteligentes sejam capazes de desviar a atenção dos brasileiros para outras coisas além dos graves atos de corrupção do governo passado e que envolvem até mesmo tentativa de contrabando de joias.

      

4 de março de 2023

"Contrabandos Bolsonaro Ltda"


O ex-presidente hoje fugido nos Estados Unidos, Jair Bolsonaro, gosta(va) de dizer que comandou um governo "sem corrupção" . Era a forma de, indiretamente, tentar atingir o atual presidente Lula, que carrega esse estigma imposto a ele por várias pessoas ou setores, sobretudo e principalmente pelo ex-juiz Sérgio Moro. Mas não apenas esse ex-capitão é desonesto até a medula como também, e agora está provado, tentou trazer jóias de valor de três milhões de euros contrabandeadas para o Brasil.

Um dia os brasileiros ainda vão contar toda a história do fatiamento da Petrobrás acontecido nos últimos quatro anos, sobretudo e principalmente a venda a preço vil dos gasodutos construídos com o dinheiro do povo de nosso país. Hoje pagamos aluguel pelo uso do que outrora era nosso e que, a custo de ouro, podemos utilizar mediante remuneração aos donos. E não foi só isso. A Petrobrás Distribuidora também foi vendida, da mesma forma que outras subsidiárias daquela que foi uma das maiores empresas petrolíferas do mundo. O que sobrou hoje paga de forma miliardária seus sócios e fechou o último ano fiscal com um lucro líquido de dar inveja a qualquer grande empresa mundial.

Muito certamente por causa da venda de parte da Petrobrás aos sauditas, quando a trupe presidencial esteve na Arábia ,dona Michele recebeu um mimo: três milhões de euros em joias de grife (foto). Seria até legal o presidente obter um presente destes caso isso fosse declarado à Receita Federal e destinado ao Tesouro Nacional. Mas não. Os Bolsonaro tinham outros planos para o ouro e as pedras preciosas que muito provavelmente seriam transformadas em euros ou dólares a serem usados para a compra de imóveis em dinheiro vivo. Ou a outra destinação ilícita. Sim, porque ilícito esse governo encerrado no último dia do ano passado foi do princípio ao fim. Do primeiro ao último dia.

Para citarmos só mais um fato, houve quatro tentativas frustradas de resgate das joias junto às sérias e honestas autoridades alfandegárias do Aeroporto Internacional de Guarulhos. Tudo deu errado. E, miseravelmente, nessas investidas havia a presença de militares extremistas que serviram ao presidente e seu entorno. As investigações também precisam avançar sobre eles, que são a banda podre das forças armadas brasileiras. Fazem um estrago danado e nos envergonham.   

O Brasil ainda precisa contabilizar com calma e apuro todos os danos que sofremos e ainda vamos sofrer em decorrência do último governo, inclusive com a participação do então ministro da Fazenda, Paulo Guedes. A gang que se ocupou do poder fatiado entre amigos e outros tipos de apaniguados como, por exemplo, nazifascistas de carteirinha, destruiu o país enquanto distribuía a propaganda da remontagem de um Estado que teria sido dilapidado por governos anteriores.

A empresa informal "Contrabandos Bolsonaro Ltda", com todas as suas inúmeras ramificações precisa pagar caro por todos os desmandos cometidos de 2019 a 2022. E que foram incontáveis!   

1 de março de 2023

As Domadoras de mentes vazias

A raivosa extrema direita brasileira, hoje representada pelos seguidores do ex-presidente que fugiu para os Estados Unidos, não respeita nem mesmo as tradições populares brasileiras. Agora, mais recentemente foi proibido o desfile de dois blocos carnavalescos no Centro de Vitória, um deles chamado "Esquerda Festiva". Era para fechar o carnaval no qual até as máscaras choraram. E a apresentação foi impedida apenas e tão somente por causa do nome e da natureza ideológica que marca os carnavalescos. Por mais nada.

Quando adolescente e adulto morei algum tempo no Centro, à rua Francisco Araújo, que fica atrás do Palácio Anchieta. A turma gostava de pular nas ruas e nos clubes sociais como Álvares Cabral, Saldanha da Gama. e Náutico Brasil. Sacanas que éramos, muitas vezes convidávamos as "primas" dos números 78, 92, 120 e 130 da rua General Osório para saírem conosco nos blocos "As virgens de Salem" e "As domadoras de serpentes". Nunca fomos proibidos de nada e jamais incomodamos as dignas senhoras puras e casadoiras da sociedade do Centro, que àquela época já era chamado de "Favela de Luxo" pelos moradores dos bairros na região norte, sobretudo os da Praia do Canto.

E olhem: eram tempos duros de ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1969, quando isso aconteceu.

Agora, no porre da viuvez de seu mito Bozo, até mesmo vinho chileno com rótulo em homenagem ao fascista já existe na região dos direitistas de Pedra Azul (foto menor). Em algumas cidades do Rio Grande do Sul e Santa Catarina fervilham os grupos neonazistas, sobretudo de jovens. Que horror! Dois ministros do Supremo Tribunal Federal foram impedidos de fazer palestras em cidades gaúchas por causa de ameaças. E as Forças Armadas, em parte capitaneadas por extremistas que representam a ideologia do ex-presidente, ainda são hoje uma ameaça velada à tênue democracia brasileira cuja construção custou tão caro aos brasileiros de esquerda que lutaram contra a ditadura entre 1964 e 1985.

Gozado, e eu até hoje pensava que o jogo do bicho e seus tentáculos sobre o carnaval e as escolas de samba fossem nosso maior inimigo, o solapador da festa popular que mais reúne gente no Brasil. Surpreso descubro que até agora não conhecia bem o país onde nós vivemos. Aqui pontificam as "Prostitudas de salem" e as "Domadoras de mentes vazias". Que coisa  mais triste!   

25 de fevereiro de 2023

Ninguém é inocente no palco da guerra.


Notem bem uma coisa: o que menos se fala na Europa e nos Estados Unidos - além, é claro, na Rússia - é na forma de se acabar com a guerra da Ucrânia. Como fazer a paz? O presidente ucraniano Volodimir Zelenski quer combate, obviamente ancorado no poder da OTAN e dos Estados Unidos. A esmagadora maioria dos que o apoiam também faz rufarem os tambores de guerra. E por quê? Simples, porque rios de dinheiro são gerados pela indústria bélica mundial e ela tem muito poder.

Com o fim da II Grande Guerra ficou claro que os aliados Estados Unidos e União Soviética eram só parceiros de ocasião e logo seriam inimigos ideológicos declarados. Foi o que aconteceu. Isso gerou a Guerra Fria - aquela que não dispara tiros senão esporádicos -, que só foi terminar em 26 de dezembro de 1991, com o fim da União Soviética. Ainda está para ser escrita a obra que vai explicar como a URSS se dissolveu num passe de mágica depois de ser um bloco aparentemente monolítico durante 73 anos. Mas essa não é a discussão de agora, dessa coluna.

A agressão da Rússia à Ucrânia foi uma estupidez e não pode ser explicada apenas e tão somente por "um ato ditatorial", como querem aqueles que gostam de simplismos idiotas. Na prática, com o 26 de dezembro de 1991 deixou de haver o motivo maior para a existência da OTAN, posto que a "cortina de ferro" estava cerrada. Mas não. Os princípios da globalização impunham aos Estados Unidos continuarem na aliança com a Europa, ampliarem essa rede de "solidariedade" e se aproximarem a cada dia mais das fronteiras com a Rússia. De alguma forma russos iriam reagir. Quando Vladimir Putin fez isso da maneira menos inteligente que poderia existir, sua ação bélica uniu os interesses econômicos mistos do conceito de economia globalizada com os da gigantesca indústria bélica mundial, sempre ávida por vender armas de todas as formas e para todos os clientes, não importam o regime e a ideologia. Eis a guerra como ela é!

Chocam a todos nós os dramas de crianças como as da foto acima? Aos senhores da guerra, não. Também pouco importam os inocentes jovens e velhos que estão morrendo, bem como a juventude fardada em campos de batalha que antes eram até de batatas. Cidades destruídas também podem ser reconstruídas, o que igualmente dá um bom dinheiro a setores da globalização. Tirando os pequeninos sem futuro, ninguém é inocente no conflito Rússia X Ucrânia. Sobretudo os que discursam nos mais diversos pódios falando de liberdade e autodeterminação dos povos.    

13 de fevereiro de 2023

Fake news é poder!


A cada dia que passa mais me convenço de que a regulamentação das redes sociais não é apenas necessária, mas urgente. Afinal de contas é nelas que se sustenta o poder dos homens representantes de grupos políticos de extrema direita que minam as democracias representativas usando principalmente mentiras plantadas e que nós convencionamos chamar de "fake news". No Brasil por exemplo, uma ala do Palácio do Planalto foi transformada em "sala do ódio", onde auxiliares do ex-presidente hoje homiziado nos Estados Unidos produziam carradas de informações falsas diariamente capitaneados pelo filho dele, Carlos. E essa atividade produziu danos imensos à democracia brasileira.

A cientista política norte-americana Barbara Walter estudou profundamente esse assunto no livro "Como as Guerras Civis Começam e Como Impedi-las", editada pela Zahar. E traçou um paralelo entre o que aconteceu nos Estados Unidos em 06 de janeiro de 2021 e em 08 de janeiro de 2023 no Brasil. Para ela, tanto Donald Trump quanto Bolsonaro usaram e ainda querem usar a receita de Viktor Orbán na Hungria para minar as democracias de seus países de dentro para fora com o desmonte das instituições civis garantidoras do Estado de Direito e, em último caso, terminar a obra com uma guerra civil. Esse modelo também é seguido nas Filipinas, na Índia, na Turquia e em Israel, para pararmos por aqui.

E qual é o argumento contra a regulamentação? Dizer que isso afronta os valores democráticos, sobretudo a liberdade de expressão. Balela. Todos os meios de comunicação têm regulamentação para mais ou para menos. Somente as redes sociais ainda não têm porque interessa a príncipes da área como Mark Zuckerberg manter inalterado o poder que as redes sociais possuem. E elas hoje são um poder absoluto, às vezes tão grande ou maior do que o poder de Estado, sobretudo para difundir inverdades e solapar as bases das democracias a partir do enfraquecimento de suas instituições.

Barbara Walter dá uma explicação excelente sobre facções ao dizer que "A faccionalização tem uma característica única: ela é racial, étnica ou religiosa". E como resultado disso sua disseminação e crescimento tornou possível o retorno do conceito da superioridade branca e do cristianismo evangélico como valores. Hoje nos Estados Unidos 80 por cento do Partido Republicano é assim. No Brasil há um projeto muito parecido com ele que se corporifica na ideia de "ministro terrivelmente evangélico" que Bolsonaro tentou implantar no STF e só não conseguiu porque perdeu as eleições.

Lembremo-nos de uma coisa: regulamentar as redes sociais não é atacar a liberdade de expressão, é defender a democracia. Há um grande movimento de extremismo de direita se formando em grande parte do mundo e que precisa ser combatido. Nos Estados Unidos e no Brasil fizemos bem o dever de casa, mas isso não basta. Ontem mesmo Bolsonaro disse nos EUA que a tarefa dele ainda não acabou e pretende voltar. Se abrirmos a guarda ele tentará fazer isso mesmo.    

7 de fevereiro de 2023

O Neto aplicado


Hoje é o dia de divulgação da ata do Copon que manteve a taxa de juros do Banco Central do Brasil em inacreditáveis 13,75 por cento ao ano. E a divulgação dessa ata terá a presença de Roberto Campos Neto, o presidente do BC e um seguidor incondicional do vovô Roberto Campos, o cuiabano que foi guru do pensamento econômico ultraconservador da época anterior e durante a ditadura militar brasileira, à qual serviu com dedicação. Quem não puxa os seus é monstro!

Ontem, quando o Copon se reuniu para traçar suas metas, recebi pelos Correios um impresso de um cartão de crédito que uso. Utiliza a cor vermelha...rsrsrs... Oferecia-me empréstimo de R$ 20 mil a juros camaradas, no ver dele. Calculei o pagamento em 48 vezes, como era ofertado e daria ao final R$ 50 mil. Duas vezes e meia o valor do empréstimo! No prazo menor de um ano as parcelas mensais não estariam ao alcance da maioria das pessoas que usam essa modalidade e, ao final de 12 meses a pessoa teria pago pouco mais de R$ 30 mil. 57 por cento de juros acumulados ao longo desse período.

Minha memória correu para a época da juventude. Morava atrás do Palácio Anchieta e um dia meu avô me deu uma certa quantia em dinheiro e me disse para procurar um certo fulano e acertar com ele a dívida contratada. Fui lá. O sujeito estava tomando cerveja em um bar que ficava na rua General Osório e no pé da Escadaria Doutor Carlos Messina. Falei do assunto e estendi o dinheiro a ele. Agradeceu, se levantou e guardou as notas ao lado do revólver cujo cabo aparecia por baixo da calça. Era um agiota.

Não sou economista, mas reservo-me e direito de questionar as muitas contestações que hoje são feitas ao atual presidente porque ele e sua equipe econômica acham escorchantes ou juros cobrados pelo banco que dita a referência do custo do dinheiro e impacta tudo o mais. Seus defensores julgam que esse é o remédio para o controle efetivo da inflação e eu, no alto dos meus muitos anos de jornalismo e de discussões sobre fatos econômicos me reservo o direito de achar que o remédio pode matar o paciente num Brasil destruído pelo extremismo de direita e que precisa crescer para atender aos pobres.

 Meu avô tomava dinheiro a agiotas na época em que empréstimo bancário era difícil e ele se recusava a dar a casa, seu único bem, como garantia de dívida. Hoje uma administradora de cartão de crédito cobra juros absurdos para emprestar a quem precisa. E por trás disso tudo está o Banco Central e sua política de combater a inflação arrochando o custo dos empréstimos que sufocam a economia. Mas essa é a receita de Roberto Campos Neto, que segue e cartilha do vovô e votou nas últimas eleições vestindo camisa verde amarela, uniforme do bolsonarismo, embora o correto fosse a neutralidade, ao menos em público.

3 de fevereiro de 2023

O samba do Brancaleone doido


Os últimos dias vividos pelo Brasil são mistura do "Samba do Crioulo Doido" com "O Incrível Exército de Brancaleone", de Vittorio Gassman  (vejam seu cartaz). A primeira, música que todos nós já ouvimos e cantamos, é um primor para explicar nosso país meio louco. A segunda é um filme maravilhoso que fala dos delírios malucos de quem quer o poder a qualquer preço em movimentos que sempre terminam mal. O filme foi lançado durante a ditadura militar e exibido sem censura porque os sensores tinham (como ainda têm...) QI de ameba. Tanto a música quanto o filme parecem inspirar o ex-presidente da República fugido nos Estados Unidos, o senador Marco do Val, o ex-deputado Daniel Silveira, o também senador Flávio Bolsonaro e mais a imensa trupe de pobres de espírito e bandidos que formam nossa extrema direita.

Estranho, mas o senador do Val, figura obscura e que desfila cheio de broches da Swat dos Estados Unidos imagina ter encontrado um meio de ser protagonista de alguma coisa. Deu entrevista a Veja (matéria escrita por um repórter que era seu assessor no Senado) denunciando um plano de golpe de Estado por parte do ex-presidente, depois disse que não é bem assim, depois mudou mais um pouco e agora, em entrevista à CNN Brasil falou que vai pedir o afastamento do ministro Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito sobre os atos antidemocráticos e sobretudo o 08 de janeiro. Um plano tosco, denunciado pelo jornalista Otávio Guedes e chamado pelo ministro Moraes ironicamente de "genial".

Nossos doidos são mais perigosos do que os soldados e comandantes do "Brancaleone". O enredo deles bate de 10 a 0 na letra do "Samba do Crioulo Doido". E mostra como um presidente maluco pode gerar insanidade por todo o país. Tanto que em Brasília um extremista de direita fanático gritou a plenos pulmões um "morte ao Xandão" e em seguida se imolou ateando fogo ao corpo. Recentemente, num supermercado, ao ouvir um "feliz 2023", uma certa senhora enlouqueceu e começou a gritar que 2023 vai ser o fim do Brasil porque estamos sendo governados por ladrões. E atacou as forças mal armadas.

Somos, depois de quatro anos de governo genocida e focado em fake news propagadas pelas redes sociais, um país de gente mentalmente doente. Não todos, claro, nem muito menos a maioria. Mas essa minoria que vive num outro mundo é capaz de tanto mal que às vezes se volta contra seu próprio corpo. Ou então grita aos quatro ventos que os extraterrestres vão nos salvar um dia desses. Quando sem outro assunto, podem encontrar a calma rezando para pneus colocados em frente a quarteis.  

São alucinados sem causa e isso é muito perigoso. Mas alguma coisa me diz que dá e passa.        

30 de janeiro de 2023

Nossos índios, nossa vergonha


- Precisamos reconhecer que o Brasil é terra indígena!

Essa declaração foi prestada agora à tarde na Globo News pela repórter Sônia Bridi em fala sobre seu trabalho jornalístico exibido ontem no programa "Fantástico", da Rede Globo. Trabalho de excelente qualidade e que reforça as denúncias sobre o crime de genocídio cometido contra as populações indígenas da Terra Yanomami nos últimos quatro anos durante o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro. Não foi uma ação eventual e nem fruto de descaso. Nada disso. Tivemos no Brasil um projeto criminoso e que visava exterminar os indígenas que vivem naquela região amazônica, a começar pelas crianças. Um nojento plano oriundo da cabeça do presidente, mas com a ajuda "valiosa" de auxiliares como Ricardo Salles, Damares Alves e outros mais, todos ministros de um governo onde ninguém se mantinha no cargo se não seguisse cegamente seu líder. Hitler teria ficado com inveja...

As imagens que nos chegam diariamente da região chocam. Corpos esqueléticos, crianças com desnutrição severa (foto), acometidas de malária em situação que lembra em muito campos de extermínio nazista de durante a segunda guerra mundial. A diferença mais marcante é a inexistência de fornos crematórios, porque no mais tudo parece quase igual. Sobretudo e principalmente o fato de que era um projeto mesmo e colocado em prática por um presidente que fez questão de visitar os criminosos. Falou a eles, deixou-se filmar junto a bandidos porque bandido é. E, mais ainda, o chefe!

Já está provado que informações falsas foram prestadas ao Supremo Tribunal Federal, decisões judiciais acabaram descumpridas, os órgãos de fiscalização, controle e combate a crimes ambientais estão sucateados, a FUNAI virou uma fachada para encobrir o massacre de povos originários e tudo isso tem  nome e chefe na figura daquele que deixou a presidência em 1º de janeiro e hoje se esconde nos EUA.

O que falta para esse sujeito começar a pagar por seus crimes? Porque o Tribunal Internacional de Haia ainda não foi abastecido com provas decisivas contra ele? Já é tempo de esse ex-presidente e seus auxiliares mais chegados conhecerem as barras dos tribunais nacionais e internacionais. Todos, eles sem exceção. Nossos índios já foram nosso orgulho. São os brasileiros que estavam aqui antes de os portugueses chegarem e continuam sendo os cuidadores das terras brasileiras, de onde só retiraram seu sustento. Hoje são nossa vergonha interna e externa porque envergonha qualquer pessoa digna ver o que um governo bandido fez com eles para extrair ouro ilegalmente de suas reservas, acobertado e apoiado por chefões, chefes e chefetes do crime organizado que envolve até madeireiros.

Vamos acabar com isso. É hora de atacar o garimpo ilegal e exterminar esse mal de nossas vidas!                    

27 de janeiro de 2023

Lula, pense antes de falar


Uma das maiores críticas que se fazia ao ex-presidente Bolsonaro era a de que ele só falava para seus apoiadores, estivesse onde fosse. Fazia isso costumeiramente no "chiqueirinho" do Palácio da Alvorada, em discursos de solenidades e até mesmo na OUN, nessa em duas ocasiões. E como Lula pediu no seu primeiro pronunciamento como presidente para ninguém se fazer de puxa-saco com ele, dou minha contribuição aqui: não repita os erros do genocida. E pense muito antes de falar.

Na Argentina Lula usou os locais de pronunciamentos, inclusive quando estava junto ao presidente da Argentina, Alberto Fernández (foto) para alfinetar o antecessor. E em dado momento durante o périplo que envolveu também o Uruguai, ocupou-se do episódio do impeachment de Dilma Roussef para chamá-lo de "golpe de Estado". Nada mais falso. Foi, sim, uma grande injustiça provocada sobretudo e principalmente pela falta de tato da ex-presidente. Nada mais do que isso, pois o processo teve à frente o presidente do Supremo Tribunal Federal, na época Ricardo Levandowski. E esse foi apenas o erro mais crasso.

Lula, nos últimos tempos, ocupou-se do passado praticamente em todos os pronunciamentos. Nós conhecemos seu episódio de 580 dias preso e o fato de que ele proclama inocência aos quatro ventos. E só o próprio presidente pode saber qual é o grau de sinceridade que existe nessas declarações. Também já reclamou do mercado, das reações às suas falas (então era melhor não falar!), do comportamento de parte da oposição e da imprensa marrom. Também atacou o ex-presidente Michel Temer e levou um contra-ataque pesado. Chega, está na hora de parar e focar em frente. No futuro.

Temos um Brasil por ser reconstruído e o chefe do Executivo precisa ser o artífice dessa reconstrução. Sua ministra da Saúde tem falado sempre sobre projetos e os problemas da pasta. Está mostrando serviço, tornando-se importante no governo e jamais usou da sua capacidade de manifestação para atacar os que a antecederam, embora todos sejam "pratos cheios". Sobretudo e principalmente o general Eduardo Pazuello, figura decrépita e que conseguiu ser pior do que Queiroga somente pelo fato de que não era médico e quando abria a boca para tocar em assuntos de saúde, dela só saiam leviandades. 

Que tal, Lula, começarmos a reconstruir o Brasil? Sabemos que você é um pote até aqui de mágoas, mas tente depurá-las. Seu antecessor hoje corre o risco de ser processado pelo Tribunal Internacional de Haia. Como perdeu e eleição, não tem mais meios de exterminar os índios e destruir totalmente a Amazônia. Virou um cadáver politico morto de medo. Não é bom isso? Lute pelos indígenas, ataque de frente o garimpo ilegal e os madeireiros igualmente foras da lei. Proteja nossos ecossistemas, ajude-nos a salvar a Amazônia e entre para a história. Evite pronunciar o nome do genocida. Não se chuta cachorro morto.   

20 de janeiro de 2023

O golpista fracassado


Não se iludam: Jair Bolsonaro só não patrocinou um golpe militar no Brasil porque isso foi impossível pelo menos por agora, pois ele não desistiu de seu projeto. É que uma parte maiúscula da sociedade brasileira hoje rejeita esse tipo de violência e, além do mais, as reações e  repercussões internacionais são tremendamente contrárias. Somente por isso e também porque uma grande quantidade de oficiais das três armas teme um fracasso ou adotou o legalismo por conveniência ou convicção nós não vivemos para ver novamente tanques de guerra nas ruas. Sendo assim, até mesmo os maiores meios de Comunicação brasileiros são contra uma ruptura da democracia agora, embora tenham sido favoráveis em 1964 quando fizeram vista grossa para as prisões ilegais, as tortura e os assassinatos (ilustração).

Claro que houve algumas tímidas reações durante o período militar brasileiro. O jornal "O Estado de São Paulo" publicava poesias nos espaços em que deveria sair uma notícia cortada pela censura. "O Globo" defendia seus jornalistas como podia e o presidente do grupo, Roberto Marinho, jamais demitiu quem quer que seja porque era comunista. Conta-se que uma vez, ao receber de comandantes militares uma lista de profissionais esquerdistas de sua redação, teria dito: "O senhor, general, manda no seu quartel. Na minha redação mando eu". Ele nunca confirmou o fato, mas também jamais o negou. Além disso sempre houve jornalismo de resistência por aqui, quer seja no plano nacional quanto no regional. Com a legalização dos partidos de esquerda e o fim da ditadura eles deixaram de circular. Não eram mais necessários. E fazendo uma homenagem à verdade, aqui no Espírito Santo o jornal A Gazeta também nunca afastou quem quer que seja do trabalho jornalístico por posições ideológicas.

Mas não nos iludamos: da proclamação dá independência até hoje tivemos nove golpes de Estado ou tentativas deles no Brasil, todos patrocinados por nossas forças armadas. O que houve no dia 08 de janeiro fica de fora. Portanto, o golpismo é uma tradição do militarismo brasileiro desde que nos separamos de Portugal. E isso passa por uma herança histórica maldita, pois se entranhou no pensamento do militar brasileiro que as forças armadas são o poder moderador da República, o que daria a Exército, Marinha e Aeronáutica o direito de intervir na vida nacional sempre que estivéssemos diante de uma fase mais conturbada. E não foi por outro motivo que o presidente que fugiu do Brasil no dia 30 de dezembro passou quatro anos produzindo uma crise atrás da outra, sem sucesso.

Foi o nosso único caso de golpista fracassado de alto escalão.               

   

11 de janeiro de 2023

Sem mais negociação

Negocia-se com quem quer negociar. Com quem não quer tem que ser a ferro e a fogo.

Todo mundo deve ter visto as imagens dos terroristas bolsonaristas liberados para responderem a processos em liberdade por diversos motivos sendo levados para fora de onde estavam detidos depois dos atos de domingo. Isso aconteceu ontem. Vimos claramente pela TV vários deles, sobretudo homens idosos, com os braços e os rostos para fora das janelas, acenando ameaçadoramente. Uns faziam "muque", mostrando os músculos dos braços. Não, eles não poderiam ter sido liberados! E também não seria possível liberar mulheres que levaram criança para os acampamentos. Na minha opinião de não jurista, isso deveria servir para agravar ainda mais a situação delas porque, afinal, quem tem a coragem de levar um menor para servir de escudo é criminoso da pior espécie. Principalmente se for um filho.

Agora mesmo circula nas redes sociais um cartaz convocando pessoas para "Mega manifestação nacional" e, pasmem, "pela retomada do poder". Em seguida são listadas as cidades onde o ato está previsto para hoje às 18 horas, com os locais escolhidos em cada cidade. Isso é um desafio, um confronto e não pode acontecer num Estado Democrático e de Direito. Infelizmente até minha cidade de Vitória está relacionada e com o local do ato criminoso sendo na Praça do Papa. Coitado dele!

Dos Estados Unidos, onde o filho mais velho diz que ele "está lambendo a ferida" o meliante Jair Falso Massias Bolsonaro incita os seus seguidores, sobretudo os fanáticos ditos "de raiz". Finge que não tem nada a ver com isso, posta aberrações para retirar em seguida e estuda como voltar ao Brasil porque pode ser expulso dos Estados Unidos a qualquer momento e também há muita pressão para que a Itália não conceda cidadania nem a ele nem ao seu entorno, sobretudo a familícia.

Não há mais como negociar. Depois do que houve domingo em Brasília e com o horizonte que temos diante de nós, o Estado moderno, que detém o monopólio do uso da força, precisa se preparar para isso. Caso o golpismo cresça, caso o confronto seja sempre o previsto, as forças de segurança devem ser liberadas para utilizar armamento letal. E se for preciso, que  façam uso necessário dele.

É uma pena, mas não podemos permitir a destruição do Estado de Direito.  

    

8 de janeiro de 2023

Eles vão perder! Já perderam!


Para quem não viveu esse tempo, posso afirmar que vi a ditadura militar do Brasil. E recordo-me de um episódio dentre milhares que poderiam ser citados aqui: a celebração religiosa pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog, na Catedral de São Paulo. O cardeal Dom Paulo Evaristo Arns o rabino Henry Sobel rezaram por Vlado diante de milhares de pessoas sem poder dizer claramente que ele tinha sido torturado e morto covardemente pela ditadura depois de se apresentar espontaneamente ao Exército para prestar declarações. Não o conheci pessoalmente, mas segundo todos os que conviveram com ele, era uma doce figura. Militante do PCB, foi massacrado por suas convicções políticas. Na época o mesmo aconteceu com o operário Manoel Fiel Filho.

Tenho nojo da ditadura militar brasileira e de todos os canalhas que pedem intervenção militar no Brasil, como foi feito hoje em Brasília. São porcos, nojentos. Durante esse domingo, milhares desses nojentos se aproveitaram da omissão criminosa do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha e do secretário Anderson Torres para destruir parte do Palácio do Planalto, do STF e do Poder Legislativo em "protesto" a favor do genocida Jair Bolsonaro, hoje fugido nos Estados Unidos. Os que o apoiam irracionalmente o querem de volta à presidência. Mas ainda vão se deparar com ele na prisão.

Eles vão perder! Já perderam!

Hoje, na invasões de sedes do poder em Brasília, destruíram tudo o que viram pela frente, mas sobretudo obras de arte. A mais sublime manifestação do gênio humano é a arte em suas diversas formas e talvez isso os agrida porque eles são intelectualmente paupérrimos. Apunhalaram seis vezes um quadro de Di Cavalcanti. Dois vasos chineses de grande valor acabaram no chão. O Di pode ser restaurado, mas os vasos talvez não. Eram propriedade do povo brasileiro e foram destroçados da mesma forma como talvez tenham sido algumas obras de arte que estavam no Palácio da Alvorada. Eles têm horror da cultura.

E eu, repito, tenho horror deles sobretudo porque conheço várias histórias de prisões ilegais, torturas e assassinatos praticadas por aqueles que o canalha Bolsonaro cultua, como o torturador Brilhante Ustra. Talvez tenha sido parcialmente em homenagem a ele que os terroristas atacaram o Poder Legislativo, como mostra a foto acima. Não respeitam a democracia e têm que pagar por isso. Sou um dos brasileiros ainda vivos que podem testemunhar como foi duro, cruel, ter o Estado Democrático e de Direito de volta. E isso me orgulha muito.   

7 de janeiro de 2023

Lula e o "mercado"


Desde antes da posse como novo presidente do Brasil Lula teve que lidar com os maus bofes do "mercado", aí entendidos os diversos setores onde se aglutina o capital do Brasil, tanto o que já está aqui quanto o que pode vir a ser aplicado. E é interessante porque o mau humor não foi notado durante o governo anterior, embora o chefe de Estado tenha dado vários motivos para tanto. Furou teto de gastos várias vezes, trocou inúmeros ministros por outros que atenderiam suas ordens sem questionar, fez uma farra de gastos impressionante, ameaçou de forma clara e inequívoca dar um golpe de Estado no país, além de entregar um Palácio do Planalto com todas as portas internas trancadas e sem chaves e o Palácio da Alvorada com interior quase destruído, o que inspirou a charge que ilustra esse texto.

O nosso mercado é ideológico.

O ministro da Marinha anterior ao atual se recusou a participar da passagem do cargo para não prestar continência ao presidente. Isso é insubordinação, mas não houve nada contra ele. Nem agora nem quando das ameaças de Bolsonaro de romper com o Estado Democrático e de Direito. E isso não aconteceu em homenagem ao espírito legalista de nossas forças armadas, porque elas nunca o foram. Sempre tiveram um pé no golpismo e ele só não aconteceu depois de 30 de outubro porque a maioria dos oficiais superiores teve receio de as coisas darem errado, sobretudo e principalmente por dois motivos: internamente a reação contrária seria forte e externamente o Brasil ficaria muito mais isolado do que sempre esteve de quatro anos para cá. As FFAA não têm vocação para o heroísmo de fachada.

As nossas forças armadas são ideológicas.

Por isso o presidente Lula deve governar seguindo sua cartilha, apesar de em alguns pontos ela não parecer muito eficiente. Deve prosseguir com sua "opção preferencial pelos pobres", mesmo enfrentando os maus bofes dos donos do dinheiro, mas com o olho aberto para a necessidade de termos uma âncora fiscal que impeça o Brasil de gastar mais do que arrecada. Isso é vital para a governança.

E antes que eu me esqueça: vai ser preciso defenestrar a ministra do Turismo. Ela é uma bomba relógio que pode explodir e fazer um estrago imenso ao governo logo no seu início.    

31 de dezembro de 2022

Fim das "cuestões"


No seu patético discurso final em live antes de ir para os Estados Unidos onde vai permanecer tentando ver se a temperatura amorna no Brasil, Jair Bolsonaro, que já pode ser chamado de ex-presidente nos despediu de suas "cuestões". Depois foi para a Base Aérea de Brasília, de onde voou para Miami no avião presidencial com vasta comitiva (foto). Tudo às nossas custas. Mas a partir de amanhã já não terá direito a nada disso e a aeronave tem que voltar ao Brasil. Basta desinfetar e usar de novo.

Por que Bolsonaro, que recebeu a faixa presidencial de Michel Temer, não vai passá-la a Lula? Porque as ações das pessoas têm a mesma estatura delas mesmas. Quem é grande age com grandeza; quem é pequeno, com pequenez. E se o ex-presidente tivesse convicção de ter agido "dentro das quatro linhas" - que termo ridículo! - nos seus quatro últimos anos de presidência, não estaria hoje assombrado pela perspectiva de muitos processos por responder. E nem de prisão por enfrentar.

Bolsonaro já passou. Passado é e com o tempo será julgado pelos brasileiros depois de vencida a paranoia dos acampamentos de militantes fanáticos no entorno dos quarteis do Exército.

Lula, em um dos seus pronunciamentos de anúncio de ministros disse que não precisa de puxa saco. Também acho e então vamos ao fatos. O ministro das Comunicações é um provável erro. E tomara o errado seja eu. Juscelino Filho votou a favor do impeachment de Dilma Roussef e era favorável à privatização dos Correios. Médico e em seu segundo mandato, tenta se apresentar como conservador num país onde esse termo é comumente confundido com reacionário. Vamos ver qual é a dele.

Outra figura muito estranha no ninho é Daniela do Vaguinho, ministra do Turismo. Essa pedagoga que, a exemplo de Juscelino está filiada ao União Brasil, defende a "linguagem neutra" no ensino. Esse é um apelido para a tal "escola sem partido", na prática uma forma de os conservadores/reacionários tirarem o ensino crítico das escolas públicas brasileiras. Ora, tudo o que o aluno precisa, sobretudo em seus primeiros tempos de formação intelectual, é da capacidade de julgar nas ciências sociais.

O perigo das frentes amplas é que se eles se tornarem amplas demais, perde-se o horizonte. Sim, Lula necessita de apoio dos partidos do Centrão para poder tocar seus projetos de governo e reconstruir um país arrasado. Mas abrir muito o leque tem riscos grandes. A ministra Daniela, por exemplo, já foi bolsonarista de carteirinha e defendeu o fugitivo dos EUA com força.

Feliz ano novo, Lula. E boa sorte. 


























Foram escolhas pessoais de Lula, que precisa de apoio desse e de outros partidos do Centrão para governar. Tomara a aposta dele dê certo, mas duvido. O problema das frentes amplas é que elas acabam amplas demais e, com isso, perde-se o horizonte. Pronto, fui crítico.

Feliz ano novo, Lula!             

28 de dezembro de 2022

Devolvam os orixás!


Quando assumiu o cargo de primeira dama, se é que isso existe, Michele Bolsonaro se disse incomodada com a existência, no Palácio da Alvorada, de peças sacras que são de propriedade pública. Assim sendo, ela determinou a transferência para o Palácio do Jaburu - segundo consta - de todas elas, inclusive as de motivação católica como duas santas barrocas trabalhadas em madeira. Mas o mais absurdo foi tirar do salão do Alvorada a tela "Orixás", de Djanira (foto), um quadro de valor inestimável e que para ela é apenas "macumba".

Jamais entrou na cabeça daquela senhora e nem na do marido dela, o presidente, que até domingo eles são meros inquilinos do Alvorada, bem como ele tem o Palácio do Planalto como local de trabalho. Então é difícil aceitar que, por exemplo, no início de seu caótico desgoverno, o presidente tenha mandado desmontar a biblioteca do Planalto. Ele queria espaço para o filho Carlos montar o gabinete do ódio, onde passou quatro anos produzindo fake news para enganar os "patriotários" que hoje ainda montam guarda nas portarias de quarteis em boa parte das cidades do Brasil aguardando um golpe militar ou de extraterrestres. Onde estão os livros?

Se eu me hospedo em um hotel não tenho o direito de mudar o mobiliário que lá está, a não ser com autorização expressa da direção. E ao que consta a direção raramente autoriza coisas como essa. O quadro "Orixás", bem como as representações de santos e outras obras de arte do Palácio da Alvorada pertencem ao Brasil, a nós todos, e não apenas e tão somente atendem aos ditames religiosos da mulher do presidente que fica de joelhos vestindo camiseta com o nome "Jesus" diante de manifestantes.

Nos últimos dois meses nós já vimos gente rezando para pneu, gente levantando aparelho celular para convocar extraterrestres, outros ajoelhados diante de portões de unidades militares pedindo intervenção militar e muitas outras idiotices mais. Chega!!!!! É hora de investir minimamente em sanidade, em respeito à escolha da maioria que elegeu um presidente adversário do atual.

Que ele leve para onde bem entender sua motocicleta de madeira entalhada, a estátua também de madeira que o representa e já foi apelidada de "Jumento de Tróia" e mais os demais presentes ridículos que recebeu nos últimos quatro anos, enquanto destruía o Brasil. Pode enfiá-los onde achar melhor. Mas as obras de arte que nos pertencem têm que ser devolvidas intactas.