20 de setembro de 2023

Sim, o Brasil voltou!

Só mesmo fanáticos, pessoas desconectadas da realidade não conseguem ver que o Brasil de hoje é totalmente diferente do deixado no primeiro dia de janeiro último pelo ex-presidente que ocupou o poder por quatro anos sonhando com um golpe de Estado. A passagem do presidente Lula por Nova Iorque e seu discurso de ontem na ONU (foto) são provas de que nosso país está reinserido no contexto internacional, faz parte de um esforço globalizado de integração mundial, luta pela democracia e preservação do meio ambiente. Não é pouco!

Sim, o Brasil voltou!

Quer a gente faça objeções ao presidente Lula, por exemplo para dizer acertadamente que ele às vezes mete os pés pelas mãos em improvisos, quer queiramos afirmar que seu apoio a governos como os de Cuba e Venezuela representam erros, o que não é verdade, acaba sendo inevitável aceitar que seu esforço em prol da defesa do Brasil é meritório. Apoio incondicional a Lula somente setores mais radicais do PT fazem. Mas apoiar sua determinação de dar protagonismo ao nosso país no concerto das nações e promover o desenvolvimento dos mais diversos setores através de sua luta diária não pode ser evitado.

Continuamos hoje a ser alvos de ações de fake news inimagináveis. Até gente inteligente e supostamente bem informada é capaz de crer que em Nova Deli o presidente furtou três canetas que estavam na mesa dos trabalhos e as colocou na bolsa de sua esposa Janja. Tratava-se de lápis e um bloco de anotações dados de presente pelo governo indiano a todos os participantes do encontro. Da cimeira, como também se diz. Da mesma forma a extrema direita se concentra em custos de hospedagens, de viagens e outros para atacar as ações da presidência. Em viagens internacionais, sobretudo para ações de governo, a hospedagem do chefe de Estado é feita obrigatoriamente onde há facilidade de segurança. Agora mesmo, em Nova Iorque, Lula está em um hotel junto com mais 12 chefes de Estado, inclusive o presidente do Irã. Claro que a segurança é máxima e a concentração das pessoas, obrigatória.

O Brasil hoje ocupa a presidência do Mercosul, do G20 e G77. É muita coisa, mas nós todos ganhamos com isso. No discurso na ONU Lula foi interrompido sete vezes com palmas, o que é importante e inédito no nosso caso. Ele ganhou o direito de errar de vez em quando, mas não deve abusar. Depois de tirar um sociopata da presidência, pode escorregar um pouco. Estamos no bom caminho e agora basta deixarem o homem em paz, apenas alertando-o todas as vezes em que passar dos limites, sobretudo na fala. 

Porque o Brasil voltou!
    

15 de setembro de 2023

O pauperismo político


Henry Waldir Katwinkel (foto), advogado de Thiago Mathar, um dos condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento dos crimes do dia 08 de janeiro era um desconhecido. Mas ficou triste e hilariamente famoso quarta-feira ao defender (?) seu cliente e, no afã de atacar o Supremo, dizer que o pensamento "os fins justificam os meios" é do livro "O Pequeno Príncipe", em vez de "O Príncipe". Por sinal, só existe algo próximo disso em "Comentários às décadas de Tito Lívio". Confundiu Nicolau Maquiavel com Antoine de Saint-Exupéry. Não imagino quem teria ficado mais chocado com esse fato caso um dos dois ou ambos fossem vivos.

Esse advogado é a imagem de nossa extrema direita: sobretudo rasa, raivosa. E foi secundado, se posso usar esse termo, por uma advogada aparentemente novinha e que disse um dia ter tido o sonho de se sentar em uma das cadeiras de ministra do Supremo. Eles todos, pode-se dizer que quase sem exceção alguma, são de um pauperismo intelectual que agride. A advogada chorou enquanto falava aos ministros e pediu por seu cliente dizendo que ele não passa de um menino. Muito minado, talvez.

Hoje mesmo li em um dos nossos grandes jornais que um terço dos eleitores brasileiros votou no PL, Republicanos ou União Brasil nas últimas eleições. Seriam cerca de 73 milhões. Se contarmos com o fato de que Novo, PP e outros menos cotados também habitam esse espectro político podemos concluir que esse terço dos brasileiros é constituído por conservadores. Talvez sim, talvez não. Mas não são fascistas em sua grande maioria. Existe muito antipetismo misturado a esse grupamento e também um imenso contingente de pessoas levadas a uma oposição a tudo o que possa cheirar a esquerda. E por influência de entidades evangélicas que são tudo menos igrejas.

Vamos levar muito tempo para vencer essa situação de penúria em termos de pensamento político, sobretudo e principalmente porque vivemos numa época em que o proselitismo está muito enraizado no jornalismo brasileiro, até mesmo nos meios de Comunicação mais tradicionais. Obviamente eles não são desonestos como os produtores diários de fake news as mais diversas, mas contribuem para a desorientação.

E até que o Brasil acorde de sua turbulenta noite de pesadelos variados no terreno da vida política de dia-a-dia, teremos que tocar o barco vendo as chamadas "redes sociais" inundarem os corações e as mentes dos brasileiros, principalmente os mais influenciáveis, com cocô de galinha concretizado como um turbilhão de mentiras capazes de fazer corar os mais idosos. É o nosso destino. Enquanto não vencemos esse inimigo e conseguimos gerar líderes políticos de excelência, resta-nos assistir vez ou outra à apresentação caótica de um Katwinkel qualquer em julgamento de criminoso político.

Dá vontade de rir, mas também de chorar.   

11 de setembro de 2023

Salvador Allende, presente!


Há 50 anos não havia internet, Whatsapp, nada do gênero. E no dia 11 de setembro de 1973, a exatos 50 anos acompanhamos os fatos relacionados ao assassinato do presidente chileno Salvador Allende pelas agências de notícias ou TVs. No mesmo dia, referindo-se ao episódio, a Polícia Federal entregou nas redações de todos os meios de Comunicação do Brasil a mensagem seguinte: "De ordem do sr. Ministro da Justiça fica proibida divulgação de criticas, por todos os meios, à Revolução naquele país".

Allende não aceitou se render. Desculpou-se com o presidente cubano Fidel Castro, que disponibilizaria um avião para levá-lo a Havana, e também não usou aeronave da Força Aérea Chilena para fugir com o rabo entre as pernas para os Estados Unidos na véspera do golpe de Estado como fazem os canalhas. Reunindo a seu lado os membro do GAP (Grupo de Amigos Personales) que aceitaram ficar com ele até o fim, se entrincheirou no Palácio de La Moneda onde enfrentou os fascistas até ser morto. Augusto Pinochet, o golpista, tomou o poder. A foto acima, com Allende no centro e de autor desconhecido, documenta o fato. 

Na única vez em que estive em Santiago, depositei uma rosa vermelha na sepultura de Allende. Se algum fascista pensa fazer o mesmo com Pinochet, esqueça. Sua carcaça foi queimada e as cinzas jogadas num lugar desconhecido. Quando estava parado diante da cova do grande presidente socialista chileno, uma senhora idosa que acompanhava a cena ao longe dirigiu-me um sorriso terno, mas sem se aproximar. Ainda não era muito seguro.

Durante todo o dia 11 de setembro acompanhei o noticiário da morte de Allende pela agência France Press. O jornal A Gazeta também assinava a UPI, mas dela eu me mantive distante. Lembrei-me da guerra do Vietnã e do fato de que sempre morriam mais vietcongs nos noticiários daquela agência. No dia seguinte os informes dos jornais brasileiros diziam que a deposição do comunista Allende no Chile havia "devolvido a democracia àquele país".

Estranho, porque ele era o presidente constitucionalmente eleito e havia governado respeitando a Constituição do Chile. Mas o governo da ditadura brasileira e que havia sido cúmplice dos Estados Unidos no golpe de Estado haveria de premiar todos os seus aliados incondicionais. No caso da imprensa, com publicidade oficial. A Gazeta, por exemplo, que na época se situava na Rua General Osório, no Centro de Vitória, construiria a nova sede da Rua Chafic Murad, em Bento Ferreira, graças a isso.

Caso o leitor queira conhecer mais sobre esses fatos. basta consultar o livro "Os dois últimos anos de Salvador Allende", de Nathaniel Davis (site "Estante Virtual" tem). O autor era o embaixador dos Estados Unidos no Chile, destruiu a carreira mas contou tudo. Sem omitir nada. Um diplomata incorruptível trabalhando junto ao governo do presidente valente deposto era um risco que os EUA não deveriam correr, mas correram. O resultado foi toda a historia ser revelada. Trata-se, até hoje, de um documento valioso.

Salvador Allende, presente!     

9 de setembro de 2023

Esperneiem, podem espernear

Vejam essa reprodução de foto. Ela mostra a capa do jornal Voz da Unidade número 145, de 24 a 30 de março de 1983. A ditadura militar estava no fim, já exangue, mas ainda respirando por aparelhos. E isso graças a todos os fascistas que sobreviviam à custa dela e lutando para que a democracia não voltasse a fazer parte da vida nacional.

Era o esperneio final daqueles tempos que terminariam em 1985, cerca de dois anos depois. Mas não sem antes a camarilha fascista tentar de tudo para se manter no poder. Fez isso com ameaças, com bombas, com gritos de "intervenção militar" e outras coisas mais. Era o tempo das "Marcha da família com Deus pela liberdade" e que escondiam objetivos escusos. A começar pelo fato de que quem defende uma ditadura cruel, sanguinária e de extrema direita não representa luta alguma pela liberdade. Nem pela igualdade social, o que é mais importante.

Quando esse grupamento de canalhas finalmente deixou o poder no Brasil a gente acreditava que o germe do golpismo, do extremismo de direita, da falta de decoro e de vergonha na cara estivesse indo embora junto. Mas não. Ele renasce na figura de um ex-militar medíocre, que só não foi expulso do Exército porque fez um acordo espúrio de última hora e também por ter passado 28 anos no Congresso Nacional como deputado federal corrupto até conseguir o comando da Nação no rabo de cometa de um ódio insano de parte da sociedade brasileira contra o Partido dos Trabalhadores (PT).

Não vou discutir as razões. Acredito que não caiba. Ainda mais porque até hoje a vagabundagem que apoia incondicionalmente o genocida apeado do poder por vontade popular insiste em que ele foi roubado. Não enxerga que o fato de que todo o aparato do Estado foi colocado em favor do derrotado para que ele vencesse a eleição a qualquer custo. E esse objetivo, por causa disso, quase foi alcançado.

Hoje o presidente Lula está na Índia em mais um esforço para colocar o Brasil em destaque no cenário mundial. Seu governo, graças sobretudo e principalmente aos ministros da Justiça e da Economia além dos demais que foram escolhidos por ele e  não impostos por pressão do Centrão, tem desenvolvido projetos de grande valia para os brasileiros. Sobretudo para aqueles que passam fome e até dezembro último não tinham sequer expectativa de sobrevivência. Vamos ajudar esse governo e, mais uma vez, derrotar o fascismo, mesmo com as eventuais incontinências verbais do presidente.

O jornal Voz da Unidade reproduzido acima é meu. Eu o peguei numa banca de jornais e revistas de São Paulo momentos antes de ele ser empastelado pelos "órgãos de segurança" da ditadura. Vou continuar a guardar esse semanário. Bem como as mais caras recordações que tenho do velho e querido Partidão. Mesmo sem ser do PT e nunca ter tido motivos para aderir a essa legenda, lutarei até o fim para o atual governo dar certo. Ele é a única e real garantia que temos para novamente tentar exterminar o vírus de extremismo.

Que eles esperneiem, podem espernear.        

2 de setembro de 2023

Stanislau nunca morreu


“Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”

Esse pensamento aí acima, logicamente um deboche, pertence a Sérgio Porto, o imortal Stanislau Ponte Preta, e é parte de sua extensa obra muitas vezes humorística e que despia a falta de vergonha do político típico brasileiro. Esse que, hoje, por detrás das cortinas, tenta sabotar o esforço do atual governo para tributar os lucros astronômicos dos chamados "super ricos" e que só são isso porque não pagam impostos.

Procurem reparar: esses políticos que vivem de discursos vazios, defendendo teses sem sustentação na ética e no decoro, fazendo acordos subterrâneos e sustentando a manutenção de todos os privilégios por parte daqueles que os detêm, são os que saem da "vida pública" milionários. Eles discursam todos os dias pedindo, por exemplo, a redução dos gastos governamentais contanto isso não atinja seus artifícios para mandar recursos do contribuinte a suas "bases" via emendas parlamentares e outras modalidades que não passam pelo OK do cidadão e nem são do conhecimento dele.

Os filhotes dessa excrescência são gente como Juscelino Filho, o atual ministro das Comunicações e que só ocupa esse espaço porque, sem isso, o Centrão sabotaria o Estado. Vocês algum dia já ouviram esse sujeito dar uma declaração em nome do Governo? Falar de projetos, princípios, perspectivas econômicas ou então anunciar que o presidente vai fazer isso ou aquilo? Não. E não porque ele foi imposto e a atual administração apenas o suporta no cargo. Mas ele permanece no poder porque assim pode direcionar verba pública aos seus redutos, inclusive para sua irmãzinha prefeita afastada mandar asfaltar a estrada que passa pela fazenda da família.

Sérgio Porto criou vários personagens. Um deles era "Bonifácio Ponte Preta, o patriota", que debochava das ações governamentais de então, todas ligadas à ditadura militar que o governo federal destronado por via eleitoral no final do ano passado tanto prezava. Ele era "patriota" ontem como são os de hoje. Rio até agora recordando-me de quando o Brasil tinha um ministro caricato, o almirante Penna Boto, que certa feita discursou defendendo a invasão da China para que o comunismo acabasse. Stanislau recorreu a seu personagem: "Ao ouvir isso, Bonifácio Ponte Preta, o patriota, espumando de patriotismo, começou a gritar: 'deixa ele ir, deixa ele ir'".

O que nós estamos vivendo hoje é o ápice da falta de vergonha e imoralidade política no Brasil. Essa nossa direita, esse Centrão, essa escumalha é o que nos sabota. Nos atrasa. Sabemos que vai ser difícil destruir esse câncer que o último governo federal tão bem alimentou, fez crescer, mas não há outra saída. Assim como Stanislau nunca morreu, não pode morrer em nós o sonho de resgatar o país com o qual sonhamos.           

23 de agosto de 2023

Deus, o tráfico e as armas


Um belo dia a pastora e pesquisadora ligada à igreja Assembleia de Deus em Nova Iguaçu, baixada fluminense, Viviane Costa, teve uma surpresa em meio a uma aula de teologia em Parada de Lucas. Um aluno disse ter deixado o tráfico e se tornado pastor, a que um outro retrucou se dizendo pastor traficante de drogas e que recebia intervenção divina no combate aos "inimigos". Ela resolveu pesquisar o assunto, conhecer o fenômeno em um mestrado em ciências da religião pela Universidade Metodista até lançar o livro Traficantes Evangélicos: quem são e a quem servem os novos bandidos de Deus.

Em Parada de Lucas mesmo existe um espaço conhecido como Complexo de Israel onde um outro pastor de nome Álvaro Malaquias Santarosa, vulgo Peixão (vejam só!), busca uma associação de nomes sagrados para os cristãos com a violência institucionalizada. Assim como estes há outros. Viviane percebeu que as religiões sempre fizeram parte do mundo do crime e o nome de Jesus vem sendo usado há tempos ligado aos mais diversos contextos de violência. Não são apenas os criminosos que fazem isso: muitos policiais também. Eles são a raiz das bancadas da bíblia que infestam hoje o poder legislativo e dão origem ao que é chamado de fundamentalismo religioso, crença baseada na intolerância e na violência.

Mesmo sem ter base em pesquisas, sempre acompanhei a vida legislativa brasileira de modo crítico, a tentar entender como as diversas correntes de pensamento se associam. Quem faz isso vê hoje que o partido político não é um fim, mas apenas um meio. E que a intenção é chegar ao poder impondo pensamentos que na maioria esmagadora das vezes nada têm de republicanos ou base legal. Dou um exemplo: nada há mais próximo no Brasil político atual que as bancadas da bíblia e da bala. Elas são sócias em interesses que se cruzam no tempo e no espaço. Armamentistas e fundamentalistas religiosos usam a pregação da violência da mesma forma, com a mesma desenvoltura. E se a gente for passar os olhos pela história humana, recente ou não, vai ter que convir que algumas das maiores tragédias da civilização foram cometidas por grupos que agiam e matavam supostamente em nome de Deus.

Ter a consciência de que isso está acontecendo não apenas em nosso país, mas também em muitos outros pelo mundo afora é o primeiro passo para combater essa monstruosidade. Aqueles que professam uma religião têm mais condições de fazer isso que um livre pensador como eu. Mas urge fazer logo. A associação entre crença religiosa, tráfico de drogas e armas de fogo é um risco imenso. E se eu me acho com o direito de matar quem pensa diferente de mim e só por isso, pior ainda.  Nós estamos trilhando esse caminho nos dias de hoje.      

15 de agosto de 2023

Novos ovos de serpente


Faz exatos cem anos que a Alemanha enfrentou a maior hiperinflação de sua história. Foi uma época tão dramática que quando alguém botava as mãos em dinheiro ganho tinha que correr para uma loja e comprar logo tudo o que era preciso e possível. Se demorasse em entrar nas filas os preços poderiam até dobrar (foto). Eram os tempos da República de Weimar, nascida em 1919, após o término da Iª Guerra Mundial quando uma constituição de caráter social e parlamentar foi criada para a transição alemã pós monárquica. A constituição representava um avanço. Tinha preocupações sociais relacionadas ao trabalho, à educação e ao conforto do povo alemão que se preparava para uma democracia representativa. O que deu errado?

Quando a guerra terminou os países vencedores impuseram à Alemanha uma rendição em termos tão draconianos relacionados a indenizações que era impossível pagar. Veio a penúria financeira e o valor do dinheiro deixou de existir. Esse era o caldo de cultura ideal para o surgimento no horizonte alemão de um demagogo capaz de seduzir as massas. Ele chegou na figura de um austríaco, outrora cabo do Exército usando bigodinho ridículo e discursando com muito o ódio e preconceitos raciais. Chamava-se Adolf Hitler. Acabou com a República de Weimar e a democracia em 1933.

Coisa parecida está acontecendo com a Argentina onde domingo foi entronizado um vencedor das prévias presidenciais que em muito e assemelha a esse tipo de gente. Quer acabar com o Banco Central, com o peso, ministérios, quer poder vender órgãos, enfim, fazer uma política de terra arrasada. Não nasceu de espólios de guerra, nem nada parecido com isso. Veio da penúria provocada por políticos incompetentes, corruptos e que levaram os argentinos e enfrentar uma crise econômica sem precedentes. Sem acreditar em mais nada, elegeram o nada.

O problema é que esse tipo de doença pega. Em menor nível consegue ameaçar os Estados Unidos com a figura de Donald Trump, já desembarcou na Hungria, na Itália e anda cercando outros países como a Espanha e, talvez, Portugal. Trata-se de uma pandemia de desesperança que leva povos pouco crentes nas artes da política a acreditaram naqueles que dizem ser contra ela mesmo embarcando nas caravelas dos partidos políticos e das eleições constitucionais para poderem arrotar valentia.

O Brasil tem que tomar cuidado. Um fracasso do governo federal de agora pode nos levar a surfar nessas ondas nefastas. Lutar pelo sucesso - ou ao menos pelo não fracasso - desse governo é apostar em nós mesmos. E nosso futuro. Temos que acreditar que nossas ações não nos levarão a abrir as portas de uma democracia conquistada com tantos esforços ao longo de 21 anos à aventura louca, irresponsável de ver mais um psicopata no poder da República. Já chocamos ovos de serpente em passado não muito remoto de nossa história. Chega disso. Todos atentos, então.              

10 de agosto de 2023

É isso o que nós queremos?


- Qual é a senha?

Ele não sabia de senha alguma. Morava na pensão onde foi preso. Na entrada do lugar estava afixado o prato do dia. Lá haviam sido escritos feijão, arroz, bife, salada, macarrão, coisas como essas. Os policiais que o prenderam pensaram que aquilo era uma senha terrorista e levaram o pobre fotógrafo Gildo Loyola Rodrigues para um quartel. Ele foi cruelmente torturado. Um militar, ao notar que um de seus dados estava machucado, falou: "Vamos machucar mais!" E literalmente esmagou aquele dedo com a coronha do fuzil. As torturas foram tão fortes que Gildo precisou fazer tratamento psiquiátrico  por longo tempo depois de solto. E sequelas ficaram.

Um dia entrevistei meu velho amigo para uma revista de cultura, "A angaba", que infelizmente teve vida curta. Ele se emocionou muito, mas percorreu em palavras todo o seu calvário mais uma vez. Doce figura humana, militava numa célula comunista sem jamais ter cometido violência alguma. Era uma questão de convicção política. Ao final foi inocentado pela Justiça porque nada, rigorosamente nada, poderia ser provado contra ele. Mas, repito, sequelas ficaram.

É isso o que nós queremos? É esse o Brasil que vamos deixar para nossos filhos e netos? Se for, mostrem-me onde fica a porta da saída.

Os últimos tempos têm sido terríveis. Chovem denúncias, todas comprovadas, contra os marginais que governaram o Brasil nos últimos tempos. Deixaram atrás de si um rastro de extremistas de direita, de sonhos de destruição da democracia, de ruptura para com os valores democráticos, de extinção de conquistas sociais que sempre foram caras aos brasileiros. Têm raiva sobretudo e principalmente do fato de que eles, os fascistas, foram artífices da ditadura militar, e nós, os vários segmentos da esquerda democrática, aqueles que trouxeram o Brasil novamente para a normalidade constitucional. Eles estupraram a Constituição. Nós fizemos outra, cidadã, em 1988. Não nos perdoam por isso.

Agora mesmo a bancada capixaba no Congresso Nacional, salvo poucas exceções, é um desfile de figuras bizarras. Algumas dessas pessoas nem sequer são do Estado, mas mesmo assim terminaram sendo eleitas pelo fascismo brasileiro que atende pelo nome de "conservadorismo". Há um preço a ser pago por isso e os que elegeram esses marginais de hoje vão ter a conta pela frente. Até um ex-membro do esquadrão da morte capixaba por pouco não foi feito governador. É o horror tornado realidade.

Há, e sempre haverá opções políticas limpas, justas, honestas, para que nós as elejamos e elas nos representem politicamente em todos os planos da vida legislativa. Basta que os brasileiros se voltem para elas. Não podemos viver num país onde hoje o maior projeto legislativo em pauta agora é o de serem anistiados todos aqueles que cometeram crimes com o dinheiro público, usando-o de forma desonesta nas eleições. E ainda há o projeto de o fundo eleitoral passar dos cinco bilhões de reais. Sabemos que grande parte dessa fortuna vai ser embolsada por desonestos. 

Mas o pior são os planos de destruição da democracia, de anistiar ou absolver todos os que invadiram os três poderes da República em 08 de janeiro na calda de cometa de um projeto de golpe de Estado que o então presidente Jair Falso Messias Bolsonaro tentou orquestrar. Ele sente saudades da ditadura militar e de suas prisões ilegais, torturas e assassinatos. Adotou como seu o "Deus, pátria, família" lema de Benito Mussolini, acrescentando a isso um "liberdade" que amante da ditadura só tem da boca para fora. Afinal, em muitas ocasiões esse indivíduo exaltou o AI-5 e as figuras de torturadores.

Ele ainda quer saber qual é a senha! É isso o que nós queremos?           

8 de agosto de 2023

Outros esquadrões da morte?


"O que você 'ver' aqui

O que você ouvir aqui

Quando sair daqui

Deixe ficar aqui"

Estava na porta do delegado Oswaldo Simões Sales, o Quito, o cartaz com esses dizeres. Eu tinha ido à Superintendência de Polícia Civil na rua Graciano Neves, em Vitória, para cumprir uma pauta da Folha de São Paulo, jornal do qual era correspondente no Espírito Santo. Corria o boato de que um esquadrão da morte ligado à Scuderie Detetive Le Cocq agia no Estado matando pessoas ligadas a crimes e a criminosos. Perguntei ao delegado Quito se aquilo era verdade e ouvi:

- Claro que não. Isso é coisa dos bandidos e dos comunistas.

Naquela época, década de 1970, vivíamos em plena ditadura militar e as garantias individuais tinham sido jogadas no lixo pelos governantes. Era fácil matar e esconder cadáveres. Isso estava sendo feito pelos policiais que acreditavam nas soluções fora e acima das leis vigentes e hoje parece que ao menos os governadores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais são saudosos desses tempos embora estejamos em um estado democrático e de Direito. É possível que o governo do extremista de direita Jair Bolsonaro tenha tirado o monstro da garrafa, agora que já não se pode mais prender ilegalmente, torturar e matar as pessoas, pelo menos por motivos de natureza política.

Menos de dez dias depois da minha entrevista com Quito o cemitério clandestino da Barra do Jucu foi descoberto. Os diversos esquadrões da morte passaram a ser notícia e isso de certa forma conteve a matança ao mesmo tempo em que os assassinos das polícias foram processados e presos. Passaram-se muitos anos até que agora a extrema direita se sentiu confortável para voltar a matar. A justificativa é sempre a de uma troca de tiros, de um confronto armado entre mocinhos e bandidos, claro que sempre com a vitória dos mocinhos e a morte de muita gente que não é bandida.

É hora de uma reação. Quem comete crimes ligados sobretudo ao tráfico de drogas tem que ser preso, processado e condenado. Mas aqueles que usam de uniformes e distintivos para matar por vingança, não importando se do outro lado há inocentes, têm que ter o mesmo destino. Não podemos conviver com a volta dos esquadrões da morte. Já chegam as milícias. Nas últimas chacinas como a do Guarujá (foto), litoral de São Paulo, várias câmaras de uniformes de PMs "falharam" nas filmagens.

Uma sociedade que não sabe a diferença entre o mocinho e o bandido está condenada à barbárie.           

1 de agosto de 2023

Amanhã vai ser outro dia...


Impossível evitar uma associação: vitimado por um câncer ao qual não conseguiu resistir apesar da cirurgia efetuada, morreu em Vitória Idivarci Alves Martins, um velho militante do PCB. Era da época de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e tantos outros brasileiros que resistiram à ditadura militar lutando pela sigla do MDB ou outra como a do PT, mas jamais se entregando. Ao contrário de Idivarci e milhares de seus companheiros de ideologia, nem todos eram comunistas. Tinham em comum o fato de serem patriotas nos tempos em que esse termo ainda não havia sido prostituído pela política brasileira.

Os homens que viveram politicamente nas décadas de 1960, 70 e 80 tinham bandeira. E usavam suas crenças para exercer atividades políticas diárias, seja em partidos ou não. Durante os muitos anos da ditadura, o PCB de Idivarci e tantos outros eram siglas fora da lei. Das leis do governo que estuprou a Constituição brasileira.  E como não podiam erguer as siglas de seus partidos essas pessoas, militavam no MDB. Quem rompeu com isso foi o PT, movimento operário que surgiu para combater a ditadura dentro da legalidade. Era uma colcha de retalhos politico, o que sustenta até hoje. Mas naquela época quem não era?

Não quero - sinto que não posso -  dizer o que houve com a política brasileira para ela desembocar no que é hoje. Nessa escumalha, nessa excrecência que nasce nas câmaras municipais, passa pelos legislativos estaduais e termina em Brasília, na Câmara Federal e  no Senado. A falta de vergonha, hoje, é a regra de comportamento. É ela que permeia a vida do politico brasileiro, que na maioria das vezes não tem ideologia, não sabe a de seu partido e exerce a atividade diária nele porque não pode ser de outra forma. Sua visão começa pelo início de seu mandato e pela necessidade de conseguir a reeleição. Custe o que custar.

Muitos brasileiros acreditam que esse fenômeno vai se aprofundar ainda mais, mergulhando o Brasil na falta de horizontes políticos dignos e na venda de mandatos em troca de uma renovação ao final de quatro ou oito anos. Não creio. Prefiro acreditar que gente como Idivarci e tantos outros não lutaram em vão. Para nós que ainda temos um horizonte nesse Brasil de tantas lutas e que não aceita mais a tortura e a porrada da ditadura como é mostrado nessa foto, amanhã vai ser outro dia.

Há de ser!

20 de julho de 2023

Gargantas profundas

O filme "Garganta profunda", um pornô norte-americano de grande sucesso, foi lançado em 1972. Todo mundo queria ver aquele clássico do boquete, embora esse termo ainda não fosse usado em lugar nenhum. Eu era um deles. E vi. Mas pouco tempo depois o filme de apenas 25 mil dólares de orçamento foi suplantado por outros do mesmo gênero e com produções mais ambiciosas, o que é normal nesse tipo de "entretenimento". Mas o nome ficou. E hoje, coberto de motivos, volto a usá-lo como indicativo do Centrão, o grupo de parlamentares da foto, de "direita" e que tem e comum a goela imensa, capaz de abocanhar o que vier ela frente, principalmente se der bons resultados eleitorais.

É isso o que acontece agora. Pressionado pela necessidade de fazer passar no Congresso uma pauta sua e que justifica o governo iniciado faz pouco mais de seis meses, o presidente Lula tem que ceder espaço na Esplanada dos ministérios a esse grupo que é formado desde ruralistas, passando por evangélicos, direitistas de carteirinha e canalhas das mais diversas matizes. Há um risco nisso: o de quanto mais o presidente ceder, mais o Centrão querer. E ele não se faz de rogado; se os cargos não saírem as votações dos projetos caros ao governo serão derrotadas. Sem choro nem vela.

Não pensem em patriotismo ou nada parecido. O Centrão quer é voto nas próximas eleições.

Muita gente fala sobre esse assunto tentando justificar o injustificável: seria a governança de coalizão ou coisa parecida. Não é. Trata-se de chantagem da mais rasteira possível, capitaneada pelo presidente da Câmara,
Arthur Lyra, e os da goela imensa, sempre ávidos. A fome deles não passa de forma alguma porque o jogo é claro. Todos querem renovar os mandatos e, para chegar a isso, têm que mostrar "resultados" a seus eleitorados. Por isso querem tanto a Saúde, o Bolsa Família e outros setores caros ao governo federal. Para o Centrão querem dizer apenas votos. Nada além disso.

Houve uma época em que os políticos investiam nos discursos falando em governança, projetos, ideologia e coisas mais. Hoje, não: se o governo quer apoio tem que dar espaço. O que significa ministérios com "porteira fechada" e o direito de os ministros e seus sequazes ou  auxiliares, como vocês preferirem,  dirigirem as pastas da forma como bem entenderem, danem-se os planos do governo. Afinal, eles não o representam e muitos sequer vão apoiar as pautas governamentais porque o ministro é colega de partido. Esse negócio - partido - é só um detalhe e eles têm um porque sem a sigla não é possível obter uma série de vantagens do mandato. Só isso. Partido é coisa descartável.

16 de julho de 2023

Os pontos em comum


O que pode haver em comum entre a luta de alguns estados brasileiros pela manutenção de escolas cívico militares (na foto uma de Nova Venécia, ES) e as agressões sofridas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Morais sexta-feira à noite no aeroporto de Roma? Ambos os fatos e mais uma série de outros são a imagem pronta e acabada do que ocorre no Brasil: a extrema direita não aceita de forma alguma o fato de que o presidente que antecedeu o atual tenha perdido a reeleição ao final do ano passado e recorre à violência e ao desrespeito a normas constitucionais para impor sua vontade.

Afinal, eles não têm apego ao Estado Democrático e de Direito. São extremistas. Golpistas.

Pedagogos sérios dizem todos os dias e com argumentos irrefutáveis que esse tipo de escola chamado de "cívico militar" é pobre em termos de eficácia de ensino. Embora mantenham a mesma grade curricular das demais escolas da rede pública, seu comando visa a colocar os alunos sob o tacão de princípios militares deturpados. O MP se manifestou contrário a algumas obrigações como, por exemplo, a exigência de que os alunos cortem seus cabelos longos. E educadores não aceitam o fato de que militares cheguem a receber mais do que R$ 9 mil mensais para dar ordem unida enquanto eles ganhem menos da metade disso para passar conhecimentos aos alunos. Conhecimentos reais.

Mas governadores como o de São Paulo enfrentam a decisão do governo federal e dizem que vão até mesmo aumentar a rede dessas escolas, que hoje é pífia em relação ao todo brasileiro. Cerca de 0,25 por cento. Outros como o do  Espírito Santo simplesmente se eximem de emitir opinião. E o assunto fatalmente vai terminar na Justiça ano que vem quando as verbas dessa modalidade escolar cessarem.

Foi essa mesma Justiça a atacada no aeroporto de Roma por uma trinca de marginais que aguardavam um voo para o Brasil e se depararam com o ministro Alexandre de Moraes. Ele foi chamado de "bandido, comunista e comprado" pela sirigaita acompanhada por dois homens, um deles seu marido. Todos, claro, bolsonaristas de carteirinha. Todos, claro, inconformados com a derrota do "mito" ao final do ano passado. E todos, claro, têm que ir para a cadeia porque até o filho do ministro foi agredido fisicamente por Roberto Mantovani Filho. Ele, Alex Zanatta e Andréia Mantovani, que iniciou os as agressões morais, não respeitam as autoridades constituídas de nosso país. Nossas leis.

Eis os pontos em comum entre os dois fatos. São o fruto do desprezo que as alas de extrema direita do espectro social brasileiros sentem por nossas normas legais. São alguns dos muitos braços desse polvo formador da incivilidade geral da nação e que tenta se perpetuar no 8 e janeiro, insistindo em manter o Brasil na ilegalidade. Ainda não saíram da frente dos quartéis e desconhecem o fato de que os quartéis já saíram da frente deles. Deles e de suas falsas escolas cívico militares cuja principal finalidade é a de subverter a educação de base do Brasil criando monstrengos infanto-juvenis.

Todos estão fazenda falta na Papuda!

13 de julho de 2023

Inoportuno e verdadeiro


Sim, fomos nós os que lutaram contra a ditadura militar de 21 anos e que devolveram o Brasil ao estado democrático e de direito que estava distante fazia tanto tempo. E quem muito bem saudou a Constituição Cidadã de 1988 foi o saudoso deputado federal Ulisses Guimarães quando disse em seu discurso de apresentação da carta magna que "traidor da Constituição é traidor da Pátria". E mais adiante que os brasileiros presos ilegalmente, torturados e assassinados são os verdadeiros patriotas.

Também tenho nojo dessa gente da ditadura. Nojo e ódio.

Talvez tenha sido inoportuna a fala do ministro do Supremo Tribunal Federal José Roberto Barroso (esse da foto) quarta-feira numa reunião da UNE, quando afirmou que os brasileiros derrotaram o bolsonarismo. Derrotaram mesmo e a diferença foi pequena porque o chefe de governo usou de todos os artifícios, principalmente os desonestos, para evitar a derrota na eleição passada. Queimou uma dinheirama imensa para comprar votos, ameaçou, fechou estradas para os eleitores não chegarem às suas seções eleitorais e muito mais. Até ministros das relações exteriores foram convocados ao Palácio do Planalto para ouvir suas queixas. As urnas que o elegeram durante 28 anos foram atacadas porque ele queria votos de papel para alterar o resultado.

Tive amigos presos ilegalmente e torturados pelos órgãos de repressão. Nenhum deles foi assassinado, mas inúmeros outros foram. Para não me alongar cito apenas o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho. A ditadura militar brasileira foi uma sala de torturas. Ela não massacrou apenas aqueles que foram opositores do regime de exceção. mas também inocentes.

1988 só chegou para encerrar toda essa escuridão porque gente como os patriotas da UNE, eu e milhões de outros lutaram contra ela. Os bobões que vaiaram o ministro devem ter se esquecido disso. Mas seria bom que se lembrassem. Que pusessem a mão na consciência. É preciso escolher quem vaiar  e analisar que um ministro do Supremo Tribunal Federal é obrigado a sentenciar olhando a Constituição.

 Sim, o ministro foi inoportuno. Mas talvez nunca tenha sido tão verdadeiro. 

5 de julho de 2023

Lula em sua bolha


Lula, liberte-se de sua bolha!

São seis meses de governo do presidente Lula. Nesse curto período já foram comprovadas melhoras consideráveis em crescimento e inflação em queda, novas regras de despesas, reforma tributária em andamento, diminuição do risco país, redução do déficit das contas externas, aumento da arrecadação sem crescimento de impostos (até o momento), redução de vários preços administrados pelo governo como os dos combustíveis, aumento real do salário mínimo, igualmente da isenção do imposto de renda, combate à fome, luta pela erradicação da miséria, Programa Desenrola Brasil, incentivo à indústria, maior Plano Safra da história, Plano Safra de Agricultura Familiar (sensacional!), merenda escolar com aumento de repasses, início da recomposição do orçamento das universidades públicas, pesquisa e inovação, ensino em tempo integral e verba para infraestrutura escolar, Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, combate à violência nas escolas, revogação de decreto sobre armas, vacinação em massa, transferência para estados e municípios fazerem exames e cirurgias em mutirões com apoio a hospitais, Farmácia Popular, Mais Médicos, Brasil Sorridente, combate ao desmatamento e apoio ao meio ambiente, atendimento às populações originárias, volta do Minha Casa, Minha Vida, Lei Paulo Gustavo, política de amparo às mulheres, Lei Geral do Esporte, combate ao racismo, retorno do Brasil ao cenário mundial da política externa, reajuste do funcionalismo público e Democracia Participativa. Tudo isso com pouco dinheiro porque a maior parte foi criminosamente jogada no lixo pela tentativa do ex-presidente de se reeleger.

Lula poderia, hoje, navegar em águas tranquilas, começando a botar no bolso a oposição parlamentar, sobretudo a criminosa do Centrão, pois o sucesso do seu governo fará com que ela se dilua em água e escorra para o esgoto juntamente com Arthur Lira e suas negociatas. Mas o presidente insiste em ser o defensor público número 1 de Nicolás Maduro, de não ver o que acontece na Nicarágua, de confundir democracias plenas com suas nuances de exceção e em falar sem pensar sempre que pode ou é provocado. Como os provocadores já perceberam isso, vão provocar cada vez mais.

E por que ele faz isso? Lula ainda está preso em sua bolha, a aquela das correntes radicais do PT e que garantiram a ele apoio incondicional durante os anos duros de perseguição política e prisão. É digno ser grato, mas hoje esse ex-metalúrgico é presidente de todas as correntes, sobretudo as de centro, majoritárias no Brasil. Ele tem que dizer aos petistas de raiz que o ajudem ficando a seu lado sempre que possível. Esse governo tem tudo para dar certo e sepultar o bolsonarismo. Não pode abdicar a isso. Destruir as raízes da extrema direita é o que importa e por isso dei meu apoio ao atual presidente nas últimas eleições. Eu e milhões de outros brasileiros. Apenas e tão somente por esse motivo. 

Lula, saia de sua bolha.             

1 de julho de 2023

"Five Came Back"


Ouvi dia desses de um alemão radicado no Brasil que ele não era e a maioria de seus compatriotas também não são violentos ou nazistas. Com um sorriso de ironia, completou: "Nem os alemães orientais, hoje libertos do comunismo, pregam a violência". Imediatamente revi na mente o seriado "Five Came Back" (ilustração acima), que a Netflix apresenta atualmente e que conta a história da ida de cinco diretores de cinema de Hollywood para a Europa entre 1942 e 1945 para documentar cinematograficamente a Segunda Guerra Mundial. Foi uma experiência traumática para todos e os modificou radicalmente no retorno a seu país e às atividades que continuaram a desempenhar pelo resto de suas vidas. Recomendo os três episódios da série.

O que fez dos alemães um povo violento, seguidor em grande parte do nazismo de Hitler? E o italiano de adepto fanático do fascismo de Mussolini? Atrevo-me a dizer aqui que isso em muito se assemelha com o trauma passado por nós nos últimos anos no crescimento desenfreado do "bolsonarismo", um fenômeno político que se parece tanto com um quanto com outro. Podemos dizer sem medo de errar que a derrota de seu motivador, o ex-presidente brasileiro hoje inelegível, tirou o Brasil de um atoleiro institucional grave.

Os alemães não são violentos ou nazistas por natureza ou essência. Nem os italianos ou os brasileiros. Essa não é uma questão de nacionalidade, mas sim ligada a fenômenos sociais que podem eclodir em determinadas ocasiões nos planos nacional ou internacional e levam as pessoas à adoção de comportamentos coletivamente ditados pelos extremismos políticos. Um país como o Brasil pode e deve conviver civilizadamente com ideologias de esquerda e direita, mas nunca ter seu comportamento controlado por visões políticas extremistas, sobretudo da extrema direita, como acontece hoje em muitos países pelo mundo afora.

Freud afirma que, na origem, amor e ódio não concernem às pulsões. Ele explica seu pensamento: "O ódio, enquanto relação de objeto, é mais antigo que o amor: nos primórdios da origem ele tem sua fonte na recusa do mundo exterior que emite estímulos, recusa que emana do Eu narcísico". Ele surge de frustrantes relações objetais, do desprazer. É preciso fazer com que um grupo de pessoas ou até parte considerável de uma população sinta asco de outra, levada a isso por circunstâncias às quais não consegue reagir. E gerar o ódio não é nada difícil se esse grupamento populacional já sente ojeriza por uma dada situação. Aqui nós conseguimos gerar esse fenômeno pela aversão de parcela de nossa população pelo petismo e o comunismo.

Mas os dramas que situação assim geram são terríveis e "Five Came Back" mostra claramente o fenômeno em seu último episódio. Retornar a uma certa normalidade social é tarefa lenta e de sucesso não garantido, ao menos em curto prazo. Mas urge tentar. Numa outra conversa com um conhecido, ao fazer crítica ao extremismo de direita brasileiro, ouvi dele que a esquerda também comete violências. Expliquei: "Isaac Newton, célebre matemático, diz em sua terceira lei que a toda ação corresponde uma reação igual e contrária". É preciso começar combatendo a ação geradora da incivilidade.               

29 de junho de 2023

O processo civilizatório


Quando chegaram ao Brasil pela primeira vez os portugueses se apressaram em rezar uma missa católica. Era o início do esforço por modificar a cultura de nossos povos originários, impondo a eles hábitos e costumes totalmente estranhos ao seu comportamento. Pior, isso é feito desde então, desde 1500 como está representado na pintura acima. Hoje a maioria dos que continuam esse esforço são missionários protestantes e todos são levados por um norte: é preciso civilizar os "índios". Não, não é preciso. O que precisamos fazer é respeitar a cultura do "diferente".

O grande estudioso brasileiro Darcy Ribeiro escreveu, dentre outras obras, "O processo civilizatório". Já faz muitos anos - em 1968 -, mas o texto continua atual. Ele fala como  nós chegamos ao que se convencionou chamar de civilização. Isso foi bom e ruim e Darcy não viveu para analisar os fatos mais recentes: é justamente essa definição intimamente ligada a nós, os que vivem em conglomerados com comunicação escrita e constituição, para citarmos apena dois itens, o que leva grande quantidade de pessoas a verem os povos originários como seres de segunda categoria e não possuidores de capacidade cognitiva para nos acompanhar. Nada mais falso, nada mais racista.

Tudo se resume a uma questão cultural e à necessidade de respeitarmos a cultura específica dessas comunidades. Somente assim vamos conviver com elas de forma harmoniosa e nos preparando para uma sociedade uniforme, mas "diferente". E a diferença significa justamente o respeito aos valores culturais específicos. É por não aceitarmos as diferenças que somos capazes de reconhecer um indivíduo como inferior a nós, seja por causa da cor da pele seja por causa de fazer parte de populações originárias.

Isso cresceu muito nos últimos anos e agora parece haver um movimento, ainda muito tímido, no sentido de educarmos os que chegam à vida para terem em mente que todos somos a raça humana. E só vamos crescer como nação quando entendermos esse fato. Quando decidirmos que um povo civilizado não elege governantes capazes de dizer que as minorias, ou se adaptam às maiorias ou serão eliminadas.    

  

21 de junho de 2023

A marcha da classe média


Peca quem pensa que o fenômeno do extremismo de direita do Brasil nasceu com o ex-presidente Jair Bolsonaro, um fascista saudoso da ditadura militar de 1964 e que viu a presidência cair em seu colo durante a campanha eleitoral de 2018 e depois do episódio da facada em Juiz de Fora. Não, não é assim. Esse comportamento de parcela expressiva da população brasileira remonta até mesmo ao início do período republicano e se fortaleceu imensamente durante os antecedentes diretos do último Golpe de Estado. O ovo da serpente vem sendo chocado há décadas e poucos se preocupam com ele.

Vi isso. Em São Paulo, principalmente, era imensa a legião de pessoas marcadamente da classe média que foram às ruas nas famosas "Marcha da Família do Deus pela Liberdade". A foto acima mostra como a coisa funcionava. Vi ao menos uma vizinha e uma sócia do clube que minha família frequentava na capital paulista envolvidas nos movimentos de 64. A sócia do Ipê, clube que existe até hoje, tentou levar minha mãe para as ruas. Ela agradeceu e disse não. Tinha filhos para cuidar e o mais velho era eu, ainda em vias de completar 14 anos. Mas cheguei a ver uma das faixas que desfilavam com essas pessoas.

Resumindo; o extremismo brasileiro e que muitos chamam de conservadorismo, é um fenômeno intimamente ligado à nossa classe média. Ela era a massa que desfilava nas marchas de 64, da mesma forma como acontece hoje. Esse segmento da população brasileira é tacanho e reacionário. A falta de cultura política de nossa população faz com que milhões de membros do extrato social médio seja facilmente controlável, sobretudo por medo que às vezes vira ódio. Há duas formas eficientes de se manobrar uma população: pelo amor ou pelo temor/aversão a alguma coisa. Hitler sabia disso e uniu alemães contra judeus. Aqui os brasileiros elegeram o comunismo como inimigo público número um.

O Estado e a igreja, principalmente, tornam a classe média massa de manobra. E arrastam com ela parte da classe pobre, marcadamente ignorante, formando o caldo de cultura de movimentos assim e com o patrocínio dos ricos, sempre unidos em torno da defesa de seus privilégios. O que nós vivemos durante os quatro anos do último governo federal e o que estamos vendo hoje são retratos dessa situação. Levar a classe média a entender que ela é usada como massa de manobra, e na maioria das vezes para defender interesses estranhos a ela é o caminho para começar a mudar esse panorama. Um caminho que já deveria estar sendo trilhado há muito tempo no Brasil.        

  

10 de junho de 2023

Os novos boiardos


A revista "Veja" dessa semana traz matéria de capa sobre a força do agronegócio brasileiro. Uma força que hoje se reflete no Congresso Nacional onde uma "bancada ruralista" impõe sua pauta com os mais diversos tipos de pressão. E é fácil fazer isso num país onde o partido político deixou de existir como instituição formada por pessoas unidas em torno de um projeto de poder ancorado em programas que invariavelmente são baseados em princípios ideológicos. Hoje os partidos brasileiros agridem até o princípio do estado laico com a formação de bloco religioso chamado de "bancada evangélica".

Nossas distorções políticas criaram um movimento boiardo moderno. Os maiores representantes do agro, sobretudo aqueles que se intitulam "ruralistas" querem impor suas pautas ao restante do país graças ao fato de que nos últimos tempos têm alavancado a economia, principalmente nas exportações. Os boiardos originais eram, no passado, membros da aristocracia russa e ocupavam posição de destaque só comparada à dos príncipes do império. Inicialmente tinham todos eles raízes no campo e se ocupavam também de alijar do poder decisório os mujiques, esses a imensa massa camponesa sem representatividade alguma. O poder boiardo ocupou regiões onde hoje ficam outros países do leste europeu e, no caso russo, eles só encontraram o ocaso ao final do século XIX, com revoltas contra sua dominação (ilustração) e, em 1917, na revolução soviética.

Que o agronegócio brasileiro é uma força econômica não há dúvida. Que essa força merece ser protegida para render mais divisas ao Brasil, também. Mas a riqueza que ele produz se destina primordialmente ao comércio internacional e nem sempre se corporifica pela geração de bens e serviços destinados aos brasileiros. Nessa área quem atua para matar a fome da população do país são o pequeno e médio produtores, muitos deles praticantes de agricultura familiar e que abastecem a nossa economia com o alimento de cada dia. Nas feiras livres a gente os encontra. Também nos supermercados que adquirem produtos nas "ceasas" espalhadas por todo o "nosso Brasil", como dizem outros.

Então, uma política equânime de apoio e amparo à produção agrícola só se justifica com critérios de Justiça se estiver também voltada aos pequenos e médios produtores rurais. Aos nossos milhares de mujiques e sem que os boiardos modernos sejam privilegiados em detrimento destes.          

8 de junho de 2023

Não haverá "ruptura"'


Logo que o último ex-presidente ganhou as eleições de 2018 um conhecido meu, militante de extrema direita, daqueles que colocam na parede, devidamente emoldurados, os diplomas recebidos na ESG, me convidou a tomar um vinho num supermercado da Avenida Rio Branco, aqui em Vitória (ES). A conversa acabou chegando à política e ele disse: "Bolsonaro ganhou. Sim, mas quem ganhou mesmo fomos nós. Chegamos para ficar e se for tentada mudança haverá ruptura. Pode acreditar nisso."

Em síntese, o golpe de estado estava previsto desde as eleições de 2018. Quero crer que se Fernando Haddad tivesse vencido seria tentado um meio não legal para impedir sua posse. O Clube Militar, no Rio de Janeiro, estava a postos para divulgar informações falsas, sublevar grupos extremistas e espalhar o ódio por todos os cantos. Mesmo depois do final da ditadura militar, em 1985, as viúvas do totalitarismo de direita estavam acordadas e tentando o contragolpe. Nunca desistiram. A constituição de 1988, tão defendida pelas forças democráticas, teria sido rasgada em praça pública se fosse possível.

Acho que meu conhecido tentava me cooptar. Logo percebeu que não seria possível.

O Brasil jogou fora  mais de um trilhão de reais na tentativa de Bolsonaro se eleger. Nunca antes tantos crimes foram cometidos numa eleição que se pretendia fazer à margem das leis. E quando a apuração dos votos derrotou a camarilha, essa colocou em prática seu projeto de destruição da democracia. Foram várias as tentativas, todas frustradas. E até hoje o extremismo de direita tenta emplacar seus planos. Não consegue e, pelo visto, o projeto de uma "ruptura" constitucional foi parar no balde do lixo.

Mas os derrotados continuam agindo. Como sempre, nas sombras. Como é de sua cultura, utilizando-se de todos os meios para chegar ao sucesso. A revelação dos planos de golpe de estado contidos em celulares de criminosos como o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro mostra que vão insistir. A bomba que  não explodiu no Aeroporto de Brasília atesta que eles não conhecem limites.

Nunca mais tomo vinho com fascista. 

4 de junho de 2023

República do rabo preso


A cada episódio novo se torna maior a quantidade de políticos confrontados com suas falcatruas. Como é imenso o número desse tipo de gente fica fácil dizer que vivemos numa "República do Rabo Preso". Agora é o ainda todo poderoso presidente da Câmara, Arthur Lira, quem deve estar preocupado com a possiblidade de se tornar réu em processo por corrupção passiva, o que encerraria sua carreira política. E o caso vai começar a ser analisado na terça-feira.  

O fato remonta a 2012, quando um assessor dele foi flagrado em São Paulo tentando embarcar para Brasília com R$ 106 mil na mala. Era dinheiro de propina para ser entregue ao deputado. Desde aquele episódio Lira dorme assombrado pela possibilidade de ser tornado réu no Supremo Tribunal Federal, perder o mandato e ainda ficar inelegível por oito anos. É o risco que se corre...

No Brasil, fazer esse tipo de negociata envolvendo dinheiro vivo não é novidade. Parece que o artifício se tornou parte da nossa cultura política. Vejam o caso da "familícia" Bolsonaro que acumula mais de cem imóveis comprados nessa, digamos, modalidade. E para o chefe do clã, Jair, esse tipo de coisa não prova nada contra ele. Quando fala sobre o assunto diz que os imóveis foram adquiridos ao longo de muitos anos e por vários de seus familiares. Então, está tudo explicado. Como no caso das "rachadinhas" de todos os seus filhos e apaniguados detentores de mandato.

Arthur Lira fez isso em 2012, o que mostra como a prática é comum há tempos. Na semana que passou um montão de dinheiro que abarrotava um cofre foi localizado pela Polícia Federal em Alagoas com gente ligada ao presidente da Câmara. Aqui no Brasil, graças ao orçamento secreto e outras artimanhas, existe corrupção envolvendo ambulâncias, tratores, superfaturamento de obras públicas e chegando aos cofres residenciais, onde é guardado dinheiro em espécie.

Talvez por isso alguns sonhos de poder como os de Lira, que adoraria ser um tipo de primeiro ministro, terminem não se concretizando. Afinal não basta a ele ter aprovação da imensa maioria de seus pares. Como disse um dia Carlos Drumond de Andrade, "no meio do caminho tinha um pedra". Quem sabe daquelas grandes e que surge nesse caminho justamente quando se encontra dinheiro vivo em grande quantidade em malas, cuecas, etc.

Para eles dessa forma fica mais difícil de rastrear...