23 de fevereiro de 2026

Autocracias e autocratas

Num artigo recente, chamei Donald Trump de psicopata porque esse era o diagnóstico à distância de ao menos dois psicólogos conhecidos. Fui corrigido por uma leitora que o chama apenas de pessoa muito má, ruim. Talvez ele seja as duas coisas como mostra essa foto acima, onde aparece fazendo sua mais célebre careta debochada. Uma coisa é certa: o atual presidente dos Estados Unidos é um autocrata que se julga dono de certo projeto de autocracia. Mas foi contido pela Suprema Corte de seu país pelo menos por agora, embora já dizendo que vai continuar a atacar o mundo com tarifas endereçadas a todos.

Aliás, as tais tarifas são a arma predileta dele, juntamente com os porta aviões nucleares. Esse instrumento, também chamado de imposto, foi criado para que as economias se protegessem em embates comerciais. Existem no mundo todo. Mas têm sempre um argumento, que é o de proteger setores determinados das economias contra ações estrangeiras. Hoje mesmo o presidente brasileiro Lula enfrenta dificuldades para exportar carne brasileira à Coréia do Sul porque os produtores sul-coreanos acham que serão prejudicados. Esses embates fazem parte do cotidiano das relações econômicas entre nações.

O caso do autocrata norte-americano é diferente. Ele disse em mais de uma oportunidade que impunha tarifas de 50% ao Brasil porque o ex-presidente Bolsonaro, genocida, inelegível e presidiário, sofria processos na Justiça brasileira. E defendeu essa decisão enquanto foi possível, ao mesmo tempo mantendo criminosos brasileiros homiziados lá. Em síntese, fez dos EUA coito de bandidos. Isso se estendeu também a outros países que se opunham às suas políticas ou não se curvavam a ele, fato que durou até a Justiça de seu próprio país dizer "chega", o que aconteceu na semana passada.      

O que é um autocrata? A definição mais aceita diz que esse personagem é um governante, líder que detém poder absoluto, inquestionável, centralizado e exerce sua autoridade sem freios legais, à  margem da democracia representativa. Nos regimes em que governantes detêm esse poder despótico temos as autocracias. Isso hoje acontece, por exemplo, na Hungria de Viktor Mihály Orbán, o primeiro ministro. E em outros lugares menos votados, como é o caso do país/prisão El Salvador do caricato Nayib Bukele. Trump se imaginava alguma coisa parecida com isso, mas descobriu que ao menos por enquanto, não é.

Tem seguidores fieis. Como o presidente da Argentina, Javier Milei, que o segue para onde ele mandar porque obtém vantagens pecuniárias assim. O narcocapitalismo é uma forma pouco disfarçada de apoio incondicional às classes dominantes de um país, bem como aos delírios do mentor norte-americano. Na definição clássica da nomenclatura de Milei, ele se encaixa mais no lugar onde instituições legais estão corrompidas pelo poder e pela riqueza do tráfico ilegal de drogas, cartéis controladores da política e da economia, etc. Mas essa definição não cabe na que ele próprio dá ao seu governo que não sabe como conceituar.

Hoje temos no Brasil um quadro no qual a extrema direita política se apresenta com um senador filho de ex-presidente preso sendo candidato à presidência da República e indicado por este mesmo pai presidiário. Talvez em nenhum outro país do mundo um condenado a mais de 27 anos de prisão em processos com carradas de provas contra si possa atuar abertamente em conspiração contra o Estado Democrático e de Direito reclamando de barulho de ar refrigerado, ventilador e demais confortos que nenhum outro preso tem, e ainda ocupando espaço de mais de 70 metros quadrados, maior do que qualquer imóvel do programa Minha Casa Minha Vida criado para aqueles que não têm onde morar sem terem cometido crimes.

É irônico, mas o séquito do ex-presidente preso é fã incondicional de Trump, Orbán, Bukele, Milei e quem mais aparecer no espectro político que tenta ressurgir das cinzas da II Guerra Mundial, como é o caso também de Benjamin Netanyahu, o primeiro ministro de Israel - estado títere - hoje procurado pelo Tribunal Penal Internacional de Haia (TPI) por crimes de guerra cometidos contra o povo palestino. Só que em terras brasileiras, o tal filho candidato a presidente se apresenta como "moderado", politicamente centrista e "apoiador" da ciência, saúde, educação pública de qualidade e do SUS, além de todas as demais bandeiras que puderem dar votos a ele, mesmo com a existência de montanhas de entrevistas e ações recentes e passadas nas quais ele e seus próximos pregaram e fizeram o inverso. Basta conferir.

O maior inimigo dos justos de hoje não são os autocratas e as autocracias, mas sim as quadrilhas de extrema direita política que, no Brasil, querem de volta o poder. Precisam perder!                   

     
 

Nenhum comentário: