Um fato ocorrido recentemente está gerando desconforto e atrai comentários simplistas que pretendem fazer do sigilo da fonte um escudo. Não é. Nunca foi. A pessoa que tentou agredir ou ameaçar um ministro do Supremo Tribunal Federal e foi exposta mesmo sendo fonte jornalística é um criminoso comum. Apenas isso. Sua exposição não compromete o princípio da intocabilidade da fonte jornalística de forma alguma, nem no plano legal. A ninguém é dado o direito de se escudar nesse princípio para usos pouco claros.
Só tive como fonte de informação pessoas da minha estrita confiança e enquanto trabalhei em jornal. E com um compromisso: se ela fosse desonesta seria denunciada.
Vamos recuar no tempo. Demorei muitos anos para obter meu registro de jornalista profissional porque comecei quando esse direito sem curso superior estava extinto. Só quando o curso de Comunicação Social foi criado na UFES pude fazê-lo. Cumpri a exigência legal e me tornei Jornalista Profissional. Mas essa regulamentação não agradava ao empresariado e ao extremismo político de direita. Alegando princípios de livre acesso à informação, um grande movimento foi criado para derrubar a regulamentação da minha profissão e isso foi conseguido. Eram épocas de ditadura e esse discurso distópico acabou pegando. Do dia da destruiçao da regulamentação de minha profissão em diante qualquer um passou a ter direito de obter registro como jornalista. Era o que se pretendia!
Se quero ser médico devo fazer Medicina. Se tenho o sonho de advogar, preciso cursar Direito. O mesmo se meu interesse é por Engenharia e assim por diante. Então, se quero ser jornalista preciso fazer Comunicação Social, Jornalismo. Estou habilitado e isso nada teve a ver com o direito à livre manifestação do pensamento. Mas esse princípio foi pervertido durante a ditadura militar e daí para a frente muitos picaretas ingressaram na minha profissão. Os exemplos são gritantes... Mesmo com o tempo passando nós nunca mais tivemos forças para mudar o rumo das coisas, pois as grandes corporações do setor são contrárias a uma nova regulamentação e dominam o Congresso Nacional. Um Congresso fácil de ser dominado pelo medo e outras formas de pressão ($).
Vou citar um exemplo próximo: existe no Brasil, dentre outras, uma tal Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Rede nacional e usa o termo "Jornalistas" mesmo sendo habitada por raríssimos profisionais do jornalismo diario de jornal, rádio, TV e outros meios. O termo "jornalismo" atrai muita gente. Na AJEB há pessoas dignas, mas também outras que querem atuar mal na comunicação. A extrema direita política usa essa profissão para penetrar nela com o intuito de usar seus recursos em benefício próprio e contra a democracia brasileira. Vou citar um único exemplo: a rede Jovem Pan conta com profissonais dignos - não poucos -, mas também uma vasta trupe que atua para tentar destruir nosso ainda frágil arcabouço democrático. Vive de fake news. E luta todos os dias, sem parar.
Antes de nós nos arvorarmos em defender quem não merece defesa é preciso analisar o que está havendo. Como as coisas se passam e se passaram para não fazermos da legislação que protege o sigilo da fonte um coito de bandidos. Ora bolas; se é tão importante a defesa do jornalismo, então é hora de tirarmos das gavetas os projetos de regulamentar novamente a minha profissão. Ela merece esse respeito perdido durante a ditadura sob o manto falso de uma "liberdade de informação" que em nada serve ao interesse público.

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