24 de fevereiro de 2021

O silêncio de Paulo Guedes grita!


De Superministro da Economia a Anão de Jardim, aquele que só serve para enfeitar, foi pouco mais de um pulo. Depois de Sérgio Moro, o "superministro" da área da Justiça, foi a vez de Paulo Guedes ser aos poucos desidratado, perder protagonismo e acabar humilhado com a demissão do presidente da Petrobras, da qual tomou conhecimento como nós outros: pelos meios de Comunicação.

O presidente ao qual ele confiou seu status empresarial para obter prestígio pessoal colocou mais uma vez em funcionamento o princípio do "só eu detenho poder no nosso Brasil, tá oquey?". Guedes não notou que aos poucos ficou sendo desnecessário. Desidratado. Dispensável. E que para Jair Messias os únicos indispensáveis são aqueles que têm o sobrenome Bolsonaro de nascimento ou casamento. Registrados assim em cartório. Mais ninguém. Nenhuma outra alma penada como inúmeros ex aliados podem comprovar. Perguntem sobre isso ao "amigo incondicional" Henrique Mandetta, por exemplo.

O silêncio de Paulo Guedes grita! Berra! Urra! A apatia dele na última reunião com Bolsonaro e também no Legislativo fala mais alto que qualquer outra coisa. Tentem se lembrar das imagens mostradas: era um homem derrotado, humilhado, calado, com todo o seu poder subtraído, quase de cabeça baixa. Mas que cumpriu o papel reservado a ele sem protesto público.

Por que Guedes se deixa humilhar? Para muita gente lotada em Brasília isso representa um desafio. O mesmo que dizer: "Assuma o desgaste de me demitir, presidente!". Penso muito diferente. O derrotado assessor de primeiro escalão participa das artimanhas de poder desde antes do atual presidente assumir o cargo. Conhece todas as manobras, estava ao lado de seu chefe na totalidade dos momentos mais difíceis e sabe como se manifesta a sociopatia do chefe de Estado. Tenho convicção de uma coisa: se ele se tornar "inimigo" muitos tipos de retaliações seus negócios empresariais poderão sofrer. A começar pelo fato de que os amigos e o gado não mais usarão os Postos Ypiranga... 

O anão de jardim, tenho convicção, é agora refém do esquema de poder que ajudou a montar. Porque, digam o que quiserem dizer os membros do gado bolsonarista, nas mentes totalitárias, nos esquemas de poder onde o termo "democracia" não passa de mera figura de retórica, o destino dos que discordam pode não ser apenas o adeus. Pode significar prejuízo muito maior.                    

17 de fevereiro de 2021

Eles não cohecem limites

Daniel Silveira se recusa a usar máscara no DML 

Pensando no caso do deputado federal Daniel Silveira, que está preso na Polícia Federal do Rio de Janeiro, veio-me à mente uma convicção: qual é o limite para os "bolsonaristas de raiz" quando se trata de defender seu deus vivo? Acho (ou tenho certeza?) de que eles não conhecem limites.

Antes de gravar um vídeo de 20 minutos usando os termos mais chulos possíveis para se referir a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) esse deputado do Rio de Janeiro já havia praticado os atos mais bizarros de que se tem ideia. Teve que ser retirado de um avião de carreira à força porque se negou terminantemente a colocar máscara de proteção anti Covid-19. Por sinal, fez o mesmo desacatando uma policial do DML quando, preso, foi passar por exame de corpo de delito.

Ao ser detido gravou novo vídeo no qual diz já ter sido preso 80 vezes. Todos os que o conhecem sabem que se trata de uma pessoa absolutamente desqualificada, capaz de qualquer barbaridade em nome da "proteção" do presidente que defende. Mais ou menos como suas colegas de Parlamento Bia Kicis e Carla Zambeli. Eles não são os únicos a formar uma espécie de linha de frente presidencial.

Aliás, tenho convicção de outra coisa: Bolsonaro está lutando como louco pelos decretos das armas para ter a garantia de que todos os seus seguidores violentos estarão armados até os dentes para qualquer eventualidade. Sobretudo no próximo ano. Que outra justificativa se pode ter para essa fixação dele por armamento pesado, a ponto de soltar decretos  numa sexta-feira véspera de carnaval e depois ir fazer pesca submarina em Santa Catarina como se uma pandemia horrorosa não estivesse tirando a vida de milhares de brasileiros?  

Bolsonaro é sociopata. E ele se sente bem entre seus iguais. Por isso ficou calado durante todo o dia de hoje enquanto o STF decidia por unanimidade manter a prisão de seu deputado federal. Vai esperar para ver o que acontece, o mesmo ocorrendo com seu clã e parentes. Ou então dispara seguidos telefonemas para deputados da Câmara Federal para pressionar pela ordem de soltura de Silveira. É uma aposta perigosa, mas faz o gênero dele de esticar a corda ao máximo para testar os limites das instituições.

Afinal ele não tem respeito por nenhuma delas.              

9 de fevereiro de 2021

O lado mais fraco


Desde muito tempo os mais velhos costumam dizer aos mais novos: "cuidado porque a corda sempre rompe para o lado mais fraco". E é verdade. O próprio vice-presidente da República, general Amilton Mourão (esse da foto), já disse sobre as crises de seu governo que não se deve esticar muito a corda. Claro, ele sabe o que está dizendo e tem larga experiência nesse assunto.

Agora, depois de seguidas crises entre ele e o presidente da República Jair Bolsonaro, acabou ficando fora de uma reunião ministerial. O segundo mais alto executivo federal da República foi simplesmente desconvidado pelo principal mandatário para uma reunião ministerial. Perguntado sobre o assunto, disse que sua presença naquele encontro deveria ser desnecessária. Não é tão simples assim.

Os desentendimentos entre Bolsonaro e Mourão são vastamente conhecidos. O vice não faz o gênero que o presidente gosta. Bolsonaro adora gente do tipo Eduardo Pazuello, aquele do "uns mandam e os outros obedecem", o especialista em logística (sic!) e que ocupa o ministério da Saúde justamente por obedecer cegamente às ordens do chefe. Por isso a dupla já vem sendo conhecida como "capitão Cloroquina a e general Placebo". Pura maldade, claro, dos brasileiros ainda vivos...

O episódio de ontem, da reunião ministerial sem o vice, confronta um presidente com seu mais direto auxiliar. Um capitão com um general. Aquele que deveria estar junto com ele na "linha de frente", como costumam dizer os militares. Que deveria ser anteparo em qualquer crise, em qualquer situação. Inclusive para ocupar a presidência em caso de viagem oficial, por exemplo. Como fica isso agora?

Bolsonaro é um capitão reformado para não ser expulso do Exército. Era um medíocre militar da ativa e depois se tornou um político inoperante desse mesmo Centrão que hoje abraça em seu governo, tornando-se refém dele para não sofrer um processo de impeachment. Então, já desgastado entre alas expressivas de setores militares importantes, rompe talvez definitivamente com o general vice.

Vovó diria que ele é hoje o lado mais fraco da corda esticada.         

28 de janeiro de 2021

Todos do mesmo nível


Definitivamente o presidente Jair Bolsonaro não respeita a liturgia do cargo que ocupa. Pior; talvez nem saiba o que quer dizer esse termo. Mas isso todos nós já sabíamos. No episódio de ontem, quando ele foi a uma churrascaria com "apoiadores" e falou aos jornalistas: "vai pra puta que pariu, porra! É pra enfiar no rabo de vocês da imprensa", referindo-se ao episódio dos gastos do governo, notadamente com leite condensado, uma pessoa ao seu lado riu muito dos palavrões proferidos e até bateu palmas efusivamente. Fiquei pasmo. Era o ministro das relações exteriores do Brasil. Basta olhar a foto que ilustra esse texto e é de IstoÉ.
O ministro Ernesto Araújo está próximo a seu ídolo, olhando. Isso segundos antes do acesso de falta de educação presidencial. No momento em que este se comporta como um desqualificado, Araújo, que segundo o vice-presidente Mourão está no estertores de sua atividade no cargo, abre o sorriso, bate palmas e participa das comemorações dos demais que gritam "mito" várias vezes. Esse apelido Bolsonaro tem desde jovem quando, muito magro, era chamado de "parmito", termo usado no interior. Mas isso não vem a esse caso.
Dois fatos devem ser considerados. Primeiro, que os gastos referentes a 2020, embora imensos para tempos de crise econômica, referem-se a diversos setores do governo federal e não apenas a presidência. Mas muitos itens estão supertafurados. Isso merece críticas pesadas. E como o presidente não respeita ninguém, atrai para si o escárnio de todos refletido nos "memes" que acompanham seu dia-a-dia. Não pode reclamar deles de forma alguma. O segundo é muito importante. O cargo mais cerimonioso de um governo é sua chancelaria. O titular torna-se responsável pelas relações diplomáticas entre o país que representa e todos os demais. Se não tem estatura para tal, compromete suas funções, o que pode ser danoso. No caso atual, o Brasil jamais teve em sua história um chanceler tão inexpressivo. Tão deslocado de suas funções. Ele representa tão mal nosso país que atualmente nem é recebido por chefes de Estado. Isso repercute no isolamento diplomático brasileiro da atualidade pois, além de não contribuir para diminuir o afastamento brasileiro dos outros países importantes, ainda agrava o quadro.
O episódio da churrascaria, indigno de ser vivido por chanceleres, destoa totalmente das tradições brasileiras nas relações internacionais, tão respeitadas no passado. Nós fomos um país modelo nessa área, onde nos notabilizávamos por uma linha de serenidade, não interferência nos assuntos internos de outros governos, além de contribuirmos para, sempre que possível, restabelecermos a paz em momentos de crise. Nossos embaixadores e chanceleres eram referências no plano internacional, sobretudo por seu preparo intelectual. A diplomacia brasileira sempre foi modelo. Até isso, desgraçadamente, está sendo destruído nos dias atuais.
Resta um consolo; o governo Bolsonaro é do nível de seu ministro de relações exteriores.

10 de janeiro de 2021

"Lá eu como!"

- Lá pelo menos eu como!

Foi essa a reação do morador de rua do bairro de Jardim da Penha, em Vitória, ao ser detido por um policial militar após ter sido surpreendido tentando roubar dinheiro de uma senhora que deixava um dos supermercados do lugar. Para ele a prisão era a garantia de ao menos duas refeições diárias sem ter que mendigar, roubar, invadir prédios à noite ou consumir drogas para fugir à realidade e enganar a fome.

Dia desses, ao entrar numa das agências bancárias do bairro, tive a reação de puxar rapidamente o braço para não ser tocado por um dos mendigos que me abordava junto à porta de entrada. Eles se colocam em bancos, estabelecimentos comerciais diversos, pontos de ônibus, praças. Quaisquer lugares onde seja possível mendigar ou dormir nas calçadas com trapos velhos e papelões de caixas.

- Caramba, senti nojo de um ser humano que passa fome! - pensei eu.

A miséria cresce no Brasil em uma velocidade cavalar de dois anos para cá. Pode parecer preconceito político, mas não é: eis o Brasil de Bolsonaro! Nu e cru!

Segundo dados do IBGE, hoje temos 14,5 milhões de miseráveis absolutos nesse País e a multidão aumenta sem parar. Pessoas que não têm onde dormir, se lavar, fazer necessidades fisiológicas com dignidade, se alimentar. Que não conseguem ver algo no horizonte. São, na maioria dos casos, drogados e que não mais se interessam em sair das ruas. E quando para eles a prisão é a liberdade ao menos para parar de sentir fome, então é preciso a gente pensar se essa sociedade na qual vivemos agora é mesmo de homens livres. Porque não é, ainda que se queira esconder a realidade com uma peneira.

Recentemente dois desses homens brigaram por "ponto" nessa mesma Jardim da Penha que já foi um paraíso de tranquilidade para a classe média capixaba. Um dos dois, que ostentava a testa rachada em outros confrontos, terminou morto. Houve aglomeração, chegou a polícia, foi identificado o matador e o cadáver do morto acabou no IML. Meia hora depois, calçada lavada, tudo seguiu a vida normalmente, como se nada tivesse
ocorrido. Sim, o morto era nada.

O morto em briga de rua
Pela cidade de Vitória, como de resto por todas as cidades brasileiras, a miséria ocupa as ruas. Cresce como um câncer social que não vai ser extirpado porque a política oficial do governo federal, o Brasil de Bolsonaro, não quer acabar com a miséria. Seu foco "do capital, pelo capital, para o capital", é fazer com que os miseráveis morram. Assim eles deixam de ser problema.

Infelizmente para os mandatários atuais já não se pode agir da forma como era "solucionado o problema" na época de Carlos Lacerda, no Rio de Janeiro, quando "invisíveis" eram mortos e jogados no Rio Guandu. E olhem que o Rio de então era um paraíso perto do de hoje! Aqui nós temos alguns rios e o mar para jogar cadáveres. Mas, nesses tempos onde todo mundo tem uma câmara e uma filmadora acopladas ao celular, fica perigoso matar dessa forma. Sai no jornal e dá na TV.     




6 de janeiro de 2021

E nós não vemos isso...

Claudino de Jesus, médico e um velho camarada por quem tenho profundo respeito e que assessorou a última gestão municipal de Vitória, resumiu em poucas palavras os primeiros atos do novo prefeito da Capital, o delegado Pazolini que na foto aparece em campanha ao lado da vice, uma militar: "O maior desmonte já visto. Uma catástrofe. Tratorou todas as políticas públicas em curso em nome do dito "estado mínimo" e o incremento das pautas conservadoras."

O prefeito iniciou seu mandato "impondo" à Câmara textos legais que os vereadores não tiveram tempo de analisar. E nem querem. Eles sabem o que querem. Depois exonerou praticamente todos os servidores municipais de cargos comissionados. O que vem aí é a tal gente "terrivelmente evangélica", que dentre as pautas que possuem a principal é a de tentar obrigar todas as demais pessoas a pensar como elas, sobretudo no terreno religioso. Estado laico? Que se dane esse conceito tão estranho.

Pazolini não é apenas um fruto do "bolsonarismo de raiz". Que me perdoe Claudino, mas ele também é cria dos incontáveis erros políticos que a esquerda e a centro-esquerda brasileira cometem há tempos. Fabrício Gandini, do Cidadania, tinha tudo para administrar Vitória, mas o prefeito Luciano Rezende, ligado a ele, fez questão de brigar com vários setores da população da cidade, sobretudo na Praia do  Canto onde fez inimigos com arrogância e se negando a atender a pedidos ligados a ciclovias e a participar de reuniões. A vingança veio nas urnas. A mínima diferença entre Gandini e Pazolini no primeiro turno representa os votos perdidos pelo "patrono".

No plano nacional a oposição ao governo de extrema direita de Jair Bolsonaro não se fecha em torno de um nome para conquistar Senado e Câmara. Pode acabar perdendo. Da mesma forma, está há anos luz de distância de entronizar seu candidato à presidência da República, mesmo sabendo que o "capitão" não passará de 30 por cento nas urnas se enfrentar um grupo monolítico. 30 por cento são o "gado".

Pazolini venceu se mostrando um moço bom e demonizando o opositor do PT. Bolsonaro se elegeu dizendo que iria combater a corrupção e, além de louco, tenta de todas as formas esconder os atos corruptos seus e de seus familiares. Pessoas morrem de Covid-19, nosso meio ambiente queima, cargos são loteados com o Centrão e não há luz no fim do túnel.

Mas  nós, da oposição, não conseguimos ver isso.

14 de dezembro de 2020

A risada da hiena


Um dia desses estava prestando atenção na risada do presidente da República, uma das milhares que ele dá por qualquer motivo. Sim, porque tudo é despropositado naquela risada sem propósitos claros. E debochada. Então tentei comparar aquilo a alguma coisa conhecida. Encontrei paralelo somente na risada da hiena, o bicho estranho, comedor de carniça e que vive na África.

Alguém me pediu para ler um artigo de pesquisadores da Universidade da Califórnia sobre o ruído emitido por aqueles animais. Eles chegaram à conclusão de que a risada deles expressa frustração. A conclusão é de que os bichos riem de maneira diferente de acordo com a sua posição dentro do grupo. Então, no caso deles, animais gregários, dão risadas quase sempre para não chorar. Literalmente.

No caso do presidente, sou capaz de dizer que aqueles sons de palanque expressam sobretudo insegurança. Medo de não conseguir realizar seus planos, projetos. Por isso Mandetta se tornou um empecilho. Por isso o mesmo aconteceu com Moro. Agora talvez com Mourão que, infelizmente para essa hiena palaciana, não pode ser pura e simplesmente afastado de seu cargo.

Bolsonaro demonstra preocupação. Não apenas porque não consegue fazer as pessoas acreditarem que é preciso milhares morrerem para a pandemia acabar sem que ele seja ao final responsabilizado por essa aberração, mas também porque ainda não tem certeza de que a tática de seu ídolo Trump vai dar resultado nos Estados Unidos. É quase certo que não e por isso ele vai ter que importá-la para cá com diversas modificações além do grito de: "Houve fraude, gado!"

Pena, mas isso é teatro de baixa qualidade. Mambembe, de lona rota. O incrível é ele manter hoje um grupo de apoio tão grande apesar do baixo nível de suas apresentações, como mostrou a pesquisa do Data Folha. Sou capaz de apostar que essa popularidade vai minguar, se reduzir como risada de hiena em final de carreira. O bicho que causa medo, repulsa e quando morre o leão esfomeado se recusa a comer sua carne. Dizem os pesquisadores que por ser de péssima qualidade.         

7 de dezembro de 2020

Suprema é a Constituição!


Nos últimos dias o Brasil parou para acompanhar o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da questão envolvendo a sucessão na Câmara e no Senado. Os atuais presidentes podem ou não tentar a reeleição? E a resposta da maioria dos ministros foi "NÃO". A Constituição taxativamente não permite. Assim sendo o caso está encerrado. Suprema é a Constituição!

Mas por que essa questão envolveu tanta paixão e acirrou os ânimos da forma como acirrou? Porque o presidente da República se julga dono do País. Porque, para ele, tudo deve se curvar a seus ditames, à sua verdade geralmente baseada em nada. Ou menos um pouco que isso. Ele não quer o atual presidente da Câmara no cargo; quer outro e agora vai fazer o que sempre tenta: interferir em outro Poder.

A Constituição diz que as casas legislativas não podem continuar com as mesmas mesas diretoras no curso de uma só legislatura. Deve haver alternância porque isso é benéfico para a democracia. E a nossa chamada "carta magna" foi escrita e promulgada quando estávamos saindo de uma ditadura militar de 21 anos. Era preciso garantir ao Brasil um sistema de alternância, o que foi feito.

Posso dizer que, pessoalmente, preferiria uma Câmara e um Senado longe do tacão do presidente. Mas isso caso as leis em vigor previssem tal hipótese. Como não permitem, vai ser preciso haver uma eleição para que a maioria escolha outros chefes de casas legislativas. Podemos no máximo torcer para que seja feita a melhor escolha. Aquela que atenda aos interesses do Brasil. Como disse hoje a juíza aposentada Denise Frossard no Facebook, que sejam eleitos "parlamentares com currículo e não folha corrida".

Quando um presidente usa seu poder nos limites ditados pelas leis, sobretudo pela Constituição, ele conhece as fronteiras, os tamanhos máximos de sua autoridade e não os ultrapassa por apreço e amor à democracia. Quando o STF tem a Constituição como seu Norte, também não precisa de um 6 a 5 para que ela seja respeitada. Desse modo evita pesadas nuvens de tempestade sobre seus telhados.

Suprema é a Constituição que emana do povo!        

2 de dezembro de 2020

Mas então já era tarde...


 Fui amigo de Hélio Demoner (foto de arquivo pessoal) durante cerca de 47/48 anos. Primeiro, acompanhando o veterano jogador de basquete e depois dirigente no Saldanha da Gama. Depois, um jornalista e outro professor universitário, cobrindo as múltiplas atividades dele à frente dos esportes, sobretudo o "bola ao cesto", como às vezes falávamos acerca de seu esporte preferido. Até que em abril deste ano rompemos a amizade. Por isso a notícia de sua morte dói tanto e tão intensamente em mim.

E foi tudo por causa de política. No dia em que ele me chamou para entrar nos grupos de apoio ao tal Bolsonaro, primeiro aceitei para espionar, mas logo em seguida senti-me na obrigação de dizer a ele que estávamos em lados opostos. E o afastamento começou imediatamente.

Demoner, dentre inúmeras outras atividades, criou os Jogos Abertos Jerônimo Monteiro, os JAJEM. Por que o nome? "Para abrir as portas da Rede Gazeta", ele respondeu. Dirigiu os JAJEM por 23 anos, a maior parte do tempo contando com minha ajuda para divulgar ao máximo a iniciativa. Era tremendamente meritória, pois visava ao esporte da meninada, do início, da fase da paixão esportiva. E revelou muita gente boa. Poderia muito bem ter outro nome e teria o mesmo mérito. Mas acabou morrendo de inanição mais de duas décadas depois com o pauperismo dos esportes amadores capixabas contra o qual lutei tanto...e não adiantou nada ter aquele nome.

Hélio era um professor muito querido na UFES. E também um entusiasta pela história dos esportes. Guardava centenas de fotos, vídeos, depoimentos de muitas pessoas. Um arquivo valioso. Espero que esse acervo não seja jogado fora. Que seja preservado, principalmente pela Universidade.

Minha maior briga com ele aconteceu em abril último e por causa da pandemia da Covid-19. Eu postei que o presidente era um boçal por chamar a doença de "gripezinha" ou "resfriadinho" e ele disse que nós, os opositores, estávamos criando um meio de destruir a economia para atingir "meu capitão". Retruquei, nos bloqueamos mutuamente nas redes sociais e nunca mais nos falamos.

E foi por saber hoje cedo que ele havia morrido de Covid-19 que sofri mais. Não acredito em festa no céu, em campeonato celeste de basquete. Mas acho sinceramente que o doente terminal, antes de ficar inconsciente e mesmo depois disso consegue pensar, sente que vai morrer e, quem sabe, avalia que errou. Sou capaz de apostar, e por isso chorei, que no final meu amigo Hélio soube que estava no fim. Quem sabe, que havia errado. Talvez, que faria tudo diferente caso pudesse.

Mas então já era tarde...           

25 de novembro de 2020

E dai?


É fácil constatar, sobretudo nessa reta final de campanha municipal do Brasil: o oportunismo político está  em todos os lugares, invadindo a quase totalidade dos partidos. Parece até uma espécie de sociedade anônima que age às claras e com sabidos usando máscaras que serão tiradas tão logo o resultado final das urnas defina os últimos eleitos no segundo turno das capitais.

Esse oportunismo está longe de ser inédito, mas tem peculiaridades interessantes. Vamos ficar aqui em Vitória (ES), onde o candidato do PT, João Coser, dono de belo passado como prefeito, tenta se eleger diante do deputado delegado de polícia Pazolini, um aliado do presidente Bolsonaro que agora se esconde dele como o diabo da cruz. Os dois chegaram ao segundo turno derrotando o candidato do Cidadania, Fabrício Gandini. Aliado do prefeito de Vitória, Luciano Rezende, do mesmo partido, ele foi obrigado a surfar na onda do descrédito de seu mentor e perdeu. Depois de ter atacado fortemente o delegado no primeiro turno, Gandini mergulhou. E mergulhou fundo. Profundamente... Os candidatos a vereador e vereadores do Cidadania passaram imediatamente para o lado de Pazolini. A ninguém interessou pensar que a história do Cidadania proibia tal oportunismo. E nem a direção nacional, que lavou as mãos. Bastante apropriado em tempos de pandemia.

Nem mesmo o PT, em algumas raras situações mais específicas se livrou disso. Não adianta nem a gente falar de outras siglas, principalmente as ligadas ao "Centrão" como o MDB, pois elas já entraram para a prostituição faz muito tempo. Transitam para lá e para cá com a desfaçatez dos que se colocam na vitrine desse black friday de final de temporada política. Cobram pouco para viver na zona...

O mais bizarro desse fim de ano eleitoral reside no fato de que grande parte dos candidatos de extrema direita são umbilicalmente ligados ao presidente da República. Mas ele já retirou suas "lives" de apoio do ar nas redes sociais que frequenta. E os afilhados deverão se lembrar do padrinho após domingo que vem. Claro, os raros que sobrarem com algum mandato para desempenhar.

Que pena, e o eleitor, como fica nessa comédia? E as histórias dos partidos políticos? Se bem me recordo, era no antigo MDB, depois PMDB e agora MDB de novo que nos escorávamos nós, aqueles que combatiam a ditadura militar entre 1964 e 1985. Será que os atuais oportunistas, inclusive do Cidadania sabem disso? Alguns certamente sim. E daí?             

20 de novembro de 2020

Vamos acordar!

Era uma reunião de chefes de Estado dos Brics e realizada à distância porque o mundo está envolvido em uma pandemia assassina. Então o presidente do Brasil, que posou sentado ao lado de seu insignificante ministro das Relações Exteriores e seu inseguro ministro da Economia (foto) disse textualmente, fugindo à pauta de assuntos previamente acertados, que alguns países estão importando ilegalmente madeira brasileira, de nossa imensa Amazônia, e ele tem provas colhidas pela Polícia Federal. De "DNA". Em breve, muito breve os países que agem criminosamente serão denunciados, desmascarados, expostos publicamente.

Os outros presidentes ouvem sem intervir. Conhecem bem a peça! E a reunião termina dentro da pauta e com a cantilena presidencial brasileira como sempre pedindo reformas nos organismos internacionais e atacando a OMS e suas políticas de combate à pandemia mundial.

Passam-se 48 horas. E novamente está o presidente no Brasil no ar, mais uma vez em rede social, mais uma vez  no Palácio do Planalto e agora para dizer que país nenhum rouba madeira do Brasil. Que são empresas (sic!). E então, como se não tivesse dito nenhum tipo de estupidez na reunião anterior, ele não fala mais de países, de nada, mas afirma que a França é nosso concorrente...

Só que ele, o presidente, não toca no primordial: quem desmata ilegalmente o Brasil para que 80 por cento da madeira ilegal seja consumida aqui mesmo são brasileiros. E fazem isso porque o governo federal permite, incentiva, desmonta os organismos de fiscalização e quer ver a Amazônia em parte destruída. É essa sua política para a região.  

O que é isso, gente? Onde o Brasil está se metendo? No fundo de que buraco vamos parar com tantas e tão grandes irresponsabilidades perpetradas em plano internacional pelo megalomaníaco que nos governa faz pouco menos de dois anos? O Brasil é hoje um pária internacional e quase todo mundo sabe disso, menos o gado que segue cegamente Jair Bolsonaro e seu grupo familiar e de amigos próximos.

Nos EUA, Donald Trump, o ídolo do presidente brasileiro, se debate como louco sustentado por acusações infundadas para não deixar a Casa Branca. Dane-se a democracia dos Estados Unidos! Por aqui sou capaz de apostar que o atual presidente acompanha tudo atentamente para fazer o mesmo em 2022, pois sua campanha de ataques ao sistema eleitoral brasileiro objetiva minar essa instituição. E a invasão cibernética acontecida antes das eleições do dia 15 veio - podem acreditar - de grupos diretamente ligados à miserável "ala ideológica" desse governo.

Vamos acordar!

Encerro esse texto lembrando aqui palavras de Dante Aligheri: "No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise".

Isso vale até para eleições municipais..

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16 de novembro de 2020

Os recados das urnas

 As eleições realizadas ontem e com vários desdobramentos para dentro de 13 dias deixaram recados das urnas aos brasileiros. O melhor de todos é que o presidente Bolsonaro não é cabo eleitoral de respeito em lugar nenhum. Afundou alguns correligionários e outros agora vão guardar distância de segurança dele no segundo turno. Interessante, não é? Pode ser um indicativo de que a onda de extrema direita está prestes a começar a mostrar esvaziamento maior. Tomara venha a ser assim.

Aqui em Vitória (ES) onde moro o delegado de Polícia bolsonarista Pazolini chegou ao segundo turno em primeiro lugar contra o candidato do PT, o ex-prefeito João Coser. Ele derrotou Gandini, do Cidadania, antes favorito. O que houve? Primeiro, para muita gente a candidata ideal era Lenise Loureiro, secretária de Estado do governador Renato Casagrande. Segundo, Gandini foi derrotado pelos erros de seu cabo eleitoral, o prefeito Luciano Rezende, político de talentos questionáveis, arrogante, distante e que passou os mandatos trancado em gabinetes, saindo para receber homenagens ou andar de bicicleta. Jamais debatia com os munícipes. Transferiu sua rejeição para o "pupilo" que ainda foi prejudicado por uma incursão da Polícia Federal em seu gabinete e na PMV, dias antes da eleição. Incursão suspeita porque o bolsonarista é delegado de Polícia e a investigação de uso de dinheiro publico na campanha o beneficiou diretamente.

As urnas mostraram que os partidos de direita, distantes do extremismo do presidente, têm força. Infelizmente parte deles, sobretudo nas alas ligadas ao MDB e siglas menos importantes, há um vínculo claro e forte com a corrente do Centrão, aquela ala fisiológica do Congresso que troca apoios por cargos em quaisquer circunstâncias. Não por coincidência é justamente dessa ala que provém o presidente da República, velho militante do "baixo clero" da política brasileira. Ele, claro, não representa a "nova política", seja isso o que for. É líder de si mesmo, de seus filhos e amigos mais diretos num projeto de governo extremista e que só tem "ala ideológica"  na defesa de interesses pessoais.

O mais importante dos resultados de ontem é o fato de estar provado que o apoio popular ao pensamento (sic!) político presidencial fica mesmo na casa dos 30 por cento, um pouco a mais, um pouco a menos. Pazolini, o seguidor de Bolsonaro que foi ao segundo turno em Vitória junto com o PT, teve exatos 30,95 por cento dos votos válidos. Isso indica que qualquer candidato ligado diretamente ao governo federal pode ser derrotado por uma coligação de centro esquerda. Ele vai enfrentar perto de 70 por certo dos demais, ao menos em teoria.

Mas terá a centro esquerda e a esquerda a capacidade de renúncia a projetos pessoais capaz de formar blocos coesos de enfrentamento a esse nazi-fascismo tupiniquim pobre do Brasil? É o que se pergunta. É o que perguntamos nós daqui de Vitória, onde um representante do extremismo, jovem, bem apessoado, falante, invasor de hospitais e suspeito de estar ligado direta ou indiretamente a setores podres do espectro político capixaba vai enfrentar um ex-prefeito de boa avaliação.

Vamos ver como esse teste será feito. Afinal, nosso voto tem poder! 
           

13 de novembro de 2020

Expropriação, já!

Na última confusão pública na qual se meteu o governo foi protagonista de uma proposta  - ou sugestão ou qualquer outra coisa que se queira imaginar - bastante progressista, digamos assim. Vazou para a imprensa um documento do Conselho Nacional da Amazônia Legal (foto), órgão presidido pelo vice-presidente Amilton Mourão e no qual está prevista a expropriação de propriedades com registros de queimadas e desmatamentos ilegais. Justamente o que o mundo civilizado quer ver o Brasil fazer com seu meio ambiente. O mundo sim, mas o presidente da República, não.

Ora, agora que Bolsonaro deu uma bronca no seu vice, disse que essa proposta não passa de delírio e fez com que Mourão tivesse vindo a público dizer que o documento é apenas um arrazoado de ideias a serem ainda enviadas aos ministérios da área, fica a sugestão que dou aqui: por que os partidos de vanguarda do Brasil não fazem disso um projeto de lei para ser levado a votação?

Ao tomar conhecimento do fato ontem, cheguei a pensar que talvez o Cidadania pudesse fazer isso. Lembrei-me de que ele um dia foi PCB, o Partidão de saudosa memória, depois passou a se chamar PPS, de pouca memória, e agora tem o nome citado acima. Mas me pergunto: será que exceto Roberto Freire e mais uma plêiade de veteranos e dignos militantes os demais conhecem a história de seu partido? Quantos dos atuais membros, com mandato ou não, conseguiriam falar durante cinco minutos sobre a história do Cidadania? Estou falando cinco minutos porque mais é covardia...

Fica a sugestão, motivo desse texto. Nos dias atuais a terra é usada não apenas para queimadas e desmatamentos ilegais em regiões amazônicas, pantaneiras, de mata atlântica, restingas e outras, mas também para garimpo, plantio de drogas e ocupações ilegais até mesmo em terras indígenas e parques nacionais. Para todo tipo de crime. E, pasmem os que ainda não sabem, com o beneplácito do governo federal. Até mesmo fiscais e ocupantes de cargos importantes no Ibama que determinaram a queima de máquinas e equipamentos de maneira legal foram demitidos pelo atual presidente da República. E agiam ao abrigo das leis em vigor.

Vamos fazer esse texto legal? Vamos nos apropriar dessa boa ideia governamental e fazer com que ela prossiga para defender nosso País? Se o Congresso aprovar uma lei dessas o presidente veta. E se ele vetar esse mesmo Congresso, com apoio popular, derruba o veto!

Mão à obra. Expropriação já!              

10 de novembro de 2020

Aqui vai acontecer a mesma coisa


Em tom professoral, um homem explicava a dois outros hoje pela manhã em frente a uma banca de jornais e revistas do bairro de Jardim da Penha: "Bolsonaro quer a coisa certa!" E com esse argumento buscava trazer para sua crença política pessoal e irrefutável as duas ovelhas desgarradas, pois elas teimavam em acreditar em "rachadinhas" e outras coisas mais.

O episódio de me fez lembrar conversa mais ou menos recente com uma dileta amiga jornalista, Helena de Almeida, que faz anos é ativa em marketing político por aqui: "Continuem demonizando a política e vocês vão ver o governo conservador e reacionário crescer no Brasil de maneira desenfreada".

O assunto que não sai das manchetes dos jornais nos remete ao fato de que Joe Biden venceu as eleições presidenciais dos Estados Unidos, mas Donald Trump, com acusações toscas de fraude, recusa-se a aceitar a derrota. O caso fatalmente parará na Suprema Corte e só ela dará a palavra final. Alguém por aqui tem a menor dúvida de que Jair Bolsonaro fará a mesma coisa no Brasil caso perca em 2022? Eu não tenho. É da essência da democracia comemorar as vitórias e reconhecer as derrotas, mas só os democratas verdadeiros fazem isso. Trump e Bolsonaro são negacionistas e sua "ideologia" nasce a partir da negação dos valores democráticos. E da destruição de suas mais caras instituições como, por exemplo, o sistema político eleitoral.

O fenômeno norte-americano é igual ao do Brasil. Aqui a realidade do bolsonarismo, como é chamado, começou na cauda de cometa da descrença no plano político. O brasileiro comum, da mesma forma que o norte-americano, não se sente representado ou protegido pelos políticos tradicionais. Vai daí, acreditam nas mentiras que surgem, tornam-nas verdades e arremetem contra os adversários criando universos próprios, distantes do real. Na maioria das vezes têm reações violentas contra seus "inimigos".

Hoje nós pudemos ver aqui mesmo o presidente lutar junto à ANVISA contra a vacina que o Instituto Butantan produz junto a uma empresa chinesa porque, para ele, essa droga é patrocinada por um adversário político, é comunista e dane-se o interesse público: ela não pode "ganhar". Quem ganha é ele embora perca sempre e todas. Mas isso é ruim porque prejudica os brasileiros, inclusive aqueles seus apoiadores e intitulados um belo dia por seu filho Eduardo como "gado".

Onde vamos parar? Se tudo der certo, em 2022. Se tudo der ainda mais certo, numa eleição presidencial que pode tirar o negacionismo do poder, devolvendo-o a verdadeiros democratas, sejam eles de que matiz política forem. Mas não devemos esperar por comportamentos sãos nas próximas eleições. Como exercício, acompanhemos com atenção os acontecimentos dos Estados Unidos porque eles tendem a se replicar aqui. Tomara que não, mas tendem sim.

Nós demonizamos a política todos os dias, em parte por causa do comportamento errático da maioria de nossos representantes legislativos. Eis aí o resultado!         

3 de novembro de 2020

Política, questão de princípios!


Política é uma questão de princípios. Quem os tem, transporta-os consigo para a vida que vai viver em cargos públicos, sejam eles quais forem. Quem não os tem, faz da atividade pública um trampolim para alcançar o objetivo mais imediato, a riqueza extrema e desonesta, a divulgação de mentiras como arma de campanha, etc. Aqui no Brasil o exemplo mais pronto e acabado disso é a corrente política onde estão os parlamentares do bloco conhecido como Centrão. O tal "baixo clero". O reduto onde nasceu, se formou e viveu o atual presidente.

Hoje mesmo eu estava vendo um vídeo de cerca de quatro minutos de duração com falas desse mandatário do Brasil, o Jair Bolsonaro, sobre todos os assuntos. Ele se declara favorável à ditadura, à tortura física, xinga os gays, despreza os negros, faz pouco caso de mulheres e, além de várias outras barbaridades, diz textualmente o seguinte: "Eu sonego tudo o que posso!". No vídeo não aparece isso, mas em outra ocasião ele já declarou - e está gravado - o seguinte sobre os privilégios da classe política: "Não abro a mão de nada!"

Isso explica a admiração dele por Donald Trump, que chega ao ponto de um "y love you" em plena ONU. Ambos desprezam a democracia. E não se trata de serem somente politicamente incorretos, não. Eles, se pudessem, viveriam em sociedades onde fossem chefes de Estado exercendo governos acima dos poderes constituídos, sem precisar dar satisfação a ninguém sobre seus atos. Podemos explicar isso com um único exemplo: o presidente dos Estados Unidos usou inúmeras vezes o voto pelos Correios nas eleições passadas norte-americanas. E agora? Agora esse tipo de voto é fraudulento só se ele perder. Caso contrário, não.

Como crer em alguém ou numa família que já condecorou milicianos, que pratica "rachadinhas", que paga imóveis em dinheiro vivo, que usa de todos os meios possíveis e imagináveis para não permitir investigações sobre seus atos e de seus próximos, que patrocinou manifestações pró destruição de instituições caras ao regime democrático, pretende exercer controle absoluto sobre a PF, esconde fatos e demite funcionários públicos que tomam medidas contra criminosos com base em leis vigentes? Não é possível.

Política é uma questão de princípios!

Pense nisso ao votar. No próximo dia 15 todos nós teremos a primeira oportunidade de colocar princípios em prática nas urnas no nosso pós 2018. E não podemos errar porque a coleção de erros praticados pelo Brasil nos últimos anos, tanto à direita quanto à esquerda, já é grande demais. Imensa!

Precisamos ver os que odeiam a democracia pelas costas.

21 de outubro de 2020

Tempos insensatos e loucos


É fácil concluir: o atual presidente da República não tem apreço algum à vida humana. Ele pensa unicamente em seu mandato, no sonho de reeleição e aceita qualquer desafio para conseguir alcançar esse objetivo. E se milhares de brasileiros morrerem em consequência de seu desvario? Paciência, são os riscos que se corre... E daí?

Hoje mesmo disse no grupo de assessores e em mensagem dirigida ao seu gado que o atual ministro da Saúde, um general do Exército que nada entende do assunto, está querendo aparecer. Teria ficado entusiasmado com os holofotes. Então o desmoralizou publicamente dizendo que a aquisição de vacinas produzidas pela Sinovac, empresa chinesa, não virão para o Brasil. Qualquer ministro com vergonha na cara teria pedido demissão, mas... O pensamento desse cidadão presidente é muito simples: essa vacina está sendo produzida em parceria com o Instituto Butantan, e a instituição paulista estaria hoje ligada a um governador seu desafeto. Então não.

Não existe vacina chinesa, inglesa, norte-americana ou de outra procedência. Existem vacinas sendo produzidas no mundo todo para o combate a uma pandemia responsável por mortes que já atingiram o milhão em todo o  mundo e que hoje colocam a Europa novamente em pânico. Ela e os Estados Unidos onde um presidente irresponsável, belicoso e desesperado para não perder uma reeleição fala até mesmo em não aceitar um resultado desfavorável porque, nesse caso, houve fraude. E isso porque milhões de cidadãos daquele país estão votando pelos Correios, o que o tal presidente também sempre fez.

São tempos insensatos, para dizer o mínimo. Tempos nos quais uma situação da maior gravidade virou artigo político. Até poucos dias atrás a roda girava em torno de uma droga de nome cloroquina e que foi usada politicamente - de forma irresponsável - pelo presidente. Agora o inimigo é a vacina. Isso num mundo onde os últimos cem anos assistiram à salvação de milhões de pessoas graças a elas.

São tempos loucos. E neles as mensagens de rede social impulsionadas por fanáticos seguidores da horda presidencial - ou seriam robôs? - determinam o que ele vai fazer em benefício ou malefício de mais de 200 milhões de pessoas. E daí se muitos morrerem? O candidato à reeleição é Messias mas não faz milagres... Não, nós nunca antes vivemos tempos como esses.

A solução mais uma vez deve nos remeter ao Poder Judiciário para que o Executivo seja obrigado a oferecer aos cidadãos - um direito deles - as medicações das quais necessitam e necessitarão. E, ao mesmo tempo, se é para dar ao gado o direito de não se vacinar, também uma decisão judicial deveria garantir que esses seguidores, sem atestado vacinal, não tenham direito a usar o SUS caso corram risco de vida. Afinal, se isso acontecer que eles procurem ajuda e internação no Palácio do Planalto.            

           

14 de outubro de 2020

Precauções!


Um dia o governante de extrema direita de um país hipotético acordou com a missão de assinar o decreto para a construção de novas penitenciárias. A criminalidade aumentava no lugar e ele temia não ter mais vaga para detentos em breve. Esse negócio de criar empregos, fazer justiça social, essas coisas de comunistas poderiam ficar para depois, num projeto do tipo "Meu país verde/amarelo", coisas do gênero.

Os auxiliares estavam ao lado. Projeto com portas de aço reforçado, celas com espaço exíguo, privada de buraco no chão, nada de banho de sol, canceladas as visitas de parentes, comida sem controle de qualidade, andrajos como vestimenta, enfim, os projetos que ele havia desenvolvido durante anos, nos tempos em que não precisava fazer nada como deputado na Câmara Federal de Brasilândia, onde os dias transcorriam entre assinaturas de nomeações e demissões, desvio de dinheiro de "rachadinhas", feitura de discursos de elogios a ditadores e torturadores de seu credo político, essas coisas sempre necessárias.

Um dos assessores falou: "Quero que o senhor veja o projeto dessa área afastada da ralé, inspirada nas prisões cinco estrelas de Monte Carlo, às quais a gente deve acrescentar ar refrigerado, TV de 80 polegadas, chuveiros eletrônicos e outras mordomias mais". O governante ficou maluco: "Vai tomar no cu, porra! Que prisão de luxo merda nenhuma. Por que eu faria uma coisa dessas na penitenciária?". O assessor respondeu: "A gente não pode prever o dia de amanhã. E também temos nossos filhos, né!". Então  governante deu um tapa na bunda do outro e completou: "Bem pensado, faça isso".

Voltando para o mundo real, o presidente Jair Bolsonaro não vetou o trecho da lei que impediria a soltura do chefe do PCC, hoje em liberdade quem sabe no Paraguai, quem sabe na Bolívia, quem sabe em outro lugar. O Congresso também não votou definitivamente a lei que leva à prisão todo e qualquer indivíduo com condenação em segundo instância. O Supremo só está se movimentando agora. A gente não sabe do futuro! São necessárias precauções!

Em tempo: a foto acima é da prisão de Monte Carlos. Onde Salvatore Caccciolla esteve por algum tempo. Ele é capaz de jurar que essa aí dá de dez a zero na Papuda.            

8 de outubro de 2020

A reedição necessária


Dentro de menos de dois anos estaremos comemorando o bicentenário da Independência do Brasil. E será a hora de darmos aos brasileiros, além de desfiles militares, tiros de canhão, discursos vazios de sentido, falsas demonstrações de patriotismo e cargos comissionados bem remunerados aos bajuladores, coisas muito mais palpáveis. Caras! Sobretudo daquelas que nos remetem ao passado, como o livro "A expedição de Pedro Álvares Cabral - e o descobrimento do Brasil".

Explico melhor: em 1919 (alguns dizem que em princípios de 1920) o governo brasileiro incluiu nos festejos do centenário da independência um livro que seria - como efetivamente foi - encomendado ao político, historiador, e escritor português Jaime Zuzarte Cortesão (1884/1960. Contaria a história da viagem de Cabral aos brasileiros, pois pouco de real se conhecia então. Ou se sabia errado. Cortesão mergulhou na tarefa, pesquisou até onde foi possível e escreveu um livro riquíssimo.

Essa obra da Livrarias Aillaud E Bertrand (Paris-Lisboa) foi impressa nas oficinas gráficas da Biblioteca Nacional e distribuída em 1922. Com 330 páginas, logo se esgotou aqui e em Portugal. O autor começa dizendo que "Em boa verdade, não nos pertence a iniciativa dêste livro. Convidados a colaborar na História da Colonisação do Brazil, a obra monumental, com que a Colônia portuguesa em terras brasileiras celebra o Centenário da Independência da nação irmã, e tendo-nos cabido, dentro do seu lago plano, o relato da expedição de Pedro Álvares Cabral..." e seguiu adiante para dizer que, ao final e ao cabo a tarefa esgotou proporções que excediam o âmbito marcado.

Pesquisa de fôlego. Contém até um "Exame das fontes e primeiros textos sôbre a expedição". Não se esgota como uma simples narrativa e nem contém apenas a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei Dom  Manoel, como é comum por aqui. Resgata vários documentos. Contém ilustrações belíssimas. Enfim, tem peso como documento histórico.

Mas o livro se esgotou. E ao menos no Brasil não teve o tratamento e a perenidade que deveria ter. Foi relegado a um plano inferior, sua edição sumiu das livrarias e hoje quase poucos sabem dele. Mas existe. Comigo guardo, em perfeito estado e com sobrecapa dura, um dos raros exemplares existentes no meu país. Ele deveria ser reeditado. Merece ser reeditado. Tem que ser reeditado porque há tempo para isso, os brasileiros precisam ter esse trabalho e ele nos pode ser entregue antes de 7 de setembro de 2022, inclusive acrescido de novas pesquisas.

Sim, existe o risco de a Secretaria da Cultural federal não achar que isso tenha a menor importância. A gente sabe quem é o secretário... E que seu chefe presidente deverá se perguntar o que ele estaria a fazer em um lançamento de livro, sobretudo em biblioteca, livraria ou editora, esse ambiente de contestadores e terroristas comunistas sanguinários. Mas mesmo assim vale a pena alguém levar essa sugestão a ele.

Não foi possível? Mal menor. Há no Brasil empresas e instituições que podem se ocupar disso com o maior compromisso e prazer. Como a Academia Brasileira de Letras (ABL), o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB) e muitas outras. Será preciso tentar. Em nome de nossa história, é oportuno fazer isso. Ou então, 50 anos depois, vamos nos condenar a ver uma nova edição atualizada daquele sesquicentenário de pobre recordação.

Quem toca o projeto? Mão à obra, ainda que a gente corra o risco de continuar a ver mais livros raros sendo jogados ao lixo ou queimados como volta a acontecer hoje no horizonte do Brasil.                                   

6 de outubro de 2020

Nosso deserto de ideias


Somente nas últimas 24 horas recebi por WhatsApp ou Facebook, produzidos pelas fábricas de fake news a serviço dos interesses do atual governo federal, dois envios de mensagens propagandísticas. Num deles um homem sustenta o corpo faminto de certa mulher idosa (a própria mãe?) e o texto nos remete à "crueldade dos comunistas venezuelanos". A foto bem pode ser da Venezuela, posto que a miséria lá é grande.

No Brasil varonil dos tempos modernos, temos agora em números do IBGE informações de que nossa pobreza passou de 26,7 por cento para 27,4 por cento da população nos últimos dados fechados. Os extremamente pobres, aqueles que não têm sequer para comer, chegam a 13,5 milhões de pessoas. Isso porque a pobreza extrema é medida para quem recebe até R$ 145,00 por mês e, no caso atual do estado fascista brasileiro essa cifra cai para R$ 89,00 mensais. O contingente é muito superior ao Venezuelano, mesmo com a "amizade" entre um fritador de hambúrgueres e os filhos do atual presidente dos Estados Unidos.

No outro envio o cidadão Ricardo Salles, hoje ocupando o cargo de ministro do Meio Ambiente, diz que o atual governo protege os milhões de moradores das regiões amazônicas enquanto os anteriores, de esquerda, teriam feito o inverso só pensando na manutenção de árvores e com seus membros acumulando condecorações. Fala isso de forma falsa - os números não são reais - enquanto o Brasil queima por obra e graça de incendiários incentivados a colocar a cada dia mais fogo no país justamente pela ideologia do governo federal. Ao menos o título da postagem é real: enquanto o ministro fala a palavra "Avassalador" aparece em grande destaque logo acima de suas palavras vazias de sentido, mas feitas do fogo que avassala.

E por que esse tipo de discurso tem efeito, arregimenta apoiadores e alimenta a rede de fake news mantida pelas dezenas de sites a serviço do fascismo atual? Porque a oposição não tem um discurso uno, não tem um horizonte definido. Não denuncia com força! No caso dos seguidores de Bozo, o que eles fazem é lembrar a cada dia os roubos atribuídos aos governos anteriores, sobretudo ao PT - e vamos combinar que se roubou mesmo muito naquelas administrações! - e atribuir ao atual todas glórias e todas as virtudes.

Ora, sabemos dos vínculos dessa administração com milícias criminosas, sabemos das rachadinhas, das agressões ao Estado Democrático e de Direito, dos atentados contra os princípios de país laico, das empresas chocolateiras ou não de lavagem de dinheiro e do imenso esquema montado para evitar que o presidente e seus filhos respondam a processos criminais. Sabemos dos acordos com o Centrão e que o presidente é oriundo dele. Sabemos disso e de muito mais coisa. E não fazemos nada.

Quando o atual governo terminar deixaremos aos nossos filhos e netos não apenas a miséria absoluta desse cidadão da foto aí acima, passando fome enrolado na bandeira do Brasil, mas também a herança de um país com o meio ambiente destruído. E poderemos, se sobrevivermos a isso. dizer àqueles que nos sucederão que além de um Brasil destruído estamos deixando a eles um deserto de ideias.               

24 de setembro de 2020

No passarán!


Hoje no meio da tarde um amigo enviou-me por mensagem o Ibope que dá ao presidente Jair Bolsonaro 40 por cento das preferências populares de momento na corrida pela reeleição à presidência da República. Escreveu: "Vou embora!". Cheguei a dizer que também iria caso pudesse. Mas não irei. Lá na Europa do início do século XX, uma linda mulher jovem que havia se casado com um socialista para desgosto dos pais, um dia enfrentou o ditador espanhol Francisco Franco aos gritos:

- Para vivir de rodillas, es mejor morir de pié. No passarán!

Esse grito tornou-se um lema da basca Isidora Dolores Ibárruri Gomez, "La Pasionaria" (Flor da Paixão), que viveu quase a vida toda lutando contra o fascismo. Perdeu filhos na Guerra Civil Espanhola, inclusive Ruben, o mais querido e piloto de combate na União Soviética. Sempre usou preto e nunca se entregou. Morreu aos 94 anos sem jamais ter ficado de joelhos diante do fascismo. E por seus ideais e luta até hoje é amada na Espanha.

Contra o que "La Pasionaria" lutou? Contra um poder que se destinava a destruir as instituições nacionais, demonizava os valores instituídos, queria matar todos os adversários, não aceitava as verdades científicas, apegava-se de todas as formas a princípios religiosos retrógrados, pregava o ódio, amava torturadores e não permitia dissidências. Isso nos lembra algo?

Interessante, mas no no último dia 07 a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, em entrevista ao programa de televisão Rosa Viva, disse: "Jair Bolsonaro não precisa de um golpe, porque ele está corroendo nossas instituições por dentro. Ele é o golpe. Muito interessante os brasileiros terem acreditado numa  miríade de nova política, quando tínhamos na frente uma velhíssima política".

É isso. O ibope é honesto, feito dentro das técnicas do levantamento de pesquisa, mas só representa um momento passageiro de nossa vida política. Ele seria dramático faltando dois meses para as eleições presidenciais de 2022. Mas faltam mais de dois anos... Muito tempo. Uma imensidão de águas tão grande para passar por baixo da ponte que  nem a fúria destruidora de Bolsonaro e seus sequazes conseguirá secar os rios que as trarão até nós.

Mas é preciso lutar. É necessário que todas as forças democráticas comprometidas na batalha pela manutenção do Estado brasileiro, do Estado Democrático e de Direito, se unam de uma vez por todas. Formem um bloco único para enfrentar a nova maré fascista. Não será um monolito, sabemos todos nós, mas nem é preciso tanto para derrotar um projeto de tirano de aldeia.

Está na hora. Vamos gritar: "No passarán!" E seguir em frente.