31 de julho de 2024

Mude o foco, presidente!


"Não é a pornografia que é obscena...é a fome que é obscena! E enquanto nós não compreendermos isto, que não há o direito, não há nenhuma razão para que um único ser humano morra de fome, então todo o discurso sobre a moralidade pública é um discurso hipócrita"
(José Saramago, escritor)

Em dias como hoje não consigo reprimir em mim a vontade de atacar esse tema. Passei por uma praça do bairro onde moro em Vitória, Jardim da Penha, e vi uma cena inimaginável ao menos para mim: três moradores em situação de rua saiam de um lugar onde estavam e se dirigiam para debaixo de uma cobertura de marquise diante de uma farmácia de manipulação ao lado de outra, de rede nacional. Duas mulheres passavam aparentemente em direção a um supermercado uma delas comentou: "Que horror; onde estão as autoridades que não tiram essa gente daqui e jogam em outro lugar?"

Não é a  miséria que agride essa parcela da classe média brasileira, é o miserável!

Falo isso porque a fixação do presidente da República em não admitir que o seu colega da Venezuela é apenas e tão somente um ditador de aldeia barato alimenta o discurso daqueles que o estão vendo apenas como um demagogo e não como quem nasceu na  miséria, passou fome e da forma como pode e acredita quer lutar contra isso, mas não contra o miserável.

É a hora de acordar, presidente Lula! Coloque Nicolás Maduro quase podre no lugar onde ele deve ficar, abandone-o à própria sorte e siga tentando reduzir o nível da miséria brasileira usando para isso de todos os recursos possíveis e disponíveis. Aquelas madames de Jardim da Penha preferem o horror ao miserável do que ser engajadas na luta contra a fome. Fazem parte de um imenso contingente de brasileiros que apoiam um ex-presidente capaz de imitar falta de ar, de debochar de doentes por covid em rede nacional em vez de atacarem um dos problemas mais graves da vida nacional. O presidente brasileiro disse que preferia ouvir críticas a elogios baratos, mas parece que não anda lendo ou escutando nada.

E por fazer isso aumenta o contingente daqueles que, como também ouvi outro dia, acreditam que ele quer instituir o comunismo no Brasil em vez de ajudar a população. Mude o foco, Lula! Mude sua visão de América! Eu que também me sinto atingido pela fome horrorizo-me quando a vejo pela frente, mas não tenho caneta para mudar essa realidade.                          

25 de julho de 2024

Maduronaro


Todo ditador de aldeia é um projeto pronto e acabado!

Quando o presidente Lula recebeu Nicolas Maduro (na foto, cheio de medalhas) com todas as honras e todas as pompas em Brasília logo no início de seu mandato, estava cometendo um ato temerário naquele 29 de maio de 2023, na reunião da Unasul. Afora ele, poucas pessoas acreditavam que um democrata perseguido pelo "Império" e pelo anterior governo brasileiro estivesse recebendo tantas honrarias naquele dia. O gesto foi tão exagerado que até o presidente socialista do Chile, Gabriel Boric, protestou pelo fato de os demais presidentes terem sido recepcionados de maneira diferente e diplomaticamente inferior. O tempo passou e agora Lula, mesmo sendo teimoso como uma rocha, deve estar avaliando melhor seu engano.

Bolsonaro foi quem rompeu relações diplomáticas com a Venezuela e entregou a embaixada daquele país à representante de um "governo" títere. Durante seus quatro anos no Palácio do Planalto tratou os representantes de outros governos como amigos ou inimigos. "Aos amigos, os favores. Aos inimigos a lei", como disse Nicolau Maquiavel. E assim ele agiu embora, como creio, pouco tenha ouvido falar no florentino autor de "O Príncipe", sua principal obra de referência e escrita em 1512. No governo passado, o ex-presidente brasileiro tratava com desprezo todos os que discordavam dele. E os atacava de forma feroz.

Em sentido oposto, milhares de milhas ideologicamente distantes, Bolsonaro e Maduro são farinha do mesmo saco. Unidos formariam o Maduronaro!

Talvez Lula, que ao ser empossado presidente disse gostar de ouvir criticas em vez de elogios baratos, esteja considerando essas que chovem de todos os cantos hoje. É preciso dar ao projeto do ditador venezuelano a distância regulamentar e de segurança que se dá a todos aqueles defensores da cartilha do banho de sangue depois de eleições. A vida em democracia não pode ser como imaginava Augusto Pinochet, não pode incluir no projeto a tomada do Capitólio e nem uma invasão dos poderes da República em Brasília após uma eleição perdida. Um projeto de governo jamais deve ser emporcalhado por tão pouco.

No G20 o presidente do Brasil tem sido aplaudido de pé. A luta contra a fome é meritória e oportuna. Muitas das medidas econômicas tomadas por esse governo brasileiro são providenciais nos dias de hoje, mesmo dividindo o PT e desgastando o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Universidades, vacinas e o triunfo da ciência sobre a imbecilidade, além de outras coisas, precisavam mesmo acontecer no nosso país. Então por que perder tempo com um projeto de ditador de aldeia sul-americano, se o nosso que ameaçava os horizontes brasileiros está, creio, definitivamente fora do jogo?

Vamos em frente! Ainda há muito por fazer. 

20 de julho de 2024

O AR-15 e a democracia

Não importa a ideologia que você tenha ou venha a ter um dia; quando ouvir falar em democracia jamais associe esse termo à extrema direita política que nos Estados Unidos é capitaneada por Donald Trump e no Brasil tem seguidores ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Lembre-se: foi a esquerda política brasileira aliada a setores mais lúcidos da centro-direita quem desgastou e derrubou a ditadura militar 1964/1985. Os idólatras do Fuzil AR-15 odeiam democracias e tudo o que possa se ligar a elas. Mesmo quando um deles belisca a orelha do protofascista favorito à presidência do maior império do mundo.

O fuzil AR-15, hoje símbolo americano é um Colt. Segundo a Associação Nacional de Rifles dos Estados Unidos existem 20 milhões de modelos desta arma comprados legalmente por lá. Vira e volta um deles é usado em massacres que acontecem sempre em qualquer ponto do país. Em 2004, durante o governo George W. Bush foi derrubada lei que impedia a comercialização de armamento militar para uso civil. Em 2005 surgiu a Lei de Proteção ao Comércio Legal de Armas e assim a indústria armamentista deixou de ser responsável pelo uso irregular de fuzis ou outros tipos de armamento. De 2002 a 2012 a produção de "rifles" cresceu 160 por cento e se tornou acessível à grande maioria da população. E a lei de proteção não considera o AR arma militar porque ele só dispara um tiro a cada vez que o gatilho é pressionado (não se trata de metralhadora). Então acabou classificado como "fuzil esportivo moderno". Lá nos EUA qualquer um pode sair de uma loja com um deles debaixo do braço por preços que variam de 400 a dois mil dólares, dependendo do modelo e de adicionais como, por exemplo, tripé, mira telescópica (luneta), etc.

No discurso do band-aid Trump não tocou em democracia a não ser de passagem. Falou de tudo o mais, sobretudo na sua crença de um Estado de Direito relativizado e com armamento letal sendo vendido regularmente e mostrado no comércio sobre bandeiras dos EUA (foto). Ele evita falar que "povo armado não pode ser escravizado". Sabe que esse povo armado é seu exército particular e de todos os que lutam por uma sociedade de regras a cada dia mais frouxas e com uma Constituição em constante perigo de dissolução. Afinal, para o movimento extremista mundial liberdade é só um detalhe menor. Tanto que nenhum deles fazia parte da luta anti ditadura de direita política nem aqui a nem em outro país onde isso aconteceu nos tempos modernos.

No Brasil grande parte da população que hoje engrossa as fileiras da extrema direita não sabe onde está o fundo do poço. Mas ele é bem profundo. Se as forças democráticas não tiverem força e clareza para lutar contra essa praga neofascista, os inocentes uteis ou adesistas vão descobrir que o fundo fica bem lá embaixo, onde a vista não alcança. E de onde não vai dar para sair mais.         

18 de julho de 2024

O santo é de barro...


Uma das denúncias do governo Lula, quando iniciou a administração federal, envolvia duras críticas ao anterior, sobretudo e principalmente por causa dos tais sigilos de 100 anos impostos em contratos ou acordos celebrados até então. Muitos desses sigilos foram quebrados e chamados de meras blindagens de atos da administração pública que não poderiam ser explicadas de forma honesta. O que não faltou foram casos espúrios e que envolveram até mesmo, como se sabe hoje, o uso de um órgão federal como a ABIN para "arapongagem" contra adversários políticos ou até mesmo aliados. Mas agora o governo atual faz o mesmo, alegando que pedidos de explicações envolvendo a Âmbar Energia, empresa do grupo J&F envolveriam assuntos privados de pessoas como o ministro Alexandre Silveira.

É o mesmo argumento usado no passado bem recente pelo genocida inelegível.

Está tudo correto com os contratos firmados entre o governo e a empresa dos irmãos Batista? Ótimo, então basta abrir os dados a todos os interessados porque um negócio de R$ 19 bilhões no qual está presente dinheiro público é tudo menos assunto privado. O atual governo deve ou deveria saber que todos os olhos, ouvidos e línguas da extrema direita brasileira e adjacências estão voltados a ele. Mesmo sem como provar qualquer coisa todos os dias as tais redes sociais são inundadas de falas ou denúncias, irresponsáveis ou não, contra as autoridades federais. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, está sendo chamado de "Taxad" porque o acusam que aumentar a carga de impostos dos brasileiros, embora isso seja mentida. Aumentam os impostos dos ricos mas se reduzem os dos pobres e isso incomoda muito.

Lula deveria determinar que todos os dados envolvendo a negociação com a J&F, muito feliz ao fazer propaganda de seus negócios como mostra a imagem acima, fossem tornados públicos. Se aqui ou ali houver alguma coisa sobre A ou B que não seja de interesse público somente esse fato é vetado e explicado o veto. Mesmo assim haverá ataques, achaques, mas o governo terá tido o cuidado de mostrar todos os papéis, dados e fatos que envolvem o contrato. E também com a fala de Alexandre Silveira ou qualquer outro ministro. Tem que ser assim se tudo é licito e feito em razão do interesse público.

O atual governo, em razão dos fatos atuais, tem que ir devagar com o andor...                               

15 de julho de 2024

As vítimas da cultura das armas


Desde o primeiro registro até hoje são 16 os atentados contra presidentes ou candidatos à presidência dos Estados Unidos naquele país. O primeiro que morreu foi Abraham Lincoln, assassinado no Teatro Ford, em Washington, em 1865 (foto), mas já tinha havido atentados antes, desde 1835. Daí para cá foram mais 15 ocasiões distintas, sendo que em quatro outras oportunidades o presidente ou candidato perdeu a vida. Todos eles, sem exceção alguma, foram assassinados pela cultura das armas dos Estados Unidos.

Essa cultura do "uso arma para me defender" tem início com a famosa "conquista do Oeste" pelos colonos norte-americanos. Ocorre que lá havia moradores originários, as diversas nações indígenas. Então eles tinham que ser eliminados para a chegada dos brancos. E afora no episódio de Litle Big Horn, quando o general George Armstrong Custer foi morto e escalpelado por indígenas dos EUA, no mais todos, rigorosamente todos os grandes chefes índios acabaram exterminados. Recomendo a leitura do livro "Enterrem meu coração na curva do rio", do historiador Dee Brown.

Pois a cultura do uso indiscriminado de armas produziu a morte de Lincoln e também de James Garfield, William McKinley, John Kennedy e Robert Kennedy, este último candidato em campanha. Também houve atentados contra Andrew Jackson, Theodore Roosevelt, Franklin Delano Roosevelt, Harry Truman, George Wallace, Gerald Ford (duas vezes), Ronald W. Reegan, Bill Clinton, George W. Bush e agora Donald Trump. E não foram apenas esses as vítimas da cultura da violência norte-americana. Também terminou morto o Beatle John Lennon, que não fazia mal a ninguém, além de centenas de outros como estudantes eliminados dentro das escolas por psicopatas armados. Aliás, um em cada 20 cidadãos dos Estados Unidos possui fuzis como o usado por Crooker, um rapaz de 20 anos, para tentar matar Trump.

Uma sociedade que se arma para atirar em tudo e em todos monta o palco de seu próprio velório. O rapaz que tentou tirar a vida de Trump e foi morto em seguida certamente buscava notoriedade, como tantos outros o fizeram. As autoridades dos Estados Unidos não vão encontrar nenhum complô internacional depois das investigações desse caso. Vão achar, isso sim, um atestado de sua própria doença como povo e nação. Doença essa que Donald Trump, um ferrenho defensor do uso de armas, alimenta todos os dias e agora se voltou contra ele.        

13 de julho de 2024

Dora de Esmeraldo

Na foto, Esmeraldo assina o livro de posse como prefeito de Santos. Nunca chegou a exercer o cargo

Para quem não conhece, vou apresentar Esmeraldo Soares Tarquínio de Campos Filho. Mas pode chamar apenas de Esmeraldo Tarquínio que basta. Negro, crooner de prostíbulo do Cais do Porto de Santos, despachante aduaneiro, advogado, jornalista, vereador, deputado estadual e prefeito de Santos além de torcedor apaixonado do  Santos Futebol Clube, não conseguiu cumprir o último mandato porque o teve cassado pela ditadura militar que infelicitou o Brasil de 1964 a 1985. E por quê? Eleito prefeito, foi convidado para uma entrevista pela apresentadora Hebe Camargo, à época na TV Record de São Paulo, e esta perguntou a ele se era verdade que havia cantado em "grupo de zona". Ele disse que sim, pois havia nascido pobre, era negro e precisava ganhar dinheiro honestamente para se formar como advogado e viver a vida que queria, inclusive como politico, pois tinha muito a dar na qualidade de militante ativo do Partido Comunista Brasileiro, PCB ou Partidão.

Eram tempos duros da ditadura militar e no dia seguinte ele teve seu mandato cassado. Para justificar e violência, os generais de plantão disseram que, "por motivos de segurança nacional" daquele dia em diante balneários, estâncias hidrominerais e outros lugares afins teriam seus prefeitos escolhidos pelo governo e não mais pelo povo. Esmeraldo não se conformou, mas nada podia fazer. Triste, foi aos poucos sofrendo de depressão - doença então não diagnosticada - e no dia 10 de novembro de 1982 sucumbiu a um enfarte agudo do miocárdio. Tivesse suportado mais três anos, viveria para ver seu país livre da ditadura.

Conto essa pequena história porque ontem, em reunião politica na casa de um amigo, este que é fazendeiro de Linhares, reagiu a uma pergunta minha sobre como estava o bolsonarismo na sua região e disse que isso não existe. O que há são pessoas que lutam contra a corrupção e não toleram invasão de terras. Nada disso, amigo. Fosse assim e o criminoso que leva o nome do grupamento político atual de extrema direita não teria sido eleito presidente da República. E não estaria até hoje conspirando para dar golpe de Estado e destruir instituições civis reconstruídas com tanto esforço e mortes como a de Esmeraldo.

E ele não foi um caso único. Aqui no Espírito Santo, seu Flores, o crooner do Regional de Mestre Flores, não conseguia trabalhar como marceneiro depois do golpe de Estado de 64.  Para não morrer de fome e sustentar a família, passou a cantar na zona de meretrício de São Sebastião, conhecida como Carapeba. Fez isso durante muito tempo. Um de seus filhos, o jornalista Francisco Flores Rodrigues, o Chico Flores, hoje falecido, recordava-se com carinho e orgulho da luta do pai durante os anos de chumbo.

Não, querido amigo, seus vizinhos de fazendas nessa Linhares um pouco chegada à extrema direita não são patriotas que lutam contra a corrupção. Eles, ao contrário. dão seu apoio a militantes formais e informais de um pensamento político espúrio que prega a destruição da democracia e o assalto aos bens do País. Haja vista que o ex-presidente, seus filhos e demais membros da quadrilha fizeram uso do Estado Brasileiro, através da ABIN, para enriquecer e vasculhar a vida dos outros, além de se protegerem de investigações. Poucos de seus amigos, meu querido camarada, fazem isso inocentemente. A esmagadora maioria desses patriotas de araque sabem que conspiram. Sabem e pagam para ver... 

E só para terminar, na entrevista dada a Hebe, o prefeito Esmeraldo, primeiro negro eleito para aquele cargo na história santista, foi convidado a cantar. Pensou um pouco, mais um pouco e depois disse que faria isso porque "cantar não tira o respeito de ninguém", E então se levantou e emprestou seu vozeirão a uma das obras primas de Ary Barroso e Dorival Caymmi, para deleite de todos os espectadores. Ele cantou "Dora, rainha do frevo e e do maracatu". Ainda o vejo no palco na TV Record:

"Dora, rainha do frevo e do maracatu

Dora, rainha cafusa de um maracatu

Te conheci no Recife

Dos rios cortados de pontes", etc, etc, etc.                         

11 de julho de 2024

Arapongas & assemelhados


Quando estava no início de seu (des)governo, em 2018, o genocida inelegível Jair Bolsonaro, antecessor do atual presidente da República dizia que queria ter acesso a todo tipo de informação e isso vinha sendo dificultado a ele. Numa de suas arrogantes declarações disse, dentre outras coisas que "o meu sistema de informações pessoal é muito bom". Claro que se tratava de algo ilegal como pode ser visto hoje depois de o ministro Alexandre de  Moraes, do Supremo Tribunal Federal ter aberto o sigilo de uma investigação que descobriu arapongagem de muita gente, inclusive ministros, políticos e jornalistas. O criminoso que atuou no Palácio do Planalto durante quatro anos não respeitava ninguém. Rigorosamente ninguém! Nem lei alguma!

Só para especificar, o sistema mais usado no Brasil para monitorar ilegalmente uma pessoa é de origem israelense e adquirido pela ABIN - Agência Brasileira de (pouca) Inteligência - já faz algum tempo. Comprado à empresa Cognyte, anteriormente chamada de Verint, o First Mile é um software de monitoramento que permite o rastreamento de até 10 mil celulares por ano e foi largamente usado durante quase todo do governo bozista. Rastreia em tempo real e localiza todas as pessoas perseguidas. Logicamente isso só pode funcionar com autorização judicial que jamais foi solicitada ou obtida pelos espiões tupiniquins.

O chefe do tráfico ilegal de informações era e é o ex-delegado da Polícia Federal e atual candidato a prefeito do Rio de Janeiro, Alexandre Ramagem (na imagem montada, está ao lado da sede da ABIN, em Brasília). Ele fazia e fez até hoje qualquer tipo de trabalho sujo pedido pelo "patrão". Conheceu o inelegível durante a campanha deste à presidência, tornaram-se amigos (ou seriam capangas?) e daí em diante o delegadinho só não virou diretor geral da Polícia Federal porque a Justiça não deixou.

Eis, sintetizada, a promiscuidade que era o governo federal anterior, isso só no campo da espionagem ilegal. Não estamos nem entrando no terreno das joias tomadas ao Estado, aquisição de imóveis com dinheiro vivo e outras coisas menores...  Estamos nos atendo apenas aos arapongas e assemelhados que ainda vivem à custa do poder, ao lado dele, alimentando-se de suas entranhas e atentando contra os poderes da República. Diariamente cidadãos acima de quaisquer suspeitas (alguns nem tanto...) têm suas vidas devassadas. 

 Cabe uma pergunta: quando esses chefões mafiosos vão ser presos?           

7 de julho de 2024

"Sic transit gloria mundi"


Hoje, 07/07/2024, é um dia especial. E especialmente perigoso. Na França os franceses estão decidindo o futuro da democracia daquele país numa eleição legislativa que tem como objetivo para as forças antifascistas impedir que as viúvas do nazifascismo cheguem a poder levadas pelo descontentamento popular para com a política tradicional. Essa mesma política que hoje reúne em Balneário Camboriú a fina flor do reacionarismo político nacional em torno de um fenômeno de massa que se intitula "bolsonarismo" para os brasileiros.

Isso me remete a uma figura consagrada do carnaval brasileiro, Clóvis Bornay. Foi museólogo, carnavalesco, criou o Baile de Gala do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e, considerado ícone do ramo, fazia do baile cenário perfeito para se mostrar ao mundo com fantasias grandiosas e cafonas. Mas todas, rigorosamente todas, caras. Assim foi uma, a considerada melhor de todas e chamada "Sic transit gloria mundi", ou "assim transitam as glorias do mundo", ou ainda "assim terminam as glorias do mundo". Mostrava cena de morte com lantejoulas e paetês, além de penas de bichos que alimentavam um ego gigantesco. As glórias do mundo, para Clóvis Bornay, terminaram aos 89 anos, em 2005.

Hoje algumas figuras que nos remetem a um dos períodos mais lúgubres da história mundial e que custou 40 milhões de vidas humanas tentam destruir o conceito de democracia em vigor na maioria das nações para reviver a extrema direita à custa da destruição de constituições nacionais. Na França tenta-se impedir que ela possa indicar um primeiro ministro. Em outros países está sendo feito o mesmo movimento, inclusive nos Estados Unidos com a figura patética de Donald Trump tentando sobreviver a uma carrada de processos referentes a crimes de todos os graus e tipos.

Aqui no Brasil também hoje cerca de quatro mil pessoas estão reunidas num balneário de luxo de Santa Catarina para, de maneira indisfarçada, conspirar. Tentar meios ilegais de devolver a um ex-presidente criminoso e indiciado o direito de concorrer a nova eleição presidencial, buscar mostrar aos outros que quem tentou destruir a democracia em 08 de janeiro do ano passado não é bandido de sim perseguido político e ainda organizar o Congresso Nacional para votar uma lei que anistie a todos, mesmo sendo ela inconstitucional e desde já condenada a ser assim declarada pelo Supremo Tribunal Federal. Só como registro: Brasil tem hoje cerca de 530 grupos políticos de extrema direita em atividade, sobretudo no Sul, com ações maiores em Santa Catarina. 

A ojeriza à politica tradicional está por trás de todo esse movimento. Ele nasce do descontentamento da população para com partidos e políticos que só agem em benefício próprio e tentam capturar o Estado para seus clientelismos. E isso é feito, tanto aqui quanto em países com elevado grau de conhecimento porque a demagogia tem tentáculos longos e os demagogos conseguem capitalizar momentos de fraqueza das nações. Sabem no fundo que as glórias do mundo são efêmeras, mas também podem usar seu tempo para minar tudo aquilo no qual não acreditam e tentar dessa forma formar uma nova ordem mundial que talvez leve a humanidade à ruína. Tanto, faz, contanto possam ser eles os donos, ainda que por pouco tempo, de todas as glórias do mundo.    

27 de junho de 2024

O hábito do cachimbo


Quando um general boliviano, golpista e canalha, tentou derrubar o presidente de seu país ontem num movimento que não deu certo, várias vivandeiras brasileiras correram a comemorar o fato de uma democracia constitucional estar sendo agredida, golpeada. E são sempre os mesmos! O primeiro a se manifestar foi o deputado federal Ricardo Salles (imagem acima), aquele que foi gravado falando para o genocida inelegível em passar a boiada, isso numa reunião ministerial do desgoverno passado. Depois veio o restante do rebotalho, gente como Bia Kicis, Carla Zambeli e outr(a)os menos votad(a)os.

Vamos esclarecer uma coisa de uma vez por todas: pregar, defender ou participar de golpe de Estado, seja aqui ou no exterior, é crime previsto pela Constituição do Brasil. Dispõe o artigo 359- M: "Tentar depor, por meio de violência ou grave ameaça, o governo legitimamente constituído: Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 12 (doze) anos, além da pena correspondente à violência". No caso presente os canalhas patrícios estavam pedindo essa situação na Bolívia, um país com passado de golpes e aquarteladas e que tenta sobreviver há alguns anos apoiado em sua constituição. Hoje, com sucesso.

Já ontem, pouco antes de começar a ser noticiado o fato ocorrido naquele país sul-americano, estava eu comendo alguma coisa em um bar/restaurante perto de casa e quatro homens em uma das mesas vizinhas criticavam o presidente da nossa República por ele ainda estar no poder. Um deles, com a concordância dos demais, disse que isso só acontecia porque "eles" compraram o STF e as Forças Armadas. Não perdi meu tempo para perguntar quem eram "eles", mas assusta o fato de que pessoas possam conspirar em público, abertamente, como se isso não fosse crime, mas mera liberdade de expressão. E como se o presidente atual, da mesma forma que anteriores, não tenha sido eleito ao amparo das leis e da Constituição Cidadã.

Desgosta profundamente ver o Brasil reduzido a isso, mesmo apenas em parte. Essa parcela da população, reacionária ao extremo e apoiadora de uma extrema direita que não conhece ciência política, emergiu do esgoto do país com o advento do bolsonarismo, vive de lembranças dele e dificilmente deixará de tentar protagonizar absurdos como o que vivemos no dia 08 de janeiro de 2023. Olhem bem para as fotos de Ricardo Salles e sua quadrilha e constarem que eles todos têm a boca torta. Com algum esforço vocês vão ver. Esse é o fruto do hábito do cachimbo...

Em tempo: chamar uma pessoa de melancia significa dizer que ela é verde por fora (como militares) e vermelha por dentro (do gênero comunista).  E melancia em espanhol é sandía.                  

23 de junho de 2024

A última das guerras


Quanto mais se fala em guerra, sobretudo em Terceira Guerra Mundial, aquela que seria a última delas, mais me vem à mente a imagem do cogumelo atômico sobre Hiroshima (esse da montagem fotográfica) e Nagasaki ao final da Segunda Guerra. Quem ainda não leu sobre isso, faça o favor. Ainda mais porque os senhores da guerra, que em 1914 se encastelavam no Império Austro-Húngaro e em 1939 no nazismo alemão, hoje estão nos Estados Unidos. Sim, lá mesmo, naquele império dominador e de onde o assunto da defesa das democracias e da segurança nacional nos chega todos os dias via (falsas)mensagens de defesa da liberdade. Serei claro.

Na Idade Média as guerras eram feitas sobretudo e principalmente com o uso de arcos e flechas. Durante a Guerra dos Cem Anos, na Batalha de Azincourt em 1415, os ingleses devastaram as tropas francesas com o uso do arco inglês ou gaulês, maravilha tecnológica daqueles tempos. Feitos geralmente com teixo, tinham o tamanho de um homem adulto e eram capazes de fazer as flechas penetrarem as armaduras de metal e matarem soldados inimigos à distância. Os franceses, desesperados, cortavam os dedos indicador e médio dos inimigos para eles não poderem atirar mais. Os ingleses, reagindo a essas mutilações, mostravam esses dois dedos aos inimigos formando o "V" de vitória, antes de atirarem.

Naquela época os guerreiros eram homens fortes, adestrados para o uso das armas de então e geralmente formavam os exércitos a partir das camadas mais baixas da sociedade, podendo ser até analfabetos. Hoje, não. Nos dias atuais os que vão manobrar os aviões modernos de combate, bem como bases de mísseis e outras armas são profissionais altamente capacitados, com anos de estudos e formação acadêmico militar. Geralmente, o melhor das juventudes de seus países e mandados para morrer nas guerras. Buchas de canhão modernas. 

Pensem nisso: uma Terceira Guerra Mundial vai matar nossos filhos e netos!

Quem escala a crise no mundo são aqueles que têm interesse nessa guerra, embora com o discurso sempre surrado de defesa dos "valores ocidentais". Hoje a pressão é exercida sobre a Rússia por causa da agressão à Ucrânia - só isso vale uma boa crônica -, contra a Palestina para a "defesa" de Israel, mas o que existe por trás da cortina de fumaça é a decisão dos Estados Unidos de não permitir um maior crescimento econômico e militar à China, que fica de longe vendo os demais gastarem munição enquanto faz avançar sua economia e seu poder bélico para a eventualidade de um confronto.

E quem alimenta esse sonho que usa a ONU como alvo de ataques políticos frequentes e a OTAN como base de poder bélico? Sobretudo os chamados chefes de Estado de extrema direita como na Hungria, Itália, Argentina, Israel, além de outros e aqueles que navegam em torno do poder de seus países com o objetivo de tomá-lo, e não para a defesa da liberdade, mas sim para acabar com ela como já foi feito em épocas passadas no mundo. Basta uma leve consulta à história e os projetos da extrema direita política surgirão claros a todos.

Uma Terceira Guerra Mundial vai expor como alvo a ser atingido o território continental dos Estados Unidos e esse é um motivo forte para eles relutarem em tomar a iniciativa. A guerra vai provavelmente não ter vencedores e pode ser que extermine a vida humana e da maioria esmagadora dos animais sobre a face da terra. Quando houve todos os conflitos anteriores esse cardápio não estava sobre à mesa dos senhores da guerra e nem daqueles que eles conseguem catequisar com seus discursos, como ocorre hoje no Brasil, com milhões de inocentes uteis e inúteis seguindo uma cantilena maluca que envolve até mesmo crenças religiosas medievais e distorcidas da realidade.

Pensem nisso: o mundo belicista que vocês defendem pode ser o da última das guerras. E vai matar seus filhos e netos, estejam eles onde estiverem. Não é mais prático pregar - sinceramente - a paz?                          

21 de junho de 2024

O grotesco invade o Congresso


A imagem acima, foto de "Metrópoles", foi usada  como capa da revista "IstoÉ" desta semana e com uma corte que a tornou vertical. Ela é a representação do que há de mais grotesco no atual Congresso Nacional, o pior da história brasileira. Eu pelo menos nunca pensei que um dia poderia chegar a ver coisa como essa. E a iniciativa de levar a "atriz" Nyedja Gennari ao Senado da República para representar um feto gritando partiu do senador Eduardo Girão, o mesmo que tentou falar com Erlon Musk em inglês de Odorico Paraguaçu para pedir ajuda contra a atual "ditadura" no Brasil. Chegamos realmente ao fundo do poço!

Nos mesmos dias em que esse espetáculo dantesco foi mostrado aos senadores para que muitos deles o gravassem em suas redes sociais, um senador e um deputado federal quase se agrediram durante uma sessão da CCJ do Senado, um chamando o outro de "traidor" porque ele não era tão bolsonarista quanto deveria ser. Esse episódio acabou se prolongando e replicando no Aeroporto de Vitória onde Marcos do Val e Gilvan da Federal, duas figuras execráveis continuaram a trocar insultos e empurrões para desespero de passageiros que aguardavam seus voos sem imaginar que seriam testemunhas de tamanho descalabro.

E não é tudo. Em um município do interior de Minas Gerais, Conselheiro Lafayette, o livro "O menino Marrom", de Ziraldo, foi retirado das escolas porque mães e pais ignorantes acharam que o linguajar da excelente obra de Ziraldo poderia interferir na criação de seus rebentos. Será que eles já leram "O menino maluquinho"? Caso tenham lido, essa obra também vai correr risco. Aliás, no Brasil até autores como Monteiro Lobato foram alvos de tentativas de censura por parte de reacionários que, na cauda de cometa de um fenômeno imbecilizatório conhecido como bolsonarismo, querem um Brasil à imagem deles.

Como sempre digo, resta lutar! A história nos é mostrada em ondas e o pior delas geralmente termina onde deve sempre ficar depois de algum tempo: no lixo dessa mesma história. Mas antes costuma fazer muito mal às pessoas, sobretudo àquelas que embarcam em seus ensinamentos de fundo de quintal, pregando o ódio. No Brasil de hoje, esse fenômeno despertou o que há de pior em cada um dos brasileiros que se julgam conservadores e, como consequência, vemos todos os dias amizades longas sendo encerradas, pessoas se agredindo e até mesmo famílias acabando separadas para nada. Apenas pela ignorância e desonestidade difundidas por todos os meios.

Ziraldo, coitado, morreu sem imaginar que sua obra colossal começaria a ser questionada pela burrice generalizada da nação. Irônico ele não ter vivido para ver isso! E também para não continuar vendo, como estamos nós, bandeiras da Idade Média serem desfraldadas pelo setor da sociedade que pretende impor a todos os demais suas crenças, seus princípios - ou a falta destes - e vontades. Esses são aqueles que lutam por "liberdade" em nome de um sociopata genocida e inelegível que jamais acreditou em nada disso, amante que foi, é e será sempre de torturadores, ditadores nazifascistas e da Ditadura Militar assassina que durante 21 anos infelicitou o Brasil, entre 1964 e 1985.

Eles vão perder mais uma vez!                       

19 de junho de 2024

Jogar com a cabeça


Se eu mesmo coloco o laço da corda no pescoço, não posso reclamar se alguém abre o alçapão da forca depois disso.

O presidente da República ficou espantado com os R$ 646 bilhões de renúncia fiscal hoje no Brasil. São números consolidados e referentes a não recolhimentos tributários, de benefícios financeiros e creditícios. Isso foi mostrado pela ministra do Planejamento, Simone Tebet, na reunião que teve também a participação do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Susto? Talvez, mas Lula deve entender que uma parcela é dele. Os anteriores também fizeram renúncias, mas o atual presidente fica com parte da culpa pelo conjunto da obra. E esse dinheiro faz, sim, falta aos projetos de governo, sobretudo com saúde e educação.

Recentemente, desgostoso com uma Medida Provisória do governo, o chefão da CNA declarou que não quer conversa com o presidente. A ação de seu setor foi recorrer à Justiça e acionar sua gente no Congresso Nacional. Só para informar, dos 594 políticos que nos representam em Brasília atualmente, 273 são empresários e 160, fazendeiros. Eles vivem a época do orçamento secreto, do pagamento obrigatório de emendas parlamentares, da formação de blocos congressistas que estão acima dos partidos políticos, atualmente meras reuniões de letras. E isso numa época em que o governo não tem maioria no Parlamento e elegemos o pior deles em toda a nossa história. É tenebroso.

Sim, todos nós temos culpa. O voto é secreto, a esmagadora maioria da população não é formada pelo empresariado urbano ou rural e mesmo assim o Congresso é esse. Responsabilidade aqui da ignorância geral da nação, levada sempre a votar contra seus próprios interesses seduzida pelos canto das sereias. Os poderosos sabem se unir em torno da defesa de objetivos e não renunciam a eles. Além disso, jamais abrem mão de privilégios obtidos e o "agro", que vive à custa de dinheiro público, não se envergonha disso. Quer mais e mais. Sua publicidade diária que martela na cabeça do cidadão mostra isso.

O atual presidente representa uma parcela da sociedade que talvez seja a mais desunida de todas. Prova disso é o fato de haver no PT, seu partido, correntes antagônicas e que mostram esse antagonismo diariamente, até em reuniões ministeriais. Não entram em acordo nem ao menos para decidir sobre corte de despesas, hoje um imperativo. Então para que o presidente da CNA vai querer conversa? Pobres nunca foram preocupação sua porque o "agro" usa o meu, seu, nosso dinheiro principalmente para exportar. Nenhuma dessas pessoas se ruboriza com isso e todos sonham com a volta do ex-presidente genocida e inelegível ou então alguém que o represente. Aliados são sempre bem vindos!

Mas há saídas porque sempre houve. Para evitar novos sustos como o dessa reunião ministerial, Lula tem que agir somente depois de ouvir muita gente e refletir bastante para não ter que voltar atrás. Também para não falar bobagem. O presidente do Banco Central talvez seja a menor de suas preocupações atuais, a economia vai bem e os projetos estão avançando. Basta ao governo usar as mesmas armas dos adversários e não mais chegar perto do nó da corda. Vamos nos lembrar sempre de que o empresariado (rural e urbano) e o mercado têm aliados em todos os setores, haja vista que até o Banco Central os representa e não ao interesse público. É preciso jogar o jogo com a cabeça, como eles, usando a denúncia, a mobilização popular e até mesmo o direito a rede nacional de rádio e TV para chegar às pessoas. 

E sem tréguas. 

16 de junho de 2024

Abortos e canalhas


Lembro-me vagamente, pois era muito pequeno, de papai e mamãe nos retirando de casa, meus irmãos e eu, e nos levando para a do tio José Álvaro, meu padrinho. Logo em seguida a Polícia chegava a nosso endereço para recolher de lá o cadáver de um natimorto, filho da empregada. Ela havia passado a gravidez toda escondendo sua condição com tiras envolvidas ao corpo e não a revelou em momento algum, mesmo sendo inquirida por minha mãe. Pariu no quarto onde dormia e, sangrando abundantemente, pediu socorro a meus pais, seus patrões. Papai se lembra de ter sido procurado por um médico que o julgava pai daquele morto ao questionamento de "onde está a criança?" A situação só não ficou definitivamente dramática porque a mulher disse ter engravidado do namorado, escondido a gravidez e dado à luz no quarto. Viu que a criança estava morta e a escondeu sob a cama.

Meu pai ainda pagou um advogado para livrar aquela pessoa de maiores complicações, mas tão logo ela foi liberada pela Polícia, desapareceu. Nunca mais soubemos dela e, acredito, nem sequer a Polícia. Eis o perfil da pessoa típica que buscava aborto no passado: pobre, quase miserável e ignorante. Hoje a esse perfil somam-se milhares de crianças vítimas de abusos sexuais até mesmo em casa. Meninas de 10, 11, 12 anos, como aconteceu aqui no Espírito Santo onde moro, com uma que precisou interromper a gravidez em Pernambuco.

Nosso país está cheio de problemas para resolver, e em vez de se concentrarem neles, canalhas colocados no Congresso Nacional por nós, brasileiros, elegeram uma tal "pauta de costumes" para tratar dela em seus mandatos. Abandonam os temas realmente importantes para fazer demagogia barata e cometer crimes contra o cidadão comum tentando impor aos demais princípios que nem mesmo eles possuem, pois muitos já foram flagrados cometendo os mais diversos desatinos, inclusive em diversos casos envolvendo costumes. Como "pastores" de inúmeras confissões evangélicas de fachada, apaixonadas por dinheiro.

Quando se ataca o direito legal à interrupção da gravidez no Brasil, condena-se sobretudo mulheres pobres. E crianças... As ricas pegam aviões, viajam para a Europa e fazem aborto nos países onde isso é legal. Passeiam bastante e voltam para seu país. Poucos ficam sabendo. É justo que quem quiser possa interromper uma gravidez indesejada em casos de grave risco de vida, feto anencéfalo ou estupro. E deveria ser crime falsos moralistas investirem contra essas pessoas ou seus responsáveis, como é feito hoje.

Também peca a igreja quando demoniza crianças, adolescentes e adultas que estão diante desse dilema. Refiro-me especificamente à Igreja Católica, que faria um bem imenso se não continuasse a classificar como pecado o uso de métodos anticoncepcionais entre as mulheres. Elas podem e devem usá-los para não colocar no mundo pequeninos condenados à fome e à falta de instrução num país onde a miséria não é considerada crime por esse bando de anencéfalos morais levados a Brasília pelo reacionarismo brasileiro.     

12 de junho de 2024

Votações do obscurantismo


Está em discussão no Congresso Nacional, por mais incrível que possa parecer, um projeto de lei que pretende tornar mulheres que interrompem a gravidez após serem vítimas de estupro passíveis de acusação de homicídio doloso. Já não bastou o estupro, uma violência inominável, e a pessoa atingida ainda vai ser acusada de ser assassina. E isso por um ato que é previsto em lei como não sendo criminoso. Sim, porque a legislação brasileira considera legal que as mulheres - caso queiram - façam aborto em apenas três hipóteses: no caso de estupro, quando o feto é anencéfalo e quando a grávida pode morrer nessa condição.

Pois o obscurantismo legislador brasileiro quer perpetrar mais um monstrengo jurídico desde já condenado a ser declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O mais absurdo é que isso não está sendo gestado apenas por burrice pura, embora obscurantista seja quem se encontra na escuridão, vive na ignorância. E, em nível social, político e cultural essa situação seja o sistema que nega a instrução e o conhecimento às pessoas com a consequente ausência de progresso intelectual ou material. A rigor, tais preceitos já deveriam estar sepultados pela história, posto que vicejaram sobretudo na Idade Média.

Então o que ocorre hoje na Câmara e no Senado Federal? Acontece que nas últimas eleições, a reboque do pensamento de um sociopata que acendeu à presidência da República antes do governo atual agarrado na calda de cometa do renascimento do pensamento reacionário de grande parte dos brasileiros, foi criada como um dos seus sustentáculos uma tal "pauta de costumes" que reuniu e reúne o que há de mais retrógrado no pensamento e nas convicções dos brasileiros. Ele se baseia na ignorância - sim, eu posso ser ignorante até mesmo tendo curso superior! - e na disseminação de tudo o que existe de pior no cardápio da cultura nacional.

Isso se tornou de vital importância porque virou uma arma política. Pesquisas mostram que esse reacionarismo, em grande parte sustentado por correntes religiosas ligadas ao novo evangelismo formado por "confissões" de líderes picaretas, tem uma força enorme junto ao eleitorado nacional. Pode eleger muita gente, como aconteceu nas últimas eleições legislativas federais, quando um contingente imenso de desqualificados ganhou mandato de deputado federal ou senador para cultuar o genocida inelegível e também para sustentar de todas as formas uma pauta de loucuras que chegam a ser obscenas.

Só para terminar por onde começamos: se você acha pecado interromper a gravidez depois de engravidar vitimada por um estuprador, vá em frente. A lei em vigor te dá esse direito. Mas se para você levar adiante essa situação é mais uma violência injustificável, interrompa a gestação. Da mesma forma como você pode fazer isso se sua vida estiver em risco caso a gravidez prossiga ou se ficar comprovado que seu feto não tem cérebro da mesma forma como, parece, não têm aqueles que defendem essas pautas no Congresso.

Creio que isso vai continuar sendo só uma questão de opção. 

4 de junho de 2024

Fim da linha para vocês!


"A mentira espalhada pelo poderoso ecossistema das plataformas é instrumento de covardes e egoístas!"

São duas pessoas, duas histórias de vida, duas maneiras diferentes de pensar e agir, mas um ponto em comum: os ministros Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia, o primeiro deixando o cargo de presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a segunda o assumindo (foto de ontem) têm um ponto e comum: eles defendem de forma tenaz a democracia brasileira reconquistada com sangue, suor e lágrimas em 1985 depois de 21 anos de tirania e reafirmada agora, após as sucessivas tentativas de golpes de Estado que culminaram com os atos de violência de 08 de janeiro de 2023, quando a sede do poder federal foi atacada em Brasília por um enorme bando de criminosos arregimentados por ordem do ex-presidente da República ainda solto.

Alexandre enfrentou a pior fase da turbulência gerada pelo crime organizado de iniciativa de um chefe de Estado e graças também à omissão criminosa de organismos de segurança, sobretudo militares, cooptados por este. Além disso, por uma enorme teia de mentiras orquestradas pelas redes sociais controladas por esses criminosos. Agora Cármen vai encarar uma segunda fase dessa luta, quando terá de ser juíza em uma eleição de âmbito nacional encarregada de sagrar mais de cinco mil prefeitos em todo o Brasil. A extrema direita política, dona de apreço zero pela democracia e representante da mais absoluta falta de respeito pela história do Brasil, lutará pelo caos institucional. Não importa a ela que as eleições sejam limpas, pois se o resultado final não for aquele que espera choverão denúncias irresponsáveis de fraude e outras. Dane-se se o país sofrer danos após isso. O Brasil só importa a eles se for deles a qualquer preço.

Alexandre e Cármen representam o que temos de melhor, seja com nossos defeitos defensáveis - não somos infalíveis -, seja com nossas virtudes que se sobressaem a eles. São a cara do brasileiro! 

O reacionarismo corporificado pelos princípios (sic!) do extremismo politico tem o direito de odiar Alexandre, Cármen e todos os que os acham cidadãos da maior qualidade. Se eles vencerem - e agora é a vez da segunda lutar por isso - nós teremos mantido o nosso país no caminho da defesa das instituições civis e militares que prezam os valores democráticos e os querem fortes, vença quem vencer as eleições que ainda estão por vir. Não importa quem nós apoiarmos, pois energúmenos armados ou donos de mandatos não têm o direito de tentar intervir, sobretudo pela força, nos destinos de todos os demais. A eles está reservado o lixo da história.

A  ministra Cármen Lúcia, de novo presidente do TSE, saberá dizer aos criminosos com a voz serena que sempre ostentou: "Fim da linha para vocês!".  

29 de maio de 2024

A vitória (sic!) dos corruptos


O que pensar de um país onde a maioria de seu Congresso Nacional recusa um texto legal que torna crime a difusão de mentiras (chamadas hoje de fake news) durante eleições municipais de certo ano? O que houve foi que durante o governo do presidente genocida e inelegível, este vetou uma parte da nova Lei de Segurança Nacional que criminalizava o uso das chamadas redes sociais para difusão de mentiras, sobretudo durante eleições. O veto caiu com o novo governo, mas ontem o Congresso Nacional, por ampla maioria decidiu pela manutenção da fórmula do antigo mandatário hoje em vias de ser preso. Ou seja: essa é a vitória do crime sobre a prática honesta do exercício da política.

A quem interessa que durante campanhas eleitorais uma enxurrada de fake news inundem as redes sociais para interferir nos resultados dos pleitos? Aos corruptos. Àqueles que usam de todos os meios ilícitos para construir resultados de eleições a seu favor. Esses homens e mulheres hoje constituem uma bancada de vários partidos diferentes em nomenclatura, mas iguais no horizonte que traçaram para eles mesmos: manter seus privilégios a quaisquer custos. Desde a defesa intransigente de uma "pauta de costumes" da Idade Média até a defesa pouco disfarçada de milícias e outras formas de crimes os mais diversos, a maioria deles por formação de quadrilha e com uso de muita violência, inclusive no campo.

E é bizarra a justificativa: querem defender a liberdade e combater a censura na ditadura onde dizem viver. Fazem isso em nome de um ex-capitão do Exército colocado na reserva remunerada para não ser preso e que se notabilizou por defender a ditadura que infelicitou o Brasil de 1964 a 1985, a prisão ilegal e tortura de opositores, a destruição do Poder Judiciário através do Supremo Tribunal Federal, a Constituição Cidadã de 1988, as instituições civis via sobretudo ONGs e outros. O energúmeno que os representa chegou a defender em plenário o AI-5 e torturadores como o militar Brilhante Ustra. Hoje seus filhos o representam, como o "Zero Um" fotografado ao microfone ontem no Senado Federal (foto).

Os corruptos venceram por agora, mas vão perder logo mais adiante. A extrema direita brasileira e que eles tão fervorosamente representam não sobrevive sem as fake news, sem se alimentar da difusão de mentiras e do ódio que distribuem. Hoje ela tenta penetrar em todos os setores da sociedade brasileira para dominá-la antes de destruí-la. Ao final vão perder, como sempre perderam. Mas não sem antes causar prejuízos imensos à sociedade brasileira. Aliás, isso é tudo o que fazem com reconhecida competência.              

19 de maio de 2024

Essa gente nojenta


A fina flor do excremento político mundial está reunido agora em Madrid num movimento que visa interferir nas eleições para o Parlamento Europeu que serão realizadas em junho e visando a vitória da extrema direita. Querem que ela possa aumentar seu poder de interferência nos parlamentos das nações do grupo, e o ruim é que isso pode vir a ser conseguido em pelo menos sete dos 27 membros da UE. Mas ainda é tempo para os partidos democráticos reagirem e tentarem impedir esse crescimento do nazifascismo não apenas em solo europeu, mas também nas outras regiões do mundo como, por exemplo, na América do Sul.    

Hoje na capital da Espanha já estão intervindo na reunião que eles chamam "dos patriotas" pessoas como o espanhol Santiago Abascal, que é líder do VOX, partido de extrema direita responsável pela convocação da quadrilha toda; o português André Ventura, do Chega e que estava falando faz poucos minutos pelo horário de Brasília; a francesa Marine Le Pen, do União Nacional; o ex-primeiro ministro da Polônia, Mateuwsz Morawiecki, do Lei e Justiça (PiS); e ainda vai haver intervenções por vídeo conferência dos primeiros ministros da Itália, Giórgia Meloni (Irmãos de Itália) e da Hungria Viktor Orbán (Fidesz). Também figuras obscuras da política, como um foragido brasileiro, vão estar presentes ao encontro.

O que essa gente quer? Eles são todos filiados ao mesmo grupo no Parlamento Europeu e se dividem entre o ERC (Vox, Irmãos da Itália, PiS e, talvez depois das eleições, Fidesz) e o Identidade e Democracia (ID), reunindo Chega e União Nacional. A fina flor do novo nazifascismo! E qual é a plataforma dessa gente? Combater o globalismo como eles o compreendem, a nossa luta contra a destruição do clima no mundo e as bases constitucionais dos países que eles pretendem dominar através da luta contra o "comunismo", compreendida essa classificação como sendo aqueles que os combatem social e politicamente. O resto vocês todos já conhecem porque Adolf Hitler e Benito Mussolini, o criador do "Deus, Pátria, Família" abriram um caminho que os países aliados tiveram que destruir ao custo de 40 milhões de vidas.

Agora, por exemplo, a extrema direita brasileira quer impedir via Congresso que o governo federal importe um milhão de toneladas de arroz para manter o preço baixo. Lembro que durante o governo do genocida inelegível o Brasil importou arroz da Tailândia porque o "agro" exportou toda a produção em busca de melhores preços, deixando o mercado interno desabastecido. Agora esse mesmo "agro" predador tenta impedir a importação de arroz para manter os preços altos e longe da capacidade de compra da parcela mais pobre da população brasileira, depois de ter tentado esconder a safra de arroz já colhida e para forçar aumentos.

Esse "agro" vive às custas do contribuinte. Somos nós que sustentamos essa imensa associação às vezes criminosa de latifundiários responsáveis pela destruição das matas nativas brasileiras e pelo incremento do uso indiscriminado de venenos nas lavouras, o que é - está cientificamente provado - um dos fatores determinantes das mudanças climáticas brasileiras que geram, dentre outras coisas, o drama atual dos gaúchos com a destruição de parte do seu Estado. Costumo chamar a extrema direita do Brasil de "essa gente nojenta". Muitos não gostam da classificação, mas eles são isso mesmo. E têm milhões de seguidores, o que é pior para o futuro de nosso país.

Lutemos contra a extrema direita. Contra essa gente nojenta!

15 de maio de 2024

Eduardo e o ato falho


O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, equilibrava-se entre a necessidade que tinha de conseguir ajuda para a tragédia de seu Estado junto ao presidente Lula e a obrigação de permanecer colado à base eleitoral bolsonarista - que é forte no Sul do Brasil - pelo menos até o final desses tempos de altos e baixos. Estava conseguindo, inclusive sem citar muito "o agro", como gosta e é visto nessa imagem do jornal Correio do Povo, de Porto Alegre. Mas ontem escorregou e disse que o excesso de ajuda aos gaúchos vai acabar prejudicando o comércio. Eduardo vai ter que encontrar um meio de chorar o leite derramado fora de hora junto aos mais inteligentes dos seus conterrâneos.

Um estudo publicado recentemente pela Fundação Friedrich Ebert aqui no Brasil e com os nomes dos pesquisadores Marco Antonio Mitidiero Junior e Yamila Goldfarb mostra que, como disse a revista Fórum, no artigo "Mudança Climática, energia e meio ambiente", "o agro não é tech, o agro não é pop e muito menos tudo". Ao contrário, o agro sangra o país para enriquecer desmedidamente uma casta de multimilionários rurais que vivem à custa de dinheiro público para tocar negócios privados sem um mínimo de risco. Num Estado capitalista, ele quer abocanhar até mesmo terras devolutas, como faz em São Paulo.

Mais do que isso: esse ramo de nossa economia interfere na política de gestão ambiental brasileira de acordo com seus princípios de "Estado mínimo" e com isso agride o meio ambiente de todas as formas, sobretudo destruindo solos, rios e florestas num modelo de exploração do campo que concentra a propriedade rural apenas tão somente em imensos latifúndios. Tem uma enorme bancada chamada "ruralista" regiamente paga para defender seus interesses no Congresso e investe muito em propaganda junto aos meios de Comunicação como forma da dar um "cala a boca" na opinião pública. Ultimamente conseguiu  até mesmo ampliar de forma desmedida a área que pode ser desmatada em nossas florestas, a quantidade de veneno usado nas lavouras e a agressão aos direitos dos povos naturais que morriam de fome à época de seu ex-presidente genocida.    

Quem está defendendo o Rio Grande do Sul e minorando o sofrimento dos gaúchos hoje é o governo federal e o maravilhoso povo brasileiro que, excetuada a extrema direita, dá a mão ao próximo sempre que ele precisa, sem objetivar nada em troca. Não é Eduardo Leite, esse frajola amigo dos representantes do agro que se omite nas horas de aperto do povo e não comparece para ajudar, ao contrário do que faz a cozinha do MST e não o seu agro. Agora ele está preocupado, coitadinho, com o comércio que pode ser afetado pelas doações. Claro que sim, pois é o pobre quem vai ser penalizado pela falta de doações se elas escassearem.

O brasileiro comum é quem salva o Brasil.


12 de maio de 2024

Eles renovam. A esquerda, não!


Os jornais que circulam hoje em Portugal, sobretudo "Público" (foto da capa) trazem longas reportagens que falam sobre o crescimento da extrema direita no País. E o fenômeno deles não é diferente do nosso, embora em terras lusitanas já haja um partido político descaradamente nazifascista, o Chega, enquanto aqui no Brasil ainda exista um resquício de pudor impedindo que o Partido Integralista ou alguma coisa parecida com ele emerja das cinzas fecais onde se encontra. E por que isso acontece? Ocorre porque lá na Europa os extremistas de direita estão cooptando a juventude, renovando seus quadros enquanto a nossa esquerda - e talvez a deles também - discursa com os cabelos brancos de seus quadros há muito envelhecidos.

A reportagem de "Público" fala da infiltração fascista na agenda anti-imigração - inclusive com agressões físicas a imigrantes -, do apoio aos outros países onde a extrema direita pontifica como é o caso da Hungria, e mostra que lá, dentre outras coisas, "influencers" atraem universitários ou mesmo adolescentes por intermédio de propagadores do ódio mascarados de jornalistas. Tudo isso vai aos poucos alimentando o Chega e outros grupamentos do nazifascismo da carne nova tão necessária a seu crescimento, à sua disseminação. Foi assim na Alemanha hitlerista.

O jornal "Diário de Notícias", que nasceu na Cidade do Porto, fala da ligação entre o Chega e o governo de Benjamin Netanyahu por intermédio de um "assessor" do presidente da legenda, André Ventura e de nome Tânger Corrêa. Esse indivíduo, dentre outras, acredita que os judeus que trabalhavam nas Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001 tenham sido avisados para não irem a seus escritórios no dia do ataque terrorista. Isso é a Teoria da Conspiração levada às últimas consequências...

No caderno "P2" de "Público", que circula aos domingos, uma longa entrevista com o filósofo norte-americano Lee McIntyre, investigador no Centro da Ciência na Universidade de Boston e autor, dentre outros, do livro "Como falar com um negacionista", mostra o entrevistado advertindo: "Na era da pós-verdade a desinformação serve para destruir o conceito de verdade. Os que não votam, não veem notícias e  não acreditam em  nada são um perigo." Também o semanário "Domingo" publica uma reportagem de capa sob o título "O arquiteto demolidor". É biografia de Benjamin Netanyahu, formado em arquitetura no prestigiado MIT e hoje especialista em arquitetar a destruição palestina.

Toda essa pauta comum e que não pode ter sido combinada por meios de comunicação tão diversos e distantes até ideologicamente mostra que há uma preocupação grande em Portugal com o que nos deveria preocupar também. Mas as correntes brasileiras de esquerda, além de duelarem diariamente por questões menores, nada ou quase nada investem na renovação de seus quadros. Onde está, por exemplo, o PT Jovem? A garotada que poderia ocupar espaços generosos nas reuniões dos partidos políticos fica em casa lendo o Tio Patinhas enquanto os herdeiros de Adolf Hitler e Benito Mussolini vão aos poucos mostrando as garras que podem nos levar ao caos.

Assim a democracia vai perder...        

8 de maio de 2024

O esperneio do Brasil doente


Em "A psicologia das massas e análise do eu" Freud disse que "a massa é extraordinariamente influenciável, o improvável não existe para ela". E mais adiante: "Os sentimentos da massa são sempre muito simples e muito exaltados. Ela não conhece dúvida nem incerteza. Vai prontamente a extremos; a suspeita exteriorizada se transforma de imediato em certeza indiscutível, um germe de antipatia se torna um ódio selvagem. Quem quiser influir, não necessita medir logicamente os argumentos; deve pintar com imagens fortes, exagerar e sempre repetir as mesmas falas". Isso foi escrito em 1921 e se aplica hoje ao Brasil, 103 anos depois...

Nós estamos vendo o que se passa no Rio Grande do Sul. A imagem acima é uma foto do saguão de embarques e desembarques do aeroporto internacional de Porto Alegre tomado pelas águas. Milhares de brasileiros, talvez mais de um milhão se movimentam para ajudar a população desse Estado. Forças Armadas e organismos militares auxiliares, além de civis unem-se ao esforço para salvar a região que, ao final do drama vivido poderá computar mais de duas centenas de mortos. O governo federal faz tudo o que pode para ajudar e nem é preciso gostar dele para dar-lhe o braço nesse esforço. É aquele velho lugar comum que não cabe como trocadilho: nessa inundação sem precedentes estamos todos no mesmo barco.

Mas todos, não. O Brasil doente não embarca na nau de salvamento lançada às águas das inundações. Ele continua a conspirar todos os dias e a todas as horas. Manda legisladores aos Estados Unidos para fazerem denúncias contra a "ditadura" instalada no País, como se ela existisse realmente e denunciada por seguidores de alguém que já se declarou apoiador de tortura e defensor do fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. Alguém que adotou o lema do fascismo "Deus, pátria, família" e a ele acrescentou um "liberdade" de fake news.

Mas o esperneio do Brasil doente não vai progredir. Frei Beto disse recentemente no artigo "Políticas sociais mudam a cabeça do povo?" que  não. Não mudam e isso confirma o pensamento freudiano. Se fosse assim a União Soviética, percursora de tantos avanços sociais não teria desmoronado sem um único tiro depois de décadas, apesar de carregar sobre os ombros o estigma dos crimes do stalinismo. Depois de discorrer longamente sobre o tema o autor encerra com uma conclusão que também é a minha: só a educação faz uma nação sobreviver ao retorno do fascismo e de outros gêneros absolutistas.

Nos dias de hoje, além de a gente acreditar que os gaúchos vão sobreviver aos eventos trágicos e graves desses dias, ainda nos conforta constatar que o Brasil saudável é muito maior e tem muito mais força. O Brasil doente vai seguir perdendo, como sempre. E também temos uma crença adicional: é preciso eleger a educação como prioridade maior na reorganização do Estado. Ela é a salvação e por isso a extrema direita a odeia.