27 de janeiro de 2026

Tempos cruéis e os insensatos

"Chegou a época dos predadores", diz Giuliano Da Empoli sobre os tempos mais recentes, esses que se vive depois do retorno de Donald Trump à Casa Branca. Hoje, para os novos fascistas não existe mais multilateralismo, organizações supranacionais - como a ONU -, nada disso. Vale a lei do mais forte, a daquele que pode enviar uma determinação da Casa Branca ao mar e destinar a determinado território do mundo um dos porta-aviões nucleares que os Estados Unidos possuem. Para o professor da Universidade Autônoma de Barcelona, Steven Forti, lembrado num brilhante artigo intitulado "Novo Mapa Geopolítico", de autoria de nosso Frei Beto, foi inaugurada uma nova era. Volta à cena o mundo de ontem.

Por si só esse fato deveria ser motivo para reflexões, discussões sérias e busca de saídas que permitam ao mundo outrora chamado "livre" continuar sua trajetória num planeta terra onde as leis internacionais e as fronteiras entre países não são mais respeitadas todos os dias. Mas não. Somos obrigados a ver diariamente, ao vivo e a cores pela TV, um imbecil de nome Nikolas Ferreira, cercado por muitos outros de igual falta de nível, desfilar por rodovia à frente de uma espécie de passeata sem sentido e que termina em Brasília onde uma chuva torrencial quase provoca tragédia quando uma descarga elétrica atinge a nau dos insensatos (foto).

Criança, morando em São Paulo, recordo-me de um dia em que a garotada foi chamada para assistir a uma palestra de autoridades sobre clima. Havia ameaça de chuva forte em terras paulistas e lá esses riscos devem ser levados a sério. No Ipê Clube fomos orientados a, durante tempestade, nos afastarmos de postes, outras elevadações, cercas ou proteções de metal, enfim, qualquer objeto que pudesse atrair as desgargas elétricas conhecidas como raios. Nunca me esqueci daquilo. Mas não os idiotas que Nikolas capitaneava. E o tempo rugiu!

Nem de longe esse rugido se compara ao que estamos vivendo no plano internacional. Mas preocupa ver cerca de 18 mil pessoas - segundo estimativas - reunidas debaixo de temporal para protestar contra a prisão de um ex-presidente criminoso que tentou dar um golpe de Estado e buscando mais uma vez fazerem acampamentos de protesto, agora em frente à penitenciária de Brasília, onde está o energúmeno. Felizmente foram contidos.

Felizmente também ontem o presidente da República do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, ficou cerca de 50 minutos ao telefone com Trump. Diplomaticamente, falando de Palestina, Venezuela e talvez de outros assuntos. Diplomaticamente, debatendo um com psicopata sobre política internacional e, ao final disso, marcando um encontro entre ambos a Casa Branca. Vai dar resultado? Talvez não porque as razões subterrâneas e subalternas que movem a política internacional atual são difíceis de serem removidas. Mas essa - o diálogo e a tentativa de convencimento - é a única forma civilizada de isso ser tentado.

Ao mesmo tempo em que esse diálogo acontecia, numa região da Papuda cercada de restrições e atividade policial, o deputado movia sua nau dos insensatos. Eles nunca falam de saúde - e os feridos pelos raio foram atendidos pelo SUS -, educação, meio ambiente, infraestrutura, segurança pública - sem assassinatos -, pleno emperego, nada disso. Querem anistia para tentar o golpe outra vez. Perseguem a continuação desses tempos cruéis em todo o mundo porque aqui podem levar seus projetos (sic!) ao gado que os apoia e buscar um meio de voltar ao poder para mais uma vez usá-lo em benefício das elites que os sustentam.

É o que sabem fazer.            

23 de janeiro de 2026

O terror americano

Segundo foi noticiado, esse garotinho da foto acima, cinco anos de idade, filho de equatorianos, saia da escola e tencionava ir para casa. Foi detido por agentes do ICE, a polícia nazista anti-imigração dos Estados Unidos e levado para um Centro de Detenção no Texas. E notem que ele foi preso em Minnesota, bem longe. E não foi o único. No mesmo dia mais três crianças foram detidas por serem parentes de imigrantes, embora seus pais, como é o caso do genitor do gatotinho, estejam nos EUA vivendo legalmente.

Ontem mesmo a ONU reagiu a isso. O Alto Comissário para Direitos Humanos, Volker Türk, chamou a atuação contra imigrantes de "desumanização" e pediu que o governo Trump "respeite a dignidade humana e o direito ao devido processo legal", denunciando a forma desumanizadora e o tratamento indigno dado pelos órgãos policiais e imigrantes e refugiados. Foi mais além: "Indivíduos estão sendo vigiados e detidos, às vezes violentamente, inclusive em hospitais, igrejas, mesquitas, tribunais, escolas e até mesmo em suas próprias casas, sob meras suspeitas de serem imigrantes indocumentados. Crianças estão perdendo aulas e consultas pediátricas às vezes por medo de nunca mais voltarem a ver seus pais". Esse é o sonho americano tornado pesadelo!

O menino da foto havia completado cinco anos. No rosto dele estão visíveis o susto e o desespero. Hoje está numa prisão, nome que se dá a esses Centros de Detenção. Com medo, deve estar procurando a mãe e o pai, sem entender o que aconteceu a eles. Esse trauma o menino vai carregar pelo resto da vida, e isso se sobreviver porque até hoje 36 pessoas foram mortas pelo ICE, em todos os casos com violência. Um cubano refugiado e que estava morando nos EUA foi assassinado por asfixia. "Estava sendo contido", diz o ICE.

O sonho americano acabou já faz muito tempo. Hoje o que existe é o terror. Quem chega lá para viver e trabalhar, além de não conseguir legalizar sua situação ainda tem que realizar trabalhos braçais para permanecer naquele país, e com medo de o ICE bater à porta de repente. Há casos de pessoas que comparecem à Justiça para legalizar a situação e são presas ao saírem dos tribunais. Ninguém tem sossego mais e os imigrantes evitam até mesmo falar em inglês para não serem traídos pelo sotaque. É um risco!

O lugar de a gente morar é na nossa casa. Aqui, mesmo com todas as falhas, o Brasil oferece tratamento pelo SUS, Bolsa Família, ingresso em universidades públicas - o que estão tentando impedir em Santa Catarina - Minha Casa Minha Vida e diversos outros programas que têm por foco oferecer dignidade ao cidadão mais pobre. O Equador não é o fim do mundo e o nascido lá deveria permenecer no país para construir uma nação capaz de abrigar a todos. Isso se presta também a outros países, mesmo os reconhecidamente pobres. Ou então governados por déspotas como é o caso de El Salvador.

A gente vive com a certeza de que esses tempos hão de passar. Em um futuro bem próxmo terminará o mandato de Trump nos EUA e a paciência dos salvadorenhos em El Salvador. No mundo que se aproxima não haverá mais lugar para extremismos de direita, para nazifascismo disfarçado de democracia e nem nada parecido com isso. O quadro de hoje, mostrado no Furum de Davos onde o presidente ianque apresentou ao mundo seu mais novo delírio, será reescrito em breve. Espero viver para ver isso acontecer.   

20 de janeiro de 2026

Uma ONU para Trump? Chega!

 


Imagino que deva estar sendo muito difícil para o atual governo brasileiro responder ao "convite" dos Estados Unidos de fazer parte do tal Conselho da Paz que, na verdade, é a destruição da ONU pelo presidente Donald Trump e sua substituição por um fantoche sob sua única e exclusiva guarda e em atendimento a projetos dele em sociedade com o sionismo de Israel. É uma ONU só de Trump! Na prática, a paz defendida por esse mandatário psicopata pode ser vista na foto acima:  pouco sobrou da Faixa de Gaza depois de iniciado o genocídio do povo palestino sob o comando de Benjamin Netanyahu.

Como esse homem vê Gaza? Da mesma forma como a Venezuela: uma oportunidade de negócios. Grande negócios! O líder dos EUA, colocado na Casa Branca pela segunda vez, jamais em toda a sua vida se importou com democracia, liberdades individuais, direitos humanos ou meio ambiente. Dane-se tudo isso. Não fosse assim e ele não estaria lado a lado com o chefe de Estado da Arábia Saudita que controla seu país com punhos de ferro e mandou matar, esquartejar e desaparecer com o corpo de um jornalista seu opositor.

A Arábia Saudita é boa para os negócios! Da Venezuela Trump quer logo de saída 50 mihões de barris de petróleo. Mas vai querer muito mais. De Gaza ele já disse mais de uma vez sonhar com um resort de luxo onde seu genro saberá usufruir das chances de mais enriquecimento. E não é preciso ser inteligente para perceber que não haverá lugar para os palestimos nesse éden do futuro. Os que sobreviverem ao massacre serão expulsos de lá, não importando para onde.

Já Cuba, Trump pretende destruir porque ela representa um símbolo de resistência. Faz seis décadas sobrevive ao bloqueio dos Estados Unidos sob os mais diversos governos deles e com muita pressão em todos os sentidos. E isso na costa americana! O topete loiro não aceita tal coisa e, por saber o que terá pela frente, o presidente cubano Dias Canel já foi obrigado a colocar seu país em estado de guerra. Uma nação que nunca representou perigo militar para os ianques!

A Groenlândia é outro caso de psicopatia clara. Ele quer porque quer anexar a ilha aos Estados Unidos. Em linguagem clara, pretende tomar à força e contra o desejo de seus habitantes um Estado associado ao Reino da Dinamarca. Para quê? Pelo petróleo que existe lá, pelos minerais estratégicos e outras riquezas. China e Rússia jamais invadiram a ilha e não parecem dispostos a isso. Ao menos nenhum movimento é feito nesse sentido. A China, por sinal, não participa de guerras desde sua consolidação como Estado.

Vejam como as coisas se agravam: sob o comando do ministro fascista de segurança Itamar Ben-Gvir, Israel demoliu ontem a sede da Agência da ONU para Refugiados Palestinos em Jerusalém Oriental, substituindo a bandeira do órgão por uma de seu país. A presidência rotativa pertence ao Brasil. Em Paris, uma juíza francesa que atuava no caso Marine Le Pen foi ameaçada por emissários dos EUA de ser incluída na Lei Magnistsky caso não reduzisse a pressão sobre a acusada. O presidente dos EUA usou mais uma vez sua ridícula rede social para atacar os europeus, fazer ameaças envolvendo a Groenlândia e usar uma foto da Venezuela e outra do Canadá como possessões dos Estados Unidos.

É hora de dizer chega! O mundo tem que enfrentar esse Hitler do Século XXI. 

19 de janeiro de 2026

Conselho de que paz?

 
Em mais uma demonstração de que vive fora da realidade, o presidente dos Estados Unidos anunciou um tal de Conselho da Paz e para este convidou várias personalidades mundiais que ocupam cargos de comando em diversas regiões, dentre as quais o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. O convite foi entregue à embaixada brasileira em Washington, encaminhada ao Itamarati e este pediu informações complementares aos EUA antes de uma resposta oficial. Mas isso é um cilada e não devemos participar dela de forma alguma. De que paz estamos falando? Será por acaso da paz dos cemitérios?

O Conselho é genérico e não diz especificamente que cuidará da causa dos palestinos, o povo que está sendo masssacrado pelo sionismo internacional como mostra a foto acima. Os membros terão mandato de três anos a menos que doem um bilhão de dólares para a "causa". E só o presidente dos Estados Unidos terá direito de veto! Essa anomalia diplomática exclui os palestinos do grupo decisório e, pior de tudo, faz de conta que a ONU não existe. O Brasil, é sempre bom lembrar, defende o multilateralismo e a Organização das Nações Unidas. Por trás dessa mais nova criação de Trump está o desejo de ele dominar o mundo.

É bom lembrar que a ONU surgiu das cinzas da II Guerra Mundial substitundo a Liga das Nações, a primeira organização intergovernamental criada para promover a cooperação e alcançar a paz internacional, isso em 1919, e que deixou de existir por não ter sido capaz de evitar a II Grande Guerra. Mas essa segunda organização vem sendo desrespeitada em todos os sentidos e sofre de males como o poder de veto que até hoje é mantido como privilégio dos vencedores do conflito provocado pelo nazifascismo e encerrado faz 80 anos. E é o renascimento desse pensamento político racista que mais uma vez nos assombra.   

Trump age sem pensar no fato de que dentro de três anos não será mais presidente. Provavelmente voltará a comparecer a audiências na Justiça de seu país como réu. Vive num mundo onde pode invadir países, sequestrar presidentes dos quais não gosta, considerar uma outra nação como um estado norte-americano e, pior do que isso, determinar que todos aqueles que discordam dele têm que pagar tarifas aos EUA. Quer porque quer ser dono da Groenlândia, a maior ilha do mundo e que vivia em paz até ele ser eleito. Trump é uma anomalia como ser humano e um psicopata perigoso ao comando da maior máquina de guerra dos tempos atuais. Mas, também, de um império em decadência.

É o fato de ele saber que os tempos áureos ianques passaram que o faz querer usar da força como argumento. E tentar dobrar todos à sua vontade. A Europa cometeu um erro ao se deixar levar pelas asas dos Estados Unidos, sob as quais aceitou ficar considerando a OTAN como uma salvaguarda sem restrições ao "expansionismo soviético". Não era e não é. A dissolução da União Soviética poderia ter servido para que esse órgão perdesse importância e um realinhamento fosse tentado. Não foi. A distância continuou mantida em relação aos russos e o resultado é esse.

Nas últimas décadas depois do final da II Guerra Mundial, em 1945, os EUA fracassaram em todos os conflitos nos quais se envolveram ou provocaram. O exemplo mais candente ainda é a guerra do Vietnã, mas há outros. Em todos os casos, além de serem militarmente derrotadas, as forças armadas norte-americanas deixaram um rastro de destruição atrás de si e nações em frangalhos. O caso do Iraque salta aos olhos. De forma indecentemente mentirosa os ianques invadiram o país alegando que este possuía armas de destruição em massa. Arrasaram tudo, uma das regiões mais antigas da cultura humana, e fizeram com que os danos de sua passagem perdurassem até os dias atuais em quase toda a região.

Trump talvez seja mais nefasto ao planeta do que Hitler. Possivelmente guarda mais ódio em seu microcérebro do que Netanyahu. E deve deixar como herança sua um imenso rastro de destruição quando sair do poder ou este o abandonar. Tem que ser detido e, ao que parece, isso vai caber aos próprios norte-americanos. De nossa parte seria oportuno não pisar no pântano. Mas essa decisão cabe a Lula e ele deve estar considerando muitos fatores.

16 de janeiro de 2026

O "imperador" e a "presidente"

 

Se algum dia alguém me pedir uma imagem perfeita, pronta e acabada da indignidade humana, eu mando a essa pessoa a foto aí acima. Foi tirada ontem na Casa Branca durante o almoço que o "imperador" Trump ofereceu à "presidente" Maria Corina. Juntos e quase colados estavam o psicopata e a capacho, num encontro para o qual ela sequer foi recebida pelo chefe de Estado na entrada principal. Ingressou na Casa Branca por um acesso lateral e nem lá foi esperada à porta, como manda o protocolo ao menos da boa educação.

Maria Corina é parte da estrutura do golpe que levou à deposição por prisão e sequestro do presidente Nicolás Maduro, e isso é de conhecimento geral. Foi um golpe de Estado magnificamente bem organizado e os Estados Unidos são professores doutores no assunto. Surpreendentemente, boa parcela do regime venezuelano fez parte da trama por participação ou omissão. Para nossa sorte o ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje ocupante de um "apartamento" na Papudinha, não fez o curso. Deixou de aprender o básico da matéria.

Quem estuda isso com interesse, vê que há "coincidências" grandes entre o atual presidente dos EUA e o antigo ditador nazista Adolf Hitler, morto em 1945. No caso deste, ele começou sua busca por "espaço vital" ou "Lebensraum" com a tomada da Renânia, que os alemães estavam probidos de ocupar por causa do Tratado de Versalhes, ao final da Primeira Guerra Mundial. Depois anexou a Áustria, recebido quase com tapete vermelho, os sudetos, que eram parte da Tchecslováquia, Boêmia e Morávia. Somente quando foi invadida a Polônia os europeus acordaram e Inglaterra e França declararam guerra à Alemanha.

Trump chama suas pretensões de "segurança nacional", o mesmo axioma que ditaduras como a do Brasil usaram no passado. Atacou a Venezuela para tirar um ditador de lá quando na verdade queria e quer o petróleo; chegou a chamar o primeiro ministro canadense de "governador" porque imagina aquele país como o 51º estado norte-americano e agora volta seus olhos para a Groenlândia, que já se disse disposto a atacar militarmente para evitar que ela seja "ocupada" por Rússia e China. Talvez os contrapesos existentes nos tempos modernos freiem esse indivíduo. Senão teremos uma terceira gerra mundial às nossas portas. Como outros presidentes americanos, esse também tem fixação por Cuba. Freud explica? 

Existem poucas diferenças entre Hitler e Trump além do bigodinho do primeiro e a cabeleira loura do segundo. Na raiz dos pensamentos de ambos está a beligerância, a mentira e a falta de qualquer tipo de decência. Tanto que o presidente norte-americano se acha digno do Prêmio Nobel da Paz e pretende continuar a lutar por ele. Pior de tudo, tem chance de conseguir isso pois, afinal de contas, é tratado como líder mundial apesar dos pesares. Isso faz parte de uma farsa, espécie de teatro do absurdo que resiste aos tempos e se retroalimenta graças à passividade com que o mundo acompanha as loucuras trumpistas atuais.

E ao que tudo indica o narcisismo maligno, transtorno de personalidade antissocial e declínio cognitivo de Trump, todos já diagnosticados por estudiosos que o têm como foco, atingiram mais pessoas de sua proximidade. A última, a porta voz Caroline Leavitt deu um show pitiático contra um jornalista credenciado na Casa Branca que a questionou sobre o assssinato de uma americana pelo ICE. Chamou o homem de esquerdista, falso profissional e, dentre outras coisas, disse que ele não poderia continuar ali.

Sempre a mesma receita.   

14 de janeiro de 2026

Aposentados da Belíndia

 

A Previdência Social reajustou os valores das aposentadorias do INSS em 3,9 por cento para quem ganha acima de um salário mínimo mensal. É percentual inferior ao da inflação oficial de 4,26 por cento, bem menor do que o reajuste do salário mínimo, que ficou na faixa dos 6,79 por cento e foi para R$ 1.621,00. Isso tem, no médio prazo, efeito perverso: faz com que os benefícios se achatem e se aproximem cada vez mais da base da pirâmide social, para uma população que, no final da vida, tem necessidades maiores com gastos inevitáveis como de saúde.

Recordo-me de quando comecei a trabalhar e o teto das aposentadorias era de 20 mínimos, o que daria hoje R$ 32.420,00 mensais. Isso seria perto do melhor dos mundos e atenderia às despesas da totalidade das necessidades não cobertas pelo Estado Brasileiro. Só que esse período histórico dos 20 mínimos foi encerrado com a lei nº 8.213/91 e hoje os reajustes não mais são calculados em múltiplos de salário mínimo, mas sim por critérios outros. Tanto que o teto do INSS para 2026 é de R$ 8.475,55. Um quarto do que era antes!

Mas estou até agora falando do INSS e não do Serviço Público, onde a realidade é outra. Neste existe o Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), que é diferente do INSS e embora tenha reduzido os benefícios de algum tempo para cá, ainda permite "planos complementares", onde moram os penduricalhos que, somados aos ganhos mensais por si só bem maiores do que os da Previdência dos simples mortais, garante aos servidores salários bem maiores e a incorporação desses complementos aos rendimentos mensais. É a glória!

Costuma-se dizer que o Brasil há muito tempo se transformou na Belíndia, que seria a mistura da Bélgica com a Índia. A primeira para os membros dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e que estão no topo da pirâmide social. A segunda para os "indianos" do Brasil, sem direitos, benefícios extras e mordomias e que lutam para pagar o aluguel, comprar remédios e viver sem planos de saúde, pois um imenso contingente dessas pessoas não tem como pagá-los. Sim, o SUS é uma virtude brasileira, um sistema de justiça social, mas está longe de pode suprir com eficiência as necessidades de saúde de todos os cidadãos.

Vamos ficar em poucos exemplos: no Poder Legislativo as "excelências" têm direito a benefícios como cobertura ampla em planos de saúde e com acesso a "redes premium", incluindo dependentes. Muitos ainda lutam para que esse maná seja eterno enquanto dure a vida. Coisa como ser filha de general, que não pode se casar mas tem o direito de viver amasiada por quantos anos quiser e ganhando integralmente a aposentadoria do papai, um "ex-combatente" de gabinetes refrigerados de casernas. Se casar, aí perde o benefício!

No caso do Judiciário, um dia o governo ensaiou uma lei que restringisse realmente os ganhos do Serviço Público ao teto constitucional de R$ 46.366,19, vigorando a partir de 1º de fevereiro de 2025, e bloqueando todos os excedentes. Um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo com vencimentos mensais sueriores a R$ 200 mil se disse revoltado porque seus ganhos eram uma "história de vida". Ele é um dos que julgam as ações daqueles que não têm história de vida e negam reajustes do INSS por inconstitucionalidade...

Não seria justo jogar nos ombros do atual presidente e seus auxiliares todas as mazelas e distorções das aposentadorias brasileiras. Afinal, ele tem se esforçado para dar ao salário mínimo reajustes superiores à inflação oficial todos os anos e já encontrou a casa desmoronada, sobretudo após quatro anos de desgoverno Bolsonaro. Mas se o preço disso será o achatamento das demais faixas também ano a ano, é muito injusto no País onde os habitantes da Índia dessa Belíndia vivem apertos diários e nem sequer direito a um tipo qualquer de emenda parlamentar, a nova forma de corrupão institucional, têm para usufruir.

12 de janeiro de 2026

O cinema de ouro!

 

Por dois anos seguidos o cinema brasileiro faz sucesso nas edições do Globo de Ouro, nos Estados Unidos. E a segunda delas  foi ontem, com duas vitórias de "O agente secreto", uma com o diretor Cléber Mendonça Filho e outra com o ator Wargner Moura (foto). Ambas muito  merecidas, e isso depois de Fernanda Torres ganhar igual prêmio com "Ainda estou aqui" no ano passado. Os prêmios fizeram nosso cinema de ouro. Naquele filme Fernanda Montenegro faz uma ponta brilhante. 

Houve um ponto em comum entre as duas vitórias, isso além do fato de serem ambos filmes excelentes: eles retratam uma fase difícil da vida brasileira, quando vivíamos numa ditadura militar cruel e que durou 21 anos. No caso de "Ainda estou aqui", o retrato é do sequestro, assasinato e desaparecimento do corpo do deputado federal Rubens Paiva. No segundo, "O agente secreto", uma obra de ficção/realidade e que mostra a vida de um professor de tecnologia que tenta fugir de seu passado violento indo de São Paulo para Recife, mas descobre que esses tempos vividos o seguiram para o seu novo endereço.

O maior mérito dos dois filmes, além da reconstrução esmerada da época em que foram vividos, reside no fato de que eles não permitem que nós nos esqueçamos de tempos que precisam ser lembrados para não serem revividos. Porque mesmo com todas as lembranças ainda vivas na maioria dos brasileiros, uma parte de nossa sociedade continua voltada para o passado, sonhando com um novo golpe de Estado que traga de volta à vida brasileira os tanques de guerra nas ruas, as prisões ilegais, as torturas e os assassinatos de presos, sejam eles políticos ou não.

Um cinema renovado só está sendo possível porque o Brasil vive novos ares nesses tempos, digamos, modernos. Mesmo com as limitações financeiras que nunca deixaram de atormentar as produções nacionais, há um crescimento do nível de nossos filmes, e isso é visível. Da mesma forma como salta aos olhos o fato de agora nós mesmos procurarmos divulgar as melhores histórias que fazemos, ainda que com atuações de forma indepedente. E no passado não era assim.

Em 1981, em pleno ocaso da ditadura militar, o diretor Leon Hirszman filmou "Eles não usam black-tie", com Gianfrancesco Guarnieri, Fernanda Montenegro (sempre ela...), Bete Mendes, Milton Gonçalves e outros. Uma bela história do militante sindical Otávio e seu filho Tião que engravida a namorada Maria, decidindo se casar apesar de todas as agruras. Não ganhou prêmio internacional algum e merecia muitos porque foi ignorado pelos meios de comunicação que hoje comemoram nossas mais recentes vitórias. Sinal dos tempos...

E esse fime tem uma cena que é um monumento: num momento crucial de silêncio e tensão, Romana (Fernanda) e o marido Guarnieri lidam com as dores da greve e da expulsão do seu filho. Ela separa os grãos de feijão a ser preparado para o almoço e o único som que se escuta é o do alimento caindo na panela. Só isso quebra o silêncio da cena icônica.

Nós começamos a olhar com carinho o cinema nacional a partir de "Central do Brasil", no qual Fernanda Montenegro (mais uma vez ela...) interpreta magnificamente uma escritora de cartas. Já era uma temática política e isso não passou desapercebido com os tempos. Tanto que ontem tive que rir na rua ao vir para casa depois de tomar um café expresso e dar de cara com duas feias senhoras que conversavam na calçada: "Dá vontade de fazer greve de fome se outro filme comunista desses ganhar o Globo de Ouro hoje à noite".

Faça isso não, madame. Vai sobrar alfafa em sua despensa.   

8 de janeiro de 2026

Faz três anos hoje!

 

Faz exatos três anos hoje que houve a última tentativa de golpe de Estado para a deposição de um presidente da República no Brasil. Mais do que isso, há três anos uma horda de marginais, dentre os quais havia alguns poucos inocentes úteis tentou tomar Basília logo em seguida à posse de um governo legitimamente eleito num processo eleitoral altamente fiscalizado. Dentre outras coisas a horda de criminosos destruiu até as instalações do Supremo Tribunal Federal como mostra essa foto do Correio Brasiliense.

Se essa gente liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro tivesse obtido sucesso nós não estaríamos hoje comemorando a vitória da democracia em nosso país. Quem viveu o regime militar 1964-1985 sabe o que é uma ditadura e os danos que ela é capaz de produzir.

As cenas e vandalismo do 08 de janeiro de 2023 foram mostradas ao vivo e a cores pelas emissoras de TV durante todo o tempo. Eu particularmente vi constrangido, quase chorando, quando um bandido que não usava camisa com as cores da bandeira de nosso país jogou do chão do pedestal onde ele se encontrava o relógio do XVII, peça histórica e dada de presente ao nosso país pelo imperador D. João VI.

Ele teve que ser restaurado posteriormente na Suíça por especialistas em mais de 1000 horas de trabalho e sem custo para o Brasil. Hoje está de volta a seu pedestal, no mesmo Palácio do Planalto invadido pelos vândalos de três anos passados. É o mesmo de antes, em toda a sua grandeza e pertence ao povo brasileiro.

Muitas coisas podem ser escolhidas para representar aquele dia de ignomínia. Pessoalmente prefiro o relógio que está aí ao lado, destruído e recuperado numa montagem fotográfica. Ele é o retrato da selvageria e da falta de patriotismo de uma gente canalha que fez e ainda faz da bandeira do Brasil um símbolo para eles de seu desconhecimento, de dignidade, ética, vergonha na cara e de decência.

É a mesma gente que colocou celulares na cabeça para pedir a intervenção de extraterrestres, rezou para pneus, marchou imitando militares e acampou diante de quartéis em praticamente todo o Brasil pedindo que as Forças Armadas rasgassem a Constituição Brasileira, destruíssem o Estado Democrático e de direito e mantivessem no poder um riminoso genocida e inelegível que havia fugido para os EUA.

O mais incrível em tudo isso é que talvez o atual presidente da República tenha que usar o dia de hoje para vetar uma tal de "dosimetria das penas" do 08 de janeiro de 2023, artifício legal horroroso arranjado por um tal de deputado Paulinho da Farça, ou da Força, que tenta com isso reduzir as penas dos criminosos e sobretudo do presidiário Jair Bolsonaro.

Ele, que passou o tempo todo agredindo, dizendo que preso tem mais é que morrer na cadeia, apoiou tortura, prisão ilegal, debochou das pessoas e disse que não é coveiro, dentre outras coisas, hoje passa os dias soluçando, chorando e caindo na cela de cabeça contra móveis. Não passa de um covarde, o que sempre foi desde a época do Exército.

Faz pouco tempo o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes disse que os crimes contra a democracia não podem ser beneficiados por anistia ou outros perdões legais como forma de cancelamento de pena. Tomara ele estenda esse seu entendimento à tal "dosimetria" também. As "velhinhas de bíblias nas mãos" eram e são extremistas de direita política e voltarão a delinquir se obtiverem qualquer tipo de perdão ou redução de pena.

Mesmo cumprindo os anos que ainda têm pela frente não abdicarão dos projetos de golpismo hoje entranhados em suas veias e vidas. Os que puderam fazer isso já estão em liberdade depois de acordos com a Justiça Federal reconhecendo suas culpas.

Hoje é um dia de solenidades em Brasília e outros lugares. Trata-se de levar o povo às ruas em atos de defesa da democracia e da soberania, como vai acontecer também em Vitória na Rua 7 de Setembro, no Centro. Talvez também de veto à "dosimetria" e outras aberrações mais. Mas sobretudo é um dia de reflexão: temos ou não temos amor ao Estado Democrático e de Direito? O brasileiro precisa pensar muito nisso. E a hora é essa! 

5 de janeiro de 2026

"As veias abertas da América Latina"

 


"As veias abertas da América Latina" é um monumental livro de Eduardo Galeano e no qual o autor relata a história latino americana marcada por uma sucessão quase interminável de episódios de dominação cultural e econômica, sobretudo por parte dos países mais poderosos do mundo como os Estados Unidos, isso ao longo de todos os tempos. Oscar Niemeyer, ao conceber o Memorial da América Latina fez a escultura "Mão" (foto) que é quase uma representação da essência do livro em questão. A escultura fez o sangue fluir das veias da mão em direção ao solo e mostrando uma imagem da América do Sul. Galeano escreveu sua obra em 1971 e Niemeyer, a escultura em 1988. O conjunto parece nos remeter a nosso continente depois de Trump assumir seu segundo mandato.

O episódio do bombardeio de Caracas e outros lugares da Venezuela e o sequestro do então presidente Nicolás Maduro deixou desde o início algumas interrogações e as respostas a elas vão surgindo em grande velocidade. A não reação venezuelana ao ataque dos EUA, que conseguiram entrar e sair do país sem uma única baixa, talvez seja a maior delas. E a possibilidade, hoje real, de que a vice-presidente Delcy Rodriguez tenha feito parte do plano é um horror, mas não surpreende de todo. Rodriguez tem muito a falar, principalmente no plano internacional. E vai ficando claro porque Trump, um psicopata perigoso, jogou o jogo da Venezuela com tanta convicção. Ele usa os meios norte-americanos de dominação da forma mais clara possível. E nem tenta esconder que a Colômbia seja seu próximo alvo.

Theodore Roosevelt, que governou os Estados Unidos no início do Século XX, tinha um slogan: "Speack softly and carry a big stick", que deve ser traduzido como "fale com suavidade e carregue um grande porrete". Com base nisso ele interviu de certa forma no Panamá (construção do Canal), Cuba, Venezuela (olhem ela aí...), Nicarágua e Haiti. Isso em continente americano. Mas foi mais além quando disse "quero ver os Estados Unidos como a potência dominante na Costa do Oceano Pacífico". E fez uma grande viagem por essa imensa região, atacando as Filipinas, passando pelo Havaí, Japão, Coréia, China e Taiwan. "Visitou" as cidades falando suave e usando o porrete. Trump não fala suave...

A história de Teddy está toda ela mostrada no livro "O cruzeiro imperial", de James Bradley (Larrouse, 2010, 352 páginas) e no qual ele, o primeiro Roosevelt, se apresenta  como um fiel seguidor da "Doutrina Monroe", elaborada pelo presidente norte-americano James Monroe em 1823 e enviada ao Congresso dos EUA em 02 de dezembro daquele ano. Então os EUA não tinham meios para grandes deslocamentos, o que já aconteceu sob Teddy - em navios - e agora se mostra toda com Trump. O slogan de Monroe era "a América para os americanos", e no caso do atual chefe da Casa Branca, é possível acrescentar "...para os americanos do Norte".

Ontem mesmo o Secretário de Estado Marco Rubio disse sem ficar rubro que seu país não precisa do petróleo venezuelano (gerou memes como esse ao lado), mas acha ruim que recursos naturais americanos sejam comercializados na Ásia, principalmente. Talvez ele tenha "se esquecido" de que ao longo dos tempos, como durante Teddy Roosevelt, seu país tenha rapinado outras nações em qualquer lugar do mundo, o que é comum aos impérios. Até ainda quando eles começam a demonstrar que estão em decadência, como é o caso atual do Império do Norte.

Resta esperar para vermos o que vai acontecer no caso da Venezuela e a que ponto chegou o nível de traição no entorno de Maduro. Nesse caso seria mais digno que ele fosse afastado por meios legais pelos venezelanos mesmo, posto que claramente houve manipulação do último processo eleitoral do país. Isso teria até mesmo contido algumas manifestações da extrema direita política brasileira, pois alguns desqualificados como o deputado mineiro Nikolas Ferreira sugeriram aos EUA sequestrar o presidente Lula, que venceu sem contestação a eleição presidencial mais fiscalizada da história de nossa República.

Cabe a pergunta: quando esse tipo de gente vai pagar por seus crimes?             


3 de janeiro de 2026

"Diplomacia" à moda antiga

As imagens que o mundo já tem e que mostram o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, fato ocorrido nesta madrugada (três fotos ao lado e abaixo), apresentam ao mundo um escárnio. O Direito Internacional violado, o respeito a Organização das Nações Unidas (ONU) jogado no lixo e, pela primeira vez na América Latina, um sequestro de chefe de Estado em sua Capital feito na surdina, na madrugada, enquanto a maioria das pessoas dormiam esperando pelo dia de sábado, o terceiro desse ano de 2026. Também causa espanto o fato de a segurança de  Nicolás Maduro não ter reagido ao ataque. Por que terá sido?  

"Tio Sam" sabe como depor governos com os quais não concorda. Isso foi feito aqui no Brasil em 1964 depois de uma longa campanha de desacreditação do presidente João Goulart e que levou ao golpe de Estado de 31 de março (ou seria 1° de abril?). Também na Argentina, no Chile, citando só os mais crueis, longevos e de maiores danos psicológicos.

No caso do Chile ainda houve como agravante o assassinato do chefe de Estado Salvador Allende no Palácio de La Moneda, de onde ele se recusou a sair para abrir caminho aos golpistas. Morreu lá com a sede do governo sob bombardeio da sua própria Força Aérea e tendo no comando do golpe um general canalha nomeado por ele para comando militar. Allende, ao contrário dos pulhas, recusou-se a fugir para Cuba ou outro país, mesmo tendo um avião à sua disposição. Não é nada sutil a diferença entre homens, chefes de Estado, e os vagabundos. Allede morreu sem soluços, sem vacilações e defendendo com a vida o seu mandato e a Constituição chilena que havia jurado defender.

No Brasil, Goulart optou por ir embora para o Uruguai. Viu que uma tentativa de resistência seria vã. Quem pode julgar seu ato hoje, depois de quase 62 anos? Os militares que chefiaram o golpe de Estado de 64, tendo por trás da trama o presidente ianque John Kennedy e o embaixador Lincoln Gordon, foram os mesmos que Juscelino Kubsticheck havia anistiado depois de aquarteladas acontecidas durante seu governo, como a de Aragarças. Não se anistia golpista. Não se perdoa golpismo. O golpe volta a ser tentado se a decisão for essa.

O presidente Donald Trump disse que transferiu o presidente Nicolas Maduro para outro país. Não, isso foi sequestro. Disse e diz que defende a liberdade dos outros povos. Não, ele quer roubar o petróleo venezuelano, da mesma forma que num futuro próximo vai querer os minérais raros de países como o Brasil. Se defendesse democracias não apoiaria a Arábia Saudita que sequestrou, matou e picou em pedaços o jornalista Jamal Khashoggi quando este procurou pela embaixada de seu país em Istambul para pegar documentos e se casar.

Por fim, a foto que mostra o presidente Maduro sequestrado e nas mãos de militares da Força Delta dos Estados Unidos, a primeira acima, ainda não está confirmada, mas possivelmente é real e mostra um chefe de Estado sangrando e sendo levado à força para fora de seu país. Não importa se a gente apoia ou não o governo de Maduro, se acha ou não que ele fraudou as eleições venezuelanas. A vida no mundo das leis jamais vai funcionar como quer Donald Trump. Ele é apenas um criminoso como Benjamin Netanuahu, comandante do genocídio palestino, e tem lugar reservado nos tribunais internacionais que devem julgar e punir os criminosos de guerra de ontem, de hoje e de sempre.

A nota oficial do presidente Lula mostra de forma clara, serena e sóbria o que sentem ou devem sentir os brasileiros diante dos fatos dessa madrugada: "Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremanete perigoso para toda a comunidade internacional. Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo. A condenaçao ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões. A ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz. A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação."  

2 de janeiro de 2026

2026, o ano que vai terminar

Um fato aparentemente banal mostrou como foi o ano que passou, justamente no seu último dia. Por sobrecarga de apostas - foram 120 milhões - a Caixa Econômica Federal não conseguiu  totalizar a tempo o prêmio da Mega da Virada e transferiu o sorteio para a manhã do dia seguinte, 1° de janeiro. Isso foi o suficiente para que o deputado federal gaúcho Marcel Van Haten, do Partido Novo, desse uma declaração pelos seus meios sociais acusando o presidente da República de ser o culpado pelo fato porque deve haver "algum rolo" nessa questão. Esse é o nível a que chegou o exercício da política no Brasil...

Desde que o ídolo da Van Haten - ou Van Hitler, caso prefiram - chegou à presidência da República ele arrastou consigo uma fauna inacreditável de nazifascistas defensores de tudo o que a humanidade abomina ou deveria abominar. E o governo do hoje presidiário Jair Bolsonaro mostrou desde o início a que veio. Em 2020 mesmo o então Secretário Especial da Cultura Roberto Alvim precisou ser comparado ao ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, por ter usado trecho de um discurso deste e utilizado estética visual e trilha sonora que rematiam à propaganda nazista. Ele foi demitido por pressão do governo sionista de Israel, porque o então presidente não queria atrito com Benjamin Netanyahu.

Vejam que agora um ex-assessor desse mesmo Bolsonaro, Filipe Martins, foi preso por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. O sujeitinho, que num passado não muito distante fez gestos supremacistas brancos numa reunião no Senado, isso em 2021, estava condenado, cumprindo pena em prisão domiciliar e desrespeitou as restrições legais impostas a ele, de não participar de redes sociais.

Vejam que o desrespeito a ordens ou regras legais é uma coisa comum a esse tipo de gente, a começar pelo presidiário, genocida e inelegível seu ídolo. Da mesma forma eles não conseguem disfarçar o fato de serem admiradores do nazifascismo e passam dificuldades tendo que "conciliar" essas convicções extremistas com a necessidade de não exteriorizarem seu antisemitismo latente porque o sionismo genocida de Israel é parceiro de convicções e da luta para não terem os governantes atuais julgados e condenados como criminosos de guerra pelo Tribunal Penal Internacional.

Por tudo isso a manifestação de Van Hitler - ou Haten - nem assusta nem surpreende. Todos sabemos que a extrema direita política se alimenta de crises e agressões. Tem necessidade de gerar tumultos porque não possui uma identidade fora desse campo e é nele que mantém seu eleitorado preso a discursos. Portanto, todos sabemos que as campanhas eleitorais desse ano serão marcadas por gritos, xingamentos e crises fabricadas. É o oxigênio dessa gentalha e ela não sobrevive um minuto sequer sem ele. Além disso será esse ano em que eles jogarão sua cartada definitiva tentando tomar o Senado da República para atacar o Supremo Tribunal Federal e, através dele, todo o restante do Judiciário onde hoje só têm alguns representantes.

Lembro-me agora de "1968, o ano que não terminou", de Zuenir Ventura. No texto magistral o autor conta a história dos eventos turbulentos daquele ano, da itensificação da luta contra a ditadura passando pela morte do estudante Edson Luís, a Passeata dos Cem Mil e o endurecimento do regime que desembocou o AI-5, em dezembro. Eu estava lá e vi tudo. Só que agora, em 2026, o Brasil contenporâneo moldado a partir daqueles fatos e daquele ano não se deixará derrotar (?) outra vez. 2026 é o ano que vai terminar. E bem!