Por dois anos seguidos o cinema brasileiro faz sucesso nas edições do Globo de Ouro, nos Estados Unidos. E a segunda delas foi ontem, com duas vitórias de "O agente secreto", uma com o diretor Cléber Mendonça Filho e outra com o ator Wargner Moura (foto). Ambas muito merecidas, e isso depois de Fernanda Torres ganhar igual prêmio com "Ainda estou aqui" no ano passado. Os prêmios fizeram nosso cinema de ouro. Naquele filme Fernanda Montenegro faz uma ponta brilhante.
Houve um ponto em comum entre as duas vitórias, isso além do fato de serem ambos filmes excelentes: eles retratam uma fase difícil da vida brasileira, quando vivíamos numa ditadura militar cruel e que durou 21 anos. No caso de "Ainda estou aqui", o retrato é do sequestro, assasinato e desaparecimento do corpo do deputado federal Rubens Paiva. No segundo, "O agente secreto", uma obra de ficção/realidade e que mostra a vida de um professor de tecnologia que tenta fugir de seu passado violento indo de São Paulo para Recife, mas descobre que esses tempos vividos o seguiram para o seu novo endereço.
O maior mérito dos dois filmes, além da reconstrução esmerada da época em que foram vividos, reside no fato de que eles não permitem que nós nos esqueçamos de tempos que precisam ser lembrados para não serem revividos. Porque mesmo com todas as lembranças ainda vivas na maioria dos brasileiros, uma parte de nossa sociedade continua voltada para o passado, sonhando com um novo golpe de Estado que traga de volta à vida brasileira os tanques de guerra nas ruas, as prisões ilegais, as torturas e os assassinatos de presos, sejam eles políticos ou não.
Um cinema renovado só está sendo possível porque o Brasil vive novos ares nesses tempos, digamos, modernos. Mesmo com as limitações financeiras que nunca deixaram de atormentar as produções nacionais, há um crescimento do nível de nossos filmes, e isso é visível. Da mesma forma como salta aos olhos o fato de agora nós mesmos procurarmos divulgar as melhores histórias que fazemos, ainda que com atuações de forma indepedente. E no passado não era assim.
Em 1981, em pleno ocaso da ditadura militar, o diretor Leon Hirszman filmou "Eles não usam black-tie", com Gianfrancesco Guarnieri, Fernanda Montenegro (sempre ela...), Bete Mendes, Milton Gonçalves e outros. Uma bela história do militante sindical Otávio e seu filho Tião que engravida a namorada Maria, decidindo se casar apesar de todas as agruras. Não ganhou prêmio internacional algum e merecia muitos porque foi ignorado pelos meios de comunicação que hoje comemoram nossas mais recentes vitórias. Sinal dos tempos...
E esse fime tem uma cena que é um monumento: num momento crucial de silêncio e tensão, Romana (Fernanda) e o marido Guarnieri lidam com as dores da greve e da expulsão do seu filho. Ela separa os grãos de feijão a ser preparado para o almoço e o único som que se escuta é o do alimento caindo na panela. Só isso quebra o silêncio da cena icônica.
Nós começamos a olhar com carinho o cinema nacional a partir de "Central do Brasil", no qual Fernanda Montenegro (mais uma vez ela...) interpreta magnificamente uma escritora de cartas. Já era uma temática política e isso não passou desapercebido com os tempos. Tanto que ontem tive que rir na rua ao vir para casa depois de tomar um café expresso e dar de cara com duas feias senhoras que conversavam na calçada: "Dá vontade de fazer greve de fome se outro filme comunista desses ganhar o Globo de Ouro hoje à noite".
Faça isso não, madame. Vai sobrar alfafa em sua despensa.

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