24 de setembro de 2026

Jornalismo e crime organizado


No dia 02 de junho de 2002 o jornalista Tim Lopes foi sequestrado e morto a mando do traficante Elias Maluco na Vila Cruzeiro, Complexo do Alemão, Rio de Janeiro. Ele apurava matéria investigativa sobre o abuso de menores pelo tráfico de drogas, assunto muito importante até hoje, e uma microcâmera o denunciou. Foi torturado antes de ser executado selvagemente. A Rede Globo, empresa que o empregava, denunciou o fato e o noticiou durante muito tempo. Toda a imprensa brasileira fez isso e a internacional também.

Mas já faz 24 anos que essa morte se deu e é possível dizer que de lá para cá não surgiu outro Tim Lopes no jornalismo brasileiro. Sou capaz de afirmar que porque talvez isso não interesse tanto às empresas de Comunicação do Brasil, sobretudo aos grandes meios. Mas de lá para cá surgiram milhares de Elias Maluco no crime organizado de nosso País para substituir o de junho de 2002, porque este morreu em 22 de setembro de 2020 aos 54 anos na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná, vitimado por "asfixia mecânica". E apareceram tantos outros porque isso interessa demais ao crime organizado, claro!

O jornalismo não é responsável pelo crescimento do crime no Brasil, nem direta nem indiretamente, mas as grandes empresas podem ser acusadas de terem se omitido no crescimento do número de criminosos ligados aos grandes grupos atuais pelo fato de nunca mais depois de Tim Lopes terem investido pesado na formação de grandes repórteres para a área investigativa. Nos tempos passados era imperativo ao profissional da especialidade ir além da notícia. Acrecesntar sempre algo ao fato, investigar, revelar. E para esse ramo do jornalismo a fonte, essa "entidade" muito comentada nos dias de hoje principalmente nos casos do Banco Master e suas ramificações, era vital para as maiores coberturas.

Pode-se dizer que cometo injustiça. Por exemplo, que o jornalismo de televisão investe na investigação de fatos ligados à política. Isso é real. Mas há uma diferença abissal entre o Tim Maia no campo, buscando a notícia onde ela brotava, e os profissionais de hoje, sentados em estúdios, celulares ou notebooks nas mãos telefonando para autoridades, na maioria esmagadora dos casos também estas em ambientes refrigerados. Existe hoje o "Profissão Repórtes Procura", no qual Caco Barcellos tenta lançar, digamos, revelações na Globo. Mas isso é pouco, com resultados de destaque que desconhecemos. Aqui no Espírito Santo o "Curso de Residência em Jornalismo" da Rede Gazeta serve apenas para que a empresa possa abastecer sua redação com mão de obra barata. A maioria dos profissionais tem atuação breve num dia-a-dia quase sempre subordinado à área comercial.

Matamos o jornalismo investigativo já faz mais duas décadas e o reultado é a queda da qualidade do noticiário de modo geral, tanto de jornal quanto de rádio e televisão. No Espírito Santo isso se mostra de forma até patética. Amaro Neto, um cidadão que busca a reeleição a deputado federal aparece no horário de propaganda eleitoral gratuita fazendo trejeitos de programas de baixo nível policial para conquistar votos. Só tem isso a mostrar, pois foi nesse terreno que hoje se mostra fértil nas TVs que ele apareceu.

No dia em que o presidente Lula falou na abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU pelo Brasil, como ocorre todos os anos, o Jornal Nacional mostrou a fala, que para a imensa maioria das pessoas era muito importante - e era mesmo -, como matéria de segundo nível, após coberturas outras. Ora, se é uma posição política, tudo bem, mas isso deveria ser demonstrado de forma clara: "Não apoiamos esse candidato", por exemplo. Se não é ou se falta coragem para dizer isso, então a cobertura foi péssima e em momento algum tentou ir além do fato, o que na TV é ruim, pois se tratava de uma cobertura matutina.

Nos tempos de invasão do crime organizado em praticamente todos os setores da vida nacional, já que hoje eles têm representantes até mesmo no Congresso Brasileiro e um candidato a presidente da República, Flávio Bolsonaro, vinculado claramente a milícias e a diversas outras formas de cometimento de crimes, falta-nos um jornalismo local, estadual e nacional capaz, competente, ético, investigativo e desvinculado de coisa alguma que não seja a dignidade da informação. Os brasileiros a merecem.

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