21 de julho de 2011

o Brasil ideal. O Brasil utópico.


Uma faxina que estaria sendo feita a mando da Presidente da República já afastou mais de uma dezena de desonestos no Ministério dos Transportes e Dnit. Até um tal Juquinha, que comanda a construção das grandes ferrovias brasileiras, conseguiu enriquecer como em um passe de mágica passados poucos anos de "labuta" no serviço público. Assim como Palocci. E os escândalos de superfaturamentos e outros gêneros de gatunagem se sucedem. Parecem não perder o fôlego. E não ficam circunscritos aos Transportes, não. Germinam e crescem por todos os jardins da roubalheira municipal, estadual e federal.
Isso me lembra uma conversa recente. Um auxiliar de primeiro escalão, secretário do governo do Espírito Santo, pessoa digna com a qual me encontro às vezes para papos amigáveis, é reconhecido como um jurista competente. Certa feita, trocando ideias sobre o Poder Legislativo, ele me disse mais ou menos o seguinte: "Álvaro, o Legislativo tem que ser somente Federal. Os Estadual e Municipal não servem para absolutamente nada". Na hora fiquei pensativo. Agora sei que ele tem razão.
Os juquinhas, paloccis, pagots e outros da vida vão continuar existindo. Se forem duramente atacados, se tornarão escassos no Executivo, um poder necessário. O crime viceja onde compensa. Os juízes lalaus também não deixarão de existir. Mas se o Judiciário, outro poder vital, os tirar de circulação como está sendo feito, tenderão a se tornar raros. Mas e os deputados estaduais e vereadores corruptos, o que fazer com eles já que são muitos milhares se somados pelo País afora?
Um dia desses o Legislativo do Espírito Santo entrou em recesso (alguém notou?). Foi feito um levantamento das realizações do semestre. Além de incontáveis votos de pesar e de louvor e de leis idiotas - um deputado capixaba, esse federal, quer o Dia do Orgulho Heterossexual -, ficou registrado um grande feito: 511 nomeações.
Isso significa dizer que para aplacar um pouco a fome dos legisladores (sic!), e eles têm uma goela imensa, o Executivo capixaba precisou nomear mais de meio milhar de apaniguados. Isso sem contar funcionários de gabinete, nomeações cruzadas, luta por liberação de verbas parlamentares e outras malandragens. Sim, porque quase todo mundo é governo. Mas isso tem um preço. E é preço alto, pago com o nosso dinheiro ganho com suor e honestidade. No caso do Espírito Santo, ficou decidido faz duas legislaturas pelos nobres eleitos que cargos comissionados seriam preenchidos por cabos eleitorais. Trocando em miúdos, os contratados para esse fim trabalham para os depois eleitos e a gente, eu e você, nós todos, pagamos a conta.
O Legislativo Federal tem Senado e Câmara. Milhares de servidores para atender a meio milhar de deputados e quase um a centena de senadores. Manter a máquina funcionando custa uma fortuna. Há apaniguados saindo pelo ladrão (sem sentido figurado). Ela, a máquina, tem mesmo é que legislar e isso com estrutura para assumir a responsabilidade de criar meios e modos de atender às necessidades regionais de leis dos estados e municípios. Os senhores senadores e deputados não têm escritórios e funcionários nos Estados? Não gastam dinheiro público com eles? Então que sirvam para isso em vez de servirem só para comer recursos dos impostos.
O servidor de primeiro escalão com quem converso sempre, tem razão. Está coberto dela. Imagine o leitor se todas as assembleias e câmaras deixassem de existir. Imaginem quanto de dinheiro iria sobrar para destinações nobres. Educação, Saúde, Segurança, Trabalho, etc. Quanta gente - os parlamentares - iria ter que arranjar emprego em vez de fazer leis idiotas e bajular o Executivo e o Judiciário. Quanto de roubo e extorsão seria economizado. E quanto de trabalho extra ganhariam os parlamentares de Brasília para justificar todos os seus privilégios. Os seus e os dos apadrinhados que hoje às vezes batem ponto e vão para casa.
Esse seria o Brasil ideal. Mas também é o Brasil utópico.

5 de julho de 2011

Tostão não é demagogo


A não ser talvez no Iraque, na Síria, no Afeganistão e em alguns poucos outros países, parece que o Brasil é um caso quase único. Aqui um presidente da República pode, com uma simples canetada, determinar que um grupo de 51 pessoas vai ser aposentada pelo teto da Previdência Privada. Isso sem contribuir, ou contribuindo somente em parte.
Nesse país onde a Previdência se recusa a cumprir uma sentença judicial da Suprema Corte, que a mandou reajustar aposentadorias de brasileiros lesados em anos anteriores, um demagogo hoje ex-presidente pode, com sua caneta, fazer o aparentemente inverso. O eticamente condenável. O corretamente indefensável.
Tostão, ex-jogador de futebol e hoje colunista de jornais (foto), disse que não vai receber. Considera o "presente" injusto. Eticamente indefensável, como já foi dito. Carlos Alberto Torres, seu companheiro na Copa do Mundo de 1970, no México, reagiu com a classe de um botinudo: "É um demagogo. É um filho da p...!"
Não, caro Capitão do Tri; demagogo é quem lhe dá presentes com dinheiro público. Demagogo é quem escolhe um pequeno grupo de atletas vencedores e os premia de forma absurda. Tostão agiu certo. Mas, convenhamos caro Capitão, reconheço que não é fácil dizer "não" a dinheiro. Assim como o caro Capitão não conseguiu, outros também não conseguirão.
Talvez nem Pelé, que não precisa desse dinheiro, mas se cala. Quem sabe para que recebam a "aposentadoria" os que estão na miséria. Porque não souberam administrar o que ganharam.

28 de junho de 2011

"Governabilidade", o sofisma


Para muita gente, corrupção política é conceito que remete a roubo de dinheiro, achaque, suborno e outros atos claramente ilegais. E às vezes corriqueiros. Mas não é só isso. Também constitui atitude pelo menos aética, um comportamento comum no Brasil, usar um partido político regionalmente para a defesa de interesses próprios ou corporativos. Sempre distantes da orientação nacional partidária e dissociada do interesse público.
Isso é comum no Brasil todo. E o Estado do Espírito Santo (dono desse lindo prédio da Assembleia Legislativa) não poderia ser a exceção à regra. Aqui, para ficarmos em um exemplo mais candente, são raros os políticos ou partidos que fazem oposição ao governador. QUALQUER GOVERNADOR. SEJA ELE QUEM FOR. Em nome de um sofisma criado e que se intitula "governabilidade" todos defendem o governo. Isso, claro, se o governador ceder às exigências de nomeação de servidores nos mais diversos órgãos e também liberar verbas parlamentares. Sem o que forma-se a oposição.
Um deputado capixaba chegou ao, digamos, cúmulo, de avisar à presidência da casa que estava inconformado com o fato de seus projetos de lei serem considerados inconstitucionais pelo profissional encarregado de dar os pareceres. E fuzilou: "Isso é apenas um aviso". Ele pretende fuzilar de outra forma?
Nacionalmente o Democratas é oposição ao Governo Federal. No Espírito Santo não. Nacionalmente o PPS é oposição ao Governo Federal. No Espírito Santo não. E isso acontece também com outros partidos. Alguns deles, nanicos. Quando um ou outro se torna oposição real, a decisão é pessoal. Os parlamentares não foram atendidos, eram inimigos do governador antes de o mandato ser conquistado nas urnas, etc e tal.
O Brasil carece de duas culturas políticas comuns aos países mais avançados nessa área. Primeiro, os partidos serem agremiações de importância superior a seus membros e não o inverso. Segundo, suas diretrizes nacionais terem força de lei no interior das agremiações, o que significa se tornarem diretrizes obrigatórias.
A oposição, em princípio, não é o inimigo do governo, seja ele municipal, estadual ou federal. É quem vai fazer com que o Poder Legislativo cumpra sua missão constitucional de fiscalizar o Executivo, forçando-o a atuar mais em conformidade com as leis e o interesse público. No Brasil, a "governabilidade" esconde não apenas a subserviência do Legislativo em relação aos outros poderes, mas também acordos escusos, clientelismo político e outros defeitos mais graves. Alguns deles capazes de roçar a fronteira entre o lícito e o ilícito.

31 de maio de 2011

Parentes e advogados em acidentes aéreos


Já ouvi isso de mais de uma pessoa: sempre que um avião se acidenta, principalmente quando o número de mortos é muito grande, os primeiros a chegar ao local são os bombeiros e os advogados. Estes, representam corporações às vezes com ramificações internacionais, especializadas em conseguir grandes indenizações de empresas aéreas e fabricantes de aeronaves. É por isso que existem centenas de associações de parentes dos mortos no voo "A", "B", "C" e por aí vai. Por mais que o leitor procure, não vai encontrar associação alguma de mortos em acidentes de ônibus.
Orientados por advogados, os parentes dos mortos buscam os culpados pelo acidente. Já os peritos buscam as causas. Enquanto aos primeiros interessa principalmente que haja culpa porque a culpa gera dinheiro, aos segundos é urgente localizar as causas, pois elas impedem nova ocorrência igual ou parecida. Os interesses são muitas vezes opostos, irreconciliáveis, e peritos, empresas, fabricantes, mídia e até mesmo governos sofrem pressões das tais associações de vítimas, escudadas pelos advogados.
Isso vem acontecendo faz dois anos com o vôo 447 da Air France, esse que caiu no Oceano Atlântico num trajeto entre o Brasil e a França e é mostrado na foto. À associação dos parentes das vítimas não interessa uma conclusão final que aponte erro humano. Ou fatalidade. Não dá indenização boa. Interessa que a Air France ou a AirBus sejam as culpadas. Aí chove dinheiro.
Trata-se de uma anomalia que vem crescendo com os anos. O ideal seria se os meios de Comunicação ficassem à margem da contenda para não interferir nela. Simplesmente noticiando. Qualquer interferência prejudica, sobretudo quando feita em forma de pressão. E até mesmo programas jornalísticos bem intencionados podem torcer os fatos quando as conclusões finais ainda não foram apresentadas.
É o caso de uma reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo, apresentado domingo, 29 de maio último. Em meio a entrevistas com especialistas e cenas de cabine de comando do AirBus A 330, além de representações, foi ao ar o depoimento de um médico que afirmava: pela violência do deslocamento vertical do avião, alguns ou muitos passageiros já chegaram mortos ao mar. Em termos gerais, está correto. Mas não se aplicava ao fato específico e isso passou desapercebido. No caso do vôo 447, as caixas pretas mostram diálogos entre os tripulantes até o choque da aeronave com o mar. O ambiente em todo o avião é único. Tanto em questão de oxigênio, quanto pressurização e outros. Se a perda de brutal de altitude não matou os tripulantes antes do choque, não mataria também os passageiros, a não ser os muito idosos, convalescentes de cirurgia ou com a resistência muito baixa. Não sabemos se havia esse tipo de pessoas a bordo. Nos demais, o efeito é muito parecido ao registrado na cabine de comando.
Por isso, peritos devem trabalhar sem pressões externas. E conclusões apressadas não acabam com as especulações. Ao contrário, geram muitas outras.

26 de maio de 2011

Ele sabe do que ri


O parlamento brasileiro, uma casa de comércio com matriz em Brasília e filiais instaladas em todas as capitais e municípios brasileiros, está trocando a blindagem do ministro chefe da Casa Civil, Antônio Palocci, por votações de real interesse para o homem brasileiro, como o novo Código Florestal e a legislação que considera crime discriminar homossexuais. Além de outros. E trocando que eu digo é silenciando em troca da imunidade, se é que se pode chamar assim, do ministro que até hoje não explicou o milagre da multiplicação do seu (?) dinheiro.
Para uma casa de comércio barata, parece apropriado. Dane-se o cidadão, estrepe-se o meio ambiente. Raros, raríssimos são os homens e mulheres do Poder Legislativo brasileiro que exercem seus mandatos representando os cidadãos. A esmagadora maioria deles representa seus próprios interesse ou os de instituições muitas vezes menores, que são capazes de se considerar superiores à vontade da maioria das pessoas. Dos brasileiros e "brasileirinhos".
Triste é ver a presidente da República se curvando à negociação de cargos de primeiro, segundo e terceiro escalões. Como prostitutas ávidas por dinheiro, os políticos se engalfinham por esses postos de trabalho (sic!). Outros representam seitas religiosas e trocam os votos destas, seus currais eleitorais, pela imposição de princípios de falso moralismo. É pelo menos deprimente ver parlamentares acusados de roubo ou outros delitos defenderem a moral e os bons costumes.
Por isso Antônio Palocci ri nessa foto. Gostosamente! Quase gargalhando! Não é porque rico ri à toa, não. É porque ele sabe que pode continuar fazendo "consultoria". Afinal, é uma espécie de Pelé, segundo um depoimento pouco sério.

13 de maio de 2011

Economia, só a sustentável

Com discursos, uns vazios e outros cheios, discussões e xingamentos, o Congresso Nacional demora a chegar a um acordo que viabilize o novo Código Florestal. Quando os interesses são irreconciliáveis a disputa no voto resolve o impasse. Mas um governo federal avesso aos princípios democráticos mais elementares não aceita esse preceito. Tenta impor seus pontos-de-vista, suas vontades, a qualquer custo.
O Brasil tem a maior diversidades florestal e animal do mundo. Da mesma forma, sua agricultura e pecuária são de interesse vital. Não apenas econômico, desse conceito mais imediatista, mas principalmente porque pode nos levar a ser o celeiro do mundo, além de tornar viável que todos os brasileiros se alimentem convenientemente.
Qual é o impasse?
Os ruralistas querem fazer agricultura e pecuária sem regulamentação legal. Alegam que nos demais países essas atividades podem ocupar todas as terras privadas. Os ambientalistas querem proteger os topos dos morros, suas encostas e as matas ciliares (foto). Essas matas são aquelas que correm à margem dos rios, protegendo-os e impedindo que eles sofram assoreamento, se degradem e até mesmo morram. Se morreram, morrem a agricultura e a pecuária. Vai restar apenas terra infértil.
É vital que ao menos as matas ciliares sejam preservadas. Elas não protegem só o campo. Fazem isso também nas cidades, pois a água que bebem os moradores dos centros urbanos vem de rios. E esse abastecem represas.
A defesa da não regulamentação das terras dos pequenos proprietários diz, na ótica do "comunista" Aldo Rebelo, que se todos os riachos forem protegidos nas propriedades pequenas, o dono da terra passará fome. Restará pouco espaço para ele plantar. Mas se não forem protegidos esses pequenos cursos d'água agonizarão até morrer. E sem água essas pessoas também não vão sobreviver.
Uma verdade incontestável emerge dessa discussão: sem economia sustentável país nenhum sobrevive ou se desenvolve de modo a dar segurança a todo o seu povo. Defender o inverso é impossível. E a esmagadora maioria dos ruralistas só vê cifrão diante dos olhos.
Seria importante que os defensores do desmatamento de encostas e topos de morros morassem lá. Nessas encostas. Até o dia de uma grande tempestade, daquelas que atingiram a região serra do Rio de Janeiro no início desse ano. É sempre didático ver o que é bom para a tosse.

4 de maio de 2011

Mocinhos e bandidos



Tropas de elite da auto-denominada "maior democracia do mundo" invadiram o espaço aéreo de um país, no caso o Paquistão, desembarcaram em uma casa cercada por muros altos e arame farpado e mataram a tiros algumas pessoas. Uma delas, o líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, o inimigo público número 1 de um grande número de países, inclusive da "maior democracia do mundo".
Não se discute aqui o fato de que Bin Laden era um fanático capaz de cometer insanidades. Isso está fora de questão. Não se discute aqui o fato de os norte-americanos o odiarem. Tinham motivos de sobra para isso. Mas ao Império não cabe executar sentenças que não foram proferidas.
Um homem desarmado pode ser facilmente dominado. Pode ser levado aos Estados Unidos, julgado e executado lá. Legalmente. Matar pura e simplesmente é passar por cima das leis, é desconhecer a existência de organismos internacionais como o Tribunal de Haia, encarregados de julgar criminosos, sejam de guerra, sejam de outra espécie. Há suspeitas de que Bin Laden foi pego vivo, identificado e então simplesmente executado com um tiro na testa e outro no peito.
Esse rosto deformado da foto seria de Osama Bin-Laden. Já foi levantada a hipótese de ser uma simples montagem. Uma foto-farsa. Seria? É possível. Talvez sim, talvez não. Afinal, a morte de Bin Laden já foi admitida pela Al Qaeda, oficialmente.
Saindo um pouco do assunto para traçar um paralelo, em 1962 foi executado em Israel Adolf Eichmann. Ela era o ideólogo da "solução final para o caso judeu". O nazista que arquitetou grande parte dos campos de extermínio humano entre 1939 e 1945. O serviço secreto de Israel o localizou na periferia de Buenos Aires. Vários agentes foram para lá, o sequestraram num episódio cinematográfico e o levaram para aquele país onde ele foi julgado com amplo direito de defesa, condenado à morte e executado na forca. Seu corpo foi imediatamente cremado, as cinzas foram colocadas em um balde e depois levadas ao mar numa embarcação que saiu de águas territoriais israelenses antes de jogar tudo fora. O balde foi lavado antes de a embarcação retornar. O criminoso de guerra poderia ter sido assassinado. Era fácil, pois ele morava isolado. Mas optou-se pela solução legal. E todo o ódio contido se liberou no momento em que aquelas cinzas foram jogadas ao mar, contidas em um miserável balde.
Agora, no caso de Bin Laden, o mais importante: como quatro helicópteros dos Estados Unidos chegaram à casa onde vivia o procurado, deles saltaram soldados - cerca de 70 - e houve uma saraivada de tiros e explosões de granadas durante 40 minutos, tudo acontecendo ao lado de unidades militares paquistanesas e ninguém, ninguém mesmo, saiu para ver o que estava acontecendo? É possível isso? Estava todo mundo surdo? Os militares dos quarteis conseguiram não ver nem ouvir nada? Ou estavam instruídos a não intervir? Ou sabiam do que se passava?
Não, não é possível. Essas respostas ainda vão ser dadas.
Embora hoje não esteja mais na moda, na época da minha infância a gente via muitos filmes de bang-bang. Os famosos westerns. E a diferença entre mocinhos e bandidos naquelas fitas era que os primeiros tinham apreço às leis e os segundos, não. Por isso estes últimos geralmente terminavam condenados e às vezes eram enforcados. Mas passavam por julgamentos civis, mesmo toscos, mesmo parciais.
Não havia Guantâmano naquela época.

15 de abril de 2011

A certeza da impunidade


Nada como a certeza da impunidade. A revista Época publicou recentemente matéria sobre as provas acumuladas pela Polícia Federal referentes ao escândalo chamado Mensalão, maior referencial do governo Lula. Há um relatório a esse respeito. A reação do ex-presidente, que dá nome ao escândalo e estava fazendo "palestra" no exterior, foi clara. Direta. Escandalosa:
- Não tive a chance de dar uma olhada.
E continuou, dizendo que se o relatório for anexado aos processos que correm na Justiça , "todos os advogados de defesa vão pedir prazo para julgar. Então, vai ser julgado em 2050. Então, não sei se vai acontecer".
Que maravilha despudorada!
Lula sabe, como sabemos todos nós os mais bem informados, que a legislação brasileira permite aos advogados inúmeros artifícios de recursos protelatórios que podem arrastar um processo por décadas. Às vezes, muito além do prazo de uma vida. Um ou inúmeros processos. Tanto que o próprio governo os usa como, por exemplo, para negar aos aposentados do INSS o recálculo de seus benefícios, mesmo depois de o Supremo Tribunal Federal dar sentença final, irrecorrível, a esse respeito. E são incontáveis os exemplos que poderiam tornar esse artigo um livro.
Mas o ex-presidente sabe também que esses recursos estão à disposição de quem pode pagar por ótimos escritórios de advocacia. É por isso que as nossas cadeias estão abarrotadas de pobres. Uma classe social da qual Lula não faz parte faz muitos anos. Desde que começou sua carreira de demagogo populista na época ainda de líder sindical.
É despudorada mesmo a declaração. Mas verdadeira. Reflete a realidade do país onde vivemos, faz um retrato fiel dele e mostra como é a nossa classe política, a rigor o caminho que haveria para essa realidade ser modificada. Mas não, ela contribui para manter esse quadro.
E é Lula, segundo ele mesmo diz, quem representa o "Povão" no Brasil.

12 de abril de 2011

O bullying é o problema


Sempre que um fato traumático atinge o Brasil, opiniões são manipuladas para o lado onde primeiramente se julga estar a solução do problema. Sem estudo mais detalhado, sem nada. Agora é o caso do doente mental de Realengo, autor de um ataque insano contra adolescentes em um colégio municipal que ressuscita a campanha pela proibição da venda de armas de fogo no Brasil.
Pior de tudo: falar do bullying, esse fenômeno agressivo que não nos deixa, ninguém fala. Ou não fala o suficiente.
O Brasil tem uma das mais restritivas leis sobre compra e venda de armas. Poucos são os calibres permitidos, todas as armas têm que ser registradas na Polícia Federal e quem tem folha corrida manchada não consegue autorização de compra. Mais: um plebiscito já realizado há apenas seis anos mostrou que o Brasileiro quer que a compra de armas seja uma opção legal. Ele quer a posse, não o porte, este sim que deve ser mais restrito ainda. Mas existe muita arma ilegal no País. Armas roubadas, com numeração raspada, em mãos de traficantes. Isso é um caso de Polícia. E os organismos policiais têm que atuar com determinação.
É bom sempre lembrar da Lei Seca nos Estados Unidos. Um belo dia, primeiras décadas do século passado, aprovou-se uma lei que proibia a venda de bebidas alcoólicas no país deles. Foi a glória da Máfia. Ela lucrou como nunca vendendo bebidas ilegalmente. Lucrou tanto que a proibição foi suspensa. Vender armamento ilegal no Brasil, além do que já é vendido hoje, vai ser também um negócio e tanto para todo o tipo de criminoso.
O Brasil deveria fazer uma ampla campanha contra o bullying. Campanha educativa, de prevenção. Vinganças surgem quando ressentimentos são represados e ódios se manifestam por humilhações seguidas. Principalmente em mente doente. Pode ser uma vingança tola, tipo briga de rua, mas pode se tornar ato insano de mente esquizofrênica como o registrado no Rio de Janeiro. E estas, todos os estudiosos dizem, são difíceis de serem detectadas e raríssimas. Geralmente as famílias não procuram por ajuda por ignorância ou medo do estigma. Nós todos sabemos como doentes mentais são vistos e tratados por seus próximos.
Encontrar um demônio em cada esquina é pintar o problema com cores falsas. É fazer como a imagem acima. Concentrar fogo no comércio de armas legais, igualmente. Wellington Menezes de Oliveira era infelizmente um doente mental. E se tornou perigoso ao longo de anos. Mais infelizmente ainda, tirou 12 vidas humanas. Apagou uma dúzia de futuros. Mas é sempre bom lembrar: a esmagadora maioria dos doentes mentais não mata, não agride. Eles são, em vez de autores, vítimas de violência a vida toda.
Vamos atacar o problema que existe. Construir falsas premissas não é nada bom. Principalmente pelas mãos e palavras de parlamentares sabidamente demagogos.

6 de abril de 2011

O falso maniqueísmo

De alguns dias para cá dois personagens pequenos ingressaram para praticamente não sair dos noticiários jornalísticos e dos comentários de gente inteligente e importante: os deputados Tiririca e Jair Bolsonaro. E em ambos os casos por atitudes pífias ou agressivas. Tacanhas, enfim.
Tiririca contratou, por cerca de R$ 8 mil mensais de dinheiro público, dois palhaços que vão "trabalhar" para ele em São Paulo dando "ideias". A justificativa é serem gente de confiança e que trabalharam na campanha do palhaço-chefe. Aliás, essa é uma prática que está se disseminando no Legislativo brasileiro, em todos os níveis: vereadores, deputados estaduais, federais e senadores agora pagam cabos-eleitorais com dinheiro público. Quando se elegem, empregam-nos em seus gabinetes ou os distribuem pelos diversos departamentos legislativos. Isso torna mais fácil a distribuição de "santinhos", por exemplo: "Dê duro, meu filho. Se o titio ganhar a eleição você vai trabalhar nos serviços gerais".
Bolsonaro dirigiu sua metralhadora rotativa contra gays, negros e comunistas. Sua última aparição foi uma entrevista ao programa CQC e na qual ele classifica a cantora Preta Gil de promíscua. Depois disse que se enganou. Referia-se a gays e não a negros.
Vamos concordar numa coisa: de todo imbecil só se pode esperar imbecilidades. É perder tempo e gastar neurônios desenvolver teses sobre fascismo do bem e fascismo do mal ou sobre o direito de analfabetos poderem exercer mandatos legislativos federais. Nós elegemos os nossos idiotas, as caricaturas de nós mesmos, e temos que depois enfrentar seus desmandos. Suas tacanhices.
Maniqueísmos não justificam Jair Bolsonaro. Ele não se insere nem em fascismo do bem nem do mal, pois nem fascista ele sabe que é. É apenas um pobre diabo que se sustenta na política graças à desinformação do eleitor. Ele é o Tiririca da extrema direita. Tão burro quanto. O princípio da eterna luta do bem contra o mal, do bom contra o ruim, não o explica.
E são nossos representantes, todos os dois e mais alguns.
Azar o nosso.

31 de março de 2011

O legado de José Alencar

Agora que morreu, José Alencar Gomes da Silva, esse sorridente senhor aí ao lado, está sendo avaliado sobre seu legado. Muitos imaginam o que o Brasil deve a esse ex-vice-presidente da República que, como detentor de cargo público, teve o mérito que deveria ser de todos os seus iguais: a ética e o comprometimento com a causa pública. Foi a face digna de oito anos de um governo marcado por escândalos. Então, qual seria o legado de Alencar? O que o Brasil deve a ele? Deve alguma coisa?
Dívida fica uma, pois tudo o mais que fez era obrigação sua, como deveria ser dos demais: ele desmistificou a palavra câncer. Ele a pronunciou como uma coisa comum, como uma doença à qual todos estamos sujeitos. Ele lutou contra ela e disse a quem o ouviu que doenças, mesmo essa, devem ser enfrentadas. Todos vamos morrer, mas temos o direito de não morrer hoje ou amanhã se isso pode acontecer dentro de cinco ou dez anos.
Claro, nem todos podem lutar como lutou José Alencar, tendo à sua disposição o arsenal médico do Hospital Sírio Libanês. As milhares de cruéis mortes que ocorrem nas superlotadas emergências dos desatualizados - para dizer o mínimo - hospitais públicos mostram isso. E nos revelam a face mais dura, mais cruel, mais omissa do injusto sistema brasileiro de saúde pública.
Mas, retirado esse lado negro da vida nacional, José Alencar mostrou que câncer não é doença venérea, não é estigma, não é motivo de chacota ou vergonha como a AIDS injustamente foi até anos passados, quando chegou a matar, graças também à omissão do Estado, gente como o sociólogo e filósofo Betinho, além de diversas outras pessoas que precisaram de transfusões de sangue e o receberam infectado.
Em diversos estados brasileiros, desde que o câncer foi identificado como doença, é praxe homens públicos camuflarem a situação. Muitas vezes dizendo que o tumor é benigno ou dando-lhe outro nome. Os políticos, principalmente, têm medo de que a revelação do mal os faça perder eleições. Para eles o eleitor pode pensar: "Fulano vai morrer. Vou votar em Sicrano ou Beltrano para não perder meu voto". Mas muitas vezes o sujeito se trata e, o que é comum nos dias de hoje, termina curado se identificou o câncer precocemente. Continua atuando como sempre o fez, depois de se utilizar de sofismas gerados por medo, preconceito ou vergonha. E isso tudo para esconder o que? Ele, essa figura hipotética no caso, acabou curado, viveu depois disso normalmente. Teve uma doença e mais nada.
José de Alencar e a presidente(a) Dilma Roussef preferiram o caminho inverso: mostraram o câncer abertamente e como lutar contra ele. Para Alencar era tarde demais. Para Dilma, ao que tudo indica, não. É preciso lutar, mesmo, contra o câncer em todas as suas fases.
Com a mesma vontade com que precisamos lutar a cada dia mais contra a omissão política que faz milhares morrerem nas sujas emergências dos hospitais públicos, contra mentira que virou hábito entre governantes, contra a corrupção de todos os níveis, contra todos os nossos fantasmas.
E se pensarmos nesses tais fantasmas tomando-os isoladamente, veremos que a maioria deles nem são o que imaginamos. Basta os enfrentarmos, tirarmos seus lençóis e ficarão expostos. Pobres retratos das fragilidades da sociedade construída por nós.

17 de março de 2011

O tsunami das ações humanas


Os geólogos e outros estudiosos são unânimes em dizer que a tragédia do Japão é um fenômeno natural e aconteceria mesmo que vivêssemos em um paraíso. A crosta terrestre executa movimentos de acomodação entre as placas tectônicas, e estas liberam enorme quantidade de energia que, por sua vez, converte-se em terremotos, tsunamis e suas consequências.
Mas as chuvas que destroem o Brasil e outras regiões do mundo, da mesma forma que os longos períodos de estiagem, não são. Estes, constituem-se no fruto da ação humana sobre a natureza. Nunca antes na história desse planeta ele foi tão destruído. Tão maltratado. Tão vilipendiado. Somos nós, os chamados animais racionais, o maior terremoto, o maior tsunami a ameaçar a terra. E ainda não conhecemos, senão em parte, os resultados de tanta irresponsabilidade.
Os líderes mundiais, sobretudo dos países mais poluidores, justificam a destruição da camada de ozônio, apenas uma das tragédias modernas, como sendo necessária à sustentação de suas economias. Há a necessidade de queima de combustíveis fósseis e ponto final. O Brasil, que não polui tanto por essa via, queima florestas com uma velocidade que dificulta até mesmo o acompanhamento da rapina via satélite. Acaba com a natureza e ainda ataca com ferocidade a camada de gases que deveriam nos proteger contra radiações.
Onde vamos parar?
Na foto deste texto está um trecho de uma cidade do Espírito Santo. Nos noticiários da TV's, o medo estampado no rosto das pessoas que, de uma hora para a outra, descobrem que não têm mais nada. Perderam tudo o que haviam acumulado ao longo de suas vidas.
É uma tragédia quase tão grande quanto a japonesa. Com a diferença de que, na Ásia, toda a destruição é resultado de um fenômeno sobre o qual o homem não tem controle. E nem terá. Nos demais, a destruição é fruto de nossas ações. Teríamos controle sobre ela se quiséssemos. Mas como o importante supostamente é preservar a economia, estamos destruindo o futuro de nossos netos. E talvez não tenhamos como recuperar o que já foi perdido.
Que pena!

9 de março de 2011

A criatura no fundo do poço


Começa a desmoronar, como se fosse um castelo de cartas, o espetáculo ilusionista de milagre econômico no qual se constituiu o segundo governo de Lula, em seu esforço descabido para fazer um(a) sucessor(a), fosse quem fosse, contanto pudesse manter seu grupo político no poder. Já foi anunciado um corte de mais de R$ 50 bilhões no orçamento. E vai ser preciso mais. Farras de gastos costumam terminar em ressacas de bolsos vazios.
Durante oito anos, usando e abusando de metáforas paupérrimas, o hoje ex-presidente tentou glorificar a seu governo e a si próprio. Agora, faz palestras auto-glorificantes pelas quais cobra - segundo se imagina - cerca de R$ 200 mil por cada 40 minutos de leitura de laudas escritas por terceiro. Quem sabe para evitar erros de concordância e outros.
O "aperto" anunciado pela presidente(a) Dilma Roussef, e ela sabe disso, serve a muito pouco da nobre causa de manter a economia do Brasil saudável. Teria de ir muito mais adiante para surtir efeito, inclusive com cortes de pessoal contratado apenas para cumprimento de conchavos políticos. Mas as pressões contra isso seriam imensas. Ainda não creio sequer que ela consiga cortar R$ 18 bilhões em emendas parlamentares - esse cancro político - como anunciou. O Poder Legislativo gosta de nadar em dinheiro público para manter seu curral eleitoral de rédea curta.
O deficit público só aumenta e, na última entrevista dada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que para corrigir em 4,5 o cálculo do imposto de renda talvez fosse preciso "reajustar algum tributo". Esse não é apenas um erro que o governo comete. Essa é a solução sempre encontrada para que privilégios se eternizem. Para que a "companheirada" seja acomodada em cargos públicos. Para que se façam "parcerias", que é como eles chamam conchavos políticos ou simplesmente a venda de apoios ao Executivo este conviver com um Legislativo bonzinho, incapaz de dizer "não", mas sim de aprovar sempre por unanimidade.
Mas o poço tem fundo. E talvez caiba à criatura descobrir que o criador a colocou lá!

2 de março de 2011

O "basta" contra os feudos!


O castelo de cartas que desmorona nos países islâmicos do Norte da África e regiões próximas tem um forte componente político, mas não político-partidário. Não se trata de uma, duas ou mais revoluções ideológicas - daquele gênero capitalismo X comunismo -, como as que ocorriam até meados do século passado, mas de um movimento supra-nacional de cidadãos que querem lutar para ter voz e participar dos destinos de seus países.
Egito, Líbia, Iêmen, Tunísia, Jordânia e outros, não são estados como nós conhecemos. Aqui na América do Sul, por exemplo, até mesmo nas ocasiões de quebra da normalidade democrática, nos anos de chumbo, os que detinham o poder, na sua totalidade militares, trocavam a guarda para dar a impressão de que o poder mudava de dono de "X" em "X" anos. Um ditador brasileiro, Ernesto Geisel, nosso "pastor alemão", disse certa feita na Europa que o Brasil era "uma democracia dentro de sua relatividade". Engraçado? Não, apenas ridículo.
Como ridículo é o líbio Khadafi (na foto acima), com suas vestimentas de escola de samba, seu distanciamento da realidade e sua visão de mundo dissociada de tudo o que possa fazer sentido. É contra esse quadro, esse aleijão, que lutam os povos dos diversos países. Eles querem ser donos de suas nacionalidades. Não querem viver no feudo do senhor "A" ou "B". Os senhores feudais do Norte da África são todos multimilionários e acumularam fortunas roubando, enquanto seus povos passavam dificuldades. As revoltam são contra isso. O que se quer fazer naquela região é transformar feudos em países. Senhores feudais em detentos. Ou em um passado que precisa ser esquecido.
E a lista das anomalias não se estanca nos países onde a população já se revoltou. Em outros, como na Arábia Saudita e Emirados Árabes, por exemplo, o estado pertence a famílias. Castas de magnatas que vivem à custa de seus povos e do petróleo existente naquelas regiões.
Na maioria dos casos, esses países sobreviveram até hoje por força de conveniências políticas. Os mais espertos eram e são fornecedores de petróleo para os Estados Unidos e não hostilizam Israel. Graças a isso os norte-americanos passaram década fazendo vistas grossas a tudo o que de ruim acontecia por lá. Agora não é mais possível. Agora o "basta" é um tsunami popular que ganha força ao chegar às praias. E ainda não chegou a todas elas.

23 de fevereiro de 2011

O tiro de canhão no bolso do cidadão


O Brasil é mestre em criar impostos. E quanto mais injustos, mais estapafúrdios, mais eles duram. O que criou os Terrenos de Marinha é um deles. Em 1831 imaginou-se a que distância chegaria uma bala de canhão disparada por um navio de guerra de então e que se aproximasse da costa brasileira até a linha de preamar daquele ano para efeito de nos atacar. Eram 33 metros. Então, daí em diante, essa faixa litorânea, estivesse ela onde estivesse, passou a ser Área de Marinha. Ou seja, uma faixa de terra onde tudo era da União e onde as pessoas só poderiam morar como ocupantes ou foreiros. Como em parte dessa foto, hoje de região nobre da cidade de Vitória. Afinal, precisamos ser defendidos!
Passaram-se os anos. Dois séculos foram comemorados desde o tido de canhão de 1931. Mas o Estado, com sua voracidade perdulária que cresceu de forma desmedida com a chegada do PT ao poder, manteve e ainda amplia a Taxa de Marinha, o imposto de temos de pagar para morar num terreno que, "por segurança", pertence à União para nos proteger.
Também, pudera: já pensaram vocês se surge de repente por aqui uma caravela portuguesa e começa a atirar para tentar recuperar sua antiga colônia? Seria um Deus nos acuda!
Por conta disso, em Vitória, que é uma ilha, e em mais 13 municípios do Espírito Santo, novas áreas de Marinha estão sendo demarcadas. Cerca de 30 mil pessoas, além das atuais, vão ter de pagar à União o imposto mais cretino dentre todos os existentes no Brasil. Há anos luta-se pelo fim desse absurdo. Mas o Estado resiste. O Serviço de Patrimônio da União (SPU) fiscaliza como um pastor alemão os moradores das áreas. E ai de quem não pagar o imposto!
Nos outros estados brasileiros também se luta contra tal situação. Em Pernambuco, uma ação civil pública conseguiu sustar as cobranças. No Espírito Santo, a Justiça Federal está para dar sentença relativa à questão. Mesmo diante do silêncio comprometedor das autoridades federais, omissas ou cúmplices, e de muitos parlamentares interessados em ver crescer a arrecadação do Governo para mamar mais e mais, a sociedade reage. E resiste, ajudada por políticos sérios.
A Taxa de Marinha é uma prova cabal de que Charles de Gaulle estava certo. Nós não somos um Pais sério.

16 de fevereiro de 2011

Os pobres nos seus catres


Fiz questão de usar a calculadora para que essa conta saísse exata: um brasileiro que ganha salário mínimo (de R$ 545,00) precisa trabalhar 49,03326605504587 meses para botar no bolso os R$ 26.723,13 mensais percebidos por um deputado federal. E eles ganham isso, afora os penduricalhos do cargo, que vão de auxílio moradia a polpudas verbas de gabinete, passando por outros. E são estes, os deputados, quem decide quanto vão ganhar aqueles, os trabalhadores que ganham salário mínimo, todos os anos. E decidem quanto eles vão ganhar também, como fizeram no final do ano passado, concedendo a si próprios quase cem por cento de aumento em seus subsídios. Um escárnio, um atentado ao pudor político!
Nos últimos dias, acompanhamos as discussões acerca do salário mínino. Quando se tratou de decidir os vencimentos dos senadores e deputados, foi fácil o Congresso Nacional chegar a um veredito: rápido e rasteiro, bem tarde da noite, o aumento foi auto-concedido. Mas decidir quanto vão receber os pobres diabos envolveu até mesmo discussões sobre cargos de primeiro e segundo escalão do Governo, além de liberação de verbas parlamentares. Existem prostitutas que se recusam a chegar a um patamar tão baixo em suas atividades.
O Ministro da Fazenda certamente poderá continuar a desfilar uma longa lista de justificativas e ameaças para o mínimo continuar bem pequeno e, de agora em diante, fora da apreciação do Parlamento. Mas ele sabe, e os deputados e senadores também, que se as vantagens dos políticos e apaniguados do Governo fossem menores, se não houvesse o inchaço demagógico da máquina pública e se todos emprestassem honestidade às suas funções isso seria suficiente para reduzir ao máximo a extrema desigualdade brasileira. A presidente Dilma Roussef também sabe disso.
Quer acompanhar a evolução do mínimo de 2000 até agora? Vai lá: 2000 - R$ 151,00; 2001 - R$ 180,00; 2002 - R$ 200,00; 2003 - 240,00; 2004 - 260,00; 2005 - R$ 300,00; 2006 - 350,00; 2007 - 380,00; 2008 - 415,00; 2009 - 465,00; 2010 - 510,00; 2011 - 545,00.
A propósito desse tema, um belo dia já faz um bom número de anos, um vereador pitoresco e simpático de Vitória (ES), fazendo discurso na Câmara municipal, disse hilariamente em alto e bom som, para defender um projeto de lei qualquer, pretensamente defensor dos sem (quase) nada: "Meus amigos, aqui no Brasil enquanto os ricos dormem em camas maravilhosas de colchões de molas, os pobres têm que se esticar nos catres de pau duro!".
E nem serve de consolo porque não é verdade. Infelizmente!

8 de fevereiro de 2011

A "independência" dos poderes


O presidente do Senado, José Sarney, está tão preocupado com a "judicialização da democracia brasileira" que externou essa questão ao presidente do Supremo Tribunal Federal, César Peluzo. Ele reinvidica uma espécie de acordo tácito que preserve a independência dos três poderes dessa nossa república ainda de bananas.
O que está por trás da iniciativa de Sarney? O medo dele e de seus parceiros de que a imobilidade do Legislativo acabe gerando cada vez mais pendências e que essas pendências, sendo levadas ao Judiciário, gerem por sua vez mais decisões que invadam a (in)competência dos legisladores brasileiros.
Mas isso é inevitável. O Poder Legislativo brasileiro se pendura no Executivo para obter vantagens lícitas e ilícitas. Agora, por exemplo, uma sucessão de apagões se sucedem no país enquanto o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão (foto), diz que temos um dos sistemas mais modernos do mundo. Lobão, a pior escolha do mundo para essa função, é um exemplo candente de como os conchavos dos bastidores políticos em troca de cargos podem produzir anomalias. Ele é ministro para garantir cota de participação no primeiro escalão a seu partido e, como não nasceu para isso, declara coisas absurdas quase todos os dias.
Sarney só não deseja tocar em um ponto da independência entre os três poderes: o direito constitucional que eles têm de definir os vencimentos de seus membros à revelia de toda a vontade da sociedade. Sim, porque um dos motivos de tanta negociação nos dias de hoje é o apoio que o Congresso vai dar ou não ao aumento miserável a ser determinado para o salário mínimo, para a correção do imposto de renda e para os vencimentos dos aposentados.
E isso demora, claro. Porque ninguém vai tocar em Lobão e os reajustes do topo do Executivo, Legislativo e Judiciário já foram definidos. Sem negociações.

21 de janeiro de 2011

As tragédias chegam primeiro


As tragédias brasileiras, ocorram onde ocorrerem, quando e por qual motivo acontecerem, têm todas um único e exclusivo DNA: são os filhos legítimos de uma outra tragédia, qual seja, o "casamento" entre um Poder Executivo clientelista, um Poder Judiciário corporativista e um Poder Legislativo omisso. Isso, para dizermos o mínimo.
A verdade e a exata dimensão dessa nossa tragédia brasileira, envolve muito mais coisas. Após cada eleição, o Executivo precisa negociar cargos para poder governar. O Legislativo aprova tudo, rigorosamente tudo o que é pedido pelo Judiciário, porque passarinho que come pedra sabe o ânus que tem. E na ciranda desse jogo de favores e medos, tudo o que representa manter ou aumentar privilégios de poderosos é decidido ou aprovado em questão de minutos. Tudo o mais é protelado ou alvo de demagogias. Quando uma decisão importante depende do Legislativo, ela só sai do papel se for do interesse dos outros dois poderes. E como ninguém quer perder poder, o suposto pragmatismo que cerca essas decisões, prefiro chamar de pusilanimidade.
Em consequência desse conjunto de fatores, deve passar de mil o número de mortos na região serrana do Rio de Janeiro. Serão mais de 25 mil os desalojados ou desabrigados. Haja dinheiro para a reconstrução de tudo o que foi destruído. E não apenas naquela região, mas também em São Paulo e Minas Gerais, também destruídos nesse verão 2010/2011.
Os detentores de poder concederam-se reajustes que passaram, em alguns casos, de 70 por cento. Já o salário mínimo, discute-se se pode ter R$ 30,00 ou R$ 35,00 de aumento. E discute-se já se vai muito tempo. Por esse mesmo tempo, e com toda a demagogia possível e imaginável, negocia-se medidas capazes de prevenir tragédias. Como não se chega a lugar nenhum, as tragédias chegam primeiro. E matam, democraticamente, como aconteceu ao menos agora no Rio, tanto os ricos quanto pobres. Talvez isso acorde algumas pessoas!
A estrutura de poder no Brasil tais fatos. Foi feita para isso. Tanto que havia uma estrutura de detecção de chuvas capaz de alertar para ocorrências fora do normal pronta para uso em Petrópolis, mas estava desligada porque a ninguém interessava ser o responsável por seu uso.
Agora, promete-se mundos e fundos. Da presidente a vereadores dos locais atingidos, medidas de proteção e reconstrução são anunciadas. Bastará a poeira baixar, a cobertura jornalística esmorecer, voltar ao normal, e quase tudo será esquecido.
Restarão os mortos. As famílias destruídas. E os traumas que muitos carregarão pelo resto da vida. A tendência, ao final, será a de vermos alguns paliativos e nada mais. Os pusilânimes continuarão como são. Os corporativistas, também. Os clientelistas, idem. Um novo Brasil poderá até chegar um dia. Mas se vier de baixo para cima. Nunca de cima para baixo.

12 de janeiro de 2011

This is Cinerama


Quero me permitir um pouco de saudade.
Avatar, um sucesso absoluto em cinema 3D, atraiu a atenção de todos para esse recurso cinematográfico realmente fantástico. E muita gente pensa que a filmagem em terceira dimensão foi uma criação de James Cameron ou da equipe de filmagem desse seu grande sucesso. Que o 3D veio para ficar não resta dúvida. E que em breve as TVs e cinemas apresentarão esse recurso diuturnamente, também. Mas isso não é novidade, mesmo aqui no Brasil. Muito pelo contrário.
Em agosto de 1959, em São Paulo, foi inaugurado na Avenida São João, 1.462 (Bom Retiro) o Cine Comodoro (primeira foto à esquerda), em um evento que teve até transmissão ao vivo de rádio e televisão. Era um absurdo de conforto e modernidade para a época, com filas imensas de espectadores que aceitavam aguardar quatro, às vezes seis horas para poder entrar. Isso numa época em que ainda era permitido estacionar na São João, coisa absolutamente impensável nos dias de hoje. Na primeira foto à direita temos o interior do cinema. Alguns dos maiores sucessos do Comodoro eram filmes em 3D. O maior deles - talvez por ter sido o primeiro -, This is Cinerama (segunda foto à direita), transportava os cinéfilos para montanhas russas, aviões de guerra ou outros artifícios. Havia uma infinidade de gritos na sala de projeções quando o carrinho da montanha russa despencava de grande altura. Parecia que todos estávamos lá, no parque de diversões, descendo as rampas em grande velocidade. Eu pelo menos estava, criança ainda, saco de pipoca nas mãos, ao lado dos meus pais, curtindo aqueles momentos caros de ócio dos finais de semana e que as crianças costumam valorizar depois que não existem mais.
E era mesmo um parque de diversões. Cinerama não explorava histórias, como Avatar. Suspense, aventura, romance, terror, nada. Na época, os efeitos especiais, ainda pré-históricos, eram chamados de "truques". E o Cinerama era um dos mais bonitos truques criados pelo cinema de então. Cada filme era formado por vários assuntos ligados uns aos outros por cortes de cena e sempre explorando a impressão que o espectador tinha, de estar dentro da tela. Ou então de a tela ter invadido a sala de exibições. E isso graças a equipamentos - projetores - imensos, pesadões e que ocupavam praticamente toda a grande sala de projeções.
Logo ele caiu em desuso. E isso porque não contava histórias, não havia tramas, nada. Eram apenas diversões rápidas, que com o tempo cansaram. O Cine Comodoro fechou depois de algumas décadas. Mesmo passando filmes tradicionais, grandes sucessos (como Evita, mostrado na foto). O mundo de Cinerama ficou apenas na memória das milhares de pessoas que foram até aquele cinema se divertir.
Restou, da época, pelo menos em minha lembrança, o Filé do Morais. O restaurante próximo dali e para onde meu pai levou-nos para comermos o mignon mais gostoso que existia, uma ou duas vezes. E esse filé ainda existe. Continua sendo o mais gostoso, não do Brasil, mas talvez do mundo!
Agora o 3D volta. Adulto, tecnologicamente avançado, capaz de nos contar dessa forma, com esses recursos invadindo as salas de projeções, todas as histórias que o cinema pode mostrar. Para quem pensava que ele - o cinema - havia morrido, ou iria morrer, eis a prova em contrário.
As salas mudaram de endereço e de formato. Em Vitória mesmo, como em São Paulo, a maioria dos cinemas ficavam quase todos no Centro. No caso capixaba, Santa Cacília, São Luís, Paz, Juparanã, Vitorinha, Jandaia, tantos outros. Hoje eles estão nos shopping centers, ocupando áreas nobres, com luxo,conforto e o que mais se busca nos dias atuais: segurança.
A arte renasce a cada dia, a cada criação. Ou através de recriações, mas em todos os lugares. Assim ela é feita. Ela é a essência do gênio humano e esse não se basta!

10 de janeiro de 2011

Meus filhos, meus tesouros diplomáticos


O novo do ministro do Turismo, Pedro Novais, pediu passaporte diplomático para a mulher dele, pois ela precisava descansar um pouco nos Estados Unidos. Estava muito cansada, coitadinha, e o ex-presidente Lula já disse em outras ocasiões que esse tipo de gente não é gente comum.
Então, para que fazer essa confusão toda porque dois filhos de Lula receberam passaporte diplomático às vésperas do encerramento do mandato dele? Devem estar muito cansados também. E viajar diplomaticamente é muito mais confortável.
Quem tem memória boa deve se lembrar de um filmete que os próprios filhos de Lula postaram na internet e depois retiraram. Eles aparecem num avião da presidência da República, parece que então era o Sucatão ou Sucatinha, e um diz: "Isso é que é vida!".
Com toda a razão.
Agora, com o papai fora da presidência, como continuar curtindo a vida sem passaporte diplomático? O Aerolula vai ser usado pela Dilma Roussef e os filhos do ex-presidente terão o desprazer de precisar frequentar essas primeiras classes sem conforto dos aviões de carreira!
O ministro Nelson Jobim tem razão, por exemplo, quando diz que Lula curte suas férias de graça numa instalação militar por medida de segurança. Com cerca de 90 por cento de aprovação popular! Fernando Henrique Cardoso, quando entrar de férias, vai ficar no porta-aviões São Paulo. Itamar Franco, num submarino. Por medida de segurança.
Os filhos de Lula merecem ou não merecem passaporte diplomático? Se o papai deles nunca se preocupou com as leis, qual seria o motivos de eles se preocuparem? Não é, ex-ministro Celso Amorim? O que falava tanto e agora está calado.
Bobagem, gente. Afinal, Pedro Novais já pagou motel com dinheiro público e continua ministro. Vai ver as mulheres não mereciam o dinheiro dele...