31 de maio de 2023

Lula e a munição dos inimigos


Não tem jeito: é só ficar distraído e o presidente Lula fala de improviso. Então comete erros que muito bem poderiam ter sido evitados. Refiro-me aos atos conjuntos com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que esteve em Brasília para a cúpula da América do Sul (foto). Ao chamar o visitante de democrata e as críticas a ele dirigidas de "narrativas", o mandatário brasileiro não cometeu apenas uma gafe; ele agrediu a verdade dos fatos, coisa que pode ser facilmente comprovada.

Não teve o menor cabimento receber Maduro no Itamarati separadamente e antes dos demais representantes continentais. Isso foi notado, criticado e causou muito mal estar. O presidente uruguaio Luís Alberto Lacalle Pou questionou as declarações de Lula sobre a "democracia" venezuelana. O mesmo fez o chefe de Estado do Chile, Gabriel Boric, por sinal um socialista. Este falou que a situação dos venezuelanos exilados em território chileno mostra que não falta apenas comida naquele país. Falta sobretudo e principalmente respeito aos direitos humanos. No Brasil também há uma legião de fugidos da Venezuela. Todos famintos. Todos carentes de democracia.

Lula ainda cometeu um novo erro no dia seguinte ao tentar justificar suas declarações de véspera chamando de "narrativas" as críticas ao venezuelano e reafirmando declarações dadas. É bom lutar na vida; é bom defender posições e mantê-las contra adversários. Mas jamais se deve agredir os fatos. Não é possível acreditar que divulgando afirmações falsas, visões obtusas de determinadas situações, um presidente conseguirá construir respeito e admiração, por mais que represente uma guinada política, uma esperança de melhora, uma garantia de sobrevivência da democracia após um governo golpista. 

Lula tem uma importância ímpar. Foi eleito três vezes para a presidência, fato inédito na vida do Brasil republicano, ainda elegeu duas vezes uma sucessora e hoje tem a cara da reação ao golpismo, à ditadura militar que nos infelicitou durante 21 anos na última vez que mostrou as garras. Seu antecessor defende uma "liberdade" que é, essa sim, narrativa falsa. O presidente atual não tem sequer o direito de jogar esse momento no lixo da história. Seu governo tem inimigos em cada esquina e enfrenta um Legislativo formado em grande parte de canalhas voltados à destruição dele e do Estado Democrático e de Direito.

Não coloque munição na artilharia dessa gentalha, Lula.              

29 de maio de 2023

O STF é o caminho

É possível dizer hoje, sem o risco de errar, que a oposição ao governo eleito no ano passado e empossado no primeiro dia desse ano está jogando na aposta do caos. Há uma diferença não muito sutil entre se opor e fazer sabotagem. Quem se opõe respeita os limites legais; quem faz sabotagem, não.

Vamos usar aqui agora somente um argumento, dos inúmeros que há. Os ministérios das ministras Marina Silva e Sônia Guajajara estão sofrendo uma tentativa de esvaziamento total por parte dos grupos oposicionistas de direita e extrema direita. Eles são comandados à distância pelo ex-presidente derrotado nas últimas eleições e por setores que o apoiam e a esses parlamentares, sobretudo e principalmente gente do campo e ligada ao que se convenciona chamar hoje de "Agro". Há grupos extremistas perigosos entre a gente graúda desse setor que inclusive apoia e financia qualquer tentativa de golpe de Estado passada, presente e futura.

Vejamos o que diz a Constituição em trechos de seu artigo 84: "Compete privativamente ao Presidente de República: VI - dispor mediante decreto, sobre: a) organização e funcionamento da administração federal, quando não implicar aumento de despesa nem criação ou extinção de órgãos públicos..." e vai por aí. Portanto, tem o Presidente da República o direito de montar seu ministério da forma como o achar ideal, sem ser desautorizado pelo Congresso.

Ora, e por que o presidente aceita aparentemente de forma passiva essa intromissão, da mesma forma como não se insurge contra outras receitas de sabotagem? Porque ele teme que, levada às últimas consequências, a oposição visceral possa criar mais uma série de outros obstáculos visando destruir o Estado Democrático e de Direito. O risco existe. Por exemplo, se a reforma ministerial não for aprovada e o Brasil parar por ter que voltar ao modelo que havia no último mandato. E esse é apenas um dos riscos maiores na ação desses "patriotas". 

Por isso o presidente negocia. Por isso ele entrega todos os seus anéis para tentar salvar os nove dedos que lhe restam. Como tem fama de negociador, talvez consiga atravessar a tempestade e seguir em frente com o modelo de Estado que escolheu eleito pelo povo brasileiro. Caso contrário as questões vão desaguar novamente do Supremo Tribunal Federal que intervirá e determinará a prevalência da Constituição. Afinal, ele existe para essa tarefa.                  

25 de maio de 2023

O Brasil fisiologista

Houve uma época em que os partidos políticos brasileiros tinham ideologia. Cada um representava uma corrente de pensamento e a defendia. Com o golpe de Estado de 1964 esse modelo enfraqueceu e aos poucos foi desaparecendo. Isso atingiu até mesmo agremiações que levavam a ideologia no nome como o PCB e o PCdoB, sendo do que o primeiro já mudou a sigla duas vezes e hoje é um irreconhecível Cidadania onde cabem todos. O mesmo ocorreu com o PSDB e outros partidos, como o "Socialista". Até mesmo aqueles que tinham vínculos diretos com a ditadura tentaram ficar mais palatáveis como é o caso do Partido Progressista. E por detrás disso há um fator: dinheiro.

Dentre a montanha mudanças pelas quais a política brasileira passou nos últimos tempos está uma excrecência chamada "orçamento secreto". Ele foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal, mas continua a valer fantasiado de outros nomes. Não à toa o todo poderoso presidente da Câmara Federal, Arthur Lyra, disse em mais de uma oportunidade que ele veio para ficar. Talvez não no nome, mas no simbolismo. E a cada dia que passa cresce ainda mais a voracidade com que deputados e senadores avançam sobre o dinheiro dos nossos impostos. Pode-se dizer que em grande parte dos casos para jogar esses recursos no ralo em busca de votos. O objetivo de agora são as eleições municipais de 2024.

Foi-se o tempo da UDN e PSB, passou a época em  que as siglas comunistas eram colocadas na ilegalidade e nos dias de hoje até mesmo nas câmaras de vereadores o avanço sobre o dinheiro dos impostos do cidadão é feito da maneira mais descarada possível. O apoio às prefeituras custa liberação de verbas para obras paroquiais, contratação de apaniguados para cargos públicos onde eles possam ter visibilidade com vistas às próximas eleições e isso quando a corrupção não é mais explícita como a que envolve aquisição de ambulâncias, tratores e outros equipamentos que não raro jamais chegam aos locais de destino para servir ao interesse público. Aliás, o interesse publico faleceu.

Até onde vai isso? Hoje seria impossível antever o final dessa bacanal. Mas ela precisa ter um fim e terá certamente porque não há fosso sem fundo e a população desse país reagirá exigindo nas urnas o respeito aos direitos do cidadão. Só vamos torcer para que isso aconteça sem derramamento de sangue.        

20 de maio de 2023

Bolsa rito de passagem


O programa Bolsa Família, do governo federal, só tem sentido se for um rito de passagem para a vida dos milhões de miseráveis do Brasil que tiveram sua situação financeira agravada nos últimos quatro anos de desgoverno. E para que isso ocorra a atual gestão precisa fazer acontecer rapidamente um plano nacional de emprego e renda aliado a outro de capacitação profissional visando à reinserção desse imenso contingente de pessoas no mercado de trabalho brasileiro, seja público, seja privado.

Os ritos de passagem, termo com forte apelo sociológico, são fases, etapas da vida de todas as pessoas como as celebrações diversas que nos acompanham: nascimento, estudo, primeira comunhão, casamento, trabalho, morte. Talvez o principal seja o que marca a passagem para a vida adulta. Podemos acrescentar a essa lista, no campo da formação profissional e do trabalho, o retorno à vida produtiva depois de uma etapa à míngua. Só o trabalho dignifica o homem e um país não pode conviver com a realidade eterna de uma população que trabalha para sustentar outra sem atividade produtiva.

Há um desvirtuamento na discussão do bolsa família dos dias atuais. O valor mínimo capaz de sustentar as pessoas com um tiquinho de dignidade foi alcançado já como recurso extremo para a economia. Pensar agora em décimo terceiro salário, férias e outras coisas é um despropósito. Esses dispositivos, como também fundo de garantia e auxílios diversos são ligados às relações de trabalho e não a auxílio emergencial. Confundir as coisas será muito ruim. E elaborar projetos de apoio a emprego, renda e capacitação profissional vai custar bem menos caro. Certamente com retorno muito maior.

Sonhar com um Brasil de desemprego zero, que não tenha baixa renda nem miséria seria utópico. Mas não o é pensarmos num país voltado ao reingresso das pessoas no mercado produtivo. Duvido que um plano nacional com esse foco não venha a contar com o apoio da iniciativa privada, ao menos daquela mais lúcida e voltada a olhar o país como um projeto de desenvolvimento sustentável. O Brasil não pode ser para sempre o "país do futuro"; este tem que chegar no presente.  

Vamos imaginar o Bolsa Família como um rito de passagem. Ele só tem sentido assim.             

17 de maio de 2023

Deltan em busca de conforto


Jurei a mim mesmo que não me surpreenderia com mais nada nesse nosso País. Mas hoje, faz muito pouco tempo, cheguei a ficar rubro de inconformismo ao ver o discurso do cassado deputado federal Deltan Dallagnol (foto) que protestava contra a cassação de seu mandato pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Cercado de asseclas (ou companheiros de partido...) ele disparou contra o Judiciário, contra o governo, disse que combatia a corrupção, citou até Martin Luther King e disse que mesmo fora da Câmara dos Deputados vai continuar lutando pela nossa liberdade. E de todos os brasileiros.

É muito confortável a posição de vítima, mesmo quando esta não passa de um engodo.

Dallagnol sabe que a vontade expressa nas urnas pelo povo do Paraná não foi violentada. Sabe que ele, sim, tentou passar por cima das leis quando se candidatou e se elegeu como deputado federal. Era investigado e não poderia ocupar cargo público algum. Foi eleito, sim. Mas quando houve uma denúncia formal e o TSE teve que julgar a questão e ele FOI CASSADO POR UNANIMIDADE. Não há, portanto, como se falar em quebra da normalidade democrática e em ataque às liberdades consagradas em nossa Constituição. Ela continua soberana.

Aliás, vamos parar para pensar. Esse agora ex-deputado fazia parte de um grupo político capitaneado por um ex-capitão literalmente expulso do Exército e que se jactava falando em adorar a ditadura militar brasileira. Em diversas ocasiões elogiou publicamente ditadores de extrema direita. Falou a favor da tortura e de torturadores. Queria exterminar os indígenas brasileiros. Colocou idiotas como o general Pazuello na direção de ministérios. Milhares de brasileiros morreram graças à omissão  criminosa do governo federal que antecedeu o atual. Hoje o ex-presidente responde a diversos processos e pode vir a ser preso por ter cometido vários crimes que são sinônimo de corrução.

Que desgraça de liberdade é essa que esse senhor defende? Que arauto do combate à corrupção é esse sujeito que fez parte de golpe judicial perpetrado para tirar de uma eleição presidencial o candidato que a venceria? O que ele fazia no Congresso enquanto uma tentativa de golpe de Estado era parida a fórceps às escuras, nos esgotos do grupo político que ele diz representar?

Não, ele não vai usar por muito tempo o conforto de tentar ser vítima.     

13 de maio de 2023

"Podres Poderes"

Página de abertura de Placar que denunciou os "Podres Poderes"

Não importa a modalidade: esporte depende de credibilidade. Para que ele faça sucesso é preciso os torcedores acreditarem que as pessoas no campo, na quadra, no ringue ou em qualquer outra arena estão jogando com seriedade e fazendo de tudo para derrotar os adversários. Senão vira "telecach", uma comédia pastelão que fez grande sucesso faz cerca de 50 anos, mas era de mentirinha. Tanto que um dia um jornal fez matéria sobre a "modalidade" e a imagem dentro das cordas do ringue era uma imensa marmelada. Se acontecer de se tornar isso, o futebol brasileiro, hoje já mal das pernas, vai falir. 

Na década de 1980, mais precisamente em 1985, a revista Placar investiu pesado numa matéria especial que nasceu da desconfiança de dois jornalistas, Milton Coelho da Graça (morto recentemente) e Juca Kfouri. Eles achavam que estava havendo coincidências demais em certos resultados de jogos da Loteria Esportiva em diversos campeonatos brasileiros. Escalaram o repórter especial Marcelo Rezende para percorrer o Brasil atrás de provas de ilícitos. Marcelo, que morreu em 2017, correu vários estados. Eu era o correspondente de Placar no Espírito Santo à época e o ajudei muito aqui. Descobrimos dois goleiros, de Rio Branco e Desportiva, que se vendiam. E também o esquema em funcionamento na Federação de Futebol, então com uma presidência não séria. Com o título de "Podres Poderes" o esquema da então chamada "Máfia da Loteria Esportiva" foi denunciado e aparentemente extinto. Mas eis que não!

Naquela época da primeira denúncia, a de Placar, a Loteria Esportiva fazia muito sucesso. Esse tempo passou. Agora as apostas de futebol são feitas pela internet e o esquema está voltando. Novamente com jogadores e árbitros desonestos sendo comprados da mesma forma e muito dinheiro sujo circulando pelo universo do futebol. Por ocasião da "Máfia da Loteria" o maior perigo eram os jogadores de clubes pequenos e em final de carreira. Já não tinham mais perspectivas pela frente. Hoje a maioria deve ter o mesmo perfil, mas alguns atletas de maior prestígio estão certamente aderindo ao esquema que permite ganhar dinheiro fácil à custa da boa fé dos torcedores. E da destruição do esporte.

É preciso combater isso. De todas as formas e em nome da grandiosidade que as várias atividades têm. Sem um combate efetivo essa pústula passa do futebol a outras modalidades e destrói todas elas. Na época da "Máfia da Loteria" ainda não tínhamos a internet e todo mundo sabia que Ted Boy Marino e outros do "telecach" eram artistas circenses. Eles não escondiam isso. Agora, não. Com o advento da internet e redes sociais essas quadrilhas vão destruir o esporte como quase fizeram com o futebol há cerca de 40 anos.          

3 de maio de 2023

Um Tenório de triste figura


Vira e volta um personagem do Brasil atual nos remete ao passado não tão remoto assim. Hoje mesmo, por obra e graça do ex-presidente Bolsonaro a cidade de Duque de Caxias voltou às manchetes. Desta feita não por algum feito que relembre diretamente a figura de Tenório Cavalcanti, o político da capa preta e dono da Lurdinha, mas sim porque continua sendo um reduto de crimes e criminosos.

Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque, para quem não o conheceu, era advogado e politico fluminense com área de atuação em Duque de Caxias. Vivia para cima e para baixo carregando sua metralhadora que chamava de Lurdinha (foto). Era violento, usava uma inconfundível capa preta e por muitos foi considerado o criador das milícias no Brasil. Coincidência? Até hoje não se sabe quantos crimes ele realmente cometeu, posto que deve ter mandado matar mais do que matou, mas sua fama era imensa. Desgraçadamente, deixou em Duque de Caxias a mancha de município violento e corrupto. Agora, com o escândalo dos cartões falsos de vacina do entorno de Bolsonaro ele emerge das sombras.

O ex-presidente brasileiro é um caso patológico de mentiroso compulsivo. Daqueles que mentem acreditando que as mentiras sejam verdades. E também está se tornando um ator amador de péssima qualidade. Não à toa, quando presidente debochava da emotividade das pessoas chamando-as de frouxas e outros termos mais, mas agora, depois de perder a reeleição que tentava, se derrama com lágrimas de crocodilo em todas as ocasiões em que se coloca em dificuldades e tem uma câmara pela frente. Um pulha.

É triste termos tido um presidente da República capaz de tantos atos espúrios. Até mesmo de falsificar atestados de vacina porque enfiou na cabeça que esse medicamento causa o mal e não o bem a quem o usa. Até viagem internacional o sujeito fez munido de documento fraudado. Felizmente para nós sua carreira está chegando ao fim. Cadáver político insepulto, ele logo deverá estar numa cela de prisão. Esse é o lugar ideal para o Tenório de triste figura dos tempos atuais.       

27 de abril de 2023

Uma velha história


A falsa luta da tradicional família brasileira contra o fantasma do comunismo é uma velha história sempre revisitada pelos oportunistas dos mais diversos setores e matizes. Lembro-me, embora um pouco vagamente, de que em fevereiro ou março de 1964 uma amiga de mamãe no clube do qual éramos sócios em São Paulo a convidou para sair na manifestação "Marcha da Família com Deus pela liberdade". Essa aí da foto tirada na capital dos paulistas. 

Então éramos associados do Ipê Clube, que até hoje existe nas proximidades do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. A amiga de mamãe queria evitar que o Brasil viesse a se tornar "uma nova Cuba". Mamãe não participou porque tinha casa para cuidar, filhos e marido. Todos de alguma forma dependiam do trabalho doméstico dela, que durava ao menos 12 horas por dia. Na vinda do clube para casa, comentou o convite com papai e este concordou com a negativa dela. Mas ele estava mais interessado no campeonato de bocha do dia seguinte do que nesse assunto...

Meses mais tarde, em Vitória para onde vim passar férias na casa de vovô antes de me mudar definitivamente para cá, ouvi dele numa conversa com vizinhos que o Brasil havia sido salvo "de uma boa". Perguntei o motivo e o velho português José Maria, um salazarista convicto, disse que se os comunistas não fossem sacados do poder eles iriam "botar famílias dentro da casa da gente dividindo os espaços conosco". Meu avô morreu apenas 15 dias antes da Revolução dos Cravos. Que pena!

No Brasil e em outros países, preferencialmente na América do Sul, os movimentos de cunho nazifascista sempre surgiram insuflados pela classe média alta e pelos mais ricos. Claro, afinal eram os privilégios deles - e não seus direitos - que estavam sendo defendidos. Portanto, existe pouca diferença entre o que acontece hoje e o que vivemos no passado. Naquela época ninguém precisava acampar diante de quarteis, até porque saiu deles o braço armado da ditadura que tomou o poder para trazer o Brasil "de volta à normalidade" e levou 21 anos para ser apeado do poder, não sem antes de prender ilegalmente, torturar e matar centenas de brasileiros. Principalmente jovens.

Da mesma forma que hoje, há quase 60 anos o extremismo de direita usava a figura divina como escudo para ocupar os espaços de poder agitando o fantasma do comunismo. O que difere o ontem de hoje é que agora a sociedade vive em situação de conhecimento imediato dos fatos e embora o golpismo continue entranhado em nossas tradições políticas, principalmente após as redes sociais e o bolsonarismo, os militares preferiram não correr o risco de serem eles os protagonistas de um novo golpe de Estado. Afinal, fazem isso desde e proclamação de República!

Mas o risco de ataque à democracia persiste ainda hoje, sobretudo com as redes sociais e as fake news com as quais ninguém sequer sonhava nos idos de 1964 quando houve o convite feito a mamãe. 

17 de abril de 2023

Bom dia a cavalo

"Quem fala demais dá bom dia a cavalo" é um dito popular que significa o seguinte: se eu falo sem ouvir os outros, acabo não sendo compreendido, recebo contestações e, quem sabe, um  coice. Por isso o presidente Lula, que é importante para a reconstrução do Brasil que a camarilha do ex-presidente destruiu, deve deixar questões como a guerra Rússia-Ucrânia com a Chancelaria. Lá elas serão bem cuidadas.

Com o fim da II Guerra Mundial o avanço soviético sobre países da Europa ocidental produziu a Organização do Tratado do Atlântico Norte, o contraponto ao Pacto de Varsóvia. Isso até 1991 quando a dissolução da União Soviética fez tudo perder sentido. Mas a OTAN prosseguiu e agora avança sobre o Leste com o claro intuito de chegar às fronteiras russas. Quando o império soviético caiu ficou mais ou menos implícito que a Ucrânia não ingressaria no Tratado porque os russos mantinham sua frota no Mar Negro, precisavam de livre acesso  ela pela Criméia, não abdicariam a isso e não iriam tolerar armas nucleares na sua fronteira. A guerra aconteceu porque Putin, um autocrata, não aceitou recorrer aos organismos internacionais como o Conselho de Segurança da Organização e Zelensky foi incentivado pelos países ocidentais a simplesmente esperar a guerra. Não houve negociação alguma, a não ser de fachada.

E agora, José? Agora é necessário que haja mesmo um esforço diplomático para por fim à carnificina e à destruição da Ucrânia. Mas esse esforço só terá sentido se for feito com a busca de soluções e sem que se aponte culpados. Não há inocentes ou virgens em diplomacia internacional e quem sabe tratar desses assuntos são os diplomatas. Não é o caso de Lula que sequer deveria ter dito diante de Xi Jinping (foto) que ninguém vai impedir o Brasil de ampliar suas relações com a China. Claro que não, mas isso não deve ser falado em nome das boas relações internacionais. O ruído nessas relações sempre leva a atritos e o presidente brasileiro já tem inimigos internos suficientes. Deve deixar o plano externo livre.

Alguém próximo deveria dizer a Lula que há um Brasil a ser reconstruído e isso é tarefa dele. Todos os brasileiros o conhecem, sabem de sua verborragia e querem que ele se concentre apenas no trabalho necessário. Se fizer somente isso o bolsonarismo é quem dará bom dia a cavalo. E ele está doido por esse protagonismo! Não consegue esperar a hora!                   

15 de abril de 2023

Permitam que sonhem


- E de repente a gente está vendo essa onda de ameaça, de violência, a gente não entende como isso acontece!

As declarações acima, literais, são do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, comentando as violências cometidas sobretudo em escolas do Brasil. Ou em creches onde, numa delas de Blumenau, Santa Catarina, quatro crianças foram mortas a golpes de machado. Ele certamente não estava bêbado ao falar e nem tinha perdido a razão. É apenas um cínico que participou direta ou indiretamente durante quatro anos do desgoverno anterior a esse e viu o ex-chefe de Estado usando até  mesmo crianças para mostrar armas pesadas ou imitar "arminha" com as suas mãos sujas de sangue.

Tarcício segue a mesma cartilha do governador de Santa Catarina e de outras autoridades brasileiras ligadas às soluções pelas armas: quer inundar creches e colégios de policiais armados. Quer combater a violência com violência. Ele não quer enxergar que a origem de tudo o que estamos vivendo hoje é a politica armamentista da extrema direita que chegou ao poder em 2018 no rastro de cometa de um ódio anti-esquerda e anti-PT provocados em parte por uma carrada de erros cometidos setores da esquerda política brasileira nos anos que antecederam a penúltima eleição presidencial.

Todos sabemos - ao menos os mais lúcidos - que o combate à onda de ódio se faz com a educação das pessoas. Com o "não" ao armamentismo que hoje alcança até escolas de tiro onde se busca ensinar os pequenos a matar, como acontece em Goiás. Contra a cultura do ódio é preciso implantar o humanismo. Não é verdade que um povo armado jamais será escravizado. O correto seria dizer que um povo armado e instrumentalizado politicamente por um novo nazi-fascismo vai escravizar as oposições e dizimar as minorias, como já estava sendo feito com nações indígenas brasileiras.

É preciso que sejamos todos subversivos no bom uso dessa palavra. Contra essa ideia de um país formado por milícias e milicianos dos mais diversos matizes vamos buscar os ensinamentos de gente como o padre Júlio Lancelotti e tantos outros e mostrar que crianças contêm sonhos. Para fazer um país feliz e alargar a cada dia mais seu futuro basta que a gente permita que elas sonhem.

Não à cultura da violência! Não ao novo nazi-fascismo!    

24 de março de 2023

Decência, coisa sagrada!


Em resposta ao presidente da República, que considerou "armação de Moro" o episódio do ataque aos planos do PCC de sequestrar o senador Sérgio Moro (foto), seus familiares e outros, o parlamentar alvo disse, atacando a figura de Lula, que ele não tem decência. Só mesmo o próprio mandatário sabe se isso é verdade ou não, pois tem seus critérios a respeito. Mas cabe aqui uma pergunta: um juiz de Direito que controla diversos processos onde não há provas cabais contra o acusado, mesmo assim o condena, o retira da disputa presidencial na qual era favorito e depois renuncia às suas atividades de magistrado para ser ministro da Justiça do candidato que indiretamente elegeu pode falar de decência?

O maior erro do presidente de República no episódio foi dar protagonismo a esse senador que vivia quase isolado no Congresso. Ele teve muito mais do que 15 minutos de fama! Lula deveria ter ficado à margem da questão, deixando ao ministro da Justiça e à Polícia Federal as considerações sobre os fatos. Quando falou mostrou que suas mágoas - e ele tem o direito de tê-las se for mesmo inocente - são tão profundas que o impedem muitas vezes de raciocinar com mais serenidade. O que é ruim.

Também provável futura vítima do PCC, o promotor Lincoln Gakiya falou sobre o assunto: "Moro é alvo desses criminosos por conta da portaria que baixou proibindo as visitas íntimas no sistema penitenciário federal. Isso realmente desagradou esses criminosos, não só do PCC, mas de todas as facções. Embora o plano em si tenha sido descoberto em janeiro desse ano, os documentos e informações das investigações dão conta de que está em andamento desde agosto de 2022, portanto no governo anterior. Não há motivo para dizer que foi engendrado pelo governo atual ou algo parecido. Infelizmente, estão fazendo uso político de uma operação de sucesso".

As declarações explicam tudo, inclusive indiretamente, as falas de agora do senador Moro, que se pronuncia sobre a decência dos outros, mas omite o fato de que é o governo atual quem orienta as investigações da PF e deu plena autonomia a ela. Vamos nos recordar de que esse hoje parlamentar demitiu-se do cargo de ministro da Justiça do presidente anterior porque esse estaria tentando tirar dele o comando e a autonomia dessa mesma polícia. Era um teatro isso tudo? Parece que sim.

Mas foram teatros claros e dirigidos os processos que ele comandou na Operação Lava Jato, afastando o atual presidente da disputa de 2018, e que hoje vão sendo anulados um a um. Sempre aprendi - meus pais me ensinaram - que decência é coisa sagrada. Só pode falar dela e nela quem a pratica por princípios e por trazê-la do berço. Moro, por seus atos, está bem distante disso.                

21 de março de 2023

Vai passar...


TRÊS HOMENS: Minha família é composta de três membros. Um demente, um gênio e eu, que sou militar./Todos nós, não sei se vocês sabem, temos um costume: o de à meia noite sair e dar três voltas em torno de nossa casa./Meu parente que é louco dá as três voltas procurando sua estrela de cinco pontas./Meu parente que é gênio levanta-se à meia noite noite e dá três voltas em torno da casa procurando uma verdade./E eu, que sou militar, dou as três voltas procurando o meu deus vermelho. (Oswaldo França Júnior in "As laranjas iguais").

Faz três dias e eu estava numa cafeteria tomando um expresso. Certa mulher de verde e amarelo foi vista por outra sentada na mesa ao lado da minha, que a chamou para conversar. A "patriota" não se conteve: "Passei por um sujeito com camisa do PT e quase vomitei. Tive vontade de esganar. Não suporto essa gente". Quase espumava e passei a acompanhar o monólogo quando ela olhou para mim e perguntou o que era, se eu não estava gostando. Disse apenas: "Não a conheço, não sei quem é e não quero que a senhora se dirija a mim". Ela foi embora vociferando...

Depois da derrota do ex-presidente hoje nos Estados Unidos seus seguidores, e vez de acatarem o resultado, acabaram mais fanatizados, mais violentos. Não pedem apenas intervenção militar, como antes. Na impossibilidade de cercarem quarteis, agora abordam a todos nas ruas, agressivos, arrogantes. E não são apenas os homens. As mulheres acabam tão ou mais amalucadas que eles. Dão voltas em torno de casas, de grupos, pessoas, de estabelecimentos comerciais, sempre à procura de um confronto. Ou de uma estrela de cinco pontas. Ou de uma verdade. Ou de seu deus vermelho.

Estão também no Congresso Nacional. Ou com perucas loiras, ou com discursos inflamados e desconexos ou então tentado emplacar leis inconstitucionais que pretendem cercear a tudo e a todos, mesmo agredindo a Constituição. Um deles se apresenta como "príncipe". Vários outros com patentes militares, títulos policiais, nomes iniciados por "doutor" e vai por aí.

Creio que isso é coisa que dá e passa, como tudo na vida, inclusive ela própria. Mas enquanto não acontece essa turba inferniza a vida dos outros. Oswaldo França Júnior, escritor há anos falecido, era militar, não aceitou ver as forças armadas nas mãos de golpistas e passou o diabo por causa disso. Mas sobrevivemos todos nós até que um genocida e sociopata tirou esse passado de seu sepulcro e fez os brasileiros se lembrarem do que existe de pior neles, como a gente vê na foto que ilustra o texto.

Não tem problema, vai passar...            

10 de março de 2023

A mulher de César


O presidente Lula deveria ler sobre um episódio da história romana que chamaremos de "A mulher de César". Mas vamos começar nos lembrando de que desde sua posse em 1º de janeiro o atual presidente vem marcando a administração atual por decisões para lá de benéficas ao Estado brasileiro. Revogou decretos do governo anterior como o de acesso às armas, reestabeleceu o combate ao desmatamento, está impedindo o genocídio indígena e promovendo mais uma série de outros atos como o que separava as crianças com deficiência das demais, sobre impostos, recriou o Auxílio Brasil de R$ 600,00, o Bolsa Família, o auxílio gás, revogou oito privatizações de estatais brasileiras e, para não nos estendermos muito, está recuperando Saúde, Educação, etc., etc., etc.

Mas o presidente trata desiguais como iguais no plano internacional e isso é ruim. Mandar um emissário a Caracas quase em segredo não pode. E confundir o Daniel Ortega que derrubou o ditador Anastácio Somoza com o de hoje, que persegue até a sombra de quem não concorda com ele é no mínimo temerário. Deixa a impressão de não honestidade pessoal até naqueles sem julgamentos preconcebidos.

Pompeia Sula, mulher de Júlio César, resolveu dar uma festa no palácio somente para mulheres e sem a presença do marido. Publius Clodius, rico e que era apaixonado pela linda jovem conseguiu se esgueirar disfarçado de tocador de lira para ver sua amada. Foi descoberto. Ao tomar conhecimento do fato o imperador determinou que o trapalhão fosse exilado em uma unidade militar bem distante onde ele foi assassinado. Depois chamou a esposa e comunicou a ela a separação de ambos. Pompeia argumentou que  era honesta, no que ouviu do marido: "À mulher de César não basta ser honesta. A mulher de César tem que parecer honesta!"

Cercado por todos os lados pelos detratores, Lula não pode ser condescendeste com não democratas. Tem que exercer crítica pesada sobre eles, lembrando-se sempre de que está substituindo um admirador de ditadores e torturadores e que sobreviveu a uma tentativa de golpe de Estado em 08 de janeiro. Deve pensar também que a corja bolsonarista ainda não desistiu. Aqui mesmo no Espírito Santo ela continua a ser atuante, muito atuante, todos os dias. E não tem o menor apreço pelos valores democráticos.

Seja César, Lula, jamais Pompeia. Ainda que discorde do imperador.          

6 de março de 2023

Juscelino, a bomba-relógio


No campo minado onde o atual presidente Lula foi colocado, o ministro (sic!) Juscelino Filho pode ser a maior bomba-relógio a explodir no colo do governo atual. Em dois meses o sujeito, indicado pelo União Brasil, já cometeu uma série tão grande de desatinos que nem vale a pena enumerar todos. O partido dele ameaça retirar o apoio ao Executivo se houver uma demissão? Dane-se. Prejuízo maior é ceder à prostituição política porque tudo deve ter um limite, e até mesmo na sem limites Brasília.

Vamos nos ancorar somente em um fato, o último, para dizer que esse senhor tem que ser afastado do Governo rapidamente: apresentou nomes de um casal e de uma filha de dez anos, todos moradores em São Paulo, para compor parte do grupo do ministério das Comunicações. A família diz não conhecer a "autoridade" nomeadora. Então o dinheiro que seria pago aos supostos servidores teria outra destinação. Alguma coisa parecida com o que seria feito com as joias presenteadas à Michele Bolsonaro...

O presidente Lula deve usar seus assessores mais capazes (e sagazes) para contornar o campo minado onde está. Cito um exemplo: não foi inteligente invadir as terras da Suzano (foto). Se essa empresa tinha um acordo e não o cumpriu, cabe ação judicial. A Polícia Militar foi até a região, não incomodou os fazendeiros que ameaçavam os membros do MST ao som do Hino Nacional e tomou ferramentas agrícolas do Sem Terra. Também nesse caso cabe ação judicial porque a área não tinha decisão de desocupação, processo algum e ainda por cima não cumpria função social. Cabe ação até mesmo contra a Polícia Militar baiana, que deve considerar brinquedos as armas nas mãos dos fazendeiros e seus sequazes e pás, enxadas e outros como revólveres ou fuzis nas mãos de agricultores.

No campo minado é bom jogar o jogo com inteligência para a extrema direita não ter ainda mais munição a usar nas milhares de armas que adquiriu desde a chegada de Jair Bolsonaro ao poder. Erros são tudo o que eles querem ver o Governo cometendo. É preciso não deixar que ações pouco ou nada inteligentes sejam capazes de desviar a atenção dos brasileiros para outras coisas além dos graves atos de corrupção do governo passado e que envolvem até mesmo tentativa de contrabando de joias.

      

4 de março de 2023

"Contrabandos Bolsonaro Ltda"


O ex-presidente hoje fugido nos Estados Unidos, Jair Bolsonaro, gosta(va) de dizer que comandou um governo "sem corrupção" . Era a forma de, indiretamente, tentar atingir o atual presidente Lula, que carrega esse estigma imposto a ele por várias pessoas ou setores, sobretudo e principalmente pelo ex-juiz Sérgio Moro. Mas não apenas esse ex-capitão é desonesto até a medula como também, e agora está provado, tentou trazer jóias de valor de três milhões de euros contrabandeadas para o Brasil.

Um dia os brasileiros ainda vão contar toda a história do fatiamento da Petrobrás acontecido nos últimos quatro anos, sobretudo e principalmente a venda a preço vil dos gasodutos construídos com o dinheiro do povo de nosso país. Hoje pagamos aluguel pelo uso do que outrora era nosso e que, a custo de ouro, podemos utilizar mediante remuneração aos donos. E não foi só isso. A Petrobrás Distribuidora também foi vendida, da mesma forma que outras subsidiárias daquela que foi uma das maiores empresas petrolíferas do mundo. O que sobrou hoje paga de forma miliardária seus sócios e fechou o último ano fiscal com um lucro líquido de dar inveja a qualquer grande empresa mundial.

Muito certamente por causa da venda de parte da Petrobrás aos sauditas, quando a trupe presidencial esteve na Arábia ,dona Michele recebeu um mimo: três milhões de euros em joias de grife (foto). Seria até legal o presidente obter um presente destes caso isso fosse declarado à Receita Federal e destinado ao Tesouro Nacional. Mas não. Os Bolsonaro tinham outros planos para o ouro e as pedras preciosas que muito provavelmente seriam transformadas em euros ou dólares a serem usados para a compra de imóveis em dinheiro vivo. Ou a outra destinação ilícita. Sim, porque ilícito esse governo encerrado no último dia do ano passado foi do princípio ao fim. Do primeiro ao último dia.

Para citarmos só mais um fato, houve quatro tentativas frustradas de resgate das joias junto às sérias e honestas autoridades alfandegárias do Aeroporto Internacional de Guarulhos. Tudo deu errado. E, miseravelmente, nessas investidas havia a presença de militares extremistas que serviram ao presidente e seu entorno. As investigações também precisam avançar sobre eles, que são a banda podre das forças armadas brasileiras. Fazem um estrago danado e nos envergonham.   

O Brasil ainda precisa contabilizar com calma e apuro todos os danos que sofremos e ainda vamos sofrer em decorrência do último governo, inclusive com a participação do então ministro da Fazenda, Paulo Guedes. A gang que se ocupou do poder fatiado entre amigos e outros tipos de apaniguados como, por exemplo, nazifascistas de carteirinha, destruiu o país enquanto distribuía a propaganda da remontagem de um Estado que teria sido dilapidado por governos anteriores.

A empresa informal "Contrabandos Bolsonaro Ltda", com todas as suas inúmeras ramificações precisa pagar caro por todos os desmandos cometidos de 2019 a 2022. E que foram incontáveis!   

1 de março de 2023

As Domadoras de mentes vazias

A raivosa extrema direita brasileira, hoje representada pelos seguidores do ex-presidente que fugiu para os Estados Unidos, não respeita nem mesmo as tradições populares brasileiras. Agora, mais recentemente foi proibido o desfile de dois blocos carnavalescos no Centro de Vitória, um deles chamado "Esquerda Festiva". Era para fechar o carnaval no qual até as máscaras choraram. E a apresentação foi impedida apenas e tão somente por causa do nome e da natureza ideológica que marca os carnavalescos. Por mais nada.

Quando adolescente e adulto morei algum tempo no Centro, à rua Francisco Araújo, que fica atrás do Palácio Anchieta. A turma gostava de pular nas ruas e nos clubes sociais como Álvares Cabral, Saldanha da Gama. e Náutico Brasil. Sacanas que éramos, muitas vezes convidávamos as "primas" dos números 78, 92, 120 e 130 da rua General Osório para saírem conosco nos blocos "As virgens de Salem" e "As domadoras de serpentes". Nunca fomos proibidos de nada e jamais incomodamos as dignas senhoras puras e casadoiras da sociedade do Centro, que àquela época já era chamado de "Favela de Luxo" pelos moradores dos bairros na região norte, sobretudo os da Praia do Canto.

E olhem: eram tempos duros de ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1969, quando isso aconteceu.

Agora, no porre da viuvez de seu mito Bozo, até mesmo vinho chileno com rótulo em homenagem ao fascista já existe na região dos direitistas de Pedra Azul (foto menor). Em algumas cidades do Rio Grande do Sul e Santa Catarina fervilham os grupos neonazistas, sobretudo de jovens. Que horror! Dois ministros do Supremo Tribunal Federal foram impedidos de fazer palestras em cidades gaúchas por causa de ameaças. E as Forças Armadas, em parte capitaneadas por extremistas que representam a ideologia do ex-presidente, ainda são hoje uma ameaça velada à tênue democracia brasileira cuja construção custou tão caro aos brasileiros de esquerda que lutaram contra a ditadura entre 1964 e 1985.

Gozado, e eu até hoje pensava que o jogo do bicho e seus tentáculos sobre o carnaval e as escolas de samba fossem nosso maior inimigo, o solapador da festa popular que mais reúne gente no Brasil. Surpreso descubro que até agora não conhecia bem o país onde nós vivemos. Aqui pontificam as "Prostitudas de salem" e as "Domadoras de mentes vazias". Que coisa  mais triste!   

25 de fevereiro de 2023

Ninguém é inocente no palco da guerra.


Notem bem uma coisa: o que menos se fala na Europa e nos Estados Unidos - além, é claro, na Rússia - é na forma de se acabar com a guerra da Ucrânia. Como fazer a paz? O presidente ucraniano Volodimir Zelenski quer combate, obviamente ancorado no poder da OTAN e dos Estados Unidos. A esmagadora maioria dos que o apoiam também faz rufarem os tambores de guerra. E por quê? Simples, porque rios de dinheiro são gerados pela indústria bélica mundial e ela tem muito poder.

Com o fim da II Grande Guerra ficou claro que os aliados Estados Unidos e União Soviética eram só parceiros de ocasião e logo seriam inimigos ideológicos declarados. Foi o que aconteceu. Isso gerou a Guerra Fria - aquela que não dispara tiros senão esporádicos -, que só foi terminar em 26 de dezembro de 1991, com o fim da União Soviética. Ainda está para ser escrita a obra que vai explicar como a URSS se dissolveu num passe de mágica depois de ser um bloco aparentemente monolítico durante 73 anos. Mas essa não é a discussão de agora, dessa coluna.

A agressão da Rússia à Ucrânia foi uma estupidez e não pode ser explicada apenas e tão somente por "um ato ditatorial", como querem aqueles que gostam de simplismos idiotas. Na prática, com o 26 de dezembro de 1991 deixou de haver o motivo maior para a existência da OTAN, posto que a "cortina de ferro" estava cerrada. Mas não. Os princípios da globalização impunham aos Estados Unidos continuarem na aliança com a Europa, ampliarem essa rede de "solidariedade" e se aproximarem a cada dia mais das fronteiras com a Rússia. De alguma forma russos iriam reagir. Quando Vladimir Putin fez isso da maneira menos inteligente que poderia existir, sua ação bélica uniu os interesses econômicos mistos do conceito de economia globalizada com os da gigantesca indústria bélica mundial, sempre ávida por vender armas de todas as formas e para todos os clientes, não importam o regime e a ideologia. Eis a guerra como ela é!

Chocam a todos nós os dramas de crianças como as da foto acima? Aos senhores da guerra, não. Também pouco importam os inocentes jovens e velhos que estão morrendo, bem como a juventude fardada em campos de batalha que antes eram até de batatas. Cidades destruídas também podem ser reconstruídas, o que igualmente dá um bom dinheiro a setores da globalização. Tirando os pequeninos sem futuro, ninguém é inocente no conflito Rússia X Ucrânia. Sobretudo os que discursam nos mais diversos pódios falando de liberdade e autodeterminação dos povos.    

13 de fevereiro de 2023

Fake news é poder!


A cada dia que passa mais me convenço de que a regulamentação das redes sociais não é apenas necessária, mas urgente. Afinal de contas é nelas que se sustenta o poder dos homens representantes de grupos políticos de extrema direita que minam as democracias representativas usando principalmente mentiras plantadas e que nós convencionamos chamar de "fake news". No Brasil por exemplo, uma ala do Palácio do Planalto foi transformada em "sala do ódio", onde auxiliares do ex-presidente hoje homiziado nos Estados Unidos produziam carradas de informações falsas diariamente capitaneados pelo filho dele, Carlos. E essa atividade produziu danos imensos à democracia brasileira.

A cientista política norte-americana Barbara Walter estudou profundamente esse assunto no livro "Como as Guerras Civis Começam e Como Impedi-las", editada pela Zahar. E traçou um paralelo entre o que aconteceu nos Estados Unidos em 06 de janeiro de 2021 e em 08 de janeiro de 2023 no Brasil. Para ela, tanto Donald Trump quanto Bolsonaro usaram e ainda querem usar a receita de Viktor Orbán na Hungria para minar as democracias de seus países de dentro para fora com o desmonte das instituições civis garantidoras do Estado de Direito e, em último caso, terminar a obra com uma guerra civil. Esse modelo também é seguido nas Filipinas, na Índia, na Turquia e em Israel, para pararmos por aqui.

E qual é o argumento contra a regulamentação? Dizer que isso afronta os valores democráticos, sobretudo a liberdade de expressão. Balela. Todos os meios de comunicação têm regulamentação para mais ou para menos. Somente as redes sociais ainda não têm porque interessa a príncipes da área como Mark Zuckerberg manter inalterado o poder que as redes sociais possuem. E elas hoje são um poder absoluto, às vezes tão grande ou maior do que o poder de Estado, sobretudo para difundir inverdades e solapar as bases das democracias a partir do enfraquecimento de suas instituições.

Barbara Walter dá uma explicação excelente sobre facções ao dizer que "A faccionalização tem uma característica única: ela é racial, étnica ou religiosa". E como resultado disso sua disseminação e crescimento tornou possível o retorno do conceito da superioridade branca e do cristianismo evangélico como valores. Hoje nos Estados Unidos 80 por cento do Partido Republicano é assim. No Brasil há um projeto muito parecido com ele que se corporifica na ideia de "ministro terrivelmente evangélico" que Bolsonaro tentou implantar no STF e só não conseguiu porque perdeu as eleições.

Lembremo-nos de uma coisa: regulamentar as redes sociais não é atacar a liberdade de expressão, é defender a democracia. Há um grande movimento de extremismo de direita se formando em grande parte do mundo e que precisa ser combatido. Nos Estados Unidos e no Brasil fizemos bem o dever de casa, mas isso não basta. Ontem mesmo Bolsonaro disse nos EUA que a tarefa dele ainda não acabou e pretende voltar. Se abrirmos a guarda ele tentará fazer isso mesmo.    

7 de fevereiro de 2023

O Neto aplicado


Hoje é o dia de divulgação da ata do Copon que manteve a taxa de juros do Banco Central do Brasil em inacreditáveis 13,75 por cento ao ano. E a divulgação dessa ata terá a presença de Roberto Campos Neto, o presidente do BC e um seguidor incondicional do vovô Roberto Campos, o cuiabano que foi guru do pensamento econômico ultraconservador da época anterior e durante a ditadura militar brasileira, à qual serviu com dedicação. Quem não puxa os seus é monstro!

Ontem, quando o Copon se reuniu para traçar suas metas, recebi pelos Correios um impresso de um cartão de crédito que uso. Utiliza a cor vermelha...rsrsrs... Oferecia-me empréstimo de R$ 20 mil a juros camaradas, no ver dele. Calculei o pagamento em 48 vezes, como era ofertado e daria ao final R$ 50 mil. Duas vezes e meia o valor do empréstimo! No prazo menor de um ano as parcelas mensais não estariam ao alcance da maioria das pessoas que usam essa modalidade e, ao final de 12 meses a pessoa teria pago pouco mais de R$ 30 mil. 57 por cento de juros acumulados ao longo desse período.

Minha memória correu para a época da juventude. Morava atrás do Palácio Anchieta e um dia meu avô me deu uma certa quantia em dinheiro e me disse para procurar um certo fulano e acertar com ele a dívida contratada. Fui lá. O sujeito estava tomando cerveja em um bar que ficava na rua General Osório e no pé da Escadaria Doutor Carlos Messina. Falei do assunto e estendi o dinheiro a ele. Agradeceu, se levantou e guardou as notas ao lado do revólver cujo cabo aparecia por baixo da calça. Era um agiota.

Não sou economista, mas reservo-me e direito de questionar as muitas contestações que hoje são feitas ao atual presidente porque ele e sua equipe econômica acham escorchantes ou juros cobrados pelo banco que dita a referência do custo do dinheiro e impacta tudo o mais. Seus defensores julgam que esse é o remédio para o controle efetivo da inflação e eu, no alto dos meus muitos anos de jornalismo e de discussões sobre fatos econômicos me reservo o direito de achar que o remédio pode matar o paciente num Brasil destruído pelo extremismo de direita e que precisa crescer para atender aos pobres.

 Meu avô tomava dinheiro a agiotas na época em que empréstimo bancário era difícil e ele se recusava a dar a casa, seu único bem, como garantia de dívida. Hoje uma administradora de cartão de crédito cobra juros absurdos para emprestar a quem precisa. E por trás disso tudo está o Banco Central e sua política de combater a inflação arrochando o custo dos empréstimos que sufocam a economia. Mas essa é a receita de Roberto Campos Neto, que segue e cartilha do vovô e votou nas últimas eleições vestindo camisa verde amarela, uniforme do bolsonarismo, embora o correto fosse a neutralidade, ao menos em público.

3 de fevereiro de 2023

O samba do Brancaleone doido


Os últimos dias vividos pelo Brasil são mistura do "Samba do Crioulo Doido" com "O Incrível Exército de Brancaleone", de Vittorio Gassman  (vejam seu cartaz). A primeira, música que todos nós já ouvimos e cantamos, é um primor para explicar nosso país meio louco. A segunda é um filme maravilhoso que fala dos delírios malucos de quem quer o poder a qualquer preço em movimentos que sempre terminam mal. O filme foi lançado durante a ditadura militar e exibido sem censura porque os sensores tinham (como ainda têm...) QI de ameba. Tanto a música quanto o filme parecem inspirar o ex-presidente da República fugido nos Estados Unidos, o senador Marco do Val, o ex-deputado Daniel Silveira, o também senador Flávio Bolsonaro e mais a imensa trupe de pobres de espírito e bandidos que formam nossa extrema direita.

Estranho, mas o senador do Val, figura obscura e que desfila cheio de broches da Swat dos Estados Unidos imagina ter encontrado um meio de ser protagonista de alguma coisa. Deu entrevista a Veja (matéria escrita por um repórter que era seu assessor no Senado) denunciando um plano de golpe de Estado por parte do ex-presidente, depois disse que não é bem assim, depois mudou mais um pouco e agora, em entrevista à CNN Brasil falou que vai pedir o afastamento do ministro Alexandre de Moraes da relatoria do inquérito sobre os atos antidemocráticos e sobretudo o 08 de janeiro. Um plano tosco, denunciado pelo jornalista Otávio Guedes e chamado pelo ministro Moraes ironicamente de "genial".

Nossos doidos são mais perigosos do que os soldados e comandantes do "Brancaleone". O enredo deles bate de 10 a 0 na letra do "Samba do Crioulo Doido". E mostra como um presidente maluco pode gerar insanidade por todo o país. Tanto que em Brasília um extremista de direita fanático gritou a plenos pulmões um "morte ao Xandão" e em seguida se imolou ateando fogo ao corpo. Recentemente, num supermercado, ao ouvir um "feliz 2023", uma certa senhora enlouqueceu e começou a gritar que 2023 vai ser o fim do Brasil porque estamos sendo governados por ladrões. E atacou as forças mal armadas.

Somos, depois de quatro anos de governo genocida e focado em fake news propagadas pelas redes sociais, um país de gente mentalmente doente. Não todos, claro, nem muito menos a maioria. Mas essa minoria que vive num outro mundo é capaz de tanto mal que às vezes se volta contra seu próprio corpo. Ou então grita aos quatro ventos que os extraterrestres vão nos salvar um dia desses. Quando sem outro assunto, podem encontrar a calma rezando para pneus colocados em frente a quarteis.  

São alucinados sem causa e isso é muito perigoso. Mas alguma coisa me diz que dá e passa.