23 de agosto de 2023

Deus, o tráfico e as armas


Um belo dia a pastora e pesquisadora ligada à igreja Assembleia de Deus em Nova Iguaçu, baixada fluminense, Viviane Costa, teve uma surpresa em meio a uma aula de teologia em Parada de Lucas. Um aluno disse ter deixado o tráfico e se tornado pastor, a que um outro retrucou se dizendo pastor traficante de drogas e que recebia intervenção divina no combate aos "inimigos". Ela resolveu pesquisar o assunto, conhecer o fenômeno em um mestrado em ciências da religião pela Universidade Metodista até lançar o livro Traficantes Evangélicos: quem são e a quem servem os novos bandidos de Deus.

Em Parada de Lucas mesmo existe um espaço conhecido como Complexo de Israel onde um outro pastor de nome Álvaro Malaquias Santarosa, vulgo Peixão (vejam só!), busca uma associação de nomes sagrados para os cristãos com a violência institucionalizada. Assim como estes há outros. Viviane percebeu que as religiões sempre fizeram parte do mundo do crime e o nome de Jesus vem sendo usado há tempos ligado aos mais diversos contextos de violência. Não são apenas os criminosos que fazem isso: muitos policiais também. Eles são a raiz das bancadas da bíblia que infestam hoje o poder legislativo e dão origem ao que é chamado de fundamentalismo religioso, crença baseada na intolerância e na violência.

Mesmo sem ter base em pesquisas, sempre acompanhei a vida legislativa brasileira de modo crítico, a tentar entender como as diversas correntes de pensamento se associam. Quem faz isso vê hoje que o partido político não é um fim, mas apenas um meio. E que a intenção é chegar ao poder impondo pensamentos que na maioria esmagadora das vezes nada têm de republicanos ou base legal. Dou um exemplo: nada há mais próximo no Brasil político atual que as bancadas da bíblia e da bala. Elas são sócias em interesses que se cruzam no tempo e no espaço. Armamentistas e fundamentalistas religiosos usam a pregação da violência da mesma forma, com a mesma desenvoltura. E se a gente for passar os olhos pela história humana, recente ou não, vai ter que convir que algumas das maiores tragédias da civilização foram cometidas por grupos que agiam e matavam supostamente em nome de Deus.

Ter a consciência de que isso está acontecendo não apenas em nosso país, mas também em muitos outros pelo mundo afora é o primeiro passo para combater essa monstruosidade. Aqueles que professam uma religião têm mais condições de fazer isso que um livre pensador como eu. Mas urge fazer logo. A associação entre crença religiosa, tráfico de drogas e armas de fogo é um risco imenso. E se eu me acho com o direito de matar quem pensa diferente de mim e só por isso, pior ainda.  Nós estamos trilhando esse caminho nos dias de hoje.      

15 de agosto de 2023

Novos ovos de serpente


Faz exatos cem anos que a Alemanha enfrentou a maior hiperinflação de sua história. Foi uma época tão dramática que quando alguém botava as mãos em dinheiro ganho tinha que correr para uma loja e comprar logo tudo o que era preciso e possível. Se demorasse em entrar nas filas os preços poderiam até dobrar (foto). Eram os tempos da República de Weimar, nascida em 1919, após o término da Iª Guerra Mundial quando uma constituição de caráter social e parlamentar foi criada para a transição alemã pós monárquica. A constituição representava um avanço. Tinha preocupações sociais relacionadas ao trabalho, à educação e ao conforto do povo alemão que se preparava para uma democracia representativa. O que deu errado?

Quando a guerra terminou os países vencedores impuseram à Alemanha uma rendição em termos tão draconianos relacionados a indenizações que era impossível pagar. Veio a penúria financeira e o valor do dinheiro deixou de existir. Esse era o caldo de cultura ideal para o surgimento no horizonte alemão de um demagogo capaz de seduzir as massas. Ele chegou na figura de um austríaco, outrora cabo do Exército usando bigodinho ridículo e discursando com muito o ódio e preconceitos raciais. Chamava-se Adolf Hitler. Acabou com a República de Weimar e a democracia em 1933.

Coisa parecida está acontecendo com a Argentina onde domingo foi entronizado um vencedor das prévias presidenciais que em muito e assemelha a esse tipo de gente. Quer acabar com o Banco Central, com o peso, ministérios, quer poder vender órgãos, enfim, fazer uma política de terra arrasada. Não nasceu de espólios de guerra, nem nada parecido com isso. Veio da penúria provocada por políticos incompetentes, corruptos e que levaram os argentinos e enfrentar uma crise econômica sem precedentes. Sem acreditar em mais nada, elegeram o nada.

O problema é que esse tipo de doença pega. Em menor nível consegue ameaçar os Estados Unidos com a figura de Donald Trump, já desembarcou na Hungria, na Itália e anda cercando outros países como a Espanha e, talvez, Portugal. Trata-se de uma pandemia de desesperança que leva povos pouco crentes nas artes da política a acreditaram naqueles que dizem ser contra ela mesmo embarcando nas caravelas dos partidos políticos e das eleições constitucionais para poderem arrotar valentia.

O Brasil tem que tomar cuidado. Um fracasso do governo federal de agora pode nos levar a surfar nessas ondas nefastas. Lutar pelo sucesso - ou ao menos pelo não fracasso - desse governo é apostar em nós mesmos. E nosso futuro. Temos que acreditar que nossas ações não nos levarão a abrir as portas de uma democracia conquistada com tantos esforços ao longo de 21 anos à aventura louca, irresponsável de ver mais um psicopata no poder da República. Já chocamos ovos de serpente em passado não muito remoto de nossa história. Chega disso. Todos atentos, então.              

10 de agosto de 2023

É isso o que nós queremos?


- Qual é a senha?

Ele não sabia de senha alguma. Morava na pensão onde foi preso. Na entrada do lugar estava afixado o prato do dia. Lá haviam sido escritos feijão, arroz, bife, salada, macarrão, coisas como essas. Os policiais que o prenderam pensaram que aquilo era uma senha terrorista e levaram o pobre fotógrafo Gildo Loyola Rodrigues para um quartel. Ele foi cruelmente torturado. Um militar, ao notar que um de seus dados estava machucado, falou: "Vamos machucar mais!" E literalmente esmagou aquele dedo com a coronha do fuzil. As torturas foram tão fortes que Gildo precisou fazer tratamento psiquiátrico  por longo tempo depois de solto. E sequelas ficaram.

Um dia entrevistei meu velho amigo para uma revista de cultura, "A angaba", que infelizmente teve vida curta. Ele se emocionou muito, mas percorreu em palavras todo o seu calvário mais uma vez. Doce figura humana, militava numa célula comunista sem jamais ter cometido violência alguma. Era uma questão de convicção política. Ao final foi inocentado pela Justiça porque nada, rigorosamente nada, poderia ser provado contra ele. Mas, repito, sequelas ficaram.

É isso o que nós queremos? É esse o Brasil que vamos deixar para nossos filhos e netos? Se for, mostrem-me onde fica a porta da saída.

Os últimos tempos têm sido terríveis. Chovem denúncias, todas comprovadas, contra os marginais que governaram o Brasil nos últimos tempos. Deixaram atrás de si um rastro de extremistas de direita, de sonhos de destruição da democracia, de ruptura para com os valores democráticos, de extinção de conquistas sociais que sempre foram caras aos brasileiros. Têm raiva sobretudo e principalmente do fato de que eles, os fascistas, foram artífices da ditadura militar, e nós, os vários segmentos da esquerda democrática, aqueles que trouxeram o Brasil novamente para a normalidade constitucional. Eles estupraram a Constituição. Nós fizemos outra, cidadã, em 1988. Não nos perdoam por isso.

Agora mesmo a bancada capixaba no Congresso Nacional, salvo poucas exceções, é um desfile de figuras bizarras. Algumas dessas pessoas nem sequer são do Estado, mas mesmo assim terminaram sendo eleitas pelo fascismo brasileiro que atende pelo nome de "conservadorismo". Há um preço a ser pago por isso e os que elegeram esses marginais de hoje vão ter a conta pela frente. Até um ex-membro do esquadrão da morte capixaba por pouco não foi feito governador. É o horror tornado realidade.

Há, e sempre haverá opções políticas limpas, justas, honestas, para que nós as elejamos e elas nos representem politicamente em todos os planos da vida legislativa. Basta que os brasileiros se voltem para elas. Não podemos viver num país onde hoje o maior projeto legislativo em pauta agora é o de serem anistiados todos aqueles que cometeram crimes com o dinheiro público, usando-o de forma desonesta nas eleições. E ainda há o projeto de o fundo eleitoral passar dos cinco bilhões de reais. Sabemos que grande parte dessa fortuna vai ser embolsada por desonestos. 

Mas o pior são os planos de destruição da democracia, de anistiar ou absolver todos os que invadiram os três poderes da República em 08 de janeiro na calda de cometa de um projeto de golpe de Estado que o então presidente Jair Falso Messias Bolsonaro tentou orquestrar. Ele sente saudades da ditadura militar e de suas prisões ilegais, torturas e assassinatos. Adotou como seu o "Deus, pátria, família" lema de Benito Mussolini, acrescentando a isso um "liberdade" que amante da ditadura só tem da boca para fora. Afinal, em muitas ocasiões esse indivíduo exaltou o AI-5 e as figuras de torturadores.

Ele ainda quer saber qual é a senha! É isso o que nós queremos?           

8 de agosto de 2023

Outros esquadrões da morte?


"O que você 'ver' aqui

O que você ouvir aqui

Quando sair daqui

Deixe ficar aqui"

Estava na porta do delegado Oswaldo Simões Sales, o Quito, o cartaz com esses dizeres. Eu tinha ido à Superintendência de Polícia Civil na rua Graciano Neves, em Vitória, para cumprir uma pauta da Folha de São Paulo, jornal do qual era correspondente no Espírito Santo. Corria o boato de que um esquadrão da morte ligado à Scuderie Detetive Le Cocq agia no Estado matando pessoas ligadas a crimes e a criminosos. Perguntei ao delegado Quito se aquilo era verdade e ouvi:

- Claro que não. Isso é coisa dos bandidos e dos comunistas.

Naquela época, década de 1970, vivíamos em plena ditadura militar e as garantias individuais tinham sido jogadas no lixo pelos governantes. Era fácil matar e esconder cadáveres. Isso estava sendo feito pelos policiais que acreditavam nas soluções fora e acima das leis vigentes e hoje parece que ao menos os governadores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais são saudosos desses tempos embora estejamos em um estado democrático e de Direito. É possível que o governo do extremista de direita Jair Bolsonaro tenha tirado o monstro da garrafa, agora que já não se pode mais prender ilegalmente, torturar e matar as pessoas, pelo menos por motivos de natureza política.

Menos de dez dias depois da minha entrevista com Quito o cemitério clandestino da Barra do Jucu foi descoberto. Os diversos esquadrões da morte passaram a ser notícia e isso de certa forma conteve a matança ao mesmo tempo em que os assassinos das polícias foram processados e presos. Passaram-se muitos anos até que agora a extrema direita se sentiu confortável para voltar a matar. A justificativa é sempre a de uma troca de tiros, de um confronto armado entre mocinhos e bandidos, claro que sempre com a vitória dos mocinhos e a morte de muita gente que não é bandida.

É hora de uma reação. Quem comete crimes ligados sobretudo ao tráfico de drogas tem que ser preso, processado e condenado. Mas aqueles que usam de uniformes e distintivos para matar por vingança, não importando se do outro lado há inocentes, têm que ter o mesmo destino. Não podemos conviver com a volta dos esquadrões da morte. Já chegam as milícias. Nas últimas chacinas como a do Guarujá (foto), litoral de São Paulo, várias câmaras de uniformes de PMs "falharam" nas filmagens.

Uma sociedade que não sabe a diferença entre o mocinho e o bandido está condenada à barbárie.           

1 de agosto de 2023

Amanhã vai ser outro dia...


Impossível evitar uma associação: vitimado por um câncer ao qual não conseguiu resistir apesar da cirurgia efetuada, morreu em Vitória Idivarci Alves Martins, um velho militante do PCB. Era da época de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e tantos outros brasileiros que resistiram à ditadura militar lutando pela sigla do MDB ou outra como a do PT, mas jamais se entregando. Ao contrário de Idivarci e milhares de seus companheiros de ideologia, nem todos eram comunistas. Tinham em comum o fato de serem patriotas nos tempos em que esse termo ainda não havia sido prostituído pela política brasileira.

Os homens que viveram politicamente nas décadas de 1960, 70 e 80 tinham bandeira. E usavam suas crenças para exercer atividades políticas diárias, seja em partidos ou não. Durante os muitos anos da ditadura, o PCB de Idivarci e tantos outros eram siglas fora da lei. Das leis do governo que estuprou a Constituição brasileira.  E como não podiam erguer as siglas de seus partidos essas pessoas, militavam no MDB. Quem rompeu com isso foi o PT, movimento operário que surgiu para combater a ditadura dentro da legalidade. Era uma colcha de retalhos politico, o que sustenta até hoje. Mas naquela época quem não era?

Não quero - sinto que não posso -  dizer o que houve com a política brasileira para ela desembocar no que é hoje. Nessa escumalha, nessa excrecência que nasce nas câmaras municipais, passa pelos legislativos estaduais e termina em Brasília, na Câmara Federal e  no Senado. A falta de vergonha, hoje, é a regra de comportamento. É ela que permeia a vida do politico brasileiro, que na maioria das vezes não tem ideologia, não sabe a de seu partido e exerce a atividade diária nele porque não pode ser de outra forma. Sua visão começa pelo início de seu mandato e pela necessidade de conseguir a reeleição. Custe o que custar.

Muitos brasileiros acreditam que esse fenômeno vai se aprofundar ainda mais, mergulhando o Brasil na falta de horizontes políticos dignos e na venda de mandatos em troca de uma renovação ao final de quatro ou oito anos. Não creio. Prefiro acreditar que gente como Idivarci e tantos outros não lutaram em vão. Para nós que ainda temos um horizonte nesse Brasil de tantas lutas e que não aceita mais a tortura e a porrada da ditadura como é mostrado nessa foto, amanhã vai ser outro dia.

Há de ser!

20 de julho de 2023

Gargantas profundas

O filme "Garganta profunda", um pornô norte-americano de grande sucesso, foi lançado em 1972. Todo mundo queria ver aquele clássico do boquete, embora esse termo ainda não fosse usado em lugar nenhum. Eu era um deles. E vi. Mas pouco tempo depois o filme de apenas 25 mil dólares de orçamento foi suplantado por outros do mesmo gênero e com produções mais ambiciosas, o que é normal nesse tipo de "entretenimento". Mas o nome ficou. E hoje, coberto de motivos, volto a usá-lo como indicativo do Centrão, o grupo de parlamentares da foto, de "direita" e que tem e comum a goela imensa, capaz de abocanhar o que vier ela frente, principalmente se der bons resultados eleitorais.

É isso o que acontece agora. Pressionado pela necessidade de fazer passar no Congresso uma pauta sua e que justifica o governo iniciado faz pouco mais de seis meses, o presidente Lula tem que ceder espaço na Esplanada dos ministérios a esse grupo que é formado desde ruralistas, passando por evangélicos, direitistas de carteirinha e canalhas das mais diversas matizes. Há um risco nisso: o de quanto mais o presidente ceder, mais o Centrão querer. E ele não se faz de rogado; se os cargos não saírem as votações dos projetos caros ao governo serão derrotadas. Sem choro nem vela.

Não pensem em patriotismo ou nada parecido. O Centrão quer é voto nas próximas eleições.

Muita gente fala sobre esse assunto tentando justificar o injustificável: seria a governança de coalizão ou coisa parecida. Não é. Trata-se de chantagem da mais rasteira possível, capitaneada pelo presidente da Câmara,
Arthur Lyra, e os da goela imensa, sempre ávidos. A fome deles não passa de forma alguma porque o jogo é claro. Todos querem renovar os mandatos e, para chegar a isso, têm que mostrar "resultados" a seus eleitorados. Por isso querem tanto a Saúde, o Bolsa Família e outros setores caros ao governo federal. Para o Centrão querem dizer apenas votos. Nada além disso.

Houve uma época em que os políticos investiam nos discursos falando em governança, projetos, ideologia e coisas mais. Hoje, não: se o governo quer apoio tem que dar espaço. O que significa ministérios com "porteira fechada" e o direito de os ministros e seus sequazes ou  auxiliares, como vocês preferirem,  dirigirem as pastas da forma como bem entenderem, danem-se os planos do governo. Afinal, eles não o representam e muitos sequer vão apoiar as pautas governamentais porque o ministro é colega de partido. Esse negócio - partido - é só um detalhe e eles têm um porque sem a sigla não é possível obter uma série de vantagens do mandato. Só isso. Partido é coisa descartável.

16 de julho de 2023

Os pontos em comum


O que pode haver em comum entre a luta de alguns estados brasileiros pela manutenção de escolas cívico militares (na foto uma de Nova Venécia, ES) e as agressões sofridas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Morais sexta-feira à noite no aeroporto de Roma? Ambos os fatos e mais uma série de outros são a imagem pronta e acabada do que ocorre no Brasil: a extrema direita não aceita de forma alguma o fato de que o presidente que antecedeu o atual tenha perdido a reeleição ao final do ano passado e recorre à violência e ao desrespeito a normas constitucionais para impor sua vontade.

Afinal, eles não têm apego ao Estado Democrático e de Direito. São extremistas. Golpistas.

Pedagogos sérios dizem todos os dias e com argumentos irrefutáveis que esse tipo de escola chamado de "cívico militar" é pobre em termos de eficácia de ensino. Embora mantenham a mesma grade curricular das demais escolas da rede pública, seu comando visa a colocar os alunos sob o tacão de princípios militares deturpados. O MP se manifestou contrário a algumas obrigações como, por exemplo, a exigência de que os alunos cortem seus cabelos longos. E educadores não aceitam o fato de que militares cheguem a receber mais do que R$ 9 mil mensais para dar ordem unida enquanto eles ganhem menos da metade disso para passar conhecimentos aos alunos. Conhecimentos reais.

Mas governadores como o de São Paulo enfrentam a decisão do governo federal e dizem que vão até mesmo aumentar a rede dessas escolas, que hoje é pífia em relação ao todo brasileiro. Cerca de 0,25 por cento. Outros como o do  Espírito Santo simplesmente se eximem de emitir opinião. E o assunto fatalmente vai terminar na Justiça ano que vem quando as verbas dessa modalidade escolar cessarem.

Foi essa mesma Justiça a atacada no aeroporto de Roma por uma trinca de marginais que aguardavam um voo para o Brasil e se depararam com o ministro Alexandre de Moraes. Ele foi chamado de "bandido, comunista e comprado" pela sirigaita acompanhada por dois homens, um deles seu marido. Todos, claro, bolsonaristas de carteirinha. Todos, claro, inconformados com a derrota do "mito" ao final do ano passado. E todos, claro, têm que ir para a cadeia porque até o filho do ministro foi agredido fisicamente por Roberto Mantovani Filho. Ele, Alex Zanatta e Andréia Mantovani, que iniciou os as agressões morais, não respeitam as autoridades constituídas de nosso país. Nossas leis.

Eis os pontos em comum entre os dois fatos. São o fruto do desprezo que as alas de extrema direita do espectro social brasileiros sentem por nossas normas legais. São alguns dos muitos braços desse polvo formador da incivilidade geral da nação e que tenta se perpetuar no 8 e janeiro, insistindo em manter o Brasil na ilegalidade. Ainda não saíram da frente dos quartéis e desconhecem o fato de que os quartéis já saíram da frente deles. Deles e de suas falsas escolas cívico militares cuja principal finalidade é a de subverter a educação de base do Brasil criando monstrengos infanto-juvenis.

Todos estão fazenda falta na Papuda!

13 de julho de 2023

Inoportuno e verdadeiro


Sim, fomos nós os que lutaram contra a ditadura militar de 21 anos e que devolveram o Brasil ao estado democrático e de direito que estava distante fazia tanto tempo. E quem muito bem saudou a Constituição Cidadã de 1988 foi o saudoso deputado federal Ulisses Guimarães quando disse em seu discurso de apresentação da carta magna que "traidor da Constituição é traidor da Pátria". E mais adiante que os brasileiros presos ilegalmente, torturados e assassinados são os verdadeiros patriotas.

Também tenho nojo dessa gente da ditadura. Nojo e ódio.

Talvez tenha sido inoportuna a fala do ministro do Supremo Tribunal Federal José Roberto Barroso (esse da foto) quarta-feira numa reunião da UNE, quando afirmou que os brasileiros derrotaram o bolsonarismo. Derrotaram mesmo e a diferença foi pequena porque o chefe de governo usou de todos os artifícios, principalmente os desonestos, para evitar a derrota na eleição passada. Queimou uma dinheirama imensa para comprar votos, ameaçou, fechou estradas para os eleitores não chegarem às suas seções eleitorais e muito mais. Até ministros das relações exteriores foram convocados ao Palácio do Planalto para ouvir suas queixas. As urnas que o elegeram durante 28 anos foram atacadas porque ele queria votos de papel para alterar o resultado.

Tive amigos presos ilegalmente e torturados pelos órgãos de repressão. Nenhum deles foi assassinado, mas inúmeros outros foram. Para não me alongar cito apenas o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho. A ditadura militar brasileira foi uma sala de torturas. Ela não massacrou apenas aqueles que foram opositores do regime de exceção. mas também inocentes.

1988 só chegou para encerrar toda essa escuridão porque gente como os patriotas da UNE, eu e milhões de outros lutaram contra ela. Os bobões que vaiaram o ministro devem ter se esquecido disso. Mas seria bom que se lembrassem. Que pusessem a mão na consciência. É preciso escolher quem vaiar  e analisar que um ministro do Supremo Tribunal Federal é obrigado a sentenciar olhando a Constituição.

 Sim, o ministro foi inoportuno. Mas talvez nunca tenha sido tão verdadeiro. 

5 de julho de 2023

Lula em sua bolha


Lula, liberte-se de sua bolha!

São seis meses de governo do presidente Lula. Nesse curto período já foram comprovadas melhoras consideráveis em crescimento e inflação em queda, novas regras de despesas, reforma tributária em andamento, diminuição do risco país, redução do déficit das contas externas, aumento da arrecadação sem crescimento de impostos (até o momento), redução de vários preços administrados pelo governo como os dos combustíveis, aumento real do salário mínimo, igualmente da isenção do imposto de renda, combate à fome, luta pela erradicação da miséria, Programa Desenrola Brasil, incentivo à indústria, maior Plano Safra da história, Plano Safra de Agricultura Familiar (sensacional!), merenda escolar com aumento de repasses, início da recomposição do orçamento das universidades públicas, pesquisa e inovação, ensino em tempo integral e verba para infraestrutura escolar, Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, combate à violência nas escolas, revogação de decreto sobre armas, vacinação em massa, transferência para estados e municípios fazerem exames e cirurgias em mutirões com apoio a hospitais, Farmácia Popular, Mais Médicos, Brasil Sorridente, combate ao desmatamento e apoio ao meio ambiente, atendimento às populações originárias, volta do Minha Casa, Minha Vida, Lei Paulo Gustavo, política de amparo às mulheres, Lei Geral do Esporte, combate ao racismo, retorno do Brasil ao cenário mundial da política externa, reajuste do funcionalismo público e Democracia Participativa. Tudo isso com pouco dinheiro porque a maior parte foi criminosamente jogada no lixo pela tentativa do ex-presidente de se reeleger.

Lula poderia, hoje, navegar em águas tranquilas, começando a botar no bolso a oposição parlamentar, sobretudo a criminosa do Centrão, pois o sucesso do seu governo fará com que ela se dilua em água e escorra para o esgoto juntamente com Arthur Lira e suas negociatas. Mas o presidente insiste em ser o defensor público número 1 de Nicolás Maduro, de não ver o que acontece na Nicarágua, de confundir democracias plenas com suas nuances de exceção e em falar sem pensar sempre que pode ou é provocado. Como os provocadores já perceberam isso, vão provocar cada vez mais.

E por que ele faz isso? Lula ainda está preso em sua bolha, a aquela das correntes radicais do PT e que garantiram a ele apoio incondicional durante os anos duros de perseguição política e prisão. É digno ser grato, mas hoje esse ex-metalúrgico é presidente de todas as correntes, sobretudo as de centro, majoritárias no Brasil. Ele tem que dizer aos petistas de raiz que o ajudem ficando a seu lado sempre que possível. Esse governo tem tudo para dar certo e sepultar o bolsonarismo. Não pode abdicar a isso. Destruir as raízes da extrema direita é o que importa e por isso dei meu apoio ao atual presidente nas últimas eleições. Eu e milhões de outros brasileiros. Apenas e tão somente por esse motivo. 

Lula, saia de sua bolha.             

1 de julho de 2023

"Five Came Back"


Ouvi dia desses de um alemão radicado no Brasil que ele não era e a maioria de seus compatriotas também não são violentos ou nazistas. Com um sorriso de ironia, completou: "Nem os alemães orientais, hoje libertos do comunismo, pregam a violência". Imediatamente revi na mente o seriado "Five Came Back" (ilustração acima), que a Netflix apresenta atualmente e que conta a história da ida de cinco diretores de cinema de Hollywood para a Europa entre 1942 e 1945 para documentar cinematograficamente a Segunda Guerra Mundial. Foi uma experiência traumática para todos e os modificou radicalmente no retorno a seu país e às atividades que continuaram a desempenhar pelo resto de suas vidas. Recomendo os três episódios da série.

O que fez dos alemães um povo violento, seguidor em grande parte do nazismo de Hitler? E o italiano de adepto fanático do fascismo de Mussolini? Atrevo-me a dizer aqui que isso em muito se assemelha com o trauma passado por nós nos últimos anos no crescimento desenfreado do "bolsonarismo", um fenômeno político que se parece tanto com um quanto com outro. Podemos dizer sem medo de errar que a derrota de seu motivador, o ex-presidente brasileiro hoje inelegível, tirou o Brasil de um atoleiro institucional grave.

Os alemães não são violentos ou nazistas por natureza ou essência. Nem os italianos ou os brasileiros. Essa não é uma questão de nacionalidade, mas sim ligada a fenômenos sociais que podem eclodir em determinadas ocasiões nos planos nacional ou internacional e levam as pessoas à adoção de comportamentos coletivamente ditados pelos extremismos políticos. Um país como o Brasil pode e deve conviver civilizadamente com ideologias de esquerda e direita, mas nunca ter seu comportamento controlado por visões políticas extremistas, sobretudo da extrema direita, como acontece hoje em muitos países pelo mundo afora.

Freud afirma que, na origem, amor e ódio não concernem às pulsões. Ele explica seu pensamento: "O ódio, enquanto relação de objeto, é mais antigo que o amor: nos primórdios da origem ele tem sua fonte na recusa do mundo exterior que emite estímulos, recusa que emana do Eu narcísico". Ele surge de frustrantes relações objetais, do desprazer. É preciso fazer com que um grupo de pessoas ou até parte considerável de uma população sinta asco de outra, levada a isso por circunstâncias às quais não consegue reagir. E gerar o ódio não é nada difícil se esse grupamento populacional já sente ojeriza por uma dada situação. Aqui nós conseguimos gerar esse fenômeno pela aversão de parcela de nossa população pelo petismo e o comunismo.

Mas os dramas que situação assim geram são terríveis e "Five Came Back" mostra claramente o fenômeno em seu último episódio. Retornar a uma certa normalidade social é tarefa lenta e de sucesso não garantido, ao menos em curto prazo. Mas urge tentar. Numa outra conversa com um conhecido, ao fazer crítica ao extremismo de direita brasileiro, ouvi dele que a esquerda também comete violências. Expliquei: "Isaac Newton, célebre matemático, diz em sua terceira lei que a toda ação corresponde uma reação igual e contrária". É preciso começar combatendo a ação geradora da incivilidade.               

29 de junho de 2023

O processo civilizatório


Quando chegaram ao Brasil pela primeira vez os portugueses se apressaram em rezar uma missa católica. Era o início do esforço por modificar a cultura de nossos povos originários, impondo a eles hábitos e costumes totalmente estranhos ao seu comportamento. Pior, isso é feito desde então, desde 1500 como está representado na pintura acima. Hoje a maioria dos que continuam esse esforço são missionários protestantes e todos são levados por um norte: é preciso civilizar os "índios". Não, não é preciso. O que precisamos fazer é respeitar a cultura do "diferente".

O grande estudioso brasileiro Darcy Ribeiro escreveu, dentre outras obras, "O processo civilizatório". Já faz muitos anos - em 1968 -, mas o texto continua atual. Ele fala como  nós chegamos ao que se convencionou chamar de civilização. Isso foi bom e ruim e Darcy não viveu para analisar os fatos mais recentes: é justamente essa definição intimamente ligada a nós, os que vivem em conglomerados com comunicação escrita e constituição, para citarmos apena dois itens, o que leva grande quantidade de pessoas a verem os povos originários como seres de segunda categoria e não possuidores de capacidade cognitiva para nos acompanhar. Nada mais falso, nada mais racista.

Tudo se resume a uma questão cultural e à necessidade de respeitarmos a cultura específica dessas comunidades. Somente assim vamos conviver com elas de forma harmoniosa e nos preparando para uma sociedade uniforme, mas "diferente". E a diferença significa justamente o respeito aos valores culturais específicos. É por não aceitarmos as diferenças que somos capazes de reconhecer um indivíduo como inferior a nós, seja por causa da cor da pele seja por causa de fazer parte de populações originárias.

Isso cresceu muito nos últimos anos e agora parece haver um movimento, ainda muito tímido, no sentido de educarmos os que chegam à vida para terem em mente que todos somos a raça humana. E só vamos crescer como nação quando entendermos esse fato. Quando decidirmos que um povo civilizado não elege governantes capazes de dizer que as minorias, ou se adaptam às maiorias ou serão eliminadas.    

  

21 de junho de 2023

A marcha da classe média


Peca quem pensa que o fenômeno do extremismo de direita do Brasil nasceu com o ex-presidente Jair Bolsonaro, um fascista saudoso da ditadura militar de 1964 e que viu a presidência cair em seu colo durante a campanha eleitoral de 2018 e depois do episódio da facada em Juiz de Fora. Não, não é assim. Esse comportamento de parcela expressiva da população brasileira remonta até mesmo ao início do período republicano e se fortaleceu imensamente durante os antecedentes diretos do último Golpe de Estado. O ovo da serpente vem sendo chocado há décadas e poucos se preocupam com ele.

Vi isso. Em São Paulo, principalmente, era imensa a legião de pessoas marcadamente da classe média que foram às ruas nas famosas "Marcha da Família do Deus pela Liberdade". A foto acima mostra como a coisa funcionava. Vi ao menos uma vizinha e uma sócia do clube que minha família frequentava na capital paulista envolvidas nos movimentos de 64. A sócia do Ipê, clube que existe até hoje, tentou levar minha mãe para as ruas. Ela agradeceu e disse não. Tinha filhos para cuidar e o mais velho era eu, ainda em vias de completar 14 anos. Mas cheguei a ver uma das faixas que desfilavam com essas pessoas.

Resumindo; o extremismo brasileiro e que muitos chamam de conservadorismo, é um fenômeno intimamente ligado à nossa classe média. Ela era a massa que desfilava nas marchas de 64, da mesma forma como acontece hoje. Esse segmento da população brasileira é tacanho e reacionário. A falta de cultura política de nossa população faz com que milhões de membros do extrato social médio seja facilmente controlável, sobretudo por medo que às vezes vira ódio. Há duas formas eficientes de se manobrar uma população: pelo amor ou pelo temor/aversão a alguma coisa. Hitler sabia disso e uniu alemães contra judeus. Aqui os brasileiros elegeram o comunismo como inimigo público número um.

O Estado e a igreja, principalmente, tornam a classe média massa de manobra. E arrastam com ela parte da classe pobre, marcadamente ignorante, formando o caldo de cultura de movimentos assim e com o patrocínio dos ricos, sempre unidos em torno da defesa de seus privilégios. O que nós vivemos durante os quatro anos do último governo federal e o que estamos vendo hoje são retratos dessa situação. Levar a classe média a entender que ela é usada como massa de manobra, e na maioria das vezes para defender interesses estranhos a ela é o caminho para começar a mudar esse panorama. Um caminho que já deveria estar sendo trilhado há muito tempo no Brasil.        

  

10 de junho de 2023

Os novos boiardos


A revista "Veja" dessa semana traz matéria de capa sobre a força do agronegócio brasileiro. Uma força que hoje se reflete no Congresso Nacional onde uma "bancada ruralista" impõe sua pauta com os mais diversos tipos de pressão. E é fácil fazer isso num país onde o partido político deixou de existir como instituição formada por pessoas unidas em torno de um projeto de poder ancorado em programas que invariavelmente são baseados em princípios ideológicos. Hoje os partidos brasileiros agridem até o princípio do estado laico com a formação de bloco religioso chamado de "bancada evangélica".

Nossas distorções políticas criaram um movimento boiardo moderno. Os maiores representantes do agro, sobretudo aqueles que se intitulam "ruralistas" querem impor suas pautas ao restante do país graças ao fato de que nos últimos tempos têm alavancado a economia, principalmente nas exportações. Os boiardos originais eram, no passado, membros da aristocracia russa e ocupavam posição de destaque só comparada à dos príncipes do império. Inicialmente tinham todos eles raízes no campo e se ocupavam também de alijar do poder decisório os mujiques, esses a imensa massa camponesa sem representatividade alguma. O poder boiardo ocupou regiões onde hoje ficam outros países do leste europeu e, no caso russo, eles só encontraram o ocaso ao final do século XIX, com revoltas contra sua dominação (ilustração) e, em 1917, na revolução soviética.

Que o agronegócio brasileiro é uma força econômica não há dúvida. Que essa força merece ser protegida para render mais divisas ao Brasil, também. Mas a riqueza que ele produz se destina primordialmente ao comércio internacional e nem sempre se corporifica pela geração de bens e serviços destinados aos brasileiros. Nessa área quem atua para matar a fome da população do país são o pequeno e médio produtores, muitos deles praticantes de agricultura familiar e que abastecem a nossa economia com o alimento de cada dia. Nas feiras livres a gente os encontra. Também nos supermercados que adquirem produtos nas "ceasas" espalhadas por todo o "nosso Brasil", como dizem outros.

Então, uma política equânime de apoio e amparo à produção agrícola só se justifica com critérios de Justiça se estiver também voltada aos pequenos e médios produtores rurais. Aos nossos milhares de mujiques e sem que os boiardos modernos sejam privilegiados em detrimento destes.          

8 de junho de 2023

Não haverá "ruptura"'


Logo que o último ex-presidente ganhou as eleições de 2018 um conhecido meu, militante de extrema direita, daqueles que colocam na parede, devidamente emoldurados, os diplomas recebidos na ESG, me convidou a tomar um vinho num supermercado da Avenida Rio Branco, aqui em Vitória (ES). A conversa acabou chegando à política e ele disse: "Bolsonaro ganhou. Sim, mas quem ganhou mesmo fomos nós. Chegamos para ficar e se for tentada mudança haverá ruptura. Pode acreditar nisso."

Em síntese, o golpe de estado estava previsto desde as eleições de 2018. Quero crer que se Fernando Haddad tivesse vencido seria tentado um meio não legal para impedir sua posse. O Clube Militar, no Rio de Janeiro, estava a postos para divulgar informações falsas, sublevar grupos extremistas e espalhar o ódio por todos os cantos. Mesmo depois do final da ditadura militar, em 1985, as viúvas do totalitarismo de direita estavam acordadas e tentando o contragolpe. Nunca desistiram. A constituição de 1988, tão defendida pelas forças democráticas, teria sido rasgada em praça pública se fosse possível.

Acho que meu conhecido tentava me cooptar. Logo percebeu que não seria possível.

O Brasil jogou fora  mais de um trilhão de reais na tentativa de Bolsonaro se eleger. Nunca antes tantos crimes foram cometidos numa eleição que se pretendia fazer à margem das leis. E quando a apuração dos votos derrotou a camarilha, essa colocou em prática seu projeto de destruição da democracia. Foram várias as tentativas, todas frustradas. E até hoje o extremismo de direita tenta emplacar seus planos. Não consegue e, pelo visto, o projeto de uma "ruptura" constitucional foi parar no balde do lixo.

Mas os derrotados continuam agindo. Como sempre, nas sombras. Como é de sua cultura, utilizando-se de todos os meios para chegar ao sucesso. A revelação dos planos de golpe de estado contidos em celulares de criminosos como o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro mostra que vão insistir. A bomba que  não explodiu no Aeroporto de Brasília atesta que eles não conhecem limites.

Nunca mais tomo vinho com fascista. 

4 de junho de 2023

República do rabo preso


A cada episódio novo se torna maior a quantidade de políticos confrontados com suas falcatruas. Como é imenso o número desse tipo de gente fica fácil dizer que vivemos numa "República do Rabo Preso". Agora é o ainda todo poderoso presidente da Câmara, Arthur Lira, quem deve estar preocupado com a possiblidade de se tornar réu em processo por corrupção passiva, o que encerraria sua carreira política. E o caso vai começar a ser analisado na terça-feira.  

O fato remonta a 2012, quando um assessor dele foi flagrado em São Paulo tentando embarcar para Brasília com R$ 106 mil na mala. Era dinheiro de propina para ser entregue ao deputado. Desde aquele episódio Lira dorme assombrado pela possibilidade de ser tornado réu no Supremo Tribunal Federal, perder o mandato e ainda ficar inelegível por oito anos. É o risco que se corre...

No Brasil, fazer esse tipo de negociata envolvendo dinheiro vivo não é novidade. Parece que o artifício se tornou parte da nossa cultura política. Vejam o caso da "familícia" Bolsonaro que acumula mais de cem imóveis comprados nessa, digamos, modalidade. E para o chefe do clã, Jair, esse tipo de coisa não prova nada contra ele. Quando fala sobre o assunto diz que os imóveis foram adquiridos ao longo de muitos anos e por vários de seus familiares. Então, está tudo explicado. Como no caso das "rachadinhas" de todos os seus filhos e apaniguados detentores de mandato.

Arthur Lira fez isso em 2012, o que mostra como a prática é comum há tempos. Na semana que passou um montão de dinheiro que abarrotava um cofre foi localizado pela Polícia Federal em Alagoas com gente ligada ao presidente da Câmara. Aqui no Brasil, graças ao orçamento secreto e outras artimanhas, existe corrupção envolvendo ambulâncias, tratores, superfaturamento de obras públicas e chegando aos cofres residenciais, onde é guardado dinheiro em espécie.

Talvez por isso alguns sonhos de poder como os de Lira, que adoraria ser um tipo de primeiro ministro, terminem não se concretizando. Afinal não basta a ele ter aprovação da imensa maioria de seus pares. Como disse um dia Carlos Drumond de Andrade, "no meio do caminho tinha um pedra". Quem sabe daquelas grandes e que surge nesse caminho justamente quando se encontra dinheiro vivo em grande quantidade em malas, cuecas, etc.

Para eles dessa forma fica mais difícil de rastrear...


31 de maio de 2023

Lula e a munição dos inimigos


Não tem jeito: é só ficar distraído e o presidente Lula fala de improviso. Então comete erros que muito bem poderiam ter sido evitados. Refiro-me aos atos conjuntos com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que esteve em Brasília para a cúpula da América do Sul (foto). Ao chamar o visitante de democrata e as críticas a ele dirigidas de "narrativas", o mandatário brasileiro não cometeu apenas uma gafe; ele agrediu a verdade dos fatos, coisa que pode ser facilmente comprovada.

Não teve o menor cabimento receber Maduro no Itamarati separadamente e antes dos demais representantes continentais. Isso foi notado, criticado e causou muito mal estar. O presidente uruguaio Luís Alberto Lacalle Pou questionou as declarações de Lula sobre a "democracia" venezuelana. O mesmo fez o chefe de Estado do Chile, Gabriel Boric, por sinal um socialista. Este falou que a situação dos venezuelanos exilados em território chileno mostra que não falta apenas comida naquele país. Falta sobretudo e principalmente respeito aos direitos humanos. No Brasil também há uma legião de fugidos da Venezuela. Todos famintos. Todos carentes de democracia.

Lula ainda cometeu um novo erro no dia seguinte ao tentar justificar suas declarações de véspera chamando de "narrativas" as críticas ao venezuelano e reafirmando declarações dadas. É bom lutar na vida; é bom defender posições e mantê-las contra adversários. Mas jamais se deve agredir os fatos. Não é possível acreditar que divulgando afirmações falsas, visões obtusas de determinadas situações, um presidente conseguirá construir respeito e admiração, por mais que represente uma guinada política, uma esperança de melhora, uma garantia de sobrevivência da democracia após um governo golpista. 

Lula tem uma importância ímpar. Foi eleito três vezes para a presidência, fato inédito na vida do Brasil republicano, ainda elegeu duas vezes uma sucessora e hoje tem a cara da reação ao golpismo, à ditadura militar que nos infelicitou durante 21 anos na última vez que mostrou as garras. Seu antecessor defende uma "liberdade" que é, essa sim, narrativa falsa. O presidente atual não tem sequer o direito de jogar esse momento no lixo da história. Seu governo tem inimigos em cada esquina e enfrenta um Legislativo formado em grande parte de canalhas voltados à destruição dele e do Estado Democrático e de Direito.

Não coloque munição na artilharia dessa gentalha, Lula.              

29 de maio de 2023

O STF é o caminho

É possível dizer hoje, sem o risco de errar, que a oposição ao governo eleito no ano passado e empossado no primeiro dia desse ano está jogando na aposta do caos. Há uma diferença não muito sutil entre se opor e fazer sabotagem. Quem se opõe respeita os limites legais; quem faz sabotagem, não.

Vamos usar aqui agora somente um argumento, dos inúmeros que há. Os ministérios das ministras Marina Silva e Sônia Guajajara estão sofrendo uma tentativa de esvaziamento total por parte dos grupos oposicionistas de direita e extrema direita. Eles são comandados à distância pelo ex-presidente derrotado nas últimas eleições e por setores que o apoiam e a esses parlamentares, sobretudo e principalmente gente do campo e ligada ao que se convenciona chamar hoje de "Agro". Há grupos extremistas perigosos entre a gente graúda desse setor que inclusive apoia e financia qualquer tentativa de golpe de Estado passada, presente e futura.

Vejamos o que diz a Constituição em trechos de seu artigo 84: "Compete privativamente ao Presidente de República: VI - dispor mediante decreto, sobre: a) organização e funcionamento da administração federal, quando não implicar aumento de despesa nem criação ou extinção de órgãos públicos..." e vai por aí. Portanto, tem o Presidente da República o direito de montar seu ministério da forma como o achar ideal, sem ser desautorizado pelo Congresso.

Ora, e por que o presidente aceita aparentemente de forma passiva essa intromissão, da mesma forma como não se insurge contra outras receitas de sabotagem? Porque ele teme que, levada às últimas consequências, a oposição visceral possa criar mais uma série de outros obstáculos visando destruir o Estado Democrático e de Direito. O risco existe. Por exemplo, se a reforma ministerial não for aprovada e o Brasil parar por ter que voltar ao modelo que havia no último mandato. E esse é apenas um dos riscos maiores na ação desses "patriotas". 

Por isso o presidente negocia. Por isso ele entrega todos os seus anéis para tentar salvar os nove dedos que lhe restam. Como tem fama de negociador, talvez consiga atravessar a tempestade e seguir em frente com o modelo de Estado que escolheu eleito pelo povo brasileiro. Caso contrário as questões vão desaguar novamente do Supremo Tribunal Federal que intervirá e determinará a prevalência da Constituição. Afinal, ele existe para essa tarefa.                  

25 de maio de 2023

O Brasil fisiologista

Houve uma época em que os partidos políticos brasileiros tinham ideologia. Cada um representava uma corrente de pensamento e a defendia. Com o golpe de Estado de 1964 esse modelo enfraqueceu e aos poucos foi desaparecendo. Isso atingiu até mesmo agremiações que levavam a ideologia no nome como o PCB e o PCdoB, sendo do que o primeiro já mudou a sigla duas vezes e hoje é um irreconhecível Cidadania onde cabem todos. O mesmo ocorreu com o PSDB e outros partidos, como o "Socialista". Até mesmo aqueles que tinham vínculos diretos com a ditadura tentaram ficar mais palatáveis como é o caso do Partido Progressista. E por detrás disso há um fator: dinheiro.

Dentre a montanha mudanças pelas quais a política brasileira passou nos últimos tempos está uma excrecência chamada "orçamento secreto". Ele foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal, mas continua a valer fantasiado de outros nomes. Não à toa o todo poderoso presidente da Câmara Federal, Arthur Lyra, disse em mais de uma oportunidade que ele veio para ficar. Talvez não no nome, mas no simbolismo. E a cada dia que passa cresce ainda mais a voracidade com que deputados e senadores avançam sobre o dinheiro dos nossos impostos. Pode-se dizer que em grande parte dos casos para jogar esses recursos no ralo em busca de votos. O objetivo de agora são as eleições municipais de 2024.

Foi-se o tempo da UDN e PSB, passou a época em  que as siglas comunistas eram colocadas na ilegalidade e nos dias de hoje até mesmo nas câmaras de vereadores o avanço sobre o dinheiro dos impostos do cidadão é feito da maneira mais descarada possível. O apoio às prefeituras custa liberação de verbas para obras paroquiais, contratação de apaniguados para cargos públicos onde eles possam ter visibilidade com vistas às próximas eleições e isso quando a corrupção não é mais explícita como a que envolve aquisição de ambulâncias, tratores e outros equipamentos que não raro jamais chegam aos locais de destino para servir ao interesse público. Aliás, o interesse publico faleceu.

Até onde vai isso? Hoje seria impossível antever o final dessa bacanal. Mas ela precisa ter um fim e terá certamente porque não há fosso sem fundo e a população desse país reagirá exigindo nas urnas o respeito aos direitos do cidadão. Só vamos torcer para que isso aconteça sem derramamento de sangue.        

20 de maio de 2023

Bolsa rito de passagem


O programa Bolsa Família, do governo federal, só tem sentido se for um rito de passagem para a vida dos milhões de miseráveis do Brasil que tiveram sua situação financeira agravada nos últimos quatro anos de desgoverno. E para que isso ocorra a atual gestão precisa fazer acontecer rapidamente um plano nacional de emprego e renda aliado a outro de capacitação profissional visando à reinserção desse imenso contingente de pessoas no mercado de trabalho brasileiro, seja público, seja privado.

Os ritos de passagem, termo com forte apelo sociológico, são fases, etapas da vida de todas as pessoas como as celebrações diversas que nos acompanham: nascimento, estudo, primeira comunhão, casamento, trabalho, morte. Talvez o principal seja o que marca a passagem para a vida adulta. Podemos acrescentar a essa lista, no campo da formação profissional e do trabalho, o retorno à vida produtiva depois de uma etapa à míngua. Só o trabalho dignifica o homem e um país não pode conviver com a realidade eterna de uma população que trabalha para sustentar outra sem atividade produtiva.

Há um desvirtuamento na discussão do bolsa família dos dias atuais. O valor mínimo capaz de sustentar as pessoas com um tiquinho de dignidade foi alcançado já como recurso extremo para a economia. Pensar agora em décimo terceiro salário, férias e outras coisas é um despropósito. Esses dispositivos, como também fundo de garantia e auxílios diversos são ligados às relações de trabalho e não a auxílio emergencial. Confundir as coisas será muito ruim. E elaborar projetos de apoio a emprego, renda e capacitação profissional vai custar bem menos caro. Certamente com retorno muito maior.

Sonhar com um Brasil de desemprego zero, que não tenha baixa renda nem miséria seria utópico. Mas não o é pensarmos num país voltado ao reingresso das pessoas no mercado produtivo. Duvido que um plano nacional com esse foco não venha a contar com o apoio da iniciativa privada, ao menos daquela mais lúcida e voltada a olhar o país como um projeto de desenvolvimento sustentável. O Brasil não pode ser para sempre o "país do futuro"; este tem que chegar no presente.  

Vamos imaginar o Bolsa Família como um rito de passagem. Ele só tem sentido assim.             

17 de maio de 2023

Deltan em busca de conforto


Jurei a mim mesmo que não me surpreenderia com mais nada nesse nosso País. Mas hoje, faz muito pouco tempo, cheguei a ficar rubro de inconformismo ao ver o discurso do cassado deputado federal Deltan Dallagnol (foto) que protestava contra a cassação de seu mandato pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Cercado de asseclas (ou companheiros de partido...) ele disparou contra o Judiciário, contra o governo, disse que combatia a corrupção, citou até Martin Luther King e disse que mesmo fora da Câmara dos Deputados vai continuar lutando pela nossa liberdade. E de todos os brasileiros.

É muito confortável a posição de vítima, mesmo quando esta não passa de um engodo.

Dallagnol sabe que a vontade expressa nas urnas pelo povo do Paraná não foi violentada. Sabe que ele, sim, tentou passar por cima das leis quando se candidatou e se elegeu como deputado federal. Era investigado e não poderia ocupar cargo público algum. Foi eleito, sim. Mas quando houve uma denúncia formal e o TSE teve que julgar a questão e ele FOI CASSADO POR UNANIMIDADE. Não há, portanto, como se falar em quebra da normalidade democrática e em ataque às liberdades consagradas em nossa Constituição. Ela continua soberana.

Aliás, vamos parar para pensar. Esse agora ex-deputado fazia parte de um grupo político capitaneado por um ex-capitão literalmente expulso do Exército e que se jactava falando em adorar a ditadura militar brasileira. Em diversas ocasiões elogiou publicamente ditadores de extrema direita. Falou a favor da tortura e de torturadores. Queria exterminar os indígenas brasileiros. Colocou idiotas como o general Pazuello na direção de ministérios. Milhares de brasileiros morreram graças à omissão  criminosa do governo federal que antecedeu o atual. Hoje o ex-presidente responde a diversos processos e pode vir a ser preso por ter cometido vários crimes que são sinônimo de corrução.

Que desgraça de liberdade é essa que esse senhor defende? Que arauto do combate à corrupção é esse sujeito que fez parte de golpe judicial perpetrado para tirar de uma eleição presidencial o candidato que a venceria? O que ele fazia no Congresso enquanto uma tentativa de golpe de Estado era parida a fórceps às escuras, nos esgotos do grupo político que ele diz representar?

Não, ele não vai usar por muito tempo o conforto de tentar ser vítima.