3 de outubro de 2007

Saudades de Matheus


Quantas vezes fez-se piada do velho Vicente Matheus. Em algumas ocasiões ele havia falado mesmo as impropriedades - e falou muitas - mas na maioria, não. Dirigia o Corinthians como se aquilo fosse a coisa mais importante da vida. E para ele era.

Hoje, dez anos depois de sua morte, acompanhando à distância a promiscuidade em que se transformou o clube de maior torcida de São Paulo, só é possível sentir saudades de Matheus. Nesta foto acima, por exemplo, ele se realiza: segura um troféu de campeão de seu clube.

De onde saiu aquele Roberto Dualib? Como pode um presidente de clube, que se diz apaixonado por ele, falar em lavagem de dinheiro, em roubo de títulos esportivos, nas coisas mais promíscuas dos subterrâneos do futebol? De onde saiu essa gente, de que porão brasiliense, e como foi possível chegar ao futebol e tomar alguns dos maiores clubes do Brasil. Sim, porque o Corinthians não é a única vítima. E uma investigação séria mostrará isso.

Precisamos descer a esse porão. Limpar tudo, varrer aqueles que se aproveitam do futebol - das federações e da CBF também - para enriquecer ilicitamente.

Lembro-me de uma história hilariante. Candidato à presidência do Corinthians, o velho Matheus fez um improviso na sede corintiana, nos dias de vésperas de eleição: "Espero que os corinthianos compareçam para naufragar nas urnas o meu nome."

Dez anos após sua morte quem naufraga é o Corinthians.

25 de setembro de 2007

Nova (péssima) História Crítica


Esse livro cuja capa está aí ao lado, Nova História Crítica, do historiador (sic!) Mário Schimidt, tem sofrido intenso torpedeamento nas últimas semanas. Sobretudo e principalmente porque, segundo praticamente todos os comentários, ele tem um "viés ideológico de esquerda". Há um erro crasso nessas considerações: quem critica uma obra, seja ela qual for, por seu viés político, utiliza para tanto um outro viés, este antagônico. Trata-se de um vício de origem que tira a credibilidade da crítica.

Certo seria dizer o óbvio: o livro do sr. Schimidt não deveria estar sendo utilizado nas salas de aulas, não porque é de esquerda, mas sim porque é bisonho. Contém erros de língua portuguesa, imprecisões histórias e comentários que chegam quase às raias do absurdo, além de outros desatinos mais. Trata-se de alguma coisa que jamais deveria cair nas mãos - e nos olhos - dos estudantes. Por sua baixa qualidade e não por seu "viés". Afinal, livros de história, todos eles, têm alguma dimensão ideológica.

O Brasil possui, tanto à direita quanto à esquerda de seu espectro intelectual, inúmeros pensadores capazes de produzir obras de qualidade. O MEC deveria tomar cuidado com o que envia aos nossos estudantes.

13 de setembro de 2007

A arma que serve para torturar


O taser (veja a imagem acima, do modelo a que me refiro e que é usado pela segurança do Senado) é uma arma considerada "não letal" e que imobiliza uma pessoa mediante grande choque elétrico. Mas mata, sim. E está sendo usada por membros do serviço de segurança do Parlamento Federal Brasileiro de forma perigosa e ilegal, como ficou claro no último dia 12 de setembro, quando o senador Renan Calheiros teve seu mandato salvo por seus pares. O dia do suicídio do Senado Federal.

Muitas pessoas já morreram por causa desse modelo do taser. Sobretudo gente de saúde frágil, portadores de problemas cardíacos, de marca-passo ou detidos que se encontravam ébrios, mas mesmo assim foram imobilizados com o uso do artefato. Comenta-se que o número de mortos pelo uso desse taser no mundo todo já ultrapasse as 300 pessoas. O representante do fabricante, inclusive, tem um site no Brasil. Recentemente, houve uma reação do Parlamento Francês à adoção do recurso. Leia esse texto relativo ao fato, parte da argumentação dos parlamentares:

Uma pistola de electrochoques paralisantes deixa menos vestígios do que um cassetete, provoca sofrimentos agudos e será susceptível de ser utilizado para intimidar, humilhar ou fazer falar suspeitos, detidos, prisioneiros ou simples cidadãos. Nestas condições, esta pistola parece uma arma de tortura no sentido da Convenção das Nações Unidas contra a tortura, de 1984. A França, tendo ratificado este instrumento em 1986, está na obrigação de prevenir todo acto de tortura que poderia ser cometido sobre o seu solo. Ao dotar forças policiais, em constante contacto com a população, de pistolas de electrochoques paralisantes, nossas autoridades tornam-se culpáveis de falta de vigilância e expõem a população francesa a sofrimentos extremos e injustificados.

É preciso refletir. O Senado da República não pode permitir que seus homens de segurança tenham consigo algo tão perigoso. Uma arma de tortura.

Quem sangra, afinal?


Quem sangra?

O presidente do Senado, Renan Calheiros, absolvido por seus pares depois de quase quatro meses de mais um escândalo de grandes proporções registrado em âmbito federal? O Senado, instituição perto de se tornar bicentenária e que deveria zelar pela ética político-partidária brasileira? O Governo Lula, sempre envolto nesses fatos escabrosos e cujo membro maior, o Presidente da República, insiste em dizer que nunca sabe de nada (alguém acredita nisso, em sã consciência)? Ou sangramos nós, o pobre povo brasileiro, que no dia 12 de setembro assistiu a mais um triste capítulo da decaída vida nacional?

De que valem os sucessos econômicos se o custo que pagamos é esse?

Até mesmo um taser, arma chamada "não letal" foi deixada cair ao chão por um segurança do Senado num entrevero com deputados federais. Essa arma "não letal" é de uso exclusivo de forças policiais e pode matar, sim, por exemplo, um portador de marca-passo cardíaco. Mas estava nas mãos de um segurança particular do Senado.

Todos nós sangramos, gente. Menos esse sorridente indivíduo aí de cima, na foto de Uéslei Marcelino/Folha Imagem, que se preparava para ir para casa comemorar a impunidade. A impunidade é a nossa mais bem cultivada marca nacional. Guardemos essa data: 12 de setembro de 2007. O dia em que o Senado cometeu suicídio.

4 de setembro de 2007

Prioridades de Estado


No Brasil todo, e não apenas no Espírito Santo, Saúde e Educação não são prioridades de Estado. Basta acompanhar a vida do país, os discursos dos que decidem, as ações governamentais e tem-se a exata noção disso. O que não é novidade alguma.

Foi por isso que a moça de 27 anos, Janaína Corona Guimarães, morreu em Vila Velha, na região da Grande Vitória, ao não ser atendida a tempo por unidades capixabas de saúde, no quinto mês de gravidez, neste último final de semana. Ela foi vítima de uma visão de ação governamental que, ao longo dos anos, no Brasil, vem priorizando inúmeras áreas como mais importantes que Saúde e Educação. Como consequência e segundo levantamento publicado no Espírito Santo, morreram sete pessoas em dois meses, vítimas todas elas de desencontros e carências da rede estadual de Saúde.

É por isso, e apenas por isso, que a gente precisa olhar para a face sofrida dessa mãe que aparece acima (imagem de Carlos Alberto da Silva, de A Gazeta), mostrando a foto da filha morta. Ela não consegue entender porque acontece isso num país tão rico e onde se paga tantos e tão injustos impostos.

Problema de cultura política, minha senhora. Somente isso. Meus pêsames, em meu nome e de mais uma infinidade de pessoas, tenho certeza.

22 de agosto de 2007

Atenção: fraudes na Internet.


Circula pela Internet e-mail falso da Receita Federal, solicitando ao incauto que abra links para corrigir supostos erros em sua Declaração de Imposto de Renda Pessoa Física. É coisa parecida com o exemplo aí ao lado, retirado de site que alerta sobre essas práticas criminosas. Delete isso. Nunca abra esses e-mails.

Recebi um deles hoje pela manhã e enviei e-mail para a Ouvidoria da Receita Federal denunciando o fato. Dela recebi essa resposta:

A Receita Federal está alertando as pessoas para que não abram, nem respondam mensagens que chegam em suas caixas eletrônicas em nome do órgão. A Receita informa que não envia e-mails sem autorização do contribuinte. Mensagens falsas, enviadas em nome da Receita Federal, continuam a circular na Internet. Quadrilhas especializadas em crimes pela internet estão tentando obter ilegalmente informações fiscais, bancárias e cadastrais dos contribuintes. As mensagens iludem o cidadão-contribuinte com a apresentação de telas que misturam instruções verdadeiras e FALSAS, que usam o nome e timbre da Receita Federal, informando, por exemplo, que "o CPF deste está cancelado ou pendente de regularização", solicitando o "recadastramento do IRPF", "afirmando que a declaração de Imposto de Renda possui erros e deve ser enviada uma declaração retificadora" etc. Em seguida estimulam o contribuinte a responder questionamentos ou instalam programas nos computadores utilizados, que assim, acabam por repassar, a estes fraudadores, dados pessoais e fiscais. Lembre-se que a regularização cadastral do CPF pode ser feita de duas maneiras: para aqueles que são isentos, de dezembro a julho nas agências do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal ou dos Correios; ou ainda, no período de entrega da Declaração Anual de Isento-DAI de setembro até novembro. Para aqueles obrigados a entregar a Declaração de Ajuste Anual do Imposto de Renda (DIRPF), a regularização cadastral do CPF ocorre com a entrega da declaração do último exercício. Veja como proceder perante estas mensagens: 1. não abrir arquivos anexados, pois normalmente são programas executáveis que podem causar danos ao computador ou capturar informações confidenciais do usuário; 2. não acionar os links para endereços da Internet, mesmo que lá esteja escrito o nome da SRF, ou mensagens como "clique aqui", pois não se referem à Receita Federal; e 3. excluir imediatamente a mensagem. Para esclarecimento de dúvidas ou informações adicionais, os contribuintes podem procurar as unidades da Receita ou acessar a página na internet (www.receita.fazenda.gov.br). Também sugerimos o encaminhamento desse tipo de mensagens, consideradas fraudulentas, para os endereços mail-abuse@cert.br, do CERT (Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil), ligado ao CGI.br, e crime.internet@dpf.gov.br, da Polícia Federal.

14 de agosto de 2007

A prostituição das idéias


A prostituição das boas idéias é um dos crimes mais duros que se pode cometer, sobretudo contra os mais pobres. Principalmente quando através do exercício do Poder Público.

No início do governo do sr. José Ignácio Ferreira, no Espírito Santo (1999/2002), alguém teve uma idéia simples mas genial: recolher todas as frutas, legumes e demais gêneros alimentícios que seriam jogadas fora no Centro de Abastecimento (Ceasa) da Grande Vitória, montar uma fábrica de sopas e, desta forma, alimentar uma imensa quantidade de pessoas pobres, sobretudo crianças em escolas, creches, etc.

Nos Ceasa, alimentos são jogados fora todos os dias apenas porque estão amassados, arranhados, parcialmente descascados ou contêm outros defeitos. Mas todos estão perfeitamente em estado de uso, são saudáveis. Podem alimentar, e muito bem, as pessoas necessitadas. E é imensa a quantidade desse descarte diário de comida.

A fábrica foi montada e as sopas produzidas, como pode ser constatado pela foto acima. Mas, pouco tempo depois, no rastro do mar de acusações de corrupção que cercou aquele governo, a tal fábrica das sopinhas terminou fechada. Hoje, em meados de agosto de 2007, passados mais de oito anos, a mulher do então governador, sra. Maria Helena Ruy Ferreira, comparece à Justiça para se defender de supostos crimes de desvio ou lavagem de dinheiro cometidos a partir da iniciativa que visava evitar o desperdício de alimentos.

Quantos anos mais esses processos vão correr, não se sabe. Se houve falcatruas, poucas ou muitas, também é coisa a ser discutida na Justiça. Só não se discute um fato: a idéia era muito boa, oportuna em quase todo o Brasil, mas os alimentos continuam a ser jogados no lixo no Ceasa-ES. Em tantos outros por aí afora. E os pobres, daqui, dali e de acolá, passam fome regularmente porque idéia prostituída, no Brasil, é idéia maldita. Nunca mais ninguém a aproveita.

9 de agosto de 2007

O Aeroporto Internacional de Gibraltar


Para quem pensa que o aeroporto de Congonhas é perigoso por estar dentro da zona urbana, basta uma rápida visão do Aeroporto Internacional de Gibraltar (pequena península rochosa que faz fronteira com a Espanha, perto de Marrocos). Uma avenida cruza a pista de pousos e decolagens e, quando o semáforo fica vermelho, os automóveis param e um avião passa a grande velocidade diante deles. Parece que para tudo tem jeitinho nesse mundo...
Mas, pensando bem, com tanto barbeiro, bêbado e doido dirigindo por aqui, um aeroporto como aquele europeu, em qualquer cidade, seria muito mais perigoso do que Congonhas. Ou então do que o aeroporto de Vitória (ES), que tem 1.750 metros de pista. Exatos 190 a menos que o de São Paulo, e onde todos os Airbus A-320 decolam e pousam todos os dias sem nunca sair da pista, embora ela também seja carente de uma área de escape decente.

8 de agosto de 2007

Baianinho se foi...

Algumas pessoas passam pela vida silenciosamente. Cerimoniosamente. E isso, embora façam muito pelos outros. Na última quarta-feira, Carlos Orlando Silva Viana, o Baianinho, foi embora. E combinou que só os amigos mais chegados iriam ao velório. Fiquei sem saber do ocorrido até ontem, quando recebi um e-mail de um amigo comum.
Quem não é de Vitória e tem menos de 40 anos certamente não o conheceu. Fundou um clube que era só amor à camisa, o Fluminensinho. Depois disso, dedicou boa parte de sua vida a comandar uma escolinha de futebol-de-salão, que hoje se teima em chamar de futsal, no Clube de Natação e Regatas Álvares Cabral, outra paixão sua.
Honesto à medula, abandonou o clube e sua história de vida para não conviver com gente que não respeitava. Recolheu-se ao Centro de Vitória, à sua vidinha de solteiro, às suas visitas diárias à Praça Costa Pereira até que uma doença chegou, o prostrou e matou.
Baianinho era uma figura incomum. Dificilmente haverá outro parecido. O amor às coisas tem hoje uma dimensão muito diferente da dele. Infelizmente.

26 de julho de 2007

As torres abandonadas


Para quem pensa que a crise da aviação brasileira começou ontem, aí vão alguns argumentos contrários.

O caos nosso de cada dia ficou agudo, para lá de assustador, com a quase falência da Varig. A empresa aérea gaúcha, quando voava em céu de brigadeiro e com número recorde de aviões, como mostra a imagem acima, possuia várias torres de controle próprias e espalhadas por diversos estados brasileiros. Esse equipamento da Varig auxiliava os controladores de vôo no controle não só dos aviões da empresa, mas também das muitas aeronaves de outras companhias.

Mas desde a crise da Varig, todas essas torres foram desativadas e estão aparentemente abandonadas. O governo federal sabe disso, mas não faz nada. Além do mais, quando questionado a respeito, diz que não sabe de coisa alguma.

É uma lástima, uma tragédia. A aviação comercial brasileira, ontem referência em diversas partes do mundo, hoje mete medo a todos.

25 de julho de 2007

Leitura apropriada


Seria montagem? Parece pouco provável.

Nessa foto aí acima, tirada provavelmente no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece com os óculos nas mãos, e elas acima do livro cujo título que aparece na lombada é "Manual do Mentiroso - técnicas".

Seja lá o que for, convenhamos, é uma leitura apropriada. Ou oportuna, dependendo do ponto-de-vista de quem vê.

Pelo menos nos tristes dias em curso, de apagões aeroportuários, catástrofes aéreas evitáveis e muita coisa que deixou de ser dita - ou dita honestamente - neste final de julho de 2007.

24 de julho de 2007

Vôo 3054: um depoimento sobre


Caros leitores; recebi esse relato como sendo do comandante Paulo Marcelo Souza Soares, aeronauta da TAM e piloto de Airbus A-320. Ele é brevetado (habilitado como piloto) em 1991 e desde 1998 está na empresa aérea vítima do acidente do último dia 17. Estou mantendo a grafia de quem escreveu o depoimento, bem como suas abreviações. Tudo conforme foi recebido.
Posto-o porque ele tem referências técnicas que, segundo pilotos que conheço, são perfeitamente lógicas. Pode ser cansativo, é o maior texto que coloco em meu blog, mas mesmo assim a leitura será didática:

Olá, Amigos: Em primeiro lugar gostaria de agradecer a todas as manifestações de preocupação comigo, tanto no momento daquela noite trágica, quanto nos dias seguintes. Agradeço de coração a todos. Informo também que estou bem, porém, bastante abalado, triste, indignado com o sacrifício inútil de 200 vidas.No momento do acidente eu estava em Buenos Aires. Havia voado o PR-MBK na noite do dia 15 para o dia 16. Sim, o reversor do motor numero 2 estava inoperante, mas como eu já disse dezenas de vezes aqui na lista, quem para avião é FREIO, é o atrito do pneu na pista, e não reversor. Falarei mais sobre isso daqui a pouco. Na noite do dia 16, eu pousei em CGH. Não havia chuva, mas a pista estava bastante molhada. Estava com 90 pax no meu avião. Toquei na marca de 500, o avião aquaplanou e eu tomei susto. Um dos maiores sustos em meus 17 anos de aviação profissional.
Eu gostaria muito, na verdade eu daria tudo para ter no meu jump seat os (ir)responsáveis por esta crise que se arrasta há meses. Queria que eles vissem o anti-skid trabalhando, a aeronave escorregando para a lateral da pista. Queria que eles vissem as luzes da cabeceira oposta chegando rapidamente, e nós lá, sem poder fazer nada. Queria que eles sentissem a tremedeira que eu e meu copiloto sentimos quando livramos a pista lá na taxiway "E" (a última). E, acima de tudo, QUERIA QUE ELES TIVESSEM A CARA DE PAU DE DIZER QUE A PISTA DE CONGONHAS NÃO TEM PROBLEMAS!!! !!! Não varei a pista naquela noite por sorte. Não foi por habilidade, foi pura e simples SORTE. Sorte que meus colegas no MBK não tiveram. Eu não sou pai de santo, mas esta tragédia já era prevista há MUITO tempo, e eu escrevi aqui na lista por mais de uma vez. Agora que mais 200 pessoas morreram, será que vai acontecer alguma mudança? Claro que não!Mas vamos aos fatos e aos comentários sobre a montanha de especulações que naturalmente apareceram nos últimos dias. Agora até arremetida é motivo de 1ª página nos sites. Aliás, belíssima arremetida daquele F-100...Não vou especular sobre as causas do acidente. Estas especulações todas não levam a nada, só aumentam a desinformação e prejudicam a todos que trabalham na aviação. Tudo o que eu pude saber do acidente foi através da internet e de noticiários da TV. Ou seja, a credibilidade destas informações é próxima de zero. Só saberemos as prováveis (na verdade o conjunto de) causas após a análise do CVR/FDR.

O que eu posso dizer aqui é:
1- Distância de parada: Vamos considerar as condições abaixo: Elevação da Pista = 2600 ftPeso de pouso = 66 toneladas (4 toneladas superior ao do avião acidentado e 1.5 ton acima do Max Landing Weight) Pista contaminada com 6.3 mm de água (muito mais do que declarado pela twr)Zero componente de vento de proa (havia uma pequena componente de proa, mas vamos desconsiderar) Ambos os reversos INOPERANTESA distância de pouso de um A-320 nestas condições seria de 1841 metros , sendo que a pista 35L de CGH tem 1940 metros , embora a LDA para a pista 35 seja de 1880m. Notem que esta distância de pouso assume o cruzamento da cabeceira a 50 ft, toque na marca de 1000 ft e parada total da aeronave. Como "bônus" o toque ocorreu um poucoantes da marca de 1000 ft segundo as filmagens e 1 reversor foi utilizado. Além disso a aeronave estava com 62.7 toneladas. Neste peso a aeronave precisaria de 1729 metros até sua parada total, sem usar reversores. A operação com 1 reversor inoperante em pistas molhadas/contaminad as é normal e prevista, mesmo porque nas análises de pouso o reverso nunca é considerado. Não existe uma grande assimetria direcional, desde é claro, que vc tenha uma boa aderência da aeronave na pista. E de fato, pela filmagem pode-se ver que a aeronave manteve o eixo até o terço final da pista, que é uma área bastante emborrachada e ainda mais escorregadia que a parte central. A velocidade de aquaplanagem é função da pressão dos pneus, e para o A-320 é considerado que abaixo de 115 Kt não deveria haver aquaplanagem. Mas em uma pista coberta por uma lâmina de água e sem drenagem eficiente, a aquaplanagem pode acontecer a velocidades baixíssimas. Já tivemos casos de aeronaves que não tiveram o que chamamos de "cornering effect" ou seja, a capacidade do trem de nariz de mudar a direção da aeronave, a velocidades tão baixas quanto 20 kt. Tanto que o manual recomenda não tentar qualquer curva abaixo de 10 Kt em pistas escorregadias. Pelo que vimos aqui, a aeronave tinha performance para parar com segurança na pista naquele dia. Mas todos nós vimos os trágicos resultados. Tá mais do que óbvio que a pista de CGH apresenta problemas. Foram 4 derrapagens e um acidente fatal, sem contar os inúmeros sustos que por sorte não viraram tragédia. O problema é que a torre não informa nem o tipo de contaminação, nem o braking action, que poderia dar uma informação mais precisa. Pior, a pista apresenta contaminação irregular, ou seja, alguns pontos tem frenagem melhor do que outros.
2- Vídeos do acidente: A comparação que fizeram das velocidades da aeronave que precedeu o pouso do PT-MBK e dele próprio é no mínimo ridícula! Quando pousamos nestas condições, procuramos parar a aeronave o mais rápido possível. Não se sabe o peso que estava o A-320 que o precedeu, e se ele aquaplanou ou não (certamente não). Se vc não aquaplanar, dá para se parar o A-320 em pouco mais da metade da pista, ou seja, vc vai estar em velocidade de táxi um pouco depois da interseção central (onde mostra a outra câmera). E vai taxiar até a interseção "F" a no máaaaximo 20 kt para não correr o risco de derrapar ao tentar livrar a pista. Note que o piloto da aeronave precedente já estava com os reversos fechados, ou seja, já estava em vel de táxi. O MBK passou bem mais rápido? Claro, mas simplesmente porque não tinha frenagem. Pelo que eu vi dos vídeos o reverso do motor 1 estava funcionando sim.
3- Automatismo da aeronave: Outra afirmação ridícula de gente que nunca nem entrou em um jato comercial, quanto mais em um Airbus ! Já disse e repito. A única coisa que não dá para se fazer em um Airbus é estolar a aeronave e/ou coloca-la em atitude anormal. O resto é igual a um avião convencional. No solo então, ele é um avião como qualquer outro... Os entendidos de plantão já se animaram a procurar no sistema de controles FBW a causa para o acidente. Estranho. Todas as outras aeronaves que derraparam em CGH NÃO eram FBW... O 737-300 que varou a pista em POA não era FBW, o MD-11 que varou a pista em NAT NÃO era FBW. O Boeing 737-700 que varou a pista em Navegantes NÃO era FBW... Estes 3 exemplos só não resultaram em tragédias porque a pista não era CGH... Então este papo de que se fosse outra aeronave não teria acontecido, não cola.
Amigos, esta tragédia pode vir a ter várias causas e fatores contribuintes, só saberemos a verdade daqui a alguns meses. Eu espero que o (des)governo finalmente acorde e tenha um pingo de seriedade para com o setor aéreo. Espero que estas mortes, bem como as do vôo 1907 não tenham sido em vão. O momento agora é de profundo luto. Queria ter mandado uma msg antes, mas estou no meio de uma programação bem puxada. Devo tentar postar algo mais detalhado nos próximos dias. Um grande abraço a todos!

20 de julho de 2007

A avião da tragédia paulista




O avião da TAM, o que se acidentou ao lado do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, no dia 17 de julho, no maior e mais traumatizante acidente da história da aviação brasileira, é exatamente esse que está aí acima, em duas fotos supostamente tiradas no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, ao que parece poucos dias antes de ele decolar de lá mesmo para o acidente.


Foi fabricado em fevereiro de 1998 e, na companhia aérea brasileira, recebeu o prefixo PR-MBK. Chegou à TAM em 22 de dezembro do ano passado. Quando foi fabricado pela francesa Airbus, voou incialmente pela TACA (empresa com sede na Nicarágua) com o prefixo N454TA e em seguida pela Pacific Airlines (rotas domésticas) com o prefixo VN-A168. Quando veio para o Brasil, teria passado por revisão completa, exigências que tanto são feitas pelo fabricante quanto pelas autoridades de aviação.

18 de julho de 2007

As raízes do caos aéreo


Não é justo procurar as raízes dos recentes acidentes aéreos ocorridos no Brasil, como os da Gol e da TAM, em problemas recentes. Eles remontam há mais de 20 anos, quando a Varig ainda voava em céu de brigadeiro, ao lado da Vasp, da Cruzeiro do Sul e da Transbrasil e chegou-se à conclusão de que Congonhas não comportava mais todo o tráfego de São Paulo. Era preciso fazer um novo aeroporto para centralizar sobretudo os vôos internacionais.

Todo mundo que entendia de aviação queria esse aeroporto em Campinas, mais precisamente em Viracopos (foto), já então considerado a estrutura aeroportuária mais segura do Brasil e uma das mais seguras do mundo. Mas era época de ditadura militar e os militares decidiram que o governo faria a obra em Guarulhos, em Cumbica, que quer dizer novem baixa em linguagem indígena, porque lá havia uma base aérea.

Era um dos coroamentos da filosofia da Segurança Nacional, que considerava assim a aviação comercial: caso de Segurança Nacional. Por isso no Brasil há instalações militares em vários aeroportos, sobretudo nos principais deles. Até mesmo uma linha de trem bala ligaria Campinas a São Paulo em 20 minutos. Mas nada disso aconteceu. O novo aeroporto ficou mesmo em nuvem baixa, pois ninguém discutia ordens naquela época.

Em seguida vieram as incompetências governamentais, o não investimento em segurança de vôo, o desleixo para com o cidadão e a sequência de erros que culminaram nos acidentes, sobretudo no de 17 de agosto, com mais de 200 mortos. Tomara não haja outro, porque acontecer, pode. O caldo de cultura está pronto há muito tempo.

O avião da TAM não caiu por acaso. Começou a cair na Ditadura Militar.

12 de julho de 2007

Gorduras "trans"


Depois que alguns cientistas equivocados ligados à Fundação Getúlio Vargas disseram que café é vício e faz mal - o que eles achariam do sexo, por exemplo, já que a maioria das pessoas adultas tem esse "vício"? -, muita gente ficou em dúvida. Será que esse estimulante natural é mesmo tão ruim quanto o Congresso Nacional?
Não é por aí. Ocupe-se de algum tempo, leitor, e entre no site http://www.transfreeamerica.org/ e você vai ficar horrorizado. Vai conhecer o mundo das gorduras "trans", presentes numa série imensa de alimentos industrializados e que mata muito mais do que escrever bobagem. Gorduras presentes, por exemplo, no "inocente" saquinho de batatas fritas da imagem acima.
Vai saber o que é gordura hidrogenada, feita em laboratório para ficar sólida. Ela é industrializada a hidrogênio e, depois de dura, tem que ser clareada e aromatizada, pois ficou escura feito breu e fedeu feito...deixa prá lá. E vai ver porque ela mata, provocando tantas doenças. Plastificando seus vasos sanguíneos, dentre outras agressões mais.
Leia. Mas leia tomando um café. Café não tem essa porcaria.

6 de julho de 2007

A panela de pressão


Um homem, que por acaso sou eu, a cada 90 dias precisa levar o pai para revalidar uma receita que dá a ele o direito a um medicamento controlado e de alto custo, importanto, capaz de manter sob controle um câncer de próstata. O lugar, situado em Maruípe, bairro de Vitória (ES), é, como todo ambiente credenciado pelo SUS, um depósito de gente. E de gente velha. Chega-se lá por volta das 05 horas. Os velhos ficam sentados às cadeiras e outras pessoas entram na fila para dizer que seu fulano, seu sicrano e seu beltrano chegaram e querem ser atendidos.
Por volta das 07 horas, com o lugar superlotado, começa o atendimento. Coisa de três a quatro minutos por, digamos, cabeça. Ou por próstata, como queiram. As receitas são revalidadas para mais três meses, que significam três injeções do dito remédio, aplicado sob a pele da barriga.
Por que fazer isso, se o doente não vai se curar e precisará do medicamento enquanto viver? Explicação didaticamente dada por funcionário do SUS: algumas pessoas pobres pegavam as injeções e as vendiam a terceiros. Vendiam, no caso, a própria vida, já que dependiam do medicamento para viver. Descoberto isso, e para que o dinheiro público não fosse desviados para fins escusos, criou-se esse sistema. E mais: para a completa segurança do dito sistema, o doente não pega mais o remédio para pedir aplicação na farmácia ou em casa. Ele vai todos os meses a um hospital credenciado pelo SUS e toma a injeção lá.
Está salva lavoura. E provado que, aqui no Brasil, dinheiro público só é roubado por membro do Poder Público. Dos três poderes, pois os direitos são iguais pelo menos no que diz respeito à falta de vergonha, de caráter e de comprometimento para com a população.
À saída, na porta do depósito de cancerosos, um homem me aborda. Paupérrimo. Poucos dentes na boca. Abre uma bolsinha e diz que vende peças de artesanato por R$ 1,00. Mostra-me várias panelas de pressão feitas a partir de latas de cerveja ou refrigerante. Por incrível que pareça, perfeitas. Compro uma de feita de lata de Coca-Cola e estou olhando para ela agora.
São 10h30m de sexta-feira, 06 de julho de 2007, e havia um homem honesto na porta daquele lugar. O coitado nem sabe que lá dentro são atendidos outros homens como ele, que precisam ficar na fila para que o dinheiro público, meu, seu, de todos nós, possa ser roubado apenas por "quem de direito". Afinal, convenhamos, não há recursos escusos para todos. Alguém precisa ficar sem uma fatia do bolo, ou para morrer ou para fazer panelas de pressão.

29 de junho de 2007

Os favores e os rigores da lei

"Aos amigos, os favores da lei. Aos inimigos, os rigores da lei".
Esse pensamento é atribuído ao ex-senador e ex-governador do Espírito Santo, Carlos Fernando Monteiro Lindenberg. Ele falava isso sempre. Mas algumas pessoas dizem que tomou o "pensamento" emprestado de um tio seu, Jerônimo Monteiro, político e ex-presidente do Estado. Como os dois já morreram há muito tempo, fica a dúvida.
Mas é bom ler novamente o pensamento, pois traçaremos paralelos:
"Aos amigos, os favores da lei. Aos inimigos, os rigores da lei".
Um belo dia, garotões de classe média alta de Brasília tocaram fogo no índio Galdino e o mataram num banco de praça onde este dormia. Pensavam que se tratasse de um mendigo. Outro dia, garotões de classe média alta do Rio de Janeiro, espancaram cruelmente a doméstica Sirley numa parada de ônibus onde ela aguardava condução. Pensavam que era uma prostituta.
Nós estamos no Brasil, senhores. Os garotões de Brasília e os do Rio de Janeiro são os amigos. Os da nossa classe, os que vivem perto de nós. Estudam, frequentam bailes e boates.
O índio Galdino e a doméstica Sirley são indivíduos menores e que podem ser ofendidos sem problemas. Vivem longe de nós. Apenas nos servem. Eventualmente.
Já os mendigos e as prostitutas, bem, esses não contam. Não existem. Tanto que algumas pessoas se ferem ou morrem porque nossos garotos pensam que são eles.
Todos os garotões de Brasília desfrutaram dos favores da lei e hoje estão soltos. Os do Rio de Janeiro não devem se desesperar. Carlos Lindenberg sabia o que falava.
Os rigores da lei estão reservados aos filhos de Galdino e de Sirley. Eles que se cuidem!

14 de junho de 2007

O espírito da coisa

As pessoas se perguntam porque, em meados de 2007, depois de perderem a Copa do Mundo da Alemanha ano passado, alguns jogadores da Seleção Brasileira estão pedindo dispensa, recusando-se a vestir a "amarelinha", como dizia Zagallo, e se dedicando apenas aos seus clubes. Seria isso um caso de perda de patriotismo?
Vamos com calma. O espírito da coisa é o seguinte: os jogadores famosos de hoje apenas vestem as camisas dos grandes clubes. São, na verdade, contratados de grandes empresas multinacionais de diversas áreas, todas elas investidoras dos grandes clubes e que sustentam o futebol gastando horrores mas exigindo retorno. A elas interessa o jogador o tempo todo com uma camisa que ostente sua logomarca e não com a da CBF, que não a tem. Daí os problemas. E eles vão continuar por muito tempo mais.
Por que a Fifa apóia os clubes e não a CBF nessa queda de braço? Porque os patrocinadores dela são os mesmos dos clubes, claro. E por que a CBF não denuncia isso? Pelo mesmo motivo.
Já o jogador pede dispensa porque a carreira dele é curta e o dinheiro, o hoje. E Seleção Brasileira, atualmente, só é atrativo para quem está se iniciando e precisa chamar a atenção.
Duro isso, não? Mas é o espírito da coisa.

1 de junho de 2007

Simples, meu amigo!

Um homem perguntava perplexo, diante do quadro de uma escola pública destroçada em plena cidade grande, porque se gasta tão pouco, se investe tão pouco em educação no Brasil.
Simples, meu amigo!
A ignorância perpetua o poder. É muito difícil convencer um homem culto a votar, dadas as exigências que ele faz. Mas é simples conquistar (ou seria "comprar" ?) o voto do inculto, sobretudo se ele estiver com fome. Basta matar a fome dele, ainda que incidentalmente. Mesmo só durante um certo período da vida dele. O período que interessa...
Olhe para a história do Brasil: a miséria sempre foi a perpetuação do poder neste país. O coronéis, ao contrário do que se imagina, não acabaram. Não foram extintos. Eles apenas se transferiram. Saíram do agreste, da área rural, para as grandes cidades.
A miséria acaba quando o Brasil mudar. E ele não vai mudar pela ação dos atuais detentores do poder. Ele muda quando a próxima geração chegar, ainda assim caso ela tenha meios e vontade cívica de aprender com o que está vendo. Só assim.

29 de maio de 2007

Não haveria vagas

Pouco antes de depor numa CPI que investiga corrupção no governo japonês, em 28 de maio, o Ministro da Agricultura, Toshikatsu Matsuoka, cometeu suicídio. Acusado de desviar dinheiro público, o que é profundamente desonroso na cultura de seu país, ele praticou um ato que não era praticado no Japão desde o término da II Guerra Mundial.
Chego a pensar em sugerir isso no Brasil. Mas não. Não haveria vagas nos cemitérios.