24 de janeiro de 2008

O hábito do cachimbo


Antes de tudo metafórica, a ditadura militar que governou o Brasil por 21 anos precisou cunhar termos e interpretações próprios para poder dar um ar de legitimidade ao que fazia. Esse hábito sobreviveu aos tempos vividos entre 1964 e 1985 e resiste até hoje nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Mas, sobretudo e principalmente no último deles, contrariando o histórico de resistência aos anos de chumbo.
Quem estudou naqueles tempos de “regime de exceção”, sobretudo em faculdades ou universidades, acostumou-se com a figura do professor de Educação Moral e Cívica. Figura intimamente ligada ao status políticos, era ele o encarregado de dar cores sutis ao regime. Falava da diferença entre oposição (legal) e contestação (ilegal). Explicava o sistema bipartidário, onde a Arena apoiava o Governo e o MDB se opunha a ele (mas sem jamais contestá-lo, pelo menos em tese). Discorria sobre “subversão”, o termo mais utilizado então, e também sobre os “óbices” que havia para o triunfo da democracia (sic!).
Aliás, sobre ela bem disse o então ditador em exercício, o general Ernesto Geisel, quando perguntado sobre se o Brasil era uma democracia, durante uma viagem à Inglaterra: “Bem, o Brasil é uma democracia dentro de sua relatividade”. Estava criado, para desespero de Einstein, o conceito da relatividade democrática. Nada cientifico, claro.
Mas o fato é que os diversos conceitos de subversão ou o pseudopoder de deter o avanço de quaisquer formas dela, desafiaram e desafiam os tempos. É isso o que faz com que alguns membros da Justiça, vez ou outra, invistam contra a liberdade de imprensa e assumam funções de censura. Ou de tutoramento da sociedade. Às vezes, proibindo a imprensa de noticiar este ou aquele fato. Dar a público nomes de filhinhos de papai envolvidos em crimes. De vez em quando, colocando-se acima da letra da Constituição. Em algumas ocasiões, assinando o inassinável, como fez um juiz que proibiu os motoqueiros seus súditos de usarem capacetes. Isso, em nome do combate à criminalidade, já que há hoje muitos crimes sendo cometidos sobre duas rodas.
Essas decisões tentam combater o que, no ver de certos magistrados, subverte o Estado, a moral e os bons costumes. Não importando se isso é ou não tarefa sua. Não importando saber se a população concorda ou discorda dessas incursões em terreno que deveria ser de decisões privadas e não públicas. Como, por exemplo, quando se proíbe que um determinado jogo de Internet seja visto por nossa juventude.
Aqui é necessário um adendo. Durante a ditadura, não foram todos os membros do Judiciário que fizeram coro com as decisões tomadas. Em alguns períodos, sentenças contrariaram tanto os militares que eles fizeram uso de medidas inconstitucionais, embora revestidas de força legal, para impor sua vontade. A Justiça não enfrentou a ditadura como instituição, mas deixou sua marca na resistência ao autoritarismo.
Enfim, em tudo no mundo há fronteiras. Mesmo num país onde as leis permitem múltiplas interpretações, funções de Estado são claras e delimitadas constitucionalmente. Por e para todos? Não, por e para quase todos. Porque às vezes membros de um determinado poder se permitem ultrapassar o tênue limite entre o legal e o ilegal, sobretudo e principalmente porque, em última análise, serão eles mesmos que terão de dizer se essa fronteira foi ultrapassada. E eles decidirão segundo suas crenças. Em alguns casos, de acordo com o hábito do cachimbo.

21 de janeiro de 2008

Igrejas S/A


Quem passou os últimos dias lendo os principais jornais brasileiros, decerto imaginará não estar mais vivendo num país laico. Segundo os jornais, mas também rádios s TVs, os senhores vereadores, deputados (estaduais ou federais) e senadores distribuem generosamente as tais "verbas parlamentares" a que têm direito a diversas ordens religiosas, sobretudo e principalmente das chamadas correntes pentecostais ou neopentecostais, que se disseminam pelo país como cerveja em botequim. Ou mais um pouco do que isso...

O meu, o seu, o nosso dinheiro recolhido como imposto das mais diversas e injustas formas para custear obras de infra-estrutura, saneamento básico, investimentos em educação, transporte, segurança e outros meios de geração de trabalho e renda, termina nas contas bancárias (ou seria melhor dizer "nos bolsos") de responsáveis por instituições religiosas que, na maioria das vezes, nem ao menos conhecemos. Muitas dessas "igrejas" criam entidades paralelas para receber o meu, o seu, o nosso dinheiro, travestidas como instituições de apoio. Algumas dão remédios. Outra mantêm escolas. Ou oficinas de trabalho. Ou... Ou... Ou...

A grande maioria conhece o poder da televisão. Basta ligar alguns canais brasileiros, de sinal aberto ou fechado, principalmente nas madrugadas, e a gente entra em contato com "milagres" os mais variados. O principal deles é aquele que faz o dinheiro desaparecer do bolso do crente para reaparecer na conta bancária do apóstolo. E eles, os milagres, têm seu preço, cobrado da forma mais descarada possível, ao vivo, no ar, via satélite para todos os que estiverem sintonizados nos canais acima referidos.

A gente já ouviu falar da Igreja Renascer em Cristo, não é? Ela é "neopicaretocostal". Como muitas das demais. Mas nem por isso perde a capacidade de amealhar dinheiro público e, vez ou outra, embarcar com ele para os Estados Unidos.

É preciso, com urgência, que seja proposta lei capaz de impedir os políticos de pagarem dívidas às igrejas com nosso dinheiro. Sim, porque um deles confessou ao jornal O Globo, de domingo último, ter destinado "x" mil reais à "Igreja Tabernáculo Sei Lá de Que" como pagamento pelo apoio recebido quando de sua campanha política.

Somos um nação laica, senhores. Com imensa maioria de pessoas religiosas, claro, mas ainda assim laica. E o dinheiro dos impostos não pode ser distribuído a esta ou aquela corrente sem que o cidadão que os paga seja consultado e diga que aceita. E como essa consulta não é possível, a distribuição, embora legal, é eticamente condenável e imoral.

Como diria Millor Fernandes, nos tempos da ditadura: "Liberdade, liberdade; quantos 'apóstolos' se cometem em seu nome..."

17 de janeiro de 2008

Aprendemos todos


40 anos depois, a maioria dos que conviveram com os conflitos políticos de 1968, desembocando no AI-5, ainda convivem com uma contradição que a alguns atormenta e a outros leva ao riso: combatíamos a ditadura militar do Brasil, gritávamos para que ela caísse, mas apoiávamos outra.
Naqueles tempos, a esmagadora maioria dos que iam às ruas gritar contra o governo era formada por estudantes militantes políticos ou então não estudantes também com militância política. Em comum eles tinham o fato de serem filiados ao Partido Comunista Brasileiro, o PCB ou Partidão, e ao Partido Comunista do Brasil, o PC do B. Mais adiante, muitos se filiariam também às várias correntes que surgiram, sobretudo em decorrência dessas duas e que pregavam a luta armada contra a ditadura: MR-8, Colina, Var-Palmares, Libelu, etc.
Havia uma clara ligação entre os partidos ou movimentos então clandestinos e países como a União Soviética, China e Cuba, principalmente. Como todas eram, como ainda hoje o são China e Cuba, defensoras de princípios marxistas como a “ditadura do proletariado”, queríamos substituir a nossa por outra.
Interessante notar que muita gente se associou à luta e lutou honestamente contra o regime militar não tendo consciência disso. Ou então achando que, uma vez afastados os militares brasileiros, seria possível também afastar, junto com eles, o cerne dos movimentos que lutaram nas ruas brasileiras.
Foram tempos contraditórios.
Em comum, tínhamos todos uma coisa: detestávamos o regime militar brasileiro. Que prendia ilegalmente, torturava e matava. Que estuprou a nossa brasileira, depondo à força um presidente que, se era dúbio na maioria dos seus atos de poder, havia chegado a ele pela via legal. Detestavam também a ditadura quem nada tinha a ver com os partidos de esquerda. (como as mulheres da foto acima, pinçada ao site do Zirando para ilustrar esse texto: Eva Tudor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Lila Diniz, Odete Lara e Norma Belguel).
Foi esse caminho que desembocou, 21 anos depois do golpe militar de 1964, em 1985 e no fim da ditadura. Ela, que saiu de cena desacreditada, quase enxotada, legou aos brasileiros o ensinamento de que as piores democracias são melhores do que as melhores ditaduras. Ou então que o voto é o único caminho inquestionável, dentre os conhecidos hoje, de conquista do poder.
Aprenderam isso também aqueles que lutaram, pelas sabotagens ou pelas armas, contra os ditadores de plantão. Hoje sabemos que, se não existe espaço para a “ditadura do proletariado”, o capitalismo também não é a solução dos problemas. O que se busca é algo que una o que de melhor têm ambos.
Aprendemos todos.

11 de janeiro de 2008

Como se fosse hoje...






1968 é o ano que não cala.
A raiz de tudo foi o dia 28 de março quando um estudante, Edson Luís de Lima Souto, foi morto por forças de segurança no Restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Os fatos se deram da seguinte forma: Edson era um estudante que participava dos preparativos de uma passeata de protesto contra o aumento de preços das refeições e a demora no término das obras do estabelecimento.
Três choques da Polícia Militar e a guarnição de dois veículos de patrulha chegaram ao Calabouço naquele momento. Auxiliados por uma tropa da Aeronáutica, entraram no restaurante disparando suas armas e dois estudantes caíram feridos: Benedito Frazão Dutra e Edson Luis. O segundo, de 17 anos morreu, com um tiro no peito antes de ser levado a tempo para o hospital. Os amigos tentaram socorrê-lo, mas já era tarde. Revoltados, levaram o corpo para o saguão da Assembléia Legislativa, de onde se recusaram a sair até que alguma providência fosse tomada. O caso teve grande repercussão nacional e internacional. Diversas passeatas e protestos foram organizados, mas sem nenhuma resposta concreta por parte do governo e autoridades para a sociedade, a não ser o afastamento de alguns policiais envolvidos no episódio.
Edson não era subversivo, marginal ou coisa parecida. Era um garoto de 17 anos que, como nós, amava os Beatles e os Rolling Stones. Sua morte provocou um juramente dos estudantes: “Neste luto, a luta começou”. No dia 26 de junho, cem de 100 mil estudantes foram às ruas do Rio de Janeiro, em protesto. Foi a célebre Passeata dos Cem Mil (foto acima, ilustrando o artigo). Em seguida, outras cidades seguiram o exemplo. Daí em diante, 1968, o ano da contestação estudantil, explodiu. E essa explosão tomou todo o Brasil, unindo estudantes secundaristas e universitários numa mesma onda de protestos. Um vagalhão que crescia a cada passo dado.
Em São Paulo, um dos palcos mais importantes foi a Avenida São João. E os desfiles de estudantes eram saudados pela população, que chegava a jogar papel picado do alto dos prédios, à passagem das passeatas. Isso inflamava mais ainda a garotada, que avançava aos gritos de “Abaixo a ditadura” e outras palavras de ordem contrárias ao regime instalado à força, quatro anos antes. E então chegava o Brucutu. Era, nada mais nada menos que um carro blindado usado pelas forças policiais de segurança, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro. Lembrava de longe o Caveirão dos dias atuais, mas com a diferença de que possuía, na parte de cima, um canhão de lançar água ou areia. Era capaz de, pela força do jato, jogar um homem adulto a cinco ou seis metros de distância.
O Brucutu vinha junto com a cavalaria da PM. Esta levava desvantagem quando atacava de baixo para cima, vinda do Anhangabaú, na subida da São João, em direção do Largo do Paissandu. Os estudantes a esperavam com os bolsos cheios de bolas de gude, além de pedras. As “inocentes” bolinhas de gude que eram arremessadas ao asfalto da avenida. Os cavalos patinavam sobre elas, as ferraduras em contato com o vidro e não contra o piso da rua. Montarias e cavaleiros às vezes vinham ao chão.
Um dia, penalizado mas também paralisado, vi o soldado que se levantava possesso, sacando a arma do coldre e olhando para o joelho ensangüentado da pata dianteira direita de seu animal. Virou-se feito um louco em direção a nós, tentando identificar no meio da multidão de estudantes, aquele que havia jogado a bola responsável pela queda de seu cavalo. Estava ensandecido. Era um mulato, alto, forte como um touro.
Não encontrou em quem atirar e fez fogo para cima. Para o ar. No momento em que mais policiais chegavam, cercando a turba de estudantes que, aos gritos de “Abaixo a ditadura”, começava a se dispersar. Faz 40 anos que isso aconteceu. Parece que foi ontem. Ainda consigo sentir nas narinas o cheiro de pólvora. Ainda vejo o asfalto molhado e as bolinhas de gude descendo a avenida enquanto a cavalaria subia e o Brucutu cuspia água fria em todos nós.
Como se fosse hoje...

7 de janeiro de 2008

Lembrando 68 e "Roda Viva"




Estamos em 2008, ano das comemorações dos 40 anos de 1968. Muita coisa foi dita, muita coisa está sendo dita e muita coisa será dita sobre esse ano que mudou tanto o mundo e o Brasil, graças aos fatos nele vividos. Quero me ater somente a um.

Nós ainda não vivíamos o AI-5 - ele seria promulgado em dezembro -, nem muitos brasileiros tinham sido torturados e mortos pelo golpe militar de 1º de abril de 1964 (sempre o chamo de Golpe de 1º de abril porque, na época, era obrigatório dizer Revolução de 31 de março de 1964. Recuaram em um dia a aquartelada para que ela não parecesse de mentirinha. E não foi mesmo). Mas muitos fatos agudos já haviam se passado. Um inconformismo tomava conta das pessoas, havia protestos em todos os cantos e, em meados de julho, 110 homens ligados ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiram o Teatro Galpão, em São Paulo, e agrediram os atores que encenavam a peça Roda Viva, de Chico Buarque de Holanda (a foto que ilustra esse texto, da peça, é de uma apresentação no Rio de Janeiro. Não encontrei outra). A obra era considerada subversiva. Marília Pêra, uma das atrizes, chegou a ser agredida, teve que passar nua por um corredor polonês e se afastou de algumas das apresentações seguintes, traumatizada que havia ficado com as agressões. Não resisti e fui ao teatro logo em seguida.

A encenação contava a história de Benedito Silva que não cantava nada mas virou o cantor Ben Silver, da Jovem Guarda. Tornou-se depois o intérprete de música nordestina Benedito Lampião, foi para os Estados Unidos, voltou como traidor e, a partir daí, Chico Buarque de Holanda traçou um painel inteligente do Brasil de então, com todas as suas mazelas e as críticas mais inteligentes possíveis. Com linguagem dura, palavrões em profusão e mensagens políticas e personagens canhestros como a figura do empresário. Não pretendo fazer um texto acadêmico sobre a peça. Mas havia nela um momento fantástico. Durante uma enceração de protesto, atores entravam correndo em cena, atravessavam o palco e lançavam centenas de panfletos ao público. Peguei um deles e li:

"Abaixo a hipocrisia e a burrice, pequenos burgueses. Levantem a bunda da cadeira e façam uma guerrilha teatral, já que vocês não têm peito para fazer uma real, porra!"

Hoje, 40 anos depois, isso parece longe, irreal, banal até. Mas, naqueles tempos, naqueles dias, era um enfrentamento sério. De todos os que vi e vivi posteriormente nas contestações à ditadura militar, talvez tivesse sido o mais belicoso. O mais perigoso. O mais inteligente também, porque inteligência é correr riscos. Nunca mais me esqueci naquela noite em São Paulo. Afinal, pouco tempo depois baixaram o AI-5. E uma longa outra noite de 17 anos se abateu sobre o Brasil. Quem não a viveu deu sorte. Eu, que então morava em São Paulo, pude testemunhar isso e mais muitos outros prelúdios desse longo período de trevas.
Mas já passou. Findou-se (ou finou-se, tanto faz) há quase 23 anos.

4 de janeiro de 2008

As eleições nos EUA


Para que uma longa e tenebrosa noite não desça sobre os Estados Unidos, o bom mesmo é que um democrata vença as eleições que, na prática, começaram nesse 03 de janeiro por lá. Em Iowa, o pequeno estado dos EUA, deu Barack Obama em primeiro, John Edwards em segundo e Hillary Clinton em terceiro. Isso entre os democratas. Entre os republicados, Mike Huckabee (esse aí da foto, ao lado da digníssima esposa (dele), Ann) ficou em primeiro, Mitt Romney em segundo e Fred Thompson em terceiro.

Huckabee é um líder conservador religioso, ligado à corrente evangélica Batista e, dentre outras coisas, defensor do Criacionismo, uma corrente que contesta a Teoria da Evolução das Espécimes e qualquer outra coisa com sabor ou odor de ciência. Romney é Mórmon. Essa corrente religiosa, uma das mais retrógradas de todas as que já surgiram nos EUA desde sua criação como Estado, tem até Bíblia própria pois, claro, Deus não poderia existir sem ter passado por Salt Lake City. Os demais candidatos republicanos são daqueles que pregam todas as guerras, contra todos os inimigos, até a morte, mesmo que isso signifique a morte da humanidade.

Não temos nada a ver com os Estados Unidos, mas Obama, Edwards e Hillary cheiram melhor.

28 de dezembro de 2007

Festa nos presídios: vem aí o 3G


Deve estar havendo muita festa de final de ano nas penitenciárias do Brasil. Explico melhor: vem aí o celular 3G. E como as autoridades brasileiras admitem que não têm como coibir a entrada e o uso desse tipo de telefone nos presídios, o chamado "crime organizado" poderá organizar seus atos criminosos com maior liberdade e raio de ação.

Por exemplo: dentro em breve os presos vão poder ver TV nos presídios. TV em tela pequena, porque em tela maior já estão vendo. Poderão também ter acesso ilimitado à internet para se inteirar dos últimos fatos de interesse mundial. Como estão indo as açõs da Al Qaeda? É muito ilustrativo saber disso. Pode dar idéias maravilhosas...

Mas o melhor é que eles terão todas as condições possíveis e imagináveis para fazer vídeo-conferências. Já pensaram que progresso? Durante horas e horas planejarão mortes. E quando tudo der certo um deles dirá que "já é, já é". Isso sem falarmos em que as rebeliões vão passar a ser acompanhadas em "tempo real". Sequestros relâmpagos também.

É o Brasil das aberrações sem solução!

13 de dezembro de 2007

Voto por voto, eis como caiu a CPMF



A CPMF, um dos impostos mais injustos jamais criados no Brasil, caiu na madrugada de 13 de dezembro de 2007, depois de votação no Senado Federal, com comemoração (foto). Mas, se dependesse dos três senadores capixabas, teria sido mantido e dado mais dinheiro a um governo perdulário, capaz de sustentar um total de 38 ministérios, alguns deles verdadeiras excrescências, além de inchar o Estado com contratações partidárias.
Veja aí abaixo a relação dos votos da CPMF. O "SIM" quer dizer que o parlamentar votou a favor de que o imposto fosse mantido. É bom lembrar; afinal, próximas eleições estão por vir:
DEM
Adelmir Santana (DEM-DF) - NÃO; Antonio Carlos Júnior (DEM-BA) - NÃO; Demóstenes Torres (DEM-GO) - NÃO; Efraim Morais (DEM-PB) - NÃO; Eliseu Resende (DEM-MG) - NÃO; Heráclito Fortes (DEM-PI) - NÃO; Jayme Campos (DEM-MT) - NÃO; Jonas Pinheiro (DEM- MT) - NÃO; José Agripino (DEM-RN) - NÃO; Kátia Abreu (DEM- TO) - NÃO; Marco Maciel (DEM-PE) - NÃO; Maria do Carmo Alves (DEM-SE) - NÃO; Raimundo Colombo (DEM-SC) - NÃO; Rosalba Ciarlini (DEM-RN) - NÃO.
PC do B
Inácio Arruda (PC do B-CE) - SIM.
PDT
Cristovam Buarque (PDT-DF) - SIM; Jefferson Peres (PDT-AM) - SIM; João Durval (PDT-BA) - SIM; Osmar Dias (PDT-PR) - SIM; Patrícia Saboya (PDT-CE) - SIM.
PMDB
Almeida Lima (PMDB-SE) - SIM; Edison Lobão (PMDB-MA) - SIM; Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) - como presidente do Senado, não votou; Geraldo Mesquita Júnior (PMDB-AC) - NÃO; Gerson Camata (PMDB-ES) - SIM; Gilvam Borges (PMDB-AP) - SIM; Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) - NÃO; José Maranhão (PMDB-PB) - SIM; José Sarney (PMDB-AP) - SIM; Leomar Quintanilha (PMDB-TO) - SIM; Mão Santa (PMDB-PI) - NÃO; Neuto De Conto (PMDB-SC) - SIM; Paulo Duque (PMDB-RJ) - SIM; Pedro Simon (PMDB-RS) - SIM; Romero Jucá (PMDB-RR) - SIM; Renan Calheiros (PMDB-AL) - SIM; Roseana Sarney (PMDB-MA) - SIM; Valdir Raupp (PMDB-RO) - SIM; Valter Pereira (PMDB-MS) - SIM; Wellington Salgado de Oliveira (PMDB-MG) - SIM.
PP
Francisco Dornelles (PP-RJ) - SIM.
PR
César Borges (PR-BA) - NÃO; Expedito Júnior (PR-RO) - NÃO; João Ribeiro (PR-TO) - SIM;
Magno Malta (PR-ES) - SIM.
PRB
Euclydes Mello (PRB-AL) - SIM; Marcelo Crivella (PRB-RJ) - SIM.
PSB
Antônio Carlos Valadares (PSB-SE) - SIM; Renato Casagrande (PSB-ES) - SIM.
PSDB
Alvaro Dias (PSDB-PR) - NÃO; Arthur Virgílio (PSDB-AM) - NÃO; Cícero Lucena (PSDB-PB) - NÃO; Eduardo Azeredo (PSDB-MG) - NÃO; Flexa Ribeiro (PSDB-PA) - NÃO; João Tenório (PSDB-AL) - NÃO; Lúcia Vânia (PSDB-GO) - NÃO; Marconi Perillo (PSDB-GO) - NÃO; Mário Couto (PSDB-PA) - NÃO; Marisa Serrano (PSDB-MS) - NÃO; Papaléo Paes (PSDB-AP) - NÃO; Sérgio Guerra (PSDB-PE) - NÃO; Tasso Jereissati (PSDB-CE) - NÃO.
PSOL
José Nery (PSOL-PA) - NÃO.
PT
Aloizio Mercadante (PT-SP) - SIM; Augusto Botelho (PT-RR) - SIM; Delcídio Amaral (PT-MS) - SIM; Eduardo Suplicy (PT-SP) - SIM; Fátima Cleide (PT-RO) - SIM; Flávio Arns (PT-PR) - SIM; Ideli Salvatti (PT-SC) - SIM; João Pedro (PT-AM) - SIM; Paulo Paim (PT-RS) - SIM;
Serys Slhessarenko (PT-MT) - SIM; Sibá Machado (PT-AC) - SIM; Tião Viana (PT-AC) - SIM.
PTB
Epitácio Cafeteira (PTB-MA) - SIM; Gim Argello (PTB-DF) - SIM; João Vicente Claudino (PTB-PI) - SIM; Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) - não estava presente à sessão; Romeu Tuma (PTB-SP) - NÃO; Sérgio Zambiasi (PTB-RS) - SIM.

7 de dezembro de 2007

Ajudem o Instituto do Câncer


O Instituto do Câncer (foto ao lado), como todos nós sabemos, é uma instituição muito séria. Cabe a nós atender sua solicitação e ampará-lo, pois se depender do Governo (federal, estaduais e/ou municipais) será seu fim! Vamos salvar o site do câncer de mama? Não custa nada.

Digam, cada um de vocês, a 10 amigos - sobretudo amigas - para dizerem a 10 amigos/amigas hoje: o site do câncer de mama está com problemas, pois não tem o número de acessos e cliques necessários para alcançar a cota que lhe permite oferecer UMA mamografia gratuita diariamente a mulheres de baixa renda.

Demora menos de um segundo ir ao site e clicar na tecla cor-de-rosa que diz "Campanha da Mamografia Digital Gratuita". Não custa nada e é por meio do número diário de pessoas que clicam, que os patrocinadores oferecem a mamografia em troca de publicidade. Passem essa mensagem a mais 10, para que passem a mais 10, e assim por diante: http://www.cancerdemama.com.br/

Vocês vão se sentir muito bem depois disso. Eu garanto!

21 de novembro de 2007

Tautologia. Essa nos pega...


Você sabe o que é tautologia? É o mesmo que pleonasmo, termo usado para definir um dos vícios de linguagem. Consiste na repetição de uma idéia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido. O exemplo clássico é o famoso 'subir para cima' ou o 'descer para baixo'. Mas há outros, como você pode ver na lista a seguir:
- elo de ligação - acabamento final - certeza absoluta - quantia exata - nos dias 8, 9 e 10, inclusive - juntamente com - expressamente proibido - em duas metades iguais - sintomas indicativos - há anos atrás - vereador da cidade - outra alternativa - detalhes minuciosos - a razão é porque - anexo junto à carta - de sua livre escolha - superávit positivo - todos foram unânimes - conviver junto - fato real - encarar de frente - multidão de pessoas - amanhecer o dia - criação nova - retornar de novo - empréstimo temporário - surpresa inesperada - escolha opcional - planejar antecipadamente - abertura inaugural - continua a permanecer - a última versão definitiva - possivelmente poderá ocorrer - comparecer em pessoa - gritar bem alto - propriedade característica - demasiadamente excessivo - a seu critério pessoal - exceder em muito.
Note que todas essas repetições são dispensáveis. Por exemplo, 'surpresa inesperada'. Existe alguma surpresa esperada? É óbvio que não. Devemos evitar o uso das repetições desnecessárias. Fique atento às expressões que utiliza no seu dia-a-dia. Verifique se não está caindo nesta armadilha.

Mantenhamos os impostos...


Nos últimos quatro dias, (21/11/2007 hoje) num trabalho brilhante, o jornal O Globo nos colocou diante do fausto e do desperdício. Só que com dinheiro público. Só manter o Gabinete da Presidência da República composto por um presidente e seus 149 assessores diretos nos custa R$ 1 milhão por dia. Talvez por isso, em sua foto oficial, ele sorria esse sorriso de fecilidade incontida que vemos ao lado. E cogite um terceiro mandato...

A Justiça constrói palácios. Os legislativo coloca televisões caras onde praticamente não passa ninguém. Não há controle sobre os telefones. Os carros são fabricados na Austrália e servem para levar à creche filhos e netos das ilustres autoridades brasilienses.

Na história da "Belíndia", talvez esse seja o exemplo mais punjente. Enquanto nossa suposta Bélgica chega a dar inveja à verdadeira, nossa Índia de verdade precisa a cada dia de mais dinheiro. Afinal, para que políticas inócuas como o Fome Zero e outros possam existir, é preciso manter a CPMF e outros impostos estúpidos. Caso contrário, seria preciso abrir mão de muitos confortos pagos com dinheiro de terceiros.

Isso, ora bolas, nem pensar.

14 de novembro de 2007

PQC chega a cafés capixabas


Três blends do Café Meridiano, empresa de Colatina, interior do Espírito Santo e que aposta em alta qualidade de café, já têm selo do Programa de Qualidade do Café (PQC) da Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC) (imagem ao lado). Um diferencial que distingue a qualidade do produto e assegura, além da pureza, agora também as características que tornam os cafés capixabas como escolhas de excelência.
Depois do processo de certificação, constante do cumprimento de uma série de exigências industriais, auditorias técnicas e análise laboratorial dos blends, saiu a classificação da ABIC para três cafés (veja abaixo) da marca, fato inédito no Espírito Santo. Em breve as embalagens já terão selos de qualidade e especificações técnicas, o que permitirá ao consumidor saber o que está levando para casa, bem como ter meios de comparação com outras marcas.

Segundo a Abic, “uma das finalidades do PQC é informar a qualidade do café que está sendo vendido, além de permitir que o consumidor identifique o tipo de grão utilizado por cada marca e com isso escolher o sabor que mais agrada. O PQC é elo de confiança indústria/consumidores e avança sobre questões básicas para a oferta de produtos melhores. Segue a premissa de que qualidade é a forma principal do consumo de café e o programa significa o comprometimento da empresa com a adoção de padrões de qualidade de matéria-prima, manutenção de sabor e boas práticas de fabricação. O grande diferencial é a melhoria contínua e a briga constante pelo melhor produto com um preço mais justo”.
O PQC ajuda a orientar o setor e a eliminar de a crença de grande parte dos consumidores de que café é tudo igual. Por isso, complementa a ABIC: “a intenção do Programa é aumentar a sensação de sabor que se tem ao tomar café. A estratégia é: consumidor satisfeito consome mais. Como a cultura do cafezinho é muito forte entre os brasileiros, isso faz com que as pessoas se tornem mais suscetíveis às variações do sabor. Mas a queda de qualidade se reflete no consumo interno e o prejuízo é de toda a cadeia de produção”.
Blends certificados, com classificação segundo a ABIC
Café Meridiano Tradicional: Selo Tradicional: é o café do dia-a-dia. Qualidade recomendável com custo acessível.
Café Meridiano Classic: Selo Superior: é o café com qualidade boa e maior valor agregado.
Café Meridiano Espresso em Grãos: Selo Gourmet: é o café de alta qualidade, excelente e exclusivo. Mais valor e prazer em cada xícara.

7 de novembro de 2007

Simbiose perfeita


José Marçal de Ataíde Assi, advogado, professor universitário, procurador do Estado, resolveu fazer sua primeira incursão na área da literatura. Lançou no dia 06 deste mês, em Jardim da Penha, Vitória, o romance "Simbiose Urbana". Surpreendentemente, uma história de intriga política, corrupção, crimes e vinganças, tudo isso acontecido numa pequena cidade do interior à qual ele deu o nome de Monte Verde.
Em 132 páginas ele conta as peripécias do Dr. Théo. E avisa: "Esse livro é fruto da imaginação criativa do autor. Qualquer semelhança com nomes, lugares, pessoas e fatos será mera coincidência." Para todos os que conhecem a política brasileira e a vida de modo geral, encontrar coincidências não será lá tão difícil.

19 de outubro de 2007

Um Rolex roubado


Faz mais de 40 anos que isso aconteceu. Meu pai era dono de uma pequena fundição de alumínio em São Paulo, onde produzia peças para o motor do automóvel Simca. Houve um problema qualquer que ele precisava solucionar colocando a mão na massa e, para não sujar o relógio Rolex de que tanto gostava, tirou-o do pulso e o colocou sobre uma bancada. Nunca mais viu a peça.
Os policiais chegaram a sugerir a ele deixar que os deixasse dar "uma apertada" nos empregados da Termo Flux, a empresa de então, mas papai disse não. Quem iria depois garantir a segurança dele nas idas e vindas ao trabalho? E tortura, mesmo naquela época, início dos anos 60, não era coisa com a qual se convivesse dormindo em paz todas as noites.
Até hoje, passados tantos anos, às vezes a lembrança do relógio vem à mente dele. E ele fala com tristeza do que aconteceu num dia de trabalho. Foi roubado por um de seus empregados, dentro da fundição onde ganhava dinheiro para sustentar a família e pagar salários.
Luciano Huck também tem o direito de ficar revoltado. Eu teria, você teria.
Ninguém tem o direito de tomar de mim o que conquistei trabalhando, com dinheiro ganho e não roubado. Ladrão não é Robim Hood e não se faz justiçaz social às avessas, protegendo quem rouba e condenando "as elites", como diz nosso presidente, sem explicar direito o conceito.
Se um dia construirmos uma sociedade digna, vamos nos indignar todos quando formos roubados. Mesmo os excluídos e "excluídos" de hoje.

9 de outubro de 2007

O guerrilheiro visionário


Praticamente tudo o que poderia ser dito como elogio à respeito de Ernesto Che Guevara, que aí aparece na célebre foto de Alberto Korda, já foi falado. Do revolucionário, ficam as razões de sua morte.

Che acreditava num equívoco chamado "Teoria do Foquismo". Isso queria dizer o seguinte: se um grupo pretendesse vencer uma revolução e tomar o poder num determinado país, bastava a ele criar um foco guerrilheiro. Esse foco cresceria, se tornaria uma onda, em seguida um vagalhão e ocuparia tudo. O exemplo era a revolução cubana.

Mas a teoria era errada. Em Cuba o foco guerrilheiro tomou o poder porque ele estava nas mãos de uma ditadura tão corrupta que bastaria um sopro. Mas não era nisso que Che acreditava. Pelo foquismo ele lutou na África e na América. Estava na Bolívia tentando criar um foco guerrilheiro que se transformasse em vagalhão quando foi morto, sumariamente executado, em 08 de outubro de 1967. Com ele foi sepultada a "Teoria do Foquismo".

Por ela morreram muitos outros. Inclusive brasileiros, levados a lutar em focos como a Guerrilha do Araguaia, seduzidos pelo mesmo canto. Muito sangue correu. E as lutas terminaram todas em derrotas e em repressões sangrentas também no Uruguai, Argentina, Chile e outros países.

Os visionários às vezes cometem erros graves. No caso do Che, honestamente falando.

3 de outubro de 2007

Saudades de Matheus


Quantas vezes fez-se piada do velho Vicente Matheus. Em algumas ocasiões ele havia falado mesmo as impropriedades - e falou muitas - mas na maioria, não. Dirigia o Corinthians como se aquilo fosse a coisa mais importante da vida. E para ele era.

Hoje, dez anos depois de sua morte, acompanhando à distância a promiscuidade em que se transformou o clube de maior torcida de São Paulo, só é possível sentir saudades de Matheus. Nesta foto acima, por exemplo, ele se realiza: segura um troféu de campeão de seu clube.

De onde saiu aquele Roberto Dualib? Como pode um presidente de clube, que se diz apaixonado por ele, falar em lavagem de dinheiro, em roubo de títulos esportivos, nas coisas mais promíscuas dos subterrâneos do futebol? De onde saiu essa gente, de que porão brasiliense, e como foi possível chegar ao futebol e tomar alguns dos maiores clubes do Brasil. Sim, porque o Corinthians não é a única vítima. E uma investigação séria mostrará isso.

Precisamos descer a esse porão. Limpar tudo, varrer aqueles que se aproveitam do futebol - das federações e da CBF também - para enriquecer ilicitamente.

Lembro-me de uma história hilariante. Candidato à presidência do Corinthians, o velho Matheus fez um improviso na sede corintiana, nos dias de vésperas de eleição: "Espero que os corinthianos compareçam para naufragar nas urnas o meu nome."

Dez anos após sua morte quem naufraga é o Corinthians.

25 de setembro de 2007

Nova (péssima) História Crítica


Esse livro cuja capa está aí ao lado, Nova História Crítica, do historiador (sic!) Mário Schimidt, tem sofrido intenso torpedeamento nas últimas semanas. Sobretudo e principalmente porque, segundo praticamente todos os comentários, ele tem um "viés ideológico de esquerda". Há um erro crasso nessas considerações: quem critica uma obra, seja ela qual for, por seu viés político, utiliza para tanto um outro viés, este antagônico. Trata-se de um vício de origem que tira a credibilidade da crítica.

Certo seria dizer o óbvio: o livro do sr. Schimidt não deveria estar sendo utilizado nas salas de aulas, não porque é de esquerda, mas sim porque é bisonho. Contém erros de língua portuguesa, imprecisões histórias e comentários que chegam quase às raias do absurdo, além de outros desatinos mais. Trata-se de alguma coisa que jamais deveria cair nas mãos - e nos olhos - dos estudantes. Por sua baixa qualidade e não por seu "viés". Afinal, livros de história, todos eles, têm alguma dimensão ideológica.

O Brasil possui, tanto à direita quanto à esquerda de seu espectro intelectual, inúmeros pensadores capazes de produzir obras de qualidade. O MEC deveria tomar cuidado com o que envia aos nossos estudantes.

13 de setembro de 2007

A arma que serve para torturar


O taser (veja a imagem acima, do modelo a que me refiro e que é usado pela segurança do Senado) é uma arma considerada "não letal" e que imobiliza uma pessoa mediante grande choque elétrico. Mas mata, sim. E está sendo usada por membros do serviço de segurança do Parlamento Federal Brasileiro de forma perigosa e ilegal, como ficou claro no último dia 12 de setembro, quando o senador Renan Calheiros teve seu mandato salvo por seus pares. O dia do suicídio do Senado Federal.

Muitas pessoas já morreram por causa desse modelo do taser. Sobretudo gente de saúde frágil, portadores de problemas cardíacos, de marca-passo ou detidos que se encontravam ébrios, mas mesmo assim foram imobilizados com o uso do artefato. Comenta-se que o número de mortos pelo uso desse taser no mundo todo já ultrapasse as 300 pessoas. O representante do fabricante, inclusive, tem um site no Brasil. Recentemente, houve uma reação do Parlamento Francês à adoção do recurso. Leia esse texto relativo ao fato, parte da argumentação dos parlamentares:

Uma pistola de electrochoques paralisantes deixa menos vestígios do que um cassetete, provoca sofrimentos agudos e será susceptível de ser utilizado para intimidar, humilhar ou fazer falar suspeitos, detidos, prisioneiros ou simples cidadãos. Nestas condições, esta pistola parece uma arma de tortura no sentido da Convenção das Nações Unidas contra a tortura, de 1984. A França, tendo ratificado este instrumento em 1986, está na obrigação de prevenir todo acto de tortura que poderia ser cometido sobre o seu solo. Ao dotar forças policiais, em constante contacto com a população, de pistolas de electrochoques paralisantes, nossas autoridades tornam-se culpáveis de falta de vigilância e expõem a população francesa a sofrimentos extremos e injustificados.

É preciso refletir. O Senado da República não pode permitir que seus homens de segurança tenham consigo algo tão perigoso. Uma arma de tortura.

Quem sangra, afinal?


Quem sangra?

O presidente do Senado, Renan Calheiros, absolvido por seus pares depois de quase quatro meses de mais um escândalo de grandes proporções registrado em âmbito federal? O Senado, instituição perto de se tornar bicentenária e que deveria zelar pela ética político-partidária brasileira? O Governo Lula, sempre envolto nesses fatos escabrosos e cujo membro maior, o Presidente da República, insiste em dizer que nunca sabe de nada (alguém acredita nisso, em sã consciência)? Ou sangramos nós, o pobre povo brasileiro, que no dia 12 de setembro assistiu a mais um triste capítulo da decaída vida nacional?

De que valem os sucessos econômicos se o custo que pagamos é esse?

Até mesmo um taser, arma chamada "não letal" foi deixada cair ao chão por um segurança do Senado num entrevero com deputados federais. Essa arma "não letal" é de uso exclusivo de forças policiais e pode matar, sim, por exemplo, um portador de marca-passo cardíaco. Mas estava nas mãos de um segurança particular do Senado.

Todos nós sangramos, gente. Menos esse sorridente indivíduo aí de cima, na foto de Uéslei Marcelino/Folha Imagem, que se preparava para ir para casa comemorar a impunidade. A impunidade é a nossa mais bem cultivada marca nacional. Guardemos essa data: 12 de setembro de 2007. O dia em que o Senado cometeu suicídio.

4 de setembro de 2007

Prioridades de Estado


No Brasil todo, e não apenas no Espírito Santo, Saúde e Educação não são prioridades de Estado. Basta acompanhar a vida do país, os discursos dos que decidem, as ações governamentais e tem-se a exata noção disso. O que não é novidade alguma.

Foi por isso que a moça de 27 anos, Janaína Corona Guimarães, morreu em Vila Velha, na região da Grande Vitória, ao não ser atendida a tempo por unidades capixabas de saúde, no quinto mês de gravidez, neste último final de semana. Ela foi vítima de uma visão de ação governamental que, ao longo dos anos, no Brasil, vem priorizando inúmeras áreas como mais importantes que Saúde e Educação. Como consequência e segundo levantamento publicado no Espírito Santo, morreram sete pessoas em dois meses, vítimas todas elas de desencontros e carências da rede estadual de Saúde.

É por isso, e apenas por isso, que a gente precisa olhar para a face sofrida dessa mãe que aparece acima (imagem de Carlos Alberto da Silva, de A Gazeta), mostrando a foto da filha morta. Ela não consegue entender porque acontece isso num país tão rico e onde se paga tantos e tão injustos impostos.

Problema de cultura política, minha senhora. Somente isso. Meus pêsames, em meu nome e de mais uma infinidade de pessoas, tenho certeza.