20 de julho de 2023

Gargantas profundas

O filme "Garganta profunda", um pornô norte-americano de grande sucesso, foi lançado em 1972. Todo mundo queria ver aquele clássico do boquete, embora esse termo ainda não fosse usado em lugar nenhum. Eu era um deles. E vi. Mas pouco tempo depois o filme de apenas 25 mil dólares de orçamento foi suplantado por outros do mesmo gênero e com produções mais ambiciosas, o que é normal nesse tipo de "entretenimento". Mas o nome ficou. E hoje, coberto de motivos, volto a usá-lo como indicativo do Centrão, o grupo de parlamentares da foto, de "direita" e que tem e comum a goela imensa, capaz de abocanhar o que vier ela frente, principalmente se der bons resultados eleitorais.

É isso o que acontece agora. Pressionado pela necessidade de fazer passar no Congresso uma pauta sua e que justifica o governo iniciado faz pouco mais de seis meses, o presidente Lula tem que ceder espaço na Esplanada dos ministérios a esse grupo que é formado desde ruralistas, passando por evangélicos, direitistas de carteirinha e canalhas das mais diversas matizes. Há um risco nisso: o de quanto mais o presidente ceder, mais o Centrão querer. E ele não se faz de rogado; se os cargos não saírem as votações dos projetos caros ao governo serão derrotadas. Sem choro nem vela.

Não pensem em patriotismo ou nada parecido. O Centrão quer é voto nas próximas eleições.

Muita gente fala sobre esse assunto tentando justificar o injustificável: seria a governança de coalizão ou coisa parecida. Não é. Trata-se de chantagem da mais rasteira possível, capitaneada pelo presidente da Câmara,
Arthur Lyra, e os da goela imensa, sempre ávidos. A fome deles não passa de forma alguma porque o jogo é claro. Todos querem renovar os mandatos e, para chegar a isso, têm que mostrar "resultados" a seus eleitorados. Por isso querem tanto a Saúde, o Bolsa Família e outros setores caros ao governo federal. Para o Centrão querem dizer apenas votos. Nada além disso.

Houve uma época em que os políticos investiam nos discursos falando em governança, projetos, ideologia e coisas mais. Hoje, não: se o governo quer apoio tem que dar espaço. O que significa ministérios com "porteira fechada" e o direito de os ministros e seus sequazes ou  auxiliares, como vocês preferirem,  dirigirem as pastas da forma como bem entenderem, danem-se os planos do governo. Afinal, eles não o representam e muitos sequer vão apoiar as pautas governamentais porque o ministro é colega de partido. Esse negócio - partido - é só um detalhe e eles têm um porque sem a sigla não é possível obter uma série de vantagens do mandato. Só isso. Partido é coisa descartável.

16 de julho de 2023

Os pontos em comum


O que pode haver em comum entre a luta de alguns estados brasileiros pela manutenção de escolas cívico militares (na foto uma de Nova Venécia, ES) e as agressões sofridas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Morais sexta-feira à noite no aeroporto de Roma? Ambos os fatos e mais uma série de outros são a imagem pronta e acabada do que ocorre no Brasil: a extrema direita não aceita de forma alguma o fato de que o presidente que antecedeu o atual tenha perdido a reeleição ao final do ano passado e recorre à violência e ao desrespeito a normas constitucionais para impor sua vontade.

Afinal, eles não têm apego ao Estado Democrático e de Direito. São extremistas. Golpistas.

Pedagogos sérios dizem todos os dias e com argumentos irrefutáveis que esse tipo de escola chamado de "cívico militar" é pobre em termos de eficácia de ensino. Embora mantenham a mesma grade curricular das demais escolas da rede pública, seu comando visa a colocar os alunos sob o tacão de princípios militares deturpados. O MP se manifestou contrário a algumas obrigações como, por exemplo, a exigência de que os alunos cortem seus cabelos longos. E educadores não aceitam o fato de que militares cheguem a receber mais do que R$ 9 mil mensais para dar ordem unida enquanto eles ganhem menos da metade disso para passar conhecimentos aos alunos. Conhecimentos reais.

Mas governadores como o de São Paulo enfrentam a decisão do governo federal e dizem que vão até mesmo aumentar a rede dessas escolas, que hoje é pífia em relação ao todo brasileiro. Cerca de 0,25 por cento. Outros como o do  Espírito Santo simplesmente se eximem de emitir opinião. E o assunto fatalmente vai terminar na Justiça ano que vem quando as verbas dessa modalidade escolar cessarem.

Foi essa mesma Justiça a atacada no aeroporto de Roma por uma trinca de marginais que aguardavam um voo para o Brasil e se depararam com o ministro Alexandre de Moraes. Ele foi chamado de "bandido, comunista e comprado" pela sirigaita acompanhada por dois homens, um deles seu marido. Todos, claro, bolsonaristas de carteirinha. Todos, claro, inconformados com a derrota do "mito" ao final do ano passado. E todos, claro, têm que ir para a cadeia porque até o filho do ministro foi agredido fisicamente por Roberto Mantovani Filho. Ele, Alex Zanatta e Andréia Mantovani, que iniciou os as agressões morais, não respeitam as autoridades constituídas de nosso país. Nossas leis.

Eis os pontos em comum entre os dois fatos. São o fruto do desprezo que as alas de extrema direita do espectro social brasileiros sentem por nossas normas legais. São alguns dos muitos braços desse polvo formador da incivilidade geral da nação e que tenta se perpetuar no 8 e janeiro, insistindo em manter o Brasil na ilegalidade. Ainda não saíram da frente dos quartéis e desconhecem o fato de que os quartéis já saíram da frente deles. Deles e de suas falsas escolas cívico militares cuja principal finalidade é a de subverter a educação de base do Brasil criando monstrengos infanto-juvenis.

Todos estão fazenda falta na Papuda!

13 de julho de 2023

Inoportuno e verdadeiro


Sim, fomos nós os que lutaram contra a ditadura militar de 21 anos e que devolveram o Brasil ao estado democrático e de direito que estava distante fazia tanto tempo. E quem muito bem saudou a Constituição Cidadã de 1988 foi o saudoso deputado federal Ulisses Guimarães quando disse em seu discurso de apresentação da carta magna que "traidor da Constituição é traidor da Pátria". E mais adiante que os brasileiros presos ilegalmente, torturados e assassinados são os verdadeiros patriotas.

Também tenho nojo dessa gente da ditadura. Nojo e ódio.

Talvez tenha sido inoportuna a fala do ministro do Supremo Tribunal Federal José Roberto Barroso (esse da foto) quarta-feira numa reunião da UNE, quando afirmou que os brasileiros derrotaram o bolsonarismo. Derrotaram mesmo e a diferença foi pequena porque o chefe de governo usou de todos os artifícios, principalmente os desonestos, para evitar a derrota na eleição passada. Queimou uma dinheirama imensa para comprar votos, ameaçou, fechou estradas para os eleitores não chegarem às suas seções eleitorais e muito mais. Até ministros das relações exteriores foram convocados ao Palácio do Planalto para ouvir suas queixas. As urnas que o elegeram durante 28 anos foram atacadas porque ele queria votos de papel para alterar o resultado.

Tive amigos presos ilegalmente e torturados pelos órgãos de repressão. Nenhum deles foi assassinado, mas inúmeros outros foram. Para não me alongar cito apenas o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho. A ditadura militar brasileira foi uma sala de torturas. Ela não massacrou apenas aqueles que foram opositores do regime de exceção. mas também inocentes.

1988 só chegou para encerrar toda essa escuridão porque gente como os patriotas da UNE, eu e milhões de outros lutaram contra ela. Os bobões que vaiaram o ministro devem ter se esquecido disso. Mas seria bom que se lembrassem. Que pusessem a mão na consciência. É preciso escolher quem vaiar  e analisar que um ministro do Supremo Tribunal Federal é obrigado a sentenciar olhando a Constituição.

 Sim, o ministro foi inoportuno. Mas talvez nunca tenha sido tão verdadeiro. 

5 de julho de 2023

Lula em sua bolha


Lula, liberte-se de sua bolha!

São seis meses de governo do presidente Lula. Nesse curto período já foram comprovadas melhoras consideráveis em crescimento e inflação em queda, novas regras de despesas, reforma tributária em andamento, diminuição do risco país, redução do déficit das contas externas, aumento da arrecadação sem crescimento de impostos (até o momento), redução de vários preços administrados pelo governo como os dos combustíveis, aumento real do salário mínimo, igualmente da isenção do imposto de renda, combate à fome, luta pela erradicação da miséria, Programa Desenrola Brasil, incentivo à indústria, maior Plano Safra da história, Plano Safra de Agricultura Familiar (sensacional!), merenda escolar com aumento de repasses, início da recomposição do orçamento das universidades públicas, pesquisa e inovação, ensino em tempo integral e verba para infraestrutura escolar, Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, combate à violência nas escolas, revogação de decreto sobre armas, vacinação em massa, transferência para estados e municípios fazerem exames e cirurgias em mutirões com apoio a hospitais, Farmácia Popular, Mais Médicos, Brasil Sorridente, combate ao desmatamento e apoio ao meio ambiente, atendimento às populações originárias, volta do Minha Casa, Minha Vida, Lei Paulo Gustavo, política de amparo às mulheres, Lei Geral do Esporte, combate ao racismo, retorno do Brasil ao cenário mundial da política externa, reajuste do funcionalismo público e Democracia Participativa. Tudo isso com pouco dinheiro porque a maior parte foi criminosamente jogada no lixo pela tentativa do ex-presidente de se reeleger.

Lula poderia, hoje, navegar em águas tranquilas, começando a botar no bolso a oposição parlamentar, sobretudo a criminosa do Centrão, pois o sucesso do seu governo fará com que ela se dilua em água e escorra para o esgoto juntamente com Arthur Lira e suas negociatas. Mas o presidente insiste em ser o defensor público número 1 de Nicolás Maduro, de não ver o que acontece na Nicarágua, de confundir democracias plenas com suas nuances de exceção e em falar sem pensar sempre que pode ou é provocado. Como os provocadores já perceberam isso, vão provocar cada vez mais.

E por que ele faz isso? Lula ainda está preso em sua bolha, a aquela das correntes radicais do PT e que garantiram a ele apoio incondicional durante os anos duros de perseguição política e prisão. É digno ser grato, mas hoje esse ex-metalúrgico é presidente de todas as correntes, sobretudo as de centro, majoritárias no Brasil. Ele tem que dizer aos petistas de raiz que o ajudem ficando a seu lado sempre que possível. Esse governo tem tudo para dar certo e sepultar o bolsonarismo. Não pode abdicar a isso. Destruir as raízes da extrema direita é o que importa e por isso dei meu apoio ao atual presidente nas últimas eleições. Eu e milhões de outros brasileiros. Apenas e tão somente por esse motivo. 

Lula, saia de sua bolha.             

1 de julho de 2023

"Five Came Back"


Ouvi dia desses de um alemão radicado no Brasil que ele não era e a maioria de seus compatriotas também não são violentos ou nazistas. Com um sorriso de ironia, completou: "Nem os alemães orientais, hoje libertos do comunismo, pregam a violência". Imediatamente revi na mente o seriado "Five Came Back" (ilustração acima), que a Netflix apresenta atualmente e que conta a história da ida de cinco diretores de cinema de Hollywood para a Europa entre 1942 e 1945 para documentar cinematograficamente a Segunda Guerra Mundial. Foi uma experiência traumática para todos e os modificou radicalmente no retorno a seu país e às atividades que continuaram a desempenhar pelo resto de suas vidas. Recomendo os três episódios da série.

O que fez dos alemães um povo violento, seguidor em grande parte do nazismo de Hitler? E o italiano de adepto fanático do fascismo de Mussolini? Atrevo-me a dizer aqui que isso em muito se assemelha com o trauma passado por nós nos últimos anos no crescimento desenfreado do "bolsonarismo", um fenômeno político que se parece tanto com um quanto com outro. Podemos dizer sem medo de errar que a derrota de seu motivador, o ex-presidente brasileiro hoje inelegível, tirou o Brasil de um atoleiro institucional grave.

Os alemães não são violentos ou nazistas por natureza ou essência. Nem os italianos ou os brasileiros. Essa não é uma questão de nacionalidade, mas sim ligada a fenômenos sociais que podem eclodir em determinadas ocasiões nos planos nacional ou internacional e levam as pessoas à adoção de comportamentos coletivamente ditados pelos extremismos políticos. Um país como o Brasil pode e deve conviver civilizadamente com ideologias de esquerda e direita, mas nunca ter seu comportamento controlado por visões políticas extremistas, sobretudo da extrema direita, como acontece hoje em muitos países pelo mundo afora.

Freud afirma que, na origem, amor e ódio não concernem às pulsões. Ele explica seu pensamento: "O ódio, enquanto relação de objeto, é mais antigo que o amor: nos primórdios da origem ele tem sua fonte na recusa do mundo exterior que emite estímulos, recusa que emana do Eu narcísico". Ele surge de frustrantes relações objetais, do desprazer. É preciso fazer com que um grupo de pessoas ou até parte considerável de uma população sinta asco de outra, levada a isso por circunstâncias às quais não consegue reagir. E gerar o ódio não é nada difícil se esse grupamento populacional já sente ojeriza por uma dada situação. Aqui nós conseguimos gerar esse fenômeno pela aversão de parcela de nossa população pelo petismo e o comunismo.

Mas os dramas que situação assim geram são terríveis e "Five Came Back" mostra claramente o fenômeno em seu último episódio. Retornar a uma certa normalidade social é tarefa lenta e de sucesso não garantido, ao menos em curto prazo. Mas urge tentar. Numa outra conversa com um conhecido, ao fazer crítica ao extremismo de direita brasileiro, ouvi dele que a esquerda também comete violências. Expliquei: "Isaac Newton, célebre matemático, diz em sua terceira lei que a toda ação corresponde uma reação igual e contrária". É preciso começar combatendo a ação geradora da incivilidade.               

29 de junho de 2023

O processo civilizatório


Quando chegaram ao Brasil pela primeira vez os portugueses se apressaram em rezar uma missa católica. Era o início do esforço por modificar a cultura de nossos povos originários, impondo a eles hábitos e costumes totalmente estranhos ao seu comportamento. Pior, isso é feito desde então, desde 1500 como está representado na pintura acima. Hoje a maioria dos que continuam esse esforço são missionários protestantes e todos são levados por um norte: é preciso civilizar os "índios". Não, não é preciso. O que precisamos fazer é respeitar a cultura do "diferente".

O grande estudioso brasileiro Darcy Ribeiro escreveu, dentre outras obras, "O processo civilizatório". Já faz muitos anos - em 1968 -, mas o texto continua atual. Ele fala como  nós chegamos ao que se convencionou chamar de civilização. Isso foi bom e ruim e Darcy não viveu para analisar os fatos mais recentes: é justamente essa definição intimamente ligada a nós, os que vivem em conglomerados com comunicação escrita e constituição, para citarmos apena dois itens, o que leva grande quantidade de pessoas a verem os povos originários como seres de segunda categoria e não possuidores de capacidade cognitiva para nos acompanhar. Nada mais falso, nada mais racista.

Tudo se resume a uma questão cultural e à necessidade de respeitarmos a cultura específica dessas comunidades. Somente assim vamos conviver com elas de forma harmoniosa e nos preparando para uma sociedade uniforme, mas "diferente". E a diferença significa justamente o respeito aos valores culturais específicos. É por não aceitarmos as diferenças que somos capazes de reconhecer um indivíduo como inferior a nós, seja por causa da cor da pele seja por causa de fazer parte de populações originárias.

Isso cresceu muito nos últimos anos e agora parece haver um movimento, ainda muito tímido, no sentido de educarmos os que chegam à vida para terem em mente que todos somos a raça humana. E só vamos crescer como nação quando entendermos esse fato. Quando decidirmos que um povo civilizado não elege governantes capazes de dizer que as minorias, ou se adaptam às maiorias ou serão eliminadas.    

  

21 de junho de 2023

A marcha da classe média


Peca quem pensa que o fenômeno do extremismo de direita do Brasil nasceu com o ex-presidente Jair Bolsonaro, um fascista saudoso da ditadura militar de 1964 e que viu a presidência cair em seu colo durante a campanha eleitoral de 2018 e depois do episódio da facada em Juiz de Fora. Não, não é assim. Esse comportamento de parcela expressiva da população brasileira remonta até mesmo ao início do período republicano e se fortaleceu imensamente durante os antecedentes diretos do último Golpe de Estado. O ovo da serpente vem sendo chocado há décadas e poucos se preocupam com ele.

Vi isso. Em São Paulo, principalmente, era imensa a legião de pessoas marcadamente da classe média que foram às ruas nas famosas "Marcha da Família do Deus pela Liberdade". A foto acima mostra como a coisa funcionava. Vi ao menos uma vizinha e uma sócia do clube que minha família frequentava na capital paulista envolvidas nos movimentos de 64. A sócia do Ipê, clube que existe até hoje, tentou levar minha mãe para as ruas. Ela agradeceu e disse não. Tinha filhos para cuidar e o mais velho era eu, ainda em vias de completar 14 anos. Mas cheguei a ver uma das faixas que desfilavam com essas pessoas.

Resumindo; o extremismo brasileiro e que muitos chamam de conservadorismo, é um fenômeno intimamente ligado à nossa classe média. Ela era a massa que desfilava nas marchas de 64, da mesma forma como acontece hoje. Esse segmento da população brasileira é tacanho e reacionário. A falta de cultura política de nossa população faz com que milhões de membros do extrato social médio seja facilmente controlável, sobretudo por medo que às vezes vira ódio. Há duas formas eficientes de se manobrar uma população: pelo amor ou pelo temor/aversão a alguma coisa. Hitler sabia disso e uniu alemães contra judeus. Aqui os brasileiros elegeram o comunismo como inimigo público número um.

O Estado e a igreja, principalmente, tornam a classe média massa de manobra. E arrastam com ela parte da classe pobre, marcadamente ignorante, formando o caldo de cultura de movimentos assim e com o patrocínio dos ricos, sempre unidos em torno da defesa de seus privilégios. O que nós vivemos durante os quatro anos do último governo federal e o que estamos vendo hoje são retratos dessa situação. Levar a classe média a entender que ela é usada como massa de manobra, e na maioria das vezes para defender interesses estranhos a ela é o caminho para começar a mudar esse panorama. Um caminho que já deveria estar sendo trilhado há muito tempo no Brasil.        

  

10 de junho de 2023

Os novos boiardos


A revista "Veja" dessa semana traz matéria de capa sobre a força do agronegócio brasileiro. Uma força que hoje se reflete no Congresso Nacional onde uma "bancada ruralista" impõe sua pauta com os mais diversos tipos de pressão. E é fácil fazer isso num país onde o partido político deixou de existir como instituição formada por pessoas unidas em torno de um projeto de poder ancorado em programas que invariavelmente são baseados em princípios ideológicos. Hoje os partidos brasileiros agridem até o princípio do estado laico com a formação de bloco religioso chamado de "bancada evangélica".

Nossas distorções políticas criaram um movimento boiardo moderno. Os maiores representantes do agro, sobretudo aqueles que se intitulam "ruralistas" querem impor suas pautas ao restante do país graças ao fato de que nos últimos tempos têm alavancado a economia, principalmente nas exportações. Os boiardos originais eram, no passado, membros da aristocracia russa e ocupavam posição de destaque só comparada à dos príncipes do império. Inicialmente tinham todos eles raízes no campo e se ocupavam também de alijar do poder decisório os mujiques, esses a imensa massa camponesa sem representatividade alguma. O poder boiardo ocupou regiões onde hoje ficam outros países do leste europeu e, no caso russo, eles só encontraram o ocaso ao final do século XIX, com revoltas contra sua dominação (ilustração) e, em 1917, na revolução soviética.

Que o agronegócio brasileiro é uma força econômica não há dúvida. Que essa força merece ser protegida para render mais divisas ao Brasil, também. Mas a riqueza que ele produz se destina primordialmente ao comércio internacional e nem sempre se corporifica pela geração de bens e serviços destinados aos brasileiros. Nessa área quem atua para matar a fome da população do país são o pequeno e médio produtores, muitos deles praticantes de agricultura familiar e que abastecem a nossa economia com o alimento de cada dia. Nas feiras livres a gente os encontra. Também nos supermercados que adquirem produtos nas "ceasas" espalhadas por todo o "nosso Brasil", como dizem outros.

Então, uma política equânime de apoio e amparo à produção agrícola só se justifica com critérios de Justiça se estiver também voltada aos pequenos e médios produtores rurais. Aos nossos milhares de mujiques e sem que os boiardos modernos sejam privilegiados em detrimento destes.          

8 de junho de 2023

Não haverá "ruptura"'


Logo que o último ex-presidente ganhou as eleições de 2018 um conhecido meu, militante de extrema direita, daqueles que colocam na parede, devidamente emoldurados, os diplomas recebidos na ESG, me convidou a tomar um vinho num supermercado da Avenida Rio Branco, aqui em Vitória (ES). A conversa acabou chegando à política e ele disse: "Bolsonaro ganhou. Sim, mas quem ganhou mesmo fomos nós. Chegamos para ficar e se for tentada mudança haverá ruptura. Pode acreditar nisso."

Em síntese, o golpe de estado estava previsto desde as eleições de 2018. Quero crer que se Fernando Haddad tivesse vencido seria tentado um meio não legal para impedir sua posse. O Clube Militar, no Rio de Janeiro, estava a postos para divulgar informações falsas, sublevar grupos extremistas e espalhar o ódio por todos os cantos. Mesmo depois do final da ditadura militar, em 1985, as viúvas do totalitarismo de direita estavam acordadas e tentando o contragolpe. Nunca desistiram. A constituição de 1988, tão defendida pelas forças democráticas, teria sido rasgada em praça pública se fosse possível.

Acho que meu conhecido tentava me cooptar. Logo percebeu que não seria possível.

O Brasil jogou fora  mais de um trilhão de reais na tentativa de Bolsonaro se eleger. Nunca antes tantos crimes foram cometidos numa eleição que se pretendia fazer à margem das leis. E quando a apuração dos votos derrotou a camarilha, essa colocou em prática seu projeto de destruição da democracia. Foram várias as tentativas, todas frustradas. E até hoje o extremismo de direita tenta emplacar seus planos. Não consegue e, pelo visto, o projeto de uma "ruptura" constitucional foi parar no balde do lixo.

Mas os derrotados continuam agindo. Como sempre, nas sombras. Como é de sua cultura, utilizando-se de todos os meios para chegar ao sucesso. A revelação dos planos de golpe de estado contidos em celulares de criminosos como o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro mostra que vão insistir. A bomba que  não explodiu no Aeroporto de Brasília atesta que eles não conhecem limites.

Nunca mais tomo vinho com fascista. 

4 de junho de 2023

República do rabo preso


A cada episódio novo se torna maior a quantidade de políticos confrontados com suas falcatruas. Como é imenso o número desse tipo de gente fica fácil dizer que vivemos numa "República do Rabo Preso". Agora é o ainda todo poderoso presidente da Câmara, Arthur Lira, quem deve estar preocupado com a possiblidade de se tornar réu em processo por corrupção passiva, o que encerraria sua carreira política. E o caso vai começar a ser analisado na terça-feira.  

O fato remonta a 2012, quando um assessor dele foi flagrado em São Paulo tentando embarcar para Brasília com R$ 106 mil na mala. Era dinheiro de propina para ser entregue ao deputado. Desde aquele episódio Lira dorme assombrado pela possibilidade de ser tornado réu no Supremo Tribunal Federal, perder o mandato e ainda ficar inelegível por oito anos. É o risco que se corre...

No Brasil, fazer esse tipo de negociata envolvendo dinheiro vivo não é novidade. Parece que o artifício se tornou parte da nossa cultura política. Vejam o caso da "familícia" Bolsonaro que acumula mais de cem imóveis comprados nessa, digamos, modalidade. E para o chefe do clã, Jair, esse tipo de coisa não prova nada contra ele. Quando fala sobre o assunto diz que os imóveis foram adquiridos ao longo de muitos anos e por vários de seus familiares. Então, está tudo explicado. Como no caso das "rachadinhas" de todos os seus filhos e apaniguados detentores de mandato.

Arthur Lira fez isso em 2012, o que mostra como a prática é comum há tempos. Na semana que passou um montão de dinheiro que abarrotava um cofre foi localizado pela Polícia Federal em Alagoas com gente ligada ao presidente da Câmara. Aqui no Brasil, graças ao orçamento secreto e outras artimanhas, existe corrupção envolvendo ambulâncias, tratores, superfaturamento de obras públicas e chegando aos cofres residenciais, onde é guardado dinheiro em espécie.

Talvez por isso alguns sonhos de poder como os de Lira, que adoraria ser um tipo de primeiro ministro, terminem não se concretizando. Afinal não basta a ele ter aprovação da imensa maioria de seus pares. Como disse um dia Carlos Drumond de Andrade, "no meio do caminho tinha um pedra". Quem sabe daquelas grandes e que surge nesse caminho justamente quando se encontra dinheiro vivo em grande quantidade em malas, cuecas, etc.

Para eles dessa forma fica mais difícil de rastrear...


31 de maio de 2023

Lula e a munição dos inimigos


Não tem jeito: é só ficar distraído e o presidente Lula fala de improviso. Então comete erros que muito bem poderiam ter sido evitados. Refiro-me aos atos conjuntos com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que esteve em Brasília para a cúpula da América do Sul (foto). Ao chamar o visitante de democrata e as críticas a ele dirigidas de "narrativas", o mandatário brasileiro não cometeu apenas uma gafe; ele agrediu a verdade dos fatos, coisa que pode ser facilmente comprovada.

Não teve o menor cabimento receber Maduro no Itamarati separadamente e antes dos demais representantes continentais. Isso foi notado, criticado e causou muito mal estar. O presidente uruguaio Luís Alberto Lacalle Pou questionou as declarações de Lula sobre a "democracia" venezuelana. O mesmo fez o chefe de Estado do Chile, Gabriel Boric, por sinal um socialista. Este falou que a situação dos venezuelanos exilados em território chileno mostra que não falta apenas comida naquele país. Falta sobretudo e principalmente respeito aos direitos humanos. No Brasil também há uma legião de fugidos da Venezuela. Todos famintos. Todos carentes de democracia.

Lula ainda cometeu um novo erro no dia seguinte ao tentar justificar suas declarações de véspera chamando de "narrativas" as críticas ao venezuelano e reafirmando declarações dadas. É bom lutar na vida; é bom defender posições e mantê-las contra adversários. Mas jamais se deve agredir os fatos. Não é possível acreditar que divulgando afirmações falsas, visões obtusas de determinadas situações, um presidente conseguirá construir respeito e admiração, por mais que represente uma guinada política, uma esperança de melhora, uma garantia de sobrevivência da democracia após um governo golpista. 

Lula tem uma importância ímpar. Foi eleito três vezes para a presidência, fato inédito na vida do Brasil republicano, ainda elegeu duas vezes uma sucessora e hoje tem a cara da reação ao golpismo, à ditadura militar que nos infelicitou durante 21 anos na última vez que mostrou as garras. Seu antecessor defende uma "liberdade" que é, essa sim, narrativa falsa. O presidente atual não tem sequer o direito de jogar esse momento no lixo da história. Seu governo tem inimigos em cada esquina e enfrenta um Legislativo formado em grande parte de canalhas voltados à destruição dele e do Estado Democrático e de Direito.

Não coloque munição na artilharia dessa gentalha, Lula.              

29 de maio de 2023

O STF é o caminho

É possível dizer hoje, sem o risco de errar, que a oposição ao governo eleito no ano passado e empossado no primeiro dia desse ano está jogando na aposta do caos. Há uma diferença não muito sutil entre se opor e fazer sabotagem. Quem se opõe respeita os limites legais; quem faz sabotagem, não.

Vamos usar aqui agora somente um argumento, dos inúmeros que há. Os ministérios das ministras Marina Silva e Sônia Guajajara estão sofrendo uma tentativa de esvaziamento total por parte dos grupos oposicionistas de direita e extrema direita. Eles são comandados à distância pelo ex-presidente derrotado nas últimas eleições e por setores que o apoiam e a esses parlamentares, sobretudo e principalmente gente do campo e ligada ao que se convenciona chamar hoje de "Agro". Há grupos extremistas perigosos entre a gente graúda desse setor que inclusive apoia e financia qualquer tentativa de golpe de Estado passada, presente e futura.

Vejamos o que diz a Constituição em trechos de seu artigo 84: "Compete privativamente ao Presidente de República: VI - dispor mediante decreto, sobre: a) organização e funcionamento da administração federal, quando não implicar aumento de despesa nem criação ou extinção de órgãos públicos..." e vai por aí. Portanto, tem o Presidente da República o direito de montar seu ministério da forma como o achar ideal, sem ser desautorizado pelo Congresso.

Ora, e por que o presidente aceita aparentemente de forma passiva essa intromissão, da mesma forma como não se insurge contra outras receitas de sabotagem? Porque ele teme que, levada às últimas consequências, a oposição visceral possa criar mais uma série de outros obstáculos visando destruir o Estado Democrático e de Direito. O risco existe. Por exemplo, se a reforma ministerial não for aprovada e o Brasil parar por ter que voltar ao modelo que havia no último mandato. E esse é apenas um dos riscos maiores na ação desses "patriotas". 

Por isso o presidente negocia. Por isso ele entrega todos os seus anéis para tentar salvar os nove dedos que lhe restam. Como tem fama de negociador, talvez consiga atravessar a tempestade e seguir em frente com o modelo de Estado que escolheu eleito pelo povo brasileiro. Caso contrário as questões vão desaguar novamente do Supremo Tribunal Federal que intervirá e determinará a prevalência da Constituição. Afinal, ele existe para essa tarefa.                  

25 de maio de 2023

O Brasil fisiologista

Houve uma época em que os partidos políticos brasileiros tinham ideologia. Cada um representava uma corrente de pensamento e a defendia. Com o golpe de Estado de 1964 esse modelo enfraqueceu e aos poucos foi desaparecendo. Isso atingiu até mesmo agremiações que levavam a ideologia no nome como o PCB e o PCdoB, sendo do que o primeiro já mudou a sigla duas vezes e hoje é um irreconhecível Cidadania onde cabem todos. O mesmo ocorreu com o PSDB e outros partidos, como o "Socialista". Até mesmo aqueles que tinham vínculos diretos com a ditadura tentaram ficar mais palatáveis como é o caso do Partido Progressista. E por detrás disso há um fator: dinheiro.

Dentre a montanha mudanças pelas quais a política brasileira passou nos últimos tempos está uma excrecência chamada "orçamento secreto". Ele foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal, mas continua a valer fantasiado de outros nomes. Não à toa o todo poderoso presidente da Câmara Federal, Arthur Lyra, disse em mais de uma oportunidade que ele veio para ficar. Talvez não no nome, mas no simbolismo. E a cada dia que passa cresce ainda mais a voracidade com que deputados e senadores avançam sobre o dinheiro dos nossos impostos. Pode-se dizer que em grande parte dos casos para jogar esses recursos no ralo em busca de votos. O objetivo de agora são as eleições municipais de 2024.

Foi-se o tempo da UDN e PSB, passou a época em  que as siglas comunistas eram colocadas na ilegalidade e nos dias de hoje até mesmo nas câmaras de vereadores o avanço sobre o dinheiro dos impostos do cidadão é feito da maneira mais descarada possível. O apoio às prefeituras custa liberação de verbas para obras paroquiais, contratação de apaniguados para cargos públicos onde eles possam ter visibilidade com vistas às próximas eleições e isso quando a corrupção não é mais explícita como a que envolve aquisição de ambulâncias, tratores e outros equipamentos que não raro jamais chegam aos locais de destino para servir ao interesse público. Aliás, o interesse publico faleceu.

Até onde vai isso? Hoje seria impossível antever o final dessa bacanal. Mas ela precisa ter um fim e terá certamente porque não há fosso sem fundo e a população desse país reagirá exigindo nas urnas o respeito aos direitos do cidadão. Só vamos torcer para que isso aconteça sem derramamento de sangue.        

20 de maio de 2023

Bolsa rito de passagem


O programa Bolsa Família, do governo federal, só tem sentido se for um rito de passagem para a vida dos milhões de miseráveis do Brasil que tiveram sua situação financeira agravada nos últimos quatro anos de desgoverno. E para que isso ocorra a atual gestão precisa fazer acontecer rapidamente um plano nacional de emprego e renda aliado a outro de capacitação profissional visando à reinserção desse imenso contingente de pessoas no mercado de trabalho brasileiro, seja público, seja privado.

Os ritos de passagem, termo com forte apelo sociológico, são fases, etapas da vida de todas as pessoas como as celebrações diversas que nos acompanham: nascimento, estudo, primeira comunhão, casamento, trabalho, morte. Talvez o principal seja o que marca a passagem para a vida adulta. Podemos acrescentar a essa lista, no campo da formação profissional e do trabalho, o retorno à vida produtiva depois de uma etapa à míngua. Só o trabalho dignifica o homem e um país não pode conviver com a realidade eterna de uma população que trabalha para sustentar outra sem atividade produtiva.

Há um desvirtuamento na discussão do bolsa família dos dias atuais. O valor mínimo capaz de sustentar as pessoas com um tiquinho de dignidade foi alcançado já como recurso extremo para a economia. Pensar agora em décimo terceiro salário, férias e outras coisas é um despropósito. Esses dispositivos, como também fundo de garantia e auxílios diversos são ligados às relações de trabalho e não a auxílio emergencial. Confundir as coisas será muito ruim. E elaborar projetos de apoio a emprego, renda e capacitação profissional vai custar bem menos caro. Certamente com retorno muito maior.

Sonhar com um Brasil de desemprego zero, que não tenha baixa renda nem miséria seria utópico. Mas não o é pensarmos num país voltado ao reingresso das pessoas no mercado produtivo. Duvido que um plano nacional com esse foco não venha a contar com o apoio da iniciativa privada, ao menos daquela mais lúcida e voltada a olhar o país como um projeto de desenvolvimento sustentável. O Brasil não pode ser para sempre o "país do futuro"; este tem que chegar no presente.  

Vamos imaginar o Bolsa Família como um rito de passagem. Ele só tem sentido assim.             

17 de maio de 2023

Deltan em busca de conforto


Jurei a mim mesmo que não me surpreenderia com mais nada nesse nosso País. Mas hoje, faz muito pouco tempo, cheguei a ficar rubro de inconformismo ao ver o discurso do cassado deputado federal Deltan Dallagnol (foto) que protestava contra a cassação de seu mandato pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Cercado de asseclas (ou companheiros de partido...) ele disparou contra o Judiciário, contra o governo, disse que combatia a corrupção, citou até Martin Luther King e disse que mesmo fora da Câmara dos Deputados vai continuar lutando pela nossa liberdade. E de todos os brasileiros.

É muito confortável a posição de vítima, mesmo quando esta não passa de um engodo.

Dallagnol sabe que a vontade expressa nas urnas pelo povo do Paraná não foi violentada. Sabe que ele, sim, tentou passar por cima das leis quando se candidatou e se elegeu como deputado federal. Era investigado e não poderia ocupar cargo público algum. Foi eleito, sim. Mas quando houve uma denúncia formal e o TSE teve que julgar a questão e ele FOI CASSADO POR UNANIMIDADE. Não há, portanto, como se falar em quebra da normalidade democrática e em ataque às liberdades consagradas em nossa Constituição. Ela continua soberana.

Aliás, vamos parar para pensar. Esse agora ex-deputado fazia parte de um grupo político capitaneado por um ex-capitão literalmente expulso do Exército e que se jactava falando em adorar a ditadura militar brasileira. Em diversas ocasiões elogiou publicamente ditadores de extrema direita. Falou a favor da tortura e de torturadores. Queria exterminar os indígenas brasileiros. Colocou idiotas como o general Pazuello na direção de ministérios. Milhares de brasileiros morreram graças à omissão  criminosa do governo federal que antecedeu o atual. Hoje o ex-presidente responde a diversos processos e pode vir a ser preso por ter cometido vários crimes que são sinônimo de corrução.

Que desgraça de liberdade é essa que esse senhor defende? Que arauto do combate à corrupção é esse sujeito que fez parte de golpe judicial perpetrado para tirar de uma eleição presidencial o candidato que a venceria? O que ele fazia no Congresso enquanto uma tentativa de golpe de Estado era parida a fórceps às escuras, nos esgotos do grupo político que ele diz representar?

Não, ele não vai usar por muito tempo o conforto de tentar ser vítima.     

13 de maio de 2023

"Podres Poderes"

Página de abertura de Placar que denunciou os "Podres Poderes"

Não importa a modalidade: esporte depende de credibilidade. Para que ele faça sucesso é preciso os torcedores acreditarem que as pessoas no campo, na quadra, no ringue ou em qualquer outra arena estão jogando com seriedade e fazendo de tudo para derrotar os adversários. Senão vira "telecach", uma comédia pastelão que fez grande sucesso faz cerca de 50 anos, mas era de mentirinha. Tanto que um dia um jornal fez matéria sobre a "modalidade" e a imagem dentro das cordas do ringue era uma imensa marmelada. Se acontecer de se tornar isso, o futebol brasileiro, hoje já mal das pernas, vai falir. 

Na década de 1980, mais precisamente em 1985, a revista Placar investiu pesado numa matéria especial que nasceu da desconfiança de dois jornalistas, Milton Coelho da Graça (morto recentemente) e Juca Kfouri. Eles achavam que estava havendo coincidências demais em certos resultados de jogos da Loteria Esportiva em diversos campeonatos brasileiros. Escalaram o repórter especial Marcelo Rezende para percorrer o Brasil atrás de provas de ilícitos. Marcelo, que morreu em 2017, correu vários estados. Eu era o correspondente de Placar no Espírito Santo à época e o ajudei muito aqui. Descobrimos dois goleiros, de Rio Branco e Desportiva, que se vendiam. E também o esquema em funcionamento na Federação de Futebol, então com uma presidência não séria. Com o título de "Podres Poderes" o esquema da então chamada "Máfia da Loteria Esportiva" foi denunciado e aparentemente extinto. Mas eis que não!

Naquela época da primeira denúncia, a de Placar, a Loteria Esportiva fazia muito sucesso. Esse tempo passou. Agora as apostas de futebol são feitas pela internet e o esquema está voltando. Novamente com jogadores e árbitros desonestos sendo comprados da mesma forma e muito dinheiro sujo circulando pelo universo do futebol. Por ocasião da "Máfia da Loteria" o maior perigo eram os jogadores de clubes pequenos e em final de carreira. Já não tinham mais perspectivas pela frente. Hoje a maioria deve ter o mesmo perfil, mas alguns atletas de maior prestígio estão certamente aderindo ao esquema que permite ganhar dinheiro fácil à custa da boa fé dos torcedores. E da destruição do esporte.

É preciso combater isso. De todas as formas e em nome da grandiosidade que as várias atividades têm. Sem um combate efetivo essa pústula passa do futebol a outras modalidades e destrói todas elas. Na época da "Máfia da Loteria" ainda não tínhamos a internet e todo mundo sabia que Ted Boy Marino e outros do "telecach" eram artistas circenses. Eles não escondiam isso. Agora, não. Com o advento da internet e redes sociais essas quadrilhas vão destruir o esporte como quase fizeram com o futebol há cerca de 40 anos.          

3 de maio de 2023

Um Tenório de triste figura


Vira e volta um personagem do Brasil atual nos remete ao passado não tão remoto assim. Hoje mesmo, por obra e graça do ex-presidente Bolsonaro a cidade de Duque de Caxias voltou às manchetes. Desta feita não por algum feito que relembre diretamente a figura de Tenório Cavalcanti, o político da capa preta e dono da Lurdinha, mas sim porque continua sendo um reduto de crimes e criminosos.

Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque, para quem não o conheceu, era advogado e politico fluminense com área de atuação em Duque de Caxias. Vivia para cima e para baixo carregando sua metralhadora que chamava de Lurdinha (foto). Era violento, usava uma inconfundível capa preta e por muitos foi considerado o criador das milícias no Brasil. Coincidência? Até hoje não se sabe quantos crimes ele realmente cometeu, posto que deve ter mandado matar mais do que matou, mas sua fama era imensa. Desgraçadamente, deixou em Duque de Caxias a mancha de município violento e corrupto. Agora, com o escândalo dos cartões falsos de vacina do entorno de Bolsonaro ele emerge das sombras.

O ex-presidente brasileiro é um caso patológico de mentiroso compulsivo. Daqueles que mentem acreditando que as mentiras sejam verdades. E também está se tornando um ator amador de péssima qualidade. Não à toa, quando presidente debochava da emotividade das pessoas chamando-as de frouxas e outros termos mais, mas agora, depois de perder a reeleição que tentava, se derrama com lágrimas de crocodilo em todas as ocasiões em que se coloca em dificuldades e tem uma câmara pela frente. Um pulha.

É triste termos tido um presidente da República capaz de tantos atos espúrios. Até mesmo de falsificar atestados de vacina porque enfiou na cabeça que esse medicamento causa o mal e não o bem a quem o usa. Até viagem internacional o sujeito fez munido de documento fraudado. Felizmente para nós sua carreira está chegando ao fim. Cadáver político insepulto, ele logo deverá estar numa cela de prisão. Esse é o lugar ideal para o Tenório de triste figura dos tempos atuais.       

27 de abril de 2023

Uma velha história


A falsa luta da tradicional família brasileira contra o fantasma do comunismo é uma velha história sempre revisitada pelos oportunistas dos mais diversos setores e matizes. Lembro-me, embora um pouco vagamente, de que em fevereiro ou março de 1964 uma amiga de mamãe no clube do qual éramos sócios em São Paulo a convidou para sair na manifestação "Marcha da Família com Deus pela liberdade". Essa aí da foto tirada na capital dos paulistas. 

Então éramos associados do Ipê Clube, que até hoje existe nas proximidades do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. A amiga de mamãe queria evitar que o Brasil viesse a se tornar "uma nova Cuba". Mamãe não participou porque tinha casa para cuidar, filhos e marido. Todos de alguma forma dependiam do trabalho doméstico dela, que durava ao menos 12 horas por dia. Na vinda do clube para casa, comentou o convite com papai e este concordou com a negativa dela. Mas ele estava mais interessado no campeonato de bocha do dia seguinte do que nesse assunto...

Meses mais tarde, em Vitória para onde vim passar férias na casa de vovô antes de me mudar definitivamente para cá, ouvi dele numa conversa com vizinhos que o Brasil havia sido salvo "de uma boa". Perguntei o motivo e o velho português José Maria, um salazarista convicto, disse que se os comunistas não fossem sacados do poder eles iriam "botar famílias dentro da casa da gente dividindo os espaços conosco". Meu avô morreu apenas 15 dias antes da Revolução dos Cravos. Que pena!

No Brasil e em outros países, preferencialmente na América do Sul, os movimentos de cunho nazifascista sempre surgiram insuflados pela classe média alta e pelos mais ricos. Claro, afinal eram os privilégios deles - e não seus direitos - que estavam sendo defendidos. Portanto, existe pouca diferença entre o que acontece hoje e o que vivemos no passado. Naquela época ninguém precisava acampar diante de quarteis, até porque saiu deles o braço armado da ditadura que tomou o poder para trazer o Brasil "de volta à normalidade" e levou 21 anos para ser apeado do poder, não sem antes de prender ilegalmente, torturar e matar centenas de brasileiros. Principalmente jovens.

Da mesma forma que hoje, há quase 60 anos o extremismo de direita usava a figura divina como escudo para ocupar os espaços de poder agitando o fantasma do comunismo. O que difere o ontem de hoje é que agora a sociedade vive em situação de conhecimento imediato dos fatos e embora o golpismo continue entranhado em nossas tradições políticas, principalmente após as redes sociais e o bolsonarismo, os militares preferiram não correr o risco de serem eles os protagonistas de um novo golpe de Estado. Afinal, fazem isso desde e proclamação de República!

Mas o risco de ataque à democracia persiste ainda hoje, sobretudo com as redes sociais e as fake news com as quais ninguém sequer sonhava nos idos de 1964 quando houve o convite feito a mamãe. 

17 de abril de 2023

Bom dia a cavalo

"Quem fala demais dá bom dia a cavalo" é um dito popular que significa o seguinte: se eu falo sem ouvir os outros, acabo não sendo compreendido, recebo contestações e, quem sabe, um  coice. Por isso o presidente Lula, que é importante para a reconstrução do Brasil que a camarilha do ex-presidente destruiu, deve deixar questões como a guerra Rússia-Ucrânia com a Chancelaria. Lá elas serão bem cuidadas.

Com o fim da II Guerra Mundial o avanço soviético sobre países da Europa ocidental produziu a Organização do Tratado do Atlântico Norte, o contraponto ao Pacto de Varsóvia. Isso até 1991 quando a dissolução da União Soviética fez tudo perder sentido. Mas a OTAN prosseguiu e agora avança sobre o Leste com o claro intuito de chegar às fronteiras russas. Quando o império soviético caiu ficou mais ou menos implícito que a Ucrânia não ingressaria no Tratado porque os russos mantinham sua frota no Mar Negro, precisavam de livre acesso  ela pela Criméia, não abdicariam a isso e não iriam tolerar armas nucleares na sua fronteira. A guerra aconteceu porque Putin, um autocrata, não aceitou recorrer aos organismos internacionais como o Conselho de Segurança da Organização e Zelensky foi incentivado pelos países ocidentais a simplesmente esperar a guerra. Não houve negociação alguma, a não ser de fachada.

E agora, José? Agora é necessário que haja mesmo um esforço diplomático para por fim à carnificina e à destruição da Ucrânia. Mas esse esforço só terá sentido se for feito com a busca de soluções e sem que se aponte culpados. Não há inocentes ou virgens em diplomacia internacional e quem sabe tratar desses assuntos são os diplomatas. Não é o caso de Lula que sequer deveria ter dito diante de Xi Jinping (foto) que ninguém vai impedir o Brasil de ampliar suas relações com a China. Claro que não, mas isso não deve ser falado em nome das boas relações internacionais. O ruído nessas relações sempre leva a atritos e o presidente brasileiro já tem inimigos internos suficientes. Deve deixar o plano externo livre.

Alguém próximo deveria dizer a Lula que há um Brasil a ser reconstruído e isso é tarefa dele. Todos os brasileiros o conhecem, sabem de sua verborragia e querem que ele se concentre apenas no trabalho necessário. Se fizer somente isso o bolsonarismo é quem dará bom dia a cavalo. E ele está doido por esse protagonismo! Não consegue esperar a hora!                   

15 de abril de 2023

Permitam que sonhem


- E de repente a gente está vendo essa onda de ameaça, de violência, a gente não entende como isso acontece!

As declarações acima, literais, são do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, comentando as violências cometidas sobretudo em escolas do Brasil. Ou em creches onde, numa delas de Blumenau, Santa Catarina, quatro crianças foram mortas a golpes de machado. Ele certamente não estava bêbado ao falar e nem tinha perdido a razão. É apenas um cínico que participou direta ou indiretamente durante quatro anos do desgoverno anterior a esse e viu o ex-chefe de Estado usando até  mesmo crianças para mostrar armas pesadas ou imitar "arminha" com as suas mãos sujas de sangue.

Tarcício segue a mesma cartilha do governador de Santa Catarina e de outras autoridades brasileiras ligadas às soluções pelas armas: quer inundar creches e colégios de policiais armados. Quer combater a violência com violência. Ele não quer enxergar que a origem de tudo o que estamos vivendo hoje é a politica armamentista da extrema direita que chegou ao poder em 2018 no rastro de cometa de um ódio anti-esquerda e anti-PT provocados em parte por uma carrada de erros cometidos setores da esquerda política brasileira nos anos que antecederam a penúltima eleição presidencial.

Todos sabemos - ao menos os mais lúcidos - que o combate à onda de ódio se faz com a educação das pessoas. Com o "não" ao armamentismo que hoje alcança até escolas de tiro onde se busca ensinar os pequenos a matar, como acontece em Goiás. Contra a cultura do ódio é preciso implantar o humanismo. Não é verdade que um povo armado jamais será escravizado. O correto seria dizer que um povo armado e instrumentalizado politicamente por um novo nazi-fascismo vai escravizar as oposições e dizimar as minorias, como já estava sendo feito com nações indígenas brasileiras.

É preciso que sejamos todos subversivos no bom uso dessa palavra. Contra essa ideia de um país formado por milícias e milicianos dos mais diversos matizes vamos buscar os ensinamentos de gente como o padre Júlio Lancelotti e tantos outros e mostrar que crianças contêm sonhos. Para fazer um país feliz e alargar a cada dia mais seu futuro basta que a gente permita que elas sonhem.

Não à cultura da violência! Não ao novo nazi-fascismo!