26 de maio de 2020

Placebo é coisa falsa mesmo?

Witzel e Bolsonaro. A aliança - ??? - que a política se ocupou de destruir
Não conheço o governador Wilson Witzel e nem a sua história de vida. Vai daí, não ponho nem um pedaço do meu dedinho mindinho no fogo por ele, que dirá a mão toda. Mas há fatos ligados a essa tal de Operação Placebo, desencadeada pela Polícia Federal de Brasília hoje nas primeiras horas do dia que precisam ser esclarecidas. Primeiro: por que a deputada Karla Zambelli sabia disso se a operação da PF deveria ser secreta até a chegada dos policiais ao Palácio Laranjeiras?
Por que o senador Flávio Bolsonaro é intocável, posto que abundam contra ele provas e mais provas de "rachadinha" quando era deputado estadual pelo Rio de Janeiro? Por quê? Porque o vereador Carlos Bolsonaro dá expediente no Planalto, quando o seu local de trabalho é a Câmara Municipal no Rio de Janeiro? Por quê? Por que a PF ou outro órgão de investigação não descobre quem comanda, organiza e financia as manifestações de quase todos os domingos em Brasília, quando aquelas "multidões" de apoiadores vão às ruas apoiar o presidente e desacatar todos os seus opositores?
Vamos admitir, e isso é perfeitamente possível, que o governador do Rio de Janeiro tenha mesmo algo a ver com desvios de dinheiro de compra de aparelhos para manutenção da vida dos cidadãos de seu estado em meio à maior pandemia já enfrentada pelo Brasil. Ele e sua esposa. Que paguem por isso da maneira mais exemplar possível, porque o crime é de uma gravidade inacreditável.
Mas só eles? E os demais? Até as lajotas usadas na última reforma dos palácios do Planalto e da Alvorada sabem que o presidente Bolsonaro tem fixação pela PF. Que lutou até conseguir tirar o antigo diretor geral do cargo. Que queria porque queria trocar a superintendência do Rio de Janeiro. Que já falou inúmeras vezes o "vou interferir" quando se tratava de órgãos de investigação e também que vai defender os filhos às últimas consequências. Por último, que treme toda vez que qualquer dos Bolsonaro é ligado ao episódio Mariele Franco e a milícias. Porque essa fixação? Ou paúra?
Tudo o que o Brasil espera é que esse episódio da Operação Placebo seja levado às últimas consequências, com a apuração de tudo. Mas o Brasil também quer saber como a deputada bolsonarista de raiz soube da operação antes de todos, de onde veio a informação por ela obtida e se a "surpresa" demonstrada por Bolsonaro em seu chiqueirinho hoje era real ou um jogo de cena.
Afinal, temos o direito de saber se esse placebo é coisa falsa mesmo.

22 de maio de 2020

A reunião das descomposturas

Há uma obrigação vital de comportamento, que jamais pode ser evitada quando se trata de reuniões de autoridades, sobretudo as maiores da República: compostura. Num encontro ministerial, com a presença dos representantes de todos os ministérios, e ainda mais quando ele é gravado, palavras de baixo nível jamais devem ser pronunciadas. Mas foi isso o que aconteceu no dia 22 de abril último.
Está sendo triste ver a reprodução total do vídeo e áudio dessa reunião, peça hoje liberada pelo ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal e que as emissoras de TV estão mostrando a todo o País, sem cortes e apesar de todos os palavrões ditos por diversos dos participantes. No Facebook, vi um post da Juíza aposentada Denise Frossard e no qual ele afirma que em seus tempos de magistratura os réus que julgou tinham mais continência (verbal) que os membros do governo Jair Bolsonaro (foto de outro momento), inclusive - e aí acrescento eu - o próprio Presidente da República.
Não é possível a gente assistir a um Chanceler se dirigir sem o menor respeito ao governo de nosso maior parceiro comercial chamando a Covid-19 de "comunavírus", pois isso pode nos trazer sérios aborrecimentos no plano comercial. E numa época da economia nocauteada. Não é possível ouvir de um ministro da Educação que ministros do STF são vagabundos. E nem de uma ministra da Mulher e sei lá de quantas coisas mais que governadores deveriam ser presos por estarem exercendo seu poder legal durante uma pandemia da mais séria que o Brasil já enfrentou.
Pior disso tudo ainda foi ouvir do próprio presidente da República, depois do desfile de uma série inacreditável de palavrões e sandices, que ele tem um sistema particular de informações. Como assim? Isso é inconstitucional! Isso atenta contra as todas normas legais! Que pessoas e órgãos fornecem informações sigilosas a Jair Bolsonaro à revelia das leis vigentes no Brasil?
Foi possível ver claramente, durante a exibição das imagens da reunião do dia 22 de abril, que estamos diante de um presidente que não respeita a Constituição e é capaz de tudo para conquistar seus objetivos, não importam os meios. E também que ele é assessorado por uma trupe de marionetes capazes de tudo para agradar ao chefe e se manter nos cargos.
Pobre Brasil. Mas fomos nós que colocamos aquelas pessoas no poder. E agora resta-nos agir ao abrigo das leis vigentes, submetidos a elas, para mudar o quadro que o Brasil vive. Não há outro caminho a ser seguido. Vamos lutar, minha gente. Mas sempre com compostura e respeito, pois todos os protestos são possíveis sem que se use linguagem chula.       

12 de maio de 2020

"Parmito" não é ofensa...

Jornalistas são idiotas e um deles tem cara de homossexual. Mas isso não é ofensa. Debochar da mulher do presidente da França também não é ofensa. Fazer comentários depreciativos sobre o pai da ex-presidente do Chile também não ofende. Apoiar movimentos ilegais também não é ofensa às leis em vigor no País. Desancar os ministros da mais alta corte de Justiça do Brasil não é ofensa contra eles. O que ofende os outros para você, Jair Bolsonaro?
Você é o presidente mais desqualificado da história do Brasil. Não respeita ninguém e nem ao menos a liturgia do cargo que ocupa. Diariamente confronta as leis e as normas consagradas da nossa Pátria tão vilipendiada. Ontem mesmo o ministro da Saúde tomou conhecimento durante uma entrevista coletiva de um decreto seu que incluía até cabeleireiras como profissão essencial. Você sabe que isso pode ser derrubado pelo STF e os governadores e prefeitos simplesmente vão desconhecer as normas baixadas. Então por que fazer? Simples; para tumultuar, para levar a discórdia ao seio da sociedade. Para reafirmar o que você acha certo embora saiba que não manda mais nada.
Quando você era criança, alto e de pernas muito finas, recebeu o apelido de "Palmito". "Parmito", no  linguajar do interior. Mas com o tempo, "Parmito" para cá, "Parmito" para lá, simplificaram para "Mito". Isso você mesmo admitiu em uma entrevista à TV enquanto ainda era deputado federal, cargo ocupado durante 28 anos no baixo clero, junto ao Centrão, sem mérito algum. Mas, presidente, transformou o nome, para os idiotas de plantão, em um termo que o homenageia. Só que falso!
E daí que é falso?
Tudo na sua vida é falsidade. Inclusive os mais de 40 endereços de internet mantidos na maioria dos casos por robôs para distribuir informações falsas, fake mews, e nas quais muita gente acredita. Como, por exemplo o "jornaldacidadeonline", uma excrescência de edição diária. Você não sente vergonha? Vergonha na cara, digo eu. Porque seria caso de sentir.
Outra coisa: sua carreira no Exército foi toda ela uma derrota só. Até insubordinação grave você praticou. E só não foi expulso da corporação porque à ala de extrema direita de lá interessava um nazifascista atuando no Congresso para enaltecer ditadores sanguinários, torturadores denunciados e desmascarados e para tentar reescrever a história tentando dizer que a ditadura militar não existiu.
Mas existiu sim. E você vai ser derrotado, "Parmito" medíocre.
E nada dito aqui é ofensa!

28 de abril de 2020

Bolsonaro É a velha política

Duas coisas relativas à política atual não se pode negar. A primeira, que o Centrão existe, nunca desistiu de atuar, fecha questão em torno dos seus interesses, representa a velha política e comemora efusivamente todas as suas conquistas como é mostrado na foto que ilustra esse texto. A segunda, que Bolsonaro sempre, ao longo de toda a sua carreira política inexpressiva marcada por 28 anos como deputado federal, foi a imagem pronta e acabada dessa velha política.
Por isso ele se sentiu tão à vontade em receber os representantes dos partidos que formam a, digamos, base, no Palácio da Alvorada. Comemorou sua volta ao ninho antigo com direito a café da manhã e discursos. Agora o Centrão garante a ele uma quase intocabilidade no caso de um processo legislativo por impeachment e, em contrapartida, leva um montão de cargos públicos, inclusive, talvez, o Ministério da Agricultura. É o preço. E Bolsonaro raposa velha da política de troca de favores, sabe muito bem como as coisas funcionam no submundo que ele frequenta.
Claro, não chega a ser um submundo como o das milícias, seus crimes e tráfico de influência. Nem, talvez, tão descarado como o da dança das contratações de parentes e amigos para trabalhar nos gabinetes políticos, muitas vezes em atividades fantasmas. Talvez também nem mais sem vergonha do que empenhar a palavra com as pessoas, subordinados diretos, para voltar atrás depois. Tudo isso é do jogo que o atual presidente da República sabe jogar muito bem. E joga. Fazer um acordo totalmente fora do interesse publico mas com dinheiro do contribuinte, estava nos planos. Como ele não respeita as leis e está muito pouco se importando se seus atos são criminosos ou não, sabia que uma hora, para se salvar, teria que recorrer a quem joga sujo como ele.
Ontem o presidente posou ao lado de seu ministro Paulo Guedes para dizer que este é o homem da economia, quem manda na área do Brasil e ponto final. Mas o "Pró-Brasil", que vai em outra direção, não está sepultado. Mais dia, menos dia reaparece quando Guedes não for mais indispensável como é agora. Não sei se o ministro sabe disso, mas sou capaz de apostar que sim.
O incrível é ele ainda deter cerca de 33 por cento do apoio da população brasileira. Isso se deve em parte a nosso conservadorismo, fruto da falta de informação ou reacionarismo mesmo. Também em parte ao fato de que o PT foi capaz de construir uma imensa ojeriza a ele em parcela imensa da população brasileira ao longo dos últimos 18 anos de exercício do poder.
Mas que ninguém se iluda: Bolsonaro não é apenas a velha política. É o que de pior que ela tem!

24 de abril de 2020

Bolsonaro falou a seu gado

Esperei, nessa triste última sexta-feira de abril, que o presidente Jair Bolsonaro falasse em rede nacional, respondendo ao ex-ministro Sérgio Moro. E ele não me decepcionou: dirigiu-se, como tem feito ultimamente, apenas e tão somente à sua bolha ou, como prefere o filho 02, ao gado que o segue. Ao final ficou em mim a certeza que já tinha: o Diretor Geral da Polícia Federal foi exonerado do cargo por três únicos motivos: Flávio, Carlos e Eduardo.
O Brasil se tornou um país triste. Sim, porque é duro ver todos os dias ministros demitidos, agressões a jornalistas, falta de educação generalizada, rompantes de valentia, tudo isso e mais um pouco enquanto a economia desaba e o risco Brasil bate na estratosfera, num buraco nunca antes visto. E o Presidente falou ontem ao final da tarde secundado por praticamente todo o seu ministério. De pronto só notei a ausência do ministro da Educação. Justamente o que não faz a menor diferença.
Estou anos luz de distância de ser um admirador do ex-ministro Sérgio Moro, e por uma carrada de motivos. Mas entre ele e esse Bozo que o Brasil elegeu para ocupar o Palácio do Planalto, sou bem mais ele. Passou muito mais sinceridade, segurança, clareza e firmeza. E não precisou levar consigo uma imensa trupe de puxa sacos de ocasião.
Mais o mais insólito foi ouvir o presidente dizer que ser chamado de mentiroso o ofende profundamente. Caramba, isso é tudo o que ele sempre foi. Ele e seus três filhos mais velhos montaram no Palácio do Planalto, na sede do Governo Federal, utilizando-se da estrutura deste, o "Gabinete do Ódio". Um cantinho de prostituição da verdade onde se deturpa fatos, se monta esquemas de agressão, se constrói dossiês falsos, se tenta destruir deputações.
E escrevam o que estou dizendo aqui: a conta de Sérgio Moro vai chegar. A essa altura o centro de desconstrução de vidas deve estar trabalhando a todo pavor para cobrar dele a falta de apoio incondicional e irrestrito ao chefe. Ele vai pagar. A partir de amanhã todos os sites de mentiras presidenciais - mais de 40 - vão lançar seu ódio sobre ele. Foi o único a não sair calado. Foi o único a não ter medo da "familícia". Foi o único a enfrentar o esquema. A dar uma versão diferente em uma reunião sem testemunhas, o que é muito conveniente. Isso é imperdoável.
Bolsonaro quer, sim, tirar poder da Polícia Federal. Quer, sim, investigar quem investiga sobretudo seus filhos. E isso para tentar blindar a todos, obstaculando qualquer investigação que tente chegar ao coração do clã, onde ele está.
Só não posso dizer que hoje decepcionou o gado. A boiada está feliz!                     

18 de abril de 2020

Teich, o SUS e Sofia

O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, tomou posse sem pronunciar a palavra SUS. Na véspera, ao ser apresentado pelo presidente da República, fez o mesmo. Falou de pandemia, de letalidade e falta de informações sobre o vírus, em não haver mudanças bruscas e de SUS, nada. Somente silêncio.
Ao lado do presidente, Teich (D) se apresenta como ministro
Aí foram futucar as falas passada dele. Descobriu-se uma relativamente recente e na qual discorre sobre o médico em época de escassez de recursos ter de escolher entre tratar um homem idoso e um jovem. E ele escolhe o segundo, por ter muito mais vida pela frente. O ministro nos remeteu a todos ao drama de Sofia Zawistowa, levada por um sargento nazista a escolher entre os dois filhos pequenos qual deveria viver, qual deveria morrer. Hitler, o ideólogo do sargento e de milhões de outros, também pensava que esse tipo de escolha servia para aprimorar a raça.
O SUS é um instrumento de suma importância para a saúde pública no Brasil, mas tem sido sempre, ao longo dos anos, tratado com pouco caso embora sendo a tábua de salvação dos pobres. Os investimentos para o setor são sempre menores do que as necessidades. E esse governo detesta tudo o que é público. Como as universidades federais e os institutos federais de ensino, por exemplo. Por isso o ministro da Educação trata o ensino público tão mal a ponto de pregar sua extinção. E é um ministro feito sob medida para o cargo: ignorante, mal educado, desconhecedor da língua pátria.
Talvez tudo seja coincidência, talvez não. Talvez eu esteja sendo injusto ao traçar esse quadro sem esperar pelos resultados do trabalho do novo ministro, quem sabe não. Mas pelo passado desse governo que ainda não completou 16 meses, seria prudente ter mais cuidado ao falar. A menos que por motivos a serem revelados ao longo de sua atuação, Teich não tenha como explicar agora.
A Escolha de Sofia representa um momento de profunda dor provocado pela falta de empatia de uma ideologia psicopata que torturava através de exemplos como o narrado na obra de Willian Styron. Um discurso que se aproxima dela deveria separar claramente tempos de paz de situações extremas de guerra. Porque fora disso o médico deve socorrer os dois. Tanto o jovem quanto o idoso.
Teich tem um currículo que confere a ele extrema competência no tratar com a medicina, mas também mostra uma trajetória burguesa e um pensamento voltado ao trabalho médico empresarial. O SUS, obviamente, sempre esteve fora de seu periscópio. Talvez nem o conheça. Mas segunda-feira ele começa efetivamente a mergulhar nas carências do ministério da Saúde e mostrar a que veio.
Pode ter vindo com o intuito de encontrar para a pasta soluções que contemplem a todos. Pode deixar claro ser um instrumento a serviço de um governo representante das elites econômicas. Cada um sabe como melhor homenagear ou rasgar seu passado. A escolha é pessoal.       

15 de abril de 2020

O genocida contido

Mandetta, o único "inimigo meu" de agora para Bolsonaro
O que o Supremo Tribunal Federal fez na tarde/noite desse dia 15 de abril não foi produzir mais uma derrota para o presidente Bolsonaro. Foi impedir a sua escalada em direção a uma política genocida - termo usado pelo ministro Gilmar Mendes -, capaz de deixar totalmente desprotegidos no Brasil os pobres e os índios, duas "raças" que ele detesta.
Infelizmente só por enquanto.
E quando digo "por enquanto" tenho em mente que tão logo o chefe do Executivo encontre uma forma de voltar ao ataque, seja com a ajuda da PGR, dos advogados que o assessoram mais diretamente ou até com o auxílio discreto do Procurador Geral da República, tentará novamente. Está umbilicalmente ligado aos setores empresariais rurais, industriais e comerciais e não vai se afastar destes. Da mesma forma continuará ao lado da ala endinheirada das congregações "evangélicas" e outros. É preciso entender: para essa mente psicopata tal comportamento é uma questão de sobrevivência. No cara a cara, no debate político ele não tem preparo nem moral nem intelectual para enfrentar as raposas da política brasileira. Perderia fácil.
Dou um exemplo de como as coisas funcionam: um diretor do Ibama que investiu contra o garimpo ilegal em terras indígenas foi imediatamente demitido de seu cargo. Se Bolsonaro não pode pura e simplesmente acabar com as reservas, que acabe com os índios, tanto garimpando suas terras quando destruindo suas matas. Não importa se é ilegal. É preciso que nada reste a eles como condição de sobrevivência. Essa é o que pode ser definido como a "política de Estado" do presidente.
É triste. Também é cruel termos que admitir não existir no Brasil de hoje uma oposição capaz de enfrentá-lo, ao menos por enquanto. Nossos lideres no centro e à esquerda ou estão cheios de processos ou acusações de natureza ética. Ou então ainda se amarram a conceitos que os tempos modernos não admitem. São saudosistas de termos como "ditadura do proletariado", tão ultrapassado quanto a ditadura que militares, caladinhos, ensaiam nos impor novamente se o caos social vier.
Enquanto o tempo passa, o COVID-19 se desvia do ainda ministro Mandetta e mata aos milhares ou milhões os paupérrimos. Estes se preparam para morrer, coitados, enquanto representantes do grande capital esfregam as mãos e esperam. Como lobos em tocaia. Sabem que esse Bozo precisa deles como um homem no deserto depende de água. Vão encher-lhe o embornal em troca na manutenção de todos os seus privilégios. Rigorosamente todos.
O momento é crítico porque hoje, como sempre, o brasileiro é presa fácil para todo tipo de demagogo, sobretudo por sua rasa instrução. E é aí que os apoiadores de Bolsonaro darão o golpe. Todos nós sabemos disso da mesma forma como sabemos que pouco mais de dois anos e meio é mísero tempo para ser montada uma perfeita tática de enfrentamento. Ainda, porque o caminho esbarra em ambições políticas pessoais, coisa tão difícil de tirar da frente quanto derrotar a ignorância.

5 de abril de 2020

O que está havendo conosco?

Não me recordo de isso ter ocorrido antes: um presidente da República que ainda não atingiu a metade do mandato - caso de Jair Bolsonaro, que usa máscara cirúrgica na orelha - ser questionado por seu ministro da Saúde, dizer bobagens que ninguém respeita, não falar coisa com coisa e agora ter parte de suas decisões derrubadas pela Justiça ou pelo Congresso. Pior; ainda nos fazer assistir pelas redes sociais à veiculação de  informações dando conta de que na verdade ele não governa mais. Quem faria isso seria o ministro general Braga Neto, membro da alta cúpula do Planalto.
Felizmente - ou infelizmente, nem sei - esse tipo de informação não está confirmada. Mas tudo é muito estranho. Hoje é Braga Neto quem comanda todas as entrevistas coletivas de alto escalão em Brasília. O presidente sai do Palácio da Alvorada pela manhã, estaciona diante de uma ridícula aglomeração de macacos de auditório levados lá para bater palmas e fala disparates os mais variados. Gosta mesmo é de agredir jornalistas da maneira mais torpe possível.
É uma triste situação. Como se não bastasse a ameaça do coronavírus, a última moda lançada pelo presidente é o anúncio diário da edição de um decreto no qual seria determinada amanhã a reabertura de todas as empresas comerciais, fabris e rurais, sem exceção. O cavaleiro da triste figura nacional quer combater o vírus na porrada.
Onde reside a sustentação de um governante como esse?
Mantenho comigo, sobretudo no Facebook, alguns contatos de pessoas que o apoiam. "De direita" e em sua grande totalidade grupo formado por indivíduos, alguns cultos, capazes de tudo para não ver "a esquerda totalitária voltar". Renunciam à capacidade de julgamento crítico apegados à convicção de que os governos de Lula e Dilma Roussef promoveram no Brasil todos o danos que o País apresenta hoje e dão apoio a um presidente cujos maiores ídolos são ditadores sanguinários de um passado recente, além da ditadura militar brasileira.
Essas pessoas, inimigas ferozes da "Globo Lixo" e demais empresas de comunicação, se abastecem de informações em redes de "notícias" ligadas ao governo. Até agora foram contados 41 endereços de "jornais" e outros tipos de "informativos" produtores de fake news. Também se "informam" junto a pessoas ligadas ao presidente, ministros mais chegados ou então os três filhos. Sobretudo o segundo, Carlos, um vereador medíocre do Rio de Janeiro, nazista assumido e que, por mais incrível que possa parecer, mantém gabinete no Palácio do Planalto para ajudar o papai.
O Brasil perdeu a capacidade de raciocinar? Que Brasília sofre uma pandemia de comando é público e notório. Mas assustador mesmo é esse vírus de fragilidade mental ter atingido o homem comum. Principalmente porque algumas das figuras mais proeminentes dessa nossa república agora são membros de uma trupe de vigaristas donos de denominações chamadas evangélicas e que mandam e desmandam montados que são em passaportes diplomáticos e acesso direto ao poder de Estado.
O que está havendo conosco?   

27 de março de 2020

Sempre à noite

Jair Bolsonaro certamente aposta numa quebra de braço eterna com os que não apoiam seus projetos (?) para o Brasil e o combate ao coronavírus, esse aí logo acima. E pretende levar essa luta até o fim. Que seja o fim dele, que seja o fim do País. Sim, porque com os planos do atual presidente não haverá futuro por aqui. Preso na bolha que ele mesmo tricotou, governa (?) com os três filhos ou, melhor dizendo, patetas, e seu chiqueirinho diário para onde atrai jornalistas obrigados a falar em meio a macacas e macacos de auditório previamente selecionados.
Não gosto de dizer esse tipo de coisa, mas Bolsonaro é uma figura patética. Os presidentes da época da ditadura que ele venera tanto, ao menos tinham compostura. Comportavam-se obedecendo rigorosamente ao protocolo. Claro que, à noite, junto a seus capangas fardados ou não, davam ordens de execução de inimigos e compunham os atos institucionais feitos na medida para aos poucos castrarem os direitos da população. Mas isso à noite. Durante o dia chegavam até a sorrir.
Ernesto Geisel, que ao final do mandato ordenou que a cúpula do PCB fosse quase toda ela executada para não sobrar intacta às vésperas da redemocratização que viria com o "prendo e arrebento" de João Figueiredo - aquele que preferia cavalo a gente -, uma vez foi à Inglaterra. Sentindo-se desconfortável em uma vestimenta de rigor antes de se encontrar com a Rainha Elizabeth, disse que estava no "society". E completou respondendo a uma pergunta sobre um assunto caro: "o Brasil é uma democracia em sua relatividade". Estava criado o conceito de relatividade democrática.
Jair Bolsonaro, embora não possa mandar matar à noite - teoricamente falando -, quer desprezar até mesmo a democracia relativa do Brasil. Depois de chegar a receitar remédio contra o coronavírus, esse aí acima, está disposto até a provocar um morticínio no País, cedendo a pressões das diversas classes produtivas para acabar com a política de isolamento das pessoas em época de pandemia. Dane-se; se ele e os seus forem poupados, que os demais cidadãos brasileiros pobres morram como moscas.
Embora não seja inovador nessa área ele, governa unicamente para empresários. E só pensa neles. O restante da população é, para seu governo e entorno, um detalhe espinhoso, desconfortável e que seria retirado do caminho se isso fosse possível. De preferência à noite.
Suas medidas provisórias, decretos e outros são feitas na surdina e com a participação de poucos dos bajuladores incondicionais, dentre os quais estão os ministros Paulo Guedes, Sérgio Moro e outros escalados para ocasiões específicas. Quando as coisas não dão certo e a reação popular surge, ele reforça o chiqueirinho da saída do Palácio da Alvorada, para onde já chegou a levar um palhaço coadjuvante. Se nem isso for possível, escala Abraham Weintraub para dar entrevista...
A bolha se reduz a cada dia que passa. Não importa. Assessorado por um grupo tão pequeno e desesperadamente apegado ao poder, crê na virada da mesa com a mesma convicção com que acredita que ainda teria 57 milhões de votos numa eleição que fosse realizada hoje. E daí? Para quem vive distante da realidade factual, junto a um chiqueiro humano e a um "colegiado" que frequenta ilegalmente o Palácio do Planalto sem ter função pública no local, tudo é possível.
De Preferência à noite...   

15 de março de 2020

Um governo que apenas destrói

Às vezes me fica a impressão de que o atual presidente da República não tem a menor ideia de onde está. Os atos que pratica são tão despropositados, toscos, que há muito tempo ultrapassaram o limite do ridículo e do admissível. Infelizmente ele se alimenta, para continuar agindo da forma mais idiota possível, da multidão de irresponsáveis uteis que enchem as arquibancadas de seu circo imaginário, como aconteceu hoje em muitas cidades brasileiras nos protestos contra os poderes Legislativo e Judiciário. E também - o que constitui crime - nos pedidos por golpe de Estado. A tal "intervenção militar"...
Se o presidente está ou não infectado pelo coronavírus não se sabe, pois o Palácio do Planalto é hoje uma fábrica de "fake news". Mas foi divulgado que ele se encontrava em quarentena. Pois bem, mesmo assim, irresponsavelmente, deixou o Palácio da Alvorada e desfilou por várias ruas de Brasília distribuindo afagos a seus correligionários mais fanáticos. Pegou nas mãos de alguns e fez fotos com outros, como é visto nesse flagrante feito diante da sede do Governo.
O presidente é fã ardoroso dos chefes de Estado da Ditadura Militar. Nenhum deles, em tempo algum. cometeu um décimo das descomposturas públicas de seu macaco de auditório. Nenhum debochou de esposa de presidente, de pai de ex-presidente, deu "banana" para jornalista, disse que algum tinha tipo homossexual e outras coisas mais que parecem até mentiras.
Não consigo imaginar como pode a legião de correligionários de "Bozo" acharem que isso é bonito. Depõe contra o Brasil. Nos faz de palhaços. Somos tratados com pouco caso na arena internacional, em inúmeros países. Hoje investidores se afastam, nosso conceito desaba e o País está estagnado, sem chances de retomar o crescimento econômico que seria desejável em nossa crise sem fim. Fica a quase certeza de termos na chefia de Estado um deficiente mental.
Não vou me alongar porque seria penoso. Mas tenho a mesma certeza da maioria das pessoas que conseguem ver esse governo com a imagem que ele realmente tem: Bolsonaro não possui projeto como chefe de Estado a não ser o de tentar se eternizar no poder. "Governa" para si próprio. Sim, porque um projeto de presidente é uma plataforma de construção. Nesse caso só há planos de destruição. E eles prosseguem apesar de todas as resistências.   

7 de março de 2020

Um Brasil que mete medo

O Brasil de hoje chega a meter medo no cidadão comum. Naquele que gostaria de viver a vida sob o império da lei, sendo governado por pessoas que se submetem ao conjunto de ditames legais do País em vez de imaginar que podem agir ao arrepio das normas vigentes. E o que mais assusta é o fato de que as Forças Armadas brasileiras estão sendo hoje politizadas e manipuladas segundo preceitos de extrema direita política, com todos os danos que isso pode acarretar.
Vamos tornar claros dois pontos essenciais para entendermos o mundo em que vivemos. Aqui e em qualquer outro país as Forças Armadas são instituições de Estado e não de governo. O que significa dizer que elas existem para identificar a defender as bandeiras que as representam e não os governos eventualmente no exercício do poder. É imensa e diferença entre um órgão de Estado e outro de governo. O primeiro é perene. O segundo passa sempre que mandatos se findam.
Além do mais, ao longo dos tempos as revoluções só mudaram a história quando foram feitas pelos povos e a reboque da vontade popular. Aquarteladas militares sempre serviram apenas e tão somente para a perpetuação de privilégios ou do deslocamentos desses de uns para outros grupos hegemônicos. A Revolução Francesa é até hoje o exemplo mais clássico de movimento de massas. Revolução marcadamente burguesa, ela enterrou um império moralmente deteriorado e gerou em seu lugar uma república que se sustenta até agora, vencendo crises e obstáculos vários.
O Brasil de hoje, governado por um despreparado, seus filhos e gurus, é um país eticamente alquebrado. Nasceu da reação popular contra um partido político - o PT - desgastado por crises e acusações de corrupção, e para retirá-lo legalmente do poder 57 milhões de brasileiros optaram pela extrema direita intelectualmente indigente. Sou capaz de apostar que pelo menos 50 por cento dessas pessoas não sabiam o que estavam fazendo. É comum ouvir hoje de ex-eleitores do atual presidente que anulariam seu voto ou votariam no candidato do PT em 2018 se soubessem o que teriam pela frente. Mas o fato é que votaram mal e elegeram um péssimo governo legítimo.
Esse (des)governo não respeita nem o cidadão nem as instituições do País. O presidente, com claras e inequívocas tendências autoritárias ou ditatoriais, chega ao cúmulo de levar um palhaço para encontro com jornalistas na entrada do Palácio da Alvorada e pedir à população, por meio de redes sociais, para comparecer a um ato no qual será questionada a legitimidade de dois poderes da República. Um deles, o Legislativo, eleito pelo mesmo sistema eleitoral que consagrou o presidente do País e seu entorno de figuras decrépitas. O sistema que ele exige ser respeitado.
É um momento triste. Mas os brasileiros haverão de vencer seus desafios atuais para trilhar o melhor dos caminhos: aquele que segue ao lado da legalidade e da Constituição.     

18 de fevereiro de 2020

Não é hora de protesto, é hora de processo!

Nos últimos tempos o presidente Jair Bolsonaro tem ultrapassado todos os limites da decência no trato com os jornalistas aos quais ele "dá entrevistas" nas saídas matutinas diárias do Palácio da Alvorada. Junto com convidados para cumprimentá-lo quando sai do carro na ida para o Palácio do Planalto, elege um assunto para falar aos repórteres que se postam lá. No mais das vezes responde a questionamentos com grosserias típicas de desqualificados. Hoje pela manhã disse que uma repórter da Folha de S. Paulo queria dar "o furo" sobre ele.
E tudo o que se lê ou ouve ou vê em seguida são notas de protesto. Chega, está na hora de esse tipo de desrespeito ser revidado com processos judiciais nas instâncias adequadas.
Acredito que Bolsonaro nunca entenderá quais são os limites de seu cargo. Como funciona a presidência da República e que liturgia deve ser seguida por aqueles que ocupam o mais alto posto do Executivo. O linguajar chulo que ele usa já foi assimilado por muitos de seus ministros. Isso fatalmente teria que acontecer, pois o do atual presidente é o pior ministério jamais escolhido na história do Brasil republicano. A indigência intelectual e moral daquele grupo de despreparados chega a assustar. Ao bando inicial agora se somou o ministro da Economia, Paulo Guedes. Depois de dizer que a esposa do presidente da França "é feia mesmo", pirou. Sua última insensatez, logo depois de chamar os funcionários públicos de "parasitas" foi dizer que com o dólar baixo as empregadas domésticas vão continuar viajando para a Disneylândia.
Nem mesmo o ministro da Educação, Weintraub, consegue chegar ao nível de esgoto do presidente. Afinal, este é só ignorante. Já o chefe, não. Ele é totalmente despido de pundonor. Suas reações públicas a críticas ou então ao que apenas o desagrada chegam às raias do absurdo. Ou são "bananas" como a da foto, ou então acusações torpes de homossexualismo - o que é uma questão pessoal - dirigidas a um repórter ou então a cruel grosseria desta manhã na saída do Alvorada.
Bolsonaro é capaz de elogiar ditadores sanguinários nos países destes, de agredir o pai de uma ex-chefe de Estado e de ter como heróis um torturador do regime militar ou então um chefe de milícias amigo seu, morto em queima de arquivo no interior da Bahia.
Chega!
Não é possível aceitar mais uma situação dessa. As entidades que representam os jornalistas e os meios de comunicação do Brasil têm a obrigação de lutar para dar um basta a isso pelos meios legais. Caso contrário vão merecer a alcunha de bananas. E as "bananas" que o desqualificado envia a nós todos.

13 de fevereiro de 2020

Ah! Essas empregadas domésticas...

Ah! Essas empregadas domésticas não tomam jeito mesmo! É um absurdo elas ficarem indo à Disneylândia todo ano como acontecia no passado!
O governo atual parece comédia. E seria uma, caso não fosse tão ruim, tão movido a ódio como é. Mas num ponto tem características monolíticas: praticamente todo dia alguém é escalado para falar uma besteira de grandes proporções. E ultimamente a bola da vez tem sido o ministro da Economia, Paulo Guedes e que fala com trejeitos capazes de lembrar Michel Temer. Aquele que chamou os servidores públicos de parasitas. Agora investiu contra as empregadas domésticas que cometeram o desplante e o descaramento de irem à Disneylândia. Logo elas que deveriam no máximo viajar até Cachoeiro...
Lembro-me de um fato passado faz muitos anos. Uma empregada foi expulsa do elevador social de um prédio vizinho à casa onde meus pais moravam, em São Paulo porque, segundo a síndica, não sabia onde era seu lugar. E obviamente o lugar dela era no elevador de serviço. Não me recordo agora se seria mulher negra (imagino que, caso fosse, isso representaria sério agravante!).
Assusta o fato de o atual governo brasileiro nutrir tantos ódios. Pelo que eles chamam de pessoas "de esquerda" seria de esperar. Afinal, "de esquerda" são todos os que discordam do (des)governo Jair Bolsonaro no plano político. E os milhões de opositores só aumentam.
Agora fica explícito o ódio da camarilha federal nutrido contra pobres. Imagino que na visão dessa gente, a massa imensa de famélicos brasileiros é constituída por incompetentes, incapazes de vencer na vida como "as pessoas de bem". O presidente não sabe o que é justiça social. Entre um passeio e outro de moto aquática pelo Lago Paranoá ele admira as mansões de Brasília, curtindo a paisagem. "Aqui é o meu lugar", deve dizer para consigo mesmo e enquanto queima gasolina com dinheiro público.
Nessas horas ele nem pensa no assassinato do Adriano da Nóbrega, no silêncio sobre o assunto somente quebrado ontem para o discurso tipo "não tenho nada com isso" do filho Flávio, nas repetidas tentativas de regularizar de uma vez por todas o extermínio do meio ambiente, no "confinamento" dos índios, no descaso para com a Constituição, etc,etc, etc.
Um governo sem projeto que não seja o de destruir o que foi feito por todos os que o antecederam (exceção feita aos ditadores da "Revolução"), sem metas que possam ser medidas, com fixação em colocar a culpa por sua incapacidade administrativa na "esquerda" precisa mesmo escalar todos os dias um auxiliar para arrotar valentia e vomitar asneiras. Esse é seu maior projeto!
E, convenhamos, nossas empregadas domésticas continuam sem saber qual é seu lugar...

14 de janeiro de 2020

O homem que chora na fila...

A crise envolvendo os quase dois milhões de contribuintes da Previdência Social que não conseguem nenhum tipo de atendimento em todos os postos da instituição no Brasil mostra de maneira clara, inequívoca e dramática como o atual governo federal é incompetente. Não apenas isso: é insensível e voltado apenas e tão somente a interesses corporativos localizados, além das crenças políticas retrógradas e de viés nazi-fascista do presidente da República.
Nada pode justificar o fato de os brasileiros verem pela TV a imagem de um homem idoso amparado por duas mulheres que lhe oferecem uma garrafa de água mineral, chorando copiosamente porque não consegue fazer "prova de vida". No desespero, sofrendo pelo desamparo cruel das autoridades de seu País, pode acabar morrendo naquela fila. Talvez seja esse mesmo o seu destino.
Desde que tomou posse em janeiro do ano passado o atual presidente Jair Bolsonaro tem como objetivo básico de seu mandado desconstruir. Totalmente perdido em meio a demonstrações de sua incapacidade de entender como funciona um estado democrático e de direito, ataca jornalistas todos os dias, faz sinais de armas com as mãos como um débil mental qualquer e reforça em todos a agora quase certeza de que nem ele nem seus ministros sabem onde estão e para onde vão.
E é um ministério e tanto! O ministro da Educação não sabe escrever. O do Meio Ambiente foi condenado em processo transitado em julgado por crime ambiental. Há certa ministra capaz de jurar que meninos vestem azul e meninas, rosa. O das Relações Exteriores consegue não ser respeitado nem ao menos por seus pares do Itamarati. E o da Economia defende descaradamente interesses corporativos os mais diversos, inclusive e principalmente dos organismos nacionais que representam o ensino privado e que são capitaneados por sua irmã. Graças a isso o outro, aquele que não sabe escrever, encontra tempo para ver "viés de esquerda" e plantações de maconha em todas as universidades públicas e institutos federais de educação que deseja destruir para agradar ao patrão.
Em meio a esse caos, de que maneira o indivíduo que depende da estrutura da Previdência espera ser atendido? Não é da bancada evangélica, da bala ou ruralista. Não representa grandes corporações comerciais ou industriais. Não se sente obrigado a comparecer diariamente à saída do Palácio da Alvorada para bater palmas ensaiadas ao presidente. Como esperar qualquer coisa?
O contribuinte da Previdência vive a angústia atual porque não é nada.  Rigorosamente coisa alguma para o atual governo. Não está no seu horizonte de prioridades, mesmo minimamente. Aquele filmado chorando por não poder provar que está vivo faria um favor imenso se morresse na fila ou fora dela, pois para o governo tanto faz.  Pode parecer duro dizer isso mas é a mais pura verdade.     

13 de dezembro de 2019

Bolsonaro e o pau de arara

As pessoas se revelam em gestos e palavras. Não há como fugir. O presidente atual, às vésperas de completar um ano de mandato, além de ter se mostrado destemperado, desrespeitador de pessoas e familiares delas, de se ter revelado um extremista político de direita, deixou claro nos últimos tempos que sonha muito com métodos de tortura. Vira e volta fala em pelo menos um deles. Agora disse que seus ministros, se não andarem na linha, terminarão no pau de arara.
Esse método de suplício, digo a quem não sabe, foi muito utilizado durante a ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1985. Também foi largamente usado por organismos policiais ao longo dos tempos. A ilustração desse artigo mostra como ele é. Provoca dores intensas, quase lancinantes. Conheci um homem que passou por isso. No resto da vida precisou de ajuda psiquiátrica e morreu jovem por causa de problemas neurológicos provocados por sua provação. Maiores informações sobre isso talvez o presidente Bolsonaro possa dar melhor do eu eu. Vira e volta fala do assunto.
Muita gente não sabe, mas grande parte dos métodos de tortura aplicados durante a ditadura militar do Brasil foi aprendido pelas"forças de segurança" brasileiras junto a organismos de repressão norte-americanos. Os Estados Unidos aperfeiçoaram seus sistemas de suplício contra inimigos desde o início do seculo passado, quando inauguraram o imperialismo ocupando vários países asiáticos.
Bolsonaro gosta de tudo o que é violento. Além de ser fotografado fazendo gestos de armas com as mãos como um débil qualquer, sempre que possível elogia ditadores sul-americanos quando viaja aos países destes. Já agrediu a esposa do presidente da França, o pai da ex-presidente do Chile e do presidente nacional da OAB. Compostura nunca foi coisa de sua predileção.
Mas o mais importante é a fixação que tem pelo AI-5, e transferida a alguns de seus ministros com grande apreço pelos cargos. Esse Ato Institucional acabou com as liberdades civis do Brasil durante a ditadura, extirpou o direito de hábeas corpus e estuprou a nossa Constituição por vários anos.
Agora estamos diante de mais uma das fixações do presidente: o pau de arara. Como ele gosta muito do torturador Brilhante Ustra, às vezes penso que deve ter ouvido falar sobre isso com seu ídolo já morto. Não sei se deve só ter ouvido falar, mas há muita gente viva ainda no Brasil e que passou pelas salas de tortura daquele psicopata durante a ditadura militar. Elas sabem quem ele foi.
Digo: cada povo tem o governo que merece. Para que pudéssemos combater governantes que realmente cometeram roubos durante seus períodos de exercício do poder, tivemos que eleger o que de mais sórdido a política brasileira tinha guardado para nos punir a todos. E ainda emergiu diretamente do Baixo Clero onde havia hibernado por 28 anos sem fazer nada.
Nossa punição parece ainda estar no início...     

26 de novembro de 2019

O artigo 142 precisa mudar

Em entrevista ontem ao jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro admitiu publicamente e pela primeira vez o que todo mundo já sabia: seu projeto de lei (PL) que prevê a figura do "excludente de ilicitude", unido à decisão de usar o artigo 142 da Constituição em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) visam unicamente impedir que haja no Brasil protestos contra seu governo. E não existe nada mais antidemocrático do que isso: blindar-se contra os que se opõem a seus atos.
Ou seja: não é possível que um presidente, sozinho, possa convocar as Forças Armadas para irem às ruas reprimir passeatas e outros tipos de protestos civis. Ainda mais quando a isso se soma um PL que nada mais quer dizer além de uma explícita autorização para matar. É preciso que o Congresso modifique o texto constitucional do artigo 142 para impedir que um presidente convoque sozinho as Forças Armadas em repressão de movimentos populares, a menos que esse ato tenha também o respaldo do Senado Federal, da Câmara Federal dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal e nas pessoas de seus presidentes em exercício. Lembremo-nos: Exército, Marinha e Aeronáutica existem para a defesa do Estado quando este está sofrendo ameaça à sua integridade, sobretudo externa.
Tudo o que o atual presidente pretende fazer está amparado em um artigo da Constituição Cidadã do Brasil que diz: "As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem (grifos são meus).
Desde 1988, quando a Constituição foi promulgada, jamais um chefe de Estado fez uso desse artigo. Nem mesmo Fernando Collor ou Dilma Roussef, alvos de protestos que tomaram as ruas e levaram aos seus afastamentos. O primeiro renunciou. A segunda sofreu impeachment. Em todos os 31 anos de vigência da Constituição, os presidentes entenderam que o povo tem o direito de se manifestar, sobretudo nas ruas. Como dizia Castro Alves, "a Praça é do povo, como o céu é do condor..."
O desapreço de Bolsonaro pelos direitos daqueles que se opõem a ele e aos valores da democracia representativa são de conhecimento público. Enquanto ele usa essa falta de princípios apenas e tão somente para seus toscos discursos públicos diários não há problema. Muitos até riem. Mas quando seus atos chegam ao absurdo de ameaçar toda a população brasileira com mortes indiscriminadas sob o argumento de que quem protesta é "terrorista", a coisa adquirem outra dimensão, e se torna muito mais séria.
Não custa lembrar para não nos alongarmos muito: em 1985, quando a ditadura militar acabou no Brasil, a imagem das Forças Armadas estavam incrivelmente desgastadas porque, ao longo dos 21 anos anteriores elas haviam se envolvido em episódios de prisões ilegais, torturas e assassinatos. Não creio que aos militares interesse hoje a volta de tudo isso nos casos de protestos de cidadãos, ainda mais de estudantes (como mostra a foto) ou de trabalhadores sem terra e agora sem futuro.                         

13 de novembro de 2019

Saudades dos meus generais...

Não há meio de Jair Bolsonaro se esquecer dos anos - caros para ele - da ditadura militar. E nem de governar sem pensar em retaliar contra o imenso espectro político de brasileiros que são contrários aos atos, na maior parte das vezes espúrios, de seu governo. Agora, saudoso da ditadura militar, quer criar um partido político só dele, todo dele, para chamar de seu: a Aliança pelo Brasil. Vulgo Aliança.
Por que isso? Porque Bolsonaro não consegue se esquecer da Aliança Renovadora Nacional, a ARENA, partido criado para dar sustentação política à ditadura militar que infelicitou o Brasil  de 1º de abril de 1964 até 1985, quando João Batista Figueiredo botou o pijama. Ao final do regime ditatorial, quando a sigla já estava desgastada, seus líderes pediram aos seguidores para abandonarem o nome ARENA, então símbolo de prisão ilegal, tortura e assassinato, e passarem a chamar o partido de Aliança. Não deu tempo. Logo a ditadura se tornou um passado triste e sombrio.
Capitão forçado a deixar o Exército depois de ter se insubordinado mais de uma vez, militar de raros predicados, Bolsonaro adora viver com oficiais generais no seu entorno, todos batendo continência para ele. Político do baixo clero, 28 anos em Brasília sem fazer nada digno de nota, vibra com o fato de ser ignorante, violento, raivoso e inconsequente. Dentre outras "virtudes". Como justamente hoje, quando fez vista grossa à invasão da embaixada da Venezuela em Brasília por supostos militantes da oposição naquele país. Nem mesmo nas épocas mais tristes da ditadura militar o governo permitiu que nossa diplomacia, de tão caras e honradas tradições, se permitisse a um papel tão rasteiro.
Mas se presta. Principalmente porque o Brasil tem hoje o pior chanceler de sua história. O Ministro da Educação mais inculto. Um ministro do Meio Ambiente já condenado em processo contra o meio ambiente. Alguns outros enrolados com a Justiça. E a grande maioria composta por pessoas sem méritos e, por isso mesmo, que seguem o "líder" como o boi segue a boiada. Não preciso citar Damares Alves, a titular da "Família", sempre em busca de Jesus no pé de goiaba.
Hoje, em plena reunião do BRICS enfrentamos o desconforto, o vexame de receber chefes de Estado quando uma representação diplomática estrangeira está ocupada em Brasília. Fossem ocupantes socialistas ou comunistas e seriam terroristas. Como são fascistas, Bolsonaro os tolera. Acho que diariamente, ao se deitar ou levantar, ele diz para consigo mesmo: "Saudades dos meus generais da época da ditadura militar. Que não vai voltar mais. Nunca mais". Aposto que é assim!

30 de outubro de 2019

A terceira lei de Newton

Durante toda a campanha política do ano passado, para não dizer desde sempre, Jair Bolsonaro tratou seus adversários políticos e as pessoas das quais não gosta pessoalmente com um desrespeito absoluto, capaz de atingir as raias do absurdo. Fez críticas cruéis à esposa do presidente da França. Ao pai da ex-presidente do Chile. Elogiou ditadores sanguinários ao chegar à capital dos países desses, em viagens internacionais. Enfim, praticou todos os atos espúrios que um chefe de Estado decente não deve praticar jamais. E fez isso às vezes rindo seu riso debochado de todos os dias.
Esqueceu-se, se é que conheceu um dia, da terceira lei de Newton: "A cada ação corresponde uma reação igual e contrária". Isso vale para a física. Isso vale para tudo na vida.
Vamos nos ater a um caso apenas: foi a Buenos Aires durante a campanha presidencial argentina e, para demonstrar apoio à reeleição do presidente Macri, tratou com desprezo e desrespeito o hoje presidente eleito Fernandez. E agora está sentindo que sua maneira de agir, anos luz distante do que é fazer política com diplomaria, afasta o Brasil da Argentina. E prejudica nossos interesses comerciais. Isso ocorre ao menos também na França, Alemanha e Irlanda. Em muitos outros países ele é visto ao menos com desconfiança, embora tente vender publicamente uma outra imagem. Falsa.
Seu último episódio foi contra a Rede Globo. A emissora conseguiu dados que demonstram possíveis ações de despistamento de envolvidos no caso da morte da vereadora carioca Marielly Franco, no Rio de Janeiro. Um dos possíveis assassinos, indivíduo já denunciado, entrou no condomínio onde mora Bolsonaro alegando que ia à casa onde reside não seu provável comparsa, mas o atual presidente.
Em acesso de fúria pela divulgação da notícia - que é sim um fato jornalístico - Jair chegou a chamar a empresa de canalha (foto). Isso pouco tempo depois de colocar no ar em seu perfil pessoal um ridículo vídeo onde um leão - no caso ele - é cercado por hienas identificadas como "inimigos". Uma delas, o Supremo Tribunal Federal. O mesmo STF que, por iniciativa de seu atual presidente, impede o prosseguimento de investigações nas quais está envolvido Flávio, filho de JB. Que inimigo!
A corda talvez esteja começando a apertar no pescoço do pior chefe de Estado da história brasileira. Vai ser preciso esperar pelo desdobramento dos fatos antes de qualquer avaliação mais segura. Mas a terceira lei de Newton agora é uma companheira inseparável no dia a dia do presidente do Brasil. Quer ele queira, quer ele não queira. Ou não goste, pois dá no mesmo.

23 de outubro de 2019

Aqui não é o Chile!

Vamos tentar entender o seguinte: o Estado existe para prestar serviços à população com o dinheiro que arrecada de nossos impostos. A iniciativa privada, para gerar lucros em suas mais diversas atividades, não importando o custo disso. Sobretudo, não importando o custo social.
Por que o Chile está em ebulição? Porque desde 1973, quando houve o golpe que derrubou o presidente Salvador Allende - o maior de todos os chilenos -, os direitos dos trabalhadores foram sendo aos poucos dilapidados. Hoje, mesmo depois dos governos tímidos de Michele Bachelet, a população daquele belíssimo país andino não tem mais ensino público gratuito nem nas universidades do Estado, e acabou a saúde sem cobranças inclusive nas instituições que praticam o sistema público deles. Mais: até quem tem plano particular só obtém sem cobrança a saúde básica. O mais é pago.
O pior ainda está por vir: como o sistema de previdência foi todo privatizado em um modelo que se parece muito com o que o ministro Paulo Guedes está querendo nos fazer botar goela abaixo, houve um gradativo achatamento das pensões e aposentadorias. Claro, se a arrecadação cai as empresas administradoras do sistema não vão deixar de lucrar. Sua galinha dos ovos de ouro continuará reduzindo ou congelando valor dos benefícios. A população que se dane.
Eis o caldo de cultura da revolta popular e da aguda crise chilena.
Porque se quer tanto privatizar a Previdência do Brasil? Porque, com o tamanho de nossa economia, isso vai gerar imensos rios de dinheiro. O Amazonas será um mero riacho. E os pobres vão a cada dia ser menos remunerados. Isso até quando um pequeno reajuste de passagem de ônibus e metrô representar a diferença entre poder usar ou não esse serviço público. For a gota d`água.
Um estudo recente descobriu que das nossas poucas universidades de referência mundial a imensa maioria é de instituições do Estado. São Universidades Federais ou Institutos Federais de ensino. Mas o Estado brasileiro quer destruir essa estrutura. A irmã do ministro Paulo Guedes é presidente(a) da associação que alberga o ensino privado do Brasil. E a iniciativa privada que representa também quer seu quinhão, mesmo que isso signifique tirar das imensa parcela de brasileiros.
A "famiglia" Bolsonaro tem seus interesses ligados a isso tudo. Os ministros também, da mesma forma que as instituições "religiosas" - respeitemos as verdadeiras! - ligadas umbilicalmente apenas a ganhos financeiros. Por último, destruir a Amazônia, também faz parte do grande projeto desse governo que nós erradamente elegemos apenas para votar contra o PT, pois o ganho será incomensurável. E aqui me penitencio: desgraçadamente anulei meu voto. Nunca mais voltarei a fazer isso.
Daqui para a frente, meus amigos, vamos dizer como o homem da foto, na revolta chilena: Não mais. AQUI NÃO É O CHILE e nossa revolta ainda pode e deve ser expressa pelo voto e pela pressão sobre o poder. Afinal, ele foi constituído por nós mesmos.       

16 de outubro de 2019

Ideologia do absurdo

A Assembleia Legislativa do Espírito Santo, seguindo uma tendência nacional pelo obscurantismo intelectual e político, deverá votar e aprovar hoje um texto que criminaliza professores acusados de propagar "ideologia de gênero" entre os estudantes, sobretudo do primeiro grau. Essa reação nasceu de uma série de graves equívocos (?) didáticos de professores, como a que passou para uma estudante de 12 anos lição de casa onde a mandava pesquisar na internet assuntos como sexo oral e masturbação. Obviamente, isso não é nada didático.
Esse termo "ideologia de gênero" nasceu em 1995 na ONU, numa das reuniões da Organização, trazido a ela por sociólogos. Hoje é usado por aqueles que contestam o princípio de que os gêneros seriam construções sociais. Para eles já se nasce menino e menina e ponto final.
Se fosse assim tão simples não haveria o homossexualismo, que é a atração sexual de um ser por outro do mesmo sexo ou gênero. Está claro que o indivíduo nasce fisiologicamente menino ou menina. Mas se a pessoa será heterossexual ou não, isso vai depender de uma série de fatores. E a esmagadora maioria deles será, sim, social. Ou isso ou o sujeito não seria o fruto do seu meio.
Nada justifica o fato de um professor querer substituir o papel do pai e da mãe na escola e pretender dar aulas de pseuda orientação sexual para crianças. Da mesma forma, nada numa sociedade laica como a nossa permite a um legislador, sobretudo marcado por conceitos religiosos que podem ser considerados manipuladores, de querer interferir nas funções do Estado.
O texto a ser votado hoje é extremamente subjetivo. De propósito, pois sua intenção é a de permitir que, por visões teológicas, os detentores do poder possam impor seus dogmas aos outros, mesmo que isso signifique contrariar os princípios do Estado Laico. Ou seja, a Constituição da República.
Não existe "ideologia de gênero". E aqui não importa se a gente considera a ideologia com definição filosófica ou política, tenha essa características marxistas ou não.
O que existe é "identidade de gênero". Um ser  humano, depois de formado intelectualmente, vai inevitavelmente se identificar no terreno das preferências sexuais. Como resultado do meio ou de sua abstração intelectual, será heterossexual, homossexual ou o que mais houver. E a vida seguirá seu curso, independente do que pensam aqueles que desejam impor dogmas aos demais movidos pelo calor das montanhas de dinheiro recolhido em cultos evangélicos suspeitos, ou então das aulas de educadores que fazem mal ao próximo tentando substituir as famílias.
E como se não bastasse isso tudo, o texto a ser aprovado hoje tem conotações inconstitucionais. Cabe aos governantes analisar isso antes de aprovar tais leis de ocasião.             

9 de outubro de 2019

"Cara de pau é você!"

Tenho muitas histórias para contar da época da ditadura militar na vida dos jornais. Havia censura todos os dias, sim. Brava. E muita gente morreu depois de sofrer prisão ilegal e tortura. Só para ilustrar, hoje a vou falar de duas pessoas muito bacanas. Os irmãos Eugênio (foto ao lado) e Darcy Pacheco de Queiroz eram diretores do jornal A Gazeta (aquele que era de papel, vocês devem se lembrar...) e cunhados do principal proprietário da empresa, Carlos Fernando Monteiro Lindenberg, que se casou com as duas irmãs deles. Quando a mais velha morreu, pegou a mais nova...
"Seu" Eugênio, como o chamávamos, cuidava da parte administrativa da empresa. E de parte da interface com o público principal, político. Quando morreu, meu amigo jornalista Paulo Maia chorou muito no velório. Maura Fraga, outra amiga jornalista registrou o fato dizendo que nunca havia visto o Paulo chorar antes de ele ver o corpo "daquele homem sincero". E era assim mesmo.
Na campanha pela legalidade do PCB, botei um cartaz "PCB LEGAL" numa das paredes redação, então já na Rua Chafic Murad. No dia seguinte "Seu" Eugênio me esperava na porta: "Seu Álvaro, mandei tirar o cartaz do Partido Comunista da redação. Mas tirei também os cartazes da Arena. Quero evitar discussão política aqui dentro". Eu simplesmente dei um abraço naquele homem sincero.
Tempos antes disso, ainda na sede da Rua General Osório, Aninha, que era a pessoa encarregada de fazer e servir o cafezinho, entrou na redação e disse: "Chico Flores, Luiz Rogério Fabrino e Álvaro Silva. O general está chamando vocês na sala dele". Lá fomos nós para ver o Diretor Responsável.
Chegando lá havia um coronel do Exército sentado diante do general. Ao lado, dois ordenanças. Darcy, que adorava minhas piadas de sacanagem, olhou para nós e disse: "Gente, o coronel Fulano está chegando do Rio para assumir o 38 BI. E está preocupado porque soube que há membros do Partido Comunista na nossa redação. Vocês, editores, sabem de alguma coisa sobre isso?"
Luiz Rogério disse que jamais havia ouvido falar desse caso. Chico jurou que se encontrasse comunista denunciaria na mesma hora. Eu falei: "Sou editor de esportes, general. Não sei nada de política". O general olhou então para o coronel, que disse: "Estou convencido, general Darcy. E menos preocupado". Ato contínuo levantou-se e saiu junto com os ordenanças, cumprimentando-nos formalmente e apenas de passagem.
Nós rimos muito após sair da sala. Os três membros do PCB na redação de A Gazeta éramos nós mesmos, Chico, Luiz Rogério e eu. E Darcy Queiroz sabia disso muito bem. Muito bem mesmo...
No dia seguinte eu entrava na empresa para trabalhar e cruzei com o general que saia para almoçar. Dei um sorriso e disse:
- General, o senhor é um cara de pau!
Ele devolveu o sorriso e completou:
- Eu? Cara de pau é você!                               

3 de outubro de 2019

A GAZETA fez a terra tremer

Parece surrealismo que A GAZETA circulou pela última vez domingo último no Espírito Santo. Desde o anúncio do fim do jornal impresso as pessoas imaginavam que tudo seria desmentido no final. Tipo: "1º de abril, gente!". Mas não. Aos 91 anos de idade, aparentemente consolidado ele encerrou as atividades para evitar a falência mais do que certa. Não foi uma opção pelo progresso tecnológico, como se tenta fazer crer em todos os informes da Rede. Foi a saída honrosa encontrada como o "corolário" de anos de vividos incompetência empresarial.
Hoje, vários assinantes tentam cancelar as assinaturas sem migrar para o digital e não conseguem contato com a empresa por telefone. Outros passam raiva tentando ler as notícias pela internet num site feio demais e com um preço de assinatura para lá de caro. Irreal!
Conheci A GAZETA em 1971 quando entrei para trabalhar. A exemplo da Rede Globo e muitos outros grandes órgãos de comunicação, era uma empresa cooptada pela ditadura militar para lhe dar sustentação. Um esforço de legitimação do golpe que havia derrubado o presidente constitucional João Goulart e, passado o ímpeto inicial das "Marchas da Família com Deus pela Democracia" e outras farsas, agora precisava fazer o esforço de ser aceita pela parcela culta da população.
Vivi A GAZETA da Rua General Osório e da Chafic Murad. Como AG seguiu religiosamente a cartilha da "Revolução", foi durante algumas décadas agraciada com verbas oficiais generosas via publicidade estatal. Como a Rede Globo. Foi feito naquela época o mesmo que Jair Bolsonaro, um filho bastardo dessa mesma ditadura, tenta fazer agora em sentido inverso. A sede da Chafic Murad foi erguida graças a isso. Da mesma forma que o império da Globo.
E era gostoso trabalhar lá, ainda que com toda a censura interna, oficial ou não. Fiz grandes amigos, aprendi o que sei de jornalismo graças ao convívio com os melhores deles. Tenho tantas belas histórias para contar dessa época que dariam um livro. Mas prefiro me relembrar sozinho, rir sozinho, curtir as recordações desse passado recente, da lida diária por levar informação aos leitores.
A GAZETA começou a naufragar quando perdeu a boa vida dos recursos oficiais e também de grande parte da publicidade privada. Cometeu erro sobre erro, principalmente trazendo para o Espírito Santo profissionais de São Paulo que nada tinham a ver com a cultura capixaba. Eles, exceto Kaka, hoje dirigindo Metro, foram aos poucos formando o caldo de cultura da derrota final. De tanto promover reformas sem sentido, a mais antiga empresa de jornalismo impresso ainda funcionando no Estado conseguiu fazer com que seu leitor não mais se reconhecesse lendo o jornal. Ou então não mais reconhecesse no jornal aquele que ele havia se acostumado a ler todos os dias. Isso é fatal.
Parabéns empresários de A GAZETA. Vocês mataram seu filhote e a terra tremeu mesmo, domingo último em Vitória. Que pena!
     

27 de setembro de 2019

A(s) família(s) acima de tudo

Elizabeth ao lado do irmão ministro Paulo Guedes. A família é tudo... 
Desde o início de seu governo o presidente Jair Bolsonaro guarda consigo alguns carmas que parecem ser caros. 'Soberania', por exemplo. Ele se apega ao termo como se o Brasil estivesse a ponto de sofrer intervenção armada por parte de alguma grande potência estrangeira. Pela fixação que tem em dois países muito 'poderosos', ou é a Venezuela ou é Cuba! Estamos fritos!
Outro termo caro ao bolsonarismo é 'patriotismo'. Se olharmos os dicionários e a raiz das palavras encontraremos coisas como 'sentimento de amor, orgulho e devoção à pátria e seus símbolos'. Ora, penso eu: sou patriota! Ledo engano. Como discordo de quase todas as coisas que esse governante faz, não faço parte do grupo. Patriota então seriam as pessoas que sentem orgulho, amor e devoção à pátria e, ao mesmo tempo, defendem incondicionalmente o governo atual. Em suma, os 'bolsonaristas de raiz', e somente eles, se adequam a esse status. Um estranho status...
Mas o maior de todos os carmas é 'família'. Não há uma única manifestação pública do presidente na qual ele não fale disso. É apaixonado pela sua. Tanto que faz o possível, o impossível e o inimaginável para emplacar seu filho Eduardo como embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Afinal, 'meu filho, meu tesouro' sabe fazer hambúrgueres como ninguém mais...
Esse amor desmedido contaminou a todos. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, quer emplacar um irmão seu num organismo encarregado de julgar seus atos. Afinal, quem trai aos seus é monstro. E ele conta com o apoio do ministro da Economia, Paulo Guedes, que adora a irmã, Elizabeth Guedes, professora e presidente(a) da Associação Nacional das Universidades Particulares - ANUP -, e já abriu as portas do poder em Brasília a ela. Sobretudo as do Ministério da Educação onde, com a ajuda de Weintraub, desenvolve-se o projeto de destruição parcial ou total das universidades públicas do Brasil. Projeto esse que vai de vento em popa...
E essas universidades de 'zebras gordas' concorrem com aquelas que Elizabeth tão bem representa. Não pode acontecer isso, concordam comigo? Essa aberração tem que acabar no atual governo. Tanto que um dos programas em curso é não haver mais concurso para professores nas universidades públicas. Assim podem ser nomeados todos os apoiadores do governo. Já que eles não passam em concursos, ao menos pelo que podemos presumir...
É isso amigos. Viva a família do rei e dos amigos do rei. As demais se for possível. Em épocas anteriores governantes brasileiros ajudaram seus familiares de forma velada. Agora não. Agora é tudo descarado mesmo.               

24 de setembro de 2019

"...como dizem mentirosamente a mídia..."

O cavaleiro da triste figura vende uma imagem mentirosa de Brasil na ONU
Além da frase acima, que ficou no meio de uma declaração sobre as "preocupações" brasileiras para com a preservação da Amazônia, o discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura dos trabalhos da Organização das Nações Unidas não surpreendeu a ninguém: foi rico em ataques, ódios, preconceitos e omissões de fatos no que diz respeito a praticamente tudo o que seu governo faz.
Bolsonaro focou em Cuba e Venezuela seu discurso contra o "socialismo". Nas críticas à França, acusada por ele de fomentar o questionamento da soberania do Brasil sobre a Amazônia, não citou o nome daquele país (por quê?). Falou que, ao contrário do que o mundo inteiro vê, não há fogo e mortes naquela região. Levou à ONU uma índia quase totalmente desconhecida e leu uma carta, segundo ele de mais de 50 nações indígenas, onde era apoiado seu projeto de levar o "progresso" a todas os grupos que nos antecederam nas terras brasileiras. Isso significa aos poucos ir destruindo as raízes das culturas silvícolas para a exploração comercial das reservas. Tem ódio de territórios indigenistas e deixou isso claro. Odeia o cacique Raoni e também esclareceu esse ponto.
Falou de policiais, de crime organizado, de tráfico de drogas e se mostrou como uma espécie de novo Messias elevado à condição de presidente por um povo que por pouco não foi levado ao "socialismo" contra sua vontade, por inocência. Se um dia Bolsonaro disser o que entende por socialismo, talvez possamos compreender ao menos em parte o seu tosco pensamento político.
Os elogios aos Estados Unidos já eram esperados. Confesso que imaginava que seriam ainda maiores. Disse estar salvando o Brasil apesar dos esforços dos jornalistas de desacreditar seu governo e suas intenções. Como todos esperávamos, usou e abusou de termos como "patriotismo" e "soberania" como se vivêssemos em um terra próxima de ser invadida criminosamente por estrangeiros.
Foi pesaroso. Foi triste. Foi deprimente ouvir o discurso desse presidente da República!
Mas uma coisa todos nós podemos comemorar: ele, em momento algum, atacou as esposas de outros chefes de Estado e nem os pais assassinados de altos dirigentes da ONU. Faço minhas as palavras da ex-presidente chilena Michele Bachelet: "tenho pena do Brasil!"
Resta a convicção de que as notícias continuarão a ser feitas e as reportagens, a serem produzidas. Veremos Bolsonaro espernear enquanto estiver no Planalto, podendo repetir sempre, com ódio e despeito, que isso acontece ...como dizem mentirosamente a mídia...

20 de agosto de 2019

O eliminador de rastros

Desde cedo o presidente Jair Bolsonaro ficou preocupado. Muitos rastros ligavam seu filho mais velho, Flávio, a milicianos do Rio de Janeiro. Havia evidência de contratações destas pessoas e parentes delas nos gabinetes do primogênito e dos outros, o 02 e o 03. Isso era muito mais sério do que contratar mais de duas centenas de parentes para todos os gabinetes ou então tentar emplacar 03 como embaixador nos Estados Unidos. Depois disso ele começou a tirar de sua frente aquelas pessoas com os maus hábitos de seguir rastros. Sobretudo de maus hábitos.
A Polícia Federal começou a sentir o peso da raiva do senhor que diz para quem quiser ouvir: "Quem manda sou eu!". Ele disse que cabeças iriam rolar e rolaram. O negócio é eliminar rastros!
Mas o COAF estava se recusando a ser dócil. Azar dele porque o presidente é mais forte e acabou com ele. Dane-se o fato seu maior mandatário, Roberto Leonel, ter sido indicado pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro. Afinal, essa não seria a primeira vez que uma escolha ministerial seria desconsiderada. E também havia o fato de que Leonel - como ele foi capaz? - teve cometido o desplante e o descaramento de criticar o presidente do Supremo Tribunal Federal, que tinha determinado ao COAF para não mais ceder elementos e provas de investigações. A pedido de Flávio...
E essa tal de Receita Federal, como teve a coragem de continuar investigando fatos, analisando dados, revirando documentos, à revelia da vontade presidencial? O Porto de Itaguaí é intocável, mesmo que um delegado da PF veja lá suspeitas de contrabando de armas. Quem disse que não pode haver indicação política para a substituição de um auditor? Pode sim. E se os auditores fiscais ficarem zangados e resolverem cruzar os braços? A gente vê o que acontece.
Hoje mesmo o braço direito do presidente no Rio de Janeiro, Wilson Witzel, maldosamente chamado de AuchWitzel por essa camarilha comunista, comemorou como quem comemora um gol da Seleção Brasileira a morte de um sequestrador na Ponte Rio Niterói. Afinal, ele pode. Desde janeiro último a Polícia do Rio de Janeiro já matou quase 900 pessoas em confrontos naquele Estado. Muita eficiência. Mas ninguém foi morto em regiões dominadas pelas milícias...
Vamos entender uma coisa de uma vez por todas: ninguém pode atacar os projetos e interesses desse clã. Jamais. Afinal, o jovem Renan - que aparece na foto ao lado direito do papai - está sendo preparado para entrar em campo e jogar o jogo na posição que for escolhida para ele.
E por último, quem manda é o Messias. Mas até quando?

13 de agosto de 2019

E ele respeita alguém?

Bolsonaro não tem por hábito respeitar os outros. Mas exige que o respeitem
Uma pessoa das minhas relações e bem de direita mesmo, reagiu chamando de "desrespeitosa" a manchete de um jornal da Áustria que mostra foto do presidente Jair Bolsonaro tirada domingo último num evento evangélico de Brasília vestindo camiseta de propaganda de correntes religiosas. O título diz: "O Brasil elegeu um idiota". Também o ministro do meio ambiente Ricardo Salles, num programa da Globo News de nome Painel, acusou o e-diretor do INPE, Ricardo Galvão, de também ter sido desrespeitoso com o presidente. Bolsonaro não gostou de números de desmatamento divulgados e disse que o INPE "deve estar comprometido com alguma ONG". Como organizações não governamentais são para o presidente instituições desonestas, foi disso o que ele chamou Galvão, sem qualquer prova, antes de o cientista especialista em clima responder de maneira dura.
Pergunto: Bolsonaro respeita alguém?
Nos últimos tempos as declarações do presidente têm horrorizado todas as pessoas mais esclarecidas. E isso por uma razão muito simples: a presidência da República tem uma liturgia que os ocupantes do cargo não podem desconhecer. É preciso que os presidentes respeitem a dignidade da chefia de Estado, sem o que eles se diminuem e tornam o conceito do País água de sarjeta.
Já ouvimos de Bolsonaro que para defender o clima o cidadão deve "fazer cocô" dia sim, dia não. Em viagens ao exterior ele teve a coragem estúpida de elogiar ditadores sanguinários de Argentina, Chile e Paraguai na terra destes, para horror de cidadãos locais. Agora mesmo disse no Rio Grande do Sul que se a "esquerdalha" vencer na Argentina haverá um êxodo. Cito apenas alguns episódios constrangedores porque o texto não deve ser longo. Vou deixar o "embaixador" para outra hora.
Tudo o que um presidente diz tem repercussão ampla e imediata. Seja ele de que país for. Além disso, um chefe de Estado é cobrado todos os dias, todas as horas e mesmo que considere as perguntas pouco importantes ou pouco inteligentes, tem a obrigação de tratar os jornalistas com respeito. Afinal de contas eles representam a interface do poder com o povo.
Bolsonaro foi durante 28 anos um dos deputados federais mais apagados do Congresso. Não é absurdo dizer que ele nada fez de útil. Além disso empregou mais de 200 parentes em gabinetes. Seus filhos políticos também fizeram isso e nas listas de contratações com dinheiro público figuram até mesmo milicianos que atualmente infernizam a vida dos moradores do Rio de Janeiro.
Ninguém é desrespeitoso com o presidente. Pessoa alguma é obrigada a respeitar quem não merece respeito por seus atos grosseiros, por suas atitudes sem propósito. E esse é o caso.         

6 de agosto de 2019

Democracia de bancadas

Congresso cheio para a defesa de interesse de bancada. Qual? Não importa
Um dos aspectos mais característicos e determinantes das democracias ditas representativas são os partidos políticos. Em grande parte dos países essas organizações carregam consigo suas ideologias e são apegadas a elas. Fazem política a partir de seus pressupostos básicos. Em outros são visões diferentes de uma única ideologia. Nesse caso o maior exemplo fica nos Estados Unidos onde os partidos Republicado e Democrata representam aspectos diferentes do capitalismo. O Brasil talvez seja uma das raras democracias do mundo onde partidos políticos são espécimes em extinção.
Nossos aleijões começam pela inexpressividade das organizações partidárias. Quase totalmente despidas de ideologias ou de projetos políticos claros, acabam sucumbindo a uma figura estranha na vida dos outros países: as bancadas. Aqui temos principalmente a evangélica, a ruralista e a da bala. Distribuídos por diversas organizações partidárias ao sabor de conveniências regionais ou corporativas, seus membros se unem para a defesa dos interesses primeiros: imposição de dogmas religiosos, projetos de grandes latifundiários ou de fabricantes e defensores de armas. E os partidos? Muitos de seus membros sequer sabem qualquer coisa acerca deles. Ou para que servem.
A situação chegou a tal ponto que o nome "Partido" está desaparecendo em muitos casos. Hoje temos organizações com nomes como Democratas, Verde, Avante, Democracia Cristã, Solidariedade, PROS, Patriota, Rede e até mesmo Cidadania, apelido agora adotado pelo PPS, nascido PCB.
É uma situação esdrúxula, no todo ou em parte...
Recentemente surgiu aqui em Vitória, no Espírito Santo, a informação de que policiais militares estariam se unindo para concorrer às próximas eleições municipais. Como conheço um coronel aposentado, perguntei a ele como isso vai ser feito e a que partido os militares se filiariam. Eles querem lutar sobretudo por salários melhores - aqui são pagos alguns dos mais baixos do Brasil -, concorrendo para os cargos de prefeito e vereador, se possível em todos os municípios. Partido? Isso cada um vai escolher o seu. Em suma, vem mais uma bancada por aí!
Dos muitos de nossos problemas o maior hoje talvez seja esse: na política, salvo raras e honrosas exceções, entram aqueles que vão defender suas bandeiras pessoais e/ou corporativas. E os maiores, mais importantes e urgentes interesses para o País? Isso não está no horizonte dessas pessoas. Seria uma função exclusiva de organizações político partidárias robustas, conhecidas e respeitadas, caso elas ainda existissem no Brasil. Mas, pobres de nós, elas são espécimes em extinção como há outras nas florestas.       


















 

2 de agosto de 2019

A lei da selva nos jornais

Tenho um amigo contador, dono de empresa de contabilidade e "ex-assinante" de A Gazeta. Hoje eu me encontrei com ele e ouvi: "Álvaro, quando eu vi o balanço de AG do ano passado fiquei impressionado. A empresa estava com patrimônio líquido negativo. Quebrada. Publicou o balanço porque isso é exigência legal, mas creio que a família dona do negócio o estava sustentando".
Eu, que conheço aquela história há muito tempo, também tinha conhecimento  disso. E os jornalistas que trabalham na empresa em cargos de chefia, embora não avisados com antecedência do que iria acontecer, já sabiam que as coisas iam de mal a pior e poderiam mudar. No caso da Rede Gazeta isso era inevitável. O "desenlace" acabou chegando mais cedo do que se imaginava. Do que eu imaginava, pelo menos.
O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de São Paulo, Zero Hora e outros jornais - ficaria difícil fazer uma listagem agora - são dirigidos por gerações de famílias de jornalistas. Eles conhecem seus negócios e sabem como tocar o barco. Outras grandes, médias e até algumas pequenas empresas são administradas não por jornalistas mas por administradores de empresas profissionais. Daqueles que recebem a incumbência com carta branca para agir e ganham, além do salário, mais um adicional pelo lucro líquido obtido. A empresa lucra. E se mantém, mesmo em mercado adverso.
No mundo capitalista as coisas funcionam dessa forma. Há um movimento de pêndulo na vida e no formato dos negócios e todos, sem exceção, tendem a passar por situações de bonança e de dificuldades. Mudanças são inevitáveis e só os competentes sobrevivem. Como na lei da selva, onde até mesmo a reprodução preserva os mais fortes e sacrifica os mais fracos.
O capitalismo é a reprodução da lei da selva no mundo dos negócios!
No jornalismo, o fechamento de um jornal diário tradicional é péssimo, sobretudo, quando somente um outro sobrevive na praça. Por mais que a gente queira dizer que o mundo agora é digital, olhar notícias pela tela de um computador, celular ou o que quer que seja é muito diferente de ter uma publicação em mãos. A nova geração talvez discorde, mas ela não tem ainda a força de ser formadora de opinião como as anteriores. Um jornal de internet está longe de ser, hoje, o que é a TV. Afinal, esta está formando opiniões só no Brasil há cerca de 70 anos. É um bom tempo.
Terminei minha conversa com meu amigo contador às gargalhadas. Ele me disse: "E agora, depois de 30 de setembro o que eu vou fazer com o cocô do Mike?". O cachorrinho da família, afinal, era o destinatário do jornal diário já lido. Recomendei a ele assinar o concorrente!
Mas insisto: existe em Vitória, Vila Velha, etc, espaço para um jornal diário de âmbito estadual no Espírito Santo. Isso é saudável até mesmo para manter a democratização da informação.