10 de agosto de 2023

É isso o que nós queremos?


- Qual é a senha?

Ele não sabia de senha alguma. Morava na pensão onde foi preso. Na entrada do lugar estava afixado o prato do dia. Lá haviam sido escritos feijão, arroz, bife, salada, macarrão, coisas como essas. Os policiais que o prenderam pensaram que aquilo era uma senha terrorista e levaram o pobre fotógrafo Gildo Loyola Rodrigues para um quartel. Ele foi cruelmente torturado. Um militar, ao notar que um de seus dados estava machucado, falou: "Vamos machucar mais!" E literalmente esmagou aquele dedo com a coronha do fuzil. As torturas foram tão fortes que Gildo precisou fazer tratamento psiquiátrico  por longo tempo depois de solto. E sequelas ficaram.

Um dia entrevistei meu velho amigo para uma revista de cultura, "A angaba", que infelizmente teve vida curta. Ele se emocionou muito, mas percorreu em palavras todo o seu calvário mais uma vez. Doce figura humana, militava numa célula comunista sem jamais ter cometido violência alguma. Era uma questão de convicção política. Ao final foi inocentado pela Justiça porque nada, rigorosamente nada, poderia ser provado contra ele. Mas, repito, sequelas ficaram.

É isso o que nós queremos? É esse o Brasil que vamos deixar para nossos filhos e netos? Se for, mostrem-me onde fica a porta da saída.

Os últimos tempos têm sido terríveis. Chovem denúncias, todas comprovadas, contra os marginais que governaram o Brasil nos últimos tempos. Deixaram atrás de si um rastro de extremistas de direita, de sonhos de destruição da democracia, de ruptura para com os valores democráticos, de extinção de conquistas sociais que sempre foram caras aos brasileiros. Têm raiva sobretudo e principalmente do fato de que eles, os fascistas, foram artífices da ditadura militar, e nós, os vários segmentos da esquerda democrática, aqueles que trouxeram o Brasil novamente para a normalidade constitucional. Eles estupraram a Constituição. Nós fizemos outra, cidadã, em 1988. Não nos perdoam por isso.

Agora mesmo a bancada capixaba no Congresso Nacional, salvo poucas exceções, é um desfile de figuras bizarras. Algumas dessas pessoas nem sequer são do Estado, mas mesmo assim terminaram sendo eleitas pelo fascismo brasileiro que atende pelo nome de "conservadorismo". Há um preço a ser pago por isso e os que elegeram esses marginais de hoje vão ter a conta pela frente. Até um ex-membro do esquadrão da morte capixaba por pouco não foi feito governador. É o horror tornado realidade.

Há, e sempre haverá opções políticas limpas, justas, honestas, para que nós as elejamos e elas nos representem politicamente em todos os planos da vida legislativa. Basta que os brasileiros se voltem para elas. Não podemos viver num país onde hoje o maior projeto legislativo em pauta agora é o de serem anistiados todos aqueles que cometeram crimes com o dinheiro público, usando-o de forma desonesta nas eleições. E ainda há o projeto de o fundo eleitoral passar dos cinco bilhões de reais. Sabemos que grande parte dessa fortuna vai ser embolsada por desonestos. 

Mas o pior são os planos de destruição da democracia, de anistiar ou absolver todos os que invadiram os três poderes da República em 08 de janeiro na calda de cometa de um projeto de golpe de Estado que o então presidente Jair Falso Messias Bolsonaro tentou orquestrar. Ele sente saudades da ditadura militar e de suas prisões ilegais, torturas e assassinatos. Adotou como seu o "Deus, pátria, família" lema de Benito Mussolini, acrescentando a isso um "liberdade" que amante da ditadura só tem da boca para fora. Afinal, em muitas ocasiões esse indivíduo exaltou o AI-5 e as figuras de torturadores.

Ele ainda quer saber qual é a senha! É isso o que nós queremos?           

8 de agosto de 2023

Outros esquadrões da morte?


"O que você 'ver' aqui

O que você ouvir aqui

Quando sair daqui

Deixe ficar aqui"

Estava na porta do delegado Oswaldo Simões Sales, o Quito, o cartaz com esses dizeres. Eu tinha ido à Superintendência de Polícia Civil na rua Graciano Neves, em Vitória, para cumprir uma pauta da Folha de São Paulo, jornal do qual era correspondente no Espírito Santo. Corria o boato de que um esquadrão da morte ligado à Scuderie Detetive Le Cocq agia no Estado matando pessoas ligadas a crimes e a criminosos. Perguntei ao delegado Quito se aquilo era verdade e ouvi:

- Claro que não. Isso é coisa dos bandidos e dos comunistas.

Naquela época, década de 1970, vivíamos em plena ditadura militar e as garantias individuais tinham sido jogadas no lixo pelos governantes. Era fácil matar e esconder cadáveres. Isso estava sendo feito pelos policiais que acreditavam nas soluções fora e acima das leis vigentes e hoje parece que ao menos os governadores de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais são saudosos desses tempos embora estejamos em um estado democrático e de Direito. É possível que o governo do extremista de direita Jair Bolsonaro tenha tirado o monstro da garrafa, agora que já não se pode mais prender ilegalmente, torturar e matar as pessoas, pelo menos por motivos de natureza política.

Menos de dez dias depois da minha entrevista com Quito o cemitério clandestino da Barra do Jucu foi descoberto. Os diversos esquadrões da morte passaram a ser notícia e isso de certa forma conteve a matança ao mesmo tempo em que os assassinos das polícias foram processados e presos. Passaram-se muitos anos até que agora a extrema direita se sentiu confortável para voltar a matar. A justificativa é sempre a de uma troca de tiros, de um confronto armado entre mocinhos e bandidos, claro que sempre com a vitória dos mocinhos e a morte de muita gente que não é bandida.

É hora de uma reação. Quem comete crimes ligados sobretudo ao tráfico de drogas tem que ser preso, processado e condenado. Mas aqueles que usam de uniformes e distintivos para matar por vingança, não importando se do outro lado há inocentes, têm que ter o mesmo destino. Não podemos conviver com a volta dos esquadrões da morte. Já chegam as milícias. Nas últimas chacinas como a do Guarujá (foto), litoral de São Paulo, várias câmaras de uniformes de PMs "falharam" nas filmagens.

Uma sociedade que não sabe a diferença entre o mocinho e o bandido está condenada à barbárie.           

1 de agosto de 2023

Amanhã vai ser outro dia...


Impossível evitar uma associação: vitimado por um câncer ao qual não conseguiu resistir apesar da cirurgia efetuada, morreu em Vitória Idivarci Alves Martins, um velho militante do PCB. Era da época de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e tantos outros brasileiros que resistiram à ditadura militar lutando pela sigla do MDB ou outra como a do PT, mas jamais se entregando. Ao contrário de Idivarci e milhares de seus companheiros de ideologia, nem todos eram comunistas. Tinham em comum o fato de serem patriotas nos tempos em que esse termo ainda não havia sido prostituído pela política brasileira.

Os homens que viveram politicamente nas décadas de 1960, 70 e 80 tinham bandeira. E usavam suas crenças para exercer atividades políticas diárias, seja em partidos ou não. Durante os muitos anos da ditadura, o PCB de Idivarci e tantos outros eram siglas fora da lei. Das leis do governo que estuprou a Constituição brasileira.  E como não podiam erguer as siglas de seus partidos essas pessoas, militavam no MDB. Quem rompeu com isso foi o PT, movimento operário que surgiu para combater a ditadura dentro da legalidade. Era uma colcha de retalhos politico, o que sustenta até hoje. Mas naquela época quem não era?

Não quero - sinto que não posso -  dizer o que houve com a política brasileira para ela desembocar no que é hoje. Nessa escumalha, nessa excrecência que nasce nas câmaras municipais, passa pelos legislativos estaduais e termina em Brasília, na Câmara Federal e  no Senado. A falta de vergonha, hoje, é a regra de comportamento. É ela que permeia a vida do politico brasileiro, que na maioria das vezes não tem ideologia, não sabe a de seu partido e exerce a atividade diária nele porque não pode ser de outra forma. Sua visão começa pelo início de seu mandato e pela necessidade de conseguir a reeleição. Custe o que custar.

Muitos brasileiros acreditam que esse fenômeno vai se aprofundar ainda mais, mergulhando o Brasil na falta de horizontes políticos dignos e na venda de mandatos em troca de uma renovação ao final de quatro ou oito anos. Não creio. Prefiro acreditar que gente como Idivarci e tantos outros não lutaram em vão. Para nós que ainda temos um horizonte nesse Brasil de tantas lutas e que não aceita mais a tortura e a porrada da ditadura como é mostrado nessa foto, amanhã vai ser outro dia.

Há de ser!

20 de julho de 2023

Gargantas profundas

O filme "Garganta profunda", um pornô norte-americano de grande sucesso, foi lançado em 1972. Todo mundo queria ver aquele clássico do boquete, embora esse termo ainda não fosse usado em lugar nenhum. Eu era um deles. E vi. Mas pouco tempo depois o filme de apenas 25 mil dólares de orçamento foi suplantado por outros do mesmo gênero e com produções mais ambiciosas, o que é normal nesse tipo de "entretenimento". Mas o nome ficou. E hoje, coberto de motivos, volto a usá-lo como indicativo do Centrão, o grupo de parlamentares da foto, de "direita" e que tem e comum a goela imensa, capaz de abocanhar o que vier ela frente, principalmente se der bons resultados eleitorais.

É isso o que acontece agora. Pressionado pela necessidade de fazer passar no Congresso uma pauta sua e que justifica o governo iniciado faz pouco mais de seis meses, o presidente Lula tem que ceder espaço na Esplanada dos ministérios a esse grupo que é formado desde ruralistas, passando por evangélicos, direitistas de carteirinha e canalhas das mais diversas matizes. Há um risco nisso: o de quanto mais o presidente ceder, mais o Centrão querer. E ele não se faz de rogado; se os cargos não saírem as votações dos projetos caros ao governo serão derrotadas. Sem choro nem vela.

Não pensem em patriotismo ou nada parecido. O Centrão quer é voto nas próximas eleições.

Muita gente fala sobre esse assunto tentando justificar o injustificável: seria a governança de coalizão ou coisa parecida. Não é. Trata-se de chantagem da mais rasteira possível, capitaneada pelo presidente da Câmara,
Arthur Lyra, e os da goela imensa, sempre ávidos. A fome deles não passa de forma alguma porque o jogo é claro. Todos querem renovar os mandatos e, para chegar a isso, têm que mostrar "resultados" a seus eleitorados. Por isso querem tanto a Saúde, o Bolsa Família e outros setores caros ao governo federal. Para o Centrão querem dizer apenas votos. Nada além disso.

Houve uma época em que os políticos investiam nos discursos falando em governança, projetos, ideologia e coisas mais. Hoje, não: se o governo quer apoio tem que dar espaço. O que significa ministérios com "porteira fechada" e o direito de os ministros e seus sequazes ou  auxiliares, como vocês preferirem,  dirigirem as pastas da forma como bem entenderem, danem-se os planos do governo. Afinal, eles não o representam e muitos sequer vão apoiar as pautas governamentais porque o ministro é colega de partido. Esse negócio - partido - é só um detalhe e eles têm um porque sem a sigla não é possível obter uma série de vantagens do mandato. Só isso. Partido é coisa descartável.

16 de julho de 2023

Os pontos em comum


O que pode haver em comum entre a luta de alguns estados brasileiros pela manutenção de escolas cívico militares (na foto uma de Nova Venécia, ES) e as agressões sofridas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Morais sexta-feira à noite no aeroporto de Roma? Ambos os fatos e mais uma série de outros são a imagem pronta e acabada do que ocorre no Brasil: a extrema direita não aceita de forma alguma o fato de que o presidente que antecedeu o atual tenha perdido a reeleição ao final do ano passado e recorre à violência e ao desrespeito a normas constitucionais para impor sua vontade.

Afinal, eles não têm apego ao Estado Democrático e de Direito. São extremistas. Golpistas.

Pedagogos sérios dizem todos os dias e com argumentos irrefutáveis que esse tipo de escola chamado de "cívico militar" é pobre em termos de eficácia de ensino. Embora mantenham a mesma grade curricular das demais escolas da rede pública, seu comando visa a colocar os alunos sob o tacão de princípios militares deturpados. O MP se manifestou contrário a algumas obrigações como, por exemplo, a exigência de que os alunos cortem seus cabelos longos. E educadores não aceitam o fato de que militares cheguem a receber mais do que R$ 9 mil mensais para dar ordem unida enquanto eles ganhem menos da metade disso para passar conhecimentos aos alunos. Conhecimentos reais.

Mas governadores como o de São Paulo enfrentam a decisão do governo federal e dizem que vão até mesmo aumentar a rede dessas escolas, que hoje é pífia em relação ao todo brasileiro. Cerca de 0,25 por cento. Outros como o do  Espírito Santo simplesmente se eximem de emitir opinião. E o assunto fatalmente vai terminar na Justiça ano que vem quando as verbas dessa modalidade escolar cessarem.

Foi essa mesma Justiça a atacada no aeroporto de Roma por uma trinca de marginais que aguardavam um voo para o Brasil e se depararam com o ministro Alexandre de Moraes. Ele foi chamado de "bandido, comunista e comprado" pela sirigaita acompanhada por dois homens, um deles seu marido. Todos, claro, bolsonaristas de carteirinha. Todos, claro, inconformados com a derrota do "mito" ao final do ano passado. E todos, claro, têm que ir para a cadeia porque até o filho do ministro foi agredido fisicamente por Roberto Mantovani Filho. Ele, Alex Zanatta e Andréia Mantovani, que iniciou os as agressões morais, não respeitam as autoridades constituídas de nosso país. Nossas leis.

Eis os pontos em comum entre os dois fatos. São o fruto do desprezo que as alas de extrema direita do espectro social brasileiros sentem por nossas normas legais. São alguns dos muitos braços desse polvo formador da incivilidade geral da nação e que tenta se perpetuar no 8 e janeiro, insistindo em manter o Brasil na ilegalidade. Ainda não saíram da frente dos quartéis e desconhecem o fato de que os quartéis já saíram da frente deles. Deles e de suas falsas escolas cívico militares cuja principal finalidade é a de subverter a educação de base do Brasil criando monstrengos infanto-juvenis.

Todos estão fazenda falta na Papuda!

13 de julho de 2023

Inoportuno e verdadeiro


Sim, fomos nós os que lutaram contra a ditadura militar de 21 anos e que devolveram o Brasil ao estado democrático e de direito que estava distante fazia tanto tempo. E quem muito bem saudou a Constituição Cidadã de 1988 foi o saudoso deputado federal Ulisses Guimarães quando disse em seu discurso de apresentação da carta magna que "traidor da Constituição é traidor da Pátria". E mais adiante que os brasileiros presos ilegalmente, torturados e assassinados são os verdadeiros patriotas.

Também tenho nojo dessa gente da ditadura. Nojo e ódio.

Talvez tenha sido inoportuna a fala do ministro do Supremo Tribunal Federal José Roberto Barroso (esse da foto) quarta-feira numa reunião da UNE, quando afirmou que os brasileiros derrotaram o bolsonarismo. Derrotaram mesmo e a diferença foi pequena porque o chefe de governo usou de todos os artifícios, principalmente os desonestos, para evitar a derrota na eleição passada. Queimou uma dinheirama imensa para comprar votos, ameaçou, fechou estradas para os eleitores não chegarem às suas seções eleitorais e muito mais. Até ministros das relações exteriores foram convocados ao Palácio do Planalto para ouvir suas queixas. As urnas que o elegeram durante 28 anos foram atacadas porque ele queria votos de papel para alterar o resultado.

Tive amigos presos ilegalmente e torturados pelos órgãos de repressão. Nenhum deles foi assassinado, mas inúmeros outros foram. Para não me alongar cito apenas o jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho. A ditadura militar brasileira foi uma sala de torturas. Ela não massacrou apenas aqueles que foram opositores do regime de exceção. mas também inocentes.

1988 só chegou para encerrar toda essa escuridão porque gente como os patriotas da UNE, eu e milhões de outros lutaram contra ela. Os bobões que vaiaram o ministro devem ter se esquecido disso. Mas seria bom que se lembrassem. Que pusessem a mão na consciência. É preciso escolher quem vaiar  e analisar que um ministro do Supremo Tribunal Federal é obrigado a sentenciar olhando a Constituição.

 Sim, o ministro foi inoportuno. Mas talvez nunca tenha sido tão verdadeiro. 

5 de julho de 2023

Lula em sua bolha


Lula, liberte-se de sua bolha!

São seis meses de governo do presidente Lula. Nesse curto período já foram comprovadas melhoras consideráveis em crescimento e inflação em queda, novas regras de despesas, reforma tributária em andamento, diminuição do risco país, redução do déficit das contas externas, aumento da arrecadação sem crescimento de impostos (até o momento), redução de vários preços administrados pelo governo como os dos combustíveis, aumento real do salário mínimo, igualmente da isenção do imposto de renda, combate à fome, luta pela erradicação da miséria, Programa Desenrola Brasil, incentivo à indústria, maior Plano Safra da história, Plano Safra de Agricultura Familiar (sensacional!), merenda escolar com aumento de repasses, início da recomposição do orçamento das universidades públicas, pesquisa e inovação, ensino em tempo integral e verba para infraestrutura escolar, Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, combate à violência nas escolas, revogação de decreto sobre armas, vacinação em massa, transferência para estados e municípios fazerem exames e cirurgias em mutirões com apoio a hospitais, Farmácia Popular, Mais Médicos, Brasil Sorridente, combate ao desmatamento e apoio ao meio ambiente, atendimento às populações originárias, volta do Minha Casa, Minha Vida, Lei Paulo Gustavo, política de amparo às mulheres, Lei Geral do Esporte, combate ao racismo, retorno do Brasil ao cenário mundial da política externa, reajuste do funcionalismo público e Democracia Participativa. Tudo isso com pouco dinheiro porque a maior parte foi criminosamente jogada no lixo pela tentativa do ex-presidente de se reeleger.

Lula poderia, hoje, navegar em águas tranquilas, começando a botar no bolso a oposição parlamentar, sobretudo a criminosa do Centrão, pois o sucesso do seu governo fará com que ela se dilua em água e escorra para o esgoto juntamente com Arthur Lira e suas negociatas. Mas o presidente insiste em ser o defensor público número 1 de Nicolás Maduro, de não ver o que acontece na Nicarágua, de confundir democracias plenas com suas nuances de exceção e em falar sem pensar sempre que pode ou é provocado. Como os provocadores já perceberam isso, vão provocar cada vez mais.

E por que ele faz isso? Lula ainda está preso em sua bolha, a aquela das correntes radicais do PT e que garantiram a ele apoio incondicional durante os anos duros de perseguição política e prisão. É digno ser grato, mas hoje esse ex-metalúrgico é presidente de todas as correntes, sobretudo as de centro, majoritárias no Brasil. Ele tem que dizer aos petistas de raiz que o ajudem ficando a seu lado sempre que possível. Esse governo tem tudo para dar certo e sepultar o bolsonarismo. Não pode abdicar a isso. Destruir as raízes da extrema direita é o que importa e por isso dei meu apoio ao atual presidente nas últimas eleições. Eu e milhões de outros brasileiros. Apenas e tão somente por esse motivo. 

Lula, saia de sua bolha.             

1 de julho de 2023

"Five Came Back"


Ouvi dia desses de um alemão radicado no Brasil que ele não era e a maioria de seus compatriotas também não são violentos ou nazistas. Com um sorriso de ironia, completou: "Nem os alemães orientais, hoje libertos do comunismo, pregam a violência". Imediatamente revi na mente o seriado "Five Came Back" (ilustração acima), que a Netflix apresenta atualmente e que conta a história da ida de cinco diretores de cinema de Hollywood para a Europa entre 1942 e 1945 para documentar cinematograficamente a Segunda Guerra Mundial. Foi uma experiência traumática para todos e os modificou radicalmente no retorno a seu país e às atividades que continuaram a desempenhar pelo resto de suas vidas. Recomendo os três episódios da série.

O que fez dos alemães um povo violento, seguidor em grande parte do nazismo de Hitler? E o italiano de adepto fanático do fascismo de Mussolini? Atrevo-me a dizer aqui que isso em muito se assemelha com o trauma passado por nós nos últimos anos no crescimento desenfreado do "bolsonarismo", um fenômeno político que se parece tanto com um quanto com outro. Podemos dizer sem medo de errar que a derrota de seu motivador, o ex-presidente brasileiro hoje inelegível, tirou o Brasil de um atoleiro institucional grave.

Os alemães não são violentos ou nazistas por natureza ou essência. Nem os italianos ou os brasileiros. Essa não é uma questão de nacionalidade, mas sim ligada a fenômenos sociais que podem eclodir em determinadas ocasiões nos planos nacional ou internacional e levam as pessoas à adoção de comportamentos coletivamente ditados pelos extremismos políticos. Um país como o Brasil pode e deve conviver civilizadamente com ideologias de esquerda e direita, mas nunca ter seu comportamento controlado por visões políticas extremistas, sobretudo da extrema direita, como acontece hoje em muitos países pelo mundo afora.

Freud afirma que, na origem, amor e ódio não concernem às pulsões. Ele explica seu pensamento: "O ódio, enquanto relação de objeto, é mais antigo que o amor: nos primórdios da origem ele tem sua fonte na recusa do mundo exterior que emite estímulos, recusa que emana do Eu narcísico". Ele surge de frustrantes relações objetais, do desprazer. É preciso fazer com que um grupo de pessoas ou até parte considerável de uma população sinta asco de outra, levada a isso por circunstâncias às quais não consegue reagir. E gerar o ódio não é nada difícil se esse grupamento populacional já sente ojeriza por uma dada situação. Aqui nós conseguimos gerar esse fenômeno pela aversão de parcela de nossa população pelo petismo e o comunismo.

Mas os dramas que situação assim geram são terríveis e "Five Came Back" mostra claramente o fenômeno em seu último episódio. Retornar a uma certa normalidade social é tarefa lenta e de sucesso não garantido, ao menos em curto prazo. Mas urge tentar. Numa outra conversa com um conhecido, ao fazer crítica ao extremismo de direita brasileiro, ouvi dele que a esquerda também comete violências. Expliquei: "Isaac Newton, célebre matemático, diz em sua terceira lei que a toda ação corresponde uma reação igual e contrária". É preciso começar combatendo a ação geradora da incivilidade.               

29 de junho de 2023

O processo civilizatório


Quando chegaram ao Brasil pela primeira vez os portugueses se apressaram em rezar uma missa católica. Era o início do esforço por modificar a cultura de nossos povos originários, impondo a eles hábitos e costumes totalmente estranhos ao seu comportamento. Pior, isso é feito desde então, desde 1500 como está representado na pintura acima. Hoje a maioria dos que continuam esse esforço são missionários protestantes e todos são levados por um norte: é preciso civilizar os "índios". Não, não é preciso. O que precisamos fazer é respeitar a cultura do "diferente".

O grande estudioso brasileiro Darcy Ribeiro escreveu, dentre outras obras, "O processo civilizatório". Já faz muitos anos - em 1968 -, mas o texto continua atual. Ele fala como  nós chegamos ao que se convencionou chamar de civilização. Isso foi bom e ruim e Darcy não viveu para analisar os fatos mais recentes: é justamente essa definição intimamente ligada a nós, os que vivem em conglomerados com comunicação escrita e constituição, para citarmos apena dois itens, o que leva grande quantidade de pessoas a verem os povos originários como seres de segunda categoria e não possuidores de capacidade cognitiva para nos acompanhar. Nada mais falso, nada mais racista.

Tudo se resume a uma questão cultural e à necessidade de respeitarmos a cultura específica dessas comunidades. Somente assim vamos conviver com elas de forma harmoniosa e nos preparando para uma sociedade uniforme, mas "diferente". E a diferença significa justamente o respeito aos valores culturais específicos. É por não aceitarmos as diferenças que somos capazes de reconhecer um indivíduo como inferior a nós, seja por causa da cor da pele seja por causa de fazer parte de populações originárias.

Isso cresceu muito nos últimos anos e agora parece haver um movimento, ainda muito tímido, no sentido de educarmos os que chegam à vida para terem em mente que todos somos a raça humana. E só vamos crescer como nação quando entendermos esse fato. Quando decidirmos que um povo civilizado não elege governantes capazes de dizer que as minorias, ou se adaptam às maiorias ou serão eliminadas.    

  

21 de junho de 2023

A marcha da classe média


Peca quem pensa que o fenômeno do extremismo de direita do Brasil nasceu com o ex-presidente Jair Bolsonaro, um fascista saudoso da ditadura militar de 1964 e que viu a presidência cair em seu colo durante a campanha eleitoral de 2018 e depois do episódio da facada em Juiz de Fora. Não, não é assim. Esse comportamento de parcela expressiva da população brasileira remonta até mesmo ao início do período republicano e se fortaleceu imensamente durante os antecedentes diretos do último Golpe de Estado. O ovo da serpente vem sendo chocado há décadas e poucos se preocupam com ele.

Vi isso. Em São Paulo, principalmente, era imensa a legião de pessoas marcadamente da classe média que foram às ruas nas famosas "Marcha da Família do Deus pela Liberdade". A foto acima mostra como a coisa funcionava. Vi ao menos uma vizinha e uma sócia do clube que minha família frequentava na capital paulista envolvidas nos movimentos de 64. A sócia do Ipê, clube que existe até hoje, tentou levar minha mãe para as ruas. Ela agradeceu e disse não. Tinha filhos para cuidar e o mais velho era eu, ainda em vias de completar 14 anos. Mas cheguei a ver uma das faixas que desfilavam com essas pessoas.

Resumindo; o extremismo brasileiro e que muitos chamam de conservadorismo, é um fenômeno intimamente ligado à nossa classe média. Ela era a massa que desfilava nas marchas de 64, da mesma forma como acontece hoje. Esse segmento da população brasileira é tacanho e reacionário. A falta de cultura política de nossa população faz com que milhões de membros do extrato social médio seja facilmente controlável, sobretudo por medo que às vezes vira ódio. Há duas formas eficientes de se manobrar uma população: pelo amor ou pelo temor/aversão a alguma coisa. Hitler sabia disso e uniu alemães contra judeus. Aqui os brasileiros elegeram o comunismo como inimigo público número um.

O Estado e a igreja, principalmente, tornam a classe média massa de manobra. E arrastam com ela parte da classe pobre, marcadamente ignorante, formando o caldo de cultura de movimentos assim e com o patrocínio dos ricos, sempre unidos em torno da defesa de seus privilégios. O que nós vivemos durante os quatro anos do último governo federal e o que estamos vendo hoje são retratos dessa situação. Levar a classe média a entender que ela é usada como massa de manobra, e na maioria das vezes para defender interesses estranhos a ela é o caminho para começar a mudar esse panorama. Um caminho que já deveria estar sendo trilhado há muito tempo no Brasil.        

  

10 de junho de 2023

Os novos boiardos


A revista "Veja" dessa semana traz matéria de capa sobre a força do agronegócio brasileiro. Uma força que hoje se reflete no Congresso Nacional onde uma "bancada ruralista" impõe sua pauta com os mais diversos tipos de pressão. E é fácil fazer isso num país onde o partido político deixou de existir como instituição formada por pessoas unidas em torno de um projeto de poder ancorado em programas que invariavelmente são baseados em princípios ideológicos. Hoje os partidos brasileiros agridem até o princípio do estado laico com a formação de bloco religioso chamado de "bancada evangélica".

Nossas distorções políticas criaram um movimento boiardo moderno. Os maiores representantes do agro, sobretudo aqueles que se intitulam "ruralistas" querem impor suas pautas ao restante do país graças ao fato de que nos últimos tempos têm alavancado a economia, principalmente nas exportações. Os boiardos originais eram, no passado, membros da aristocracia russa e ocupavam posição de destaque só comparada à dos príncipes do império. Inicialmente tinham todos eles raízes no campo e se ocupavam também de alijar do poder decisório os mujiques, esses a imensa massa camponesa sem representatividade alguma. O poder boiardo ocupou regiões onde hoje ficam outros países do leste europeu e, no caso russo, eles só encontraram o ocaso ao final do século XIX, com revoltas contra sua dominação (ilustração) e, em 1917, na revolução soviética.

Que o agronegócio brasileiro é uma força econômica não há dúvida. Que essa força merece ser protegida para render mais divisas ao Brasil, também. Mas a riqueza que ele produz se destina primordialmente ao comércio internacional e nem sempre se corporifica pela geração de bens e serviços destinados aos brasileiros. Nessa área quem atua para matar a fome da população do país são o pequeno e médio produtores, muitos deles praticantes de agricultura familiar e que abastecem a nossa economia com o alimento de cada dia. Nas feiras livres a gente os encontra. Também nos supermercados que adquirem produtos nas "ceasas" espalhadas por todo o "nosso Brasil", como dizem outros.

Então, uma política equânime de apoio e amparo à produção agrícola só se justifica com critérios de Justiça se estiver também voltada aos pequenos e médios produtores rurais. Aos nossos milhares de mujiques e sem que os boiardos modernos sejam privilegiados em detrimento destes.          

8 de junho de 2023

Não haverá "ruptura"'


Logo que o último ex-presidente ganhou as eleições de 2018 um conhecido meu, militante de extrema direita, daqueles que colocam na parede, devidamente emoldurados, os diplomas recebidos na ESG, me convidou a tomar um vinho num supermercado da Avenida Rio Branco, aqui em Vitória (ES). A conversa acabou chegando à política e ele disse: "Bolsonaro ganhou. Sim, mas quem ganhou mesmo fomos nós. Chegamos para ficar e se for tentada mudança haverá ruptura. Pode acreditar nisso."

Em síntese, o golpe de estado estava previsto desde as eleições de 2018. Quero crer que se Fernando Haddad tivesse vencido seria tentado um meio não legal para impedir sua posse. O Clube Militar, no Rio de Janeiro, estava a postos para divulgar informações falsas, sublevar grupos extremistas e espalhar o ódio por todos os cantos. Mesmo depois do final da ditadura militar, em 1985, as viúvas do totalitarismo de direita estavam acordadas e tentando o contragolpe. Nunca desistiram. A constituição de 1988, tão defendida pelas forças democráticas, teria sido rasgada em praça pública se fosse possível.

Acho que meu conhecido tentava me cooptar. Logo percebeu que não seria possível.

O Brasil jogou fora  mais de um trilhão de reais na tentativa de Bolsonaro se eleger. Nunca antes tantos crimes foram cometidos numa eleição que se pretendia fazer à margem das leis. E quando a apuração dos votos derrotou a camarilha, essa colocou em prática seu projeto de destruição da democracia. Foram várias as tentativas, todas frustradas. E até hoje o extremismo de direita tenta emplacar seus planos. Não consegue e, pelo visto, o projeto de uma "ruptura" constitucional foi parar no balde do lixo.

Mas os derrotados continuam agindo. Como sempre, nas sombras. Como é de sua cultura, utilizando-se de todos os meios para chegar ao sucesso. A revelação dos planos de golpe de estado contidos em celulares de criminosos como o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro mostra que vão insistir. A bomba que  não explodiu no Aeroporto de Brasília atesta que eles não conhecem limites.

Nunca mais tomo vinho com fascista. 

4 de junho de 2023

República do rabo preso


A cada episódio novo se torna maior a quantidade de políticos confrontados com suas falcatruas. Como é imenso o número desse tipo de gente fica fácil dizer que vivemos numa "República do Rabo Preso". Agora é o ainda todo poderoso presidente da Câmara, Arthur Lira, quem deve estar preocupado com a possiblidade de se tornar réu em processo por corrupção passiva, o que encerraria sua carreira política. E o caso vai começar a ser analisado na terça-feira.  

O fato remonta a 2012, quando um assessor dele foi flagrado em São Paulo tentando embarcar para Brasília com R$ 106 mil na mala. Era dinheiro de propina para ser entregue ao deputado. Desde aquele episódio Lira dorme assombrado pela possibilidade de ser tornado réu no Supremo Tribunal Federal, perder o mandato e ainda ficar inelegível por oito anos. É o risco que se corre...

No Brasil, fazer esse tipo de negociata envolvendo dinheiro vivo não é novidade. Parece que o artifício se tornou parte da nossa cultura política. Vejam o caso da "familícia" Bolsonaro que acumula mais de cem imóveis comprados nessa, digamos, modalidade. E para o chefe do clã, Jair, esse tipo de coisa não prova nada contra ele. Quando fala sobre o assunto diz que os imóveis foram adquiridos ao longo de muitos anos e por vários de seus familiares. Então, está tudo explicado. Como no caso das "rachadinhas" de todos os seus filhos e apaniguados detentores de mandato.

Arthur Lira fez isso em 2012, o que mostra como a prática é comum há tempos. Na semana que passou um montão de dinheiro que abarrotava um cofre foi localizado pela Polícia Federal em Alagoas com gente ligada ao presidente da Câmara. Aqui no Brasil, graças ao orçamento secreto e outras artimanhas, existe corrupção envolvendo ambulâncias, tratores, superfaturamento de obras públicas e chegando aos cofres residenciais, onde é guardado dinheiro em espécie.

Talvez por isso alguns sonhos de poder como os de Lira, que adoraria ser um tipo de primeiro ministro, terminem não se concretizando. Afinal não basta a ele ter aprovação da imensa maioria de seus pares. Como disse um dia Carlos Drumond de Andrade, "no meio do caminho tinha um pedra". Quem sabe daquelas grandes e que surge nesse caminho justamente quando se encontra dinheiro vivo em grande quantidade em malas, cuecas, etc.

Para eles dessa forma fica mais difícil de rastrear...


31 de maio de 2023

Lula e a munição dos inimigos


Não tem jeito: é só ficar distraído e o presidente Lula fala de improviso. Então comete erros que muito bem poderiam ter sido evitados. Refiro-me aos atos conjuntos com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que esteve em Brasília para a cúpula da América do Sul (foto). Ao chamar o visitante de democrata e as críticas a ele dirigidas de "narrativas", o mandatário brasileiro não cometeu apenas uma gafe; ele agrediu a verdade dos fatos, coisa que pode ser facilmente comprovada.

Não teve o menor cabimento receber Maduro no Itamarati separadamente e antes dos demais representantes continentais. Isso foi notado, criticado e causou muito mal estar. O presidente uruguaio Luís Alberto Lacalle Pou questionou as declarações de Lula sobre a "democracia" venezuelana. O mesmo fez o chefe de Estado do Chile, Gabriel Boric, por sinal um socialista. Este falou que a situação dos venezuelanos exilados em território chileno mostra que não falta apenas comida naquele país. Falta sobretudo e principalmente respeito aos direitos humanos. No Brasil também há uma legião de fugidos da Venezuela. Todos famintos. Todos carentes de democracia.

Lula ainda cometeu um novo erro no dia seguinte ao tentar justificar suas declarações de véspera chamando de "narrativas" as críticas ao venezuelano e reafirmando declarações dadas. É bom lutar na vida; é bom defender posições e mantê-las contra adversários. Mas jamais se deve agredir os fatos. Não é possível acreditar que divulgando afirmações falsas, visões obtusas de determinadas situações, um presidente conseguirá construir respeito e admiração, por mais que represente uma guinada política, uma esperança de melhora, uma garantia de sobrevivência da democracia após um governo golpista. 

Lula tem uma importância ímpar. Foi eleito três vezes para a presidência, fato inédito na vida do Brasil republicano, ainda elegeu duas vezes uma sucessora e hoje tem a cara da reação ao golpismo, à ditadura militar que nos infelicitou durante 21 anos na última vez que mostrou as garras. Seu antecessor defende uma "liberdade" que é, essa sim, narrativa falsa. O presidente atual não tem sequer o direito de jogar esse momento no lixo da história. Seu governo tem inimigos em cada esquina e enfrenta um Legislativo formado em grande parte de canalhas voltados à destruição dele e do Estado Democrático e de Direito.

Não coloque munição na artilharia dessa gentalha, Lula.              

29 de maio de 2023

O STF é o caminho

É possível dizer hoje, sem o risco de errar, que a oposição ao governo eleito no ano passado e empossado no primeiro dia desse ano está jogando na aposta do caos. Há uma diferença não muito sutil entre se opor e fazer sabotagem. Quem se opõe respeita os limites legais; quem faz sabotagem, não.

Vamos usar aqui agora somente um argumento, dos inúmeros que há. Os ministérios das ministras Marina Silva e Sônia Guajajara estão sofrendo uma tentativa de esvaziamento total por parte dos grupos oposicionistas de direita e extrema direita. Eles são comandados à distância pelo ex-presidente derrotado nas últimas eleições e por setores que o apoiam e a esses parlamentares, sobretudo e principalmente gente do campo e ligada ao que se convenciona chamar hoje de "Agro". Há grupos extremistas perigosos entre a gente graúda desse setor que inclusive apoia e financia qualquer tentativa de golpe de Estado passada, presente e futura.

Vejamos o que diz a Constituição em trechos de seu artigo 84: "Compete privativamente ao Presidente de República: VI - dispor mediante decreto, sobre: a) organização e funcionamento da administração federal, quando não implicar aumento de despesa nem criação ou extinção de órgãos públicos..." e vai por aí. Portanto, tem o Presidente da República o direito de montar seu ministério da forma como o achar ideal, sem ser desautorizado pelo Congresso.

Ora, e por que o presidente aceita aparentemente de forma passiva essa intromissão, da mesma forma como não se insurge contra outras receitas de sabotagem? Porque ele teme que, levada às últimas consequências, a oposição visceral possa criar mais uma série de outros obstáculos visando destruir o Estado Democrático e de Direito. O risco existe. Por exemplo, se a reforma ministerial não for aprovada e o Brasil parar por ter que voltar ao modelo que havia no último mandato. E esse é apenas um dos riscos maiores na ação desses "patriotas". 

Por isso o presidente negocia. Por isso ele entrega todos os seus anéis para tentar salvar os nove dedos que lhe restam. Como tem fama de negociador, talvez consiga atravessar a tempestade e seguir em frente com o modelo de Estado que escolheu eleito pelo povo brasileiro. Caso contrário as questões vão desaguar novamente do Supremo Tribunal Federal que intervirá e determinará a prevalência da Constituição. Afinal, ele existe para essa tarefa.                  

25 de maio de 2023

O Brasil fisiologista

Houve uma época em que os partidos políticos brasileiros tinham ideologia. Cada um representava uma corrente de pensamento e a defendia. Com o golpe de Estado de 1964 esse modelo enfraqueceu e aos poucos foi desaparecendo. Isso atingiu até mesmo agremiações que levavam a ideologia no nome como o PCB e o PCdoB, sendo do que o primeiro já mudou a sigla duas vezes e hoje é um irreconhecível Cidadania onde cabem todos. O mesmo ocorreu com o PSDB e outros partidos, como o "Socialista". Até mesmo aqueles que tinham vínculos diretos com a ditadura tentaram ficar mais palatáveis como é o caso do Partido Progressista. E por detrás disso há um fator: dinheiro.

Dentre a montanha mudanças pelas quais a política brasileira passou nos últimos tempos está uma excrecência chamada "orçamento secreto". Ele foi derrubado pelo Supremo Tribunal Federal, mas continua a valer fantasiado de outros nomes. Não à toa o todo poderoso presidente da Câmara Federal, Arthur Lyra, disse em mais de uma oportunidade que ele veio para ficar. Talvez não no nome, mas no simbolismo. E a cada dia que passa cresce ainda mais a voracidade com que deputados e senadores avançam sobre o dinheiro dos nossos impostos. Pode-se dizer que em grande parte dos casos para jogar esses recursos no ralo em busca de votos. O objetivo de agora são as eleições municipais de 2024.

Foi-se o tempo da UDN e PSB, passou a época em  que as siglas comunistas eram colocadas na ilegalidade e nos dias de hoje até mesmo nas câmaras de vereadores o avanço sobre o dinheiro dos impostos do cidadão é feito da maneira mais descarada possível. O apoio às prefeituras custa liberação de verbas para obras paroquiais, contratação de apaniguados para cargos públicos onde eles possam ter visibilidade com vistas às próximas eleições e isso quando a corrupção não é mais explícita como a que envolve aquisição de ambulâncias, tratores e outros equipamentos que não raro jamais chegam aos locais de destino para servir ao interesse público. Aliás, o interesse publico faleceu.

Até onde vai isso? Hoje seria impossível antever o final dessa bacanal. Mas ela precisa ter um fim e terá certamente porque não há fosso sem fundo e a população desse país reagirá exigindo nas urnas o respeito aos direitos do cidadão. Só vamos torcer para que isso aconteça sem derramamento de sangue.        

20 de maio de 2023

Bolsa rito de passagem


O programa Bolsa Família, do governo federal, só tem sentido se for um rito de passagem para a vida dos milhões de miseráveis do Brasil que tiveram sua situação financeira agravada nos últimos quatro anos de desgoverno. E para que isso ocorra a atual gestão precisa fazer acontecer rapidamente um plano nacional de emprego e renda aliado a outro de capacitação profissional visando à reinserção desse imenso contingente de pessoas no mercado de trabalho brasileiro, seja público, seja privado.

Os ritos de passagem, termo com forte apelo sociológico, são fases, etapas da vida de todas as pessoas como as celebrações diversas que nos acompanham: nascimento, estudo, primeira comunhão, casamento, trabalho, morte. Talvez o principal seja o que marca a passagem para a vida adulta. Podemos acrescentar a essa lista, no campo da formação profissional e do trabalho, o retorno à vida produtiva depois de uma etapa à míngua. Só o trabalho dignifica o homem e um país não pode conviver com a realidade eterna de uma população que trabalha para sustentar outra sem atividade produtiva.

Há um desvirtuamento na discussão do bolsa família dos dias atuais. O valor mínimo capaz de sustentar as pessoas com um tiquinho de dignidade foi alcançado já como recurso extremo para a economia. Pensar agora em décimo terceiro salário, férias e outras coisas é um despropósito. Esses dispositivos, como também fundo de garantia e auxílios diversos são ligados às relações de trabalho e não a auxílio emergencial. Confundir as coisas será muito ruim. E elaborar projetos de apoio a emprego, renda e capacitação profissional vai custar bem menos caro. Certamente com retorno muito maior.

Sonhar com um Brasil de desemprego zero, que não tenha baixa renda nem miséria seria utópico. Mas não o é pensarmos num país voltado ao reingresso das pessoas no mercado produtivo. Duvido que um plano nacional com esse foco não venha a contar com o apoio da iniciativa privada, ao menos daquela mais lúcida e voltada a olhar o país como um projeto de desenvolvimento sustentável. O Brasil não pode ser para sempre o "país do futuro"; este tem que chegar no presente.  

Vamos imaginar o Bolsa Família como um rito de passagem. Ele só tem sentido assim.             

17 de maio de 2023

Deltan em busca de conforto


Jurei a mim mesmo que não me surpreenderia com mais nada nesse nosso País. Mas hoje, faz muito pouco tempo, cheguei a ficar rubro de inconformismo ao ver o discurso do cassado deputado federal Deltan Dallagnol (foto) que protestava contra a cassação de seu mandato pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Cercado de asseclas (ou companheiros de partido...) ele disparou contra o Judiciário, contra o governo, disse que combatia a corrupção, citou até Martin Luther King e disse que mesmo fora da Câmara dos Deputados vai continuar lutando pela nossa liberdade. E de todos os brasileiros.

É muito confortável a posição de vítima, mesmo quando esta não passa de um engodo.

Dallagnol sabe que a vontade expressa nas urnas pelo povo do Paraná não foi violentada. Sabe que ele, sim, tentou passar por cima das leis quando se candidatou e se elegeu como deputado federal. Era investigado e não poderia ocupar cargo público algum. Foi eleito, sim. Mas quando houve uma denúncia formal e o TSE teve que julgar a questão e ele FOI CASSADO POR UNANIMIDADE. Não há, portanto, como se falar em quebra da normalidade democrática e em ataque às liberdades consagradas em nossa Constituição. Ela continua soberana.

Aliás, vamos parar para pensar. Esse agora ex-deputado fazia parte de um grupo político capitaneado por um ex-capitão literalmente expulso do Exército e que se jactava falando em adorar a ditadura militar brasileira. Em diversas ocasiões elogiou publicamente ditadores de extrema direita. Falou a favor da tortura e de torturadores. Queria exterminar os indígenas brasileiros. Colocou idiotas como o general Pazuello na direção de ministérios. Milhares de brasileiros morreram graças à omissão  criminosa do governo federal que antecedeu o atual. Hoje o ex-presidente responde a diversos processos e pode vir a ser preso por ter cometido vários crimes que são sinônimo de corrução.

Que desgraça de liberdade é essa que esse senhor defende? Que arauto do combate à corrupção é esse sujeito que fez parte de golpe judicial perpetrado para tirar de uma eleição presidencial o candidato que a venceria? O que ele fazia no Congresso enquanto uma tentativa de golpe de Estado era parida a fórceps às escuras, nos esgotos do grupo político que ele diz representar?

Não, ele não vai usar por muito tempo o conforto de tentar ser vítima.     

13 de maio de 2023

"Podres Poderes"

Página de abertura de Placar que denunciou os "Podres Poderes"

Não importa a modalidade: esporte depende de credibilidade. Para que ele faça sucesso é preciso os torcedores acreditarem que as pessoas no campo, na quadra, no ringue ou em qualquer outra arena estão jogando com seriedade e fazendo de tudo para derrotar os adversários. Senão vira "telecach", uma comédia pastelão que fez grande sucesso faz cerca de 50 anos, mas era de mentirinha. Tanto que um dia um jornal fez matéria sobre a "modalidade" e a imagem dentro das cordas do ringue era uma imensa marmelada. Se acontecer de se tornar isso, o futebol brasileiro, hoje já mal das pernas, vai falir. 

Na década de 1980, mais precisamente em 1985, a revista Placar investiu pesado numa matéria especial que nasceu da desconfiança de dois jornalistas, Milton Coelho da Graça (morto recentemente) e Juca Kfouri. Eles achavam que estava havendo coincidências demais em certos resultados de jogos da Loteria Esportiva em diversos campeonatos brasileiros. Escalaram o repórter especial Marcelo Rezende para percorrer o Brasil atrás de provas de ilícitos. Marcelo, que morreu em 2017, correu vários estados. Eu era o correspondente de Placar no Espírito Santo à época e o ajudei muito aqui. Descobrimos dois goleiros, de Rio Branco e Desportiva, que se vendiam. E também o esquema em funcionamento na Federação de Futebol, então com uma presidência não séria. Com o título de "Podres Poderes" o esquema da então chamada "Máfia da Loteria Esportiva" foi denunciado e aparentemente extinto. Mas eis que não!

Naquela época da primeira denúncia, a de Placar, a Loteria Esportiva fazia muito sucesso. Esse tempo passou. Agora as apostas de futebol são feitas pela internet e o esquema está voltando. Novamente com jogadores e árbitros desonestos sendo comprados da mesma forma e muito dinheiro sujo circulando pelo universo do futebol. Por ocasião da "Máfia da Loteria" o maior perigo eram os jogadores de clubes pequenos e em final de carreira. Já não tinham mais perspectivas pela frente. Hoje a maioria deve ter o mesmo perfil, mas alguns atletas de maior prestígio estão certamente aderindo ao esquema que permite ganhar dinheiro fácil à custa da boa fé dos torcedores. E da destruição do esporte.

É preciso combater isso. De todas as formas e em nome da grandiosidade que as várias atividades têm. Sem um combate efetivo essa pústula passa do futebol a outras modalidades e destrói todas elas. Na época da "Máfia da Loteria" ainda não tínhamos a internet e todo mundo sabia que Ted Boy Marino e outros do "telecach" eram artistas circenses. Eles não escondiam isso. Agora, não. Com o advento da internet e redes sociais essas quadrilhas vão destruir o esporte como quase fizeram com o futebol há cerca de 40 anos.          

3 de maio de 2023

Um Tenório de triste figura


Vira e volta um personagem do Brasil atual nos remete ao passado não tão remoto assim. Hoje mesmo, por obra e graça do ex-presidente Bolsonaro a cidade de Duque de Caxias voltou às manchetes. Desta feita não por algum feito que relembre diretamente a figura de Tenório Cavalcanti, o político da capa preta e dono da Lurdinha, mas sim porque continua sendo um reduto de crimes e criminosos.

Natalício Tenório Cavalcanti de Albuquerque, para quem não o conheceu, era advogado e politico fluminense com área de atuação em Duque de Caxias. Vivia para cima e para baixo carregando sua metralhadora que chamava de Lurdinha (foto). Era violento, usava uma inconfundível capa preta e por muitos foi considerado o criador das milícias no Brasil. Coincidência? Até hoje não se sabe quantos crimes ele realmente cometeu, posto que deve ter mandado matar mais do que matou, mas sua fama era imensa. Desgraçadamente, deixou em Duque de Caxias a mancha de município violento e corrupto. Agora, com o escândalo dos cartões falsos de vacina do entorno de Bolsonaro ele emerge das sombras.

O ex-presidente brasileiro é um caso patológico de mentiroso compulsivo. Daqueles que mentem acreditando que as mentiras sejam verdades. E também está se tornando um ator amador de péssima qualidade. Não à toa, quando presidente debochava da emotividade das pessoas chamando-as de frouxas e outros termos mais, mas agora, depois de perder a reeleição que tentava, se derrama com lágrimas de crocodilo em todas as ocasiões em que se coloca em dificuldades e tem uma câmara pela frente. Um pulha.

É triste termos tido um presidente da República capaz de tantos atos espúrios. Até mesmo de falsificar atestados de vacina porque enfiou na cabeça que esse medicamento causa o mal e não o bem a quem o usa. Até viagem internacional o sujeito fez munido de documento fraudado. Felizmente para nós sua carreira está chegando ao fim. Cadáver político insepulto, ele logo deverá estar numa cela de prisão. Esse é o lugar ideal para o Tenório de triste figura dos tempos atuais.       

27 de abril de 2023

Uma velha história


A falsa luta da tradicional família brasileira contra o fantasma do comunismo é uma velha história sempre revisitada pelos oportunistas dos mais diversos setores e matizes. Lembro-me, embora um pouco vagamente, de que em fevereiro ou março de 1964 uma amiga de mamãe no clube do qual éramos sócios em São Paulo a convidou para sair na manifestação "Marcha da Família com Deus pela liberdade". Essa aí da foto tirada na capital dos paulistas. 

Então éramos associados do Ipê Clube, que até hoje existe nas proximidades do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. A amiga de mamãe queria evitar que o Brasil viesse a se tornar "uma nova Cuba". Mamãe não participou porque tinha casa para cuidar, filhos e marido. Todos de alguma forma dependiam do trabalho doméstico dela, que durava ao menos 12 horas por dia. Na vinda do clube para casa, comentou o convite com papai e este concordou com a negativa dela. Mas ele estava mais interessado no campeonato de bocha do dia seguinte do que nesse assunto...

Meses mais tarde, em Vitória para onde vim passar férias na casa de vovô antes de me mudar definitivamente para cá, ouvi dele numa conversa com vizinhos que o Brasil havia sido salvo "de uma boa". Perguntei o motivo e o velho português José Maria, um salazarista convicto, disse que se os comunistas não fossem sacados do poder eles iriam "botar famílias dentro da casa da gente dividindo os espaços conosco". Meu avô morreu apenas 15 dias antes da Revolução dos Cravos. Que pena!

No Brasil e em outros países, preferencialmente na América do Sul, os movimentos de cunho nazifascista sempre surgiram insuflados pela classe média alta e pelos mais ricos. Claro, afinal eram os privilégios deles - e não seus direitos - que estavam sendo defendidos. Portanto, existe pouca diferença entre o que acontece hoje e o que vivemos no passado. Naquela época ninguém precisava acampar diante de quarteis, até porque saiu deles o braço armado da ditadura que tomou o poder para trazer o Brasil "de volta à normalidade" e levou 21 anos para ser apeado do poder, não sem antes de prender ilegalmente, torturar e matar centenas de brasileiros. Principalmente jovens.

Da mesma forma que hoje, há quase 60 anos o extremismo de direita usava a figura divina como escudo para ocupar os espaços de poder agitando o fantasma do comunismo. O que difere o ontem de hoje é que agora a sociedade vive em situação de conhecimento imediato dos fatos e embora o golpismo continue entranhado em nossas tradições políticas, principalmente após as redes sociais e o bolsonarismo, os militares preferiram não correr o risco de serem eles os protagonistas de um novo golpe de Estado. Afinal, fazem isso desde e proclamação de República!

Mas o risco de ataque à democracia persiste ainda hoje, sobretudo com as redes sociais e as fake news com as quais ninguém sequer sonhava nos idos de 1964 quando houve o convite feito a mamãe. 

17 de abril de 2023

Bom dia a cavalo

"Quem fala demais dá bom dia a cavalo" é um dito popular que significa o seguinte: se eu falo sem ouvir os outros, acabo não sendo compreendido, recebo contestações e, quem sabe, um  coice. Por isso o presidente Lula, que é importante para a reconstrução do Brasil que a camarilha do ex-presidente destruiu, deve deixar questões como a guerra Rússia-Ucrânia com a Chancelaria. Lá elas serão bem cuidadas.

Com o fim da II Guerra Mundial o avanço soviético sobre países da Europa ocidental produziu a Organização do Tratado do Atlântico Norte, o contraponto ao Pacto de Varsóvia. Isso até 1991 quando a dissolução da União Soviética fez tudo perder sentido. Mas a OTAN prosseguiu e agora avança sobre o Leste com o claro intuito de chegar às fronteiras russas. Quando o império soviético caiu ficou mais ou menos implícito que a Ucrânia não ingressaria no Tratado porque os russos mantinham sua frota no Mar Negro, precisavam de livre acesso  ela pela Criméia, não abdicariam a isso e não iriam tolerar armas nucleares na sua fronteira. A guerra aconteceu porque Putin, um autocrata, não aceitou recorrer aos organismos internacionais como o Conselho de Segurança da Organização e Zelensky foi incentivado pelos países ocidentais a simplesmente esperar a guerra. Não houve negociação alguma, a não ser de fachada.

E agora, José? Agora é necessário que haja mesmo um esforço diplomático para por fim à carnificina e à destruição da Ucrânia. Mas esse esforço só terá sentido se for feito com a busca de soluções e sem que se aponte culpados. Não há inocentes ou virgens em diplomacia internacional e quem sabe tratar desses assuntos são os diplomatas. Não é o caso de Lula que sequer deveria ter dito diante de Xi Jinping (foto) que ninguém vai impedir o Brasil de ampliar suas relações com a China. Claro que não, mas isso não deve ser falado em nome das boas relações internacionais. O ruído nessas relações sempre leva a atritos e o presidente brasileiro já tem inimigos internos suficientes. Deve deixar o plano externo livre.

Alguém próximo deveria dizer a Lula que há um Brasil a ser reconstruído e isso é tarefa dele. Todos os brasileiros o conhecem, sabem de sua verborragia e querem que ele se concentre apenas no trabalho necessário. Se fizer somente isso o bolsonarismo é quem dará bom dia a cavalo. E ele está doido por esse protagonismo! Não consegue esperar a hora!                   

15 de abril de 2023

Permitam que sonhem


- E de repente a gente está vendo essa onda de ameaça, de violência, a gente não entende como isso acontece!

As declarações acima, literais, são do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, comentando as violências cometidas sobretudo em escolas do Brasil. Ou em creches onde, numa delas de Blumenau, Santa Catarina, quatro crianças foram mortas a golpes de machado. Ele certamente não estava bêbado ao falar e nem tinha perdido a razão. É apenas um cínico que participou direta ou indiretamente durante quatro anos do desgoverno anterior a esse e viu o ex-chefe de Estado usando até  mesmo crianças para mostrar armas pesadas ou imitar "arminha" com as suas mãos sujas de sangue.

Tarcício segue a mesma cartilha do governador de Santa Catarina e de outras autoridades brasileiras ligadas às soluções pelas armas: quer inundar creches e colégios de policiais armados. Quer combater a violência com violência. Ele não quer enxergar que a origem de tudo o que estamos vivendo hoje é a politica armamentista da extrema direita que chegou ao poder em 2018 no rastro de cometa de um ódio anti-esquerda e anti-PT provocados em parte por uma carrada de erros cometidos setores da esquerda política brasileira nos anos que antecederam a penúltima eleição presidencial.

Todos sabemos - ao menos os mais lúcidos - que o combate à onda de ódio se faz com a educação das pessoas. Com o "não" ao armamentismo que hoje alcança até escolas de tiro onde se busca ensinar os pequenos a matar, como acontece em Goiás. Contra a cultura do ódio é preciso implantar o humanismo. Não é verdade que um povo armado jamais será escravizado. O correto seria dizer que um povo armado e instrumentalizado politicamente por um novo nazi-fascismo vai escravizar as oposições e dizimar as minorias, como já estava sendo feito com nações indígenas brasileiras.

É preciso que sejamos todos subversivos no bom uso dessa palavra. Contra essa ideia de um país formado por milícias e milicianos dos mais diversos matizes vamos buscar os ensinamentos de gente como o padre Júlio Lancelotti e tantos outros e mostrar que crianças contêm sonhos. Para fazer um país feliz e alargar a cada dia mais seu futuro basta que a gente permita que elas sonhem.

Não à cultura da violência! Não ao novo nazi-fascismo!    

24 de março de 2023

Decência, coisa sagrada!


Em resposta ao presidente da República, que considerou "armação de Moro" o episódio do ataque aos planos do PCC de sequestrar o senador Sérgio Moro (foto), seus familiares e outros, o parlamentar alvo disse, atacando a figura de Lula, que ele não tem decência. Só mesmo o próprio mandatário sabe se isso é verdade ou não, pois tem seus critérios a respeito. Mas cabe aqui uma pergunta: um juiz de Direito que controla diversos processos onde não há provas cabais contra o acusado, mesmo assim o condena, o retira da disputa presidencial na qual era favorito e depois renuncia às suas atividades de magistrado para ser ministro da Justiça do candidato que indiretamente elegeu pode falar de decência?

O maior erro do presidente de República no episódio foi dar protagonismo a esse senador que vivia quase isolado no Congresso. Ele teve muito mais do que 15 minutos de fama! Lula deveria ter ficado à margem da questão, deixando ao ministro da Justiça e à Polícia Federal as considerações sobre os fatos. Quando falou mostrou que suas mágoas - e ele tem o direito de tê-las se for mesmo inocente - são tão profundas que o impedem muitas vezes de raciocinar com mais serenidade. O que é ruim.

Também provável futura vítima do PCC, o promotor Lincoln Gakiya falou sobre o assunto: "Moro é alvo desses criminosos por conta da portaria que baixou proibindo as visitas íntimas no sistema penitenciário federal. Isso realmente desagradou esses criminosos, não só do PCC, mas de todas as facções. Embora o plano em si tenha sido descoberto em janeiro desse ano, os documentos e informações das investigações dão conta de que está em andamento desde agosto de 2022, portanto no governo anterior. Não há motivo para dizer que foi engendrado pelo governo atual ou algo parecido. Infelizmente, estão fazendo uso político de uma operação de sucesso".

As declarações explicam tudo, inclusive indiretamente, as falas de agora do senador Moro, que se pronuncia sobre a decência dos outros, mas omite o fato de que é o governo atual quem orienta as investigações da PF e deu plena autonomia a ela. Vamos nos recordar de que esse hoje parlamentar demitiu-se do cargo de ministro da Justiça do presidente anterior porque esse estaria tentando tirar dele o comando e a autonomia dessa mesma polícia. Era um teatro isso tudo? Parece que sim.

Mas foram teatros claros e dirigidos os processos que ele comandou na Operação Lava Jato, afastando o atual presidente da disputa de 2018, e que hoje vão sendo anulados um a um. Sempre aprendi - meus pais me ensinaram - que decência é coisa sagrada. Só pode falar dela e nela quem a pratica por princípios e por trazê-la do berço. Moro, por seus atos, está bem distante disso.                

21 de março de 2023

Vai passar...


TRÊS HOMENS: Minha família é composta de três membros. Um demente, um gênio e eu, que sou militar./Todos nós, não sei se vocês sabem, temos um costume: o de à meia noite sair e dar três voltas em torno de nossa casa./Meu parente que é louco dá as três voltas procurando sua estrela de cinco pontas./Meu parente que é gênio levanta-se à meia noite noite e dá três voltas em torno da casa procurando uma verdade./E eu, que sou militar, dou as três voltas procurando o meu deus vermelho. (Oswaldo França Júnior in "As laranjas iguais").

Faz três dias e eu estava numa cafeteria tomando um expresso. Certa mulher de verde e amarelo foi vista por outra sentada na mesa ao lado da minha, que a chamou para conversar. A "patriota" não se conteve: "Passei por um sujeito com camisa do PT e quase vomitei. Tive vontade de esganar. Não suporto essa gente". Quase espumava e passei a acompanhar o monólogo quando ela olhou para mim e perguntou o que era, se eu não estava gostando. Disse apenas: "Não a conheço, não sei quem é e não quero que a senhora se dirija a mim". Ela foi embora vociferando...

Depois da derrota do ex-presidente hoje nos Estados Unidos seus seguidores, e vez de acatarem o resultado, acabaram mais fanatizados, mais violentos. Não pedem apenas intervenção militar, como antes. Na impossibilidade de cercarem quarteis, agora abordam a todos nas ruas, agressivos, arrogantes. E não são apenas os homens. As mulheres acabam tão ou mais amalucadas que eles. Dão voltas em torno de casas, de grupos, pessoas, de estabelecimentos comerciais, sempre à procura de um confronto. Ou de uma estrela de cinco pontas. Ou de uma verdade. Ou de seu deus vermelho.

Estão também no Congresso Nacional. Ou com perucas loiras, ou com discursos inflamados e desconexos ou então tentado emplacar leis inconstitucionais que pretendem cercear a tudo e a todos, mesmo agredindo a Constituição. Um deles se apresenta como "príncipe". Vários outros com patentes militares, títulos policiais, nomes iniciados por "doutor" e vai por aí.

Creio que isso é coisa que dá e passa, como tudo na vida, inclusive ela própria. Mas enquanto não acontece essa turba inferniza a vida dos outros. Oswaldo França Júnior, escritor há anos falecido, era militar, não aceitou ver as forças armadas nas mãos de golpistas e passou o diabo por causa disso. Mas sobrevivemos todos nós até que um genocida e sociopata tirou esse passado de seu sepulcro e fez os brasileiros se lembrarem do que existe de pior neles, como a gente vê na foto que ilustra o texto.

Não tem problema, vai passar...            

10 de março de 2023

A mulher de César


O presidente Lula deveria ler sobre um episódio da história romana que chamaremos de "A mulher de César". Mas vamos começar nos lembrando de que desde sua posse em 1º de janeiro o atual presidente vem marcando a administração atual por decisões para lá de benéficas ao Estado brasileiro. Revogou decretos do governo anterior como o de acesso às armas, reestabeleceu o combate ao desmatamento, está impedindo o genocídio indígena e promovendo mais uma série de outros atos como o que separava as crianças com deficiência das demais, sobre impostos, recriou o Auxílio Brasil de R$ 600,00, o Bolsa Família, o auxílio gás, revogou oito privatizações de estatais brasileiras e, para não nos estendermos muito, está recuperando Saúde, Educação, etc., etc., etc.

Mas o presidente trata desiguais como iguais no plano internacional e isso é ruim. Mandar um emissário a Caracas quase em segredo não pode. E confundir o Daniel Ortega que derrubou o ditador Anastácio Somoza com o de hoje, que persegue até a sombra de quem não concorda com ele é no mínimo temerário. Deixa a impressão de não honestidade pessoal até naqueles sem julgamentos preconcebidos.

Pompeia Sula, mulher de Júlio César, resolveu dar uma festa no palácio somente para mulheres e sem a presença do marido. Publius Clodius, rico e que era apaixonado pela linda jovem conseguiu se esgueirar disfarçado de tocador de lira para ver sua amada. Foi descoberto. Ao tomar conhecimento do fato o imperador determinou que o trapalhão fosse exilado em uma unidade militar bem distante onde ele foi assassinado. Depois chamou a esposa e comunicou a ela a separação de ambos. Pompeia argumentou que  era honesta, no que ouviu do marido: "À mulher de César não basta ser honesta. A mulher de César tem que parecer honesta!"

Cercado por todos os lados pelos detratores, Lula não pode ser condescendeste com não democratas. Tem que exercer crítica pesada sobre eles, lembrando-se sempre de que está substituindo um admirador de ditadores e torturadores e que sobreviveu a uma tentativa de golpe de Estado em 08 de janeiro. Deve pensar também que a corja bolsonarista ainda não desistiu. Aqui mesmo no Espírito Santo ela continua a ser atuante, muito atuante, todos os dias. E não tem o menor apreço pelos valores democráticos.

Seja César, Lula, jamais Pompeia. Ainda que discorde do imperador.          

6 de março de 2023

Juscelino, a bomba-relógio


No campo minado onde o atual presidente Lula foi colocado, o ministro (sic!) Juscelino Filho pode ser a maior bomba-relógio a explodir no colo do governo atual. Em dois meses o sujeito, indicado pelo União Brasil, já cometeu uma série tão grande de desatinos que nem vale a pena enumerar todos. O partido dele ameaça retirar o apoio ao Executivo se houver uma demissão? Dane-se. Prejuízo maior é ceder à prostituição política porque tudo deve ter um limite, e até mesmo na sem limites Brasília.

Vamos nos ancorar somente em um fato, o último, para dizer que esse senhor tem que ser afastado do Governo rapidamente: apresentou nomes de um casal e de uma filha de dez anos, todos moradores em São Paulo, para compor parte do grupo do ministério das Comunicações. A família diz não conhecer a "autoridade" nomeadora. Então o dinheiro que seria pago aos supostos servidores teria outra destinação. Alguma coisa parecida com o que seria feito com as joias presenteadas à Michele Bolsonaro...

O presidente Lula deve usar seus assessores mais capazes (e sagazes) para contornar o campo minado onde está. Cito um exemplo: não foi inteligente invadir as terras da Suzano (foto). Se essa empresa tinha um acordo e não o cumpriu, cabe ação judicial. A Polícia Militar foi até a região, não incomodou os fazendeiros que ameaçavam os membros do MST ao som do Hino Nacional e tomou ferramentas agrícolas do Sem Terra. Também nesse caso cabe ação judicial porque a área não tinha decisão de desocupação, processo algum e ainda por cima não cumpria função social. Cabe ação até mesmo contra a Polícia Militar baiana, que deve considerar brinquedos as armas nas mãos dos fazendeiros e seus sequazes e pás, enxadas e outros como revólveres ou fuzis nas mãos de agricultores.

No campo minado é bom jogar o jogo com inteligência para a extrema direita não ter ainda mais munição a usar nas milhares de armas que adquiriu desde a chegada de Jair Bolsonaro ao poder. Erros são tudo o que eles querem ver o Governo cometendo. É preciso não deixar que ações pouco ou nada inteligentes sejam capazes de desviar a atenção dos brasileiros para outras coisas além dos graves atos de corrupção do governo passado e que envolvem até mesmo tentativa de contrabando de joias.

      

4 de março de 2023

"Contrabandos Bolsonaro Ltda"


O ex-presidente hoje fugido nos Estados Unidos, Jair Bolsonaro, gosta(va) de dizer que comandou um governo "sem corrupção" . Era a forma de, indiretamente, tentar atingir o atual presidente Lula, que carrega esse estigma imposto a ele por várias pessoas ou setores, sobretudo e principalmente pelo ex-juiz Sérgio Moro. Mas não apenas esse ex-capitão é desonesto até a medula como também, e agora está provado, tentou trazer jóias de valor de três milhões de euros contrabandeadas para o Brasil.

Um dia os brasileiros ainda vão contar toda a história do fatiamento da Petrobrás acontecido nos últimos quatro anos, sobretudo e principalmente a venda a preço vil dos gasodutos construídos com o dinheiro do povo de nosso país. Hoje pagamos aluguel pelo uso do que outrora era nosso e que, a custo de ouro, podemos utilizar mediante remuneração aos donos. E não foi só isso. A Petrobrás Distribuidora também foi vendida, da mesma forma que outras subsidiárias daquela que foi uma das maiores empresas petrolíferas do mundo. O que sobrou hoje paga de forma miliardária seus sócios e fechou o último ano fiscal com um lucro líquido de dar inveja a qualquer grande empresa mundial.

Muito certamente por causa da venda de parte da Petrobrás aos sauditas, quando a trupe presidencial esteve na Arábia ,dona Michele recebeu um mimo: três milhões de euros em joias de grife (foto). Seria até legal o presidente obter um presente destes caso isso fosse declarado à Receita Federal e destinado ao Tesouro Nacional. Mas não. Os Bolsonaro tinham outros planos para o ouro e as pedras preciosas que muito provavelmente seriam transformadas em euros ou dólares a serem usados para a compra de imóveis em dinheiro vivo. Ou a outra destinação ilícita. Sim, porque ilícito esse governo encerrado no último dia do ano passado foi do princípio ao fim. Do primeiro ao último dia.

Para citarmos só mais um fato, houve quatro tentativas frustradas de resgate das joias junto às sérias e honestas autoridades alfandegárias do Aeroporto Internacional de Guarulhos. Tudo deu errado. E, miseravelmente, nessas investidas havia a presença de militares extremistas que serviram ao presidente e seu entorno. As investigações também precisam avançar sobre eles, que são a banda podre das forças armadas brasileiras. Fazem um estrago danado e nos envergonham.   

O Brasil ainda precisa contabilizar com calma e apuro todos os danos que sofremos e ainda vamos sofrer em decorrência do último governo, inclusive com a participação do então ministro da Fazenda, Paulo Guedes. A gang que se ocupou do poder fatiado entre amigos e outros tipos de apaniguados como, por exemplo, nazifascistas de carteirinha, destruiu o país enquanto distribuía a propaganda da remontagem de um Estado que teria sido dilapidado por governos anteriores.

A empresa informal "Contrabandos Bolsonaro Ltda", com todas as suas inúmeras ramificações precisa pagar caro por todos os desmandos cometidos de 2019 a 2022. E que foram incontáveis!   

1 de março de 2023

As Domadoras de mentes vazias

A raivosa extrema direita brasileira, hoje representada pelos seguidores do ex-presidente que fugiu para os Estados Unidos, não respeita nem mesmo as tradições populares brasileiras. Agora, mais recentemente foi proibido o desfile de dois blocos carnavalescos no Centro de Vitória, um deles chamado "Esquerda Festiva". Era para fechar o carnaval no qual até as máscaras choraram. E a apresentação foi impedida apenas e tão somente por causa do nome e da natureza ideológica que marca os carnavalescos. Por mais nada.

Quando adolescente e adulto morei algum tempo no Centro, à rua Francisco Araújo, que fica atrás do Palácio Anchieta. A turma gostava de pular nas ruas e nos clubes sociais como Álvares Cabral, Saldanha da Gama. e Náutico Brasil. Sacanas que éramos, muitas vezes convidávamos as "primas" dos números 78, 92, 120 e 130 da rua General Osório para saírem conosco nos blocos "As virgens de Salem" e "As domadoras de serpentes". Nunca fomos proibidos de nada e jamais incomodamos as dignas senhoras puras e casadoiras da sociedade do Centro, que àquela época já era chamado de "Favela de Luxo" pelos moradores dos bairros na região norte, sobretudo os da Praia do Canto.

E olhem: eram tempos duros de ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1969, quando isso aconteceu.

Agora, no porre da viuvez de seu mito Bozo, até mesmo vinho chileno com rótulo em homenagem ao fascista já existe na região dos direitistas de Pedra Azul (foto menor). Em algumas cidades do Rio Grande do Sul e Santa Catarina fervilham os grupos neonazistas, sobretudo de jovens. Que horror! Dois ministros do Supremo Tribunal Federal foram impedidos de fazer palestras em cidades gaúchas por causa de ameaças. E as Forças Armadas, em parte capitaneadas por extremistas que representam a ideologia do ex-presidente, ainda são hoje uma ameaça velada à tênue democracia brasileira cuja construção custou tão caro aos brasileiros de esquerda que lutaram contra a ditadura entre 1964 e 1985.

Gozado, e eu até hoje pensava que o jogo do bicho e seus tentáculos sobre o carnaval e as escolas de samba fossem nosso maior inimigo, o solapador da festa popular que mais reúne gente no Brasil. Surpreso descubro que até agora não conhecia bem o país onde nós vivemos. Aqui pontificam as "Prostitudas de salem" e as "Domadoras de mentes vazias". Que coisa  mais triste!   

25 de fevereiro de 2023

Ninguém é inocente no palco da guerra.


Notem bem uma coisa: o que menos se fala na Europa e nos Estados Unidos - além, é claro, na Rússia - é na forma de se acabar com a guerra da Ucrânia. Como fazer a paz? O presidente ucraniano Volodimir Zelenski quer combate, obviamente ancorado no poder da OTAN e dos Estados Unidos. A esmagadora maioria dos que o apoiam também faz rufarem os tambores de guerra. E por quê? Simples, porque rios de dinheiro são gerados pela indústria bélica mundial e ela tem muito poder.

Com o fim da II Grande Guerra ficou claro que os aliados Estados Unidos e União Soviética eram só parceiros de ocasião e logo seriam inimigos ideológicos declarados. Foi o que aconteceu. Isso gerou a Guerra Fria - aquela que não dispara tiros senão esporádicos -, que só foi terminar em 26 de dezembro de 1991, com o fim da União Soviética. Ainda está para ser escrita a obra que vai explicar como a URSS se dissolveu num passe de mágica depois de ser um bloco aparentemente monolítico durante 73 anos. Mas essa não é a discussão de agora, dessa coluna.

A agressão da Rússia à Ucrânia foi uma estupidez e não pode ser explicada apenas e tão somente por "um ato ditatorial", como querem aqueles que gostam de simplismos idiotas. Na prática, com o 26 de dezembro de 1991 deixou de haver o motivo maior para a existência da OTAN, posto que a "cortina de ferro" estava cerrada. Mas não. Os princípios da globalização impunham aos Estados Unidos continuarem na aliança com a Europa, ampliarem essa rede de "solidariedade" e se aproximarem a cada dia mais das fronteiras com a Rússia. De alguma forma russos iriam reagir. Quando Vladimir Putin fez isso da maneira menos inteligente que poderia existir, sua ação bélica uniu os interesses econômicos mistos do conceito de economia globalizada com os da gigantesca indústria bélica mundial, sempre ávida por vender armas de todas as formas e para todos os clientes, não importam o regime e a ideologia. Eis a guerra como ela é!

Chocam a todos nós os dramas de crianças como as da foto acima? Aos senhores da guerra, não. Também pouco importam os inocentes jovens e velhos que estão morrendo, bem como a juventude fardada em campos de batalha que antes eram até de batatas. Cidades destruídas também podem ser reconstruídas, o que igualmente dá um bom dinheiro a setores da globalização. Tirando os pequeninos sem futuro, ninguém é inocente no conflito Rússia X Ucrânia. Sobretudo os que discursam nos mais diversos pódios falando de liberdade e autodeterminação dos povos.