23 de abril de 2014

Ela não encontrou o remédio...

Eram cerca de 08h30m e acompanhei minha mãe à Igreja de Santa Rita de Cássia, na Praia do Canto, Essa da foto. Na parte de trás do prédio funciona um setor de entrega gratuita de remédios mantido por voluntárias ligadas à igreja. São amostras grátis "raptadas" de médicos e entregues mediante apresentação de receita. Uma pessoa não encontrou o remédio de que necessitava. Ficou triste e outra disse: "Vota em Lula de Novo..." Eram, em sua maioria, pessoas humildes com receituários do SUS. Não tinham como pagar por sua saúde.

Soa miseravelmente cruel escrever isso: o brasileiro não pode pagar por sua saúde e a culpa não é só de Lula. É de uma enorme gama de pessoas, na maioria políticos, que vivem de favores públicos, enriquecem à custa do Estado, distribuem dinheiro também a seus apaniguados e mantêm uma estrutura corporativa que torna os direitos constitucionais dos cidadãos meras miragens no deserto.

Quantos milhões de cargos comissionados existem no Brasil? Quantos milhões de apaniguados inflaram a estrutura pública brasileira nos últimos anos? Quantos bilhões de reais são drenados a cada ano para o ralo da roubalheira nas obras públicas capitaneadas por quadrilhas de grandes empresas que superfaturam obras, dividem licitações entre si e pagam comissões a corruptos para manter seus feudos empresariais.

A Rodosol é só um exemplo. Mas ela existe porque o contrato que a mantém foi feito a caráter para permitir o assalto aos cofres públicos, e a exploração de um serviço mantido por décadas a tarifas irreais e assaltando o bolso do cidadão. Praticamente a totalidade dos contratos públicos de obras ou gestão são feitos para beneficiar empreiteiros e permitir ações judiciais capazes de eternizar lucros, gerar riquezas imorais e assaltar o dinheiro dos impostos que deveria ser usado, dentre outras coisas, para que a senhora citada por mim pudesse encontrar o remédio de que precisa. Se ela morrer por falta dele, nada vai acontecer à Rodosol, à Petrobrás ou a qualquer consócio de empresas que vivem à custa do dinheiro público. Do meu, do seu, do nosso dinheiro.

Amanhã o serviço de entrega de remédios da Igreja Santa Rita de Cássia vai abrir de novo às 08 horas. Uns levarão o que precisam, outros não. E eles não terão, coitados, a capacidade de entender porque isso acontece. Não entenderão que Lula é só uma engrenagem do sistema.

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18 de abril de 2014

"Unidade" e "governabilidade"

Nada, mas nada mesmo oxigena mais a democracia do que o confronto de ideias. Dois ou mais candidatos a um cargo público expondo seus projetos, ideológicos ou não, seus planos de ação e, com isso, buscando obter os votos dos eleitores. Sinto asco quando leio, vejo ou ouço essas conversas de "unidade" cercando candidaturas políticas como ocorre hoje quando se projeta a disputa para o Palácio Anchieta.
Essa "unidade" quer dizer acordos, muitos dos quais escusos, conchavos de bastidores, a maioria deles envolvendo divisão de cargos. É o mesmo que o discurso da "governabilidade". O Legislativo a troca por nomeações de apaniguados, grande parte cabos eleitorais ou caciques políticos de primeiro, segundo e terceiro escalões.
Eis a raiz de grande parte da corrupção politica no Brasil. Enquanto não fizermos do confronto de ideias a essência de nosso debate eleitoral, estaremos sujeitos à promiscuidade de todas as eleições, sejam elas municipais, estaduais ou federais.

23 de fevereiro de 2014

Presos de fino trato

Conta-se que pela década de 1960, época da ditadura militar, um comandante da PM pediu ao governador Christiano Dias Lopes Filho para voltar ao Rio de Janeiro pois sua família não havia se adaptado bem ao Espírito Santo. Foi exonerado a pedido. Aqui é preciso explicar alguns pontos: naquela época eram os comandos regionais do Exército que nomeavam os comandantes das polícias militares. Eram todos coronéis daquela Arma. E essas nomeações não passavam pelos governadores.
Não estou conjeturando ou coisa parecida. Em conversa informal, depois de entrevista para o livro biográfico do professor Paulo Pimenta, o ex-governador Christiano Dias Lopes Filho confirmou-me isso. Foi a última entrevista que deu antes de morrer. E aparentava ótima saúde.
Os jornais foram noticiar o fato. Como os demais, O Diário era feito a linotipo. As letras eram composta a chumbo quente, linha após linha, e agrupadas formando as páginas que, então, terminavam gerando chapas de impressão. Deu para entender? Deve ter dado. Tinha-se que tomar cuidado, ao pegar linha após linha, com aquele chumbo quente, para nenhuma letra cair e deixar palavra incompleta. Não se sabe como isso aconteceu numa manchete de "oito colunas", mas o texto "Comandante da PM é exonerado a Pedido", de O Diário, depois de perder o primeiro "d" de "pedido", foi publicado no dia seguinte em letras garrafais: "Comandante da PM é exonerado a peido". A correria foi grande. O furibundo coronel do Exército queria "enquadrar" o responsável. Afinal, tratava-se de um militar fiel seguidor de um regime que prendia ilegalmente, torturava e matava cidadãos que discordavam do regime. Tem cabimento ser tratado assim? Não tem!
Um vice-diretor de presídio atual foi transferido depois de exigir que o preso da Justiça Delúbio Soares cortasse sua barba. Ele teria de ficar igual aos demais detentos, embora sendo "diferente". Os diretores do sistema prisional de Brasília se apressaram em dizer que o vice-diretor não foi retaliado coisa nenhuma. Sua transferência se deu "a pedido" para ganhar mais. Notem bem: a transferência se deu "a pedido", por vontade do transferido. Não se tratou de uma transferência "a peido".
Na penitenciária da Papuda, em Brasília, políticos, autoridades estaduais e federais, dirigentes do PT e outros transitam livremente, violando os direitos dos demais presos. Delúbio, por exemplo, instituiu a feijoada dos sábados na ala onde vive como "vítima do sistema". Proclama inocência da mesma forma que José Dirceu, visto aqui na foto, "revoltado" por ter que conviver com presos comuns. Já houve ordens judiciais para que os privilégios deixassem de existir. Ordens desconsideradas. Visitantes ilustres entram de branco, a cor da roupa dos detentos, ou então com coletes da Polícia Civil. Afinal, vamos repetir são altas autoridades da República. Julgam-se - e devem estar - acima da Justiça, das sentenças - mesmo transitadas em julgado. São os reis da vaquinha!
Já vivemos a época da ditadura, quando oficiais de fino trato prendiam os que hoje representam nossos poderes, acusando-os de subversão. Como muitos dos ex-presos atuais ingressaram na política para corromper e serem corrompidos, não podem voltar a ser presos como antes. Agora, o são, pois as sentenças transitaram em julgado. Mas tornaram-se presos de fino trato.     

19 de fevereiro de 2014

Um preço alto

Um cidadão com quem eu conversava sobre a atual situação do Brasil me disse um dia desses: "Se aquele cinegrafista que morreu não fosse jornalista talvez nada disso tivesse acontecido depois. Nada de protestos generalizados, de mudanças de leis, de palavras de ministros, nada".
Talvez não tivesse mesmo. Não na mesma proporção.
Mas é triste constatar isso. E a que ponto vai a irresponsabilidade de grupos não se sabe ainda financiados exatamente por quem, que destroem patrimônio público e agridem pessoas indiscriminadamente. Para tanto, "assessorados" por uma Polícia incompetente e incapaz de conter multidões e separar quem protesta de quem destrói.
Geralmente as reações chegam quando os atos fogem do controle, do racional. Aqui no Espírito Santo havia um deputado que, em tom de blague, dizia que a imprensa era, não a quarta mas a primeira força no Estado brasileiro. O Primeiro Poder. Um dia ele foi à tribuna da Assembleia Legislativa e bateu no peito gritando: "Eu tenho a força". Era sua forma de dizer que ninguém seria capaz de prendê-lo. Foi preso pouco tempo depois, levado para a cadeia e não tem mais mandato até hoje. Eram públicos e notórios seus vínculos com o jogo do bicho e outras atividades ilegais.
Como no Brasil a desordem moral vem de cima para baixo, começando pela Praça dos Três Poderes, as mudanças chegarem à base da pirâmide demora. Mas chegam. Natan Donadon está na cadeia. Ex-ministros também. Um ex-governador passou por lá. E a tendência é que a cada dia, a cada mês, mais e mais a consciência crítica desse País cresça, exija, modifique. Sem matar, sem destruir, usando apenas de sua força moral. Os black blocs vão tentar atrapalhar, muitos lutarão contra, detentores de poder farão de tudo para preservar seus privilégios mas o que está errado mudará. O festival de sandices atual e que proporcionou os desmandos da Copa do Mundo tem os dias contados.
Pena que Santiago Ilídio Andrade tivesse que morrer. Foi um preço alto.

11 de fevereiro de 2014

Santiago, o símbolo!

Santiago Andrade não era um jornalista famoso, embora tenha ganho dois prêmios por reportagens cinematográficas feitas para a TV Bandeirantes. Mas ele se tornou um símbolo com seu sangue derramado estupidamente na rua, atingido que foi por um rojão disparado por um idiota.
E Santiago é símbolo por um motivo simples: violências contra profissionais de Comunicação são cometidas no Brasil, em tempos recentes, desde a ditadura Vargas, passando pela que vigorou no Brasil de 1964 a 1985. Parece que ficaram os hábitos e costumes daqueles tempos negros e eles de vez em quando desabam sobre alguns jornalistas que cobrem o dia-a-dia do Brasil.
A vítima de agora foi Santiago.
E é difícil dissociar o fato recente de outros mais antigos. Na época de Vargas, um torturador do DIP era conhecido por sua violência. Como se chamava Benedito, todo preso que era colocado no camburão para ser levado para a delegacia se perguntava: "Será o Benedito?". Queria saber por quem seria torturado ao chegar, geralmente para confessar o que não sabia.
Sérgio Paranhos Fleury foi o rei da maldade durante os tempos duros do regime militar recente. Mas ele tinha incontáveis seguidores, auxiliares, sei lá como se chama isso. Um torturador certo dia parou de torturar uma prisioneira para limpar o suor da testa e quando ela perguntou a ele se tinha coração, respondeu: "Tenho. Mas quando venho trabalhar deixo o coração em casa".
Esse tempo já passou. Já passou?
Nos últimos anos um dos passatempos dos membros do atual Governo - junte-se Lula e Dilma nesse saco - é culpar a imprensa por tudo. Pelo "mensalão", por exemplo. E esses ataques, essas acusações, servem para lançar parte da sociedade contra o trabalho dos jornalistas. Inclusive membros das corporações policiais. Violências têm acontecido. E vão acontecer outras se todos não gritarem contra a morte de Santiago com a mesma força usada nas épocas de ditaduras.
Lamento a morte de um companheiro de profissão. Lamento por uma jovem jornalista que não terá um pai para vibrar com seu trabalho, crescimento profissional e sucesso. Lamento pelo fato de aquele profissional que não chegou a fazer 50 anos ter se tornado símbolo. Mas é preciso que não haja outros mais. Se todos ficarem calados, se a gente não gritar, vamos continuar morrendo.
           

30 de janeiro de 2014

Os flanelinhas, sempre eles...

Um flanelinha "ajuda" um carro a estacionar em Vitória. Custa R$ 15,00
Por omissão, demagogia, oportunismo, covardia ou mesmo por corrupção, mas nunca por desconhecimento dos fatos, os políticos brasileiros criam monstros. Até que eles se tornem tão grandes que combater o mal vira coisa que só pode ser feita com o uso de força repressiva. Isso se vê, por exemplo, no caso dos flanelinhas que assolam grande parte das cidades brasileiras, como praticamente toda a região metropolitana da Grande Vitória, no Espírito Santo.
O político toma café da manhã, almoça, lancha à tarde, janta e vai dormir pensando em votos. Se o ganho desses votos coincidir com atos que beneficiem o interesse público, ótimo. Se não coincidir, ótimo também e o interesse público que se dane. Que se lasque!
O gestor público brasileiro se acostumou com um sofisma cultivado como se fosse verdade de grande valor: o flanelinha é um problema social. Esse termo, problema social, foi popularizado já faz algumas décadas no palavrório do PT, pois lida diretamente com seu eleitorado. Mas hoje outros partidos também o usam porque, afinal de contas, todos são "progressistas".
Ontem, dia 29, um jornal de Vitória, A Gazeta, publicou matéria denunciando que bandos de flanelinhas lotearam regiões do Centro de Vitória e bairros nobres. Nessas regiões, estacionar no espaço público custa R$ 15,00. O motorista sabe o que acontece com seu carro se ele não pagar. Acrescente-se a isso o fato de que pode ser agredido fisicamente.
Faz alguns anos um vereador tentou aprovar uma lei considerando ilegal essa atividade mas o prefeito de então, do PT, a vetou. Na prática, é legal ser flanelinha, lotear as ruas, colocar cones para guardar lugar destinado a clientes constantes e extorquir o cidadão. Se alguém se sentir ameaçado ou coisa parecida, "basta" chamar a Polícia. Torcer para que ela venha, tome providências e depois nunca mais voltar àquele lugar pois vai haver retaliação. E a Polícia pode não estar por perto.
Agora, fale-se em colocar parquímetros em 2.999 vagas para o cidadão pagar para estacionar o carro. Em dinheiro, moedas ou com cartão pré-pago. Isso já foi feito no passado, quando a pessoa comprava uma cartela numa banca de jornais/revistas e a colocava dentro do carro, à vista. Custava R$ 2,00. Mas os flanelinhas ficavam nas proximidades das regiões de estacionamentos, eles próprios forneciam as cartelas a R$ 4,00 e depois as pegavam de volta para usar de novo. Não havia fiscalização, nada. Claro, o cidadão podia chamar a Polícia. Caso ela viesse, OK. Bastava nunca mais voltar lá. É que a Polícia poderia não estar por perto.
O flanelinha não é um problema social. É policial. Se um dia a Polícia de uma cidade como Vitória recolher todos esses "profissionais" e os levar para uma triagem a metade fica na delegacia mesmo e de lá vai para um presídio. São criminosos e traficantes de drogas. O que também é crime.
Porém, quando estão fora das prisões eles podem votar. E as eleições estão para chegar.      

24 de janeiro de 2014

Uma gente diferenciada...

Na escada rolante do shopping, a "gente diferenciada" faz o seu "rolezinho"
Peca, e peca por burrice, quem consegue ver algum tipo de tonalidade ideológica no movimento dos "rolezinhos" que assunta donos e comerciantes de shopping centers. Assim como pecava quem fazia o mesmo com os movimentos contra aumentos de passagens urbanas e que acabaram com pancadarias provocadas por bandos de encapuzados black blocs.
Essas pessoas já foram chamadas de fascistas, de comunistas, de tudo. Mas não têm nem comando nem orientação. Apenas nutrem uma vaga noção de que o Estado está falido e que se elas mesmas não fizerem nada, nadinha vai acontecer em favor delas. Estão certas, e isso no caso daqueles que vão às ruas reivindicar, fazer passeatas, desde que sem violência.
Os "rolezinhos" são diferentes. E o que marca essa diferença é a "solução" que o Governo ensaia encontrar: criar "áreas de lazer" nas periferias, onde essas pessoas possam se encontrar. Ou seja, o Estado sabe o que acontece: essa garotada, em sua maioria, é formada por excluídos e que, por falta de espaço, resolveram invadir templos cercados e erigidos para o consumo das classes alta e média e onde a presença deles não é considerada adequada. Muito pelo contrário.
Lembro-me como se fosse hoje de um movimento de moradores de áreas nobres de São Paulo contra a passagem do metrô por lá. Uma burguesinha entrevistada por certa emissora de televisão disse que não queria o metrô na região porque ele iria levar para a porta de sua casa "uma gente diferenciada". Esse termo, diferenciada, marca bem o que ela pensa. Eles não são iguais a nós; são diferentes. E como são diferentes, não possuem carros de luxo, mansões e filhos nos melhores colégios, não podem descer do metrô em qualquer lugar. Nem ir a shoppings.
Nós temos um país de guetos. E eles só fazem aumentar, mesmo em tempo de "Governo Popular", como os membros do PT gostam de chamar suas administrações. Ou como o ex-presidente Lula, hoje dono de uma fortuna cujo montante só que pode quantificar, classifica os "companheiros" operários. Aqueles que, como ele, nasceram na miséria. Mas continuam na merda, ao contrário dele.
Os "rolezinhos" vão acabar. Com guetos ou sem guetos de periferia. Afinal, não se trata de um movimento que se sustente por si só. Mas vão deixar sua marca. Mais uma delas: a separação de uma sociedade desigual, onde os bem aventurados não querem ver os alijados. Preferem não ver pois, como não vão fazer nada, assim sequer sentem o cheiro.    

10 de janeiro de 2014

O Brasil inacreditável

Roseana Sarney, que hoje está sendo xingada de todos os nomes pelo Brasil que pensa, é um exemplo pronto e acabado da velha política brasileira. Essa política que sobrevive, herdada por ela do pai, José de Ribamar Sarney e sustentada pelo Brasil que não pensa.
Roseana olha para a frente com cara de quem não entende o "outro" mundo
Para ela não existe problema algum em encomendar lagosta, caviar, camarão rosa, file mignon e outros manjares mais para abastecer o Palácio dos Leões e a vivenda de descanso da família enquanto um massacre acontece na maior penitenciária de seu Estado, o Maranhão. Não há problema algum se a conta da comilança é maior do que a verba destinada aos presídios maranhenses e ao esforço para fazer com que eles sejam mais humanos. O mundo de Roseana é um. O da realidade do Maranhão, outro. Por isso ela disse candidamente que o problema da criminalidade de seu Estado acontece porque ele está enriquecendo. Não importa se enriquece poucos. O mundo de Roseana não é o mundo real e, no mundo dela, preso tem mesmo é que morrer na cadeia.
Um filmete que corre na internet mostra um dono de seita evangélica nordestina preso por ter engravidado uma menina de 14 e outra de 15 anos, ambas frequentadoras de seus cultos juntamente com os responsáveis. Na delegacia ele, o "pastor", disse que não é o pai das crianças. Elas foram geradas por ordem divina e são filhas do Espírito Santo. O pai de uma das meninas, ancorado pela filha que também crê nisso, assegura que é verdade: ele será o "sócio" do Espírito Santo.
É esse o Brasil que elege Roseana. Que mantém a velha política brasileira no poder num sistema de troca-troca onde o Executivo e o Legislativo se "ajudam" mutuamente para que seus líderes renovem mandatos até a hora da morte à custa do dinheiro e da ignorância de parte da população. É por isso que ministérios, secretarias e outros cargos são objeto de barganha. Esse sistema promíscuo mantém a velha política. Peca quem imagina que a República Velha está morta e sepultada. Alguns de seus fantasmas sobrevivem aqui e ali e se alimentam do Brasil sem informação, do Brasil refém do Bolsa Família, do Brasil que Roseana Sarney não conhece e nem quer conhecer.
Luís XVI e Maria Antonieta também não conheciam a realidade da França do final do Século XVIII. No caso deles, conhecer foi mais traumático. No Brasil de hoje, com um sistema educacional falido e um SUS que ajuda a morrer, o sistema de promiscuidade geral se sustenta graças às carências do País e não ao seu progresso. Afinal, praticamente todos os miseráveis deserdados pelo Estado acreditam que isso acontece por vontade divina. E vontade divina não se contesta.
Então um homem do sertão nordestino vai esperar que a filha dê à luz um filho ou filha do Espírito Santo e Roseana Sarney continuará na Ilha da Fantasia, vendo o BBB 14, comendo lagosta e petiscos de caviar. É o mundo deles. Dos extremos desse Brasil inacreditável.  

4 de janeiro de 2014

O caldo de cultura

Bombeamento em Guaranhuns. Situação de emergência mesmo com um projeto pronto há dez anos
Os jornais que circulam hoje (04/01) em Vitória trazem uma notícia que tem referência direta com os danos provocados no Estado pelas chuvas de final de ano: a Prefeitura de Vila Velha, teoricamente o município mais atingido por seu porte e população, está fazendo uma superestação de bombeamento de água para acabar com os alagamentos no Bairro Guaranhuns. Beneficiará outros pontos de alagamento sério como Jockey, Portal das Garças e outros vizinhos.
Vamos aos fatos: o projeto de construção de três estações de bombeamento de água em Vila Velha, que impediriam esses tormentos, foi concluído em 2004. Tem dez anos. Repito: DEZ ANOS. De lá para cá foi construído apenas o canal de Guaranhuns, que não serve para nada sem a estação de bombeamento, que funcionaria automaticamente jogando água para o mar via o Rio Jucu sempre que uma grande chuva atingisse a região. Das outras duas nem se ouviu falar até hoje.
Por que não há esse tipo de alagamento em Vitória? Porque aqui existem três estações de bombeamento que funcionam sempre que uma grande chuva nos atinge. A cidade alaga, sim, pois sistema algum suporta dilúvios. Mas em 12 horas as ruas e avenidas estão com a água escoada. Vila Velha necessita de equipamentos idênticos, sobretudo nas regiões mais atingidas. Esses bairros são muito baixos e alguns de seus setores situam-se abaixo da linha da preamar. Por isso não há escoamento por gravidade. Ocorre o contrário, também por efeito da gravidade.
Todos os engenheiros que trabalham direta ou indiretamente para a PMVV há anos sabem disso. Eu sei porque eles me contaram. E os prefeitos que passaram por lá sabem também. Cada sistema desses custa, completo, cerca de R$ 80 milhões. Muito dinheiro, não é? Mas está barato perto dos danos constantes às áreas públicas causados pelas enchentes e, sobretudo, às milhares de pessoas que residem na região, a imensa maioria delas pobres. Carentes de quase tudo.
Da mesma forma o Espírito Santo não conviveria com tragédias se fossem impedidas ocupações de encostas. Isso ocorre no Estado quase todo por omissão do poder público. Para ganhar eleições, governantes fazem que não estão vendo a ocupação dos morros - terras públicas - em regiões às vezes com inclinação excessiva, a destruição da cobertura vegetal e a exposição das terras nuas. Basta uma chuva forte, demorada e o solo encharca. Em seguida ele cede ao peso acima, desliza morro abaixo, destrói residências e mata as pessoas. Também por efeito da gravidade.
Eis o caldo de cultura das tragédias.       

1 de janeiro de 2014

O valão sem bombeamento

Vamos iniciar o ano de 2014 com uma informação que assusta: tenho um amigo engenheiro e que trabalha fiscalizando obras a cargo da Prefeitura de Vila Velha. Ele acompanhou toda a construção de um valão (ou canal de escoamento de água, como preferirem) com dois quilômetros de comprimento e R$ 10 milhões de custo total e que teria a finalidade de impedir os constantes alagamentos das regiões baixas do município.

Bairro alagado de Vila Velha. O valão não tinha estação de bombeamento
A empresa pela qual esse engenheiro fiscaliza era responsável pelo acompanhamento da obra civil. Terminada ela, caberia à PMVV comprar as bombas e demais equipamentos para que o escoamento das águas da chuva efetivamente ocorresse pois na estação de bombeamento pois, caso contrário, em dias e horários de chuvas fortes combinadas por preamar, Guaranhus, Gaivotas, Pontal das Garças, Jockey clube e outras regiões seriam alagadas como sempre ocorre.
A prefeitura não comprou os equipamentos.
Há naqueles locais um grande valão de concreto armado coberto pela água, chamado de Canal Guaranhus, e que começará a se deteriorar se não for terminado. Somente com os equipamentos de sucção será possível a ele retirar as águas das chuvas daquelas regiões, lançando-as no mar. Meu amigo que contou a história e é uma pessoa séria chama a isso de "descaso com o dinheiro público".
Seria apenas descaso ou mais alguma coisa? Afinal, se há bombas funcionando hoje, elas só foram instaladas depois das inundações e da tragédia completa.
Nós sabemos que o brasileiro precisa ser educado politicamente. Desde a  mais tenra idade, aprender que quando destrói um bem público, está destruindo o que é seu e meu. Desde a mais tenra idade, deve aprender que ao jogar lixo nos rios e riachos, nos valões e das bocas-de-lobo, estará contribuindo para alagamentos. Da mesma forma, quando constrói em encostas muito inclinadas, sobretudo se essas encostas tiverem a cobertura vegetal retirada, estará criando o caldo de cultura para tragédias futuras.
Mas como é possível conscientizar a população que convive com exemplos como esse? Como educar o cidadão se ele desde criança aprende como usar a "Lei de Gerson"? Se o meu amigo está certo, grande parte do que ainda ocorre em Vila Velha em termos de alagamento teria sido evitado se a obra pública tivesse sido realizada do princípio ao fim, com a compra e instalação dos equipamentos de bombeamento de água. Mas não aconteceu isso. Ou por descaso ou porque o prefeito estava curtindo Nova Iorque com a família enquanto o dilúvio caia. Afinal, ninguém é de ferro...     

25 de dezembro de 2013

Os culpados pelas tragédias

Basta olhar para a foto que ilustra esse texto e que tomei emprestada ao Século Diário para ver que encosta alguma como essa resiste oito, dez dias de chuvas intensas sem ceder e deslizar até o chão. É uma inclinação exagerada, sem cobertura vegetal adequada, sem obras de contenção e em dias seguidos de chuvas o chão vai ficando encharcado e se tornando instável até ceder. Então vira sepultura para os moradores do local, sobretudo crianças sem chances de defesa. Essa é uma foto de Colatina, de uma encosta onde cinco corpos, três deles de crianças, ainda não foram localizados.
Ontem a presidente da República esteve no Estado. Fez um voo de meia hora em helicóptero, passou o restante do tempo consultando o relógio, disse meia dúzia de coisas óbvias sem demonstrar um mínimo de emoção e depois foi embora não sem antes dizer que já deu muito dinheiro ao Espírito Santo (p... que p....!), que vai ceder pontes desmontáveis do Exército e que nunca antes havia visto uma tragédia como a nossa. Ao ser questionada sobre o fato de que essa é a primeira vez que visita o Espírito Santo em três anos de governo, respondeu que, antes dela, nenhum presidente veio até aqui em véspera de Natal. Durma-se com um barulho desses...
Já disse e repito: o poder público é o único responsável por isso tudo. Não se pode permitir construções em encostas como essa de Colatina. E elas existem aos milhares. Obras públicas devem ser feitas sempre com grande qualidade, tanto para durarem quanto para justificarem os investimentos. E o assoreamento dos rios deve ser combatido como uma política de Estado. Fazendo apenas isso o poder público impedirá grande parte das tragédias que acontecem.
Mas ele não age assim. Faz vista grossa  para as invasões das encostas pensando nas próximas eleições. Permite o assoreamento dos rios porque combater a prática custa, na maioria das vezes, tocar em interesses de poderosos. E exigir qualidade nas obras públicas vai contrariar grandes empreiteiras que assim ficarão sem como ganhar dinheiro em operações tapa-buraco, quando grande parte do pagamento vai para fundos de campanha ou conta bancária de políticos.
Nossas tragédias se repetem por esses motivos. Todos sabemos disso e ainda não se fez nada efetivo para construir um Brasil que fique a salvo de tragédias assim. Elas acontecerão sempre que a intensidade das chuvas ultrapassar limites aceitáveis e vemos isso hoje na Inglaterra e na França. Mas lá os danos são muito menores em comparação com os nossos. Lá há um compromisso entre aqueles que governam e aqueles que são governados, uns protegendo os outros.
Quero desejar um feliz ano novo a todos. E que em 2014 nós voltemos às ruas para exigir ética, honestidades e responsabilidade àqueles que nos governam. EXIGIR mesmo, com todas as letras maiúsculas. Que os baderneiros fiquem em casa sem nos atrapalhar, por favor. Vamos voltar às ruas sim, minha gente. E de preferência durante a Copa do Mundo.
        

19 de dezembro de 2013

Políticas públicas e o bem público

São recorrentes no Brasil os casos - sempre graves - de inundações, deslizamentos de terra, desmoronamentos e mortes nas cidades e no campo. Em todos os casos, rigorosamente todos, há um culpado e ele se chama Poder Público. É errado culpar o azar, São Pedro ou tentar encontrar outra desculpa esfarrapada. Os responsáveis ocupam os palácios de onde deveriam representar a todos.
Foto minha de uma Vitória parada sob chuva muito forte em via expressa
Especialistas em questões urbanas são unânimes em dizer que, em casos de cataclismos, temporais longos e que saiam muito do padrão das regiões, não há equipamento urbano capaz de resistir. Danos vão ocorrer. Mas quanto mais as cidades são bem construídas, mais elas defendem seus cidadãos de tragédias. Isso acontece nos países onde os cuidados dessa natureza são praticamente uma norma de administração. Uma obrigação.
No Brasil, muitas vezes demagogicamente, permite-se a construção de casas e outros imóveis em regiões de encostas, onde o risco de deslizamento é grande quando chuvas demoradas encharcam o solo e o tornam instável. O saneamento básico não é feito de forma eficiente. Os sistemas de coleta e escoamento de água, a mesma coisa. O capeamento das vias, sobretudo asfáltico, é de péssima qualidade. Os rios são assoreados e permite-se que as pessoas construam em suas margens. Muitas regiões das cidades costeiras e interioranas, e isso acontece na Região Metropolitana da Grande Vitória, estão abaixo da preamar ou então do nível mais elevado dos rios. Quando uma chuva forte se soma à maré alta ou atinge cabeceira de rios, alaga tudo. E o poder público não constrói estações de bombeamento capazes de impedir ou minorar esses danos. Aqui no Espírito Santo, Vitória e Vila Velha são os maiores exemplos de danos dessa natureza. Mas Cariacica e Serra também sofrem com isso. E só estamos falando da Região Metropolitana, sem relacionar os inúmeros casos do interior do Estado onde às vezes eles são mais graves.
O poder público é, além de demagogo, covarde. Em Vitória, a maior estação de bombeamento de água, capaz de impedir alagamentos, fica em frente ao prédio da Rede Gazeta de Comunicação. Como a região alagava e a empresa jornalística gritava contra isso, ela foi protegida. Os que não têm o mesmo poder de fogo continuam à mercê dos danos que as temporadas de chuvas provocam.
Seria preciso mudar as mentes. Mas de políticos e seus assessores já ouvi várias vezes que o mais importante para eles é sobreviver renovando mandatos. Ainda que isso custe a vida de outros. E custa. No Espírito Santo, hoje, já estamos contabilizando mortos. Desabrigados podem chegar a cinco mil. E a meteorologia indica que até domingo teremos chuvas fortes em todo um Estado já bastante castigado.
Até quando? Até quando o cidadão, indo às ruas, sem a "ajuda" de arruaceiros, conseguirem conscientizar o povo brasileiro de que é preciso mudar, mandando para casa a corja política que nos infelicita - não são todos os políticos, diga-se de passagem. É preciso quebrar blindagens, identificar patifes e fazer políticas públicas que visem o bem público. O conforto e a segurança daquele que paga impostos.
Só isso.

12 de dezembro de 2013

O Grande Chefe

Deve ser desconfortável para o delator do Mensalão, Roberto Jefferson, ficar numa prisão onde ele não poderá comer salmão defumado, geleia real e sucos com água de coco. Muito desconfortável. O advogado dele já avisou que são recomendações médicas. Então ele não poderá ir para uma prisão comum, terá de ser outra, incomum.
Conta-se uma anedota acerca de um chefe de estado que mandava que tudo em seu país fosse construído com material da pior qualidade. Era um tal programa tipo Minha Casa Minha Vida Que se Dane. Mas um dia ele chamou às pressas o ministro do setor de obras no Palácio do Entardecer e disse a ele que o projeto da nova penitenciária estava errado. Era tudo uma porcaria. A penitenciária deveria ser construída como aquela que existe em Mônaco. O ministro perguntou o motivo e o presidente respondeu: "A gente nunca sabe do dia de amanhã!"
Roberto Jefferson está acordando para o dia de amanhã. Ele é delator, dedo-duro. Na Papuda, mais 15 presos também acordam. Um deles, José Genoíno ainda está em casa com "graves problemas de saúde". Outro futuro preso, mais valente, João Paulo Cunha, já se comparou a Nelson Mandela: "Se ele ficou 27 anos na prisão posso ficar também." E é uma ótima ideia.
É possível que o Brasil esteja finalmente acordando para uma realidade com a qual ele já teria de ter ficado frente a frente faz muito tempo: não se pode ter um País onde habitem ao mesmo tempo os Roberto Jefferson e as pessoas desesperadas que aparecem nas TVS todos os dias chorando porque as chuvas fortes das últimas 48 horas destruíram suas casas, seus móveis, seus sonhos. Notem uma coisa: a esmagadora maioria delas não tem dentes. Esse é o Brasil da Papuda. Ao menos até agora.
Ainda sonho ver o Grande Chefe lá também.     

2 de dezembro de 2013

Fernandinho também quer pizza

Além da Ordem dos Advogados do Brasil, instituições e pessoas de moral ilibada têm cerrado fogo contra o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa (que aparece na foto), por causa de seu comportamento à frente do processo 470, o que julgou os "mensaleiros" e os condenou. Ele é acusado de ter atropelado princípios legais e de ter tratado mal seus pares, inclusive com o uso do termo "chicana" em mais de uma oportunidade ao longo do processo que foi transmitido ao vivo pela TV, diga-se de passagem com grande audiência..
Não sou advogado e não entro nesse mérito.
Obviamente ninguém é perfeito. Mas o processo do chamado Mensalão correu por oito anos. Os réus tiveram suas causas defendidas por alguns dos mais renomados juristas do Brasil. Fizeram uso de todos os recursos em lei permitidos e somente foram presos após não haver mais defesa a ser feita. Aliás, minto: condenados que deveriam cumprir pena em regime fechado o fazem no regime semiaberto porque ainda há "embargo infringente" a ser considerado.
Pergunto: tirando os presos do Mensalão, quanto mais dos internos da Papuda puderam recorrer até seus processos chegarem ao Supremo antes de serem presos? Quantos solicitaram julgamento de"embargo infringente" por seus advogados antes de serem finalmente mandados para a cadeia? Quantos foram recebidos na Papuda com uma rodada de pizzas? Quanto tiveram visitas liberadas, inclusive em dias em que isso não é permitido? Quantos, finalmente, são conhecidos por nós?
Que o presidente do STF é grosso, na mais pura acepção da palavra, disso não resta dúvida. Ele já chegou a ser descortês - para dizer o mínimo - até mesmo com jornalistas. Um deles foi mandado "chafurdar na lama" pelo ministro. Não se trata de pessoa de trato fácil.
Mas o mensalão existiu, todos - menos o PT - concordam. E o Brasil em raras oportunidade prendeu poderosos. Todos concordam. E era necessário dar um "basta" à impunidade dos altos escalões do País. Todos concordam. Então, vamos concordar também que possíveis deslizes do ministro, suas palavras duras e o fato de ele ter mantido alguns presos de regime semiaberto em fechado por 48 ou 72 horas antes de corrigir o fato, é um mal menor.
Fala-se até em afastamento do ministro. A OAB quer patrocinar isso? Quer ser parte disso? Se acontecer um fato dessa natureza até Fernadinho Beira Mar vai soltar foguetes de onde se encontra. Sim, porque ele também gosta de pizza e detesta regime fechado.    
        

30 de novembro de 2013

O crime ainda oculto

Vamos nos esquecer por algum tempo do fato de o helicóptero (na foto) de Gustavo Perrella -  ou da empresa dele, como preferirem - ter transportado em um voo longo, dois bandidos e 446 quilos de cocaína. Vamos nos esquecer do fato de que ele alega até agora não saber da carga do avião, embora admitindo ter emprestado o aparelho ao piloto e ao copiloto para a missão de transporte de carga que talvez, na visão dele, tenha sido de hóstias consagradas para a paróquia de Afonso Cláudio.
Vamos nos esquecer disso tudo.
Eu estava encafifado desde o dia do acontecimento e entrei no site da Robinson, empresa dos Estados Unidos que fabrica esses aparelhos. Fui no modelo R66 - os meios de Comunicação o mostram como sendo o que era usado - e pedi o peso máximo de operação aérea. Estava lá: "Passengers and Baggage with Maximum Fuel 927 lb (420 kg)". Ora, se o aparelho voava com 446 quilos de pasta base de cocaína e dois tripulantes e calculado que o ser humano adulto pesa em média 70 quilos, havia 586 quilos a bordo entre gente que não presta e droga que mata. Um excedente de 166 quilos.
O avião, um helicóptero de apenas duas pás no rotor principal, fez um trajeto de longa duração, com escalas, em condições críticas. Repito: em condições críticas. Teria sofrido fratura estrutural e caído se, por exemplo, fosse alcançado por um temporal ou submetido a turbulência acima de moderada.
Ninguém havia pensado nisso ainda? Pois é bom que fatos dessa natureza sejam muito bem avaliados. Se aquele avião pilotado por dois criminosos, com pelo menos mais dois ou três lhes dando suporte, tivesse sofrido um dano maior sobre uma região urbana, gente inocente poderia ter morrido. Até mesmo caindo sobre uma fazenda um helicóptero carregado de combustível explode e mata as pessoas. Há muito mais crimes envolvidos nesse episodio do que julga nossa vã filosofia.

    

21 de novembro de 2013

Bandido não caça bandido. Não caça nem cassa

José Dirceu se apresenta à Polícia para ver enviado à Papuda. "Que injustiça"
Bandido não caça bandido. Não caça nem cassa.
Depois que os primeiros "mensaleiros" foram presos pela Polícia em cumprimento a determinação do Supremo Tribunal Federal, já vimos de quase tudo. Só não consigo me recordar de já ter visto ladrão de galinha ser levado a avaliação médica para saber se pode continuar preso ou se vai para casa cumprir prisão domiciliar na favela. Ladrão de galinha só cospe sangue quando apanha da Polícia. E sai da cadeia, se sair vivo, quando termina a pena. Geralmente meses depois disso.
José Genoíno compara o hoje com o ontem. A Papuda com as prisões da ditadura. Há uma distância abissal entre ambas. No caso atual ele foi preso porque é corrupto e isso está provado num processo que tramitou por oito anos. No caso passado, foi preso político porque combatia uma ditadura militar. Ao longo de mais de quatro ou cinco décadas de caminhos curvos e turvos, só mesmo ele sabe onde esqueceu a dignidade. Ele, José Dirceu e tantos outros que lutaram contra um regime político de exceção e depois descobriram que isso poderia ser um grande negócio. Não era uma questão ideológica. Não para eles. Era um investimento. E todos apostaram nos empregos, dinheiros públicos e compra de parlamentares para sedimentar um governo que pretendia e pretende se perpetuar.
O mensalão só existiu porque há gente que se vende no Parlamento Brasileiro. Muita gente. Incontáveis políticos municipais, estaduais e federais. E por isso o Executivo barganha com eles. Quando não para dar dinheiro público - o caso dos "mensaleiros" -, quase sempre para trocar apoio por cargos de primeiro, segundo e terceiro escalão. Com porteira fechada. Com verba parlamentar intocada. E para nomear tantos "cargos comissionados" quantos houver. Para cônjuges, amásias, filhos, genros e noras, primos, cabos eleitorais e o que mais houver. A relação política entre Executivo e Legislativo no Brasil é um caso único de promiscuidade a céu aberto.
Por isso o Poder Legislativo não quer cassar o mandato de José Genoíno - e não vai querer cassar também os dos demais políticos antes de ouvir a si próprio. Ao seu corporativismo. E o apoio incondicional aos compradores de apoio desnuda um outro drama ético brasileiro: políticos entram e saem da Papuda todos os dias em vans alugadas com o dinheiro público. Vão ver os "correligionários". Visitas de parentes também não respeitam dias e horários. Isso só vale para familiares dos demais presos. Afinal, quem mandou roubar galinha? Ser batedor de carteira? Ladrão sem fraque e cartola? Assaltante de padaria?
O STF ou, melhor dizendo, seu presidente, vai continuar levando tiros vindos de todos os lados petistas e da "base de apoio". Se o esquema cair, como enriquecer em quatro ou oito anos? É uma questão de sobrevivência. E bandido não caça bandido. Não caça nem cassa.
   

7 de novembro de 2013

O Estado Cartorial

A fila numa das fábricas de dinheiro espalhadas pelo Brasil. Elas são grandes
A Rede Globo vem fazendo uma série de reportagens sobre a burocracia no Brasil e uma deles falou sobre o poder quase indiscriminado dos cartórios brasileiros que atuam como um poder à parte, com o "direito" de decidir sobre a vida dos cidadãos. Um tabelião deu entrevista arrogante falando da investidura que tem em função de seu cargo. A tal "fé pública".
Isso me remete a assuntos próximos. Aqui no Espírito Santo uma instituição à qual sou ligado e uma outra, de amigas minhas, vem passando o diabo com certo cartório. A primeira ficou meses para conseguir registrar uma eleição de diretoria, com as mudanças necessárias. Outra tenta sem sucesso, já faz tempo, corrigir um erro de endereço. Coisa que deveria ser banal, de decisão em poucos minutos, uma vez apresentados os dados.
Mas o procedimento funciona assim: a pessoa leva ao cartório, por exemplo, a ata de uma eleição e outros documentos exigidos por lei. Paga taxas, emolumentos e reconhecimentos de firma. Dias depois o responsável ela é chamada ao cartório, que apresenta a ela um ou dois erros encontrados. Uma vírgula fora do lugar, um número equivocado, uma bobagem qualquer. Essa pessoa pode retificar na hora? Claro que não. Leva o papelório todo embora, corrige e retorna. Paga novamente taxas, emolumentos, reconhecimentos de firma e solicita de novo o registro. Dias depois eles encontraram um terceiro ou quarto erro. Começa tudo outra vez. E aí mora a má fé, o enriquecimento ilícito da estrutura cartorial do Brasil.
Por que a instituição tem que pagar tudo várias vezes? Por quê? Para dar dinheiro ao cartório. E porque ele não encontra todos os erros de uma vez só? Porque tem que ganhar mais dinheiro. E cartórios, em qualquer lugar do Brasil, são fábricas de dinheiro. No caso que estou relatando, a lei deveria permitir a correção imediata, no local, das falhas encontradas. Dar ao cidadão comum também a tal "fé pública". Se ele fraudar, se ele mentir, se ele cometer qualquer crime, responderá na forma da lei. Muito simples. E os cartórios, também por uma questão ética e de não exploração das pessoas, físicas ou jurídicas, deveriam ser impedidos de cobrar mais de uma vez por um só serviço apenas porque algo teve de ser corrigido.
O Brasil é um Estado Cartorial. E toda a vez que se tenta mudar leis reduzindo o poder dessas instituições o mundo vira de cabeça para baixo. E o Congresso, responsável por fazer leis, acaba cedendo, postergando. O Congresso, como todos nós sabemos, é uma instituição muito "sensível".
Isso é um absurdo. Nem mesmo a questão dos concursos públicos para preenchimento de vaga de cada tabelião titular dos cartórios consegue avançar. Eles continuam sendo capitanias hereditárias intocáveis. Um bisavô meu era tabelião do Cartório de Registro Civil de Salvador, Bahia. Minha avó se lembrava do dia em que ele, o Doutor Francisco Gomes Villela, reuniu os filhos e disse que gostaria de ter um deles bacharel em Direito. A esse caberia a herança de tocar o cartório depois da morte dele. Simples assim.
Simples assim no Brasil Cartorial!
            

2 de novembro de 2013

Também não gosto de evangélicos

Assisti faz dois dias a uma nervosa conversa entre dois evangélicos num supermercado. Eles protestavam entre si contra uma coluna da jornalista Ruth de Souza, publicada em Época, e na qual ela falava, dentre outras coisas, que não gosta de evangélicos. Os dois usaram várias vezes o termo retaliar.
Também não gosto dos evangélicos. Mas não porque eles pensam diferente de mim, ateu que sou, mas porque desprezam a opinião alheia e têm como meta chegar ao poder no Brasil para, com isso, moldar o País aos seus dogmas, independente de continuarem ou não a ser minoria. E sem ouvir opiniões contrárias. Não é por outro motivo que existe uma "bancada evangélica" no Congresso Nacional e esse grupo defende as bandeiras do pensamento evangélico sem se importar minimamente com a opinião pública.
Os evangélicos combatem de todas as formas os gays e os avanços de suas conquistas de cidadania. E eles pagam impostos como todos os demais brasileiros.  Da mesma forma, desenvolvem uma luta sem quartel para que não passe pelo Congresso Nacional e não se torne lei texto algum que reconheça na mulher o direito de interromper a gravidez. Esse são só dois exemplos.
Aliás, o Brasil reconhece apenas três situações nas quais a gravidez pode ser interrompida: gestação de feto anencéfalo, concepção por estupro e risco de vida comprovado para a mulher caso ela leve a gravidez a termo. Tudo o mais é considerado crime. E na maior parte dos casos é mesmo. Pois os evangélicos não admitem nem ao menos essas três hipóteses. E fazem de tudo para torpedear qualquer iniciativa pró. Aprendi ao longo da vida a não desejar ao próximo o que não desejo a mim. Mas gostaria de ver algumas pessoas como as que dirigem as principais correntes evangélicas do Brasil recebendo de um médico a notícia de que sua mulher espera uma criança sem cérebro. Só um exemplo. Talvez essa pessoa dissesse: "Problema algum, também nasci assim!"
Aliás, existem centenas de correntes evangélicas espalhadas pelo Brasil. Seus dirigentes descobriram a mina de ouro que é governar as opiniões e os medos das pessoas, sobretudo e principalmente as de pouca cultura, e reinam sobre elas como nababos. Vendem perdão celestial, milagres e tudo o mais. Depois embarcam em seus aviões particulares para suas mansões no exterior. São diferentes uns dos outros sobretudo por questões pecuniárias. Mas estão todos unidas na decisão de crescer até ocupar o Poder Federal no Brasil. Então, adeus Estado laico!
Esse é o grande risco. E por isso também não gosto de evangélicos.   

27 de outubro de 2013

Idosos perdem seus espaços

Secretarias estaduais e municipais, autarquias e demais órgãos públicos do Executivo, Legislativo e Judiciário estão distribuindo a todo mundo cartões plastificados para seus chefes, gerentes, chefetes e apaniguados com os dizeres: "Estacionamento Vaga Especial". E os carros dessas pessoas, em número sempre crescente, são colocados nas vagas de idosos, que têm cartões específicos e retirados nas prefeituras mediante prova de idade superior a 60 anos ou de deficiência física.
No caso da Prefeitura de Vitória, no meu Espírito Santo, a pessoa pode até mesmo imprimir o formulário que deve ser preenchido e levar tudo pronto para pedir o cartão. Mas só há duas classificações claramente impressa no documento: Idoso e Deficiente. É preciso deixar claro o seguinte: no caso desses cartões das prefeituras, cujos modelos estão na foto acima, num está escrito Idoso e no outro há o símbolo do deficiente, que é um cadeirante. Nos aos quais me refiro não há nenhuma das indicações e o tamanho do documento é outro, menor.
O negócio da vaga especial cresceu tanto que não há mais idoso que encontre lugar para estacionar. Sábado último vi uma garota, 25 anos no máximo, estacionar numa vaga de idoso em frente ao Tribunal de Contas do Espírito Santo, na Enseada do Suá, retocar a maquiagem e depois sair deixando o cartão de "Estacionamento Vaga Especial" à mostra. Eram nove horas e ela não teve o menor constrangimento!
Um amigo informou que esses cartões estão sendo produzidos às centenas. O número só cresce. Não sei até onde a informação é verdadeira, mas sei que depois das oito ou nove horas, idoso algum estaciona nas vagas destinadas a eles. Elas já foram todas tomadas pelas pessoas que portam as identificações recentemente criadas. Só as vagas de deficientes físicos são poupadas. As outras, não.
E isso sem falar que o mesmo acontece em supermercados, estacionamentos rotativos de prédios comerciais, etc. Nesses últimos casos, todo mundo estaciona em todas as vagas e sem o menor pudor de colocar identificação, já que os órgãos de fiscalização não entram para fiscalizar.
É mais uma festa da mordomia brasileira. Aquela que surge de mansinho, como quem não quer nada e, quando a gente percebe, cresceu tanto que, para acabar com ela, é preciso ir à Justiça. Receita petista já com dez anos de consagrada!  

 

11 de outubro de 2013

Amarildo e a paz dos cemitérios

Durante o regime militar, incontáveis brasileiros foram mortos pelas forças repressivas a serviço da ditadura militar. Mas, ao menos dentre os que conhecemos até o momento, não havia nenhum Amarildo. E não se trata de um nome tão incomum. Agora, 28 anos depois de o poder ser passado aos civis, acrescentamos esse novo cidadão aos milhares de brasileiros que continuam desaparecendo nas mãos das polícia pagas com nossos impostos para supostamente nos protegerem.
Amarildo, ironia do destino, deve ter sido morto por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, no Rio de Janeiro. Em certas ocasiões não gosto de humor negro, mas devem ter dado àquele pobre favelado a paz dos cemitérios. Afinal, UPP também pode ser para isso.
Ele não é o primeiro a ser morto nas proximidades de UPPs do Rio de Janeiro. E está longe de ser o único também em cidades onde não há essas instalações policiais militares, pois as de outras denominações existem em quase todos os lugares. Como em Vitória, onde moro. Como onde moram vocês, meus leitores. A ditadura passou mas deixou um rastro fétido dos crimes que eram cometidos (e acobertados) naquela época, mesmo em se sabendo que hoje eles podem ser cometidos, mas não acobertados.
Dias depois do desaparecimento de Amarildo, dois oficiais militares também do Rio de Janeiro foram surpreendidos "plantando" um morteiro no chão para incriminar uma pessoa que participava de protestos contra o Governo. Podia até ser baderneiro, não importa. Polícia existe para fazer com que as leis sejam cumpridas e não para "plantar" provas. E quando isso é feito por oficiais, não fica a menor dúvida de que eles servem de inspiração a seus subordinados.
A chefia da PM carioca disse que vai investigar o acontecido. Investigar o que foi flagrado? Se foi flagrado a prova está no flagrante. Basta pura e simplesmente prender e processar. Oficiais que se prestam a esse tipo de coisa não merecem mais do que a expulsão.
E digo isso por um motivo muito simples: enquanto as autoridades não forem duras com a banda podre da Polícia, ela vai crescer. Crescer e se multiplicar. Amarildo foi morto porque era um favelado, desconhecedor de seus direitos e, pelo menos em tese, confundido com um criminoso que também não poderia ser assassinado. Teria de ser processado para que houvesse um julgamento. E o Brasil abriga milhares de "amarildos" aqui, ali, acolá. Eles vão continuar a morrer se nada for feito.
Afinal de contas, eles não têm direito a embargos infringentes! E nem, muito menos, a consagrados e milionários escritórios de advocacia.