13 de março de 2025

A democracia de aluguel


Ninguém ainda distribuiu pela imprensa uma publicidade anunciando aluguel de partido político. Até porque a legenda pareceria com a charge que abre esse artigo (acima). Mas falta pouco. No último dia 10 o jornal O Globo publicou matéria de página inteira listando os 11 partidos brasileiros que correm o risco de serem inviabilizados pela cláusula de barreira da legislação em vigor. Vejam: PDT, PSB, Podemos, PSOL, PSDB, Avante, Pro, Solidariedade, Cidadania, Novo e Rede. Seus dirigentes tentam formar federações, união de duas ou mais legendas em uma única para tentar alcançar o número mínimo de parlamentares eleitos em cada uma ou então o menor percentual de eleitores votantes exigido para que eles não sejam extintos. É a luta para manter o pescoço fora do cepo!

E porque isso acontece? Também recentemente e às vésperas de completar 95 anos o ex-presidente José Sarney falou ao mesmo jornal sobre política. Lembrou os 40 anos de nossa democracia sacramentada na Constituição Cidadã de 1988 e o fato de os partidos políticos serem a base do regime democrático. E foi assim no Brasil. Foi, disse eu, usando o verbo no passado. Isso na época de Sarney, quando cada partido representava uma corrente de pensamento, tinha um programa de conhecimento de todos os membros e grande parte dos seus eleitores, dentre outros atributos. Nos tempos em que o ex-presidente começou na política pontificavam por aqui legendas como UDN, PSD, PTB e outras. Durante breve tempo, até mesmo o PDB. Cada um tinha e mantinha sua própria cara.

O golpe de Estado de 1964 destruiu toda essa história. No lugar das legendas antigas surgiram Arena e MDB, que fizeram a política durante os 21 anos do arbítrio militar brasileiro. E as velhas correntes, sobretudo a oposição à ditadura, se bandeou para o MDB, hoje PMDB, e que representava a oposição consentida. Com o término do regime de exceção foram surgindo legendas novas e a política de aluguel se formou no Brasil como uma forte tendência. A ponto de hoje a legenda partidária não ter significado algum além de ser o endereço provisório de alguma corrente ligada ao coronelismo moderno.

Tomo emprestado o termo "coronelismo" para transportá-lo até aqui, às grandes cidades, onde se sustentam as legendas de aluguel atuais. São elas que mantêm a bancada da bala, a bancada evangélica, a bancada ruralista e o que mais houver de errado na política moderna na qual o clã Bolsonaro troca de partido a cada eleição, levando para uma nova legenda toda a sua entourage de oportunistas travestidos de conservadores, mas que na verdade são reacionários sem o menor pudor, sem sequer sombra de dignidade política ou pessoal. A rapidez com que a quadrilha enriquece mostra qual é a sua "ideologia". E também a maneira como as bancadas se distribuem pelas legendas "conservadoras" denuncia a forma como elas mantêm seu poder de modo mais eficiente...    

O que deixa saudoso o ex-presidente às vésperas de completar 95 anos é a maior perda da democracia política brasileira ao longo dos últimos tempos. Lá se vão 40 anos! Por causa disso hoje tantos partidos correm o risco de deixar de existir. Alguns nem deveriam ter nascido, enquanto outros não foram escolhidos como bancada de aluguel pelos grupos de ocasião ou então não abrigam o saudoso da ditadura militar brasileira. Então minguam no Brasil sem compromisso ideológico ou político/programático. A cláusula de barreira, criada para impedir até partidos de fundo de quintal no Brasil deve fazer essa faxina em breve.

E a democracia brasileira sobreviverá! Torço por isso!                   

3 de março de 2025

Sim, ainda estamos aqui

Somente hoje pela manhã, ao ler um texto de Marcelo Rubens Paiva sobre sua família, soube que "ainda estou aqui" foi uma frase dita por Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva durante a enfermidade de Alzheimer e num raro momento de lucidez. Ela, desde essa madrugada é a inspiradora do primeiro Oscar que o Brasil ganhou para nosso cinema na categoria Internacional e na foto acima aparece junto com a imagem do marido. Isso rompe um longo predomínio dos filmes europeus em vitórias nessa categoria de premiação e dá à nossa sétima arte um empurrão necessário ao sucesso.

Sem o retorno do Brasil à democracia nada disso seria possível. Nem mesmo um filme como esse do Oscar. Durante o governo do fascista Jair Bolsonaro tudo foi feito para que as artes nacionais terminassem estranguladas, e inclusive que um filme sobre Carlos Marighella de 2019, obra de Wagner Moura, nunca fosse terminado ou entrasse em cartaz. Ficou pronto e acabou exibido em todo o Brasil. Também a música, o teatro e outras manifestações de caráter cultural sofreram ataques. E essa gente é justamente a que fala de liberdade de expressão...

Hoje mesmo, no grupo da Academia Espírito-santense de Letras, um "acadêmico" publicou fala do falecido picareta Olavo de Carvalho e na qual este diz: "O carnaval é a expressão mas genuína da cultura brasileira. É o tempo em que o povo brasileiro se reúne para celebrar sua própria ignorância e sua própria miséria". Incrível a forma como o picareta se referia a uma de nossas maiores manifestações de cultura popular e a forma como até hoje ele é homenageado pelos insignificantes de plantão. Por sinal, esse mesmo literato (sic!) durante uma última campanha política botou no ar relação grande de partidos políticos brasileiros que seriam aliados ao comunismo internacional. Poucos minutos depois, apagou o post.

Mas nós ainda estamos aqui. Não fossem as esquerdas combaterem o fascismo que reinou no Brasil de 1964 a 1985 e foi revivido em parte pelo desgoverno de Bolsonaro, nada do que existe hoje no Brasil moderno estaria por aqui. A começar pelas nossas múltiplas manifestações artísticas e culturais e a terminar na produção científica brasileira. Impossível é entender como as imensas hordas de fascistas emergiram dos esgotos onde se encontravam para assombrar os demais brasileiros. Para acampar diante de quarteis, marchar ao som de hinos desconexos, rezar para pneus e apontar os celulares ao céu para contatar extraterrestres. Isso antes de invadirem Praça dos Três poderes e tentarem destruir Executivo, Legislativo e Judiciário numa busca fracassada de golpe de Estado.

O Brasil que sobreviveu a tudo isso para estar hoje com sua democracia forte e estabelecida vai continuar fortalecendo todas as instituições democráticas nas quais se fundamenta. A extrema direita que tenta corroer as democracias de dentro para fora como acontece no Brasil, Argentina, Estados Unidos, Itália, Hungria e outros países, vai perder. Terminará sepultada na mesma vala comum da história onde está hoje Olavo de Carvalho. E para lá seguirão seus apoiadores habitantes das bolhas de internet onde se prega a vida num mundo que só existe para esses "hitlers" de última hora.           

    

28 de fevereiro de 2025

Il capo di tutti capi


Recentemente revi um filme feito na década de 1970 pelo diretor Louis Malle e de nome "Lacombe, Lucien".  Trata-se da história fictícia de um jovem chamado Lucien Lacombe, que durante a Segunda Guerra Mundial denuncia seu professor de matemática a colaboracionistas franceses durante a ocupação alemã na França. Não foi aceito como maqui por "La Résistance", já que era quase criança. O educador é preso, morto e daí para a frente o moço se alia à Gestapo e vai denunciando a todos, inclusive uma jovem judia que não aceitou se entregar a ele após uma declaração de amor. No final, quando guerra termina é preso pela Resistência Francesa - onde pretendeu militar um dia -, julgado e executado por um pelotão de fuzilamento. Punição das mais adequadas!

Lucien vive em cada um de nós. O canalha, o entreguista, o politicamente louco como "Il capo di tutti capi" Donald Trump (o da ilustração), aquele que trai para sobreviver ou obter vantagens está nas nossas vidas. Sempre presente! No livro "Eichmann em Jerusalém", Hannah Arendt diz que "em uma situação de terror a maioria das pessoas vai colaborar com os opressores, mas nem todas". E ela conclui afirmando: "Humanamente falando, nada mais é exigido, e nada mais pode ser pedido de modo razoável para que este planeta continue um lugar adequado para a vida humana". É uma aposta e uma profissão de fé na raça humana.

Hoje o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky foi humilhado e quase agredido fisicamente pelo presidente norte-americano Trump no Salão Oval da Casa Branca. Talvez o país sofra retaliações horríveis daqui para a frente porque o mandatário se recusou a assinar um documento chantagista e absurdo contra interesses de sua pátria pois ele não era a imensa maioria daqueles que habitam a política atual, e sim "mas nem todas". Irritou tanto o novo Hitler dos tempos modernos que sequer foi acompanhado à saída da sede do governo.

Aqui no Brasil vimos um senador pelo Espírito Santo, olhos parado, vidrados, transtornado e falando palavrões pedir em áudio que os Estados Unidos invadam o Brasil. Isso é crime! Um deputado federal viaja todas as semanas para os Estados Unidos com dinheiro do contribuinte para pedir boicote a seu país e ações contra o Supremo Tribunal Federal (STF). Isso é crime! Não estamos em situação de terror - ainda - e nem diante da iminência de que nosso planeta se torne lugar não adequado para a vida humana, mas quando um psicopata pode falar em Terceira Guerra Mundial na Casa Branca a coisa é muito séria.

Lucien Lacombe é ficção, mas vive entre nós. 

         

27 de fevereiro de 2025

E ainda há tempo...


Trabalhei como correspondente de alguns grandes jornais brasileiros em Vitória, tanto representando a esses quanto substituindo os titulares que entravam em férias. Lidava com todas as correntes políticas que no passado eram civilizadas, mas as maiores dificuldades ficavam no trato com o PT e seus dirigentes regionais e/ou nacionais. Era muito difícil penetrar no círculo deles e tentar influenciá-los. Eram impermeáveis. Até mesmo na esfera sindical o partido não tolerava intrusos, reagia a qualquer tipo de interferência externa. E esse modo de pensar nunca mudou ao longo dos anos. Inclusive agora que o presidente Lula, em queda acentuada de popularidade até mesmo no Nordeste, parece isolado no Palácio da Alvorada, tudo continua como dantes no quartel de abrantes.

Os que habitam a Brasília atual dizem que o circulo de Lula se restringe a Rui Costa, hoje na Casa Civil, Sidônio Palmeira, na Comunicação e Janja, no leito. E aí talvez more o maior perigo! Nos últimos tempos o presidente tem demorado a tomar decisões - o que não é uma novidade! - e as toma sozinho. Talvez faça isso no reduzido espaço do Alvorada, em momentos íntimos e cedendo a impermeabilidade de seu pensamento apenas à mulher que é onipresente na cena politica nacional desde que se casou com ele, como pode ser visto na foto. Nem sequer tenta disfarçar seu protagonismo.

Dona Ruth Cardoso, mulher de Fernando Henrique Cardoso, era uma intelectual brilhante, antropóloga, cientista social mundialmente reconhecida e capaz de emprestar muita coisa ao marido no terreno de discussões teóricas, aconselhamento político, etc. Se fazia ou não é difícil dizer porque a tônica de sua existência nos campos minados de Brasília era a discrição. Teve participação segura no programa Comunidade Solidária, modernizou o assistencialismo do Brasil junto com o presidente, outro grande intelectual, e parou por aí.

Hoje até mesmo o assistencialismo brasileiro carece de maior embasamento científico. E de foco voltado para o Brasil moderno. Lula não entende que o mundo mudou e ele deixou de lado até mesmo a preocupação em conquistar apoio da juventude - seu maior erro - e o relacionamento com a classe política é mais de cooptação insegura do que de trabalho conjunto. Frente ampla é algo distante das preocupações do presidente, o que mina seu mandato, compromete o passado político e lança dúvidas sérias sobre o futuro próximo. Mas nem tudo está perdido porque ele pode encontrar um caminho e mudar de rota e recuperar capital político. Ainda há tempo, mas esse tempo urge.         

25 de fevereiro de 2025

Liberdades têm limites


Virou moda entre bolsonaristas gritarem "liberdade de expressão!" sempre que o guru deles, o genocida e inelegível é tocado de qualquer maneira. Um dos filhos o deputado federal Alexandre já viajou várias vezes aos Estados Unidos para conspirar contra seu próprio país tentando interferir no Judiciário, inclusive em ações que tramitam contra o pai golpista no Supremo Tribunal Federal (STF). Isso a ponto de o bilionário Elon Musk, espécie de ídolo do atual presidente dos EUA estar promovendo dois processos contra o ministro Alexandre de Moraes em cortes da Flórida. Trata-se de um esperneio desesperado e sem sentido.

A Constituição dos Estados Unidos dá um valor quase absoluto à liberdade de expressão, defendida desde 1791 na primeira emenda, item da Declaração dos Direitos do Cidadão. Mas digo quase porque se os norte-americanos exercerem seu direito de crítica contra os patrões, podem ser demitidos na mesma hora. Os sustentáculos do capitalismo atropelam o direito de expressão nesse caso. É esse direito quase absoluto o pilar no qual o presidente Donald Trump, um projeto de novo Hitler, se apoia todos os dias para buscar o poder absoluto atropelando até mesmo sua Constituição e as instituições do país.

Recentemente, num embate com a governadora do Maine, Janet Mills, sua opositora e que não aceita veto a atletas trans nas competições em seu Estado, ao ouvir dela que segue as leis federais, respondeu: "Eu sou a lei federal" antes de falar que o futuro político da opositora estava comprometido. Esse resquício de absolutismo governamental vem desde Luís XIV, na França, que teria dito um "l'État, cést moi" (O Estado sou eu). O neto dele, Luís XVI provou a lâmina da guilhotina em 1789. A pauta de costumes vale nos EUA tanto quanto cá, mesmo mais de dois séculos passados...

O Brasil tem a liberdade de expressão na dose certa para que ela não seja confundida com liberdade de agressão e não atropele o direito dos outros, o que nunca pode existir. Mas mesmo assim é largamente desrespeitada até mesmo no Congresso Federal, onde políticos saudosos do bolsonarismo esgoelam para impedir as falas dos opositores, quando eles se manifestam. Os gritos são argumentos de quem não tem o que defender.

Na minha maneira de entender Eduardo Bolsonaro já está cometendo crimes. Não segundo as leis dos Estados Unidos, onde não mora, mas diante das de seu país, que é o meu. E justamente nesse nosso pedaço de mundo empresas estrangeiras têm que respeitar os limites da liberdade de expressão, não a dos EUA, mas sim da República Federativa do Brasil. E viva a liberdade conquistada por nós na Constituição desde 1988!    

19 de fevereiro de 2025

Na casa de Noca


Em São Paulo existe um lugar icônico para quem gosta de sair à noite e ir a shows ao vivo. Trata-se do "Bar Brahma", localizado numa das esquinas entre as avenidas Ipiranga e São João. Lá, durante muitos anos a imortal Elza Soares se apresentou uma vez por semana para cantar e encantar o público com sua voz forte e rouca em interpretações como "Casa de Noca", música que fala de prostíbulos (eis um deles aí acima) onde todo mundo pode ficar se divertindo contanto não brigue, pague a conta ao final da visita e fique bem comportado no salão. Lugar de licenciosidades as mais variadas é no quarto!

"O couro comeu

Na casa de Noca, nego

Não teve jeito

na casa de Noca..."

Isso acontecia quando alguém fazia sacanagem no salão. O couro comia e come, segundo  dizem, na "casa de Noca". E parece que está acontecendo isso agora num lupanar famoso de Brasília, localizado na Praça dos Três Poderes, onde se rouba dinheiro público das emendas parlamentares de forma a mais descarada possível e existe a pretensão de ser feita uma PEC para proibir, não o roubo tão costumeiramente praticado, mas a investigação do roubo e de quem rouba. E também para votar uma outra lei com o intuito inconstitucional de anistiar os milhares de criminosos que acamparam durante meses em frente a quartéis para tentar dar golpe de Estado na zona e, no dia 08 de janeiro de 2023, destruíram as sedes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Essa "casa de Noca" atual tem uma cafetina inelegível em seu entorno e que quer legitimar anistias para todos os baderneiros de 08 de janeiro. Isso em nome da democracia e contra a censura! Essa cafetina, diga-se de passagem, em épocas passadas mas não tão distantes assim fazia discursos públicos onde defendia as torturas físicas de seus inimigos, a ditadura militar brasileira de 1964 a 1985, o ataque ao Poder Judiciário e, pasmem vocês todos, até mesmo o fechamento da "casa de Noca" que hoje ela procura sorridente para tentar anistiar criminosos presos e condenados pela Justiça.

Mas a cafetina que não respeita a "casa de Noca" que a pariu ao longo de 28 anos de atuação no salão onde não se deve fazer aquilo que está reservado aos quartos, agora corre o risco de ser expulsa desse ambiente e das ruas durante 28 anos. Bem feito! Apela inconformada para a "instituição" que um dia pretendeu destruir para comandar os lupanares de todos os lugares sem direito a substituição nem coisa alguma. Quer ser perdoada e ainda que todos acreditem numa história da carochinha: ela é a mocinha da história. Os bandidos são aqueles que sempre foram enganados (?) por suas diatribes ao longo dos tempos.

Pode?

A cafetina merece mesmo ser inelegível. E as prostitutas da "casa de Noca" não podem tentar reformar as leis do salão: lá não se faz sacanagem e nem se rouba emendas...            

16 de fevereiro de 2025

Fechem as portas do inferno

Recordo-me como se fosse agora de que o presidente Lula certa feita disse querer receber críticas e não ficar cercado por puxa-sacos como está acontecendo hoje. Já fiz isso uma vez e vou fazer novamente porque acredito como quem crê na morte que se esse presidente for derrubado nós estaremos abrindo as portas do inferno. E de forma tão eloquente como jamais foi nem nos piores momentos da sanguinolenta ditadura militar 1964/1985.

Aliás, o termo "porta do inferno" tem origem religiosa. Pode se referir a Hades, o reino dos mortos, ou então à promessa que teria sido feita por Jesus de que a Igreja não seria derrotada pelas forças do mal. Nas mitologias da Grécia e de Roma, Hades, também chamado de Plutão, era um deus que governava o submundo. Então, as portas do inferno ou "as portas de Hades" significavam esse poder. Já na Bíblia o
pensamento se refere ao reconhecimento de Simão falando de Jesus como "o Cristo". E este lhe revela: "E eu digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela".

Faço esse início nada agnóstico como sou para argumentar que quem hoje sonha com o autoritarismo político embutido em falsos discursos moralistas e religiosos tenta reviver os idos da ditadura militar nos seus piores momentos! Os discursos de "liberdade de expressão" e outros são balela pura. Todas essas pessoas conviveram com o pior do autoritarismo politico brasileiro e querem fazer voltar a época como vingança e para que ela seja muito mais aguda e desprezível do que foi em tempos passados. Os Estados Unidos mostram como é isso no início do governo Trump e no desmonte daquela democracia de dentro para fora com o ataque a todas as instituições.

Lula está cercado por pessoas que buscam isolá-lo da realidade. Por isso sempre que pode fala de improviso e sobe a cada dia mais degraus na escada do populismo. Essa longa escadaria costuma ser precedida por outra que desce e leva ao reino dos mortos, onde está Hades. Ele, o presidente, não vê isso porque o entorno não deixa e lhe cria um efeito de redoma atuando como falso escudo protetivo. Mas o antigo metalúrgico está cercado de hienas.

Ontem mesmo eu disse que o presidente não tem contato com a juventude e isso é muito mal. Péssimo. Principalmente porque a cada dia que passa mais o cerco contra ele se fecha na busca por espaços num governo enfraquecido. Até Arthur Lira, essa decrépita figura já almeja um cargo de ministro, e da Agricultura, por que não? A expectativa do butim assanha todo o grupo de hienas de Brasília quando esta sente cheiro de carniça. Usam de movimentos em torno de um impeachment, mas querem mesmo ficar à sombra do poder, pois nessa posição é bem mais fácil subir nele. Está ali mesmo o tronco da árvore frondosa...

Há tempo para reação. Para um corte mínimo em despesas, ainda que isso toque em programas caros ao presidente, para um contato mais constante e sincero com a população sem o recurso do populismo barato, para uma reforma mínima e digna do ministério e para um combate efetivo às mentiras que assolam o Brasil com a única e clara intenção de destruir tudo o que está à frente, inclusive as vindas dos Estados Unidos. À frente de nós está o futuro daqueles que realmente querem construir um país de instituições fortes e firmadas com a Constituição de 1988. 

Vivi a ditadura e sei como ela se comporta. Fechem as portas do inferno.            

14 de fevereiro de 2025

Vá a Recife, Lula...


Imaginem um semáforo com as três luzes acesas e todas elas em vermelho. Ou então um conjunto de três semáforos voltados para a mesma direção e com somente as luzes vermelhas acesas, como mostra a imagem acima. Ou ninguém iria entender nada ou sentir muito medo. Imagino que isso deve ter se passado com o presidente Lula e com seus assessores mais diretos, sobretudo ministros, depois da divulgação da pesquisa do Instituto Datafolha de hoje à tarde. Simplesmente um 24 por cento de aprovação do governo contra 41 por cento de desaprovação, o pior resultado de todos os tempos nos governos que ele teve à frente do Brasil. E não é só por causa do preço das comidas...

É claro que ir ao supermercado e não conseguir encher o carrinho de compras causa raiva. O brasileiro votou em Lula depois de estar desencantado com Bolsonaro, dentre outras coisas, por causa das altas nos preços dos gêneros alimentícios durante aquele governo. Esperava uma melhora acentuada e constante durante os quatro anos seguintes. Não importa se por fatores externos ou não, porque fatores não enchem barriga e nem matam a fome, mas o certo é que vivemos uma inflação grande em gôndolas de supermercado. Todos sentem isso e o problema acaba desembocando no governo, principalmente e sobretudo porque o presidente fala demais, fala de improviso e de vez em quando solta muita bobagem.

Há outros fatores influindo nessa questão. O dólar andava muito alto, o clima de constante atrito no Congresso com acusações de lado a lado influía no ânimo das pessoas. A oposição sabe usar as redes sociais para fazer futrica e espalhar fake news melhor do que ninguém. A novela das mudanças ministeriais com episódios de troca de cargos por favores cheira mal. O caso do PIX é exemplar para mostrar como é fácil para os oposicionistas, sobretudo os da extrema direita, enredarem o governo em tramas das quais ele só consegue sair com grande prejuízo. E um prejuízo como aquele não se consegue recuperar com facilidade. Ele derruba indicativos do governo e os percentuais de aprovação do presidente e seu entorno desabam imediatamente.

O que joga a favor de Lula para que o Brasil impeça a volta da extrema direita ao poder, pois ela aqui é tão fascista quanto a de Trump nos Estados Unidos, é o tempo. Ainda tem esse governo 22 meses antes de a eleição decidir o que muda e o que não muda entre nós. Mas o tempo não pode ser lançado fora de maneira nenhuma. É preciso que Lula entenda e faça os demais membros do seu staff entenderem que o mundo mudou. Mudou demais desde os dois primeiros mandatos presidenciais dele até agora. Mas o presidente não acompanhou essa mudança, não a acompanha e não a vê.

Dou um exemplo: ele não fala mais com os jovens. Não consegue se comunicar com eles, trazê-los para seu entorno e torná-los a ponta de lança de um movimento agregador. A juventude é quem leva um país ao futuro porque determina qual é seu norte. Vocês se recordam de como ela tirou Collor do poder? Há mais erros sendo cometidos por Lula, porém esse é o maior. E para começar a corrigir a rota basta o presidente pegar o avião presidencial e mandar tocar para Recife. Lá o prefeito, um engenheiro de nome João Henrique de Andrade Lima Campos, 27 anos, pode conversar com ele e colocá-lo em contato com a juventude e a rota que ela quer para o Brasil.

E isso porque Campos também a quer esse caminho si no futuro.         

13 de fevereiro de 2025

A falência da ética


Essa charge que publico aí acima, do paulista Junião, mostra claramente o que temos hoje no Brasil e irradia de Brasília ao restante do território nacional com episódios diários que nos envergonham a todos: não há mais ética no fazer política deste país. Ela faliu! E me arrisco em dizer que os conceitos de honra foram sepultados na mesma cova rasa onde está enterrado o primeiro dos preceitos tão indispensáveis ao exercício da atividade pública que nasce e morre em mandatos saídos das urnas nas eleições diversas.

Hoje mesmo foi noticiado em vários programas jornalísticos sérios brasileiros que a Polícia Federal tem provas irrefutáveis de que as tais emendas parlamentares tão disputadas pelos políticos sobretudo de Brasília e que já batem na casa dos R$ 50 bilhões anuais viraram mais uma grande modalidade de corrupção. Os políticos que deveriam encaminhar o dinheiro do seu, do meu, do nosso imposto a destinos de interesse público para serviços de real necessidade da população chegaram ao requinte de chamar os endereços que teriam de ser usados para a saúde de "destinação". Quanto requinte!

Eles fazem contratos reais e nos quais aparecem como "intermediários", cobrando 6 por cento sobre o valor como taxa de "intermediação". Mas é propina mesmo, e da grossa. Uma inovação: agora a corrupção tem contrato firmado no Brasil. Só falta colocar no papel que as dúvidas e desentendimentos serão dirimidos na Vara "X" do Fórum "Y", cidade "W".

Um deputado federal do PL - que coisa, quase só dá esse partido! - chegou ao requinte de utilizar agiotas na intermediação do envio das emendas. Josimar Cunha Rodrigues, 48 anos de pura falta de ética, de honra, e de vergonha na cara e conhecido como Josimar Maranhãozinho por ter sido lançado por esse município onde foi prefeito, apresenta sempre emendas com "valores quebrados" porque assim fica mais fácil para o agiota identificar o valor e cobrar pelos pagamento dos serviços. Familiares do ex-deputado federal Bosco Costa (PL-SE) participavam de um esquema de venda de emendas parlamentares. Usar a família, para esse sergipano, deve parecer mais seguro. E vai por aí, a lista é longa...

O mais dramático é que os brasileiros não se revoltam contra isso. Os apoiadores incondicionais do ex-presidente inelegível que antecedeu o atual acham que tudo não passa de perseguição política, como foi feito em reunião de membros de seu grupo com representantes da OEA. Os demais não acreditam que o problema tenha solução. Mas tem! Tanto que as denúncias de ontem foram feitas depois que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, retirou o sigilo das investigações da PF relativas às emendas.

Elas, que antes eram um recurso legislativo nascido do fato de que realmente os parlamentares conhecem mais suas bases que os burocratas de Brasília, tornaram-se um eloquente caso de corrupção com roubo de dinheiro público desde que o inelegível e genocida abriu os cofres do Tesouro a deputados federais e senadores para não sofrer impeachment na legislação passada. Ele, que defendia o fim da corrupção no Brasil (sic!).

Até onde vamos? Um Flávio Dino, está provado, incomoda muita gente mas sozinho não pode mudar um mundo corrompido como o de hoje. Há mais gente digna na Capital Federal, apesar de manietada pelo poder emanado dos movimentos de extrema direita. Salvar o Brasil é possível se aqueles que se horrorizam com os "maranhãozinho da vida" disserem basta e forem às ruas para pedir a vitória da moralidade pública. Lutar contra a corrupção e dizer isso diariamente é uma necessidade imperiosa!   

7 de fevereiro de 2025

Camaleão das 11 posições


No reino animal irracional o camaleão é um tipo de lagarto que tem como habilidade principal a capacidade de mudar de cor para se camuflar e ficar quase indetectável aos inimigos no seu meio. No reino animal racional habita sobretudo o ambiente da política onde vive uma vida inteira tentando ser o maioral entre os menores através da camuflagem. O que raramente o faz o maior de todos no seu grupo. Hoje nós vamos falar do novo espécime surgido na recente eleição do Congresso: presidente da Câmara, Hugo Motta.

Paraibano de João Pessoa, representante da tal "direita nordestina", esse médico foi eleito presidente da Câmara através de um acordo que teve o beneplácito do ex-presidente Arthur Lira, alagoano, cacique político, pecuarista e anunciado como empresário para consumo externo, mas que não esclarece o que empresaria. Agora no "chão de fábrica", como disse, habilita-se a ser ministro do presidente Lula que sabotou durante muito tempo em seus dois mandatos no cargo agora do novato Motta, esse que joga em todas as 11 posições...

Em seu discurso de posse, o novo presidente citou muito Ulisses Guimarães que, vivo, se sentiria ofendido por ter seu pensamento sobre "ódio e nojo à ditadura" citado por alguém que necessitou do apoio indisfarçado do saudoso do regime militar brasileiro, Jair Bolsonaro, para chegar à cadeira de Lira. E como não se pode ao mesmo tempo rezar a deus e ao diabo, o médico paraibano precisou dizer hoje mesmo que o 08/01/23 não foi uma tentativa de golpe e que as penas impostas aos presos nas bandalheiras de Brasília são excessivas. Isso logo depois de dizer que uma anistia não seria apropriada...

Não vai dar certo!

Uma das declarações do novo presidente da Câmara foi a de que pretende acabar com a polarização no Brasil. Dessa forma, cara pálida? E hoje ele já aproveita o final de semana que em Brasília começa às quintas-feiras para falar com Lula e Bolsonaro por telefone, prometendo a um e outro atender a pleitos inimigos irreconciliáveis. Em síntese, daqui pouco, muito pouco tempo mesmo, não haverá camuflagem capaz de disfarçar seu jogo de 11 posições nesse ambiente onde acordos não são coisas que se negocie à luz do dia. Quantos conselheiros Motta terá a seu lado no percurso de dois ou quatro anos na Câmara? Qual deles será capaz de fazer com que capitule ao som do canto das sereias?

Agora mesmo ele já quer apoiar uma PEC da bancada evangélica para mudar a Constituição fazendo com as entidades religiosas não paguem mais impostos até a quinta geração terrena. E isso no Brasil que precisa economizar! Bolsonaro, outra vez desperto de sua longa espera pela condenação falou para dizer que não pede anistia para ele. Para terceiros? Tá bom! E a extrema direita do Congresso, universo dos bolsonaros e o que temos de pior na política brasileira, tipo Magno Malta, espera pela hora da chegada de um improvável butim.

Esse pode ser um novo samba do crioulo doido!

5 de fevereiro de 2025

O mundo cabe em Vilamoura?

Marina de Vilamoura com vidro blindado impedindo a entrada de quem não tem crachá (acima). Foto panorâmica do éden do balneário com seus iates de luxo (à esquerda). Abra as fotos para ver com detalhes.

O mundo que Trump molda para os Estados Unidos já existe esboçado em diversos lugares do mundo. Em Portugal, por exemplo, no Algarve, ele está construído na Marina Vilamoura, um balneário de 22 mil habitantes onde tudo é privado e onde quem tem menos de um milhão de euros não pode viver "modestamente". Fui lá. Não vi um único carro da Polícia - e isso tem muito nas terras lusitanas  -, mas os seguranças privados abundam em todos os lugares. Uma piada que contam é que se você entrar num restaurante de lá e disser "pssiu!" o garçom já anota: "um pssiu, 20 euros". Basta entrar para constatar. Não entrei, claro.

Tudo lá custa uma fortuna, a começar pelas casas que obedecem a módulos obrigatórios. O mais "pobrinho", um milhão de euros, como disse. Mas tem um porém: naquele oásis do "Estado não entra" há postos de saúde, pequenas clínicas, mas nenhum hospital. Se for necessária internação os multimilionários de lá - a maioria europeus de outras nacionalidades - ou pegam um avião UTI para suas bases ou vão a hospitais do SNS (Serviço Nacional de Saúde) em Portimor, por exemplo, porque nessas horas o serviço público de saúde resolve as emergências dos ricos...

Eu me lembrei de Vilamoura na posse de Donald Trump nos Estados Unidos. Atrás dele estavam os maiores magnatas do país, todos donos das big techs da moda. São eles que pretendem invadir o poder de Estado, substituí-lo pelo poder privado e corroer a democracia dos Estados Unidos de dentro para fora. Fazendo assim com o X, com a Space X, com a Amazon Web Services, Palantir, OpenAI, etc. É um "esquemão".

Se tudo der certo para eles, em breve o mundo que conhecemos deixará de existir. Elon Musk, controlador de boa parte da política de expulsão dos imigrantes ilegais dos EUA dirá de forma clara que seu negócio é controlar o Estado de cima para baixo porque, esqueceram-se os otários, ele é sul-africano. Mas é branco, tem olhos claros, dança feito idiota sobre palcos da mesma forma que Trumb - outro imigrante - e jamais, em tempo algum, acreditou em democracia, em constitiução, etc.

Aceitem o que digo: a extrema direita, o nazismo e seu dileto primo o fascismo, nascem, vivem e se exteriorizam no capitalismo. Estão dentro dele. Muito antes de serem anticomunistas eles são anti-estado moderno. Sua tarefa é tomar o poder nos países, atuar acima da Política, das leis e moldando os Estados de acordo com os interesses do capital privado. Por isso necessitam controlar o poder principalmente a partir de órgãos de inteligência. Musk já tem nas mãos até o programa espacial dos EUA. A Palantir, de Peter Thiel - guardem esse nome - está infiltrada nas operações de inteligência do Departamento de Defesa. E assim caminha a humanidade... A deles...

O ideólogo brasileiro dessa corrente - caramba, estou colocando inteligência nesse cara! - tem em Trump, que ontem divulgou seu plano de tomar Gaza para torná-la um céu sobre a terra, um deus. Ele teve o projeto maluco de tornar áreas de preservação permanente do litoral fluminense uma nova Cancun. Quem se lembra disso? Seria uma obra de destruição do meio ambiente. Mas os dois, Trump lá, Bozo cá, também serão meros agentes desse novo modelo que se avizinha, caso ele seja feito real. Meros agentes. Inocentes úteis ou inúteis. Quando o poder dos bilionários tiver seu plano implantado, não existirá mais a "liberdade de expressão" que os bobocas defendem hoje porque a informação chegará filtrada ao povo, que só tomará conhecimento daquilo que interessar ao sistema, aos interesses do ilimitado poder privado de Estado. E nada mais.

Mas ainda há tempo para que evitemos esse mal todo. Tempo de sobra, principalmente porque agora Trump ainda pode falar fora do script e tornar publico um projeto maquiavélico que só seria possível no futuro que as big techs imaginam, de ocupar Gaza e fazer dela um balneário de luxo onde caberiam até "alguns" palestinos. Quem leu "1984", de George Orwell, sabe que nós sempre ligamos aquela realidade distópica à ficção e somente a ele. Mas muitos trilionários, não.

Vamos pensar nisso: ainda é tempo para todos podermos visitar Vilamoura apenas com a restrição do dinheiro. Quando fotografei o pier particular fechado e com vidro blindado um segurança me olhou feio. E me seguiu de forma pouco discreta até que entrei no ônibus da excursão para ir embora. Era um "armário de oito portas" com um grande volume por baixo da camisa, do lado direito da cintura. E  que fazia questão de mostrar...                      


30 de janeiro de 2025

Quando os criminosos vão pagar?


Vira e volta a gente ouve na TV, lê nos jornais, na mídia eletrônica ou toma conhecimento por qualquer meio de Comunicação que a internet, as tais redes sociais aí incluídas, não é mais terra de ninguém. Hoje existem ou existiriam meios de investigações capazes de identificar qualquer pessoa ou grupo que usa essas chamadas redes de manhã, de tarde, de noite ou de madrugada com o intuito de construir mentiras que servirão para destruir. Um governo, por exemplo. O caso do PIX pode ser usado para explicar isso. E ele é só um. Então cabe a pergunta: por que os marginais brasileiros que usam meios eletrônicos com o intuito de cometer crimes ainda não estão pagando caro por eles?

Já vivi o bastante para ver muita coisa. Quase tudo. Mas a cada dia que passa me surpreendo mais. Consta que no caso do PIX as fake news construídas afundaram o governo federal e a figura do presidente da República. Em que tipo de sociedade nós iremos viver se esse tipo de prática for visto como normal, regular, ético? Fico arrepiado só em pensar no termo "ético" que usei. E algumas das figuras ligadas a isso são sobejamente conhecidas.

Um deputado federal de nome Nikolas Ferreira, que quer se governador de  Minas Gerais, foi identificado fazendo esse tipo de coisa mais de uma vez. E ele é só a ponta do iceberg. Muitos outros continuam a montar esquemas milionários com essa finalidade, e mesmo desde antes da eleição do ex-presidente que antecedeu o atual. Hoje mesmo o aumento dos combustíveis está sendo colocado na conta do governo federal, isso quando todas as pessoas informadas medianamente sabem que o reajuste veio pelo ICMS, um imposto estadual. Mas a maioria dos que poderiam esclarecer a questão silencia. Esse silêncio cúmplice é aliado deles.

O tal gabinete do ódio instaurado no governo passado não existe mais no mesmo endereço, mas funciona a pleno vapor. O ex-presidente disse que vai pedir ajuda ao seu "colega" dos Estados Unidos para vencer as próximas eleições. Durma-se com um barulho desses! E quanto mais se avolumam as provas de suas falcatruas e tentativas de golpe de Estado, mais ele se arvora em valente para dizer que disputará a próxima eleição e a vencerá. Afinal, o exemplo vem de cima. Nesse caso, quase literalmente porque surge na noite que se anuncia para os Estados Unidos.

Nosso país tem milhões de habitantes analfabetos funcionais, sobretudo e principalmente no campo político. E por isso os governos jamais se preocuparam em dar aos brasileiros os recursos de educação que eles precisariam para entender o mundo que os cerca e qual é a diferença entre o joio e o trigo. Também por causa dessa fraqueza milhões acharam oportuno que um general iletrado e pau mandado de um protótipo de ditador de aldeia ocupasse o Ministério da Educação impunemente por tanto tempo. E por todo esse conjunto da obra cabe muito bem a pergunta que abre e encerra esse artigo: quando os criminoso vão pagar?             

24 de janeiro de 2025

A força de "Ainda estou aqui"


"Ainda estou aqui" é um murro na boca do estômago da hipocrisia e da burrice de alguns. Então por que faz tanto sucesso a ponto de, depois de a brilhante Fernanda Torres ter ganho um Globo de Ouro por sua atuação no filme, a obra ainda concorrer a três Oscars da Academia de Cinema dos Estados Unidos, coisa que nunca antes havia acontecido? Eu me arriscaria a dizer que ele faz isso sobretudo e principalmente porque não é panfletário nem piegas. E era muito simples, fácil, percorrer esse caminho ao filmar a obra de Marcelo Rubens Paiva.

A foto que ilustra esse texto é minha. Eu a fiz ontem por volta das 20h30m, ao sair de uma sessão de "Conclave" numa das duas salas de projeção do Cine Jardins, cinema alternativo num shopping de Jardim da Penha, em Vitória. A bilheteria havia suspendido a venda de ingressos porque o público já lotava a sala número 1 para o filme seguinte. Esse cinema exibe mais de um título por sala e "Ainda estou aqui" chegou a ter três horários. Ontem, tinha a última exibição da noite e o público acorreu ao cinema. Aliás, isso acontece nas grandes salas também. Em todos os lugares.

O público sai em silêncio do cinema. Muitos choram durante a exibição da "película", como se dizia antes. E o filme é delicado até onde foi possível fazer isso. Mostra que uma ditadura sanguinária destrói famílias e projetos de vida, como aconteceu com os Paiva e incontáveis outros brasileiros. Não são mostradas torturas físicas, sangue escorrendo, discursos de "Abaixo a ditadura" e outros clichês, embora isso estivesse à mesa. As imagens de Rubens Paiva morrendo depois de ter sido selvagemente torturado poderiam ter sido feitas, pois ele foi visto agonizando na cela da instalação militar onde foi supliciado, no Rio de Janeiro. Mas não. Todos, calados e chocados são levados a imaginar o que aconteceu. E é fácil!

O Brasil matou incontáveis de seus cidadãos com requintes de selvageria. Stuart Edgar Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel, foi morto sob torturas horríveis em instalação militar também do Rio. A mãe, que buscava respostas e denunciava o fato internacionalmente porque Stuart era filho de norte-americano, acabou morrendo num "acidente" de automóvel. Vladimir Herzog, o Vlado, jornalista de São Paulo, sofreu o mesmo destino que teria o operário Manoel Fiel Filho cerca de um ano depois e no mesmo lugar. São apenas esses poucos os exemplos que dou. 

"Autopsia do medo", livro de Percival de Sousa conta a história do delegado Sérgio Paranhos Fleury, torturador psicopata que um dia chegou à sua delegacia e encontrou seus ajudantes em pânico. Na busca por um "subversivo" eles se enganaram, prenderam um pobre bancário e o destruíram de pancadas antes de descobrirem o erro. "Onde está o sujeito?", perguntou Fleury. Os detetives indicaram a cela. O delegado foi até lá, matou o inocente com um tiro na cabeça e mandou jogarem o corpo dele no Rio Tietê com instruções para que os "subversivos" fossem acusados quando o corpo do pobre rapaz fosse encontrado. Eu me inspirei nesse livro e em outros para escrever meu romance "O faxineiro", ambientado na época da ditadura.

A grandiosidade de "Ainda estou aqui" reside no fato de ele não mostrar nada desse gênero de forma explícita ao contar a história do ex-deputado Rubens Paiva. Mas todos imaginam o que se passou com a família de Eunice Paiva, mulher forte e que levou adiante sua vida com cinco filhos, sem jamais chorar e se lamentar ao público. Viveu para que o único homem que gerou, Marcelo Rubens Paiva, pudesse se tornar escritor para denunciar esses tempos de noite fechada do Brasil.

O que mais impressiona é saber que milhares dos que vão aos cinemas ver o filme, sobretudo os jovens, sequer imaginam o que aconteceu no Brasil entre 1964 e 1985. É bom que saibam agora. Bom mesmo e sobretudo porque as hienas da extrema direita tentam voltar, como tentaram em 08 de janeiro de 2023. Fiquem atentos vocês que saem dos cinemas chorando ou calados, sem vontade de falar. O preço dessa nossa liberdade, a que temos desde 1985, é a eterna vigilância.                             

23 de janeiro de 2025

O genocídio palestino avança


Por que o genocídio palestino avança no Oriente Médio? 

Para a gente entender o principal motivo da matança desse povo - e só isso já valeria um livro - é preciso recuar um pouco no tempo até 1896 quando uma obra escrita por Theodor Herzl começou a falar sobre o direito de os judeus terem um Estado próprio para viverem com sua identidade. Esse local escolhido foi a Palestina, que tem ligação bíblica histórica com o judaísmo e já foi chamada de Judéia. Como chegamos até aqui, resta dizer que a diferença entre esse termo, o judaísmo, e um outro, o sionismo, é que o primeiro é religião e sionismo combina a fé, o pensamento religioso, com objetivos políticos. Ele nos remete a Herzl e ao direito judeu a seu Estado. O termo se refere ao Monte Sião. 

Ora, a região da Cisjordânia era e é ocupada desde tempos milenares pelos palestinos que também vivem nas regiões de entorno como, por exemplo, a Faixa de Gaza. Durante a primeira metade do século XX a ideia desse Estado foi abafada enquanto o nazismo, que precisa ter inimigos para sobreviver, tentava eliminar os judeus da face da terra. Matou cerca de seis milhões. mas não conseguiu seu intento de trucidar todo aquele  povo. Ele renasce hoje tendo como novos inimigos quem? Os palestinos, claro.

Por isso o nazismo inicialmente ressurgiu camuflado como caldo de cultura necessário ao surgimento do Estado de Israel em 1947 sob as bençãos da ONU. Vai daí, as correntes mais radicais do judaísmo, agora travestidas de sionismo, decidiram que a faixa de terra entregue a eles para construir seu país não representava a totalidade da Grande Israel, segundo seu pensamento, bíblica, mas só uma parte desta. Então, para essa corrente que se pretende majoritária, era necessário conquistar o resto à força. E a extrema direita judaica aprendeu como fazer isso com...os nazistas!

Não é simples?

Israel só tem força para massacrar a Palestina porque com conta o apoio incondicional dos Estados Unidos onde os judeus dominam grande parte da economia e detêm enorme influência sobre as decisões de Estado. Desde sempre foi assim! Nos quatro anos de Joe Biden, um belicista declarado, armamentos norte-americano foram entregues em escala global a Israel. Agora, sob Donald Trump, que tem em sua embaixadora nas Nações Unidas, Elise Stefanik, uma defensora do direito que Deus teria dado aos judeus sobre a Palestina, vai ser ainda pior. Por isso o cessar fogo em Gaza foi seguido pela invasão da Cisjordânia através de Jenin (foto). É toda aquela região que eles pretendem anexar ilegalmente, passando por cima do direito internacional com aviões, tanques e demais armamentos norte-americanos. Como sempre fizeram ao longo dos anos. 

Caso não haja uma reação internacional forte a Palestina vai desaparecer e os palestinos serão totalmente eliminados em um genocídio maior que o nazifascista. Os judeus extremistas de direita, que aprenderam isso com o nazismo, vão evitar os erros de Adolf Hitler. São ótimos alunos!       

21 de janeiro de 2025

Anauê para o bem dos EUA


A saudação nazista do bilionário Elon Musk na solenidade da posse de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos chocou (veja foto). Ninguém tinha dúvidas sobre suas crenças políticas e as de seu chefe, um supremacista branco claramente declarado, mas não se esperava que Musk fosse capaz de, diante de câmeras de TV de todo o mundo, trazer ao vídeo um gesto que revive Adolf Hitler em seus momentos de vitória. Ele o fez! E depois disso sumiu sem se explicar aos milhões de telespectadores do evento.

Lembrou, por curto minuto, a existência do Partido Integralista que no Brasil representava o nazismo com todos os seus trejeitos e uma saudação tipicamente tupiniquim: "Anauê para o bem do Brasil". Esse termo, anauê, tem origem indígena e, para Luís da Câmara Cascudo, foi descoberto entre os índios nhambiquaras no Mato Grosso com o significado de "unido aos outros iguais". Os integralistas, chamados à época de galinhas verdes, copiavam muita coisa dos novos nazistas, saudosos dos tempos de Hitler e Mussolini.         

A posse de Trump teve alguns momentos ainda igualmente constrangedores como, por exemplo, quando ele declarou que vai mudar o nome do Golfo do México para Golfo da América provocando risos da ex-vice-presidente Hilary Clinton. Ou que vai tomar o Canal do Panamá, hoje sob controle do governo local através de acordo entre este país e os Estados Unidos. O novo xerife não tocou na questão da Groenlândia, mas deixou a descoberto um segredo de polichinelo: o cessar fogo na Faixa de Gaza pode ser apenas forma de ganhar tempo. Para novo presidente dos EUA, o sucesso do término da guerra pode ainda estar muito longe

Não existe nazista pacifista. Isso e bobagem. Ele irá aos poucos retomando seu discurso de ódio, porque disso entende. Será simples encontrar motivos, falsos ou não, para retomar o belicismo que marca as verdadeiras intenções do neonazismo latente em seus discursos vazios de bons propósitos. Donald Trump mente de maneira compulsiva porque o que sua ideologia sabe fazer já foi feito no dia da posse: desconstruir o governo anterior. Ou ao menos tentar. A receita é idêntica à usada por Jair Bolsonaro aqui no Brasil: criou uma narrativa mentirosa de ter recebido convite para a posse do presidente norte-americano no Capitólio, mas como não havia nada disso, Michele Bolsonaro e mais 21 patetas ficaram ao relento, num frio polar, barrados na festa e no baile que se seguiu.

Há uma esperança: o legislativo dos Estados Unidos, embora com maioria republicana, tem uma diferença pequena para os democratas e alguns dos deputados e senadores não parecem dispostos a entrar em aventuras rocambolescas. Nos seus maiores delírios, ao que parece Trump será contido, mas não resta duvida de que poderá provocar danos como à COP-30. O Brasil tem que lutar por ela com unhas e dentes. Nos tempos atuais, defender uma política de investimento total em combustíveis fósseis é marcar data para a missa de sétimo dia da humanidade.    

16 de janeiro de 2025

Crime e castigo


É preciso que todos os criminosos criadores de fake news divulgadas com o intuito de destruir, sobretudo e principalmente um governo legalmente eleito e seja ele qual for, paguem por isso nas esferas civil e criminal. Ultimamente isso tem sido feito com uso indiscriminado das chamadas redes sociais que, a partir sobretudo de multimilionários dos EUA e ligados à extrema direita política, divulgam fatos não verdadeiros e discursos de ódio com a multiplicação em milhões de acessos nos países onde há interesse na divulgação de mentiras políticas. O Brasil vem sendo alvo constante desse movimento, como no caso dos pagamentos via PIX.

Oposição é a relação entre ideias contrárias. Na política esse conceito está relacionado ao bem público, à vida comum, regras legais e normas gerais de conduta num determinado espaço onde atos e decisões afetarão todas as questões de interesse público. Trocando em miúdos, a política foi criada para regular os conflitos sociais e, portanto, deve ser exercida com responsabilidade e foco no interesse público que ela teoricamente representa. É isso o que está sendo feito no Brasil de hoje? Evidentemente, não.

Se pegarmos somente o exemplo dos pagamentos via PIX que foram alvo de imensa campanha destrutiva feita a ponto de o governo cancelar o aumento da fiscalização da receita sobre essa forma de pagamento, vamos ver que a mentira e o ataque gratuitos foram a tônica da campanha. E o cancelamento da medida governamental favorece apenas e tão somente os sonegados de impostos, mas nunca os demais. Não haveria cobrança de tributos embutida na medida. Em síntese, no afã de enfraquecer o governo, a oposição de extrema direita causou e causa danos ao País.

Nesses últimos dias pontificaram - se posso usar esse temos! - nesse terreno figuras como o senador Flávio Bolsonaro e o deputado federal Nikolas Ferreira. São a fina flor do negacionismo político, do gangsterismo de terno e gravata e do projeto de atingir o governo ao qual se opõem da forma como for possível. De maneira vil. E o interesse público? Tal coisa não importa ou existe para eles. Seguidores incondicionais do ex-presidente Jair Bolsonaro que é pai de um deles, fazem do uso da mentira seu método de "trabalho". A mesma receita do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, para quem nosso ex-presidente já endereçou um solene "y love you" num encontro entre ambos nos EUA.

Os criminosos devem ser processados na forma da lei. Têm direito a ampla defesa, sim, e nesse caso para explicarem porque conspiram e continuam a sonhar com, dentre outros crimes, a promoção de golpes de Estado. São pessoas perversas, desqualificadas. Citei apenas dois nomes, mas eles são muitos. Os canalhas da extrema direita estão hoje distribuídos pelos mais diversos setores da sociedade, sobretudo porque muitos se escondem no anonimato usando para tal as mesmas redes sociais onde cometem crimes.

Fiódor Dostoiévski escreveu o livro "Crime e Castigo", onde narra a história de Raskólnikov, jovem estudante que, pobre e desesperado com sua situação, perambula por São Petersburgo onde comete um crime porque, crê, homens como César ou Napoleão também o fizeram sem pagar por isso e foram até absolvidos pela História. Como Trump acredita que sempre acontecerá com ele. Não pode ser assim. Todos somos súditos das leis, como dizem os juristas. Nossos criminosos digitais precisam pagar pelos atos que cometem diariamente.                               

15 de janeiro de 2025

O fanfarrão e a China


Foi no início dos anos 1990 que a Rede Gazeta resolveu fazer uma atualização de seus editores, sobretudo os do jornal. A empresa contratada, a mineira Fundação Dom Cabral, levou todos os jornalistas para um hotel de Nova Almeida onde se hospedaram e houve uma rodada de palestras num final de semana inteiro. Os assuntos eram variados, mas um dos orientadores havia retornado da China e vaticinou: "Esse país ainda vai revolucionar o mundo todo no campo econômico. Não adianta mais os Estados Unidos se precaverem".

Faz quase 45 anos e nunca me esqueci daquele vaticínio.

Ontem foi anunciado que os chineses tiveram um superávit comercial de 990 bilhões de dólares nos últimos 12 meses. Não foi faturamento, foi uma diferença a favor da entrada de capitais como nunca antes aconteceu no mundo. Hoje a China comanda os negócios no planeta, e negócios sempre foram a razão da existência dos Estados Unidos. Os asiáticos formam muito mais engenheiros e cientistas de diversas áreas que os norte-americanos. Sua indústria de ponta fabrica de tudo e vende em  massa até para os Estados Unidos. De carros a chips e pequenas coisas. As forças armadas chinesas crescem a olhos vistos e o país da Ásia não se envolve em guerras enquanto o "xerife do mundo" gasta trilhões nelas. Eis a grande diferença entre os dois!

Segunda-feira um presidente fanfarrão eleito pelos norte-americanos se sentará na Casa Branca. Ele ameaça alterar tarifas de importação de todo mundo. Quer o Canal do Panamá, a Groenlândia e o Canadá, este como um novo estado dos EUA. Ao menos isso é o que diz. Tudo jogo de cena. "Mise en scene", como falariam os franceses. O que tira o sono dele é a República Popular da China e eu presidente Xi Jinping. Trump o conhece, sabe que não tem como derrotá-lo, sempre se mostrou desconfortável quando o encontrou (veja na foto) e vai jogar o jogo de sempre, sem sucesso: tensionar e mentir o tempo todo. Essa receita da extrema direita é usada lá como aqui. Não tem diferença. É a arma da falta de argumentos.

Vamos aguardar  chegada de Trump ao poder junto com sua "entourage" de reacionários dos mais diversos tipos, alguns dos quais já estão sendo sabatinados pelo Congresso republicano dos EUA. Muitos por aqui sentem medo do fanfarrão e sua trupe. Bobagem. No médio prazo ele tende a fazer muito mais mal do que bem à economia do seu país. Sou capaz de apostar.

Aguardemos!                  

10 de janeiro de 2025

Pepe Mujica, o gigante!


José Alberto Mujica Cordano, o homem que todos chamam de Pepe (foto), anunciou em entrevista que está morrendo. Pediu a todos permissão para ir em paz no sítio onde mora junto a seus pertences amontoados numa casa velha, o Fusca à porta e uma pequena horta da qual cuida com esmero. O gigante uruguaio, dono de um patrimônio moral de valor inestimável, está em vias de deixar a vida depois de saber que não há mais tratamento para o câncer que o devora por dentro, em metástases. Irá embora dentro de muito pouco tempo.

Esse velhinho de ar doce e frágil é um ex-guerrilheiro Tupamaro e foi preso por uma das ditaduras de extrema direita que governaram o Uruguai. Ficou 15 anos na cadeia e, em alguns momentos, dentro de um buraco. Saiu dele e da prisão para se tornar presidente do Uruguai de 2010 a 2015 e senador de 2015 a 2018. Nascido em Paso de La Arena, em Montevidéu, chegou ao Movimento de Libertação Nacional, ou Tupamaro, grupo marxista-leninista de guerrilha urbana, com o intuito de combater o fascismo em seu país. Pagou caro por essa opção - como no caso brasileiro, errada -, da mesma forma como aconteceu com Dilma Roussef, a quem sucedeu no Mercosul. Também já foi deputado, Ministro da Pesca um monte de coisas. Mas sobretudo vai deixar a vida e entrar para a história como um homem de honra.

Mujica não usou a política para enriquecer. Usou-a para construir e fortalecer a democracia no Uruguai. Depois de deixar o poder, jamais interferiu na vida pública de seu país. No seu estertor, usou o prestigio pessoal para ajudar a eleger o atual presidente, a quem jamais procurou depois disso. Em hipótese alguma para pedir favores ou cargos. Vai morrer pobre, mas cercado pela admiração de milhões. Será enterrado de mãos limpas, como poucos.

Pepe teria muito a ensinar aos políticos brasileiros, mas não vai se ocupar disso. Seu anúncio de morte próxima aos 89 anos foi feito sobretudo para os compatriotas uruguaios. Ao Brasil veio algumas vezes, na última para prestigiar o presidente Lula. Este, teria muito a aprender com ele, mas imagino que não o fará. Certamente chorará no velório caso possa ir, e serão lágrimas verdadeiras. O melhor, esse exemplo de vida, será sepultado com Pepe. Monumento à ética pessoal e política, à honra, à dedicação total e incondicional ao interesse público, ele viveu pelo Uruguai, sempre lutando, de início com armas nas mãos como no episódio da Tomada de Pando, em outubro de 1969, e depois na política que usou largamente e jamais em benefício próprio. O Uruguai, país minúsculo, em breve sepultará um gigante! Caso raro!          

7 de janeiro de 2025

ANISTIA, NÃO!

Depois do 08 de janeiro de 2023 os milhares de golpistas brasileiros que tentaram destruir a nossa democracia começaram uma campanha pela anistia daqueles que acamparam diante de quarteis e também seus mentores, sobretudo e principalmente para que o "grande líder" Jair Bolsonaro não pudesse ser alcançado pelas leis em vigor no Brasil. Então hoje, no dia em que se completam dois anos daqueles atos da Praça dos Três Poderes, em Brasília, é preciso dizer porque isso jamais deverá ser feito, em nome de nossa dignidade e da honra desse País tão vilipendiado ao longo dos tempos.

Quando terminou a Segunda Guerra Mundial e foram descobertos os crimes do nazismo uma ampla campanha mundial pregou o não esquecimento do que havia se passado para que tal jamais se repetisse. Israel, país então recém criado tomou para si o mote da campanha, reduziu-a a uma denúncia apenas e tão somente focada no extermínio judeu e fez dela uma imagem de seu país. Acontece que não era assim, porque os nazistas mataram indiscriminadamente todos aqueles que considerava inferiores, o que atingiu até mesmo adversários políticos deficientes, negros, etnias minoritárias e outros como palestinos, comunistas ou não.

Mas Israel continuou a ter essa bandeira até que sua extrema direita chegou ao poder e começou a fazer com as populações palestinas o mesmo que o nazifascismo havia feito de 1939 a 1945. Hoje, apesar da intensa campanha internacional que nasce nos Estados Unidos, sustentáculo do sionismo internacional, não é mais possível esconder o fato de que o Estado Judeu usa os mesmos argumentos requentados da Alemanha Nazista em busca de seu "espaço vital" e da eliminação palestina tida como grupo etnicamente inferior. Tal mestre, tal aluno! Bom aluno, por sinal...

Os ideólogos do 08 de janeiro de 2023 têm muita inspiração tirada do nazifascismo, inclusive do sionismo nazista israelense no poder hoje, quando Israel se tornou estado terrorista travestido de defensor ferrenho de sua soberania. Usa uma capa machada de sangue e que não consegue esconder o fato de que as tropas sionistas combatem não em seu território constituído pela ONU em 1948, mas sim em terras estrangeiras invadidas à força - como sempre com apoio norte-americano - aos povos nacionais que circundam as terras dadas legalmente a eles. As chamadas "Forças de Auto Defesa de Israel" são na verdade uma união de três armas agressoras mantida pelos interesses internacionais dos Estados Unidos.

Hoje, no dia em que são completados dois anos da tentativa do golpe brasileiro, o trumpismo a ser empossado dia 20 em Washington ameaça anexar o Canadá, mudar o nome do Golfo o México para Golfo da América, tomar o Canal do Panamá (pode ser que se queira mudar o nome para Canal Trump, quem sabe...), invadir a Groenlândia e não se imagina mais o quê. Depois de Elon Musk colocar o X, ex-Twiter, à disposição do futuro presidente norte-americano, ontem foi o dia de Mark Zuckerberg dizer que a Meta, controladora do Facebook e Instagran, principalmente e sua empresa não mais fará checagem de fake news, mas sim deixará isso à cargo das "comunidades". Não são sandices, mas sim insanidades que vão ser mesmo tentadas de curto a médio prazo.

O que se vislumbra também  nisso tudo é um foco nos sistemas judiciários dos países que combatem essa espécie de "absolutismo" das redes sociais chamados até mesmo de secretos sem o serem. Zuckerberg atacou a Europa e, na América Latina, mesmo sem citar nome, o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil, que hoje julga uma regulamentação das redes sociais. Nosso Tribunal seria um inimigo declarado dos movimentos extremistas de direita, neofascistas e de projetos autocratas como o de Donald Trump.         

Então, estamos diante de dias incertos e perigos certos em diversos setores. Talvez o presidente dos EUA esteja pisando em terreno pantanoso para ver até onde poderá ir. Ele e seu país não vão lutar contra o mundo todo, mas é preciso que o Brasil dos verdadeiros brasileiros esteja unido em torno de nossos ideais maiores para enfrentar quaisquer ameaças que venham a se corporificar no terreno da sabotagem à democracia. Fazer diferente é abrir terreno fértil ao revisionismo, ao golpismo, ao oportunismo político e à corrupção que agora ganham terreno no Congresso Nacional na calda de cometa das emendas parlamentares e outras aberrações permitidas sobretudo por Bolsonaro.

Hoje, na passagem desses dois anos da tentativa de golpe militar - jamais confundir isso com uma comemoração -, várias manifestações ocorrerão em Brasília durante o dia. Lá em em inúmeras outras cidades brasileiras, como a minha Vitória. Até mesmo o relógio do século XVII vandalizado pelos marginais do 08 de janeiro voltará ao Palácio do Planalto juntamente com mais peças - onde deveria ter permanecido intocado -, isso depois de um restauro que demorou 24 meses.  Se conseguirmos fazer com que a nossa democracia atravesse as novas tormentas também sem o risco de surpresas como essa, estaremos diante de uma oportunidade de ouro para fortalecer de uma vez por todas as instituições civis e militares brasileiras em torno da Constituição da República nesse abraço simbólico da Praça dos Três Poderes!

É preciso que não nos esqueçamos do preço pago por todos na conta dos 21 anos de ditadura militar brasileira. "Ainda estou aqui", filme reverenciado por milhões e premiado com o Globo de Ouro para Fernanda Torres mostra isso de maneira enfática. Os cartórios do País estão tendo que retificar inúmeras certidões de óbito de pessoas assassinadas pelo regime militar ao longo dos 21 anos de obscurantismo político vivido por nós. Eu mesmo conheci homens e mulheres que foram supliciados e mortos na ditadura. Também outros que sofreram, mas conseguiram sobreviver. Todos esses últimos carregam consigo um peso imenso em traumas que jamais puderam e poderão ser apagados. É tempo de isso ficar para trás, mas de forma alguma no esquecimento porque uma decisão como essa seria o supremo desrespeito para com esses brasileiros. Esses, sim, são nossos patriotas.             

Anistia, não!                                      

6 de janeiro de 2025

Porque ainda estamos aqui

As Fernandas no momento da vitória maior da filha 

A vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro anunciado ontem nos Estados Unidos possui um significado simbólico muito grande e ela tem a exata noção disso. Significa que o Brasil que preza sua Constituição, que sobrevive a tentativas de golpe de Estado e luta pela manutenção do sistema político baseado no Estado Democrático e de Direito vai vencer os vermes golpistas que emergem dos esgotos da história onde vivem para, de tempos em tempos, buscar reviver seus pesadelos de violência, de negacionismo e de obscurantismo.

Significa explicar porque ainda hoje estamos aqui e vamos continuar estando.

A extrema direita golpista é diferente da direita politica. Essa última representa uma visão  de mundo antissocialista e que luta por alguns dos ideais caros ao capitalismo, mas dentro da regra do jogo e respeitando quem pensa diferente. Conheço muita gente assim. A extrema golpista vive nas sombras porque não pode emergir dos esgotos impunemente. Faz como fez uma acadêmica da Academia Espírito-santense de Letras (AEL) que postou imagem mostrando duas figuras religiosas ligadas à mãe de Jesus à esquerda e ao centro da "arte" com, à direita, uma da bandeira do Brasil, nosso maior símbolo pátrio, representando o extremismo que aqui ainda sobrevive respirando por aparelhos ligado a Bolsonaro. Retirou do ar, pediu desculpas e disse ter se enganado de grupo. Engano grande, disse eu...

Fernanda sabe, assim como eu e muitos outros, que Rubens Paiva é agora somente um símbolo. Da mesma forma que ele, muitos outros brasileiros foram presos ilegalmente, torturados e assassinados nos porões do regime que ocupou o Brasil entre 1964 e 1985. Teve mulher grávida jogada ainda viva de helicóptero sobre a selva. Teve homem amarrado à traseira de Jeep militar e com a boca presa no cano de escape enquanto o acelerador era pressionado para gerar mais gases e calor. Teve pau de arara, cadeira do dragão, afogamento simulado ou não, espancamentos que levaram à morte como aconteceu com Rubens Paiva e Vladimir Herzog, o Vlado. Em comum entre os dois o fato de que foram buscados em casa para "prestar depoimento". Vlado, o jornalista, foi mostrado num enforcamento simulado em instalação militar. Já Rubens Paiva, desapareceram para sempre com seu corpo.

As pessoas que vivem nos esgotos da história pensam o que da figura do Deus no qual dizem acreditar?

Irônico, mas "Ainda estou aqui" é uma produção da Globo! Há sempre tempo para as pessoas e instituições reverem seus princípios, suas crenças. E hoje, depois da vibração incontida de Fernanda Torres, da alegria de Fernanda Montenegro (vejam a montagem fotográfica) haverá muito tempo para que nós, brasileiros, pensemos em que país queremos viver. No dos esgotos da história, não, pois nunca na vida acamparei perto de quartéis militares, rezando para pneu ou chamando extraterrestres. No do exemplo contido no filme que nos levou ao Globo de Ouro, sim, porque esse país de homens livres construído pelas esquerdas democráticas é o retrato das aspirações de todos os que renegam o passado de torturas erigido sobre os cadáveres, de Rubens, Vlado e milhares de outros.