9 de fevereiro de 2010

Sobre caixas pretas


O reinício dos trabalhos de busca pelas caixas pretas do Air Bus A-330 da Air France, acidentado em meados do ano passado, vai trazer à tona uma pergunta: não seria mais lógico se o conteúdo dessas caixas pretas ficasse também nas torres de controle dos aeroportos de origem ou destino dos voos em vez de nos gravadores dos equipamentos?
Explico: vivemos a época da transmissão de dados por satélite. As caixas pretas podem gravar dados em seus gravadores e, ao mesmo tempo, transmití-los para uma das torres de controle envolvidas nos voos. Uma vez que eles terminem, tudo é automaticamente apagado. E não se tem acesso a dado algum. Se houver acidente, tudo o é que necessário para ajudar na elucidação dos fatos estará à mão caso os equipamentos dos aviões se percam ou fiquem muito danificados.
Claro que isso tem um custo. Claro que isso vai exigir mais sistemas de transmissão e recepção de dados em aviões e aeroportos. Claro que vai expor tripulantes e aeronaves caso não haja um sistema de bloqueio dessas transmissões quando for desnecessário ter acesso a elas. Mas claro também que será mais fácil elucidar fatos.
Claro, por último, que tais soluções não são encontradas por restrições de alguns países, a maioria delas ligadas a questões de segurança. O que parece ser mais importante do que as vidas de pessoas voando em aviões civis e comerciais.
O acidente da Air France já poderia ter sido explicado se os obstáculos legais fossem contornados. O que confortaria - talvez - as famílias e evitaria fatos futuros iguais ou parecidos. Certamente!

25 de janeiro de 2010

A demagogia e a tragédia

Não há nada pior, mais dantesco, mais insensível do que um governo se aproveitar de uma tragédia das proporções da do Haiti para fazer demagogia e tentar vender imagens falsas, nacional e internacionalmente.
O Brasil quer destinar mais de R$ 130 milhões ao Haiti especificamente para a construção de dez hospitais, que pelos projetos anunciados, seriam identificados por uma sigla que os chamam de unidades de pronto atendimento ou coisa parecida.
O Haiti precisa de ajuda. Muita. E o Brasil o está ajudando há quase seis anos, de modo brilhante. Após o terremoto, essa ajuda se intensificou. No que nos toca, estamos fazendo o possível. Mas pergunto: há uma única e miserável justificativa ética e moral, para um governo que ao longo de sete anos não construiu hospital algum aqui, de repente fazer dez lá?
Ao contrário, meus caros, a situação da saúde no Brasil é caótica. Em Sinop, no Mato Grosso, há um hospital (foto ao lado) construído há anos e até agora sem funcionar porque não há lá equipamentos necessários à realização, sequer, de uma sutura. E milhares de brasileiros morrem sem atendimento médico na região todos os dias. Esse, creiam, é apenas um exemplo!
O programa Saúde da Família só tem contado com recursos estaduais e municipais pelo Brasil afora. O Governo Federal não vem entrando com nada. Isso ocorre no Espírito Santo, onde estou e as carências são enormes. Nós estamos órfãos de pai e mãe, inclusive da tal Mãe do PAC, e ainda queremos construir dez hospitais em outro país, por motivos meramente eleitoreiros. É um absurdo. O mundo todo, unido, pode fazer tudo pelo Haiti, bastando haver vontade política e coordenação. E vai fazer, acredito. Nosso governo deveria ter como meta principal prover seu povo, sua população. Mas pouco faz em áreas como saúde e educação, para ficarmos em apenas dois exemplos. Ao contrário, concentra-se única e exclusivamente em demagogias.
É preciso ver isso. É necessário refletir sobre isso. É a hora de os brasileiros lutarem para que nossos recursos sirvam aos outros depois de nos servirem em nossas necesidades.
EM TEMPO: àqueles brasileiros e brasileiras chorosos, ávidos por adotar crianças haitianas, lembro o seguinte: não há meios legais de isso ser feito agora, pois os procedimentos legais estão emperrados naquele país. Crianças não são brinquedos e precisam ser tratadas com uma dose maior de comprometimento, programação. E temos, aqui no Brasil, milhares de pequenos, nossas crianças jogadas nas ruas, à mingua, ou em centros de triagens e favelas, sem serem adotadas por ninguém. Crianças sem passado, sem presente e sem futuro.
Claro, se não forem arregimentadas pelo tráfico. E ele "adota". Pensem nisso!

22 de janeiro de 2010

Os políticos e os púlpitos


A proximidade das eleições gerais brasileiras, que vão definir até mesmo o próximo presidente da República, desnuda um dos maiores problemas brasileiros: somos um Estado laico, mas onde inúmeras igrejas - na verdade, seitas - são usadas rasgadamente para cabalar votos.
Um dos melhores negócios que existem hoje é criar uma igreja. De preferência, pentecostal. E para isso bastam poucas providências legais. Essas instituições surgem com a velocidade das formigas. Depois, é preciso que elas "adotem" um ou mais políticos. E cabalem votos para ele(s) em troca de favores como, por exemplo, uma gorda parcela anual de sua verba de "emendas parlamentares". Outras de nossas aberrações republicanas.
Se enviar o dinheiro diretamente para a seita não for possível, basta a ela criar uma ONG. Uma instituição ligada à "célula mãe" e com aparência de ser benemerente. Nem precisa ser: basta parecer. E ter a capacidade de arrecadar muito dinheiro. De emendas e dízimos.
É assim que proliferam no Brasil "confissões" que estão sendo processadas, em alguns casos criminalmente. Muitas têm problemas com a Justiça. No caso de uma, seus donos foram presos e processados nos Estados Unidos. Mas todas são muito ricas.
Um Estado Laico não poderia permitir isso. "Bancada evangélica" é coisa própria de país onde os partidos não têm a menor importância. Coisa de país onde as agremiações partidárias, que deveriam ser referências na vida política, tornam-se apenas instrumentos nas mãos de caciques políticos, muitos dos quais se escudam nos púlpitos de seitas sem escrúpulos para se aproveitar da boa fé das pessoas e se perpetuar renovando mandatos.
Sim, porque o alvo de todas essas falsas religiões são as pessoas incultas, as pessoas sem informações, as que estão fragilizadas socialmente, perderam empregos, famílias ou se destroçaram em acidentes ou por causa de doenças. São elas que "pastores" e donos de outras denominações arregimentam. E são elas, também, que sustentam os maus políticos no poder.
Em nome de quem? De quem mesmo?




8 de janeiro de 2010

Turista em apuros


Não sou de colocar piada em site. Mas essa, para um início de ano, começa concorrendo à melhor de 2010. Vamos a ela:
Um alemão, procurando orientação sobre o caminho, faz sinal para um carro ao lado de outros veículos, este com um casal de brasileiros dentro.
O alemão pergunta:
- Entschuldigung, koennen sie Deustsch sprechen?
Os dois brasileiros ficam mudos.
- Excusez-moi, parlez vous français?
Os dois continuam a olhar para ele impavidos e serenos.
- Prego, signori. Parlate italiano?
Nada por parte dos brasileiros.
- Hablan ustedes español?
Nenhuma reposta.
- Please, do you speak english?
Nada. Angustiado o alemão desiste e vai embora.
Dona Marisa vira-se para Lula e diz:
- Talvez devêssemos aprender uma língua estrangeira...
- Mas para que, companheira? - pergunta Lula - Aquele idiota sabia cinco e adiantou alguma coisa?
Realmente: não adianta!

7 de dezembro de 2009

Só no papel


"No Brasil, homem público é o masculino de mulher pública".
Quem disse isso foi nosso grande Ziraldo, num momento de grande inspiração. E os políticos brasileiros fazem questão absoluta de confirmar essa verdade todos os dias, a todas as horas. Quem acompanha os escândalos de Brasília sabe disso.
O cipoal de desonestidades revelado no governo do Distrito Federal é a prova mais incontestável de que não vamos mudar a triste realidade brasileira enquanto não houver por aqui um elenco de leis capaz de retirar da vida pública os marginais que hoje a frequentam. Mas conseguir isso de que forma, se são eles que votam as leis.
Por todos esses motivos, não há como questionar o ministro Gilmar Mendes, presidente do STF, quando ele legisla, juntamente com seus pares, fazendo o trabalho que seria do Legislativo. E ele deve fazer isso mesmo. O Brasil é a única democracia representativa com apenas dois poderes: o Executivo e o Judiciário. O terceiro só existe no papel. No papel higiênico.

27 de novembro de 2009

Vamos denunciar telefonemas falsos! (2)


Tenho postado matérias de denúncias sobre telefonemas falsos. A maioria desses números pertence a marginais e são usados até mesmo para falsos sequestros. Mas às vezes ocorrem surpresas, como o e-mail recebido hoje de um leitor. Leiam-no:
"Boa tarde a todos!!! Recebi uma ligação do telefone (085) 3255-0202 e joguei no Google para ver se era de alguma empresa operadora e pra minha surpresa veio um monte de comentários falando de trote, golpe. Estou surpreso e preocupado. Tenho acesso a consulta detalhada e com esse tel. (085) 3255-0202 consta abaixo:
Documento 3300018001574
Proprietário TELEMAR NORTE LESTE S/A
Endereço BORGES DE MELO, 1677 - Ceará
E com o CNPJ ref. ao num. de tel:
CNPJ 3300018001574
Razão Social TELEMAR NORTE LESTE S/A
Situação da empresa: ATIVA
Nome de fantasia: OI
Município: RJ - Rio de Janeiro"
Note o leitor que o número e o nome se repetem nos itens acima "Documento", "CNPJ", "Proprietário" e "Razão Social". Pode-se deduzir que as telefônicas estão monitorando números ou agindo por outros motivos. Seja lá o que for, estão agindo de forma ilegal e irresponsável, pois ligam de madrugada, atrapalham o sono das pessoas e invadem nossas privacidades.
Vamos continuar denunciando. Quem tiver mais dados, passe.
E se você quiser saber de onde veio um determinado telefonema, é possível que o endereço eletrônico da ABR Telecom possa ajudar. Basta seguir o link.

12 de novembro de 2009

A política como meio


As notícias de que o Ministério Público federal vai mover ação judicial no sentido de garantir a fidelidade partidária e a de que o STF vetou a posse de quase 8 mil suplentes de vereadores antes de 2012, são muito boas. Elas representam um combate efetivo à prostituição eleitoral brasileira. Uma chaga que nos persegue já há muitos anos, sempre ganhando força.
Os políticos consideram a fidelidade partidária uma "camisa de força". Por certo, é. Afinal, para eles, o partido é um meio, não um fim. É o meio que encontram de satisfazer seus projetos pessoais e se manter no cenário político nacional sem o menor compromisso para com a causa pública. Muito pelo contrário. E sem o menor compromisso, também, para com projetos nacionais, planos de governo, ideologias ou quaisquer outros sentidos éticos dessa atividade.
A política brasileira - a regra tem exceções, felizmente - não tem ética. Não como ela é conceituada na maioria das atividades. Ao contrário, sua "ética" particular é a sobrevivência. É o próximo mandato. Por isso, por esse objetivo, qualquer coisa vale. O presidente Lula mesmo disse, recentemente, que se Judas vivesse hoje e fizesse política, Jesus teria de fazer acordo com ele. O presidente tentou mostrar porque faz esse tipo de conchavo para sobreviver e ajudar seu grupo de apoio. Mas foi econômico. Faria acordo com o diabo também, se necessário.
No Brasil, é preciso resgatar os partidos políticos. Dar-lhes dignidade. Fazer com que eles sejam uma representação política acima dos cidadãos. Sem isso nosso Poder Legislativo, em todos os três níveis, vai continuar mostrando como identidade uma triste constatação de que realmente vale a pena não investir em educação.
Um povo sem informações básicas vota em qualquer um.