27 de março de 2013

Eles não estavam na praia

Vira e volta a gente recebe pela internet algum texto falando sobre como era fácil namorar dentro do carro à beira do mar sem ser assaltado, passear pela praça, caminhar à noite, ir ao cinema e fazer várias outras coisas sem incômodo algum nos tempos da ditadura militar. Enquanto hoje...
Em alguns textos, exemplifica-se a diferença de nível de vida entre os generais que ocuparam o poder naquele período e não morreram ricos e o que acontece hoje. Lula, por exemplo, o maior representante dos sonhos de pós-ditadura, é hoje um dos homens mais ricos do Brasil. Sem mandato, mesmo assim percorre o mundo de cima para baixo, sempre patrocinado por grandes empresas, como lobista. Durante os 21 anos do regime militar, nenhum dos ex-presidentes fez isso, embora alguns tenham exercido cargos diretivos em empresas brasileiras de grande porte, todas elas públicas.
Vamos por partes como diria Jack, o Estripador.
Ninguém poderia imaginar, no pós-85, que os ex-militantes de esquerda reunidos sob a sigla do PT tinham como objetivo chegar ao poder para tomar posse do dinheiro público. Isso era inconcebível! Eu mesmo, que votei em Lula em  2003, embora já fazendo objeções a ele, imaginava que esse ex-metalúrgico com tanto suor dispendido em comícios e campanhas políticas e tão pouco no trabalho do dia-a-dia, estivese cercado por idealistas que, agora do outro lado, lutariam por uma nova sociedade. Ledo engano. Eles lutaram por eles mesmos e seus interesses corporativos. Alguns já foram condenados à prisão pelo STF e Lula, numa de suas idas e vindas, sempre diz, esse última a saber, que não sabe de nada.
Mas o mensalão e outros crimes existe, sim.
Fica difícil defender os tempos atuais? Não, não fica. Essa quadrilha é uma pequena, ínfima parcela da imensa legião dos verdadeiros idealistas que lutaram pelo Estado de Direito entre 1964 e 1985. Os que formam a imensa maioria, envergonhados, assistem à distância à festa da corrupção. O aumento da insegurança e da criminalidade é um fenômeno dos tempos e não desse atual sistema de governo.
Durante os 21 anos de ditadura, sobretudo após o AI-5, não havia garantias individuais. Milhares de brasileiros foram presos ilegalmente, torturados e mortos. Outros foram exonerados do serviço público. Mais alguns milhares, fichados nos órgãos policiais políticos, não eram aceitos em grande parte das empresas privadas. O sofrimento foi imenso.
Para não me alongar muito, cito o exemplo de uma ex-presa política que passou dias numa cela com porta toda lacrada, sem janelas, paredes pintadas de negro, tão pequena que era impossível esticar as pernas para dormir, onde não comia e de onde somente saia para ser torturada, sempre que capuz e tendo que chamar seus torturadores de "doutor". Nas poucas vezes em que tirou o capuz, viu policiais carregando sacos de pano, grandes, de onde pingava sangue e
era possível ver, pelo contorno, pedaços de seres humanos.
Ela e os demais não estavam namorando dentro dos carros, à beira do mar!           

15 de março de 2013

O melhor negócio do mundo!



Se o caro leitor for empreendedor, não deve perder tempo com bares, restaurantes, pequenas indústrias, assessorias, consultorias, etc. Abra uma igreja evangélica. Consiga oito membros, número mínimo exigido por lei no Brasil (pode acreditar: é verdade!!!!!!!!!!) e veja que as dificuldades são menores do que as de abertura de botequim de esquina. Vamos ao passo-a-passo:
I – Conceitos e objetivos: Associação Sem Fins Lucrativos: significa dizer uma entidade de direito privado com personalidade jurídica e caracterizada pela união de pessoas para realização e consecução de objetivos e ideais comuns, sem finalidade lucrativa (de mentirinhas, é claro!).
II – Características de uma Associação Sem Fins Lucrativos: reunião de pessoas para obtenção de um fim, podendo este ser alterado pelos associados; ausência de finalidade lucrativa; patrimônio constituído pelos associados ou membros; reconhecimento de personalidade por autoridade competente.
III – Roteiro para constituição e registro de associações: 1. elaboração/discussão do projeto e Estatuto; 2. assembléia Geral de constituição; 3. obtenção de inscrição na Receita Federal – CNPJ; 4. inscrição na Secretaria da Fazenda – Inscrição Estadual (caso venda produtos); 5. registro no INSS; 6. registro na Prefeitura Municipal; 7. documentos do Presidente e membros que assinam atas e estatutos social (CPF, RG, Comprovante de Residência.); e 8. Contrato de Locação e respectivo IPTU.
Por último, uma informação: igrejas não pagam impostos. Pelo texto é possível ver que isso só ocorre quando ela vende produtos. Mas coisas como lugar no céu, garantia de salvação eterna, fogo sagrado de Israel e outros não estão relacionados. Também não se paga imposto sobre dízimo. E é possível, como aparece na televisão todo dia, programar o pagamento em débito automático, o que impede o inconveniente de o diabo, esse grande filho de uma boa senhora, fazer o "irmão" esquecer.
Portanto, quando você ouvir, ler ou ver noticiário de mais um escândalo envolvendo denominações neo-pentecostais e os "sagrados" nomes de pastores, apóstolos, missionários e outros mais, todos vão jurar inocência. Porque estão ricos, têm patrimônio espalhado pelo mundo afora enquanto você continua crédulo e pobre.
Acredite, irmão: no Brasil, igreja de última hora é o melhor negócio do mundo!      

6 de março de 2013

No hay camino!

Morto oficialmente, Hugo Chavez deixa para a Venezuela um legado de diminuição da miséria, o que efetivamente aconteceu ao longo de seus anos de poder, mas paralelo a isso está legando aos que o sucederão um país sem indústria, com agricultura e pecuária incipientes e um caos social que pode levar a todos até mesmo a uma guerra civil caso as questões nacionais mais importantes, urgentes, não possam ser solucionadas por acordo negociado.
A exemplo de Lula aqui no Brasil, Chavez fez um governo populista e demagógico. Sua "opção preferencial pelos pobres", que pode ser traduzida na foto que ilustra esse texto e o mostra beijando um crucifixo, tinha cunho sobretudo eleitoral. As ações e sua divulgação visavam sempre às próximas eleições, fossem elas provinciais ou nacionais. O Chavez que ajudava os pobres com os bolsa-família dos venezuelanos governava para si e seu grupo. Como Lula fez no Brasil. A diferença é que talvez a Venezuela tenha menos "aloprados" do que nós. Ou então os de lá são mais discretos, mais competentes na arte de desviar dinheiro público sem provocar muito alarde.
Diminuir a miséria e tentar melhor distribuir a renda dos países é sempre um mérito para governantes e seus programas de governo. Mas jamais quando o preço disso é a renúncia total à ética e a feitura de acordos políticos capazes de fazer corar até mesmo os demônios que os políticos tentam em vão exorcizar.
Morto, Hugo Chavez deixa uma Venezuela cheia de incertezas e em clima de animosidade já demonstrada nos confrontos entre militantes e jornalistas "de oposição", como foi visto na noite do anúncio de sua morte. Há um caminho legal  a ser seguido para a escolha do próximo ocupante do Palácio Miraflores, mas talvez ele não baste aos sonhos e à saciedade dos pretendes ao trono bolivariano. Afinal, até mesmo nas hostes chavistas mais ferrenhos há inimigos que não podem ser considerados como fidalgais.
O  que a Venezuela será no pós-Chaves ainda é uma incógnita. E serão os venezuelanos, depois das exéquias e do choro sempre incontido e voltado para a mídia que Lula demonstra nesses momentos os responsáveis por traçar o caminho. Não seria mau, então, se eles lembrassem o célebre poema sevilhano de Antonio Machado, no qual este diz ao caminhante que não há caminhos. A gente faz o caminho ao caminhar, pois são nossas pegadas o caminho, e nada mais.
Não creio que o Rei de Espanha, Juan Carlos, com quem Chavez teve grave entrevero, se irrite com a citação de Caminante numa hora em que ela é necessária:
Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
 

Portanto, os milhões de venezuelanos que pranteiam seu presidente, desfilando ao lado de um caixão coberto por flores e oferendas outras por uma Caracas paralisada, e só vão voltar ao normal, ou à vida normal, talvez bem depois do sepultamento desse caudilho de morte prematura, já sabem ou em breve saberão que terão de fazer o caminho ao andar. Nas pegadas ficaram 14 anos de chavismo, de um personalismo capaz de prostrar.
Em tempo: o texto é aberto com o termo "morto oficialmente" porque há grande desconfiança de que o presidente venezuelano tenha falecido em Cuba por volta do dia 26 de dezembro, sendo embalsamado em seguida. Isso coincidem ais ou menos com a visita dos irmãos Castro ao hospital onde ele estava internado e depois do que foi dito que "viemos até aqui nos despedir de um camarada". Após isso ninguém mais, nem mesmo chefes de Estado, conseguiram vê-lo.                  

2 de março de 2013

Um Brasil patético!

Ilustração de um conclave do início do Século XX. Os cardeais negociam
Ver o ex-presidente Lula discursando numa reunião do Partido dos Trabalhadores e se comparando ao ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln não foi engraçado, não foi pitoresco, nada disso. Foi patético. Essa impressão de nossas chefias de governo vem de desde 2003, quando o PT alcançou o poder federal. E não se trata de um comentário preconceituoso, nem contra aquela agremiação partidária nem contra a escolaridade (ou falta dela) de Lula. Trata-se de uma constatação óbvia.
E ela pode ser ampliada para a vida política em geral, unindo os poderes Executivo e Legislativo. No Brasil, é necessário que haja uma total reformulação das leis que regem a vida dessas duas instituições que, juntamente com o Poder Judiciário, formam a base do Estado moderno. O que aconteceu essa semana, com a extinção de 14º e 15º salários do Legislativo é apenas ato cosmético. Nada mais.
No Brasil, Executivo e Legislativo são irmãos siameses. E isso tem conotação promíscua. O Poder Legislativo exige uma grande quantidade de cargos públicos para não se opor aos governos Federal, Estadual e Municipal, e esses fornecem ao primeiro grande maioria das cadeiras pleiteadas para, dessa forma, aprovar praticamente todas as suas propostas e projetos apresentados. Na prática, o Legislativo não legista e nem fiscaliza o Executivo. Este, por seu turno, não se preocupa com recusas ou vetos. E nenhum dos dois cumpre suas funções constitucionais. Tudo isso à custa do dinheiro público, recolhido para que o Estado melhore a vida do cidadão. E é o motivo de, na Câmara dos Deputados, em Brasília, mais de três mil vetos presidencias dormitarem na gavetas dos congressistas. 
Essas instituições poderiam se espelhar na história da Igreja Católica e na forma como são eleitos os papas, pois o procedimento serviu de exemplo à melhora da vida das democracias modernas. Inicialmente, os chefes da Igreja eram definidos por iniciativa popular. As pessoas se reuniam em praça pública e escolhiam uma delas. Um papa foi eleito porque um pombo pousou em sua cabeça. Até que um dia houve tumulto e muita gente morreu. Depois, veio a época dos antipapas. Ao longo da história, outros incidentes aconteceram e durante séculos houve intervenção do Império Romano.
No ocaso dele, a Igreja retomou sua independência e o papa Alexandre III, em 1179, criou a regra da maioria qualificada para a escolha do pontífice. O que ocorre é que a maioria de 64 por cento pode ser considerada como "maioria estável", o que foi constatado por estudos. Somente porque as escolhas estavam sendo muito demoradas, com os cardeais retidos no Vaticano e isolados do mundo até uma definição, mudou-se a regra para maioria simples após certo tempo, o que foi cancelado por Bento XVI. Mais uma vez a eleição só se dá com dois terço dos eleitores. O que o papa renunciante quer é o retorno da negociação política. Para vencer, um grupo tem que obter o apoio dos demais.
O que se preserva, no jogo político aberto, claro, posto que na vida das nações as coisas não se dão por conclave, ou seja, com as pessoas trancadas à chave, é a lisura do processo de escolha. E a definição das instâncias de poder, bem como de seus limites de atuação. Muito desses princípios são sagrados nas democracias. Mas não obrigatoriamente com o termo sagrado tendo significado teológico. Na maioria dos casos, a significação é apenas de cunho ético.
Vamos ter uma democracia real e digna no Brasil, no dia em que a vida dos poderes, sobretudo Executivo e Legislativo, for totalmente aberta, clara. No dia em que cada um deles cumprir suas funções constitucionais e somente elas. Na vida das democracia é lícito fazer acordos políticos, alianças, e dar espaço administrativo aos adversários. Mas existe uma grande distância entre isso e a promiscuidade das pressões e jogo de ameaças existente no Brasil para obter cargos para familiares e apaniguados, com o loteamento da máquina administrativa, seu gigantismo e a nomeação para espaços importantes, às vezes vitais, de toda a sorte de corruptos. Aqui, a vida legislativa é a cara de Lula: patética!
Ou a gente muda ou a gente afunda.                            

20 de fevereiro de 2013

O ecumenismo como caminho?

A igreja católica condena o uso de pílulas anticoncepcionais ou quaisquer outros meios contraceptivos, como o DIO. A esmagadora maioria das católicas em idade fértil os usam. Ela também combate o uso de camisinha. A maioria dos católicos que fazem sexo casual a utilizam. A igreja, da mesma forma, abjura o aborto. Muitas católicas, por motivos diversos, o fazem. Nos casos de gravidez com anencefalia comprovada, gravidez motivada por estupro e gestação que comprovadamente coloca em risco a vida da mãe, há uma campanha nacional por sua total regulamentação. Interrompe a gravidez quem quiser agir assim. Uma imensa legião dos defensores dessas três hipóteses é composta por católicos.
No mundo as coisas se dão dessa forma: ou você se adapta aos fatos novos e consagrados pelas pessoas aceitando-os ou eles o atropelam.
Estão em discussão hoje, também, situações que não ocorriam num passado nem tão distante assim como no início da década de 1960, quando do Concílio Vaticano II. Como as pesquisas com células-tronco, por exemplo. E a inseminação artificial e o descarte de óvulos fertilizados. Isso são conquistas científicas que a cada dia mais fazem parte das vidas das pessoas. Elas, essas pessoas, vão tomar posição a respeito, caso ainda não o tenham feito, independente da orientação da Igreja. Estou citando apenas alguns fatos. Como a igreja católica vive hoje sua maior crise dos tempos modernos, vai ter que pensar nisso. Rever conceitos e dogmas. Além e juntamente com a crise ética, moral e de princípios de honestidade que, ao que tudo indica, motivaram a renúncia de Bento XVI. No dia 21 último, o porta-voz da Santa Sé confirmou que em dezembro o papa recebeu de cardeais aliados um relatório de 300 páginas denunciando corrupção e homosexualismo na cúpula da igreja. É o fim da picada!
Na Europa, a sangria de fieis é tão grande que o total de católicos, que era de 38,5% em 2000, hoje é de apenas 23,7%. Uma queda gigantesca em 12 anos! No Brasil, não havia ateus e agnósticos em 1890. Hoje eles são 8%. Mas o pior para a igreja católica é que ela tinha 99,7% dos fieis brasileiros em 1870, depois 89,89% em 1980 quando os evangélicos começaram a "incomodar" com o percentual de 6,6%. Hoje, o catolicismo abarca 64,6% da população e as diversas correntes evangélicas, 22,2%. A sangria cresce...
No artigo anterior a este, falava eu da encruzilhada católica. Para muitos, e não sou expert nisso, o renascer dessa religião passa pelo ecumenismo representado pelo desenho infantil que ilustra o texto e pela aceitação da maioria das mudanças no mundo moderno. Ou ao menos de parte delas. Será? O problema é que o cardinalato, formado por pouco menos de 120 eleitores, hoje é composto basicamente por conservadores nomeados por João Paulo II ou Bento XVI. E a maioria de europeus, sobretudo italianos.  A chamada "Igreja Progressista" foi eliminada como corrente religiosa. Embora o presidente da CNBB, Dom Raymundo Damasceno tenha dito que a reforma necessária à sua fé passa por uma adaptação do catolicismo aos tempos modernos, não se sabe o que ele entende por isso. Se entender como pouca coisa, estará incorrendo em erro.
Resta aguardar. Para os "donos" das denominações evangélicas chamadas neopentecostais onde só o enriquecimento e a exploração da inocência das pessoas interessa, a expectativa é pelo sepultamento da fé católica. Para os interessados em que o cristianismo siga seu caminho com a honestidade das religiões tradicionais e milhões de fieis, a torcida é pelo inverso.              

12 de fevereiro de 2013

A encruzilhada católica

Ratzinger anuncia no Vaticano que vai deixar de ser Bento XVI em breve
A renúncia do papa Bento XVI, o ex-cardeal alemão Ratzinger, longe de ser um mal para os crentes do mundo todo, pode se tornar um bem, sobretudo para a Igreja Católica, representada por ele. Essa religião precisa urgentemente se fortalecer, deter a sangria de fieis identificada já faz muitos anos, e isso não pode ser feito com uma imagem política conservadora, fechada dentro de si mesma, como numa fortaleza medieval.
E por que deixar essa identidade visceralmente conservadora é hoje necessário? No caso brasileiro, para deter ou diminuir o ritmo de crescimento de seitas chamadas oficialmente de "confissões neo-pentecostais" ou simplesmente "evangélicas". Diferentemente das religiões Católica e protestantes tradicionais e seculares, nascidas quando da Reforma, como Luterana, Batista, Anglicana, Pentecostal e outras, a quase totalidade das mais recentes não passam de grandes negócios escusos. Multinacionais por sinal. Ou têm seus líderes (ou seriam seus donos?) envolvidos em escândalos ou já os tiveram. Provavelmente terão. Agem como franquias, abrindo templos que visam especificamente o lucro. E enriquecem mesmo. Seus donos são multimilionários e dividem lucros. Dividendos.
O Brasil já assistiu a vários episódios de envio irregular de dinheiro amealhado por essas seitas para o exterior, bem como escândalos de desvio de dízimos. Um líder de uma congregação pediu em televisão para que os fieis passassem a pagar seus dízimos via autorização de desconto bancário, para que "o diabo não faça você se esquecer". Mesmo assim, o governo brasileiro cometeu a leviandade de dar passaporte diplomático a um "apóstolo". É assim mesmo que eles se intitulam: apóstolos. Esse passaporte, da mesma forma que os demais, vai ser usado para tirar dinheiro ilegalmente do País e levá-lo para o Exterior.
Mais do que isso: essas seitas têm um projeto de Estado. Querem conquistar o poder para moldar o Brasil à sua vontade, desconhecendo o fato de sermos um Estado laico. E esse país sem religião oficial comete outra leviandade: permite que as seitas aluguem espaço de televisão, uma concessão de serviço público, para transmitir suas pregações e conquistar mais incautos. Isso é fácil, porque além de termos no nosso solo milhões de pessoas religiosamente inocentes, nenhuma dessas seitas paga impostos.
As religiões tradicionais podem deter esse movimento, pura e simplesmente conquistando novos fieis, reconquistando muitos dos que foram perdidos e não perdendo mais os que têm, embora eu não creia que os protestantes tenham interesse nisso.. O maior poder nesse sentido vem do catolicismo, que agora precisa atentar para os novos tempos. Moldar-se a eles. E não existe ocasião mais propícia à escolha de um papa do Terceiro Mundo do que essa. Um pontífice oriundo de um país africano, centro-americano ou de outra região pobre do mundo teria uma visão diametralmente oposta à de um europeu, por exemplo, no que tange à miséria, ao colonialismo, às práticas ditatoriais e outras.
Dom Elder abraça um pobre em sua igreja. Ele sequer tinha o direito de falar
Nas últimas décadas, a chamada Teologia da Libertação foi combatida porque era comum dizer que ela seria uma intromissão da igreja na política, no Estado. Mas o que fez João Paulo II ao combater o comunismo na sua Polônia e em outros países do mundo, inclusive na então União Soviética? Aqui, a Opção Preferencial pelos Pobres lutou contra a ditadura. Ela era uma opção ruim somente porque essa ditadura era de direita? Matava tanto ou mais que as demais.
Sacerdotes como Dom Elder Câmara, de Pernambuco, foram alijados de decisões maiores da igreja, jamais chegaram ao cardinalato e terminaram proibidos de falar pela ditadura militar brasileira porque a combatiam. Dom Paulo Evaristo Harns (este, cardeal) e Dom Pedro Casaldaliga sofreram perseguições sérias. E ameaças. Eram e são exemplos de dignidade, de sabedoria e de respeito às suas crenças e aos valores dos próximos.
A Igreja Católica está numa encruzilhada. E pode surgir em breve, caso queira, como uma instituição reformadora, conquistadora de fieis, lúcida, moderna e com espaço maior para a atuação das mulheres (coisa que as outras também não fazem). Mas é preciso acordar para os tempos modernos. O papa que renunciou disse que as mudanças hoje acontecem muito rapidamente. É verdade, e ele teve a lucidez de identificá-la, da mesma forma como sabia e sabe ser incapaz de se adaptar a ela. Se for sucedido por um reformista com visão de futuro, o Trono de São Pedro será pequeno para tantos fieis.
Quem diz isso, assinando esse blog, é um agnóstico oriundo de uma família de forte vocação religiosa. e com raízes fincadas, firmes como as toras, no catolicismo.                         

9 de fevereiro de 2013

O mundo de Mônica Veloso

Desinibida, Mônica Veloso curte os louros da fama. E engorda conta bancária
Há uma regra que quase todo mundo segue para determinar se um fato é notícia ou não. Trata-se do seguinte: se você é um homem público (alguns também são notórios) e tem uma amante, isso não é notícia. Mas se você é um homem público, tem uma amante e isso gera um escândalo ou desvia dinheiro de impostos de alguma forma, direta ou indireta, isso é notícia. E daquelas que fazem com que, no Brasil, o termo "homem público" seja muitas vezes confundido ou comparado com "mulher pública".
O presidente do Senado, Renan Calheiros, ou não conhecia ou fez vista grossa a essa norma informal quando transou com o jornalista Mônica Veloso, engravidou-a, deixou que sua esposa descobrisse (veio aí o escândalo) e depois pagou a pensão de alimentos da filha que tiveram com dinheiro de uma empreiteira. Essa, ganhou como prêmio a "concorrência" de obra pública mais descarada dos últimos tempos (veio aí o uso indireto de dinheiro de nossos impostos para assuntos pessoais. O outro escândalo).
Renan , o senador que se apaixonou (?) por essa desinibida jornalista aí da foto, que também aproveitou para ganhar dinheiro da revista Playboy, precisou renunciar à presidência do Senado mas voltou agora. Além de a memória dos brasileiros ser curta, à classe política pouco interessa esse negócio de ética. Essa separação entre assunto público e privado. Tudo é deles. Afinal, não adianta abaixo assinado, protesto em praça de Brasília, nada. Eles não ligam. E a presidente(a) também não.
Uma jornalista séria um dia desses definiu na Globo News como são os políticos: insaciáveis. E não sei, sinceramente, se mulher é mais atraente para eles do que desvio de dinheiro. Ou os dois empatam  ou eles preferem o segundo item, pois com ele é possível comprar o primeiro. Isso serve sobretudo e principalmente ao PMDB, que do MDB da resistência à ditadura entre 1964 e 1985, tornou-se uma prostituta do poder, atualmente capaz de abrigar qualquer figura em sua sigla e ter um cacique em cada Estado.
Mônica Veloso não é santa, está longe disso, mas apenas fez o jogo do poder. Para alguns, participar do Parlamento do Brasil hoje em dia significa desviar dinheiro dos impostos do cidadão para suas contas bancárias, de empresas ou para as de laranjas. Para outras, cair numa boa cantada e abrir as pernas escondido de todo mundo tem o mesmo efeito. Quando ninguém descobre.
E esse é o Brasil que nenhum de nós merece. Nenhum de nós com vergonha na cara. Mas, infelizmente, é o mundo de Mônica Veloso, Renan Calheiros e mais uma carrada de outros desqualificados, tanto de Brasília quanto de qualquer Estado.            

3 de fevereiro de 2013

A demagogia do "problema social"

Flanelinha atua no Centro de Vitória, perto à região do Porto. Impunemente!
Ao ser eleito para governar Vitória, o prefeito Luciano Rezende deu uma entrevista à TV Gazeta, respondendo a perguntas de telespectadores. Um deles questionou o que seria feito com as gangs de flanelinhas que infestam a cidade. Ele disse que o fenômeno existe faz anos,  nunca ninguém o combateu e se trata de um "problema social". Em síntese, demagogicamente revelou o que todos sabemos: não pretende fazer coisa alguma.
E isso se confirmou. Depois de empossado, houve uma denúncia de extorsão praticada por flanelinhas contra um morador da cidade que havia estacionado o carro na área central. Uma pergunta foi encaminhada à PMV, perguntando o que seria feito, e a "assessoria" respondeu que não existe lei alguma considerando a prática como ilegal. Se o cidadão se sentir ameaçado, deve se dirigir à Polícia e pedir providências.
Maravilhoso! Vitória começou a mudar! Para pior!
As quadrilhas de flanelinhas infestam toda a cidade. No Centro já fui abordado por vários deles pedindo dinheiro "para o vagabundo não riscar o carro do senhor, doutor!". E a abordagem se dá entre o Palácio Anchieta e o Fórum. Entre sedes dos poderes Executivo e Judiciário. Uma amiga que precisou parar às pressas para ver um parente que estava internado em estado grave no Hospital da Associação dos Funcionários Públicos do ES, ao voltar teve o carro cercado. Ou dava ao flanelinha o dinheiro de seu "serviço" ou não saia. Mulheres são coagidas dessa forma. No caso de homens, o sujeito até pode ir embora sem ser agredido fisicamente. Mas que não volte. Se voltar vai encontrar seu veículo destruído porque a placa terá sido anotada e distribuída para todas as gangs.
Por sinal, na legislatura passada um vereador votou a provou lei considerando crime essa prática. O então prefeito, João Coser, vetou. Por isso não existe lei: o Executivo barra todas as tentativas de combate a esse tipo de crime mal organizado, mas mesmo assim organizado.   
Se um dia a Polícia reunir o grosso de seu efetivo e fizer uma limpeza na cidade, levando todos os flanelinhas ou os que puderem ser detidos, para uma triagem numa delegacia, a metade não volta às ruas. Uma boa parte deles respondem a processo, seja lá por que delito for. A metade, ou mais, comete ou cometeu crimes. E podem ser até mesmo crimes bem graves!
Não, senhor prefeito. Não se trata de um problema social. É  um problema criminal! E dos grandes. Sua demagogia, sua omissão, seu cinismo e seu bom-mocismo de araque não conseguem esconder essa verdade que salta aos olhos de todo mundo, todos os dias em todos os bairros.
A questão dos flanelinhas tem que ser enfrentada. De peito aberto, como os verdadeiros homens enfrentam os problemas ou definem suas posições. O fato de outros não terem tomado providências no passado não justifica a omissão covarde de agora. E faça uma coisa, caso o senhor não acredite nos cidadãos dessa cidade: mande que uma pessoa de suas relações pare o carro ao lado da Prefeitura. E diga e ele que não pague os flanelinhas que infestam o lugar, debaixo da janela de sua sala de trabalho.
O senhor vai ser o que acontecerá ao carro dele.          

  

29 de janeiro de 2013

A responsabilidade é do Poder Público

Parentes pranteiam seus mortos em Santa Maria. Uma tragédia anunciada
Bastou que mais de duas centenas de vidas de jovens cheios de futuro fossem ceifadas em Santa Maria (RS) para que o brasileiro, mais uma vez, parasse para se perguntar o que nos leva a enfrentar tais tragédias. Mas a resposta está além dos que foram presos e serão processados: é a omissão do Poder Público. Tanto que somente depois de tudo acontecer, autoridades de diversos setores e calibres se ergueram de seus berços esplêndidos para exigir "rigorosas providências" para que isso não aconteça mais.
Uma cidade está em choque. A população se divide entre o pasmo e o choro convulsivo. E eu não acredito, com toda a sinceridade, que essas tantas mortes, esses tantos sofrimentos, esse trauma imenso, modifique por um milímetro a maneira de pensar de nossa classe política. Dá declarações protocolares, emite notas oficiais e enviam gestos de solidariedade. Mas, paralelamente a isso, já se voltam a pensar na manutenção de seus privilégios, na diminuição sempre progressiva de sua carga de trabalho e nos acordos, muitos deles inconfessáveis, que são feitos para a manutenção e repetição dos mandatos. Os mais de três mil atos legislativos engavetados no Congresso Nacional, depois do cinismo do final do ano, continuam nas mesmas gavetas. Haverá, dentre tanta coisa diferente, alguma lei regulamentando casas de shows? Boates? Pedindo ou definindo regras de segurança? Se há, está na gaveta por pressão de empresários do setor. Eles têm o dinheiro. Eles têm a força!
Embora seja inevitável dizer que o Ministério Público tem sido um dos guardiães dos direitos do cidadão, também é inevitável concluir que ele funciona bem melhor sob as luzes dos holofotes. Sem ela muitas vezes entra em letargia. Pode-se dizer que essas luzes dão força a boa parte de seus membros.
Hoje sabemos que incontáveis cases de shows, boates e congêneres são potencialmente perigosas. E não têm saídas ou portas de emergência porque a comanda é mais importante do que a vida humana. E há seguranças, brutamontes bem treinados, para garantir que sejam pagas.
Basta olhar pela TV e ver que a boate Kiss estava cercada por dois prédios laterais e sem segunda rota também aos fundos. Entrava-se e saia-se apenas por uma porta estreita à frente. Ela, a boate, era um cubículo para jovens, um barril de pólvora esperando explodir. E nenhuma autoridade gaúcha daquela cidade universitária viu isso antes de centenas de futuros deixarem de existir. Os feridos sobreviverão? Caso positivo, quanto de sequelas carregarão pela vida afora?
Os donos da boate pocilga Kiss são apenas cúmplices. Os membros da banda Gurizada Fandangueira, partícipes da irresponsabilidade geral e não atores isolados. Os verdadeiros culpados, ou mergulharam em suas férias de donos do mundo, ou então dão entrevistas, aproveitando o momento e pensando nas próximas eleições. Quanto às vítimas, milhões choram por elas. Mas serão as últimas? Infelizmente, creio que não.          

15 de janeiro de 2013

Os aposentados da "Belíndia"

Trabalhadores da Petrobras tiram as roupas. Querem aposentadoria maior
Seria caro e relativamente demorado corrigir uma das maiores e mais escandalosas aberrações da vida brasileira: a péssima qualidade do ensino público, praticamente inexistente em algumas regiões brasileiras: mas seria possível fazer. Em vez disso os últimos dois governos (Lula e Dilma) preferiram instituir guetos estudantis no País. Primeiro, o regime de cotas para negros. Até filhos de pais alemães se declaram negros hoje. Depois vieram cotas para outras minorias. No ensino público federal o ingresso pelo mérito puro e  simples tende à extinção. Pior é que muitos negros concordam com isso. Em viver num Brasil onde houve um longo caminho até o combate do racismo e hoje é dividido, pelo menos no ensino, por raças.
Seria caro e relativamente demorado promover a Justiça para os aposentados do INSS. Pessoas que passaram a vida toda contribuindo para esse Instituto, e pagando caro para ter um final de vida digno, agora não têm acesso a serviço médico de qualidade e estão vendo seus vencimentos minguarem a cada ano. Por demagogia, o governo aumenta o salário mínimo acima da inflação e corrige os outros benefícios, sobretudo dos aposentados, rigorosamente na inflação ou a nível menor que ela. Dentro de pouco mais de duas décadas, segundo os pessimistas, todos estarão nivelados por baixo. Receberão apenas o mínimo.
Algumas pessoas, ao longo de grande parte de suas vidas, contribuíram para o INSS sobre vinte salários mínimos. Era uma carga pesada, inclusive para as empresas. Depois esse teto caiu à metade. Os contribuintes não tiveram direito assegurado ao proporcional e nem a Previdência devolveu o que foi cobrados além do novo teto. E não adiantou lutar. A mesma Justiça que assegura para si e para os funcionários do serviço público todos os direitos adquiridos, negou-os à massa imensa dos trabalhadores da iniciativa privada.
Esse é o governo do PT. O mesmo governo do mensalão, dos incontáveis escândalos de corrupção e que paga milhões para que o dinheiro público, o meu e o seu,  custeie reformas milionárias nos apartamentos funcionais de deputados federais e senadores, que terão até banheira de hidromassagem. Eles que já ganham quinze salários gordos por mês, contra treze magros do outro Brasil. Nessa "Belíndia" em que vivemos, a "Bélgica" a cada dia que passa aumenta mais sua distância financeira em relação à "Índia",
Os servidores da Petrobras, uma das empresas públicas que melhor pagam no Brasil, um belo dia resolveram protestar contra as aposentadorias deles e ficaram sem roupas diante da sede da empresa. Mas pelado de barriga cheia é uma coisa. Nu que não tem dinheiro sequer para comprar roupas e é obrigado a se alimentar do que pode e não do que quer comprar, outra muito diferente.
Não é esse o Brasil que construímos para nossos filhos!    
    

12 de janeiro de 2013

Chávez vai governar do céu! Ou do inferno!

Suposta foto de Hugo Chávez morto. Não se sabe se é real nem o autor
Relutei em escrever esse texto, pois jornalistas se apegam aos fatos. Sei disso sobejamente. Mas como muita gente está pensando como eu, vamos lá: Hugo Chávez está morto e embalsamado em Cuba, aguardando a hora ideal para "morrer" oficialmente e ser transportado para seu país. Se por ventura eu estiver errado e os fatos vierem a me desmentir, peço desculpas antecipadamente. Mas pensar assim não é imaginar algo insólito.
A foto do texto vem da Argentina onde um jornal deu essa notícia. Pode ser claramente montagem feita a partir de foto real, pois esse tipo de falsificação de imagem é hoje produzida de forma quase perfeita. E se não é, seria o caso de saber como quem fotografou conseguiu entrar no hospital e fazê-la, com tanta clareza assim.
Mas há indícios da morte do presidente da Venezuela. Quando, depois da cirurgia, o hospital informou por meio de nota que haviam surgido várias complicações no quadro de saúde do presidente venezuelano, o seu colega cubano Raul Castro foi até a residência de Fidel Castro e, em seguida, os dois se dirigiram ao hospital. Perguntado sobre porque estava ali, Fidel disse ter ido se despedir de um camarada que considerava como irmão. Nessas situações a gente só se despede de moribundos ou cadáveres. Velórios servem para isso. Não tem sentido se despedir de quem vai sair do hospital.
Além disso, Cuba depende hoje quase tão umbilicalmente da Venezuela, como dependia da União Soviética antes de seu desmembramento. A falta de Chávez vai provocar um vazio difícil de ser preenchido. E a ele se seguirá grande instabilidade política naquele país. Como os venezuelanos vão resolver esse problema ainda não está claro. Mas terão de enfrentá-lo. E será difícil fazer isso com Nicolás Maduro, um vice-presidente que não foi eleito. Ou ele será um gênio político daqui para a frente, ou então é bom lembrar que as coisas (e pessoas, por que não?) ficam podres depois de ficarem maduras.
Mas Chavéz é um caso quase único na política latino-americana. Os venezuelanos o amam e o odeiam tanto, que vão querê-lo "governando" do do céu ou do inferno. Com Simon Bolivar ao lado.                  

5 de janeiro de 2013

Como o macaco no galho

Guarapari, balneário mais conhecido do Espírito Santo, não tem prefeito. O que venceu a eleição, Edson Magalhães, é acusado pela Justiça Eleitoral de estar tentando seu terceiro mandado. Além disso, pesam outras acusações contra ele, mas a que determinou sua impossibilidade de ser empossado reside no fato de ele haver substituído o prefeito anterior, cujo mandado foi cassado, e depois ter sido eleito. Como tentou novamente, para todos os efeitos pretendia ser uma espécie de Hugo Chaves municipal.
Mas esse nem é o ponto principal. Magalhães era filiado ao PPS. Com a marcação das novas eleições, e para poder (?) apoiar seu antigo vice, Orly Gomes, que é do DEM, se desfiliou do partido de origem e passou a ser o mais novo "Democrata" capixaba (Democratas são, em muitos casos, ex-colaboradores da ditadura militar que mudaram de nome). Oportunismo de última hora, política em proveito próprio ou de grupos, é uma constante na vida pública desse nosso pobre Brasil, sobretudo nos últimos 20, 30 anos. É irônico, mas depois da ditadura.
O PPS, Partido Popular Socialista, é o atual nome do antigo Partido Comunista Brasileiro, o PCB ou Partidão. A sigla foi trocada numa convenção nacional, por maioria, de modo que a decisão não pode ser questionada. Questiona-se o que surgiu daí: um partido político como todos os outros, habitado por grande maioria de ativistas de carreira, sem ideologia alguma, em alguns casos meros oportunistas e, como mostra o exemplo citado, capazes de pular de galho em galho no sabor de interesses corporativos. São como macacos. Eles usam a força das pernas e o equilíbrio do rabo em busca de comida.
O Partidão tem história. Bela história! Como pode ser visto na ilustração dessa matéria, na festa dos seus 90 anos, no ano passado, a sigla atual convivia com a marca da foice e do martelo, representante do trabalho no socialismo de Estado. O Partidão foi uma grande legenda na luta contra a ditadura militar que infelicitou o Brasil de 1964 a 1985. É triste vê-lo agora como está, caçando cargos e fazendo alianças com pessoas e legendas, algumas de aluguel, e praticamente todas sem vínculo algum com seu passado idealista.
Aqui no Espírito Santo o PPS está ainda mais desfigurado. Suas lideranças regionais, a partir do presidente Luciano Rezende, atual prefeito de Vitória, foram aos poucos alijando do processo decisório praticamente todos os velhos militantes. Comunistas históricos deixaram de ter voz. Socialistas, mesmo social-democratas, não fazem mais parte do diretório. Não se aceita quem contesta. A decisão de um pequeno colegiado, um grupelho, é lei para todos. Reclamou, deixa de ter peso no Partido. Passa a ser nada.
É uma pena que meu velho Partidão desça a escada. O atual prefeito de Vitória foi eleito em outubro passado com um lema dizendo, dentre outras coisas, que aquela era a opção da mudança. Sua propaganda berrava: "Muda Vitória!". Alguns entenderam o recado em todas as suas nuances. Edson Magalhães já mudou!                    

1 de janeiro de 2013

Dilma e o pote de ouro

Arco-íris de 1º de janeiro em Vitória. No final dele há um pote de ouro!
Depois de muitos dias de calor abrasador, o ano novo amanheceu hoje em Vitória (ES), nesse 1º de janeiro de 2013, com o céu nublado, temperatura agradável (25 graus centígrados) e um belo arco-íris no céu. Ele "andou" para a esquerda e foi embora depois de deixar algumas pessoas com água na boca.
Não deve, claro, ter sido visto em Brasília onde a maioria estava de ressaca, dormindo até tarde depois da festança do final do ano. Afinal, como diria minha avó materna de tão saudosa memória, "todos somos filhos de Deus".
Mas existem os que são mais filhos do que nós. Um deles é a presidente(a) Dilma Roussef. Li um dia desses que ela manda buscar, se não me engano em São Paulo, o cabeleireiro que faz com que suas madeixas fiquem mais apresentáveis. O sujeito é pego em casa ou no trabalho, levado ao Aeroporto de Congonhas (imagino que seja vôo de carreira), embarca para Brasília. Vai possivelmente de taxi ou veículo oficial até o Palácio da Alvorada, trabalha os cabelos presidenciais, possivelmente almoça ou janta muito bem, recebe pelo trabalho e é levado de novo até o aeroporto de Brasília. Estamos quase no fim: então ele voa de novo para São Paulo, de onde é levado para seu trabalho ou sua casa. TUDO COM O DINHEIRO DA GENTE! Sim, porque a digna presidente não paga contas. Tem cartão corporativo.
Sugiro, inspirado na bela imagem do arco-íris e como para homenagear o inicio do ano, que a presidente(a) ou um de seus assessores, tente achar o final do belo espetáculo. Consta que lá há um pote de ouro e com ele muitos penteados poderão ser feitos com todas as despesas pagas. Alguns dizem que isso não passa de uma lenda. Mas não custa tentar. Só uma coisa: como o final do espetáculo da refração luminosa pode ser muito longe, não vale fazer a viagem com dinheiro público. Tem que ser brincadeira de final de semana.
E vamos em frente!        

26 de dezembro de 2012

O ano do "pibão"?

2012 está terminando tal qual começou. E não podemos dizer que, apesar de todos os indícios, temos motivos para imaginar um ano novo mais feliz, mais limpo que o atual.
Em uma de suas últimas entrevistas dadas, como sempre de passagem, a presidente Dilma Roussef prometeu aos brasileiros um "pibão". Ela quer dizer um PIB grande, daqueles capazes de fazer a alegria do povo e a felicidade geral da Nação. Mas os indícios não são nada bons. A começar pelo fato de que os aposentados,  pelo segundo ano seguido, vão receber um reajuste abaixo da inflação. Vão perder poder aquisitivo. Um pouco acima desta inflação recebem os que ganham salário mínimo. Pelo visto, em algumas décadas todos estarão nivelados por esse mínimo que já representou algo digno e agora está valendo um quarto do que seria necessário para manter uma família de quatro pessoas durante 30 dias, sem maiores apertos. Com um mínimo de conforto.
Eu digo uma família de aposentados pela Previdência Social. Porque as dos servidores públicos, sobretudo aqueles próximos ao poder vai muito bem, obrigado.   
Quando falei dos indícios no primeiro parágrafo, referia-me ao Supremo Tribunal Federal. Embora com todos os esforços despendidos até o momento, continua a todo vapor o esforço para que os corruptos do mensalão não sejam punidos. Políticos seguem fazendo do dinheiro público uma festa particular em seu benefício, como sugerem as duas fotos ilustrativas, e os trabalhos do Congresso Nacional pouco apresentam de consistente. De bom. De digno de nota. Principalmente, de digno da montanha de dinheiro que os congressistas ganham com vencimentos e penduricalhos.
Exemplo disso foi a pantomina da ameaça de votação de mais de três mil vetos presidenciais que se encontravam engavetados faz muito tempo. Além de mostrarem que não trabalham, não cumprem seus deveres constitucionais, aqueles para os quais foram eleitos, os membros do Parlamento ainda deixaram claro seu descaso para com o dinheiro do contribuinte: gastaram mais de 400 mil páginas de papel A4 e "fabricaram" diversos arremedos de urnas para mostrar que são palhaços de quinta categoria. 
A presidente dá entrevistas de passagem, respondendo em frases curtas, porque sabe que as perguntas tendem a se aprofundar. E ela não quer ser pressionada, ser colocada contra a parede e ter de falar sobre as pressões que sofre para trocar favores por cargos públicos.
Por isso o Congresso Nacional encerrou os trabalhos de 2012 sem votar o orçamento da União. Embora mudar contratos firmados para uso do dinheiro dos royalties do pré-sal seja uma agressão ao bom senso, agride mais ver o Parlamento deixar um país sem ter como empregar seus recursos em favor da população num início de ano. Em um início de ano de "pibão", como diz a chefe de Estado.
Tomara o ano novo nos traga algo de realmente novo. Trabalho em favor do interesse público e para a construção de uma sociedade mais justa já seriam um bom começo.
Feliz ano novo a todos. A gente volta, se tudo der certo, em 2013.          

20 de dezembro de 2012

O dia de amanhã...

Uma anedota diz que certo ditador chamou seus assessores e determinou a eles que construíssem estradas de péssima qualidade e com comissão de 50 por cento; casas da mesma forma com comissão idêntica; escolas com salas de aulas exíguas e comissão de 60 por cento; hospitais de quarto mundo, sem recurso algum e comissão de 70 por cento. Finalmente, um presídio de alto padrão e com todo o conforto possível, com base nos da Noruega (veja na foto uma cela do presídio que o inspirou) e comissão zero. Um dos assessores, tremendo de medo, perguntou o motivo desse, digamos, disparate.
- A gente nunca sabe do dia de amanhã - respondeu o ditador.
Os mensaleiros cujas prisões foram pedidas pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ou não conhecem essa piada ou imaginavam que a impunidade teria vida eterna no Brasil. É muito provável, hoje, que tenham se enganado. Caso contrário, os meios de Comunicação teriam noticiado largamente o "Minha Prisão, Minha Vida", do Governo Federal. Foram oito anos de Governo Lula e mais dois de Dilma, uma década no total, para a obra ser feita. Não a fizeram, coitados! Em vez disso, preferiram subornar, sabotar adversários e permitir uma festança de roubos como a que aconteceu nas ferrovias federais, para ficarmos em apenas um exemplo.
Roberto Gurgel pediu a prisão imediata dos condenados no processo do Mensalão. O procurador-geral da República é um patriota. Como há outros revelados por esse processo. E desse tipo de gente o Brasil necessita. Por esse tipo de gente os brasileiros clamam há muito tempo.
O ex-presidente Lula prefere chamar de "vagabundos" os que o atacam. Mas não são, afora poucos. Os vagabundos estão, na maior parte dos casos, ao lado dele. Um parlamentar, por exemplo, disse recentemente: "Mexeu com o presidente Lula, mexeu comigo!" E todos nós sabemos o motivo. Todos nós sabemos que tipo de favores esses homens recebem. De que tipo de omissões se beneficiam. E quem vive perto de tantos vagabundos...
Todos devem cumprir suas penas, sim. Todos são criminosos condenados pela mais alta corte de Justiça do Brasil. E se alguém reclama, para beneficiar os condenados em regime semi-aberto, que não há vagas disponíveis para tal penalidade em nossas instituições prisionais, basta responder a esse argumento com uma única pergunta: que ladrão de galinhas desse Pais tem essa opção?    

17 de dezembro de 2012

Reaja Brasil!

A linda obra de Oscar Niemeyer merece o que estão fazendo com ela?
A Câmara Federal disse, por intermédio de um de seus membros, que vai estudar se cumpre ou não a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que condenou por corrupção e depois determinou a cassação dos mandatos de três deputados federais. Já o presidente do Senado, José Sarney, vai recorrer contra a decisão do ministro Luiz Fuks, do mesmo STF, tornando sem efeito uma decisão parlamentar que modificava regras da divisão dos royalties do Petróleo, alterando contratos firmados e já em vigor.
Oscar Niemeyer, morto recentemente, amava suas obras. Dentre elas, o belíssimo prédio do Legislativo Nacional, em Brasília, aqui retratado em foto noturna. Durante a ditadura militar ele foi o foco de resistência contra a prostituição da vida nacional provocada pelo estupro de nossa Constituição. Passados não tantos anos, será possível imaginar que aquele foco de resistência, de defesa dos valores democráticos e republicanos, tenha trocado de lado? Prostituição bem paga é coisa tentadora!
Construímos nosso país como Estado de Direito a duras penas. E a luta custou a vida de muitos brasileiros dignos. Alguns eram membros do Poder Legislativo, como o deputado Rubens Paiva. Desde a Constituição de 1988, quando o saudoso Ulisses Guimarães disse que "a sociedade é Rubens Paiva, não os canalhas que o mataram", imaginava-se que esse espírito estivesse impregnado no Legislativo.
Está bem: muitos dos que estão lá estavam com a ditadura, que então apelidavam de "revolução", entre 1964 e 1985. A esmagadora maioria hoje troca votações por vantagens. "Base aliada" por cargos de primeiro, segundo ou terceiro escalões. Ou outros danos mais. Mas a maioria dos brasileiros seria capaz de jurar que o Legislativo não chegaria ao ponto de tentar prostituir as bases do Estado de Direito. Mas está tentando porque, se queremos um Judiciário de fachada, queremos o reino da ilegalidade.
No passado, entre 1964 e 1985, os brasileiros lutaram pela restauração das bases constitucionais de seu País. Depois disso, foram às ruas derrubar constitucionalmente um presidente acusado de corrupção. Agora talvez seja a hora de a luta retornar. Entre vivermos num Brasil que não seja o império da lei e, em vez disso, encharcarmos os pés de barro desse poder que se esconde por trás de uma fachada falsa, mil vezes a segunda opção. Ao menos ela carrega consigo a dignidade que a primeira rejeita. Reaja Brasil!                

27 de novembro de 2012

Dízimo com quem andas...

Vira e volta surge um escândalo envolvendo as chamadas "confissões evangélicas" ou "neo pentecostais". Na Grande Vitória isso aconteceu pela segunda vez esse ano envolvendo a Igreja Cristã Maranata. Houve batida policial, recolhimento de computadores e documentos e suspeitas sérias de desvio de dízimos para compra de imóveis, remessa de dividendos ilegalmente ao exterior e até mesmo de utilização de notas fiscais frias.
Não há nada mais fácil do que criar uma igreja no Brasil. Depois, basta envolver incautos. Em seguida, pedir isenção fiscal total. Então roubar. E roubar muito, preferencialmente. Os escândalos e processos são tantos e as igrejas ou seitas acusadas em tal número que é incrível entender como os fieis dessas denominações continuam frequentando cultos e outras atividades, além de pagar seus dízimos mensalmente.
Mas o pior não é isso. Somos um Estado Laico. Significa dizer que não somos um Estado ateu, mas tampouco temos religião oficial. E isso determina distanciamento entre religiões e poder público, sobretudo e principalmente no que diz respeito a dinheiro. Mas somente no papel. Porque na prática políticos formam blocos religiosos acima dos partidos, defendem abertamente leis que beneficiem as suas igrejas (ou seitas) preferidas, bem como pressionam para aprovar ou vetar leis ao sabor de crenças, de dogmas.
Vereadores, deputados e senadores não têm o menor pudor em destinar às suas "confissões" o dinheiro do contribuinte. Por intermédio das tais emendas parlamentares, direcionam grandes somas de valores que deveriam ser destinados a saúde, educação, mobilidade urbana, geração de emprego e renda, habitação, segurança e outros tantos destinos nobres, ou para essas instituições ou a entidades criadas e ligadas a elas. Não raro esse dinheiro desaparece. Grande parte dele vai parar em paraísos fiscais.
Uma vez perguntei a uma pessoa ligada a um deputado capixaba que desvia (esse é o termo correto) dinheiro para a Maranata via emendas parlamentares e premia instituição a ela ligada, os motivos de ele fazer isso além do claro intuito de criar um rural eleitoral teológico. Trata-se de uma entidade que teoricamente distribui remédios para carentes. A resposta foi: "Mas o Governo não faz isso..." É um escárnio de justificativa. A tarefa constitucional do deputado, como de resto de todos os membros do Poder Legislativo, é fazer com que o Estado cumpra a Constituição. Principalmente no que toca a saúde. Mas, claro, fica muito mais fácil se omitir e ajudar essa corja a roubar.
A Maranata tem uma instituição a ela ligada e que, teoricamente, deveria cuidar da saúde dos outros. Chama-se Fundação Manoel Passos Barros. Tem sede imponente no Espírito Santo e recebeu, nos últimos anos, cerca de R$ 1.800.000,00 em dinheiro de emendas parlamentares de quatro deputados estaduais capixabas, mais R$ 300.000,00 do deputado federal Carlos Manato (PDT) e mais R$ 230.000,00 repassados por secretarias de Estado do governo capixaba.
O  campeão estadual das emendas é o deputado Elcio Alvares (DEM), membro da "confissão" e convertido em época relativamente recente. Ao longo dos anos, em dois mandatos, desviou para a Maranata R$ 860.000,00 do meu e do seu imposto, leitor (ganhou fácil de Aparecida Denadai, Geovani Silva e Jurandi Loureiro, outros "doadores"). Trata-se de um parlamentar que faz "democracia" com dinheiro alheio. Esse ano, talvez assustado com a repercussão, tirou a seita de sua preferência das próximas transferências de dinheiro público. Agora vai ajudar na construção de campos de futebol...         
Está na hora de a Nação reagir. Se somos laicos constitucionalmente, deve ser considerado ilegal, inconstitucional, dinheiro público ser destinado a igrejas e, principalmente, a seitas criadas em fundo de quintal ou como dissidências de outras e que viram meio de vida para espertalhões. O Supremo Tribunal Federal deve ser acionado. Cabe a ele zelar pelo respeito às normas constitucionais.            

17 de novembro de 2012

A "descoberta" do ministro

Presos se espremem em cadeia. O ministro viu isso agora?
Há séculos sabe-se que o Brasil mantém seus presos em condições sub-humanas. Isso não é novidade, nem o é o fato de que as autoridades nada fazem para modificar esse quadro. Afinal, uma das funções da prisão é recuperar o criminoso, não importa que crime cometeu, para o convívio com o restante da sociedade. Terminada a pena ele recupera seus direitos de cidadania e deve, ou deveria, fazer isso em condições de voltar a ser um indivíduo apto a viver juntamente com o restante de sua comunidade.
Dessa forma, é difícil entender como e porque o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, fez um discursos dizendo que preferia morrer a passar uma temporada em nossas piores prisões. Digo que é difícil entender caso esse desabafo tenha nascido de forma espontânea. Caso contrário, fica fácil: ele falou isso justamente quando alguns dos cardeais do PT, diretamente ligados a altos cargos durante o Governo de Lula, correm o risco de conhecer pessoalmente nossas melhores e piores prisões.
O PT tem se insurgido contra os julgamentos do STF. Contra o caso do Mensalão. O Governo, que é desse partido, não se manifesta repudiando os atos praticados pelos condenados. Há uma indisfarçável tentativa de evitar que eles tenham de cumprir pena em regime fechado e isso tem sido visto em várias esferas de poder e em manifestações que ocorrem em todos os níveis da administração política brasileira ligada ao PT.
Um dos argumentos usados é o de que pessoas com passado de lutas de José Dirceu não podem ser tratadas como gente comum. Podem sim. Se o sujeito decide rasgar sua biografia e jogá-la na lama, isso é problema dele. Não se julga o passado de lutas de ninguém, mas sim atitudes espúrias praticadas. Se as pessoas se deixam corromper pelo poder, devem responder por isso. Na forma da lei.
O mais desconfortável nesse episódio nem é o fato de a manifestação do ministro ter sido suspeita. O que agride o bom senso é todos nós termos a mais absoluta certeza de que a "constatação" dele não vai mudar o quadro, pelo menos em prazo curto. Para tanto, seria necessária uma vontade política que não existe. Afinal, presos têm os direitos políticos suspensos enquanto durar a pena a cumprir. E quem tem seus direitos políticos suspensos não vota. Por que então se preocupar com eles?            

14 de novembro de 2012

Quem liga para isso?

O lindo vagão restaurante do Trem de Prata que ligava Rio/SP
Lembro-me como se fosse hoje: em vez de um vôo direto de Vitória para São Paulo, comprei certa feita passagem para o Rio de Janeiro. Do Aeroporto Santos Dumont fui para a estação ferroviária e embarquei na Primeira Classe do Trem de Prata ou Trem Húngaro, que ligava aquela cidade a São Paulo. Queria passar a noite no "comboio", como dizem os portugueses, fazendo a viagem que muitos homens de negócios usavam para poder ir de uma cidade para a outra resolver pendências relativas a dinheiro, indo a voltando sem precisar pagar hotel porque o trem fazia a viagem entre 23 horas e 07 da manhã seguinte.
O beliche da Primeira Classe servia de hotel. Corri aquilo tudo. Era um trem simpático, romântico, relativamente lento mas cheio de charme, principalmente no vagão restaurante. E ainda havia a hipótese de se dormir um pouco mais, pois quando ele chegava a São Paulo ou ao Rio ainda aguardava pelo acordar dos passageiros.
Lembrei-me disso vendo uma série de reportagens do Jornal Hoje, da Rede Globo, sobre transporte ferroviário. Na primeira delas foram mostrados os cerca de sete quilômetros de vagões e locomotivas abandonados, além de estações ferroviárias que viraram ruínas fantasmagóricas Brasil afora. Resta apenas a ligação diária Vitória/Belo Horizonte (ou vice versa) como uma linha regular de trens para passageiros no Brasil.
Muita gente diz que é um absurdo e uma burrice um país como esse não investir em transporte ferroviário. Concordo: é um absurdo. Mas não se trata de burrice. Trata-se de um crime contra o Brasil, praticado a partir de meados da década de 1950, quando as linhas férreas já estavam defasadas, necessitavam de ampliação e modernização, mas a vinda para o Brasil de montadoras de veículos fez com que o Governo Federal investisse maciçamente em rodovias e deixasse toda a malha ferroviária nacional sucatear. Restou apenas o transporte de carga, em poucos troncos que ainda funcionam tocados pela iniciativa privada.
Essa opção enriqueceu muita gente. O sucateamento das linhas ferroviárias brasileiras foi um atentado contra o Brasil. Mas quem liga para isso? Agora mesmo estamos convivendo mais uma vez com escândalos, pois a construção da ferrovia que deveria interligar o Nordeste ao Centro do Brasil é um caminho por onde o dinheiro público abasteceu o bolso de um grande número de ladrões graças a instituições como a Valec.
Aliás, o dinheiro público sempre enriqueceu bandidos nesse país. O faz agora nas obras paradas da transposição do Rio São Francisco. Um mar de água doce de dinheiro já foi gasto sem que uma gota de água real passasse por aquelas calhas imensas. Enquanto isso acontecesse, o nordestino perde lavouras, gado e as poucas esperanças que restam.
Mas quem liga para isso?     
   

11 de novembro de 2012

A Festança das Seitas

- Prefeito, como o senhor pretende administrar sua cidade?
- Em primeiro lugar agradeço a Deus pela minha eleição. Tenho certeza de que com o apoio Dele, com Sua força, saberei fazer os que meus conterrâneos esperam de mim!
Você já ouviu isso, leitor? Quantas vezes? Se não houve como contar - e eu também não contei as minhas vezes -, pode saber que foram milhares. Porque não se trata de fé, embora ela às vezes esteja presente em alguns discursos de candidatos. Isso é uma tática e uma técnica. Usa-se essa tática e essa técnica para ganhar eleições. Municipais, estaduais ou nacionais, tanto faz.
Procure se recordar das agendas dos candidatos. Lembrou-se? Sempre tem "reunião com a igreja A", "debate na igreja B", "participação no culto da igreja C", "demonstração de fé na igreja D". E vai por aí. A cada eleição praticamente todas as igrejas, sobretudo seitas, recebem os candidatos. Agora mesmo nós vimos isso acontecer nas eleições municipais.
E não é só isso. Desconheço um percentual, mas inúmeras candidaturas foram compostas com a participação de representantes de seitas evangélicas, conhecidas com o pomposo nome de "confissões neo-pentecostais". Em Vitória, Espírito Santo, o candidato vencedor, Luciano Rezende, do PPS, o atual nome do antigo PCB ou Partidão, recorreu a esse expediente. Seu vice é neo-pentecostal. Dentre seus apoios estão várias "confissões". Em alguns casos, com desvios de dízimos e outras coisas mais.
O que faz um prefeito? Administra uma cidade. E administrar uma cidade não quer dizer atender a reclames desta ou daquela corrente religiosa. Esse atendimento muitas vezes representa ceder a pedidos que atentam contra o interesse público. Em todo o Brasil, cresce como praga a quantidade de igrejas espalhadas pelas cidades. Na maioria dos casos são entidades novas ou "semi novas", fundadas com o claro intuito de enriquecer seus dirigentes. Alguns deles desfilam em aviões executivos de vários milhões de dólares. Muitos possuem mansões em outros países. Depósitos em paraísos fiscais. E problemas, muitos problemas, com o Fisco. Mas um ponto em comum eles têm: nenhuma dessas "entidades", podemos chamá-las assim, paga impostos. Os mesmos que penalisam o cidadão comum.
Geralmente as igrejas chamadas seculares não usam esse tipo de artifício ou recurso. Se o usam, fazem isso discretamente. E sempre mais para defender seus dogmas do que para conquistar favores do Estado. Afinal, quem ganha favores deve favores.
E os projetos de governo, aqueles que realmente interessam às populações? Esses são atendidos na medida do possível, depois de feito o butim dos cargos públicos para atender a essas correntes de apoio migratório. Em grande parte dos casos, nem sequer atendem ao interesse público. Mas continuam tendo um ponto em comum: como representam custos, esses custos são repassados aos contribuintes. Àqueles que não fazem parte das festanças das seitas.                 

7 de novembro de 2012

O horário político da TV

O poder, tomado por si só, não corrompe. Os que acreditam assim, ou querem se corromper ou então usarão facilidades legais para fazer conchavos, acordos que normalmente os homens de bem não fazem. E tudo isso com um único objetivo: chegar ao poder. Seja ele legislativo ou executivo, municipal, estadual ou federal. Isso pouco importa.
As últimas eleições municipais brasileiras deixaram mais uma vez à mostra uma aberração que permite os acordos mais espúrios possíveis e imagináveis: o tempo de TV na propaganda eleitoral gratuita - ou seria melhor obrigatória? Em busca de um tempo de exposição que é importante e pode ser a distância entre vitória e derrota, os candidatos a cargos majoritários fazem qualquer coisa. Até mesmo negociar alianças com políticos reconhecidamente corruptos, de partidos políticos de aluguel, para conseguir mais um minuto de exposição diante do público eleitor.
O desgaste do político brasileiro é evidente. Tomando-se somente Vitória, a Capital do Espírito Santo como exemplo, aqui, em números redondos, o candidato eleito prefeito teve cerca de 98 mil votos. O segundo colocado, 88 mil. E nada menos que 67 mil pessoas ou anularam os seus ou não votaram em ninguém. E o pior é que esse fato extremamente grave passou quase desapercebido.
O horário gratuito de rádio e TV é importante. Permite ao eleitor conhecer candidatos a fundo, em condições que seriam inimagináveis caso cada um deles tivesse que pagar por comerciais. O que mata são os conchavos. O tempo de TV e rádio deveria ser calculado apenas e tão somente de acordo com o peso político do partido do candidato a prefeito, governador ou presidente. E de forma a que cada um tivesse de 15 a 20 por cento do tempo total no mínimo. E partido que não tem representação no Congresso também deveria usar TV e rádio para propaganda gratuita. Isso acabaria com os acordos espúrios e com a existência de partidos sem razão para existir.
Acabaria com salvadores da Pátria e também com aqueles que imaginam governar numa democracia sem a estrutura dos partidos políticos, pois eles são a base dessa mesma democracia. Porque, paralelamente a todos os problemas que já temos, se um chefe de Executivo eleito tem a coragem - ou insensatez - de vir a público dizer que vai governar sem seu partido, ou ele é um novo tipo de demagogo dos mais baratos ou tem uma miopia política que só a decepção do eleitor poderá comprovar. 
Difícil fazer uma reforminha como essa sugerida para o horário gratuito? Claro que não. Basta o Congresso ter com essa questão a mesma disposição que têm seus membros quando se trata de decidir normas e textos legais em benefício próprio.